Regresso às aulas. Educação Física é a maior dúvida mas já se prepara novo modelo

Julho 29, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 14 de julho de 2020.

As novas orientações do Governo para as escolas não contemplam a disciplina e o seu futuro continua uma incógnita. Como aprender basquetebol sem tocar nos outros membros do jogo? Utilizar o balneário é permitido? A confederação que representa os profissionais da Educação Física já está a preparar “um conjunto de orientações e recomendações para as escolas”.

A preocupação está instalada nas escolas. “Os professores de Educação Física estão ansiosos” com o próximo ano letivo, assegura Filinto Lima, dirigente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). Depois de decretada a suspensão das aulas presenciais em março, devido à pandemia de covid-19, todos os docentes, alunos e famílias foram obrigados a adaptar-se a uma nova realidade de ensino à distância. Uma tarefa dificultada para estudantes e professores de Educação Física, habituados a um currículo mais prático e com a envolvência de contacto, por força do ensino das modalidades coletivas. Entre todas, “foi a disciplina mais prejudicada”, não hesita em dizer o presidente do Conselho Nacional de Profissionais de Educação Física e Desporto (CNAPEF), Avelino Azevedo.

Findo o ano letivo que passou, as dúvidas mantêm-se. Embora, na semana passada, o Ministério da Educação tenha feito chegar às escolas diversas orientações sobre o funcionamento do próximo ano letivo, esta unidade curricular ficou de fora do documento e continua uma incógnita. O representante da ANDAEP indica que a Educação Física é, atualmente, “a disciplina que está menos definida quanto ao futuro”. “Como é que as aulas vão ser dadas?”, levanta o debate. “Está tudo por se saber ainda” e, até arrancarem as aulas, diz Filinto Lima, “a audição [por parte do ministério] das confederações [representativas da Educação Física] é essencial.”

A CNAPEF já vê, contudo, a luz ao fundo do túnel e garante que levar a Educação Física para as escolas em setembro sem alterar o plano curricular não se trata de uma missão impossível. O presidente Avelino Azevedo adiantou, em entrevista ao DN, que a confederação já está a preparar “um conjunto de orientações e recomendações para as escolas”.

“Há várias formas de ensinar a mesma coisa”

Sem adiantar parte das medidas que deverão ser anunciadas em breve, Avelino Azevedo garante que contemplam o desafio a que a disciplina se propõe, embora de forma menos tradicional. Ainda que “as pessoas associem o ensino da educação física ao ensino das modalidades coletivas e da situação de jogo, nós passamos por um processo de aprendizagem [o ensino à distância] em que conseguimos manobrar perfeitamente o contacto com o material, o contacto físico e o contacto nos balneários”, diz.

A Educação Física ensina as modalidades, “é certo”, “mas não tem as mesmas regras que têm as modalidades”. “O que é que eu quero dizer com isto? Que há várias formas de ensinar a mesma coisa, sem envolver o contacto físico com os colegas e o material” disponibilizado pela escola para o desporto. E deixa um exemplo: “Eu posso ensinar basquetebol fazendo um campeonato por skills, ver quem encesta mais vezes a sua bola.”

Além disso, entre as várias modalidades coletivas, os professores podem “selecionar aquelas que considerem ser as que menos põem em risco os alunos no processo de ensino de aprendizagem” e ajustável ao novo plano de aulas.

Filinto Lima garante que a segurança não será posta em causa. “Pretendemos que as aulas ocorram de forma segura e adaptada à realidade de cada escola, daí eu entender por que é o Ministério da Educação não deu orientações específicas às escolas, porque funcionam em realidades diferentes e têm de se fazer valer da sua autonomia. Autonomia também é responsabilizar e é preciso responsabilizar os seus professores e os diretores no sentido de se criar condições para que o ensino seja efetuado de forma segura e seguindo as orientações da Direção-Geral da Saúde. Se disser que é preciso manter dois metros entre alunos, vamos fazer isso“, remata.

