Kay Mellish: “É uma perda de tempo passar 12 horas a fazer um trabalho de oito” parentalidade e natalidade na Dinamarca

Junho 12, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista e foto do Observador a Kay Xander Mellish no dia 2 de junho de 2018.

Rita Porto

Sair cedo do trabalho para ir buscar os filhos, longas licenças de parentalidade, apoios à fertilidade. As políticas de natalidade e parentalidade explicadas por quem as vive na Dinamarca.

Marcar uma reunião na Dinamarca ou com alguma empresa sediada no país depois das três da tarde é impensável. Até pode tentar, mas não terá grande sucesso. Aliás, a probabilidade de encontrar quem quer que seja num escritório depois das 17 horas é praticamente nula. Por uma simples razão: a essa hora, os dinamarqueses, tanto as mulheres como os homens, já saíram para ir buscar os seus filhos.

O relato é de Kay Xander Mellish, uma norte-americana que trocou os Estados Unidos pela Dinamarca há 18 anos. O pretexto para mudar de continente foi um emprego, mas o motivo que a levou a ficar foi outro: “Acabei por ficar porque é um ótimo sítio para criar filhos. Não há competição, não há notas“.

Formada em Jornalismo e em História de Arte pela Universidade de Nova Iorque, a norte-americana fez trabalhos para órgãos de comunicação como o Wall Street Journal, The Guardian e The South China Morning Post. Na Dinamarca trabalhou em vários sítios até que decidiu criar a sua própria empresa, através da qual ajuda empresas dinamarquesas a melhorarem o seu inglês. É também autora de livros como “How to Live in Denmark” (“Como viver na Dinamarca”) — também um site e podcast — e “How to Work in Denmark” (“Como trabalhar na Dinamarca”), que servem de guia para os estrangeiros que querem mudar-se para o país.

Graças a esses trabalhos, tem viajado pelo mundo a dar palestras sobre a vida dinamarquesa. E foi também isso que a trouxe a Portugal para participar como uma das oradoras da conferência “Natalidade: Como fazer crescer Portugal?”. O Observador falou com a norte-americana para conhecer melhor o que se passa neste país do norte da Europa, em que as crianças são uma prioridade — para os pais, mas também para o Governo.

Como é criar um filho na Dinamarca? Quais são as principais diferenças em relação a Portugal?
Pelo que percebi, só de falar com portugueses, a grande diferença são as horas de trabalho. Em Portugal, geralmente, trabalha-se das nove da manhã às nove da noite e talvez não se seja assim tão produtivo. Convenhamos, não se consegue ser muito produtivo durante 12 horas.

Quantas horas se trabalha na Dinamarca?
Na Dinamarca, o dia de trabalho são sete horas e meia e as pessoas cumprem à risca. Se começam a trabalhar às 8h00, saem às 15h30 e é considerado normal um trabalhador, tanto do sexo masculino como do sexo feminino, dizer: “Tenho de me ir embora, tenho de ir buscar os meus filhos”. Portanto, quando aconselho os estrangeiros que vêm fazer negócios na Dinamarca, digo-lhes para não marcarem reuniões para depois das três da tarde, porque as pessoas não vão poder estar presentes, têm de ir buscar os filhos. E se forem a um escritório às 17h00, não está lá ninguém, as pessoas foram para casa. Algumas pessoas podem ligar-se a partir de casa, à noite, e trabalhar. Não é que não trabalhem, mas o trabalho deles é muito focado num curto período de tempo. Por exemplo, as horas de almoço são de meia hora. 30 minutos e é na cantina do escritório. Não se vai à rua para almoçar com um amigo ou algo do género, isso não se faz. Há estas sete horas e meia em que se está concentrado e isso permite que as pessoas tenham mais tempo para a família.

“97% das crianças vão para as creches do Estado, incluindo as crianças da família real”

Além da flexibilidade nos horários, a Dinamarca tem outras políticas que promovem a parentalidade. Todas as pessoas com filhos recebem um subsídio do Estado todos os meses até o filho atingir a maioridade e, caso a criança esteja doente, podem ficar mais do que um dia em casa com o filho. O Governo organizou também um sistema, apelidado de “grupo de mães”, em que se juntam entre quatro a seis jovens mulheres para se apoiarem mutuamente.

Kay Xander Mellish destaca ainda os jardins de infância públicos, locais onde as crianças aprendem a brincar em vez de serem inseridas desde cedo num “local académico”. Na Dinamarca, há mesmo um tipo específico de jardins de infância, em que as crianças passam o dia na floresta.

Que género de políticas é que há na Dinamarca que promovem a natalidade e a parentalidade?
Uma delas já falámos: as horas de trabalho. Outra das coisas que as pessoas podem fazer na Dinamarca, além de saírem a horas, é poder tirar o dia se o filho estiver doente e ficar com a criança em casa. Há quem consiga tirar cinco dias, mas normalmente tira-se apenas um ou dois dias. Há também o sistema de jardins de infância do Governo.

Como funciona?
Começa quando a criança tem cerca de 12 meses e continua até ela ir para a escola. E não são locais académicos, em que as crianças têm de aprender as letras do alfabeto. São sítios designados de “free play” [com maior liberdade], em que se aprende a conviver com as outras pessoas. Portanto, se for um homem ou uma mulher com um emprego, deixa a criança por volta das 7h00/7h30 no jardim de infância, vai trabalhar às 8h00. Por volta das 15h30/16h00, regressa para ir buscar a criança e como tem mais tempo livre, é mais provável que consigam cozinhar uma refeição do zero juntos. Se está em casa por volta das 16h00 e janta às 18h00, talvez tenha tempo para fazer uma sopa. A pessoa não está tão stressada e a correr de um lado para o outro. E todos frequentam estas creches: 97% das crianças vão para as creches do Estado, incluindo as crianças da família real dinamarquesa. Não pôr a criança no jardim de infância é considerada uma má decisão dos pais.

