Principais sinais de alerta para a PHDA de acordo com diferentes idades

Setembro 5, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Texto e imagem do site Up to Kids

By Centro Sei

Principais sinais de alerta para a PHDA de acordo com diferentes idades

É difícil de detetar e fácil de confundir.

Sim, é uma alteração neurológica cada vez mais comum mas, ao contrário do que possa parecer, nem sempre é simples identificar os sintomas da Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA).

Não pense que esta perturbação é provocada por falta de empenho ou de dedicação e até de uma eventual má educação dada pelos pais em casa. Não! Se o seu filho tem este problema é porque se verificam fragilidades nas ligações neuronais em determinadas áreas cerebrais, normalmente mais pequenas se comparadas com as de outras crianças.

O que é a PHDA

A PHDA é uma condição física crónica que se caracteriza pelo subdesenvolvimento e disfunção de algumas partes do sistema nervoso central.  Manifesta-se, regra geral, por volta dos 3 anos e, quase sempre, antes de atingir os 7.

Consiste numa perturbação do desenvolvimento neurológico que provoca um excesso de atividade motora, baixo controlo da impulsividade e/ou dificuldades de concentração. Estas crianças têm dificuldade em selecionar informação e em prestar atenção a dois estímulos em simultâneo.

Surge, geralmente na primeira infância, com diversos sinais de alerta, que variam consoante o género e a idade. Podem prejudicar ou ter impacto na aprendizagem e no desenvolvimento social.  Estima-se que afete entre 5 a 7 por cento das crianças em idade escolar e cerca de 4 por cento dos adultos.

Os especialistas não têm dúvidas, as crianças com hiperatividade não tratadas a tempo terão mais dificuldades na adolescência, tanto ao nível do aproveitamento escolar, como, também, da socialização. A falta de intervenção adequada pode ter um efeito devastador ao longo da vida.

Para que não persistam dúvidas: regra geral, as crianças e os adultos com hiperatividade têm uma inteligência acima da média e podem vir a aproveitar o seu potencial, caso sejam bem acompanhadas à medida que vão crescendo.

Não existe, todavia, uma intervenção que suprima esta condição neurológica, mas quanto mais cedo o diagnóstico melhor.

A equipa do SEI tem vasta experiência em lidar com esta perturbação, nomeadamente ao nível da deteção precoce e da implementação de estratégias psico-educacionais capazes de minimizar o problema, melhorando o desempenho escolar ou profissional e as relações interpessoais.

Dentro da PHDA há diferentes níveis de intensidade, ou seja, os sintomas vão variando de pessoa para pessoa, do mais ligeiro ao mais grave.

Neste artigo pretendemos assinalar os principais sinais de alerta de acordo com a idade da criança. Consulte a lista e observe o seu filho por um período de tempo, nos diversos contextos do seu dia-a-dia, e verifique se apresenta alguns dos sinais de alerta.

Lembre-se que, ocasionalmente, todas as crianças manifestam comportamentos mais impulsivos, agitados ou desatentos. É necessário saber distinguir os diferentes comportamentos de acordo com os contextos.

Se suspeitar que o seu filho possa ter uma PHDA consulte um profissional e solicite uma avaliação especializada.

Principais sinais de alerta para a PHDA

Idades compreendidas entre os 3 anos e os 7 anos

  • Apresenta dificuldades em iniciar tarefas e/ou rotinas diárias, como vestir ou arrumar os brinquedos;
  • Frequentemente, ignora ou cumpre tardiamente as instruções/indicações/pedidos que lhe são dados;
  • Apresenta/Manifesta dificuldade em manter-se sentada durante as refeições ou na realização de atividades de grupo comparativamente com as crianças da mesma idade;
  • Levanta-se, mexe-se ou conversa em situações onde é pedido/suposto ficar sossegada ou em silêncio;
  • Apresenta dificuldades em terminar uma atividade para iniciar outra;
  • Esforça-se para fazer as atividades/tarefas com cuidado;
  • Necessita de ser relembrada, frequentemente, para parar ou ouvir;
  • Tem dificuldade em prestar/manter a atenção comparativamente com as crianças da sua idade;
  • Vai buscar coisas/materiais sem permissão;
  • É incapaz de esperar pelas instruções/indicações da tarefa antes de a iniciar;
  • Demora bastante tempo e/ou necessita de encorajamento para realizar as suas rotinas diárias;
  • Apresenta dificuldade em relembrar-se das indicações/pedidos;
  • Apresenta dificuldade em lembrar-se/recordar-se de factos que aprendeu recentemente;
  • Tende a ficar aborrecida ou irritada (frustrada) em situações de menor importância;

Idades compreendidas entre os 8 anos e os 12 anos

  • Apresenta dificuldades em iniciar tarefas/atividades, principalmente/especialmente quando a tarefa/atividade apresenta mais do que um passo;
  • Frequentemente, é inquieta/irrequieta;
  • Frequentemente, é irrequieta, conversadora em situações onde é pedido/suposto ficar sossegada ou em silêncio;
  • Tende a esquecer-se do que acabou de ouvir ou ler, a não ser que seja algo do seu interesse;
  • Frequentemente, realiza as tarefas/atividades de forma apressada e/ou descuidada;
  • No quotidiano não é capaz de demonstrar todas as suas capacidades/competências, na escola ou na realização dos trabalhos de casa;
  • Desconcentra-se, e/ou fica “no mundo da lua”, frequentemente;
  • Frequentemente, muda de tarefa/atividade sem terminar as anteriores;
  • Apresenta dificuldades em lembrar-se do que fez no seu dia-a-dia;
  • Tende a esquecer-se de entregar/fazer recados e/ou os trabalhos de casa;
  • Esforça-se para não perder as suas coisas;
  • Apresenta dificuldades em esperar pela sua vez, para se juntar numa conversa ou atividade;
  • Preocupa-se, que se vá esquecer do que quer dizer, a menos que o diga imediatamente;
  • Apresenta dificuldades em pensar nas consequências das suas ações;
  • Frequentemente, fala ou faz coisas sem pensar nas consequências;
  • Trabalha devagar;
  • Apresenta dificuldade em terminar tarefas/atividades dentro de um período de tempo razoável;

Adolescência

  • Apresenta dificuldades em organizar-se ou estabelecer prioridades;
  • Apresenta dificuldades em iniciar os trabalhos de casa e/ou uma tarefa/atividade proposta/atribuída;
  • “Desliga”/Desconcentra-se quando está a ouvir alguém ou a ler;
  • Frequentemente, necessita de reler as informações dadas ou de pedir às pessoas que repitam o que disseram porque não se lembra;
  • Apresenta dificuldade em manter-se focada;
  • Frequentemente, se desconcentra da tarefa/atividade, a menos que a mesma seja do seu interesse;
  • Frequentemente, realiza as tarefas/atividades de forma rápida e desconcentrada/desorganizada, originando erros;
  • No quotidiano, não é capaz de demonstrar todas as suas capacidades/competências, na escola ou na realização dos trabalhos de casa;
  • Apresenta dificuldade em recordar-se/lembrar-se das informações quando necessário;
  • Esforça-se, na realização dos testes, para se recordar/relembrar o que estudou e/ou sabia na véspera;
  • Apresenta dificuldades em lembrar-se do que fez no seu dia-a-dia;
  • Frequentemente, esquece-se de escrever o que tem de fazer e de as fazer;
  • Frequentemente, age de maneira impulsiva;
  • Fala ou faz coisas sem pensar no que pode resultar;
  • Frequentemente, trabalha devagar;
  • Apresenta dificuldade em cumprir prazos e/ou em finalizar os testes dentro do tempo atribuído;
  • É inquieto/irrequieto frequentemente;
  • Frequentemente, não consegue parar de falar ou de mexer nos objetos com a mão.

Formação “Avaliação e diagnóstico de diferentes formas de maus tratos/abusos contra crianças e jovens – 10 setembro em Borba

Agosto 23, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Disortografia – O que é? O que fazer?