Outra das preocupações das escolas passa pela utilização dos balneários, à semelhança do que ocorreu com os ginásios, obrigados a suspender os banhos nas suas instalações. O presidente da CNAPEF adianta, contudo, que “há várias formas de ultrapassar esta questão” e deve partir da organização de cada escola e dos horários elaborados para as turmas. “Se os alunos tiveram aulas no final do turno, vão logo para casa, como alguns já fazem. Ou então, têm aulas só de Educação
Física à tarde”, lança a hipótese.

E se o aluno morar longe do estabelecimento de ensino e tiver os transportes limitados para ir a casa tomar banho e regressar à escola? “A ideia é prever um número de alunos reduzido a utilizar os balneários”, responde.

Pico de infeções pode “deitar tudo a perder”

Portugal continua com infeções da ordem de duas ou três centenas por dia, totalizando já 46 818 infetados pelo novo coronavírus e 1662 mortes. Segundo a Direção-Geral da Saúde, há a possibilidade de um pico de contágios em outubro, mudança de estação, altura em que as fragilidades na saúde dos cidadãos se tornam mais visíveis. A acontecer, os planos das escolas poderão mudar e regressarem as aulas à distância. Para a disciplina de Educação Física, seria como “deitar tudo a perder”, alerta Filinto Lima, da ANDAEP. Porque embora as restantes disciplinas ganhem espaço de manobra, esta ficará sempre mais condicionada.

Para já, o plano é regressar às escolas e às aulas presenciais entre 14 e 17 de setembro, prolongando o ano letivo (com exceção dos alunos com exames) para recuperação das aprendizagens e diminuindo a pausa letiva da Páscoa.

Mas o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, alerta: “Temos de nos preparar para o pior.” O que implica prever três regimes nas escolas: presencial, não presencial e misto. Estes dois últimos só deverão ser acionados em caso de necessidade temporária, no caso de um encerramento forçado pela pandemia.

Um país sentado no sofá – Crianças obesas

Janeiro 2, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Fronteiras XXI

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Há alunos do 2º ano que não são capazes de saltar bem à corda e estudantes do 5º que não sabem correr. “Em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se”, lamenta o professor de educação física Avelino Azevedo.”

Portugal é dos países europeus com menores taxas de actividade física e mais crianças obesas. Uma aposta sólida na promoção do exercício físico poderia trazer melhorias significativas na saúde pública e pouparia muito dinheiro. Mas as escolas continuam com dificuldades, os clubes oscilam entre a responsabilidade social e a necessidade de formar “activos”, os decisores políticos parecem pouco empenhados no tema e há muitos miúdos que passam a vida no sofá ou em frente ao computador. Estamos a formar gerações com rotinas sedentárias. E vamos todos pagar por isso.

A falta de actividade física entre as crianças portuguesas é uma bomba-relógio. Porque lhes limita o desenvolvimento motor em idades em que muitas capacidades podem ser maximizadas e porque crianças que não se mexem serão no futuro adolescentes e adultos sedentários. Doenças físicas e problemas de auto-estima ficam à espreita e a saúde pública fragiliza-se.

Os dados da Direcção-Geral da Saúde revelam que 77 por cento dos portugueses não praticam exercício suficiente. E a Organização Mundial de Saúde calcula que mesmo que a taxa de inactividade fosse de 50 por cento, o sedentarismo custaria ao país mais de 900 milhões de euros por ano em cuidados médicos, medicamentos ou absentismo no trabalho. Foi quanto pagámos pela ponte Vasco da Gama…

O problema é sério e o cenário entre os mais novos não prognostica nada de bom. Numa sociedade cada vez mais urbana e “electrónica”, os miúdos saem menos de casa, andam menos a pé, já quase não brincam na rua. Em cima disso, comem e bebem alimentos hiper-calóricos.

Os estudos mostram bem a degradação daquilo a que Olímpio Coelho, professor convidado da Universidade Lusófona, chama “literacia motora” entre os mais pequenos: as provas de aferição do ensino básico em 2016/2017 concluíram que quase metade dos alunos (46%) não conseguia dar seis saltos consecutivos à corda, que 40% não sabia dar uma cambalhota e quase um terço (31%) sentia dificuldades em jogos de grupo.