Em Portugal, ainda é frequente as crianças ficarem com os avós…
As únicas pessoas que fazem isso são geralmente imigrantes e a avó quer ter alguma coisa para fazer, então não põem a criança no jardim de infância. Mas tem havido problemas graves com isso porque depois as crianças não aprendem bem a língua dinamarquesa e quando começam a escola, estão muito atrasadas. É por isso que estão a pensar tornar obrigatório pôr as crianças no jardim de infância. Esta é uma política do Governo que eu acho que funciona muito bem. E eles têm um ótimo tipo de jardins de infância chamado ‘forest kindergarten’ [jardim de infância na floresta, numa tradução livre]. É muito popular para os rapazes, mas também para as raparigas. Os pais deixam as crianças no jardim de infância, elas entram num autocarro e são levadas para passarem o dia na floresta. Todo o dia, faça chuva ou faça sol. As crianças aprendem imenso sobre a natureza, as coisas boas e as coisas más — não romantizam a natureza. É perfeito para os rapazes porque eles têm imensa energia e podem correr de um lado para o outro, mas algumas raparigas também iriam gostar.

As crianças acabam por não ficar fechadas numa sala de aula…
Exato, isso não acontece durante muito tempo. As crianças nem sequer têm notas até terem 13 ou 14 anos.

Isto foi sempre assim ou foram políticas introduzidas recentemente?
O Estado social dinamarquês surgiu depois da II Guerra Mundial: como precisavam das mulheres a trabalhar, era preciso alguém para tomar contas das crianças. Foi assim que surgiu o sistema das creches. As pessoas são muito independentes na Dinamarca, os avós têm as suas próprias vidas, não ficam a tomar conta dos netos. Podem ir buscá-los de vez em quando. Ou seja, a ideia era o Estado intervir e ajudar. As pessoas confiam muito no Estado, pagam impostos muito altos, mas estão dispostos a isso porque vêem o retorno. Nos Estados Unidos, por exemplo, também se pagam impostos altos, mas nem sempre se vê o retorno. Aqui vê-se porque há um nível muito baixo de corrupção. Vê-se que grande maioria do dinheiro é gasto em hospitais, em assistência infantil e as pessoas estão dispostas a investir nisso.

Fertilidade: o apoio do Estado e o benefício dos dadores anónimos

O Governo dinamarquês também promove a natalidade através de apoios à fertilidade. Aliás, um em cada 12 nascimentos no país resulta de tratamentos de fertilidade, sendo que a maioria se realiza através de apoio estatal. Todos têm acesso a estes apoios e existe um programa específico para as mulheres solteiras e para as mulheres homossexuais engravidarem com dadores de esperma — há muitas mulheres de outros países que vão de propósito à Dinamarca para fazerem estes tratamentos. Na Dinamarca, os dadores são anónimos e o Governo ainda dá uma bolsa isenta de impostos em troca da doação de esperma.

A Dinamarca também tem apoios no que toca à fertilidade.
Sim, é verdade. O Governo dá apoio se se tratar de uma mulher solteira e quiser ter um bebé sozinha. Ou se for um casal de lésbicas a querer ter um filho. Acho que isso não acontece tanto com os casais gays. No caso de um casal heterossexual que está a ter dificuldades em engravidar, o serviço de saúde paga a fertilização in vitro e a inseminação artificial. Há muitos dadores de esperma em Dinamarca, [o país] é dos maiores exportadores de esperma. Uma das razões é o facto de o dador poder ser anónimo.

O anonimato não é um problema?
Não, de todo. Claro que há sempre algumas pessoas que dizem coisas, mas há milhares e milhares de dadores na Dinamarca. É uma ótima forma de os jovens ganharem dinheiro, são 100 euros por sessão. Por quanto tempo? 15 minutos? É capaz de fazer mil euros por mês, portanto é algo muito popular. Como é anónimo, arranja-se uma amostra de jovens de “alta qualidade”: estudantes de medicina, direito, carpinteiros, homens inteligentes. Quando não é anónimo, muitas vezes os dadores são homens que chegam aos 42 anos e que estão deprimidos por não terem uma mulher. É uma “qualidade” diferente.

O Governo dinamarquês promove muito a natalidade com todas estas políticas. É um fenómeno cultural ou há alguns governos que investem mais nestas políticas?
Acho que é cultural, a Dinamarca é um país “child friendly” [é um bom país para as crianças]. Uma coisas que disse na minha apresentação é que é possível levar uma criança a um bom restaurante. Desde que ela esteja bem comportada, é bem-vinda. Na Alemanha, por exemplo, já torcem o nariz. As pessoas gostam genuinamente de crianças, portanto sentem-se mais à vontade para levar uma criança para esse tipo de ambientes. E isto não é uma questão religiosa, as pessoas não estão a ter mais filhos por acharem que têm de o fazer por uma questão religiosa, como dizem que pode estar a acontecer em Israel, mas as igrejas têm-se envolvido nesta questão: têm aulas de música para bebés, por exemplo. Como os pais estão um ano sem trabalhar, têm muito tempo livre e não querem ficar parados durante todo aquele tempo. Por isso, há uma série de aulas para bebés [independentes da igreja] de música, de natação, sessões de cinema para os bebés — são muito populares e acontecem normalmente por volta das dez da manhã. 