Abril 15, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Texto e imagem do site Up to Kids

Neste artigo iremos explorar em que consiste a Disortografia, respetivos sinais de alerta, como se realiza o diagnóstico e qual a intervenção mais adequada para crianças que manifestam esta perturbação da aprendizagem.

O que é a disortografia?

A Disortografia deriva das palavras “dis” (desvio) + “ortho” (correto) + “graphos” (escrita), isto é, a dificuldade em escrever corretamente. Assim sendo, a Disortografia é uma Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Expressão Escrita que afeta a precisão ortográfica, a precisão gramatical e da pontuação e a clareza ou organização da expressão escrita.

Apesar de a Disortografia poder ser uma perturbação por si só, é frequente coexistir com a Dislexia, isto é, com a Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Leitura.

Sinais de alerta de disortografia?

São vários os sinais indicadores de uma possível Disortografia. Num texto típico, escrito por uma criança com disortografia podemos observar:

1. Incorreções ortográficas diversas:

– Omissões de letras/sílabas (e.g. banco-baco);

– Adições de letras/sílabas (e.g. comer-comere);

– Inversões de letras/sílabas (e.g. barco-braco);

– Substituições de letras com sons semelhantes (e.g. verde-ferde);

– Substituições de letras com formas semelhantes (e.g. bola-pola);

– Aplicação incorreta das regras gramaticais (e.g. ajudam-ajudão);

2. Dificuldades ao nível da pontuação:

O mais habitual é os textos das crianças com Disortografia apresentarem pouca ou nenhuma pontuação. Em outros casos, pode ocorrer uma tentativa por parte da criança, nomeadamente quando são mais velhas, de utilizarem os diferentes sinais de pontuação, no entanto nem sempre os aplicam da forma mais adequada, tornando o texto confuso.

3. Dificuldades na precisão gramatical:

É frequente estas crianças saberem explicar com precisão as diferentes regras gramaticais de forma isolada. Contudo, no momento em que as têm de aplicar de forma autónoma (pois têm de escrever a um ritmo que não lhes permite refletir com calma nas diferentes regras), acabam por cometer esses mesmos erros de precisão gramatical.

4. Dificuldades no encadeamento/organização das ideias:

É crucial ensinar estas crianças a planear os textos antes de os escrever. Uma das características desta perturbação da aprendizagem é exatamente a dificuldade em produzir um texto escrito com uma sequência lógica e bem estruturada ao nível das ideias (mesmo quando bem estruturadas oralmente).

5. Ritmo lento na escrita:

Uma vez que estes alunos necessitam de recorrer a diferentes estratégias, para conseguirem escrever sem erros, para saberem qual a regra gramatical a ser aplicada, para saberem qual o sinal correto de pontuação adequado, isto ao mesmo tempo que tentam elaborar um texto com uma boa construção frásica, acabam por revelar um reduzido ritmo de produção textual.

Como diagnosticar a disortografia?

Tal como a Dislexia, também a Disortografia deverá ser avaliada por um técnico especializado em Dificuldades de Aprendizagem (Psicólogo, Psicopedagogo, Neuropsicólogo), em estreita colaboração com os pais e professores.

Como em qualquer Perturbação da Aprendizagem Específica, a criança só poderá ser formalmente diagnosticada após dois anos de estimulação formal da leitura e da escrita (o que não significa que não seja possível despistar sinais de alerta previamente) e se o seu desempenho nas competências de escrita for significativamente abaixo do esperado para o seu nível escolar (avaliado através de provas formais e informais) e não consequentes de uma deficiência auditiva/visual, de uma Perturbação Específica da Linguagem ou de uma fraca estimulação escolar.

Qual a intervenção mais adequada?

A intervenção ao nível da Disortografia consiste na reeducação e treino das competências fonológicas (características desta dificuldade de aprendizagem) e visuo-espaciais, tendo como foco principal o processamento fonológico. As sessões de intervenção ao nível da estimulação das referidas competências deverão, sempre que possível, privilegiar uma estimulação multissensorial.

É importante referir que o sucesso da intervenção será tanto maior quanto mais cedo estas dificuldades forem detetadas e intervencionadas. Tal como na avaliação, também a intervenção deverá ser realizada em colaboração com o contexto familiar e escolar.

Centro SEI

Estratégias para trabalhar com alunos com DISLEXIA

Fevereiro 3, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Recursos educativos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Notícia do site SóEscola de 19 de junho de 2017.

Nesta postagem trago para vocês algumas dicas de Estratégias para trabalhar com alunos com DISLEXIA.

A Dislexia do desenvolvimento é considerada um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente da palavra, na habilidade de decodificação e em soletração.

Essas dificuldades normalmente resultam de um déficit no componente fonológico da linguagem e são inesperadas em relação à idade e outras habilidades cognitivas. (Definição adotada pela IDA – International Dyslexia Association, em 2002. → Como identificar a dislexia

 

Alguns sinais na Pré-escola

 

  • Dispersão;
  • Fraco desenvolvimento da atenção;
  • Atraso do desenvolvimento da fala e da linguagem
  • Dificuldade de aprender rimas e canções;
  • Fraco desenvolvimento da coordenação motora;
  • Dificuldade com quebra-cabeças;
  • Falta de interesse por livros impressos.

Alguns sinais na Idade Escolar

 

  • Dificuldade na aquisição e automação da leitura e da escrita;
  • Pobre conhecimento de rima (sons iguais no final das palavras) e aliteração (sons iguais no início das palavras);
  • Desatenção e dispersão;
  • Dificuldade em copiar de livros e da lousa;
  • Dificuldade na coordenação motora fina (letras, desenhos, pinturas etc.) e/ou grossa (ginástica, dança etc.);
  • Desorganização geral, constantes atrasos na entrega de trabalho escolares e perda de seus pertences;
  • Confusão para nomear entre esquerda e direita;
  • Dificuldade em manusear mapas, dicionários, listas telefônicas etc.;
  • Vocabulário pobre, com sentenças curtas e imaturas ou longas e vagas;

Este documento foi criado para que todos os docentes envolvidos no processo de ensino-aprendizagem destas crianças e adolescentes encontrassem nele algo que os possa ajudar no seu quotidiano. Estas sugestões têm um sentido lato e devem ser ajustadas às necessidades individuais de cada criança.

Para ter acesso ao material completo, confira o link a seguir:

→ Clique Aqui.

 

 

 

Hiperatividade infantil. Estamos a medicar demasiado os miúdos?

Abril 23, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Texto do site https://magg.pt/ de 5 de abril de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

Os pais acusam as escolas de fazerem pressão, os professores alertam para os perigos de ignorar o problema da hiperatividade.

Quando Jasper estava no terceiro ano do primeiro ciclo do ensino básico, foi-lhe diagnosticado défice de atenção. A meio do ano, a professora sugeriu que a criança começasse a tomar medicamentos. “Eu disse: ‘Ele não toma medicamentos’”, conta Regina, mãe de Jasper, no novo documentário da Netflix, “Take Your Pills: Receita para a Perfeição”. A professora respondeu-lhe: “Nesta escola toda a gente toma medicação”.

Em 2015, o Infarmed lançou o primeiro (e para já único) estudo sobre o consumo de fármacos para a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Os números eram alarmantes: cerca de cinco milhões de doses estavam a ser prescritas por ano a miúdos até aos 14 anos. Por outros números, em 2014 tinham sido dispensadas 276 mil embalagens de metilfenidato em Portugal continental.

Metilfenidato. Falamos da substância ativa mais comum em Portugal para tratar a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Nas farmácias portuguesas é vendida com os seguintes nomes: Concerta, Ritalina e Rubifen.