Se o ponto de partida é francamente mau, o que se segue também não são boas notícias. É que o sistema escolar não tem capacidade de resposta para o problema, aponta Avelino Azevedo, presidente do Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto (CNAPEF): “Estamos muito preocupados com o processo educativo no 1º ciclo, que é deficiente, até pela falta de instalações e profissionais”, alerta.

“Às vezes no 5º ano temos de ensinar miúdos a correr, como pôr o pé, etc… São questões básicas, que tinham de ser trabalhadas antes. Depois os miúdos não têm destreza física, se caem magoam-se logo, em vez de os ensinarmos a praticar desporto temos de os ensinar a mexer-se.”

Como é que isto acontece, se como diz, Olímpio Coelho, “as crianças são naturalmente activas”? Porque, levam uma vida muito sedentária. “Todas as solicitações fortes vão no sentido de estarem parados, com a popularização dos jogos electrónicos, da Internet, da vida em frente ao teclado. É preciso limitar o tempo que as crianças dedicam ao computador.”

Já não se brinca na rua

O meio urbano também está a bloquear essa tendência dos mais novos para a actividade, porque “reduz as possibilidades de exercício natural”.

“As práticas de rua estão em desuso, são vistas como inseguras e há uma protecção excessiva, que não permite aos miúdos crescerem perante a adversidade, ao ar livre”, analisa Tomaz Morais, treinador de rugby, assessor para o alto rendimento da Federação Portuguesa de Rugby e consultor do Sporting. “Desta forma, as crianças não são capazes de ganhar hábitos motores, como saltar, correr, cair ou subir escadas, fundamentais para conseguirem praticar desporto com qualidade”, explica. “Uma área onde se nota claramente a influência das ‘facilidades’ modernas é a da resistência. Os transportes públicos chegam a todo o lado e a generalidade dos jovens anda pouco a pé.”

Ainda assim, Tomaz Morais vê algumas mudanças positivas: “Há um entendimento muito mais claro da importância do desporto na formação dos jovens. Pais, médicos, meio escolar, comunicação social; toda a gente está mais alerta para as vantagens da actividade física, seja ela formal ou informal. Há uma maior consciencialização social e vemos jovens a participar em actividades físicas sem carácter competitivo, procurando apenas o bem-estar.”

Para muitos, no entanto, só o meio escolar fornece o enquadramento para a prática de algum exercício físico.

“A principal preocupação prende-se com o número de horas de actividade física que os alunos cumprem sob supervisão especializada”, explica Avelino Azevedo. “Queremos cumprir as normas europeias e da Organização Mundial de Saúde: uma hora de exercício diário por dia. Se não for na escola, para muitos não será em lado nenhum… E como o Desporto Escolar só abrange cerca de 20 por cento dos alunos, perto de 180.000, o nosso foco centra-se nas aulas de Educação Física.”

O impacto na vida dos alunos é enorme, até em questões muito prosaicas. “Para alguns, que vivem com dificuldades económicas e em lares desestruturados, o banho que tomam na escola depois das aulas pode até ser o único nessa semana…”, lembra Avelino Azevedo.

Há todo um mundo de dificuldades que passariam despercebidas aos mais desatentos, mas não a quem trabalha directamente com os jovens. “A refeição na cantina é muitas vezes a única de jeito para alguns miúdos”, diz Marco Cerveira, coordenador técnico da formação de futebol no Grupo Desportivo de Peniche (GDP) e também professor de Educação Física.

Desinvestimento na Educação Física

As hesitações políticas ao longo dos anos não têm contribuído para reforçar o estatuto da Educação Física, antes pelo contrário.

Em 2012, a disciplina deixou de contar para a média dos alunos do secundário. Agora, as notas voltaram a ser contabilizadas. Mas durante esses anos houve um claro desinvestimento na Educação Física, relata Avelino Azevedo.

“Dos alunos que, em alturas mais complicadas, apontavam para as outras disciplinas, as que contavam para a média de acesso ao ensino superior; dos directores das escolas, no momento de tomar decisões; e do Ministério da Educação, que negligenciou a formação de professores”, defende.

Acontece que esta fase coincidiu ainda com a vaga de obras nas escolas a cargo da Parque Escolar e o estatuto “menor” da Educação Física levou a que muitas remodelações adoptassem intervenções minimais ou deixassem mesmo de lado as instalações desportivas.