Licenças até cerca de um ano

O envolvimento dos homens dinamarqueses na vida doméstica vai muito além do tempo da licença de paternidade. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) — que mostram as horas que os homens e as mulheres dos países da OCDE, da China, da Índia e da África do Sul dedicam ao trabalho não pago (tarefas domésticas, compras, cuidar de adultos e crianças, voluntariado, entre outros)  –, a Dinamarca é o país onde os homens mais horas fazem neste tipo de trabalho — três horas e seis minutos –, sendo que as mulheres passam quatro horas e dois minutos do seu dia a fazer este género de tarefas. Já Portugal é o segundo país da OCDE onde as mulheres fazem mais horas de trabalho não pago, cinco horas e 28 minutos, enquanto os homens fazem apenas uma hora e 36 minutos.

Como funcionam as licenças na Dinamarca?
Quando se tem um filho na Dinamarca, a mulher tem quatro semanas de licença antes do nascimento e outras 14 semanas depois do nascimento. Os homens são obrigados a tirar duas semanas depois do nascimento do filho — é obrigatório — e depois os pais têm 32 semanas que podem dividir entre eles, mas as mulheres normalmente tiram mais tempo: a mulher talvez tire nove meses e o pai três. 

E recebem o salário a 100%? Não têm cortes?
Depende do sítio onde se trabalha. Se for uma empresa prestigiada, fazem essa oferta para ficar com os melhores trabalhadores. 

As empresas, mesmo assim, preferem contratar homens em vez de mulheres?
Tecnicamente não lhes é permitido fazer isso, mas com o sistema que está implementado — com a assistência à infância do Governo a partir dos 12 meses –, mesmo que a mulher decida ter um filho, ao fim de um ano ela está de volta. Portanto, se for alguém com um potencial a longo prazo para a empresa, seria escolhida de qualquer maneira. Na verdade, nunca se sabe quando alguém vai decidir ter filhos.

Então não é um problema?
Claro que as pessoas pensam nisso, mas sabendo que os homens também tiram licenças… Por norma, homens com um maior grau de diferenciação tiram pelo menos dois ou três meses e é visto como a coisa certa a fazerSe disser que não vai tirar tempo nenhum para estar com o filho, as pessoas ficariam a pensar mal dele. E não quero estar a estereotipar os homens portugueses e os homens dinamarqueses, mas os dinamarqueses foram considerados pela OCDE como os homens que mais trabalhos domésticos fazem em casa. Na Dinamarca, é considerado muito “macho” lavar a loiça e os homens gabam-se do tempo que passam com os filhos: empurrar o carrinho do bebé ou usar marsúpios.

Ou seja, não existe uma diferença de género…
Não, de todo. É uma coisa de “macho” andar com o filho. É como se dissessem: “Olhem o que eu fiz, eu consigo fazer isto”. E é considerado “fixe” exibir o tempo que se passa com os filhos.

Este papel ativo dos homens em casa na Dinamarca é algo recente?
É algo dos anos 70, com o movimento de libertação das mulheres. Mais: outra grande diferença que imagino que exista entre Portugal e Dinamarca são os salários. Na Dinamarca, os salários são tão elevados que as pessoas não têm ajuda doméstica. São poucas as pessoas que têm uma empregada ou uma cozinheira. Ou seja, para alguma coisa ficar feita, têm de ser as duas pessoas a fazê-la. E também o facto de as crianças passarem mais tempo com os pais faz com que, quando chegam aos 9 ou 10 anos, já cozinhem refeições.

Porque cozinharam com os pais…
Exatamente. E as crianças assumem maiores responsabilidades. Quando se passa mais tempo com os filhos, é possível mostrar-lhes como ser responsável. É assim que se faz. Eu diria que, na Dinamarca, toda a família faz a sua parte nas lides domésticas, porque é demasiado caro contratar alguém para o fazer. 

“É perda de tempo passar 12 horas a fazer um trabalho de oito horas”

Segundo dados do Eurostat, a Dinamarca é o único país da União Europeia onde, em 2017, os funcionários trabalharam menos de 38 horas por semana (37.8), sendo que as mulheres trabalharam 37.1 horas e os homens 38.3. Em Portugal, trabalhou-se por semana 41 horas: os homens fizeram 41.8 horas por semana e as mulheres 40.1. A média da UE é de 40.3 horas.

Apesar do pouco contacto que teve com a realidade portuguesa, Kay Xander Mellish não tem dúvidas do que mudaria: o excesso de horas laborais. Para a norte-americana, não faz sentido estar tantas horas no trabalho, quando é possível fazer-se o mesmo em menos horas.

Não sei se é a primeira vez que vem a Portugal…
É a segunda, mas a última vez que cá estive foi há muito tempo.

Qual foi a sua primeira impressão de Portugal? Ficou com alguma ideia de como seria a questão da natalidade ou de criar filhos cá?
Não, conheci apenas a parte turística, mas graças à conferência, percebi que Portugal está a passar por um desafio. Sei que muitos países do sul da Europa estão a passar por isso. Disseram que em Itália isso acontece porque o homem não faz a sua parte das lides domésticas, então uma mulher questiona-se como vai ter filhos quando tem um emprego a tempo inteiro e ainda cuida da casa e de um marido. Por isso é que acho que é tão importante que os homens não só façam a sua parte como o façam de boa vontade e não encarem isso como uma obrigação de ajudar a mulher.

Se pudesse mudar alguma coisa em Portugal, o que seria?
Diminuir as horas de trabalho. Menos horas de trabalho e mais concentradas. É uma perda de tempo passar 12 horas a fazer um trabalho de oito horas. Faça as oito horas de trabalho, passe as outras quatro a fazer outra coisa. Essas quatro horas podem ser passadas com a sua família.

 

 

 

 

Por que as crianças da Dinamarca são mais felizes?

Novembro 17, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Livros | Deixe um comentário
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Notícia do http://revistacrescer.globo.com/ de 6 de novembro de 2017.

Por Juliana Malacarne

No recém-lançado Crianças Dinamarquesas, autoras mostram que a maneira como elas são criadas talvez esteja por trás dos altos índices de felicidade do país nórdico. Veja como colocar tais descobertas em prática na sua casa também.

