O que fazer com as crianças difíceis?

Setembro 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Embora a maioria dos alunos do jardim de infância se comporte bem, os relatórios apontam para um aumento do número de crianças perturbadoras na sala de aula (© Keystone / Christian Beutler)

Texto do site Swissinfo de 25 de agosto de 2019.

Por Isobel Leybold-Johnson

Professores na Suíça estão lidando com um aumento de alunos de comportamento difícil e, segundo relatos, os problemas começam já no jardim de infância. As opiniões sobre o que pode ser feito continuam divididas.

No modelo suíço de escola integrativa, ou inclusiva, introduzido há cerca de uma década, crianças com problemas comportamentais classificadas como tendo “necessidades emocionais e sociais especiais ” frequentam escolas normais, em vez de serem agrupadas em turmas ou escolas específicas para crianças com necessidades especiais como antes.

Reportagens veiculadas recentemente na mídia com histórias de professores tendo que lidar com alunos que perturbam na sala de aula, jogam móveis ou são violentos têm colocado em questão se o sistema está realmente funcionando.

Debate reaceso

O debate sobre a escola integrativa foi reaceso por um artigo no jornal SonntagsZeitungLink externo, que citou um estudo em Zurique e na cidade vizinha de Winterthur. O artigo mostrou que um em cada cinco alunos foi classificado por docentes e por pessoal administrativo de escolas como tendo problemas de comportamento (950, ou 22% dos alunos nas escolas inquiridas). O estudo envolveu 450 funcionários da escola, incluindo 250 professores, e 60% dos professores disseram que os alunos indisciplinados eram o seu maior problema.

O responsável pelo estudo, Reto LuderLink externo, professor de necessidades educativas especiais na Zurich University of Teacher EducationLink externo, disse que os resultados, originalmente publicados em 2018, não eram representativos da situação na Suíça, porque o estudo se limitava principalmente às escolas de Zurique e Winterthur.

“No entanto, os resultados são compatíveis com os resultados internacionais de outros estudos, bem como com o conhecimento atual sobre comportamentos disruptivos nas escolas”, disse ele à swissinfo.ch.

Crianças desordeiras no jardim de infância

Segundo o SonntagsZeitung, outros cantões também estão relatando problemas já a partir do jardim de infância. O SonntagsZeitung citou números ainda não publicados da secretaria de educação do cantão de Genebra indicando existirem mais problemas de comportamento entre crianças de quatro anos de idade do que entre jovens de 13 e 14 anos. Outros cantões, como a cidade de Basileia, também relataram problemas entre os alunos mais jovens.

“Hoje, já cerca de um quinto dos alunos do jardim de infância e do ensino primário são muito difíceis de ensinar”, disse Jean-Michel Héritier, da associação de professores da cidade de BasileiaLink externo, no artigo. Ele atribuiu o aumento à eliminação progressiva de turmas especiais para alunos com dificuldades, mas também a famílias onde as crianças passavam muito tempo à frente de telas e não com outras crianças. Isso resulta em baixos limites de frustração e concentração, disse ele.

As regiões francófonas recuperam o atraso

Embora o problema dos alunos indisciplinados tenha sido reconhecido desde há alguns anos na Suíça germanófona, somente agora a parte francófona começa a recuperar o atraso.

Uma reportagem do jornal Le Matin DimancheLink externo, publicada em paralelo com o artigo do SonntagsZeitung, assinalou que o cantão de Friburgo acabou de iniciar uma classe de apoio especial para estes alunos. O cantão de Vaud, por exemplo, pretende liberar gradualmente 12 milhões de francos suíços (US$ 12 milhões) para apoiar pais, professores e serviços socioeducativos.

O que pode ser feito

Beat Zemp, presidente da Federação de Professores Suíços de Língua Alemã (LCHLink externo), acredita que o sistema integrativo esteja ameaçado. Uma pesquisaLink externo recente publicada pela LCH e sua contraparte de língua francesa descobriu que para 90% dos professores, alunos perturbadores eram o seu principal problema. A pesquisa mostrou que os professores e o sistema de ensino regular eram “levados até seus limites”.