Na altura, a Direção Geral de Saúde descreveu os números como “alarmantes”. Felizmente, nos anos seguintes os números melhoraram: segundo o Infarmed divulgou ao jornal “Público” no início deste ano, verificou-se uma diminuição no consumo de medicamentos para tratar a hiperatividade e défice de atenção. Entre janeiro e novembro de 2016 foram vendidas 259 mil embalagens. Em 2017, foram 254 mil.

Os números estão mais baixos, no entanto o debate continua aceso. Para alguns, como a professora do 3º ciclo do ensino básico, Carla Magalhães, há crianças que deveriam estar a ser medicadas e não estão porque os pais não se querem render à chamada “doença da moda”. Precisam de facto de ajuda porque, sem ela, não conseguem aprender ou sequer integrar-se. No extremo oposto, outros defendem que há miúdos mal-medicados ou a serem incentivados a tomar medicamentos prematuramente, com pais a acusarem as escolas de fazerem pressão.

“Eu sei que não era um miúdo fácil, mas não foi a medicação que o ajudou”

Vânia Barreiras é educadora de infância. Aos 37 anos, conviveu de perto com o problema da hiperatividade e défice de atenção. Ou pelo menos acha que sim: um dos seus filhos, hoje com 18 anos, foi diagnosticado com a doença quando passou para o quinto ano numa escola privada em Viana do Castelo. Um médico aconselhou a criança a tomar medicação. Começaram por uma dose baixa de Concerta.

“Eu recebia queixas do género: ‘Ele brinca com tudo, até com a borracha’. Era a forma que ele tinha de se manter atento, precisava de se mexer. Eu notava isso em casa, quando estávamos a estudar o dois estava sempre a abanar as pernas, por exemplo.”

Porém, Vânia Barreiras acabou por aceitar o que os médicos lhe diziam, que a medicação era a única alternativa. No primeiro ano, as coisas pareciam estar a correr bem. Os professores pararam de a chamar à escola, o filho parecia estar mais concentrado, até tinha a letra mais legível. Só que logo a seguir vieram os efeitos secundários, como as dores de cabeça e a falta de apetite.

“Quando vinha o corta-mato da escola, dizia que não queria tomar o medicamento porque se não depois não conseguia correr”

“Estava apático, parecia uma crianças doente. Quando vinha o corta-mato da escola, dizia que não queria tomar o medicamento porque se não depois não conseguia correr.”

Até que começou a mentir — farto de se sentir alterado com a medicação, a criança começou a deixar de tomar os medicamentos às escondidas dos pais. Vânia Barreiras apercebeu-se disso e, percebendo a aflição do filho, decidiu cortar com a medicação no 7.º ano.

“No 8.º ano mudou de escola e eles diziam o inverso: nada de medicação. Hoje está a terminar o 12.º ano e não toma nada. Eu sei que não era um miúdo fácil, mas não foi a medicação que o ajudou. Não foi a pressão da escola que o ajudou. Há casos e casos, as coisas têm de ser avaliadas individualmente.”

Aos 18 anos, o filho de Vânia é uma criança perfeitamente normal. Mas nunca mais conseguiu encontrar o equilíbrio com a escola — detesta ler, escrever, tudo o que seja teórico é um martírio. “Mas se forem actividades práticas não há problema nenhum. Ele pratica equitação, por exemplo, e tem um talento natural para acalmar os cavalos. Conseguiu ir ao pódio de um campeonato regional sem qualquer dificuldade.”

Há pressão das escolas para medicar os miúdos?

Joana Esteves, 31 anos, está neste momento a trabalhar na área social, mais precisamente no rendimento social de inserção. Há pouco tempo lidou com um caso de uma criança diagnosticada com PHDA que, inesperadamente, começou a sentir palpitações. Os médicos suspeitaram que podia ser um problema cardíaco, por isso pediram aos pais que parassem com a medicação até serem feitos todos os exames.

“A escola recusou que ele tivesse aulas até voltar a estar medicado”, conta Joana Esteves à MAGG. “A criança esteve em casa até saírem os resultados dos exames e perceberem que o problema não era da medicação.”

“Está na moda medicar os miúdos. Fala-se muito nisto: é uma criança agitada, logo se calhar é uma criança hiperativa. Não, se calhar é só uma criança normal que salta, pula”

Joana Esteves trabalhou praticamente toda a vida com crianças, nomeadamente em contexto de ATL. Tal como os números do Infarmed atestam, também ela sentiu uma diminuição no consumo de psicofármacos no ano letivo e 2016/2017. Nos anos anteriores, não tem dúvidas: havia muitas crianças medicadas. Se tivesse de apontar um número, diria entre 15 a 20%.

“Há pressão das escolas para ter as crianças medicadas”, afirma. “Está na moda medicar os miúdos. Fala-se muito nisto: é uma criança agitada, logo se calhar é uma criança hiperativa. Não, se calhar é só uma criança normal que salta, pula.”

Um empresária de 45 anos que pediu anonimato sentiu isso na pele. No ano letivo de 2014/2015, o filho entrou para o primeiro ano num colégio privado em Lisboa. “Senti logo pressão por parte da escola para que ele fosse ao psicólogo do colégio.” Os pais assim fizeram, e o menino foi diagnosticado como tendo défice de atenção. Encaminhado para outro gabinete de psicologia infantil, a avaliação foi completamente diferente — o miúdo estava ótimo, garantiram.

“A única coisa que lhe prescreveu foi um café de manhã para aumentar a concentração. Mas a pressão na escola continuou.”

Nunca ninguém disse abertamente “o menino precisa de tomar medicação”, mas indiretamente parecia ser essa a resposta. Os pais estavam constantemente a receber chamadas de atenção, na escola o rapaz sentia-se inferiorizado. “Ele começou a ser acompanhado por uma psicóloga e a professora dizia que ele estava muitas vezes distraído. ‘Parece que não dormiu, estava deitado em cima da secretária’. Ela nunca percebeu que ele fazia isto, não porque não tivesse dormido à noite, mas porque estava desmotivado — isto foi-me dito pela psicóloga.”

“Eles querem miúdos robot, que não olhem para o lado. Uns são mais quietos, outros são mais distraídos. Os mais distraídos são logo rotulados com défice de atenção. No mínimo!”

O filho da empresária esteve no colégio durante o primeiro e segundo anos do primeiro ciclo do ensino básico. A auto-estima da criança estava cada vez pior. Começou a ficar obcecado com as notas, e a fazer comentários em casa como “eu não sou bom, só tive 57%”. Quando a mãe encontrou uns desenhos do filho com as frases “eu não devia ter nascido” e “sou um falhado”, linguagem que ele nunca tinha ouvido em casa, tomaram a decisão de o tirar do colégio. Fizeram-no em janeiro deste ano.

“Hoje em dia as escolas privadas estão muito vocacionadas para rankings. Querem ser as melhores, porque isso vende mais. Eles querem miúdos robot, que não olhem para o lado. Uns são mais quietos, outros são mais distraídos. Os mais distraídos são logo rotulados com défice de atenção. No mínimo! Isto é um massacre para os miúdos.”

Na nova escola, o comportamento do rapaz mudou completamente. “Hoje o meu filho está muito mais feliz. Não teve qualquer problema de adaptação e não tem de tomar nada.”

Marta Calado, psicóloga na Clínica da Mente, no Porto, assegura que a maioria dos casos que chegam à clínica vêm por sugestão das escolas. “Quando os pais chegam aqui com crianças que foram diagnosticadas com PHDA, normalmente isto acontece devido a uma queixa escolar.” Muitas vezes, a clínica recebe estes pais porque eles não conseguem reconhecer os seus filhos após a toma da medicação — eles ficaram completamente diferentes, regra geral pior.

“O pedido de apoio muitas vezes passa por aqui: eu não quero ter o problema que tinha anteriormente mas também não quero este novo problema com que me deparo agora.”