Abrir a janela de casa e encontrar a rua coberta de neve é uma visão comum para os dinamarqueses. Na maioria das cidades do país, que fica no norte da Europa em uma região conhecida como Escandinávia, as temperaturas ficam abaixo de zero no inverno. O clima pouco convidativo e a baixa incidência de luz solar, porém, não abatem o espírito do povo dinamarquês. Desde que a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OECD, na sigla em inglês) criou uma lista para eleger o país mais feliz do mundo, em 1973, a Dinamarca esteve em seu topo quase todos os anos. O que poderia explicar esse resultado? A terapeuta dinamarquesa Iben Sandhal e a psicóloga norte-americana Jessica Alexander apostam que a resposta está na maneira como as crianças dali são educadas.

Com base em pesquisas e observações cotidianas (Iben mora em Copenhague e Jessica é casada com um dinamarquês), as duas escreveram o livro Crianças DinamarquesasO que as Pessoas Mais Felizes do Mundo Sabem Sobre Criar Filhos Confiantes e Capazes (Ed. Fontanar, R$ 34,90). O livro descreve as atitudes de pais e mães daquele gelado país que geram resultados positivos sobre as crianças. E, o que é melhor, como aplicá-las em qualquer lugar do mundo. Em entrevista exclusiva à CRESCER, as autoras ressaltam a importância de elogiar os esforços dos pequenos, sem exagero, e sobre por que ensiná-los a ter empatia desde cedo, entre outras dicas. A seguir, destacamos alguns pontos da conversa.

Elas aprendem a ter empatia

A hora da brincadeira é uma ótima oportunidade também para transmitir lições de empatia, um dos pilares da educação dinamarquesa, de acordo com Iben e Jessica. É comum que surjam conflitos na convivência entre crianças pequenas. Mesmo assim, por aqui, quando o filho se queixa do comportamento de um dos colegas, a primeira reação dos pais é tirar satisfação, seja com a escola, seja com os pais do “briguento”, não? Outros acreditam que é “coisa de criança” e falam para o filho deixar para lá. Na Dinamarca, entretanto, as famílias preferem fazer com que as crianças entendam (ou ao menos tentem entender) as emoções do outro. Sendo assim, dizer: “Ele parece irritado, você sabe o que aconteceu?”, traz resultados melhores do que “Ele está com raiva de quê? Que ridículo!”. “Nem sempre as reações e emoções das crianças fazem sentido para os adultos, mas mostrando que as reconhece, você evita julgamentos e ensina seu filho a lidar melhor mesmo com os sentimento considerados ‘inapropriados’”, diz Jessica.

Elas recebem elogios “reais”

Isso não significa, porém, exagerar na positividade e aplaudir cada conta de adição que seu filho resolve corretamente como se estivesse em frente ao trabalho de um novo Einstein. “Se as crianças são constantemente elogiadas por serem naturalmente talentosas ou dotadas, passam a crer que sua inteligência é fixa e nada pode ser feito para modificá-la”, explica Iben.
Para evitar esse tipo de pensamento, o segredo é valorizar o esforço e não o resultado. Se você disser que um desenho que seu filho terminou rapidamente está incrível (mesmo que note que ele não tenha se concentrado nos detalhes), o elogio não trará nenhum benefício para a percepção que ele tem de seu próprio esforço. Uma saída melhor é perguntar sobre o desenho, ou seja, o que ele estava pensando ou sentindo quando decidiu fazê-lo. Diga: “Adorei como você manteve a concentração e o foco para deixar o desenho lindo”, em vez de “Uau, como você desenha bem!”.

Elas podem brincar livremente

No país onde foi criado um dos brinquedos mais populares da história, o Lego, as crianças não precisam ir à escola antes dos 6 anos, o que mostra o quanto o tempo “gasto” com atividades não estruturadas é reconhecido. Um dos principais desafios de Jessica, acostumada às agendas atribuladas das crianças norte-americanas, foi adotar essa mudança na rotina com os filhos Sophia, 7, e Sebastian, 4. “Me considerava uma mãe preguiçosa por não estar levando as crianças para 1 milhão de cursos ou atividades onde estavam ‘aprendendo’”, afirma. “Mas agora não me sinto mais assim e isso fez muita diferença no meu dia a dia. Não só meus filhos estão mais felizes com a liberdade de poder escolher as brincadeiras como também estou mais contente porque é muito menos estressante.”

Um estudo realizado com crianças em idade pré-escolar em Massachussets (EUA), citado pelas autoras no livro, mostrou que existe uma correlação positiva entre a quantidade de brincadeiras que as crianças participam e sua habilidade de resolver problemas. Por isso, a dica delas é levar os filhos para ambientes abertos, que eles possam explorar livremente, como praias e parques. Outra recomendação nesse sentido é estimular o encontro com crianças de diferentes idades para que umas possam aprender com as outras – e deixar para fazer intervenções somente quando necessário. “Outro dia, meu filho estava correndo a toda velocidade por uma rampa, fiquei me encolhendo de tensão e comecei a gritar para ele parar”, conta Jessica. “Mas meu marido pegou em meu braço e disse: ‘Crianças têm que correr. Se ele cair, caiu, mas crianças têm que correr’. No fim, Sebastian não caiu e ficou exultante consigo mesmo. Temos de confiar nas crianças para que elas aprendam a confiar em si próprias.”

Elas têm tempo de qualidade com a família

Os dinamarqueses têm uma palavra específica no dicionário para definir os momentos aconchegantes compartilhados em família: hygge (pronuncia-se ruga). Nesse período, existem regras bem interessantes, como desligar celulares e tablets, não reclamar à toa, evitar assuntos polêmicos e pensar em jogos em que todos os presentes possam participar independentemente da idade.

