Curso: “Jovens, Media e Sexualização: Problemáticas e Direitos” 9 a 23 de julho na FCSH da Universidade Nova de Lisboa

Junho 29, 2016 às 6:00 am | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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Estão abertas as inscrições, online, para o curso: “Jovens, Media e Sexualização: Problemáticas e Direitos”

A formação é promovida pela Escola de Verão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, decorrerá entre os dias 9 e 23 de julho e é orientada pelos professores Cristina Ponte e Daniel Cardoso.

Inscrições e outras informações em:
http://goo.gl/gytpTv

 

E se só revelar o sexo do seu filho aos 5 anos?

Abril 7, 2016 às 10:00 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Reportagem do Público de 3 de abril de 2016.

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FRANCISCA GORJÃO HENRIQUES

Há pais obcecados em não condicionar a orientação sexual dos filhos. Queremos educar as crianças numa cultura de diversidade e respeito pela diferença. Mas o caminho do politicamente correcto traz tantos admiradores como críticos.

Os pais sentem-se culpados por castigar os filhos. Dar panelinhas e bebés chorões a raparigas e carros a rapazes é perpetuar estereótipos. As novas Barbies vêm com cintura larga e perna gorda, os legos em cadeira de rodas. Não se atira o pau ao gato, nem se fala no “preto da Guiné”. O poema Abecedário sem juízo, de Luísa Ducla Soares, suscita queixas. O discurso quer-se cada vez mais limpo de qualquer traço de discriminação, seja de que tipo for. Mas estamos mesmo a criar crianças mais tolerantes?

Comecemos pela Barbie: talvez não haja muitos bonecos tão duramente criticados como ela. Face a uma queda nas vendas, e ao sucesso de várias marcas que usam modelos mais próximos das proporções físicas reais, a Mattel lançou uma renovação sem precedentes nos 57 anos de história da boneca mais famosa do mundo: agora, a Barbie também pode ser alta, baixa ou com curvas, tem sete tons de pele, 22 cores de olhos e 24 penteados. A diversidade chegou à Mattel.

Há quem diga que o problema não está sequer (ou principalmente) nas formas do corpo, mas no conceito da própria boneca. “Barbie, como marca, continua a enfatizar a beleza”, escreveu noWashington Post Rebecca Hains, professora no Centro de Estudos da Infância e Juventude da Salem State University. “Apesar de algumas Barbies terem profissões, a história e a atracção da boneca anda à volta da moda, beleza e aparência física, em detrimento de outros potenciais interesses ou paixões. Ao introduzir três novos tipos de corpo e diferentes características raciais, a Barbie reforça a mensagem de que, independentemente das formas ou cor da rapariga, a sua aparência deve ser a montra da sua identidade – uma ideia retrógrada que não é passada de forma igual para os rapazes e que muitos pais tentam desesperadamente ajudar as filhas a ultrapassar.”

Mas, no mesmo jornal, Maria Guido, autora do blogue Guerrilla Mom, defende precisamente o oposto. Diz que, quando era criança, a sua Barbie era proprietária de um cabeleireiro e, quando o tempo permitia as brincadeiras na rua, tornava-se fotógrafa freelance da National Geographic. Já a Elsa – a nova heroína da Disney (e personagem do filme Frozen) que destronou 11 anos de liderança Barbie no sector das bonecas – vem com “uma história detalhada num filme de duas horas. Não pode ser dona de um cabeleireiro nem tirar fotografias na selva Amazónica. Nem sequer pode usar calças de ganga. Ela é uma rainha das neves que vive na solidão do seu castelo de gelo”. Uma história criada por adultos, que não estimula a criatividade das crianças, sobre uma figura que está muito longe da mulher emancipada que a Barbie pode incarnar.

Maria Guido chama ainda a atenção para o facto de ninguém exigir que o Ken seja menos musculado. Para ela, tanto faz: ele era apenas o namorado da Barbie, e nem ele estava autorizado a conduzir o seu carro roxo. “Era sempre ela que guiava e escolhia o destino. Uma vez que o Ken não era o ‘príncipe’ nem o ‘cavaleiro de branco’, a minha Barbie podia ser um reflexo da minha individualidade e independência.”

Muito diferente é o papel de bonecos onde as limitações físicas (ou deficiências, na terminologia mais politicamente incorrecta) estão representadas. Quase ao mesmo tempo que saía a Barbie de formas mais “humanizadas”, a Lego punha no mercado um boneco numa cadeira de rodas (e nem sequer representava um idoso). A Toy Like Me, por exemplo, tem bonecos com aparelhos auditivos, óculos de invisuais, com pernas amputadas… Pretende que os 150 milhões de crianças que, em todo o mundo, têm algum tipo de limitação possam sentir-se acompanhadas.

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José Guimarães, director de pediatria do Hospital São Francisco Xavier, vê-os com bons olhos. “É uma política bastante inclusiva. Essas crianças sentem-se de facto muito diferentes”, afirma. É provável que, se estiverem numa cadeira de rodas, se não conseguirem ver ou tiverem um implante da cóclea para conseguirem ouvir, “se sintam diminuídas do ponto de vista social. Acho que é uma excelente ideia tornar isso mais normal e vulgar através de brinquedos, de filmes e novelas, porque vêem a sua situação um bocadinho normalizada na sociedade”. Para as outras, sem nenhum desses problemas, torna-se uma forma de integrar a diferença.

O pediatra do neurodesenvolvimento José Boavida também considera que as crianças devem ser educadas numa “cultura de diversidade a todos os níveis, [incluindo] diversidade física… Esta cultura de uniformizar fisicamente tudo, incluindo os brinquedos, hoje em dia não faz grande sentido”. Mas também vê riscos de se “cair no exagero e tudo o que é fisicamente perfeito não presta, e tudo é normal. Aliás, o normal não existe. É uma linha. Quanto mais se afasta da média, maior a probabilidade de não ser [considerado] normal. Mas os limites são cada vez mais frustes”.

De qualquer forma, dar a uma criança sem qualquer problema uma boneca com uma das pernas amputadas, por exemplo, pode ser positivo, mas está muito longe de resolver tudo. “Lido com crianças que têm muitas limitações – sejam intelectuais, físicas, motoras. De vez em quando, há pais muito preocupados porque são colocadas nas salas dos filhos crianças com deficiências. É cada vez menos uma realidade, mas ainda existe uma ideia de que há certas coisas que são como o sarampo, que se pegam. Pelo contrário, a convivência de crianças sem problemas com crianças com problemas ajuda-os muito mais a compreender o mundo em que vivemos do que seleccionando e agrupando.”

O neuropediatra José Paulo Monteiro também não duvida de que não adianta dar uma boneca com uma prótese ou uma cicatriz na cara a uma criança sem limitações: “Está o adulto a encontrar uma solução que parece politicamente correcta, mas não sabemos se estamos a chegar ao sítio certo. A criança aceitar uma criança diferente é mais fácil do que pensamos. Às vezes, é mais difícil para um adulto.” A experiência diz-lhe que as crianças integram facilmente a diferença “sobretudo se for introduzida cedo na sua vida, por volta dos três, quatro anos. Consegue aceitar e conviver, ter uma atitude protectora e maternal.”

O que é o politicamente correcto?

Mesmo que as prateleiras dos hipermercados estejam ainda cheias de brinquedos tradicionais, daqueles acusados de perpetuar os estereótipos, tornou-se muito fácil encontrar alternativas. A diversidade teve um grande impulso com a Internet.

Para a socióloga Ana Nunes de Almeida, do Instituto de Ciências Sociais, “não habituar as crianças a um unanimismo de modelos – de beleza, de função, os modos de brincar, guardar – é muito benéfico”, afirma. Mas, mais do que os brinquedos, “é importantíssimo o ambiente. Pode ter a Barbie muçulmana, a Barbie chinesa, a Barbie negra, a Barbie gorda, a Barbie envelhecida ou obesa… mas, se em casa tiver uma mãe que faz dietas exageradas para manter uma cintura de vespa, vive para o corpo, está sempre a censurar a criança porque ela tem o cabelo despenteado ou não se arranja bem, ou se desconfia do amigo negro que a criança traz lá a casa, tem aqui uma mensagem contraditória com a dos brinquedos”. E será essa mensagem, a que é dada pelo exemplo do adulto, que ela vai assimilar.