Na opinião de Marta Calado, é muito fácil perceber se uma criança tem ou não hiperatividade. “Conseguimos identificar rapidamente quando há uma limitação que é de âmbito físico ou emocional.” E à pergunta se recebem mais casos de crianças bem ou mal-diagnosticadas, a resposta é imediata: “Mal. Sem dúvida. Temos poucos casos dos ditos ‘verdadeiros’ hiperativos. Cada vez mais são os casos de crianças mal-diagnosticadas.”

“Os professores não querem ter os miúdos medicados”

Carla Magalhães é professora de fisico-química há 23 anos. Neste momento numa escola em Lisboa a dar aulas ao 3.º ciclo, deixa o alerta: no que diz respeito à medicação, estamos a entrar num debate onde de um lado estão as pessoas a favor e no outro as pessoas contra. E isso sim é o mais preocupante: não podemos ser contra ou a favor. Tudo depende dos miúdos.

“Obviamente que não podemos pensar em ter a maioria dos nossos jovens dopados. E preocupa-nos que haja um consumo excessivo. Mas há casos em que é absolutamente imprescindível. Miúdos hiperativos não são miúdos agitados, não são miúdos com mau feitio ou que não sabem estar. Eles sofrem hiperatividade, e a hiperatividade é uma patologia.”

A professora de 46 anos realça que maus profissionais existem em todas as profissões. Não pode falar por uma classe inteira e garantir que não há professores que incentivam os pais a procurarem soluções medicamentosas, no entanto, afirma que esta não é de todo a regra.

“Os professores não querem ter os miúdos medicados. É de facto difícil gerir turmas com 30 ou mais alunos, e também se sabe que a nossa profissão carece de facto de apoio. Antes bastava passar a informação de que o menino estava mal-comportado e o assunto era resolvido, agora se calhar pensa-se primeiro que a responsabilidade não é da criança. Mas não é por isso que vamos agora desatar a caçar miúdos com hiperatividade. Eu pelo menos espero que não seja isso que se esteja a passar.”

Só que o contrário também não pode acontecer: não podemos ter miúdos que precisam de ajuda e não a recebem. “Há alturas em que é aflitivo o sofrimento destas crianças. Se eu pedir a um miúdo agitado para sossegar e dizer-lhe que no final ele pode fazer aquilo que quer — a tal questão da recompensa —, ele consegue. Com um miúdo hiperativo isto não funciona porque ele simplesmente não consegue. E ele ficafrustrado, porque quer fazê-lo mas não consegue.”

Carla Magalhães explica que os miúdos hiperativos são, regra geral, extremamente inteligentes. Logo têm consciência que não conseguem fazer aquilo que lhes é pedido, o que os deixa em luta consigo mesmos. Além disso, são muitas vezes usados pelos colegas para causar distúrbio nas aulas — eles sabem que eles não vão conseguir controlar-se —, no entanto, no recreio, são estereotipados e postos de parte. Isto porque até para os colegas eles são demasiado agitados.

“Que também há o contrário, há. Há miúdos que quase roçam o abandonado pelos pais quando estes não tentam pelo menos perceber o que se passa com eles.”

“Já tivemos alguns casos em que tivemos de falar com os pais para encaminharem esses miúdos. Porque de facto estavam em sofrimento. O máximo que um professor pode fazer é pedir à mãe ou ao pai para verem, fazerem um rastreio, e depois agirem em conformidade. Que seja generalizado que os professores querem que os miúdos tomem medicamentos, não. Agora, que também há o contrário, há. Há miúdos que quase roçam o abandonado pelos pais quando estes não tentam pelo menos perceber o que se passa com eles.”

“Eu não queria que ele tomasse medicação. Pensei que podia ser só uma fase, todas as crianças são agitadas”

O filho mais velho de Tatiana Gaspar, 32 anos, foi diagnosticado com hiperatividade e défice de atenção há dois anos. No início, a recepcionista em Lisboa foi completamente contra a utilização de medicamentos. “Eu não queria que ele tomasse medicação. Pensei que podia ser só uma fase, todas as crianças são agitadas.”

Só que a situação tornou-se cada vez mais grave. No jardim de infância, Tatiana Gaspar era constantemente chamada à escola pela educadora — o filho não parava quieto, batia nos outros meninos, subia aos móveis, não respeitava nenhuma regra. A educadora chegou a dizer à mãe que, nos dias em que ele estivesse mais agitado, tinha de o ir buscar à escola.

“Já não sabia o que fazer. Acabei por falar com a médica e começámos a dar medicação, primeiro para o défice de atenção e mais tarde para a hiperatividade.”

Tatiana Gaspar notou imediatamente mudanças no comportamento do filho. Não é que de repente se tivesse tornado numa criança calma. Nada disso: continuou agitado, fazia as suas birras, mas pela primeira vez conseguia concentrar-se nas tarefas. Já consegue pintar e fazer desenhos, por exemplo, coisas que não fazia antes.

No início de fevereiro, uma troca na medicação pelo genérico causou o terror lá em casa. “Durante um mês, foi como se tivéssemos começado tudo outra vez. Voltou àquilo que era. Nós perguntávamos-lhe: ‘Porque é que estás assim, porque é que estás a fazer isso?’, e ele respondia: ‘Porque a minha cabeça não para’. ‘Filho, para um bocadinho.’ ‘Mãe, a minha cabeça está maluca’.”

Nenhum pai gosta de tomar a decisão de medicar um filho. No caso de Tatiana Gaspar, foi uma decisão extremamente difícil. No entanto, as melhorias são evidentes: sim, continua agitado e irrequieto mas, nas palavras da mãe, os miúdos também não nasceram para ficar quietos. É normal. O que interessa é que agora já consegue prestar atenção às tarefas que tem de realizar, seja na escola, seja na terapia da fala.

“Tem dado muito resultado. Ficou muito mais interessado nas coisas, mais participativo. Também melhorou bastante na fala e na concentração.”

“Eu até digo na brincadeira que ele agora está mais chato, porque quer saber o porquê de tudo. Isso não acontecia antes.”

Uma dos temas tabu que envolvem a questão da medicação é o facto de os miúdos ficarem apáticos, quase sem vida. Isso nunca aconteceu com o filho de Tatiana: “Na terapia, às vezes fica muito quieto, porque é só ele e a terapeuta e não tem outros estímulos. Mas é porque está concentrado, não apático. Eu até digo na brincadeira que ele agora está mais chato, porque quer saber o porquê de tudo. Isso não acontecia antes.”

“Passo mais tempo a tirar medicação do que a pôr”

O grande problema actualmente é olhar para uma criança que se mexe muito e assumir de imediato que ela é hiperativa ou tem um défice de atenção. “Passo mais tempo a tirar medicação do que a pôr”, revela à MAGG Pedro Cabral, diretor clínico do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil, CADIn. “Toda a gente está a utilizar critérios de medicação em função do grau de movimento.” E isso não podia ser mais errado: “Às vezes precisamos de nos mexer para fixar melhor as coisas. O exemplo mais básico é contar pelos dedos: se eu contar pelos dedos, consigo contar até mais tarde e melhor.Estou a recrutar mais circuitos para a mesma tarefa e em sítios diferentes do cérebro.”

“O que há mais são miúdos quietinhos a olhar para os professores e a segui-los com os olhos e os professores a pensarem que eles estão muito atentos quando na realidade estão a pensar que ela tem o nariz quase a cair”

Na opinião de Pedro Cabral, há cada vez mais diagnósticos feitos em consulta, nos infantários e nas escolas em que se assume que a criança não está a prestar atenção porque se mexe. Isso não é verdade. Para aprender nós precisamos de estar atentos. Não interessa se nos estamos a mexer muito. “Mas como é que ele pode estar atento se se está a mexer?”. “A pergunta é: ‘Se não para atento, como é que consegue estar quieto?

“O que há mais são miúdos quietinhos a olhar para os professores e a segui-los com os olhos e os professores a pensarem que eles estão muito atentos quando na realidade estão a pensar que ela tem o nariz quase a cair. O facto de a criança estar quieta ou parada não quer dizer que esteja a seguir o raciocínio do professor.”