“Precisamos de mais professores para alunos com necessidades especiais, de mais assistentes sociais e de aliviar o fardo dos professores para que haja tempo suficiente para a escolarização integrativa”, disse Zemp ao SonntagsZeitung num artigo subsequente em Maio. Ela descartou um retorno geral às classes de alunos com necessidades especiais, mas sentiu que poderiam ser feitas exceções em alguns casos, após uma “avaliação cuidadosa”.

Os defensores da escola integrativa argumentam que nenhuma criança deve ter que sofrer o estigma de classes com necessidades especiais. A inclusão é muitas vezes o melhor para estas crianças, acrescentam eles, uma vez que estes alunos seriam mais capazes de se integrar mais tarde na vida profissional.

O estudo de Zurique e de Winterthur também indicou lições que podem ser aprendidas. “O estudo mostrou que o comportamento disruptivo é um grande desafio para muitos professores, mas pode ser abordado com sucesso através de intervenções baseadas em dados empíricos num contexto escolar inclusivo”, disse Luder. Estas intervenções podem ir desde programas escolares que abordam comportamentos disruptivos até medidas individuais.

Estes tipos de intervenções, argumenta o estudo, podem levar a uma melhor compreensão da situação, a novos cursos de ação e a melhores relações entre professores e alunos.

Adaptação: DvSperling

Educação especial

Na Suíça, a educação para crianças com necessidades especiais está inscrita na lei e, como qualquer outra questão educacional, desde 2008 é de alçada dos cantões. Como cada cantão elaborou o seu próprio plano, existem diferenças na forma como a educação especial é implementada. A educação especial abrange crianças com diversas deficiências e dificuldades de aprendizagem. Ela inclui também ajuda para os alunos superdotados e para aqueles que não falam uma língua local.

+ sobre necessidades especiais no nosso “Guia da Suíça”

Estudo de caso: “Philipp”

Philipp (este não é o seu nome verdadeiro) tinha quatro anos e costumava ignorar ou desafiar os pedidos da sua professora num jardim de infância num distrito periférico de Zurique. Ele também provocava outros alunos e destruia seus trabalhos manuais, disse sua antiga professora ao SonntagsZeitung. As coisas se agravaram depois que ele se enfureceu, bateu em outros alunos e destruiu brinquedos. A professora recusou-se a tê-lo no segundo ano do jardim de infância e Philipp foi então colocado num jardim de infância menor, onde poderia receber apoio mais intensivo.

Problemas de comportamento aumentam em turmas maiores

Abril 17, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 5 de abril de 2016.

O estudo emocionado na notícia é o seguinte:

Organização escolar: as turmas

daniel rocha

Clara Viana

Há uma relação entre o número de alunos e o modo como os professores gastam o tempo em sala de aula, recorda o Conselho Nacional de Educação.

Quanto maiores forem as turmas, menor é o tempo gasto em actividades de ensino e aprendizagem. Esta é uma das conclusões destacadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) num estudo sobre a organização de turmas, divulgado na semana passada, onde se refere também que as salas com mais estudantes “estão associadas a uma maior proporção de alunos com problemas comportamentais”.

Para avaliar a relação entre a dimensão média das turmas e o tempo gasto em actividades de ensino e a manter a ordem na sala de aula, o CNE recuperou os dados do último inquérito realizado pela OCDE a professores e dirigentes escolares de 34 países, datado de 2013. As respostas recolhidas no âmbito do inquérito Teaching and Learning International Survey (TALIS) dão conta de que Portugal está entre os países em que os professores dizem gastar mais tempo a manter a ordem na sala de aula: 15,7% do tempo de aulas é consumido nesta tarefa, contra uma média de 13,1% na OCDE. A Rússia é o país que apresenta melhores resultados neste capítulo, com apenas 6,3% do tempo dos professores a ser gasto em manter a ordem nas aulas. O pior é o Brasil, onde esta percentagem sobe para 19,8%.

O relatório foi divulgado a uma semana de serem apreciadas no Parlamento várias iniciativas legislativas — do PCP, Verdes, Bloco de Esquerda, CDS e PS — com vista à redução do número de alunos por turma, uma medida que, segundo o CNE, poderá resultar num encargo financeiro de mais 750 milhões de euros.