“Há escolas com zonas cobertas, mas não fechadas… Ora, em algumas regiões do país isso até pode servir, mas no Norte e no Interior é impossível dar aulas ao ar livre durante o Inverno! E mais: essas instalações das escolas acabam também por ser utilizadas pela comunidade em horários pós-escolares, pelo que se perdeu uma oportunidade que vai muito para além do universo escolar”, diz o presidente do CNAPEF.

Contudo, era inevitável que a Educação Física recuperasse o seu estatuto, adianta. “A questão foi ultrapassada. O aluno é um todo, a Educação Física não trabalha apenas o corpo, potencia tudo o que ajuda na aprendizagem: trabalhar em grupo, saber ganhar e perder, questões de saúde, de auto-estima, de integração.” Porque o papel principal do desporto na escola é “reforçar a literacia motora dos seus alunos”, criar “bons candidatos a praticantes que depois os treinadores trabalham”, reforça Olímpio Coelho.

Por esse motivo, o trabalho com as crianças deveria começar mais cedo, no 1.º ciclo, onde a tradição e os métodos de ensino não parecem jogar a favor de uma maior preocupação com a actividade física.

As salas têm um professor generalista e muitas nem dispõem de instalações adequadas. Para Avelino Azevedo, a solução passaria por “colocar um professor de Educação Física a coadjuvar o docente generalista e generalizar a boa prática de aproveitamento racional das instalações municipais, como os pavilhões e as piscinas”.

Os clubes: valores e performance

Apesar de tudo, mantêm-se algumas resistências, a começar pelas colocadas pelos miúdos que não se sentem à vontade com o exercício físico. Não estão habituados, custa-lhes, é um sacrifício, fala-se cada vez mais em performance e quem não é bom no desporto mais vale nem tentar…

Para os que aprenderam a gostar de exercício e têm apetência, praticar desporto significa cada vez mais inscrever-se num clube. Há hoje mais de 410 mil crianças e jovens a praticar desporto federado.

Mas os pais pagam a formação desportiva ou pagam a busca pela excelência? “Os pais vêem nos clubes uma forma de praticar desporto com mais segurança, o que não quer forçosamente dizer melhor desporto”, diz Tomaz Morais. “O lado bom é que os clubes investem cada vez mais em profissionais qualificados, que abrem o treino às áreas que estão mal trabalhadas de base. Quando antes se ensinava a jogar, agora trabalha-se toda a motricidade, que devia ser algo desenvolvido a nível pessoal. Mas é o cenário que temos.”

A preponderância dos clubes traz consigo uma diferença de enquadramento, de mentalidades. “Está a passar-se cada vez mais carga sobre os miúdos que praticam desporto. Há uma exigência de competir bem e ganhar. Não está errado; o que não se pode é passar por cima de princípios éticos. A expectativa da vitória é cada vez mais premente. Antes havia mais ‘alegria’, agora é o ‘rendimento’. Os clubes formam e querem performance”, adianta.

Já para Olímpio Coelho, hoje o desporto de alto rendimento está absorvido pelo economicismo e funciona numa lógica empresarial de criação de valor de mercado, não dando tanta atenção às questões da valorização do indivíduo e da sociedade.

E por isso, “exceptuando algumas pessoas e instituições, não se respeita o longo prazo, acelerando-se o processo para tentar formar ‘activos’…” Ou seja: “o indivíduo deixa de estar no centro do processo, passa a ser a instituição.”

E, sim, depois há também os pais. Alguns confundem a formação desportiva dos filhos com o investimento num futuro financeiramente desafogado… E é vê-los por aí, ao fim-de-semana, gritando “instruções” para o campo, destratando árbitros e adversários, às vezes até os próprios filhos, por falharem um passe ou estarem distraídos…

“Temos de domesticar os pais”, desabafa o professor de educação física Marco Cerveira. Em Peniche, onde coordena a formação de futebol, há procedimentos estabelecidos para evitar choques entre os progenitores ansiosos e os técnicos, que acabam, inevitavelmente, por prejudicar sobretudo os jovens praticantes.