Segundo Iben, o hygge é uma escolha consciente que você faz para ter a sensação de estar conectado, de fato, com seus filhos. “Durante muitos anos, tive a oportunidade de pegar minhas filhas na saída da escola. Chegávamos em casa e sentávamos à mesa, comendo lanchinhos e conversando sobre o dia delas. Se fosse inverno, acendia velas e, às vezes, fazia chocolate quente ou chá. Depois disso, lia um conto, até que elas ficassem ‘cheias’ da minha atenção e fossem brincar por conta própria. Aquilo era muito ‘hyggeano!’”, conta a dinamarquesa.

A magia do hygge, uma das tradições mais importantes da cultura dinamarquesa, é que ele não precisa de espaço nem de alguma ocasião específica – e assim como as demais percepções das autoras, pode ser implementado por aqui também. Ainda que dar uma pausa na rotina acelerada para se entregar plenamente aos momentos com aqueles que mais ama não seja tão simples quanto pareça, o povo mais feliz do mundo garante: vale a pena.

Elas não são rotuladas

Um dos principais pontos positivos na maneira dinamarquesa de ver o mundo, de acordo com as autoras, é a importância que dão à linguagem. “As palavras têm poder e, por isso, adoto uma perspectiva otimista/realista sempre”, diz Iben, que é mãe de duas meninas, Ida, 16, e Julie, 14. “Não é ignorar as coisas ruins, e sim reconhecer que o mundo possui várias nuances de cinza além do preto e branco.”

Por exemplo, se depois de tirar uma nota baixa em geografia a criança diz que é péssima na matéria, lembre-a de uma tarefa específica que tenha gostado de fazer, como pintar um mapa, ou algum conteúdo em que tenha ficado interessada. Não negue que ela foi mal na prova nem diga que está tudo bem, mas ressalte que há coisas que podem ser feitas para melhorar o desempenho nas próximas avaliações, como estudar por mais tempo ou focar em exercícios práticos. Além disso, esteja sempre atento para evitar o uso de palavras limitadoras, como “meu filho odeia isso” ou “ele é assim”, pois esse tipo de postura não deixa espaço para a possibilidade de mudança.

 

 

Como educam os pais mais felizes do mundo?

Setembro 22, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://observador.pt/de 11 de setembro de 2016.

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Ana Cristina Marques

Há cerca de 40 anos que os dinamarqueses são considerados o povo mais feliz do mundo. Segundo as autoras de um novo livro, o segredo está na forma como as crianças são educadas. Curioso/a?

É de pôr um sorriso no rosto. Há mais de quatro décadas que o povo dinamarquês é considerado, praticamente todos os anos, o mais feliz do mundo. O rótulo certamente invejável leva a assinatura da OCDE (Organização para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento) desde 1973 e até o World Happiness Report, recentemente lançado pelas Nações Unidas, diz o mesmo. O mistério de tanta felicidade já foi alvo de interesse de vários jornalistas, com direito a reportagens emitidas pelo 60 Minutes e protagonizadas pela incontornável Oprah. Os motivos podem ser vários, mas o livro Pais à Maneira Dinamarquesa reclama que a solução está na forma como estes homens e mulheres são criados.

As autoras do livro que chega a 21 de setembro às livrarias portuguesas — a cronista norte-americana Jessica Joelle Alexander e a psicoterapeuta e terapeuta familiar dinamarquesa Iben Dissing Sandahl — defendem que a busca pela felicidade começa na infância e entregam aos pais a chave do sucesso que passa por deixar as crianças brincar, pela comunicação autêntica e pelo estímulo da empatia. A teoria em causa, essa, resulta de “mais de 13 anos de experiência, pesquisa, estudos de base e factos acerca da cultura e vida diária dinamarquesa”.

pais

Mas como são, então, os pais dinamarqueses?

Os pais dinamarqueses apostam na brincadeira livre

As autoras começam por contrariar a tendência (bem intencionada) de alguns pais, que enchem as agendas dos filhos com atividades extracurriculares, incluindo vários desportos. A ideia defendida é a de que os mais novos devem pura e simplesmente brincar — isto é, serem deixados sozinhos ou na companhia de amigos para brincar exatamente como lhes apetecer. Aqui, brincar não é o mesmo que praticar um desporto ou participar numa atividade organizada por um adulto, e o ato não deve ser encarado como um desperdício de tempo:

Com frequência, sentimos que estamos a ser melhores pais quando lhes ensinamos alguma coisa ou os envolvemos num desporto, ou oferecemos aos seus pequenos cérebros algum ‘input’. Brincar parece ser um desperdício de tempo de aprendizagem valioso. Mas será mesmo?” (Pais à Maneira Dinamarquesa, p. 31)

Acontece que a brincadeira livre ensina as crianças a serem menos ansiosas, mais resilientes e a lidar melhor com o stress. Para explicarem o quão importante a brincadeira é para a sociedade dinamarquesa, Jessica e Iben relatam que durante muitos anos as crianças a viver no país não começavam a escola antes dos sete anos (em Portugal o ensino obrigatório começa aos seis anos de idade; pode iniciar-se aos cinco salvo algumas exceções), e que atualmente as crianças com menos de 10 anos terminam as aulas às duas da tarde.

Brincar é tão central na visão dinamarquesa da infância que muitas escolas têm programas que promovem a aprendizagem através do desporto, da brincadeira e do exercício para todos os alunos.” (Pais à Maneira Dinamarquesa, p. 43)

Têm cuidado com os elogios

Os filmes dinamarqueses têm muitas vezes finais sombrios e tristes, muito aquém do tradicional happy ending de uma longa-metragem de domingo à tarde. Aliás, e a título de curiosidade, no conto “A Pequena Sereia”, do também dinamarquês Hans Christian Andersen, a jovem não fica com o príncipe ao contrário do que a Disney nos leva a crer. Escrevem as autoras, baseando-se num estudo da Universidade de Ohio, que “ao contrário da crença popular, ver filmes trágicos ou tristes torna, na verdade, as pessoas mais felizes, chamando a sua atenção para alguns aspetos mais positivos das suas próprias vidas“.