A forma como as crianças estão a ser educadas também é relevante no que diz respeito aos diagnósticos errados de PHDA. Pedro Cabral sublinha que vivemos tempos em que, quando interrompem os pais, as crianças recebem logo atenção; quando pedem qualquer coisa, recebem-na de imediato. Além disso, há cada vez mais pessoas a interferir na educação dos miúdos — pais, avós, tios, profissionais, todos a opinar sobre as crianças. Às vezes, essas vozes só causam ruído.

Os medicamentos deixam as crianças apáticas?

Marta Calado, da Clínica da Mente, relata que muitas crianças que recebe chegam de facto num estado de apatia. “A criança fica nitidamente diferente daquilo que era antes. Obviamente que isto depende de caso para caso. Se temos uma criança que é ativa e faladora, vamos ter uma criança quase muda; se temos uma criança ativa mas que não é muito faladora, assistimos a uma alteração de comportamento a outro nível.”

“Se os medicamentos deixam as crianças apáticas, então é porque estão a ser dados em excesso. E isso é muitas vezes o efeito procurado pelos pais, professores ou cuidadores porque querem ter as crianças sossegadas e, pensam eles, talvez atentos”, explica Pedro Cabral. “O café e a Ritalina têm exatamente o mesmo efeito ao nível do sistema nervoso. Não é suposto ficar ‘pedrado’.”

E quais são os maiores perigos da medicação? Para Pedro Cabral são dois: os miúdos convencerem-se que só conseguem estudar medicados; e os pais, médicos e professores ficarem contentes esquecendo-se de pensar no que é que não está certo em casa ou no ambiente que rodeia a criança.

“Temos miúdos que às vezes se deitam à uma da manhã ainda com o telemóvel a tocar com o Instagram, WhatsApp e Messenger, a dormir pouco, habituados a ser constantemente bombardeados com estímulos que mudam muito rapidamente e trazem novidades constantes, e depois ficam incapazes de ouvir uma aula de História ou de Filosofia”, lamenta o especialista.

Antes de qualquer medida como medicamentos ou café, é muito mais importante para a criança libertar-se dos ecrãs a partir de determinadas horas, dormir bem, praticar desporto. É que, alerta Pedro Cabral, “a medicação é uma coisa muito séria para ser entregue desta forma a pessoas que não sabem o que é que estão a fazer.”

 

 

Hiperatividade

Julho 31, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Texto publicado no Jornal da Região – Cascais no dia 13 de julho de 2017.

Médico de Família

Hiperatividade

A hiperatividade, corretamente designada de perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), é uma perturbação do comportamento com base neurológica que afeta cerca de 5% da população em idade escolar e 2,5% de adolescentes e adultos. É um dos problemas de saúde mais investigados, pela sua frequência e impacto ao longo da vida.

Carateriza-se por uma dificuldade em regular a atenção, controlar os impulsos e gerir conflitos bem como, em alguns casos, uma atividade motora excessiva em relação ao esperado para a idade.

Na origem deste problema está uma incapacidade de ativar corretamente as funções cerebrais que permitem o planeamento e organização de tarefas, a gestão do tempo e a memória de trabalho.

Ao contrário do mediatizado, não é a hiperatividade que mais limita a pessoa. É a desatenção, que ao manifestar-se nos diferentes contextos da vida (casa, escola, trabalho), prejudica de forma significativa o funcionamento académico, familiar, laboral e social. A irrequietude não é habitualmente problemática para o próprio, embora seja o lado mais visível e perturbador para quem convive com estas pessoas.

O diagnóstico da PHDA é clínico, baseado na identificação dos sintomas presentes de forma mantida em diferentes situações e ambientes, e na dimensão do seu impacto na qualidade de vida. Não existe nenhum teste sanguíneo ou exame de imagem que seja útil no diagnóstico. É por isso crítico conhecer bem a história de cada criança ou adolescente e do seu contexto envolvente.

Neste processo, pode ser necessária uma avaliação psicológica ou psicopedagógica, com testes que avaliam, além da atenção, outras dificuldades que possam contribuir para as queixas. Podem ser utilizados questionários que registam comportamentos típicos (usualmente preenchidos pelos pais e professores).

O tratamento da PHDA inclui sempre estratégias não farmacológicas definidas caso a caso (intervenção pedagógica, psicológica, apoio e treino parental). A medicação é essencial nas situações mais graves, com grande repercussão no desempenho e auto-estima, sobretudo a partir da idade escolar. O psicoestimulante metilfenidato é o fármaco de 1ª escolha no tratamento da PHDA, com ação positiva nas capacidades de atenção e cognitivas,e consequente redução dos sintomas de hiperatividade e impulsividade. É utilizado de forma regular há mais de meio século a nível internacional, é eficaz e seguro e não é, ao contrário do difundido, um calmante.

A decisão de se iniciar medicação é tomada caso a caso e os pais são sempre envolvidos nessa decisão. As crianças e adolescentes medicados devem ser avaliados regularmente em consultas especializadas (Pedopsiquiatria, Neuropediatria, Pediatria do Desenvolvimento) porque a continuidade do tratamento depende dos ganhos obtidos e eventuais efeitos secundários.

Drª Catarina Figueiredo

Pediatra do Desenvolvimento,

Departamento da Criança

Hospital de Cascais

 

“Um caso severo de autismo nunca é só isso”

Janeiro 2, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Entrevista de Christopher Gillberg ao http://www.dn.pt/ de 23 de outubro de 2016.

sara-matos

Sara Matos/Global Imagens

 

O pedopsiquiatra Christopher Gillberg, pioneiro na investigação sobre esta condição esteve em Lisboa para participar no congresso internacional do CADin. Ao DN falou do seu trabalho e do que pode ser feito para melhorar a vida destas pessoas

O diagnóstico de autismo ainda não é exatamente fácil. Porquê?

Porque pode apresentar-se de muitas formas diferentes desde o primeiro momento. Pode afetar as capacidades motoras precoces ou causar atrasos na linguagem ou generalizados, ou apresentar-se através de reações exacerbadas a estímulos sonoros, por exemplo e portanto, torna-se difícil no início dizer, isto é autismo. É sobretudo importante olhar para o desenvolvimento da criança como um todo. Para um pai, algo de preocupante no desenvolvimento da sua criança que se prolongue no tempo, por exemplo, durante mais de seis meses, deve levá-lo a procurar um especialista que observe a situação.

Foi um dos pioneiros na investigação nesta área. O que o interessou no autismo?

Comecei por fazer investigação em défice de atenção e hiperatividade, mas ainda os anos de 1970, comecei a verificar que algumas destas crianças tinham problemas desse tipo. Nessa altura, o autismo era coisa muito misteriosa, que as pessoas acreditavam em geral que era causado por uma mãe que rejeitava o filho. Eu tinha a meu cargo essa área também e conheci todos aqueles pais que não encaixavam nesse padrão e fiquei interessado em perceber o que estava realmente a passar-se. Naquela época quase ninguém fazia investigação em autismo. Tive sorte de conseguir financiamento para trabalhar na área e tornou-se logo claro desde os primeiros trabalhos que que há uma série de problemas nesta condição que não podem ter a ver com o facto de a mãe ser distante ou algo desse género.

Quatro décadas depois dessas investigações, o autismo ainda está envolto em mistério?