“Aqui os treinadores têm instruções para não debaterem questões técnicas com os pais. Quando menos conversa houver sobre esse tema, melhor”, explica. “Mas não deixamos de os ouvir quando estamos no campo. E os miúdos também…”, desabafa.

Uma “lição” de futebol em Peniche

Nem sempre é assim, claro. “Noutros clubes, já tive pais a dizerem-me que pagavam e que o filho tinha de jogar. Respondi-lhes que estavam errados: eles pagam pelos treinos, pela formação; o jogo é responsabilidade do clube”, vai contando Marco Cerveira, à margem do jogo no estádio do Grupo Desportivo de Peniche (GDP), entre a sua equipa de sub-13 e a do Bombarralense.

Desde que o professor de educação física chegou ao clube, “há quatro ou cinco anos”, e com o apoio do então presidente João Manuel Viola, a formação do GDP levou uma volta. “Apostámos na qualidade dos treinadores, o presidente aceitou que era necessário subir um bocadinho o nível de remuneração dos técnicos, até para haver outra exigência. Trabalhamos em conjunto, não há ‘quintais’ estanques, funcionamos como um todo.”

Os resultados estão à vista, garantem no clube. De 70 miúdos passaram para cerca de 200, pela primeira vez o GDP tem uma equipa dos escalões de formação (iniciados) no campeonato nacional e há toda uma nova dinâmica à volta do futebol jovem.

Neste sábado de manhã, alguns deles estão aqui, correndo atrás da bola com entusiasmo pelo campo sintético. Uns mais dotados tecnicamente, outros menos; uns mais franzinos, outros mais espigadotes; alguns com peso a mais. E na equipa adversária do Bombarralense até há uma menina – a Mariana – que joga com os rapazes.

Cada jogo é uma lição. Quando o guarda-redes do Peniche comete um erro e o adversário marca golo, o rapaz da baliza fica inconsolável no chão. “Repare agora”, avisa Marco Cerveira. E vários companheiros correm para o confortar. Levantam-no do chão e o jogo prossegue.

E mais à frente na partida, quando um jogador do Peniche amua, por um companheiro se perder em fintas e não lhe passar a bola, virando as costas ao lance, é logo substituído. No final da partida, apesar de vencerem por 5-1, a voz do treinador do GDP é dura: “Isto não volta a acontecer! Nem contigo, nem com mais ninguém!”. Nestas idades aprende-se muito mais do que apenas a chutar bem a bola.

O Martim, capitão de equipa do Peniche, é um dos que sabe bem o que fazer com a bola. Percebe-se pela forma como se mexe no campo sintético. Mas, garante, o futebol “é mais pela alegria, nem importa ganhar ou perder”. A sério?! Hoje foi uma vitória valente. Marcaste um ou dois golos? “Não, hoje não marquei nenhum. Mas fiz duas assistências, também é bom…”

Martim, Martins de apelido, fã de Cristiano Ronaldo, está no Peniche desde os 9 anos e já foi referenciado e chamado para testes pelo Benfica e pelo Sporting. Gostavas de ser jogador de futebol? “Até podia ser, não pensei ainda muito nisso.” Já fez ginástica, mas agora, “com a escola, os treinos e os jogos”, faltava-lhe tempo. Outros desportos? “Gosto de futsal”, admite, sempre com alguma timidez, “e também de ir à pesca.” Conhece vários miúdos da sua idade que não praticam qualquer desporto, uns porque não têm “possibilidade”, outros por lhes faltar “capacidade”. Outros ainda, explica com ar muito sério, “porque os pais estão separados”.

Parece ingenuidade, mas não é. Com as distâncias que é preciso percorrer para participar, há pais cujo fim-de-semana é balizado pelos treinos e competições dos filhos atletas.

Se falha este apoio, muitas vezes os miúdos não têm como juntar-se às suas equipas – se há mais do que um filho, com horários coincidentes, ninguém consegue estar em dois lados ao mesmo tempo….