Em todo o caso, “educar para a diversidade é um caminho muito mais interessante do que coibir as crianças, ou limitá-las a uma ideia única do que elas devem ser como crianças ou como adultos”, continua a socióloga. “Nas sociedades onde vivemos, é difícil ser de outra maneira. As crianças são socializadas em contextos diferentes, diversificados: a família, escola, amigos, famílias dos amigos, a televisão, os media põem-nas em contacto com uma grande diversidade de valores que às vezes nem são complementares, são antagónicos. Quanto mais cedo as crianças se habituarem a lidar com essa diversidade, melhor. Outra coisa é saber se elas são mais tolerantes. Mas, sem a experiência da diversidade, certamente a tolerância é mais difícil de ensinar.”

“Educar para a diversidade é um caminho muito mais interessante do que coibir as crianças, ou limitá-las a uma ideia única do que elas devem ser como crianças ou como adultos”

Ana Nunes de Almeida, socióloga

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É bom não juntar no mesmo saco o politicamente correcto e a defesa da diversidade, alerta. “Muitas vezes, o politicamente correcto é uma ditadura. É um discurso dominante sobre as coisas, favorece uma certa ordem estabelecida – moral, ética, política. Os conteúdos podem variar imenso consoante os meios sociais, as idades das pessoas – é uma noção muito fluida, muito escorregadia. É um discurso autoritário e muito adultocêntrico” que “fecha o caminho à diversidade”.

O que é, então, o “politicamente correcto?”, perguntámos ao antropólogo Miguel Vale de Almeida, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). A expressão foi massificada por volta dos anos 1970, 80, “como uma proposta positiva de académicos, educadores, pessoas ligadas a diferentes movimentos sociais (como os direitos dos negros, das mulheres, dos homossexuais…), preocupados com a aplicação de uma teoria consagrada nas ciências da linguagem” e que defendia que “as palavras têm efeitos na realidade: reproduzem ideologias, valores”. Pretendia combater os hábitos de linguagem e escrita que “reproduziam hierarquias e desigualdades e que podiam ser perfeitamente mudados com alternativas”; e, por outro lado, “abrir [a linguagem] a variações, nomeadamente de género, de inclusão racial…”

Por exemplo, o masculino não deve ser utilizado para designar o neutro quando falamos de género (e por isso tantos políticos se dirigem aos portugueses e portuguesas) – “isso significa um cuidado com a inclusão”. Ou “não usar certas metáforas que têm uma história ligada ao racismo…, expressões como ‘cigano’ para querer dizer ladrão, ou ‘trabalhar como um negro’”.

Depois, nos anos 90, veio o movimento de reacção. E foi este que se instalou. “Começou a ser, por um lado, alvo de humor, o que é óptimo, e por outro, [surgiram] acusações a pessoas mais fanáticas da aplicação de certas formas de correcção política. Isso é que se espalhou muito para a opinião pública”, afirma o antropólogo. Actualmente, a expressão é usada para se referir a uma “boa educação excessiva, preocupação em não ferir os outros, e até mesmo à hipocrisia de dourar a pílula quando a realidade é mais crua do que isso. Até se acusa o politicamente correcto de ser uma censura”.

Para Miguel Vale de Almeida, esta reacção contra o politicamente correcto existe porque “as pessoas se sentem incomodadas com a necessidade de mudar o seu ponto de vista. ‘Deixa-me continuar a pensar como sempre pensei.’ Isso vem da parte de quem está numa posição em que não se sente tocado pelos hábitos de linguagem.” Voltar agora atrás será difícil. “Do ponto de vista linguístico, já ninguém muda isto.”

O que há a fazer é uma pedagogia sem autoritarismos (“embora as minorias e as pessoas mais excluídas não tenham grande poder para ser autoritárias”). “Faço-a muito com os meus alunos, porque a Antropologia está muito ligada a isto. Quando ponho negros, mulheres, ou gays mais fragilizados a discutir um bocadinho a questão, já não acham que seja uma hipocrisia: ‘Vem ver a minha experiência, ver como é’.”

O antropólogo afirma que se preocupa “muito mais com as velhas desigualdades e ofensas que sobrevivem, que estão muito expandidas, do que com estas pequenas resistências, que não têm o mesmo peso”. Mas, ainda assim, este é “um debate interessante, porque no meio dele vem ao de cima uma insensibilidade baseada na falta de experiência, na ignorância da média das pessoas, que têm a sensação de que não há problema nenhum”.

Corredor azul, corredor rosa

Entrámos num hipermercado na zona da grande Lisboa. O corredor dos brinquedos não está assinalado como “zona de meninos” e “zona de meninas”, mas nem precisa. De um lado, um banho de azul, do outro, um banho de cor-de-rosa. De um lado está o castelo medieval da Playmobil, os super-homens e os Transformers. Do outro, os bebés-chorões, os tachinhos, oskits de cabeleireiro. Há uma Nerf (metralhadora que dispara balas de esponja) roxa, a Nerf Rebelle – se uma rapariga a usa, só pode ser rebelde; as dos rapazes têm nomes como Elite Sharpfire, Strongman ou Firestrike. A máquina de gelados está ao lado dos estojos de maquilhagem. No final do corredor rosa há duas prateleiras dos chamados “jogos unissexo”: Dá cá um bigode, Cluedo, Ciência Explosiva, Corpo Humano…

A socióloga Elizabeth V. Sweet, da Universidade da Califórnia (Davis), tem vindo a estudar a relação entre brinquedos e questões de género. Com base numa análise a sete mil catálogos de publicidade a brinquedos, conclui que, em 1905, o género desempenhava um papel insignificante; mas que, em 1925 e 1945, cerca de metade dos anúncios tinha essa componente e muitos reflectiam os estereótipos de género. Na década de 70, esses estereótipos foram desafiados por brinquedos mais neutros, mas no final do século XX os níveis voltaram aos de meados do século e emergiram novos mecanismos de marcação do género. Hoje em dia, diz, eles estão mais presentes do que alguma vez estiveram.

Sweet fala no “fosso do corredor azul e rosa” – no dos rapazes há “acção, agressão e excitação”, no das raparigas “ideais de beleza, prestação de cuidados, domesticidade”. O que acontece à menina de seis anos que quer uns binóculos ou um microscópio? Terá de ir a uma zona onde se lê “brinquedos de rapaz” e ficar a saber que não se espera que brinque com aquilo. “O que é que estes corredores dizem a uma rapariga sobre quais devem ser os seus interesses? Ter de ir ao corredor azul procurar um brinquedo semeia uma dúvida”, disse Sweet numa TEDxTalk no ano passado. “Todos os miúdos têm de negar ou abandonar uma parte de si próprios para encaixarem nestas caixas azuis e rosas. Os que recusam pagam um preço elevado”, adiantou. “Milhares de crianças são atormentadas e até agredidas por isso.”

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Segundo a socióloga, a investigação revela que “os estereótipos estão na origem dos preconceitos dos adultos” e têm um impacto na forma como se desempenham os papéis. O facto de os estojos de química estarem no corredor azul pode “ajudar a explicar a inferior representação feminina na investigação científica”. O mesmo acontece com os rapazes em relação às profissões relacionadas com a prestação de cuidados. Retirar essa carga de género aos brinquedos permitirá às crianças explorar mais livremente os seus vários interesses.

Tem havido algumas tentativas de acabar com a separação. O facto de a demarcação de género não ser tão acentuada na década de 1970 prova que talvez seja preciso andar para trás. “Aconteceu numa altura em que a sociedade debatia a igualdade de género e como a conquistar… Agora, debatem-se os interesses das empresas… Temos de voltar aos debates antigos.” Mais radical foi um casal inglês que até o seu filho fazer cinco anos não revelou a ninguém o sexo da criança. Beck Laxton e Kieran Cooper queriam que Sasha não fosse influenciado pelos preconceitos sociais. Não tinha brinquedos que não fossem “livres de género”, alternava as calças com as saias – e assim foi até a criança entrar na primária.

José Guimarães, do Hospital São Francisco Xavier, comenta: “A minha preocupação seria com os pais. Toda a vida houve várias orientações do ponto de vista do género, mas 90% da população tem a sua definida. Temos de encarar com naturalidade: se nasceu um menino, até prova em contrário é um menino. Seria muito confuso para uma criança tratá-la sem esse tipo de diferenciação.” Isto é muito diferente de não respeitar as tendências de uma criança para um tipo de brincadeira mais conectada com o sexo oposto. “Uma rapariga que se sente muito mais atraída para andar a brincar com os carrinhos, que gosta de andar a correr e saltar e a subir às árvores e em lutas com os amigos, não temos nada que intervir. Tal como com o rapaz que se sente bem a brincar com as raparigas, porque acha que os outros [rapazes] são intempestivos e desassossegados e andam sempre em lutas. Forçar é que não tem justificação.”