No último estudo sobre o estado da educação da OCDE (Education at Glance 2015), refere-se que “os professores 1041624gastam, em média, 79% do seu tempo no processo de ensino e aprendizagem”, uma proporção que, contudo, “varia muito de país para país” e que, só em parte, pode ser explicada pela dimensão das turmas, lembra o CNE, remetendo para as respostas recolhidas no âmbito do TALIS e que dão conta, por exemplo, desta situação: a dimensão média das turmas é semelhante em Portugal e na Polónia, mas o tempo gasto a ensinar é substancialmente menor por cá — 75,8%, por comparação com os 82,2% reportados pelos professores polacos.

Apesar de existirem outros factores que contribuem para esta variação, entre eles a qualidade dos professores, os dados recolhidos pela OCDE mostram que existe uma correlação entre o número de alunos por turma e o tempo dedicado ao ensino. “Especificamente, por cada aluno adicionado à média da dimensão de uma turma está associado uma diminuição de 0,5 pontos percentuais no tempo gasto em actividades de ensino e aprendizagem”, frisa o CNE.

Mais alunos indisciplinados

As turmas de maior dimensão também “estão associadas a uma maior proporção de alunos com problemas comportamentais” e, quando esta é superior a 10%, os professores “gastam quase o dobro do tempo a manter a ordem na sala de aula”, destaca o CNE. Segundo os dados do TALIS, Portugal está entre os cinco países com uma maior percentagem de professores a indicar que estão nesta situação: 38%. A Finlândia, geralmente apontado como um modelo na educação, aparece logo a seguir, com 35%, e o Brasil volta a ser o pior colocado, com mais de metade dos docentes (67%) a relatarem que leccionam em turmas onde mais de 10% dos alunos têm problemas de comportamento. Já no Japão desce para 14%, o valor mais baixo nesta tabela.

Num estudo sobre a indisciplina nas escolas, divulgado no mês passado, o docente do ensino secundário Alexandre Henriques, autor do blogue ComRegras, também apresenta a redução do número de alunos por turma como uma das medidas que podem contribuir para a redução daquele fenómeno que, segundo ele, é um dos principais problemas do sistema de ensino português.

Os dados que recolheu em 38 agrupamentos e escolas, abrangendo cerca de 50 mil alunos, dão conta de que no ano lectivo de 2014/2015 se registaram mais de nove mil participações disciplinares. Sublinhando que estes elementos dizem respeito apenas a 4% dos agrupamentos existentes, Alexandre Henriques faz o seguinte exercício: extrapolando para uma amostragem de 100% poder-se-ia chegar, “hipoteticamente, a um número superior a 200 mil participações disciplinares num só ano”.

Em resposta ao PÚBLICO, Alexandre Henriques comenta que “é do senso comum que tomar conta de 30 crianças não é a mesma coisa que tomar conta de 15″. Embora defenda a redução do número de alunos por turma, considera que é preciso muito mais para reduzir a indisciplina em sala de aula, que deveria passar por “uma estratégia conjunta que envolva Ministério da Educação, pais, professores e também alunos que permitam a implementação de um plano em várias frentes”. “A elevada carga lectiva, a negligência parental, modelos pedagógicos erráticos e antiquados, a ausência de monitorização disciplinar e processos burocráticos, entre outros, não se diluem com turmas mais reduzidas”, alerta.

Mas se a investigação reconhece que a dimensão das turmas “contribui para a melhoria dos ambientes escolares”, tal já não se passa com a melhoria das aprendizagens, lembra o presidente do CNE, David Justino, na introdução ao relatório apresentado na semana passada. “Se colocarmos em alternativa a redução do número de alunos por turma e um maior investimento na formação de professores e em práticas de apoio às aprendizagens, estas últimas medidas têm maior impacto do que a mera redução administrativa da dimensão das turmas”, especifica o antigo ministro da Educação do PSD.

Actualmente, as turmas do 1.º ciclo podem ter num máximo de 26 alunos e nos ciclos seguintes este número sobe para 30. Os dados recolhidos pelo CNE, um órgão consultivo do Parlamento e do Governo, dão conta de que cerca de 45% das turmas do 1.º ciclo, 25% do 2.º ciclo e 32% do 3.º “estão subdimensionadas, isto é, não atingem o limite mínimo de alunos” por sala.