Há também quem não tenha capacidade financeira de pagar os desportos dos filhos. Uma realidade que não passa ao lado do GDP. “Os miúdos pagam apenas 12,5 euros por mês para praticarem futebol e para os que precisam de transporte – porque alguns vêm de longe – são apenas mais cinco euros”, frisa Marco Cerveira. Mas no GDP os mais carenciados não pagam nada. “O presidente dizia-me sempre: ‘Não há-de ser por causa do dinheiro que os miúdos vão deixar de praticar desporto!’”

Ameaça para a saúde

Um pouco por todo o país, há “Martins” que mostram potencialidades e muitos outros que praticam desporto porque é bom e saudável, à espera que a vida lhes abra outros caminhos. Há pais mais ou menos capazes de perceber a pedagogia do trabalho de equipa, clubes com maior ou menor grau de exigência no trabalho dos técnicos, realidades sociais que se cruzam com o cenário da prática desportiva. Há um país que se mexe, outro que fica no sofá.

Em Portugal 30 em cada 100 crianças é obesa. Entre a obesidade e a falta de exercício físico é fácil estabelecer uma ligação. E também, também não é complicado encontrar nesta conjugação de factores negativos a génese de muitas doenças. Há pelo menos duas dezenas de doenças e condições físicas para as quais o exercício pode ser factor preventivo, alerta a Direcção-Geral da Saúde. Das doenças coronárias, à diabetes, do cancro da mama à depressão.

O problema está identificado e uma opinião pública mais alertada. Mas parece que há sempre alguma coisa no caminho, a encravar a máquina das boas intenções… Olímpio Coelho destaca alguma tibieza da acção política nesta área, dando como exemplo a falta de divulgação pública do programa do Ministério da Saúde para o desenvolvimento da actividade física. “Ele existe, mas, tirando em alguns meios mais restritos, a verdade é que não vejo nada sobre isso nos ‘media’ e não chega ao grande público.”

É difícil passar esta mensagem? O trabalho das empresas de material desportivo e de algumas federações mostra que é tudo uma questão de se apostar a sério na comunicação e de saber fazer as coisas bem feitas. “Nota-se que há, entre os jovens, uma apetência natural por modalidades ditas radicais, que têm um marketing mais agressivo. As federações dos desportos tradicionais precisam de agir de forma mais assertiva para cativar os miúdos”, analisa Tomaz Morais.

É um desafio, mas nunca como agora as pessoas estiveram tão sensíveis à mensagem: “O desporto era muito visto como competitivo; está agora a ser percepcionado sob o prisma da saúde mental e física”, salienta o homem que conduziu os “Lobos” à presença no Mundial de Rugby de 2007. Proeza que elevou a modalidade a um nível inédito de popularidade interna:  se em 2006, a Federação Portuguesa de Rugby tinha 2.745 atletas federados, um ano depois já eram 3.410 e no ano passado atingiram os 6.460 jogadores.

A força dos campeões

Nesses mesmos onze anos, entre 2006 e 2017, o número de atletas federados também disparou. O futebol continuou a ser a modalidade mais popular e subiu de forma significativa o número de praticantes (de 133.360 para 176.349). Mas este crescimento, em termos relativos, é ofuscado pelas subidas imparáveis da ginástica (de 9. 473 para 18.312) e do basquetebol (18.690 / 41.807), que duplicaram o número de federados, tal como o rugby; do ciclismo (4.566 / 15.739), que mais do que triplicou; do triatlo (713 / 2831), que praticamente quadruplicou; e, acima de todos, da natação (7.938 / 65.499), que numa década multiplicou por mais de oito vezes os praticantes inscritos na federação e foi, em termos absolutos, quem cativou mais novos atletas.

O padel também se destaca, apesar de apenas 2016 a federação registar atletas. Se no primeiro ano eram 1.805 os praticantes federados, em 2017 esse total já tinha subido para 3.123.

Há muitos factores que influenciam a popularidade de um desporto, mas é evidente que os campeões, os heróis, têm uma importância enorme. Os golos de Cristiano Ronaldo, os “passing shots” de João Sousa no ténis, as manobras vertiginosas de Miguel Oliveira no Mundial de motociclismo, os afundanços das estrelas da NBA. E as medalhas olímpicas, claro.