Nesta lógica de pensamento, as autoras defendem que as crianças precisam de “honestidade emocional” e que agir com autenticidade é o primeiro passo para ensinar os mais novos a serem verdadeiros consigo mesmos e com os outros. Porque reconhecer e aceitar as emoções boas e más é muito importante e o oposto do autoengano, que pode levar a decisões tomadas com base em influências externas. A isso acrescenta-se a importância de elogiar a tarefa desempenhada em detrimento da criança em si, o que “ajuda a direcionar a atenção para o trabalho envolvido, mas também ensina humildade”.

O elogio está intimamente ligado à forma como as crianças vêm a sua inteligência. Se ouvem louvores constantes por serem naturalmente espertas, talentosas ou dotadas, desenvolvem aquilo a que se chama uma mentalidade ‘fixa’ (a sua inteligência é fixa e eles possuem-na). Por contraste, as crianças a quem é dito que a sua inteligência pode evoluir com o trabalho e educação desenvolvem uma mentalidade de crescimento (podem fazer evoluir as suas capacidades porque trabalham arduamente por isso). (Pais à Maneira Dinamarquesa, p. 57)

São otimistas e, ao mesmo tempo, realistas

Aqui entra a noção do “otimismo realista”, isto é, a capacidade de reenquadrar uma situação tensa, uma coisa que, afirmam as autoras, os dinamarqueses fazem há bastante tempo. “Eles ensinam aos seus filhos esta valiosa competência, e aprender a reenquadrar desde cedo ajuda-os a crescer para se tornarem naturalmente melhores a fazê-lo em adultos”, escrevem Jessica e Iben. A ideia não passa por ser-se extremamente otimista, antes prático, no sentido em que se dá destaque a um lado alternativo de uma mesma história — é uma questão de perspetiva. Referindo um conjunto de estudos, as autoras argumentam que o reenquadramento ajuda na forma como o medo, a dor e a ansiedade são interpretados, afirmando que esta capacidade está diretamente relacionada com a linguagem que é usada.

A nossa linguagem é uma escolha, e é fundamental porque forma o enquadramento através do qual vemos o mundo.” (Pais à Maneira Dinamarquesa, p. 76)

Levam a empatia muito a sério

Por empatia entende-se a capacidade de reconhecer e compreender os sentimentos dos outros, uma ferramenta que parece estar cada vez mais em desuso entre os mais novos. Exemplo disso é um estudo da Universidade do Michigan, nos EUA, que mostrou que atualmente o estudantes universitários têm menos 40% de empatia que os estudantes da década de 1980 e 1990. Em contrapartida, dizem as autoras da obra em questão, o narcisismo aumentou significativamente. Mas porque é que é a empatia é tão importante? Eis a resposta:

A empatia facilita a nossa ligação com outros. Desenvolve-se na infância através da relação com a figura de afeto. Uma criança aprende, em primeiro lugar, a sintonizar-se com as emoções e estados de espírito da sua mãe e, mais tarde, com as de outras pessoas. É por isso que o contacto visual, as expressões faciais, o tom de voz e outras atitudes, são tão importantes no início de vida”. (Pais à Maneira Dinamarquesa, p. 103)

Os dinamarqueses levam a empatia tão a sério que esta é considerada uma espécie de disciplina, com direito a ocupar uma hora por semana do calendário escolar, tendo em conta crianças dos seis aos 16 anos.

Fazem do “Hygge” uma forma de vida

Hygge, que se pronuncia “huga”, significa aconchego e para os dinamarqueses é uma forma de estar na vida. É, na sua essência, um conceito que promove a proximidade entre amigos e familiares, que envolve uma atmosfera acolhedora, a entreajuda de todos e o deixar o drama e os desejos individuais de parte em nome da união de grupo, sem telefones ou tablets por perto.

Aprendendo o hygge podemos melhorar as reuniões familiares para as tornar experiências mais agradáveis e memoráveis para os nossos filhos. Deixando o ‘eu’ à porta e concentrando-nos no ‘nós’, podemos eliminar muito do drama e negativismo desnecessários por vezes associados às reuniões familiares. Famílias felizes e um forte apoio social geral crianças mais felizes. (Pais à Maneira Dinamarquesa, p. 168)

E como é em Portugal?

Qualquer comparação é injusta, convenhamos, mas importa tentar perceber porque é que, à partida, os pais dinamarqueses podem ser diferentes dos portugueses. Certo que um recente estudo internacional sobre mobilidade infantil colocou Portugal no fim da lista e classificou os pais portugueses como sendo dos mais protetores no mundo. Mas até dados resultantes de uma pesquisa global devem ser contextualizados, assegura Maria Filomena Gaspar, docente na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da Universidade de Coimbra.

“A parentalidade em português é a parentalidade em Portugal. Não é apenas o resultado das relações pai e filho, mas também o resultado das expetativas sociais que os pais têm de enfrentar”, diz a também terapeuta e mediadora familiar, que assegura que a sociedade portuguesa tem um discurso dúbio — por um lado responsabiliza os pais, por outro carece na oferta de condições para uma “parentalidade positiva”. Maria Filomena Gaspar fala nos horários de trabalho reduzido dos dinamarqueses, quando há crianças pequenas à mistura, e também na licença de maternidade que naquele país pode chegar às 52 semanas (sim, um ano).