Crianças com puberdade precoce tendem a ter mais problemas mentais

Abril 10, 2013 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TVI 24 de 3 de Abril de 2013.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Early Puberty and Childhood Social and Behavioral Adjustment

Notícia original do Murdoch Childrens Research Institute

Early poor mental health link to early puberty

Conclusão é de um estudo realizado pelo Instituto de Investigação Infantil Murdoch de Melbourne, na Austrália

Por: tvi24

As crianças com puberdade precoce tendem a ter mais problemas mentais que as outras e enfrentam uma «dupla desvantagem» ao anteciparem o período de «vulnerabilidade emociona» dos adolescentes. A conclusão é de um estudo divulgado esta quarta-feira na Austrália.

O trabalho, realizado pelo Instituto de Investigação Infantil Murdoch de Melbourne, foi publicado na «Revista da Saúde do Adolescente e é o primeiro estudo deste tipo», de acordo com a agência noticiosa espanhola EFE.

O estudo assinala que as crianças com puberdade precoce avançam muito menos «em termos do seu mundo emocional» que as outras da mesma idade, indicou George Patton, um dos investigadores.

Além disso, têm uma maior taxa de problemas mentais, sobretudo as raparigas que atingem a puberdade entre os oito e os nove anos, adiantou.

A investigação revelou ainda que rapazes e raparigas com puberdade precoce têm os mesmos problemas psicossociais, mas que os primeiros têm também mais problemas de comportamento que os seus pares.

Os problemas sociais, emocionais e de conduta são comuns durante a puberdade e incluem a ansiedade, a depressão, a agressividade e a tendência para o abuso de substâncias psicoativas.

Em caso de puberdade precoce a vulnerabilidade aquele tipo de problemas é antecipada, segundo o estudo realizado entre 3.500 menores australianos.

Dados históricos indicam que a idade média do início da puberdade nas mulheres passou dos 17 para os 13 anos entre 1830 e 1960, uma variação que os especialistas atribuem a uma melhor nutrição e a um índice de massa corporal mais elevado.

No entanto, desde 1960 já se registou outra queda, disse George Patton, defendendo que as crianças com puberdade precoce necessitam de maior ajuda para ultrapassarem este período difícil das suas vidas.

Encontro Técnicos de GAAF

Abril 13, 2012 às 1:26 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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No dia 27 de abril,realiza-se no Instituto Português do Desporto da Juventude (IPDJ), em Moscavide, o Encontro de Técnicos de GAAf (Gabinete de Apoio ao Aluno e à Família), promovido pela Mediação Escolar do Instituto de Apoio à Criança, com o objetivo de promover a partilha de técnicas e estratégias de intervenção em contexto escolar e uniformizar o modelo de implementação e de avaliação.

 O Encontro contará com a presença do Dr. Nuno Colaço, Professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia e a Dr.ª Teresa Amaral, Directora do Serviço de Saúde Mental Infantil e Juvenil do Centro de Saúde Dr. José Domingos Barreiro (SCML).

A sessão de abertura será da responsabilidade da Vice – Presidente do IAC, Dra Dulce Rocha, do Dr. Laborinho Lúcio (a confirmar). Conselheiro Jubilado e Membro do Conselho Superior de Magistratura e pela Coordenadora da Mediação Escolar do IAC, Dra. Melanie Tavares.

O Encontro decorrerá entre as 9h30 e as 16h30 com entrada gratuita, mas inscrição obrigatória até 16 de abril. As inscrições devem ser enviadas para o seguinte endereço eletrónico: mediacao.escolar.iac@gmail.com

 

Acção de Formação – Comportamentos Problemáticos – Outros Olhares, Novas Intervenções

Janeiro 14, 2011 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações Aqui

Filme “O Castigo”

Setembro 14, 2010 às 9:02 pm | Publicado em Divulgação, Vídeos | Deixe um comentário
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“Um filme realizado por um grupo de alunos do 3º ano do Agrupamento de Escolas do Bº. Padre Cruz no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular… Trabalho apresentado na iniciativa MARATONAS DE TEATRO…”

Ver filme Aqui

Adolescência É o cérebro, estúpido!

Junho 21, 2010 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do jornal Público de 16 de Junho de 2010.

Fotografia de Manuel Roberto

Fotografia de Manuel Roberto

Por Ana Gerschenfeld

Por que é que os adolescentes são como são? Por que é que têm mudanças súbitas de humor, problemas de concentração, comportamentos de risco? Só muito recentemente é que os especialistas começaram a desvendar as bases neuronais destes autênticos enigmas.