Em 2020 vai fechar-se mais um ciclo, com os Jogos de Tóquio. E não é difícil prever que voltarão à ribalta as questões relacionadas com a pouca atenção dada a algumas modalidades, os apoios que os atletas têm ou não têm, as deficiências na formação, a falta de meios, a falta de atitude… Enfim, o costume. “Expectativas elevadas, confronto com a realidade, procura de culpados”, sintetiza Olímpio Coelho.

“Não consigo ver que o desporto português funcione como um todo, está a funcionar solto. Há directivas, há políticas, regulamentos, intenções. Mas depois faltam a congregação e as sinergias práticas de quem está no terreno”, salienta Tomaz Morais.

Nesses meses que aí vêm falar-se-à menos de saúde pública e mais de desempenho desportivo, mas o problema de base será o mesmo: não se formam campeões com crianças sentadas ao computador. Queremos um país de desportistas ou de espectadores; de gente activa ou de sedentários? É preciso definir um rumo e trabalhar no terreno para o concretizar. A bomba-relógio não pára. Tic-tac, tic-tac.

Aprender a nadar passa a ser currículo escolar na Austrália

Março 5, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia da Sport TV Globo de 23 de janeiro de 2019.

Medida começa a ser implantada este ano

Por Alexandre Pussieldi, SporTV — Rio de Janeiro

Há uma semana, o Blog publicou que a prática da natação pode ser incluída no imposto de renda em Portugal (link). Agora, anunciamos a implantação da aprendizagem do esporte no currículo escolar na Austrália.

Motivo de discussões nos últimos anos, um novo programa passa a fazer parte do currículo escolar nesta temporada. A iniciativa é de Bill Shorten, líder do Partido Trabalhador da Austrália, que confirmou o projeto que prevê um investimento de 46 milhões de dólares australianos, algo em torno de 125 milhões de reais, que vai garantir a implantação do projeto.

A intenção é de que toda criança, ao final dos quatro anos do ensino fundamental, seja capaz de nadar pelo menos 50 metros.

Vale destacar que além de todos os benefícios comprovados do esporte, o que determinou a implantação do programa foram as 250 mortes por afogamento na Austrália no ano passado. Isso foi destacado na manifestação do Primeiro Ministro Scott Morrison, também entusiasmado com o novo projeto.

Não custa lembrar que o Brasil é o terceiro país do mundo com maior número de mortes por afogamento. Nas últimas estatísticas, a projeção é de mais de 6 mil fatalidades anuais.

 

Crianças. Estereótipos de género no desporto presentes logo na primária

Junho 1, 2018 às 9:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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MÁRIO CRUZ – LUSA

 

Os estereótipos em relação ao género estão presentes mesmo na escola primária, com os rapazes a mostrarem mais interesse numa carreira profissional desportiva e com mais de 24% das crianças do sexo feminino a dizerem que os rapazes são melhores desportistas que as raparigas, disse à agência Lusa a investigadora de antropologia Daniela Rodrigues, que entrevistou 793 crianças, de Lousã e Coimbra, para a sua tese de doutoramento, concluída recentemente.

Para além disso, os rapazes e raparigas praticam desportos que são socialmente associados com o seu sexo, sendo que os desportos praticados pelos rapazes “são mais vigorosos”, o que é mais benéfico para a saúde das crianças e ajuda a alcançar os valores mínimos de atividade física diária recomendada.

Neste estudo, a prevalência de excesso de peso e de obesidade abdominal foi “mais elevada nas raparigas do que nos rapazes”, o que “pode trazer vários riscos de saúde como diabetes e doenças cardiovasculares”.

Das crianças entrevistadas, quase 70% praticavam desporto, “mas na maior parte das vezes só uma ou duas vezes por semana e durante pouco tempo”.

A investigadora chama também a atenção para outros fatores que levam a uma menor prática de desporto extracurricular, como o nível socioeconómico da família, o facto de os pais praticarem ou não atividade física, baixa escolaridade dos pais e a inexistência de locais para praticar desporto na área de residência.

Comparando também uma situação de meio urbano (Coimbra) com periferia (Lousã), nota-se que os pais que vivem na cidade parecem ter uma maior necessidade de estruturar as atividades dos filhos, havendo também uma menor prática de brincadeiras fora do contexto escolar (como jogar à bola ou andar de bicicleta) e menor prática de transporte ativo para a escola (a pé ou de bicicleta).