“Uma rapariga que se sente muito mais atraída para andar a brincar com os carrinhos não temos nada que intervir. Tal como com o rapaz que se sente bem a brincar com as raparigas (…) Forçar é que não tem justificação”

José Guimarães, pediatra

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José Boavida afirma que “a criança está geneticamente programada para explorar o ambiente” e é assim que se desenvolve. Idealmente, fará isso sem condicionamentos em termos de brinquedos, jogos, ou mesmo roupas. “Mas há uma coisa espontânea. Há uma tendência para um determinado tipo [de brinquedos].” As bonecas para elas, as espadas e pistolas para eles. E por falar em armas, devemos evitar brinquedos que traduzam violência? “Não sei se é dessa forma que se vai evitar mais tarde que haja tendências para a agressividade. Não tenho a certeza disso. O que se sabe é que a criança, se não lhe dão a pistola, pega num pau com o formato de uma pistola e anda aos tiros.”

José Guimarães fala também do que distingue ambos os sexos: “As raparigas, de uma forma geral, têm um comportamento mais concentrado, mais tranquilo e menos físico, e os rapazes a partir de certa altura têm necessidade de correr, de dispêndio de energia – mas há raparigas que são também muito físicas, isso é normal e não devemos combater nem controlar.”

Menus mais neutros

Em Março, Fernanda Câncio escreveu no Diário de Notícias que a McDonald’s designava os seus menus infantis – os Happy Meals – como “de rapaz” e “de rapariga”; “ao balcão, se não houver pedido em contrário, os empregados entregam as refeições infantis com o brinquedo de acordo com o sexo das crianças”, como o My Little Pony para as meninas e os Transformers para os rapazes, escreveu a jornalista. Isto para além de um questionário diferenciado em que, para a primeira pergunta, “qual o teu maior talento?”, “as opções de resposta para elas são ‘rapidez’, ‘liderança’, ‘criatividade’ e ‘culinária’. No questionário dos rapazes, as duas primeiras opções mantinham-se, mas as duas últimas passavam a ‘trabalho de equipa’ e ‘força’”. A cadeia de fast-food mudou entretanto as suas práticas – agora os empregados têm de perguntar que brinquedo a criança quer em vez de os entregar de acordo com o género.

O assunto levou a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino, a afirmar: “Não há brinquedos de menino e de menina. A prática de dividir brinquedos por sexo é uma atitude discriminatória que reforça os estereótipos de género.” E fez João Miguel Tavares escrever uma crónica no PÚBLICO intitulada “O Happy Meal é sexista?”. “O mundo ocidental está a ser tomado por uma fúria normativa que começa a meter medo”, escreveu.

Agora, por telefone, manifesta-se contra esta “projecção das preocupações dos adultos nas crianças. Há uma espécie de vício das causas fracturantes. Durante muitos anos lutou-se por coisas que valem a pena [como a igualdade para as mulheres, direitos dos homossexuais, aborto, etc.]. Depois, chegou-se a um ponto em que já conquistámos o fundamental, mas estamos viciados naquilo. Tornamo-nos burocratas das causas fracturantes”.

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Aceita que a solução encontrada pela McDonald’s é melhor do que a prática anterior. “O problema é que aquilo seja um problema. Tem subjacente a ideia de que a sociabilização e a cultura é totalmente responsável por aquilo que somos, como se não houvesse nenhuma predisposição biológica… É uma visão pouco enriquecedora.”

O jornalista, pai de quatro filhos e autor do blogue Pais de Quatro, considera que “os adultos têm dificuldade em entender o mundo das crianças” e “projectam os seus medos” nelas. O resultado é “uma Disneyficação do mundo”, uma “infantilização da sociedade”, em que “o lobo mau não é comido pelos porquinhos [como na história original] mas foge com o rabo a arder. Mas comer o lobo mau é acabar com o mal” e ter a certeza de que a ameaça não fica a espreitar ao virar da esquina, explica. Não traumatiza as crianças, pelo contrário, dá-lhes segurança.

Onde a coisa não avança

Para Miguel Vale de Almeida, as crianças portuguesas estão ainda longe de viver num ambiente politicamente correcto. “Sobretudo em algumas áreas do ensino, a coisa não avança.” As “grandes narrativas”, como a narrativa histórica, continuam muito longe do que seria politicamente correcto. “Substituímos o discurso do Estado Novo sobre o colonialismo como uma coisa excepcional, diferente dos outros [colonialismos], por uma ideia universalista, humanista, de contacto de culturas, que sendo melhor não fez o trabalho crítico de falar [aprofundadamente] do nosso papel na escravatura, do trabalho forçado, da guerra colonial.”

É verdade que “nas pequenas coisas simbólicas”, como o tipo de personagens que aparecem nos manuais escolares, “a coisa melhorou um bocadinho, por exemplo ao nível da representação racial nos desenhos”, adianta Vale de Almeida. (Recentemente, surgiram várias queixas sobre conteúdos racistas nos manuais escolares, como por exemplo num exercício do Livro de Fichas Alfa – Português – 2.º Ano, da Porto Editora (2015): “Lê as seguintes lengalengas. Coloca os Acentos nas palavras onde faltam/ Truz Truz/Quem é?/É o preto da Guiné…/ O que traz?/ Café.” Noutro livro da Porto Editora, foi a letra da canção A Lenda de El Rei Dom Sebastião, de José Cid e do Quarteto 1111, a visada: “Ciganos vindos de longe/Falcatos desconhecidos/ Tentando iludir o povo/ Afirmaram serem eles/ El Rei D. Sebastião/E que voltava de novo”).

Mas “há uma área onde não mexeu nada mesmo: a área do género”. Os papéis desempenhados pelo pai ou pela mãe, as profissões atribuídas aos homens ou às mulheres, continuam a ser distinguidos como antes. “E há muito pouca coisa sobre diversidade familiar, mesmo a que tenha a ver com os miúdos que só vivem com um dos pais, porque eles são divorciados, para já não falar de famílias de casais do mesmo sexo. Está muito, muito, muito atrasado e há um tabu muito grande.”

Salsichas e buracos

Janeiro do ano passado, a Oxford University Press saltou para as notícias por querer impedir qualquer referência a porcos ou salsichas nos seus livros infantis, de forma a não ofender judeus e muçulmanos. “No Reino Unido, tomamos como garantido que não vão ser incluídas referências a sexo, violência ou álcool nos nossos manuais; fazê-lo seria inapropriado e ofensivo para muitos. Para termos um impacto em todo o mundo, há outras sensibilidades que, apesar de não serem necessariamente evidentes para nós, são extremamente importantes para outras pessoas”, escreveu Jane Harley, da editora, no Guardian.

O politicamente correcto passa por neutralizar na terminologia os sinais que nos diferenciam – “não se diz buraco, diz-se orifício”, brinca o pediatra José Boavida. Passa pelo que pode causar desconforto, medo, sentimentos de inferioridade.  Muita gente considera que se está a ir longe demais nestas cautelas. Segundo uma sondagem feita pela empresa de sondagens Rasmussen no ano passado, 71% dos americanos acham que “o politicamente correcto é um problema na América actual”, bem acima dos 58% de quatro anos antes.

Nos Estados Unidos, instalou-se o debate sobre o facto de haver humoristas que se recusam a ir a universidades fazer performances e acusam o politicamente correcto de estar a matar o humor (Jerry Seinfeld, Chris Rock, ou John Cleese). No Verão, estudantes da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, quiseram que fosse colocada na capa de alguns clássicos da literatura uma advertência sobre o “perigo” para o “bem-estar mental” que representam os seus conteúdos, potencialmente causadores de sofrimento, trauma ou angústia.