É preciso paciência para aturar filhos adolescentes. Com a puberdade não é apenas o seu corpo que sofre uma transformação. A sua personalidade pode mudar radicalmente. Tornam-se impacientes, rudes, mal-humorados, descuidam os estudos e a sua paciência para aturar adultos desvanece-se sem deixar rasto. Passam horas frente à televisão a ver séries de inteligência duvidosa, fechados no quarto a ouvir música, a trocar mensagens cheias de interjeições e símbolos esquisitos com os amigos no Messenger, horas em cochichos e risinhos ao telefone, adoptam numa fracção de segundo uma aparência absolutamente inexpressiva e um olhar vazio quando um adulto os interpela, esgueiram-se habilmente de quarto para quarto de forma a evitar os pais, os seus horários deixam misteriosamente de coincidir com seja o que for que a família costumasse fazer em conjunto. E uma chamada de atenção por parte de qualquer adulto pode transformar-se num confronto. Os pais, esses, não passam de uns marcianos que andam lá pela casa, cuja função se resume a garantir que há comida no prato à hora das refeições, a não os deixar fazer quase nada do que eles querem, a exigir que não se esqueçam dos trabalhos de casa, de dizer ocasionalmente “obrigado” e “por favor”, de tomar duche e de lavar os dentes. As únicas coisas que parecem existir são o seu grupo de amigos e o seu espaço pessoal e secreto. Por vezes, contudo, imprevisível e incompreensivelmente, ficam ternurentos durante uns curtos instantes – com os pais, com os irmãos mais novos. Mas isso depressa lhes passa. Daaah…!! Esta expressão é a que melhor resume a atmosfera de incompreensão que frequentemente caracteriza o “retrato de família com adolescente(s)”. Claro que se trata de uma descrição esquemática da situação. Por vezes, as coisas correm melhor – sem problemas de maior na escola e na vida social e sem atritos familiares. Mas outras vezes também correm muito pior, com os jovens a adoptar comportamentos de alto risco, como o abuso de drogas e/ou álcool, as relações sexuais desprotegidas, as corridas de automóveis ou de motas a alta velocidade pelas estradas fora. A adolescência pode também acompanhar-se, nalguns casos particularmente extremos, de doença mental – e até conduzir ao suicídio. “A muitos títulos, a adolescência é a altura mais saudável da vida”, escrevia há uns meses Jay Giedd, psiquiatra de crianças e adolescentesdos National Institutes of Health norte-americanos e perito mundial da visualização do cérebro, no site da Dana Foundation, organização filantrópica de apoio à investigação do cérebro. “O sistema imunitário, a resistência ao cancro, a tolerância ao calor e ao frio e várias outras variáveis estão no seu auge. Porém, apesar dessa força física, a doença e a mortalidade aumentam 200 a 300 por cento [na adolescência]. (…) Para perceber este paradoxo de um corpo saudável associado a um cérebro [programado] para correr riscos, é preciso conhecer melhor a maneira como o cérebro se modifica durante este período da vida.”