Fala ainda da conjuntura económica e também das questões culturais, lembrando que até 1974 a maioria dos portugueses não tinha acesso à escolaridade. Mais, segundo a própria, “as escolas discriminam as famílias, pagamos aos professores [tendo em conta as explicações] quando os nossos filhos têm insucesso escolar, enquanto na Dinamarca a função da escola é conseguir que todos os alunos consigam atingir aquilo que é o seu nível de competência”.

E quanto aos pais protetores, a docente comenta que até 1970 muitos portugueses viviam na aldeia, onde todos se conheciam e o perigo seria diminuto, realidade que se veio a alterar drasticamente. “Começámos a trazer pessoas para a urbe e começámos a assistir a novos tipos de famílias. Isso criou a necessidade de proteger os filhos de perigos com os quais os pais não sabiam lidar.”

As sociedades devem estruturar-se para dar autonomia às crianças, assegura Maria Filomena Gaspar. “Tem de ser uma missão da sociedade, não só da família.”

 

 

Conheça o drama das crianças arrancadas das famílias em experimento social na Dinamarca

Junho 23, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://g1.globo.com/  de 14 de junho de 2015

arquivo pessoal

Meninos e meninas foram levados da Groelândia para virar cidadãos-modelo nos anos 50; muitos acabaram se tornando alcoólatras ou entraram em crise de identidade.

Ellen Otzen Da BBC News

Em 1950, um grupo de crianças da etnia inuit (anteriormente chamadas de esquimós) foi retirado de suas famílias na Groenlândia e levados à Dinamarca para serem educados como “cidadãos dinamarqueses”.

O programa “Witness”, da BBC, conversou com uma das vítimas deste polêmico experimento social.

“Era um dia lindo de verão quando dois distintos senhores dinamarqueses apareceram na nossa casa”, lembra Helene Thiesen. Era 1951, ela vivia com sua família em Nuuk, a capital da Groenlândia.

“Estavam com um intérprete e com a minha irmã mais velha. ‘O que eles estão fazendo aqui?’, pensei. Estávamos bastante curiosos. Pediram que a gente saísse de casa enquanto minha mãe conversava com eles”.

“Perguntaram à minha mãe se ela estava disposta a me mandar para a Dinamarca. Aprenderia a falar dinamarquês e teria uma boa educação. Disseram que seria uma grande oportunidade para mim”, prosseguiu.

Helene conta que a mãe negou o ‘convite’ duas vezes. Mas os dinamarqueses seguiram pressionando. “Diziam que era só por seis meses e que eu teria a oportunidade de um futuro promissor.”

BBC

‘Novo groenlandês’

A Dinamarca estava decidida a melhorar as condições de vida da sua colônia ártica. Muitos deles, porém, viviam da caça às focas, poucos falavam dinamarquês e a tuberculose estava disseminada pela região.

As autoridades dinamarquesas decidiram que a melhor maneira de modernizar a ilha era criar um novo tipo de groenlandês.

Elas enviaram telegramas a diretores de escolas e padres pedindo que identificassem as crianças mais inteligentes entre 6 e 10 anos. O plano, idealizado em conjunto com a fundação “Save the Children” da Dinamarca, era enviá-los a famílias dinamarquesas para que fossem reeducados como “crianças dinamarquesas”.

Muitos se mostravam receosos a mandar seus filhos, mas finalmente 21 famílias cederam. O pai de Helene Thiesen havia morrido de tuberculose três meses antes e sua mãe ficou sozinha com três filhos pequenos.

“Minha mãe me explicou: ‘Você vai para a Dinamarca’. ‘O que é a Dinamarca?’, perguntei a ela”.

“‘É um país muito longe, mas bonito, é como o paraíso. Você não tem que ficar triste’, disse a minha mãe.”

Em maio de 1951, o barco MS Disko saiu de Nuuk com 22 crianças a bordo.

“No barco, olhei para a minha mãe e não consegui nem dizer ‘tchau’ com a mão. Estava enjoada: ‘Por que você está me deixando ir?’, pensei. Não entendíamos por que estavam nos mandando para um lugar tão distante. O que encontraríamos lá? Era tudo muito incerto.”

Arquivo pessoal2

“Eu me lembro quando chegamos a Copenhagen. Estava anoitecendo e havia um porto muito grande”, contou Helene.

Após chegarem, as crianças foram enviadas às suas famílias adotivas. Mas, primeiro, passaram o verão em um “acampamento”, conhecido como Fedgaarden. “Depois, soubemos que, na realidade, eles estavam nos mantendo isolados, em quarentena”, disse.

“Nos colocaram em quarentena porque éramos o primeiro grupo de crianças que chegava da Groenlândia à Dinamarca. Eles temiam que tivéssemos algo contagioso.”

“Continuei me perguntando o que faria quando voltasse para casa. Tinha saudades de minha mãe e ainda sentia muito a morte de meu pai.”

A visita da rainha

A chegada das crianças inuítes era um projeto de tanto prestígio que até a rainha quis visitar o acampamento.

Mas, na foto que tiraram das crianças com a rainha, nenhuma delas sorri.

“Claro que houve momentos mais alegres, como quando íamos à praia. Mas quando nos mandavam dormir, chorávamos em silêncio. Eu me sentia muito triste e insegura”.

Em dezembro de 1951, uma revista dinamarquesa publicou uma reportagem descrevendo a experiência como um “sucesso”.

“O modo de vida aqui na Dinamarca é muito diferente do que esses meninos estavam acostumados, mas a habilidade que eles tiveram para se adaptar é impressiomante. Não é comum ver nenhum problema provocado por sua reação à civilização”, dizia a publicação.

“As crianças da Groenlândia já falam dinamarquês muito bem, mas quando a alegria ou a raiva os agitam, uma chuva de palavras groenlandesas aparece de repente, e sons sem sentido podem ser ouvidos.”