“A criança tem de perceber que para ter uma coisa, um bem ou até uma pessoa para amar, precisa de prescindir do imediato. O adiamento da satisfação, do prazer, é fundamental na sua aculturação”

Pedro Cabral, neurologista pediátrico

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José Boavida fala da importância do medo. “Estamos a diminuir as capacidades adaptativas das crianças a situações menos agradáveis”, afirma. É certo que é preciso evitar a todo o custo o chamado “stress tóxico” – a “exposição em idade precoce a maus tratos, durante os primeiros dois, três anos de vida”, criando níveis elevados de cortisol, o que tem uma influência negativa no desenvolvimento da estrutura cerebral, inclusivamente das sinapses, explica. Mas há outro tipo de stress, o chamado “stress positivo”, que é fundamental. Desencadeia-se “quando uma criança é sujeita a uma situação menos agradável por períodos curtos de tempo [como levar uma vacina] e quando existe uma relação afectiva com um adulto que exerce um efeito protector. Faz falta à criança para que ela se desenvolva e consiga ganhar defesas para situações menos agradáveis. Privar a criança de tudo o que é desagradável não a prepara seguramente para a vida”. Quanto mais precoce, mais impacto tem no sistema nervoso, desenvolvendo a neuroplasticidade cerebral, explica.

Não contrariar a criança, não lhe provocar este “stress positivo”, cria “uma deformação do ambiente, que permite aos miúdos fazerem tudo o que querem quando querem”, diz Pedro Cabral, director clínico do Cadin (Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil). E isto por sua vez deixa-os “muito insatisfeitos muitas vezes, muito inseguros, sem saber lutar pelas coisas. Quando chegam à idade adulta, não sabem exercer a sua autonomia. Habituaram-se a controlar a situação em casa. Há uma distorção completa do que é o mundo exterior”.

Reconhece que “é uma coisa que me dá que pensar todos os dias: a influência do politicamente correcto nas práticas de intervenção em pediatria e desenvolvimento. De que maneira isto pode estar a distorcer a nossa visão das coisas?”. Por exemplo, os castigos. Há agora “o dogma” de não castigar as crianças. Para Pedro Cabral, isto traz duas consequências. “Primeiro, faz colapsar a estrutura familiar”, porque anula a hierarquia. “A separação de gerações é muito importante e foi a primeira vítima do politicamente correcto porque impede os pais de exercer a sua autoridade em casa. Põe os pais numa camisa de forças e põe os miúdos a funcionar ao mesmo nível que os pais… O miúdo sabe que não existe diferença de gerações e pode dizer: ‘Eu não faço porque não quero fazer.’ Vai replicar lá fora [na escola, por exemplo] um comportamento que em casa já nem precisa de ter.”

Tentar fazer só o que se quer “é uma coisa muito biológica: todos nós procuramos o prazer, a saciedade e o bem-estar e fugimos do desprazer. Saber adiar a procura do desejo é fundamental para conseguirmos aprender, estudar, fazer exames”, adianta Pedro Cabral. “A criança tem de perceber que para ter uma coisa, um bem ou até uma pessoa para amar, precisa de prescindir do imediato. O adiamento da satisfação, do prazer, é fundamental na sua aculturação.” Quando isso não acontece? “Vemos pessoas que são excelentes naquilo que gostam de fazer e não querem saber de mais nada, que são muito pouco solidárias e incapazes de construir soluções em situação de adversidade. São uns eternos insatisfeitos.”

Uma questão geracional?

A revista Forbes (conservadora) escrevia em Junho do ano passado que as políticas politicamente correctas estão a ser acompanhadas de uma crescente “cultura de vitimização” que transcende a ideologia. Tornou-se mais sobre a protecção das sensibilidades do indivíduo do que sobre a defesa de certos grupos. Passou de um debate centrado na liberdade de expressão para integrar agora algumas formas de censura, segundo os seus críticos.

Será uma questão geracional? Porquê este regresso em força do politicamente correcto? A Forbesrefere que uma das razões foi a emergência das redes sociais, “cuja velocidade e enorme alcance ampliou um ciclo infindável de raiva que recompensa as vozes mais estridentes”.

Mas, sobretudo, há a emergência de uma geração que cresceu a ouvir falar de tolerância e inclusão nas salas de aula – o mesmo espaço onde antes se exigia liberdade de expressão e agora se reclama por censura a livros ou humoristas. “Os millenials [nascidos no início dos anos 1980 até 2000] encaram o politicamente correcto não tanto como um posicionamento mas como uma forma de vida”, que inclui “cruzadas pela segurança emocional” de cada elemento.

A ministra alemã da Família, Kristina Schroeder – que defendeu que Deus não deve ter género –, criticou um dos livros Pipi das Meias Altas, de Astrid Lindgren, que se refere a um personagem como “preto”. Vários clássicos da literatura infantil – incluindo os contos tradicionais reunidos pelos irmãos Grimm há 200 anos – estão a sofrer alterações por se considerarem desadequados ou terem partes consideradas demasiado violentas. Algumas editoras, mantendo os termos ou passagens polémicos, optam por notas de rodapé para explicar que a terminologia original já não é utilizada.

“Se não podemos falar das diferenças que nos intrigam, ou das coisas sobre as quais temos curiosidade, sem medo de sermos ofensivos, então como poderemos ultrapassar a nossa ignorância sobre culturas e raças – ou até sobre o sexo oposto?”

BJ Gallagher, autor livros sobre a diversidade

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Jacques Schuster escreveu num editorial do Die Welt: “Porque é que não hão-de ser os pais a escolher aquilo que lêem aos filhos”, fazendo eles essa selecção? “Uma pessoa que ache que a arte deve ser alterada porque contradiz a moralidade prevalecente deve ter ficado contente quando os taliban destruíram os budas de Bamiyan.”

Num blogue do Huffington Post, BJ Gallagher, autor de livros sobre a diversidade, escrevia que “o movimento do politicamente correcto foi longe demais” e que, apesar de as suas intenções iniciais serem positivas – evitar que se firam sensibilidades sobre raça, género, orientação sexual, capacidades físicas… –, o efeito agora é “simplesmente evitarem-se esses assuntos e, consequentemente, impedindo-nos de nos sentirmos confortáveis vivendo e trabalhando com aqueles que são diferentes de nós”. Adianta que, “nos dias que correm, as pessoas têm tanto medo que lhes chamem ‘sexistas’ ou ‘racistas’ ou ‘anti-semitas’ que andamos cheios de rodeios ao falar de temas como a diversidade e a evitá-los sempre que conseguimos”. E questiona: “Se não podemos falar das diferenças que nos intrigam, ou das coisas sobre as quais temos curiosidade, sem medo de sermos ofensivos, então como poderemos ultrapassar a nossa ignorância sobre culturas e raças – ou até sobre o sexo oposto?”

João Miguel Tavares também considera que a onda do politicamente correcto “está a ter um impacto grave na liberdade de expressão, de as pessoas poderem dizer aquilo que querem”. E a esquerda, que fazia da liberdade de expressão uma bandeira, tem aqui as suas responsabilidades por causa dos tais “burocratas das causas fracturantes”, denuncia. O politicamente correcto (que nos EUA já é referido simplesmente pela sua sigla, PC) espelha uma “absolutização do nosso lugar no mundo: acha que somos nós, e a sociedade, que define e condiciona tudo o que acontece” a uma criança. “É colocar-nos no papel de Deus. Sabemos que não temos esse controlo. Tanto o argumento de que tudo é natural é absurdo, como é o seu contrário – já nada é natural, genético.”

Já em relação a questões de racismo, por exemplo, a situação é distinta e o meio desempenha um papel fundamental. A linguagem que se usa em casa é determinante. “Há uma diferença gigante da minha geração para a dos meus filhos. Aí, os pais têm uma enorme responsabilidade.” Em todo o caso, talvez este não seja o exemplo de discriminação que vale a pena debater. “A distinção de classes é que dura muito, é muito menos falada e muito dificilmente ultrapassada. Os pais estão mais preparados para ter na família um negro, um chinês, um gay. Mas a sua menina, que andou na faculdade, casar com um tipo das obras? Isso é que não.” É um fosso que “há-de ser ultrapassável, mas é dificílimo”.

 

Livros infantis discutem política, gênero e regimes totalitários

Março 10, 2016 às 8:00 pm | Na categoria Livros | Deixe o seu comentário
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texto do site http://www1.folha.uol.com.br de 27 de fevereiro de 2016.

 

CRISTINA PAIVA DE SÃO PAULO

Você vai com seu filho à livraria e deixa-o escolher os livros que deseja levar pra casa, e, obviamente, as crianças adoram aqueles coloridos e belamente ilustrados. Ele (ou ela) surge então, na hora do jantar, com perguntas do tipo: por que (no caso do garoto) eu não posso usar vestido se homens e mulheres são iguais? O que o seu partido político defende? Nós somos ricos de verdade ou da classe média que inveja os ricos?