Sim, mas já não é tão misterioso como as pessoas ainda pensam que é. O autismo não é uma doença, embora algumas doenças possam causar autismo. Mas isso também é verdade para o défice de atenção, que não é uma doença, ou um problema cognitivo, que também não é doença. O autismo é uma condição. Muitas pessoas, talvez sete a 10% da população em geral, são do tipo autístico: são menos interessadas em interações sociais, preferem estar sozinhas a conviver e poderão falar dos seus próprios interesses mas, em geral, não querem dos seus interesses das outras pessoas. Eventualmente, uma cada dez pessoas é assim. Dentro desse grupo, os seus filhos, se algo mais acontecer, como uma infeção grave durante a gravidez, ou uma insuficiência de vitamina D, por exemplo, ou a toma de alguma medicação, terão mais probabilidade de ter autismo acompanhado de problemas ou distúrbios, se outra doença acontecer. Será então autismo, porque há essas características, mas são os outros problemas que lhe estão associados que são mais importantes, como os que afectam a linguagem, por exemplo. Isso é mais importante do que ser um pouco estranho do ponto de vista social, mas as pessoas concentraram-se tanto na questão da sociabilidade, que isso acabou por ficar um pouco de lado.

O que está na origem de uma personalidade autista? Podemos dizer que isso radica no cérebro?

Sim, tudo está representado no cérebro, em termos de comportamento e de cognição. As pessoas nascem um pouco, muito, ou nada dentro do espectro do autismo. Mas há este equívoco de que o autismo explica os problemas de linguagem, o atraso motor, o baixo QI, ou a epilepsia, mas não é assim. Esses problemas surgem para lá do autismo. O problema não é o autismo, mas cada um dos problemas por si.

Muitas crianças são hoje diagnosticadas com défice de atenção. De repente parece uma epidemia. Como é que isso se explica?

Antes não dispúnhamos desse diagnóstico, não se sabia o que era mas certamente haveria tantos casos como hoje. Hoje quando uma criança é diagnosticada com autismo, por exemplo, o autismo em si é leve, e são os outros problemas associados que são o verdadeiro problema. Mas o diagnóstico de autismo é importante porque isso garante que os pais e a família têm acesso a apoio. Mas, feito um diagnóstico de autismo, é importante pensar nos outros problemas que podem estar associados e para os quais muita coisa pode ser feita em termos de intervenção e que produz melhoras. Por exemplo, há uma variedade de terapias excelentes para tratar sintomas de défice de atenção, desde o treino de memória nas crianças mais pequenas a intervenções na área do desporto, como as artes marciais.

E se a criança em causa não falar sequer? Há casos severos de autismo em que isso acontece.

Se o problema for o autismo, não há um problema de linguagem real, a menos que haja um problema severo de linguagem, para além do autismo. O autismo em si não tem a ver com a linguagem. Não conseguir falar, não é causado pelo autismo. Portanto, aí é necessário intervir especificamente no problema da linguagem. Mas também é preciso dizer que haverá sempre crianças que não chegarão a falar porque têm disfasia, são raros, mas existem e faça-se o que fizer, nunca chegarão a falar. Mas alguns deles poderão aprender a comunicar através de algum dispositivo.

As sociedades modernas estão hoje mais preparadas para lidar com este tipo de problemas?

Estão. Hoje, desde logo, sabe-se mais sobre o assunto, as pessoas ouviram falar, conhecem e aceitam que esses problemas existem.

O que é preciso ainda estudar para compreender melhor este tipo de condição e os seus problemas associados?

Há um subgrupo de pessoas no espectro do autismo, por exemplo, que têm um problema específico: não conseguem reconhecer a expressão facial das emoções e, portanto, não conseguem decifrar as emoções no rosto das outras pessoas. Essa capacidade é representado numa área particular do cérebro, que no caso dessas pessoas não está a funcionar bem. É a área fusiforme do cérebro, que é altamente especializada nessa função. Se ela tiver uma malformação ou estiver destruída por um tumor, ou tiver sido danificada por causa de uma infeção – sabe-se que o herpes pode afetar especificamente esta área – não é possível aprender a fazer esse reconhecimento, ou deixa de se conseguir fazê-lo. Este é um problema comum em pessoas com autismo e não acontece noutras situações. Este grupo precisa de uma abordagem específica, para treinar esta capacidade, porque talvez a pouca função que tenham possa ser treinada se a intervenção for suficientemente precoce. Sabemos de outras condições que, se as intervenções forem suficientemente precoces e focalizadas, é possível obter grandes melhoras.

Quando fala de intervenção precoce refere-se a que idades?

A minha esperança é que nos próximos anos estes problemas possam ser reconhecidos em idades tão precoces como o ano meio. Por exemplo, para os dois anos temos uma nova aplicação com rostos esmiles em as crianças têm de aprender a identificar as emoções. E conseguimos demonstrar que o que acontece na aplicação refete-se nesta área do cérebro. Se pudermos fazer estes treinos com este tipo de dispositivos, aquela área do cérebro pode melhorar o seu desempenho. O autismo nunca pode ser totalmente curado, mas pode sempre haver uma intervenção positiva, mesmo que o diagnóstico seja tardio.

Mas nos casos mais severos, em que não há comunicação sequer com as crianças, o que é possível fazer?

Sim, há situações em que não se pode fazer muito. Mas se o caso é tão severo, então não é só autismo e é necessária nova avaliação para identificar exatamente que outros problemas haverá. Pode haver epilepsia não diagnosticada, por exemplo. Um certo número desses casos severos têm epilepsia não diagnosticada. Tenho visto inúmeros casos em que uma vez diagnosticada e medicada a epilepsia, a situação melhora muito. Nos casos mais severos, é necessário fazer mais avaliações. Não se sabia nada disto há 20 anos.

No futuro, como vai desenvolver-se a investigação nesta área do autismo?

Uma das áreas que vai desenvolver-se será, sem dúvida, a que diz respeito a novas formas de treino para as pessoas que não diferenciam emoções faciais, por exemplo. Teremos de identificar biomarcadores para diferentes subgrupos de pessoas com problemas específicos, como este. É preciso encontrar formas de ajudar estas pessoas a treinar as capacidades em falta, ou até encontrar novas medicações.

Da sua experiência em todos estes anos, qual foi o maior avanço conseguido em relação ao autismo?

Foi, sem dúvida, o facto de termos saído de uma situação de total obscuridade para a que temos hoje, em que é absolutamente normal falar disso.

 

“Não há tolerância para crianças irrequietas”: descubra porquê e que problemas está a criar

Agosto 3, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

texto da http://activa.sapo.pt/ de 20 de março de 2016.

activa

Cada vez se prescrevem mais medicamentos para a Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção. Mas será que o número de crianças com este problema aumentou assim tanto? Um pedopsiquiatra e uma especialista em sono infantil acreditam que o estilo de vida a que os nossos miúdos estão sujeitos não está a ajudar.

Por Cristina Tavares Correia

O novo fantasma dos pais: ter um filho ‘hiperativo’, que não para quieto um segundo, não está atento na escola, irritável, com problemas de comportamento. A Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA) só costuma ser diagnosticada depois dos 5 ou 6 anos, mas há pais que se queixam disso cada vez mais cedo. Filipa Sommerfeldt Fernandes, autora de ‘10 dias para ensinar o seu filho a dormir’ (Esfera dos Livros), dá palestras, workshops e consultas de aconselhamento sobre como regular o sono infantil e é testemunha do desespero deles. “Há pais de bebés de 9 meses que me mandam mensagens a dizer que o filho deve ser hiperativo porque não dorme. Hiperativo, com 9 meses?…”

O certo é que o recurso a medicamentos para tratar a PHDA mostra uma “tendência de crescimento”, segundo um relatório do Infarmed, publicado em novembro passado. Em 2014 dispensaram-se 276.029 embalagens de metilfenidato, o princípio ativo do medicamento psicoestimulante mais frequentemente receitado para a PHDA. O aumento foi de 30% relativamente a 2013, informou o Diário de Notícias. Os tratamentos para esta perturbação também custaram mais de 8 milhões de euros, 5 milhões dos quais suportados pelos utentes, outro “crescimento significativo”. Estão a ser mais prescritos em hospitais ou clínicas privadas (39%), seguidos dos hospitais públicos (37%) e cuidados de saúde primários (22%). Viana do Castelo e Viseu são os distritos onde é mais usado.