Um cérebro diferente

É precisamente isso que os cientistas – e em particular os neurocientistas – têm estado a tentar fazer, revelando uma visão totalmente nova do que significa atravessar a adolescência em termos do desenvolvimento cerebral. E ligando assim a neurobiologia aos comportamentos. Claro que este estudo das relações entre a fisiologia e a psicologia humanas ainda vai nos seus primórdios, mas já está a fornecer pistas interessantes. Quando, há uns anos, se tornou possível visualizar o cérebro humano em acção, ao vivo e em directo, graças a técnicas como a ressonância magnética funcional e outras, abriu-se uma via para o estudo pormenorizado das estruturas e circuitos do cérebro humano – nomeadamente, do cérebro adolescente. E descobriu-se que a adolescência correspondia a um período de autêntica “tempestade cerebral” – a expressão é do cientista francês Jean-Pierre Changeux, autor do livro O Homem Neuronal (Ed. Dom Quixote, 1991) com quem o P2 teve a oportunidade de falar quando da sua passagem por Lisboa há uns dias para uma conferência na Fundação Gulbenkian. Nesse mesmo local, Tom Insel, director dos National Institutes of Mental Health norte-americanos, tinha caricaturado umas semanas antes a situação dos adolescentes dizendo que o seu cérebro “se desligava” na puberdade para se tornar a ligar, “não se sabe bem porquê, por volta dos 18 anos”. Mas tanto Insel como os muitos especialistas que se têm dedicado a estudar a questão já fazem uma boa ideia do que poderá estar a “ligar” e a “desligar” o cérebro adolescente. Uma das grandes surpresas foi que, ao contrário do que se imaginava até aí, o cérebro humano não pára de desenvolver-se pouco depois da nascença (até por volta dos 18 meses, pensavam os especialistas). Antes pelo contrário, continua a desenvolver-se ao longo de toda a infância, da adolescência e mesmo do início da idade adulta. E, em particular, o volume de matéria cinzenta – a matéria “pensante” do cérebro, por assim dizer, continua a crescer ao longo da infância, para começar a diminuir a seguir à puberdade. “O volume de matéria cinzenta do cérebro tende a diminuir a partir da puberdade (ou mesmo antes, dependendo da região cerebral em causa) até aos 20 ou 30 anos”, diz-nos, numa conversa por e-mail, Sarah-Jayne Blakemore, especialista em neurociência cognitiva do University College de Londres. “Portanto, os adolescentes jovens (entre os 10 e os 15 anos de idade) possuem uma maior quantidade de matéria cinzenta, nomeadamente no seu córtex pré-frontal, do que os jovens adultos.” O córtex pré-frontal é responsável pela nossa capacidade de estabelecer prioridades, planificar o futuro e organizar as ideias, elaborar estratégias, controlar os impulsos e focar a atenção. Tudo coisas que os adolescentes têm claramente dificuldade em fazer… Com os seus colegas, Blakemore publicou há dias, no Journal of Neuroscience, um estudo no qual monitorizaram, por ressonância magnética, a actividade cerebral de 200 voluntários com idades entre os sete e os 27 anos, com o objectivo de medir, justamente, a sua capacidade de concentração. E o que observaram foi que, nos adolescentes, a activação do córtex pré-frontal era particularmente intensa. Isto sugere, segundo os investigadores, citados na imprensa britânica, que o cérebro do adolescente trabalha de forma menos eficiente que o do adulto. “Já sabíamos que o córtex pré-frontal das crianças pequenas funcionava de forma caótica”, salientava Blakemore, citada pelo Guardian, “mas descobrimos que a parte do cérebro necessária para desempenhar certos processos de tomada de decisão ainda permanece em pleno desenvolvimento durante toda a adolescência. Isso significa que o cérebro continua a fazer muito trabalho desnecessário, quando precisa de tomar decisões do tipo das que testámos [que exigem uma certa resistência às distracções].”