Está preparado? Bem, se você é pai ou mãe engajado numa educação crítica e progressista, vai se divertir com a coleção “Livros para o Amanhã”, que a Boitatá (selo da editora Boitempo voltado para crianças) acaba de lançar. São quatro livros que versam sobre o regime democrático (“A Democracia Pode Ser Assim”), o autoritarismo (“A Ditadura É Assim”), as desigualdades entre as classes (“O que São Classes Sociais?”) e entre os sexos (“As Mulheres e os Homens”). Os dois primeiros já foram lançados; os outros sairão em março

Mikel Casal/Reprodução

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Galeria de ditadores para “A Ditadura é Assim”

Os textos foram resgatados de edições espanholas publicadas entre 1977 e 1978 (já as belas ilustrações foram feitas especialmente para as reedições), informação que se encontra na introdução dos volumes e é indispensável na contextualização da leitura.

capaIsso porque o tom afirmativo e um tanto esquemático adotado na apresentação de assuntos complexos causa surpresa, mas torna-se compreensível diante de um pano de fundo no qual valores como o direito à liberdade e à vida se encontram suspensos ou gravemente ameaçados, como no caso dos longos anos (1939-1975) da ditadura do general Francisco Franco.

O problema é que, por trás, há a ideia de que as desigualdades (entre classes econômicas e políticas e entre sexos) são invariavelmente consequência de abusos de poder, da imposição à força. Só que nem sempre é assim, e nem sempre o mundo se divide em apenas dois lados. Nos anos 1970, ainda havia a ideia de oposições distintas mais claras, entre direita e esquerda, conservadores e progressistas ou liberais, golpistas e democratas e até (por que não?) homens e mulheres. Sabemos que, hoje em dia, essas oposições não são tão nítidas: a agenda de partidos mais à direita e ou à esquerda nem sempre segue polarizada, assim como o feminismo não é apenas um e assume nuances e reivindicações que ultrapassam o direito de mulheres ocuparem lugares iguais aos tradicionalmente reservados aos homens (sem tocar no assunto de outros tipos de sexualidade…).

De qualquer modo, não é um discurso que tenha perdido sua validade,capa2 pois há casos e casos de exploração e desigualdade “”e, para romper hábitos culturais e históricos naturalizados, é preciso, pelo menos num primeiro momento, apontar o dedo em riste, denunciar o absurdo, ser curto e grosso. Nem sempre há espaço para relativizações.

Cada um dos volumes é ilustrado por um artista contemporâneo espanhol, trazendo diferentes linguagens estéticas e relações com os textos. Nos volumes já publicados, por exemplo, Marta Pina produz colagens a partir de fotografias e gravuras de revistas antigas, que lembram muito as animações com um pé no surrealismo do grupo britânico Monty Python, emprestando um caráter mais aberto e lúdico ao texto. Já o traço do chargista político Mikel Casal cria uma atmosfera ao mesmo tempo refinada e cômica em “A Ditadura É Assim”, com referências que parecem ir das caricaturas do expressionista George Grosz (implacável satirista da República de Weimar) aos alucinados desenhos da Pantera Cor-de-rosa.

Ao final, são livros que servem bem aocapa3 propósito de instigar o debate e, quando lidos pelas crianças, demandam o acompanhamento de adultos interessados em orientar a reflexão com explicações e novas perguntas. Ou corre-se o risco de ser pego de surpresa e engasgar com a sopa.

A DEMOCRACIA PODE SER ASSIM

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Marta Pina

EDITORA: Boitatá

A DITADURA É ASSIM capa4

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Mikel Casal

TRADUÇÃO: Thaisa Burani

EDITORA: Boitatá

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

O QUE SÃO CLASSES SOCIAIS?

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Joan Negrescolor

TRADUÇÃO: Thaisa Burani

EDITORA: Boitatá

AS MULHERES E OS HOMENS

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Luci Gutiérrez

TRADUÇÃO: Thaisa Burani

EDITORA: Boitatá

 

 

 

 

 

Ser rapariga, imigrante e ter chumbado contribuem para fracassar a Matemática

Fevereiro 14, 2016 às 5:18 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 10 de fevereiro de 2016.

Descarregar o relatório da OCDE citado na notícia “Low-Performing Students : Why They Fall Behind and How To Help Them Succeed” no link:

http://www.oecd.org/education/low-performing-students-9789264250246-en.htm

Adriano Miranda

Clara Viana

Relatório da OCDE sobre os alunos com desempenhos mais fracos nos testes PISA constata que as características das escolas e dos professores têm mais impacto do que o estatuto socioeconómico.

Uma rapariga de um estrato social intermédio, que viva numa família monoparental, tenha um passado de imigração, fale em casa uma língua diferente da usada na escola, habite numa área rural, não tenha frequentado o ensino pré-escolar, conte já com um chumbo e frequente um curso profissional tem 76% de probabilidades de ter fracos desempenhos a Matemática. É este o principal perfil de risco identificado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no seu primeiro relatório sobre os estudantes com fracos desempenhos, que foi divulgado nesta quarta-feira.

A comparação entre as probabilidades de insucesso é brutal. Segundo a OCDE, se a situação for a inversa a todos os níveis, mas mantendo-se o mesmo estatuto socioeconómico, a probabilidade de ter fracos desempenhos a Matemática desce para 10%. É o que se passará com um rapaz do mesmo estrato socioeconómico, mas que viva numa família biparental, sem antecedentes de imigração, que fale a mesma língua em casa e na escola, não tenha chumbado e esteja no ensino regular.

Em Portugal, a fórmula repete-se, com a retenção a ser o principal factor de risco. Aos 15 anos, 56,1% dos alunos com piores desempenhos a Matemática nos testes PISA (Programme for International Student Assessment) realizados em 2012 já tinha chumbado pelo menos uma vez. A média na OCDE é de 54,4%. Nos 64 países analisados, Portugal está entre os dez com maior percentagem de estudantes que reportaram já ter reprovado pelo menos um ano: 34,3%, o que quase triplica a média da OCDE.

O segundo factor de risco em Portugal é a frequência dos chamados cursos vocacionais ou profissionais: 49,3% dos estudantes com desempenhos mais fracos estão nesta via (contra 40,6% de média na OCDE). O estatuto socioeconómico vem em terceiro lugar – 44,2% dos estudantes mais carenciados estão entre os que têm piores resultados, sendo que no extremo oposto esta percentagem desce para 7,4%. Em 64 países analisados, Portugal é o 15º com maior diferença de desempenhos entre alunos de estratos carenciados e os de estratos desfavorecidos.

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Quanto aos outros factores de risco, regista-se que entre os 6,9% de alunos de 15 anos com um passado de imigração que estão nas escolas portuguesas quase metade (42,4%) tiveram fracos desempenhos, enquanto entre os que não têm esta origem tal se passou com 22,5%. Em último lugar surge o estatuto da família, com 25,9% dos que vivem em famílias monoparentais a figurarem entre os alunos com piores desempenhos. A média na OCDE é de 21,8%. O género prejudica as raparigas no caso da Matemática, mas na Leitura e Ciências são os rapazes que estão em maioria no escalão dos desempenhos mais fracos.

Estes valores dizem respeito aos alunos que nos testes PISA ficaram abaixo do nível 2. Segundo a OCDE, tal significa que não têm as competências mínimas necessárias para uma participação activa e eficaz na sociedade, por demonstrarem muitas dificuldades em realizar mesmo as tarefas mais simples do dia-a-dia.

Em média, na OCDE, cerca de 28% dos jovens com 15 anos estavam nesta situação em 2012 em pelo menos um dos três domínios avaliados pelo PISA: literacia em Matemática, Leitura e Ciências. E 11,6% ficaram abaixo do nível dois em todos os domínios. Em Portugal foram 12,6%. Como tem sido norma, a percentagem de fracos desempenhos foi maior a Matemática do que nos outros domínios.

Escolas contam mais

Mas as diferenças entre as características socioeconómicas, demográficas e de percurso escolar dos alunos só explicam, em média, 15% das variações na proporção dos estudantes com piores resultados, adianta o relatório. A OCDE já tinha constatado que o tipo de políticas adoptadas pelos Estados e as práticas seguidas pelas escolas tinham um impacto maior na educação do que o nível de desenvolvimento económico do país. Agora volta a fazê-lo, ao concluir que 35% da proporção dos alunos com piores desempenhos se devem às diferenças entre escolas.