E se não for hiperatividade?

“É um aumento relativamente significativo”, comenta o pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia. “São sobretudo prescritos por pediatras, neuropediatras e pedopsiquiatras, que penso terem sido os últimos a entrarem neste comboio da prescrição, e tiveram que o fazer por uma questão de mercado. É verdade que estes medicamentos são eficazes e que ajudam crianças. Mas, provavelmente, há uma utilização um pouco excessiva e algum facilitismo na prescrição, porque o medicamento dá resultado – põe as crianças sossegadas e ajuda-as nos estudos. Mas um tipo de intervenção mais psicológica demora mais tempo.

As consequências já estão à vista. “Há crianças que estão a ser medicadas e não deviam, outras estão a ser medicadas porque têm alguns sintomas e beneficiam com a medicação, mas é como se fosse dopping, é batota. E até há adultos e jovens estudantes universitários que usam o metilfenidato porque é uma substância que melhora o desempenho.”

O uso da medicação numa criança que nem precisaria de a tomar pode nem provocar efeitos secundários, diz o pedopsiquiatra. “Nada, além da ideia perniciosa de que tudo se resolve rapidamente e com pastilhas. Mas há crianças que os apresentam: o principal e mais frequente é perda de apetite, que pode levar ao emagrecimento. Algumas crianças reportam que não se sentem elas próprias. Não leva a uma perturbação de personalidade mas pode levar à alteração da perceção de si próprio. Prescrevo a medicação a crianças que precisam, sim, mas dá-la indiscriminadamente é uma má prática.”

O mais importante é que se faça um diagnóstico criterioso, até porque muitas vezes o problema nem é a hiperatividade e sim “depressão ou início de perturbações bipolares, que podem ser confundidos com hiperatividade. Na criança, a depressão pode ter este aspeto de comportamento ruidoso, irritabilidade, ansiedade. E há medicamentos que mascaram estes sintomas – o metilfenidato pode ser um deles.”

“O sistema escolar está feito para meninas”

Estão mesmo a nascer mais crianças hiperativas, ou é o estilo de vida atual, a forma como os estamos a educar, que os está a deixar assim? “Podemos perguntar se as crianças são mesmo hiperativas, como muita gente diz. Podem ter perturbação de défice de atenção e hiperatividade, mas isso também não define a criança”, diz o pedopsiquiatra.

Segundo o Infarmed, estima-se que esta condição afete entre 5 e 7% das crianças e jovens. “É possível que as condições de vida atual façam com que haja crianças com mais necessidade de se expressarem de forma mais ruidosa, turbulenta e irrequieta em certas alturas do dia. E essas condições podem passar pelo excesso de estimulação com o uso de gadgets e tablets, aliado à pouca oportunidade que têm de estar entretidas e ao excesso de tempo que passam em situações estruturadas (o inglês, o piano, as aulas…) em que têm de se portar bem. Não é de certeza bom para uma criança ter 10 horas de trabalho por dia, mas quotidianamente têm-no nas creches. O tempo livre é cada vez menos para brincarem sem grande supervisão, imaginarem, inventarem e resolverem conflitos entre si. Esse tempo é muito desvalorizado. As escolas e os pais estão a trocar recreios por aulas de apoio, cursos, castigos. As crianças têm que estar sempre vigiadas senão acontece uma desgraça qualquer, são proibidas de ir brincar para a rua porque é perigoso. Sobretudo, há falta de tempo para ela se poder aborrecer e inventar qualquer coisa para fazer. O efeito que vejo é estarmos a criar uma geração de pessoas obedientes, o que é ótimo do ponto de vista da vida profissional futura.”

Quando fala em obediência, não é com o significado positivo que a nossa cultura geralmente dá ao termo. Até porque ser muito obediente, não questionar nada, não é necessariamente bom para ninguém, nem para uma criança.

“Outra coisa muito importante é a falta de tolerância para lidar com a irrequietude das crianças. As escolas têm uma grande responsabilidade nisso; parece que só querem formar meninas. Os rapazes são vistos como meninas com defeito. O sistema escolar está feito para as meninas – sossegadas, contemplativas, a pensar nas emoções. Não sabemos (nem queremos) lidar com a ação, a assertividade, a agressividade. A escolaridade obrigatória aumentou, fez com que muitas crianças estivessem na escola sem nenhuma motivação; as armas que os professores têm para manter a disciplina mudaram, mas isto devia vir a par com o aumento da competência para motivar os alunos e permitir também alguma atividade e turbulência. Por isso, as queixas surgem mais facilmente quando se sabe que há comprimidos que resolvem estas coisas de forma quase milagrosa. Há quase um sistema de pressão das escolas que se queixam aos pais para procurarem uma solução para os filhos. Os professores também são pressionados a apresentar resultados.”

Terapia de choque

Mas há outro fator de que nos esquecemos: poucas horas de sono, ou um sono de má qualidade, “podem ter sintomas que se assemelham aos da hiperatividade, difíceis de distinguir”, como confirma Pedro Caldeira da Silva. E as crianças portuguesas dormem menos do que deviam. “Fizemos um inquérito às crianças que vêm à consulta na Unidade da Primeira Infância e percebemos que dormiam, em média, menos duas horas do que o recomendado. São resultados equivalentes aos dos estudos epidemiológicos que se fazem.” Quais as consequências disto para o desenvolvimento infantil? “Espero que não sejam catastróficas”, desdramatiza o médico. “Mas podem ser a nível da organização da memória e da regulação do humor.”

Filipa Sommerfeldt Fernandes começou por ser jornalista, mas foi o nascimento do filho que a fez interessar-se pelo estudo do sono. Fez cursos especializados, como o ‘Sleep Trainning’, num centro ligado à Universidade de Reading, no Reino Unido. “A má qualidade de sono tem consequências a nível de desenvolvimento e comportamento social muito parecidas com aquelas que são descritas na hiperatividade. Deixa os bebés pequenos mais rabugentos, choram muito, e comem pouco porque estão cansados. Em crianças mais crescidas, deixa-as como se estivessem sempre ligadas à ficha, são mais irritadiças, com pouca tolerância à frustração (o que lhes pode trazer problemas de relacionamento), precisam constantemente de atenção e de estar sempre distraídas – quando param, começam a ficar zangadas porque estão cansadas.”

As novas tecnologias não estão a ajudar. “Há imensos estudos que apontam que a utilização de eletrónica provoca sintomas como a dessincronização do nosso relógio biológico, fazendo as crianças dormir pior e ficarem mais agitadas”, observa Filipa. O nosso corpo é regulado por ‘relógios internos’; a melatonina, a hormona que produzimos naturalmente e que regula o nosso sono, é induzida pela luz do dia. “Por isso é que usar muitos gadgets à noite faz com que exista uma luz constante que atrasa a libertação de melatonina. Desrespeitamos completamente o nosso ritmo natural, um produto das nossas vidas numa sociedade que mudou.”

Uma das primeiras soluções que Filipa recomenda a pais desesperados com as noites mal dormidas dos filhos costuma ser o terror. Mas funciona. “Antes de medicar miúdos que mostram sintomas de hiperatividade, tenta-se retirar tudo o que é gadget e eletrónica de casa durante um mês. É horrível na primeira semana e parece que estão todos em ressaca, mas, se o conseguirem ultrapassar, costuma compensar. Faz-se mais exercício lá fora, eles mexem-se e brincam mais, ganhamos tempo de relacionamento e isso influencia muito a qualidade do sono.”

E deixa o alerta: “É importante que pediatras e pedopsiquiatras estejam atentos à questão do sono. Muitos pais que me procuram trazem queixas de que o pediatra não deu a devida importância a esse fator e disseram que era uma fase que ia passar. O problema é quando eles têm três anos e nunca dormiram bem.”