Pensar como adulto

A partir do início da adolescência, portanto, o volume de matéria cinzenta começa a diminuir. Continuando a citar Giedd, “as células cerebrais, as suas ligações e os seus receptores de mensageiros químicos, ou neurotransmissores, atingem um pico durante a infância para a seguir declinar durante a adolescência”. Mas esta não é a única mudança em curso; na realidade acontecem mais duas coisas: “A conectividade entre as diversas regiões cerebrais [a matéria branca] aumenta; e o equilíbrio entre os sistemas frontais (de controlo executivo) e os sistemas límbicos (emocionais) vai-se alterando”, acrescenta Giedd. Tudo isto significa que, durante a adolescência, o cérebro ainda tem matéria cinzenta a mais, uma incompleta conectividade à distância entre as diversas partes do cérebro e um equilíbrio incipiente dos aspectos cognitivos e emocionais. Nestas condições, pensam os cientistas, torna-se difícil pensar… como um adulto. A explicação mais aceite entre os cientistas para a diminuição da matéria cinzenta a partir da puberdade consiste em dizer que, ao longo da adolescência, certas ligações entre neurónios passam a ser privilegiadas em relação a outras, nomeadamente sob a influência de factores exteriores. Os cientistas pensam que o fenómeno é semelhante a uma poda (os ramos são neste caso as ramificações que os neurónios projectam para se interligarem) com os ramos que são mais usados a serem reforçados, em detrimento dos menos usados. O nosso cérebro estará assim a afinar as suas redes neuronais – processo que continuará até atingirmos a idade adulta. Também por isso será na altura da adolescência que se decide o nosso futuro intelectual. “Portanto”, dizia Giedd numa entrevista à cadeia de televisão pública norte-americana PBS, “se um adolescente está a aprender música ou a fazer desporto ou a estudar, são essas as células e as ligações que vão ficar estabelecidasdefinitivamente; e se passam o tempo deitados no sofá a jogar jogos de vídeo ou a ver a MTV, serão essas as ligações celulares que irão sobreviver.”  Quanto ao segundo aspecto do desenvolvimento do cérebro – o aumento do volume de matéria branca, que contém conexões neuronais mais compridas e ao mesmo tempo muito eficientes -, ele vai permitir interligar regiões cerebrais distantes com funções diversas, acelerando as comunicações entre elas e permitindo ao cérebro trabalhar de forma orquestrada. Só que, no início da adolescência, isso ainda não aconteceu. Por último, no que respeita ao equilíbrio “razão-emoção”, como a região pré-frontal é a última a amadurecer e ao longo da adolescência são os sistemas emocionais que primam, não é de admirar que os adolescentes adoptem comportamentos particularmente impulsivos. No fundo, apesar do seu aspecto físico “adulto”, o que os neurocientistas têm vindo a perceber é que o cérebro dos adolescentes é mais semelhante ao das crianças do que ao dos adultos. Um número crescente de estudos tem permitido perceber que os adolescentes estão, de facto, biologicamente “programados” para correr riscos, como já anunciaram este ano várias equipas, entre as quais a de Blakemore (na revista Cognitive Development). E também se descobriu recentemente que certas hormonas produzidas pelo organismo agem sobre os neurónios dos adolescentes de forma oposta à que teriam nos neurónios dos adultos, como mostraram em experiências em ratinhos, publicadas na revista Science, Sheryl Smith, da Universidade Estadual de Nova Iorque, e colegas. O que poderia explicar, segundo eles, não apenas as dificuldades de aprendizagem, mas também as súbitas mudanças de humor e os inexplicáveis estados de ansiedade dos adolescentes. Tudo isto para dizer que, da próxima vez que o seu filho ou filha adolescente ficar insuportável, lembre-se que é o seu cérebro – esse órgão extremamente complexo, com 100 mil milhões de células e biliões de interconexões, alojado no crânio, por detrás dos olhos – ainda imaturo, a falar. Bem alto e de forma nem sempre coerente. E, em vez de se zangar, explore os seus dotes diplomáticos e tente evitar que o seu filho ou filha tomem decisões que possam ser irreversíveis. “A adolescência é ao mesmo tempo um período de grandes riscos e de grandes oportunidades”, resume Giedd.

Workshop Professores – Défice De Atenção/Hiperactividade e Problemas de Comportamento – Intervir em Contexto Escolar

Maio 16, 2010 às 1:01 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O CADin – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil vai organizar um “Workshop Professores – Défice De Atenção/Hiperactividade e Problemas de Comportamento – Intervir em Contexto Escolar” no dia 22 de Maio de 2010 em Cascais. Mais informações Aqui

 

Intervenção em Adolescentes e Jovens com Problemas do Comportamento

Maio 5, 2010 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Psikontacto, vai dar a formação “Intervenção em Adolescentes e Jovens com Problemas do Comportamento “, em Coimbra nos dias 14 e 15 de Maio de 2010. Mais informações Aqui

“Mudando a sala de aula, podem mudar-se comportamentos”

Abril 9, 2010 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo no jornal Público do dia 7 de Abril de 2010, sobre as novas formas de organizar o espaço na sala de aula e as mudanças de comportamento dos alunos.

O mobiliário de madeira foi substituído por fórmica, os quadros tradicionais estão a dar lugar a outros interactivos, mas, no essencial, a sala de aula é hoje igual ao que era há 100 anos ou mais: um professor com uma mesa, junto a um quadro, de frente para 20 ou 30 alunos, que estão sentados em carteiras alinhadas em filas. Como não existem espaços neutros, há uma mensagem nesta forma de organização – uma hierarquia vertical, em que o professor é o agente e os estudantes o elemento passivo. Estão ali para ouvir, de preferência sentados direitos.