Diz a este respeito que “os estudantes que frequentam escolas onde os professores os apoiam mais e estão mais empenhados têm menos probabilidades de terem piores resultados, enquanto os alunos que têm professores com poucas expectativas sobre eles e que faltam têm maiores possibilidades de ter desempenhos mais fracos a Matemática”, independentemente do meio socioeconómico em que se inserem. Parece óbvio, mas a má notícia é que Portugal figura, segundo a OCDE, entre os seis países em que o empenho dos professores é menor. Para esta variável são tidos em conta o entusiasmo com que desenvolvem o seu trabalho, o orgulho que têm na escola e o modo como valorizam o sucesso académico.

A OCDE constatou a, este respeito, que as escolas com maior percentagem de alunos com fracos resultados são aquelas onde os professores faltam mais. Portugal figura outra vez entre os países onde este problema tem maior impacto. Em conjunto com a Bélgica, Emirados Árabes e Uruguai, a diferença na percentagem de estudantes com fracos resultados é de 15 pontos percentuais ou mais entre as escolas com forte absentismo dos professores e aquelas onde este problema não tem significado. Metade dos alunos portugueses com piores desempenhos nos testes PISA frequentavam estabelecimentos de ensino onde os docentes faltavam, contra uma média 27,6% na OCDE. Já as baixas expectativas dos professores em relação ao desempenho dos estudantes contribuem para 32,4% dos maus resultados. Na OCDE a média foi de 30,6%.

Outro factor de peso tem a ver com a autonomia das escolas. No relatório refere-se que quando têm mais autonomia de decisão sobre o currículo e as formas de avaliação a percentagem e alunos com fracos desempenhos diminui. “Mas esta associação não é observada quando as escolas têm mais autonomia na contratação de professores”, pode ler-se.

O exemplo da Ásia

É, aliás, pelas escolas e pelos seus professores que, segundo a OCDE, passa grande parte do sucesso obtido pelos países asiáticos nos testes do PISA, onde figuram nos primeiros lugares da tabela. Em Singapura, por exemplo, os estudantes são submetidos, logo no 1.º ano, um teste de diagnóstico sobre as suas competências a Matemática. Os que mostram dificuldades passam a ser acompanhados por um professor quatro a oito vezes por semana. No Japão os docentes têm “expectativas altas em relação a todos os seus estudantes, mesmo aqueles com desempenhos mais fracos”. E não existem praticamente retenções, nem segregação entre estudantes no ensino obrigatório. “Os professores têm de trabalhar com estudantes com diferentes necessidades e competências”, assumindo como principal responsabilidade a de todos os alunos seguirem o currículo, prestando mais apoios aos que demonstram maiores dificuldades seja nas aulas ou fora delas.

No que respeita a Portugal, há também um destaque pela positiva: faz parte do grupo de nove países que, entre 2003 e 2012, conseguiram reduzir a percentagem de alunos abaixo do nível 2 nos testes do PISA que medem a literacia a Matemática. Os outros são a Alemanha, Brasil, Rússia, Itália, México, Polónia, Tunísia e Turquia.

Crescimento económico

Nesta análise, a OCDE alerta que “é urgente agir” para reduzir o número de jovens com piores desempenhos, frisando que “os maus resultados escolares têm consequência a longo prazo tanto para os indivíduos em causa como para a sociedade no seu conjunto”.

“Os alunos com dificuldades escolares aos 15 anos têm um risco elevado de abandonar a escola; e como uma parte importante da população não possui competências fundamentais, é o crescimento económico que, a longo prazo, fica largamente comprometido”, alerta-se. Dito de outro modo, os países com um desenvolvimento médio que consigam que todos os seus jovens de 15 anos adquiram as competências básicas exigidas pelo PISA poderão registar um aumento da ordem dos 28% do seu Produto Interno Bruto durante os próximos 80 anos, antevê a OCDE

O que deve ser feito para que tal aconteça? Eis algumas das propostas apresentadas no relatório: melhorar o acesso de todos à educação pré-escolar; apoiar o mais cedo possível os alunos com dificuldades; propor actividades escolares atractivas; limitar os chumbos e as turmas de nível, em que os alunos são agrupados em função das suas competências; reforçar a motivação dos estudantes, criando ambientes escolares estimulantes; os professores com mais empenho e com maiores expectativas devem ser também os que apoiam os alunos com mais dificuldades; dar mais autonomia às escolas para decidir o seu currículo e as modalidades de avaliação.

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Menina questionando a indústria de brinquedos – Vídeo

Março 2, 2015 às 6:00 am | Na categoria Vídeos | Deixe o seu comentário
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A virgindade já não é tabu e os jovens falam abertamente sobre sexo

Agosto 19, 2014 às 1:00 pm | Na categoria Estudos sobre a Criança | Deixe o seu comentário
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Notícia do Life & Style do Público de 13 de agosto de 2014.

Os estudo citados na notícia são os seguintes:

Evidence of Change in Men’s Versus Women’s Emotional Reactions to First Sexual Intercourse: A 23-year Study in a Human Sexuality Course at a Midwestern University

Sexualidade dos Jovens Portugueses Relatório do estudo online sobre sexualidade nos jovens

 

daniel rocha

Por Inês Garcia

Um estudo concluiu que, nos EUA, perder a virgindade nos dias de hoje é muito diferente de há duas décadas. O Life&Style falou com o sociólogo Pedro Vasconcelos que explicou que a maior alteração é a abertura com que os jovens falam sobre as suas experiências sexuais.

O estudo da norte-americana Susan Sprecher concluiu que, actualmente, os jovens sabem lidar melhor com os sentimentos de culpa e ansiedade e têm mais prazer. A investigadora quis aprofundar um estudo já realizado sobre reacções emocionais à primeira experiência sexual. “Porque a primeira relação sexual é uma importante transição de vida, o seu significado emocional, seja uma experiência positiva ou negativa, pode ter efeitos duradouros sobre futuras relações sexuais”, explicou.

Mas Pedro Vasconcelos, sociólogo de família do ISCTE, diz que embora “interessante” devido ao “carácter longitudinal que acompanha muitas gerações”, este estudo “não reflecte a sociedade americana”. Isto porque uma das maiores limitações do estudo, referida também por Susan Sprecher, é a amostra: uma única turma de uma única universidade americana, a Illinois State University, durante 23 anos. Embora tenham sido analisados mais de cinco mil questionários preenchidos entre 1990 e 2012, os resultados não são representativos.

“É um estudo que diz alcançar, de certa forma, o significado emocional da primeira experiência sexual. Mas não. A única coisa que alcança são as narrativas que as pessoas estão dispostas a produzir em contexto de interrogação”, explica Pedro Vasconcelos, que considera que é precisamente aqui que reside a importância do estudo: os jovens alteraram as suas narrativas e estão dispostos a falar sobre a sua experiência sexual abertamente. “Mesmo não sendo representativo, é um bom princípio para falar das narrativas culturais e normativas que existem hoje em dia”.

O objectivo de Sprecher foi examinar as diferenças de reacção por género na experiência de perder a virgindade. Os resultados, à primeira vista pouco surpreendentes, mostraram que os homens experienciam “mais prazer e mais ansiedade do que as mulheres, enquanto as mulheres têm mais sentimentos de culpa do que os homens”, concluindo-se que “a maior diferença entre os dois géneros prende-se no prazer”.

Embora a distinção emocional entre os dois sexos seja grande, o estudo revela que é uma diferença que está a diminuir. “A ansiedade, nos homens, diminuiu durante as três décadas analisadas; para as mulheres o prazer aumentou e a culpa diminuiu”. Pedro Vasconcelos explica que “há, realmente, uma tendência para a forma como homens e mulheres falam da experiência sexual, ser mais semelhante”.

“A maneira de falar sobre isto perdeu alguma carga negativa. Houve uma diminuição dos esquemas tradicionais de repressão que associavam a sexualidade à imoralidade. Há, aliás, uma exaltação da sociedade. Há uma espécie de discurso cultural que circula por todo o lado: televisão, revistas, cinema, redes sociais…” continua o sociólogo.