“Helene nunca disse uma palavra a seus pais adotivos, mas conversa com sua irmã adotiva, Marianne, que está lhe ensinando a costurar.”

Helene Thiesen desenvolveu um eczema em Fedgaarden e decidiram que ela deveria morar com um médico. Para tratar sua inflamação, cobriram seus cotovelos e calcanhares com uma pomada preta e proibiram-na de entrar na sala de estar para não danificar os móveis.

“Nunca me senti bem-vinda nessa família. Era uma estranha. A mãe tinha problemas mentais e ficava deitada o tempo todo.”

Helene conta que não confiava nos adultos na Dinamarca e, quando alguém lhe dirigia a palavra, apenas “assentia ou negava com a cabeça” porque não queria responder. Alguns meses depois, quando seu problema de pele melhorou, a garota foi transferida para uma família diferente.

“A segunda família me acolheu de maneira totalmente diferente. Era como um conto de fadas em comparação com a primeira. Eram pessoas muito calorosas”, disse.

BBC2

 

De volta à Groenlândia

No ano seguinte, 16 dos 22 inuítes, incluindo Thiesen, foram enviados de volta à Groenlândia. A organização “Save the Children” deixou os seis restantes na Dinamarca – eles foram adotados por suas famílias de origem dinamarquesa.

“Quando o barco atracou em Nuuk, segurei minha mala e corri pela ponte para os braços da minha mãe”, disse Helene.

“E contei tudo o que havia visto. Mas ela não respondeu. Eu olhei para ela confusa. Depois de um tempo, ela me disse algo, mas não entendi. Nem uma palavra. Aí pensei: ‘Que coisa horrível! Não consiguirei falar com a minha mãe nunca mais!’. Falávamos idiomas diferentes.”

Teve, então, outra surpresa. Enquanto Thiesen estava ausente, outra fundação, a Cruz Vermelha Dinamarquesa, havia construído um lar para crianças em Nuuk.

Segundo a instituição, as crianças que haviam se hospedado em casas dinamarquesas não deveriam viver com suas próprias famílias “em condições piores”.

“Nossa nova ‘mãe’ – a diretora do lar – me tocou o ombro e disse: ‘Vamos, suba no ônibus, você vai para o orfanato’. Por que eu estava sendo enviada a um lar para crianças? Ninguém me respondeu. Observei a cidade por entre minhas lágrimas.”

No lar de crianças, os garotos e garotas queriam reaprender o groenlandês para se comunicar com seus pais de novo. Muitos dos empregados, que falavam o idioma local, começaram a ajudá-los.

“Mas então o diretor dinamarquês apareceu. ‘O que estão fazendo? Não podem ensinar groenlandês. Essas crianças precisam ser educadas para chegarem ao topo da sociedade. Portanto elas só falarão dinamarquês’.”

A relação de Helene com sua mãe nunca voltou a ser a mesma. “Me sentia muito triste pela decisão de me mandar para longe. Eu ficava realmente irritada porque ela não só me deixou ir, como também permitiu que eu voltasse a viver em um orfanato, apesar de morarmos na mesma cidade”.

“Eram tempos em que os dinamarqueses eram os senhores coloniais da Groenlândia. Eram ‘mestres’ no pior sentido da palavra. Eles controlavam tudo e ninguém poderia contradizer um dinamarquês.”

Somente em 1996, quando tinha 52 anos, Helene descobriu por que havia sido afastada de sua mãe.

E a notícia não veio do governo dinamarquês e sim de uma escritora que encontrou uma coleção de documentos no Arquivo Nacional da Dinamarca.

“Ela me ligou e disse: ‘Você está sentada? Você foi parte de um experimento.’ Me sentei no chão e a única coisa que fiz foi chorar.”

Experimento falido

Longe de servir como modelo para o intercâmbio cultural na Groenlândia, as crianças terminaram como um pequeno grupo sem raízes e marginalizados na periferia de sua própria sociedade. Vários deles se tornaram alcoólatras e morreram jovens.

“Alguns deles se tornaram mendigos, outros simplesmente ficaram marcados para sempre. Perderam sua identidade e a capacidade de falar sua língua materna e, com isso, perderam seu propósito de vida”, disse Helene.

BBC3

Ela recebeu uma carta da Cruz Vermelha Dinamarquesa em 1998 “lamentando” o episódio. Finalmente, em 2009, a Save the Children da Dinamarca também se desculpou. Mas uma investigação interna descobriu que alguns dos documentos que detalham a participação da Save the Children podem ter sido destruídos propositalmente.

“O que aconteceu foi uma clara violação dos direitos fundamentais das crianças”, disse Mimi Jacobsen, secretária geral da Save the Children Dinamarca.

“Tinham boas intenções, mas tudo foi feito de uma forma terrível supondo que o pensamento nesse momento era que queriam educar e melhorar os groenlandeses para dar a eles um futuro melhor.” Em 2010, as autoridades da Groenlândia reivindicaram uma desculpa ao governo dinamarquês.

O Partido Democrata Social dinamarquês, então oposição, pediu uma investigação independente. Mas logo que eles assumiram o governo em 2011, reinou o silêncio sobre o tema. Helene disse que a experiência teve alguns resultados positivos.

“Apesar de ter jurado que nunca me casaria com um dinamarquês, porque estava revoltada com o poder colonial, acabei com um marido de lá. Junto com ele e meus filhos, temos uma vida feliz na Dinamarca.”

Helene Thiesen dedicou sua vida a cuidar dos filhos. Hoje tem 71 anos e está aposentada. Vive no sul da Dinamarca. “Em relação às autoridades dinamarquesas, minha mágoa é grande. É simplesmente incompreensível. O que vivi me magoará para sempre até o dia da minha morte.”

 

 


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