Na prática, já há muito que nada é assim: há quem deite as cadeiras para o chão, quem se levante e passeie pela sala, acabando todos na rua com uma falta disciplinar, ou quem se deixe ficar sentado, mas alheado. Há outras formas de viver a sala de aula, mas, no essencial, esta transformou-se num pesadelo para os professores e numa “seca” para os alunos. Entre os que chegam ao ensino superior, “já são muito poucos aqueles que conseguem ser estimulados”, constata Diogo Teixeira, director do Instituto Superior Autónomo de Estudos Politécnicos (IPA), em Lisboa. Terá que ser assim?

Diogo Teixeira, o coreógrafo João Fiadeiro e o designer José Luís Azevedo estão convictos de que é possível mudar este estado de coisas e que para tal não são precisos mais meios do que aqueles que os professores e alunos já têm à mão. Basta querer fazer. Esse é o desafio que estão a lançar aos docentes do ensino básico e secundário. O primeiro passo aconteceu na segunda-feira, com o workshopReinventar a sala de aula.

Foram enviados convites às escolas da Grande Lisboa, onde se afirmava, entre outros pressupostos, que a sala de aula, tal como está agora, “é um espaço antinatural”. Inscreveram-se 50 professores, participaram 30, que era a lotação máxima. Fiadeiro e Azevedo são também professores, mas no ensino superior. Com os docentes que estão antes deles não pretendem “discutir conteúdos ou pedagogias”, mas sim propor “novas abordagens à forma como se pode lidar com o espaço de uma sala de aula”, já que têm como certo que intervir aqui é também mexer no modo como professores e alunos se comportam e se relacionam.

Admitem que há uma espécie de “clima de guerra” instalado nas escolas, mas não acreditam que este se resolva com mais medidas disciplinares. Fiadeiro diz que esta é uma resposta provocada pelo “medo”.

José Luís Azevedo chama a atenção para o facto de quase terem deixado de existir pontes entre professores e alunos. Para as reconstruir, defendem ambos que os docentes têm de envolver mais os estudantes na tomada de decisões, a começar, por exemplo, pelo modo como se pode transformar uma sala de aula.

Coisas simples; soluções móveis. Por exemplo, juntando as mesas de forma a organizá-las em quadrados, ou num grande rectângulo, e sentando os alunos em volta. Esta não é só uma disposição que favorece mais a participação e aproxima o professor, como pode ser também uma forma de mudar comportamentos.

Azevedo chama a atenção de que, com esta organização, sabota-se uma hierarquia “clássica” entre os alunos: os mais barulhentos nos lugares de trás, os mais disciplinados e atentos nos da frente. No Inverno, a proximidade dos corpos ajuda também a tornar as salas menos frias. O sentimento de conforto é um redutor de agressividade, lembra o designer, que sobe a uma cadeira e cola um filtro amarelo por cima da luz de néon branca. O ambiente mudou. Mais quente, mais acolhedor, mais calmo.

E por que não alargar a participação, dando aos alunos que geralmente não vão ao quadro a possibilidade de escreverem na parede que está mesmo por detrás deles? Basta pintá-la com uma tinta, agora lançada no mercado, que transforma qualquer parede num quadro de ardósia, onde se pode escrever a giz e apagar depois.

“A cantina da nossa escola é tão deprimente. Se pedíssemos a um grupo de estudantes que a transformasse, talvez conseguíssemos que muitos mais fossem lá almoçar”, diz a psicóloga de uma escola, que acrescenta logo de seguida: “Mas os professores nem tempo têm para pensar.”

João Fiadeiro fala de “pensamento criativo”. Para que uma acção resulte, é necessário identificar quais são os constrangimentos de base, a “falta de tempo” será um deles, mas não para baixar os braços. Ideias de partida: “Parar para pensar”; encarar os problemas como “uma oportunidade”; recusar o lamento habitual do “não há meios”, já que “é sempre possível trabalhar com aquilo que já se tem”.

É o contraponto à escola futurista apresentada de manhã por António Câmara, professor da Universidade Nova de Lisboa e fundador da empresa YDreams. A realidade virtual não pode ficar à porta da sala de aula, diz o inventor.

Os docentes têm dificuldades com as novas tecnologias? Deixem que sejam os alunos a explicar como este mundo, que é o deles, funciona, aconselha Azevedo. É preciso voltar a “aprender, fazendo”, conclui Diogo Teixeira.

Mas sobretudo, diz também António Câmara, é preciso não esquecer que um professor pode ainda ser a pessoa que tem o poder de mudar a vida de um jovem.

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