No estudo, Sprecher esclarece que “a primeira experiência sexual passou a estar associada a uma relação, o que pressupõe um aumento gradual de intimidade entre o casal”, sendo esta a explicação para o aumento do prazer feminino e a diminuição da culpa.

Um grupo de investigadores portugueses explorou esta questão no estudo “Sexualidade dos jovens portugueses”, publicado em 2013. De uma amostra de 396 jovens (entre os 13 e os 21 anos), 189 disseram já ter tido relações sexuais. Desses, a maioria confirmou ter tido como parceiro para a primeira relação sexual o companheiro da altura (75,5% dos rapazes teve como parceiro a namorada, enquanto 83,9% das raparigas teve o namorado). Já relativamente às pressões sentidas, apenas 12,2% da amostra total de inquiridos disse ter-se sentido pressionado. Apesar disso, Pedro Vasconcelos considera que hoje há “uma pressão gigantesca para ser um sujeito sexual” porque “as narrativas que existem acentuam que a sexualidade é sempre boa e se a coisa não corre bem e não foi bom, a culpa é da pessoa”.

No entanto, “a sexualidade hoje faz parte de um esquema que tem a ver com a expressão individual das pessoas” e, por isso, a virgindade já não é um assunto tabu. “Um tabu é uma coisa da qual se está sempre a falar mesmo quando não se fala. Hoje, na sociedade portuguesa e na maioria das sociedades ocidentais, há uma aceitação da sexualidade juvenil que tem efeitos médicos importantes, como a prática do sexo seguro”, diz o sociólogo, concluindo que esta aceitação crescente “faz com que toda a questão à volta da virgindade seja irrelevante”.

 

 

 

I Seminário da Rede de Bibliotecas do Concelho de Alcobaça, DA ARTE DE LER

Junho 23, 2014 às 3:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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mais informações aqui

Inscrições até 26 de junho 2014

 

Abigail Norfleet James: rapazes e raparigas não aprendem da mesma maneira

Abril 29, 2013 às 6:00 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 20 de Abril de 2013.

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Bárbara Wong

Há crianças que precisam de aprender em escolas separadas para conhecerem o seu verdadeiro eu, acredita a especialista.

Abigail Norfleet James estudou numa escola só para raparigas, a St. Catherine’s School, em Richmond, Virgínia, Estados Unidos. Começou a dar aulas na década de 1970, assim que terminou a licenciatura e sempre se debruçou sobre as diferenças de aprendizagem entre rapazes e raparigas.

Por isso, na sua tese de doutoramento, em 2001, comparou licenciados, do sexo masculino, que frequentaram escolas diferenciadas com os que aprenderam em escolas mistas. Já publicou vários livros sobre o tema. Como ensinar o cérebro masculino e Como ensinar o cérebro feminino são alguns dos títulos.

A especialista em educação está em Portugal a convite da Associação Europeia das Escolas de Educação Diferenciada (EASSE) e, na sexta-feira, fez algumas formações para professores nesta área. O objectivo é que os docentes “adeqúem as suas metodologias aos avanços científicos no que se refere às diferenças do cérebro das raparigas e dos rapazes e Abigail Norfleet James é uma das maiores especialistas nesta área”, justifica Margarida Garcia dos Santos, presidente da associação em Portugal, acrescentando que esta informação pode ajudar a combater o insucesso escolar.

Este sábado, à tarde, no IV Congresso Internacional de Educação Diferenciada, em Lisboa, a investigadora norte-americana vai falar sobre o que os professores precisam de saber sobre os rapazes e as raparigas na sala de aula. Ao PÚBLICO aponta as diferenças de géneros e a importância da liberdade de escolha por parte dos pais para puderem optar por escolas separadas ou mistas.

Elizabeth Spelke, especialista em psicologia cognitiva que trabalha com bebés no seu BabyLab na Universidade de Harvard, diz que não existem diferenças entre as capacidades cognitivas dos rapazes e das raparigas. Concorda?

Abigail Norfleet James  – Não. Sabemos que as raparigas aos 20 meses, em média, têm o dobro do vocabulário do que os rapazes com a mesma idade. Isso significa que, desde o início, elas têm mais capacidades de se expressarem verbalmente. Mesmo que não se acredite neste facto, existem diferenças cognitivas entre rapazes e raparigas e só isso vai fazer com que se desenvolvam diferenças. Sublinho que estou a falar da média dos rapazes e das raparigas e não de crianças individualmente. É provável que não existam diferenças entre uma rapariga e um rapaz, em termos individuais, mas quando olhamos para grupos de crianças, as diferenças existem e os professores trabalham com crianças e com grupos. O problema da neurociência é que observa os indivíduos enquanto na educação se trabalha com grupos e essa pode ser a fonte de discordância nesta área.

Mas não é controverso dizer que os cérebros dos rapazes são diferentes dos das raparigas?

Não há qualquer controvérsia. As diferenças são claras e os investigadores do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos têm vários resultados que vão nesse sentido. Sabemos que no cérebro, o hipocampo (o órgão que torna as memórias de curto prazo em memórias de longo prazo) se desenvolve mais cedo nas raparigas. Isso significa que elas têm melhores memórias do que os rapazes? As evidências baseiam-se em testes de palavras e sabemos que as meninas têm capacidades verbais melhores do que os rapazes, ou seja, o que os testes revelam são as suas capacidades verbais e não da memória. A amígdala (outro órgão do córtex cerebral que nos permite lidar com as emoções fortes) desenvolve-se mais rapidamente nos meninos e isso pode explicar porque é que eles são mais reactivos e mais barulhentos do que elas. Os lóbulos pré-frontais (que nos ajudam a tomar decisões fundamentadas e a controlar os nossos impulsos) terminam de se desenvolver aos 18/20 anos nas raparigas e por volta dos 20/25, às vezes até aos 30 anos, nos rapazes.

As diferenças não podem estar na forma como os educamos – a escolha de brinquedos que os pais fazem para os rapazes pode levá-los a ser mais reactivos e barulhentos? As diferenças entre homens e mulheres não são culturais ou mesmo históricas – o homem caçador e a mulher recolectora – e, por essa razão, influenciarem o modo como cada género se comporta e aprende?

Assume que as diferenças são determinadas pelos pais ou pela cultura. Eu penso que os pais e a cultura estão simplesmente a responder a comportamentos que vemos nas crianças. Os pais dão carros aos rapazes porque os seus olhos respondem bem ao movimento e dão bonecas às raparigas porque elas respondem bem aos rostos. Os pais não sabem isso, mas se dermos uma boneca a um rapaz ele vai virá-la de cabeça para baixo ou tratá-la como se fosse um jogo de construção; ao passo que as raparigas vão dar nomes aos carros e tratá-los como se fossem seres vivos. A ideia da cultura caça/recolha pode ter chegado a nós através do nosso ADN. Um novo campo de conhecimento, a epigenética, dedica-se a observar como é que o nosso comportamento muda as moléculas no nosso ADN e começa a compreender que essas mudanças podem passar para as crianças.

Defende a educação diferenciada a partir de que idade?

Os rapazes e as raparigas são muito diferentes logo no pré-escolar e é aí que se adquirem os hábitos escolares. Normalmente só notamos as diferenças quando chegam à puberdade ou, às vezes, mais tarde.

Os rapazes devem ser ensinados só por homens e elas por professoras?

A investigação diz que não interessa quem os ensina, mas que os professores compreendam como é que cada um dos géneros aprende. Eu sou uma excelente professora de Ciências para rapazes porque sou mais visual e gosto de trabalhar no laboratório. Desenho imenso para ilustrar o que estou a dizer, uso quadros e gráficos com informação porque os rapazes gostam disso, ao passo que as raparigas gostam de saber mais e estão sempre a perguntar.

A escola ideal é a que separa os géneros?

Depende da criança. Algumas precisam de escolas diferenciadas, outras não. O que precisamos, como pais, é de ter liberdade de escolha.

Não é saudável que rapazes e raparigas estejam juntos? Esse modelo existe: escolas onde os alunos são separados por géneros nas salas de aula mas que se encontrem durante o dia?

Nas escolas diferenciadas da Islândia, os rapazes vão às aulas em metade do edifício e a outra metade é para as raparigas. Durante uma hora por dia, eles encontram-se para fazer actividades que não contam para a avaliação, por exemplo, fazer um puzzle, ter uma aula de música ou participar num projecto comunitário. Contudo, não os deixam estar no mesmo recreio porque os rapazes tomam conta das estruturas de escalada e as raparigas fazem actividades de grupo mais calmas. Mas quando as raparigas estão sozinhas no recreio, elas fazem escalada, construções e brincam com mais barulho e à-vontade.