Há quem dê anti-histamínicos para as crianças adormecerem

Ter um filho que não dorme e se torna irritável e irrequieto leva muitos pais às consultas do sono de Filipa S. Fernandes. “Há coisas que me fazem muita confusão, como gente que tenta dar anti-histamínicos a bebés para que durmam. De forma mais ligeira, mas também frequente, medica-se com melatonina sintética durante meses. Não tem efeitos secundários nem contraindicações mas há poucos estudos sobre os seus efeitos, quando tomada prolongadamente. Quando tomamos algo sintético que o corpo já produz, como a melatonina, ele fica preguiçoso para fabricá-la. A dose normal de melatonina para uma criança são quatro gotas (1 miligrama) e há quem esteja a dar 20 para eles adormecerem rápido.”

Muito estímulo, cedo demais

Será que, na tentativa de que os nossos filhos não fiquem para trás no comboio do desenvolvimento, que sejam espertos e curiosos e criativos, não estaremos a sobreestimulá-los e a deixá-los mais ‘hiperativos’? Filipa Sommerfeldt acredita que sim. “Estamos a dar-lhes demasiadas coisas, cedo demais. Parece-nos que se não estivermos de volta deles, a estimulá-los com diferentes coisas, como livros, rocas, o mobile em cima da cama, música de Beethoven, vamos tornar os nossos filhos burros. Ficamos orgulhosas se os nossos bebés souberem fazer as coisas antes do tempo estipulado nas metas de desenvolvimento.”

A juntar a tudo isto vem a falta de tempo e acumulação de tarefas, quando chegamos a casa. “Isso faz com que muitas vezes lhe demos um tablet para as mãos. Os nossos filhos ficam viciados nestes aparelhos eletrónicos. E quanto mais viciantes se tornam, mais precisam daquilo para continuarem tranquilos. Estarem demasiado tempo concentrados em cores, movimento, som, provoca-lhes uma espécie de overdose de estímulos num cérebro ainda em desenvolvimento.”

Jogos e aplicações pedagógicas “não são um mal para as crianças, por si”, reflete Pedro Caldeira. “Uma coisa que sei que deveria ser proibida e faz muito mal é a Baby TV. Não há nada de positivo que possa resultar de pôr um bebé em frente a um ecrã a ver bolas a mexer, a não ser isolamento e captação rápida de consumidores. Não há nenhum argumento de pseudo-estimulação ou pseudo-informação que possa vir da Baby TV. É tempo de privação de interação. Temos casos de alguns meninos que ficaram com atrasos de desenvolvimento porque ficaram em frente à televisão.”

Os tablets e smartphones tornaram-se na nova ama eletrónica, “uma invenção fabulosa para poder ir jantar fora”, como diz o pedopsiquiatra, que concorda com a recomendação da Sociedade Norte-Americana de Pediatria, que não recomenda que crianças abaixo dos 2 anos tenham sequer acesso a eles – ou a qualquer tipo de tempo de ecrã. “Essa fronteira etária é aleatória, poderia situar-se nos 2, 3 ou 5 anos. Não é só dar tempo de ecrã cedo demais, mas darmos em exclusivo ou em grande quantidade. Hoje, vemos que os meninos já sabem letras, alguns até ler, aos 4 anos. Parabéns. Não são estas tecnologias que vão tornar as crianças mais espertas. É muito importante que elas possam construir com as suas mãos, deitar abaixo, trepar, resolver problemas, planear ações, e isso não se consegue nos tablets. É viciante, sim – tudo quanto é jogo age no centro de recompensa do cérebro – mas é mais um mecanismo que surge porque queremos que elas não chateiem e sejam boas de aturar.”

 

 

Hiperatividade : Diagnóstico ou Sintoma?

Junho 15, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

texto do site http://uptokids.pt de 19 de maio de 2016.

pathfinder

As opiniões dividem-se! Enquanto uns fazem uma abordagem puramente biológica – como é o caso dos Estados Unidos, onde a taxa de incidência de TDAH (Transtorno do Défice de Atenção com Hiperatividade), ronda os 9% da população infantil em idade escolar -, outros adotam uma perspetiva psico-social, compreendendo a questão à luz de problemáticas situacionais – sendo exemplo disso a França, em que os diagnósticos são inferiores a 0,5%.

A hiperatividade por si só não encerra um diagnóstico, mas é antes um sintoma. E pode ser um sintoma de variadíssimas questões:

  • Simplesmente ser criança: as crianças mexem, pulam, gritam, brincam, correm, cansam quem observa de tanta atividade, mas não se cansam. Não são adultos, são mesmo assim: CRIANÇAS! Saudavelmente, crianças!

Quando, ainda assim, parece ser uma agitação excessiva, a lista pode continuar:

  • Excesso de atividades: Pode acontecer que a agenda semanal da criança está tão sobrecarregada de atividades, que a própria criança entra num ritmo de agitação provocado por não ter mais momentos de puro lazer e descontração. Por muito atrativas e apreciadas que as atividades sejam, é importante priorizar algumas para que a semana não seja vivida num corrupio de horas de entrada e saída do que quer que seja.
  • A hiperatividade também surge no registo do chamado “fuga para a frente”, isto é, a criança que não está bem por alguma razão e age muito para não pensar. É o sentir que “não posso parar”. Às vezes até chegam a conseguir relatar que não conseguem parar (o que também dá indícios sobre o mal estar).

Naturalmente que uma criança mais “agida”, terá mais dificuldade em concentrar-se. Especialmente se a agitação estiver relacionada com algum desconforto. Nesse caso terá outros indícios, como não conseguir ver um filme completo (quando pela idade isso é já esperado); mudam rapidamente de brincadeira e de brinquedo, como se se cansassem facilmente do que têm; dormem pouco; parecem compreender as regras, mas habitualmente não as cumprem, etc.

Ponderando o cenário acima descrito, e percebendo que a hiperatividade por ser significado de um mal-estar associado, como será possível a concentração? Utilizando uma expressão popular, se a criança “ está tão preocupada com os seus botões”, e canalizando a sua energia para a ação, como sobrará para estar atenta? Percebe-se, assim, a habitual relação feita entre os dois sintomas: Hiperatividade e Défice de Atenção.

Todos nós sabemos que, ao tomar um analgésico, a razão da dor não desaparece. O que é eliminado é simplesmente o sintoma. Acontece, então, que o problema subsiste, só anulamos o sintoma que dá expressão a esse problema. Exemplo: um analgésico elimina uma dor de cabeça, mas (imaginando que essa é uma dor provocada por falta de visão) não corrige a questão oftálmica – atua somente no sintoma, não na raiz do problema. Precisamente o que se passa com a medicação aplicada à Hiperativade e/ou ao Défice de Atenção.

Atualmente, os diagnósticos de TDAH somam-se e multiplicam-se a uma velocidade preocupante e as crianças, adicionalmente ao rótulo, recebem medicação para anular a agitação e garantir a concentração. Resolve o problema? Não! Quando param a medicação, mantêm o mesmo padrão de comportamento – a medicação age exclusivamente sobre o momento da toma e sobre o comportamento (sintoma). Não age no que origina o comportamento hiperativo e a dificuldade de concentração. Conseguem melhores resultados escolares? Sim! Enquanto tomam o medicamento, os níveis de atenção são aumentados, o que garante maior segurança no sucesso escolar. Isso justifica que se medique sem compreender o que está na base do desenvolvimento de um comportamento menos adequado? Discordo, em absoluto!

imagem@pathfinder

Ação de Formação – Maus Tratos em Crianças. Avaliação e Diagnóstico: Instrumentos de avaliação do risco e do perigo em Vila Nova de Poiares

Abril 20, 2015 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

 

poiares

mais informações:

Inscrição

https://docs.google.com/forms/d/1LdD85D8NR0ISzZUbKn5wsmiNPo9KOpfe9A88pZJ_ht0/viewform

https://www.facebook.com/cpcj.vilanovadepoiares

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.