Mas não é importante conhecer e crescer com o outro género?

Sem dúvida, por isso gosto do modelo islandês e recomendo que rapazes e raparigas trabalhem em conjunto. Contudo, as crianças têm mais oportunidades de se desenvolverem se não estiverem a ser constantemente comparadas com o outro género – “eu não sou forte porque não consigo atirar a bola tão longe quanto um rapaz”, esta ideia nunca me ocorreu porque andei numa escola só para raparigas, atirava a bola e pronto. Quando conheci rapazes eu era eu e não uma ideia do que eu pensava que os rapazes queriam de mim.

Está a dizer que a educação diferenciada não promove os estereótipos de género?

Na realidade, a educação mista é que os promove porque as crianças acreditam que certos comportamentos não são próprios do seu género. Nas escolas separadas não há limites sobre aquilo em que cada criança se pode transformar e, por isso, eu sou uma mulher cientista e o meu filho canta música clássica – ambos andámos em escolas separadas.

Actualmente, em Portugal as escolas que existem de ensino diferenciado estão ligadas a uma instituição da Igreja Católica, a Opus Dei, e às Forças Armadas, quer comentar?

Eu gostaria que existissem outras que não tivessem qualquer ligação, mas já é um bom começo. As escolas são diferenciadas não porque pertençam a uma religião ou às Forças Armadas mas porque essas instituições tradicionalmente tinham esse tipo de escolas. No resto do mundo, conheço escolas mistas que pertencem a congregações religiões ou são escolas militares.

No nosso país, a educação diferenciada existiu nas escolas públicas até ao início da década de 1970. Promover esse tipo de sistema não é um regresso ao passado?

Ter já existido não é razão para se deitar fora. O sistema misto não funcionou assim tão bem. O que eu gostaria é que os pais tivessem liberdade de escolha. Na Nova Zelândia, todas as cidades têm, pelo menos, três escolas secundárias – uma mista, uma para raparigas e outra para rapazes. Para onde é que cada criança vai é com os pais. Não é um mau sistema. Há regiões nos Estados Unidos onde as escolas diferenciadas são públicas. O sistema de educação diferenciado é uma escolha maravilhosa para as crianças, mas não devem ser a única opção.

 

 

Women in developing countries – Relatório Eurobarómetro + Resultados para Portugal

Março 8, 2013 às 2:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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flash

Descarregar o relatório Aqui

mulheres

Descarregar os resultados para Portugal Aqui

Os rapazes são “curiosos” e as raparigas “cuscas”

Dezembro 29, 2012 às 1:00 pm | Na categoria Livros | Deixe o seu comentário
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Notícia do site CiênciaHoje de 21 de Dezembro de 2012.

Na verdade ambos são coscuvilheiros revela o livro “Fazendo Género no Recreio: a Negociação do Género e Sexualidade entre Jovens na Escola”.

Por Sara Pelicano (texto e fotos)

À hora marcada, Maria do Mar Pereira, autora do livro, surge para a entrevista de mochila às costas e caderno na mão, os mesmos objectos que usou para se “imiscuir” durante dois meses numa turma de oitavo ano de uma escola de Lisboa.

A investigadora quis acompanhar os jovens, rapazes e raparigas, para perceber como é que as ideias de masculinidade e feminilidade “são vividas entre os jovens no contexto da escola, e também fora deste espaço. E também perceber que ideias é que estes jovens têm sobre masculinidade e feminilidade, como é que se vigiam uns aos outros para gozar com quem não encaixa nessas regras”, explica Maria do Mar.

O trabalho foi desenvolvido há seis anos. Os resultados serão apresentados no início de 2013 com a publicação do livro “Fazendo Género no Recreio: a Negociação do Género e Sexualidade entre Jovens na Escola”.

Homens e mulheres têm características sociais próprias, são diferentes e nada há a fazer. A ideia é generalizada, mas Maria do Mar sublinha que “diferentes disciplinas das ciências sociais têm vindo a demonstrar que estas diferenças não são uma questão biológica, fundamentalmente são sociais e culturais. Diferentes sociedades têm diferentes ideias sobre o que é um homem ou uma mulher, as pessoas são educadas em função dessas ideias e tornam-se dessa forma”.

Com esta premissa, a jovem investigadora acompanhou o quotidiano de 23 adolescentes. “Entrei na vida de todos os dias, participei dela”. A este processo de investigação chama-se “método etnográfico”.

O trabalho de Maria do Mar, inserido na tese de mestrado em Sociologia no ISCTE, tem uma componente mais científica no sentido em que “tento perceber se as teorias e conceitos que, neste momento, utilizamos nas ciências sociais para compreender estes processos, são os mais adequados ou se têm limitações”.

O outro objectivo da investigação “é sair do mundo da ciência e pensar como é que podemos conhecer melhor estes processos de masculinidade e feminilidade e intervir sobre eles”, comenta.

E a principal conclusão a retirar é que homens e mulheres são muito parecidos socialmente. “Há uma série de coisas que acontecem na escola e na vida de todos os dias que faz parecer com que as diferenças entre rapazes e raparigas sejam maiores do que realmente são”, diz a entrevistada.

A coscuvilhice, habitualmente associada ao género feminino, é um bom exemplo. Maria do Mar Pereira pormenoriza: “No meu primeiro dia de escola, os rapazes disseram-me logo: ‘as raparigas são umas cuscas, mas os rapazes não são’. Durante dois meses observava os rapazes a conversar uns com os outros sobre outras pessoas, a partilhar aquilo que chamaríamos coscuvilhices. Quando confrontados com esse facto, os rapazes consideram que o que fazem é curiosidade, e não coscuvilhice”.

Daqui se conclui que “o mesmo comportamento quando é feito por um homem ou por uma mulher é interpretado de formas diferentes e tem nomes diferentes. Isto faz parecer que homens e mulheres são diferentes, mas não o são. A cusquice é um elemento central da amizade de raparigas e rapazes”, acrescenta.

Colocar os jovens a reflectir sobre o tema
O livro “Fazendo Género no Recreio: a Negociação do Género e Sexualidade entre Jovens na Escola” resulta de um trabalho de investigação/acção porque Maria do Mar confrontou os jovens que acompanhou com os seus próprios conceitos de masculinidade e feminilidades.

“No momento em que lhes digo ‘vocês criticam, são violentos, gozam, etc, mas na entrevista que vos fiz todos me dizem que não gostam de fazer isto’, começam a olhar uns para os outros e pensam que algumas atitudes eram desnecessárias”, explica.

Após o confronto com essas ideias pré-concebidas, Maria do Mar terminou o seu trabalho e sabe que aqueles jovens “mudaram os seus comportamentos porque chegaram à conclusão de que não era necessário gozarem uns com os outros e fazerem todas estas coisas que faziam. As pessoas muitas vezes sentem que as ideias sobre géneros são uma coisa fortíssima, milenar e não há nada a fazer. É assim e pronto. E o interessante é que quando se cria espaço para conversar sobre estas questões, as pessoas percebem que estas normas, estereótipos, são arbitrárias”.

Essa mudança de comportamentos está patente no livro pela voz dos proprios alunos. Liliana (pseudónimo) considera “extremamente positivo” o trabalho de Maria do Mar porque “faz-nos perceber, a tua entrada na nossa turma melhorou imenso as coisas, porque a partir daquela tese as coisas más que foram ditas foram todas resolvidas, toda a gente aprendeu a respeitar-se uns aos outros, e epá, eu tenho a certeza que se fizessem trabalhos destes em todas as turmas, quebrava a rotina, fazia muitas melhoras mesmo”.

Já Andreia (pseudónimo) comenta que “li a tese e acho que a nossa turma depois disso ficou muito mais unida e apercebemo-nos de que tínhamos feito mal uns aos outros, que tínhamos falado mal dos outros e que não o devíamos ter feito, e fomos injustos, e pedimos desculpa uns aos outros e estamos mais amigos”.

Aos 30 anos, Maria do Mar Pereira é professora auxiliar na Universidade de Leeds, na Inglaterra. O livro vai ser apresentado dia 6 de Janeiro no Centro de Cultura e Intervenção Feminista de Lisboa.

 

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