“Sabemos também que pais ativos têm maior probabilidade de terem filhos ativos. Na idade adulta, há mais homens a praticar atividade desportiva e há uma relação mais forte, neste campo, entre pai e filho e mãe e filha. A filha acaba por ter menos modelos a seguir”, notou Daniela Rodrigues, considerando também importante a influência dos órgãos de comunicação social, que dão primazia ao desporto praticado por homens.

A própria escola, notou, “não estimula tanto a prática de atividades que as raparigas mais gostam”.

Segundo Daniela Rodrigues, é necessário criar “estratégias para garantir uma maior prática desportiva junto das raparigas”, criando “programas que envolvam toda a família, tendo por base os pais, assim como as escolas e professores, e tendo em conta as características específicas de cada criança e das condições económicas, culturais e ambientais que as rodeiam”.

Para além disso, há também bloqueios financeiros, sendo necessário as autarquias garantirem transporte para a prática desportiva e apoiar as famílias, que se veem confrontadas com os custos de equipamento e mensalidades nos clubes.

“Uma das maiores influências foi também a perceção de barreiras pelos pais. Encontravam barreiras como tempo, dinheiro ou a segurança dos filhos e essa variável tinha também muito peso na prática de desporto das crianças. Mais barreiras, menos probabilidade de praticar desporto”, resumiu.

 

Artigo publicado em SAPOLIFESTYLE, em 17 de maio de 2018

Raparigas portuguesas são das que praticam menos desporto na Europa

Maio 17, 2017 às 2:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança, Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 17 de maio de 2017.

Relatório da OMS destaca pouca actividade física entre adolescentes portuguesas.

Romana Borja-Santos

A prática regular de exercício físico está longe de ser um hábito entre as adolescentes portuguesas, que estão entre as mais inactivas da Europa. Aos 13 anos, não há nenhum outro país europeu onde as raparigas pratiquem tão pouco exercício. Nesta idade, só 6% das portuguesas dedicam uma hora por dia a uma actividade física moderada a intensa, indicam os dados de um relatório da Organização Mundial de Saúde, que será apresentado nesta quarta-feira no Congresso Europeu de Obesidade, no Porto.

De acordo com o documento Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002-2014, aos 15 anos o valor desce para 5%, mas nessa altura as italianas conseguem praticar ainda menos desporto do que as portuguesas. Na idade mais baixa avaliada, os 11 anos, os dados não são animadores, mas mesmo assim são mais positivos: 16% das raparigas dedicam uma hora diária ao exercício, ficando à frente de dez países, como Itália, Dinamarca, Suécia ou Holanda.

Para a investigadora Margarida Gaspar de Matos, que coordena a parte portuguesa do trabalho da OMS, estes resultados são preocupantes e mostram que é preciso procurar outras formas de incentivar a prática de exercício – até porque os valores nas raparigas estão praticamente estáveis desde 2002 e nos rapazes as subidas são ligeiras. “Para incentivar a prática é preciso começar cedo e na cultura familiar e com a família. Na escola é preciso que os jovens encontrem a ‘sua actividade’ e não se tenham de reduzir a ‘ofertas standard’”, exemplifica a psicóloga da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

Os dados dos rapazes não são tão negativos, mas também estão longe de serem animadores. Aos 11 anos, 26% dos adolescentes praticam pelo menos uma hora diária de uma actividade física moderada a vigorosa. Aos 13 anos o valor desce ligeiramente para 25% e aos 15 anos cai para 18%. Margarida Gaspar de Matos defende que é preciso incentivar o exercício de outras formas, começando por acabar com alguns estereótipos como “retirar dos praticantes de actividade física a ‘etiqueta’ de que são pouco ‘intelectuais’”.

A investigadora vai mais longe nas razões que explicam este afastamento do desporto. A começar pelas poucas condições que existem nas escolas para que os adolescentes possam tomar banho após a actividade desportiva. Depois, sublinha que a associação entre o desporto e práticas competitivas ou até alguns comportamentos mais violentos afasta muitas vezes os jovens que apenas procuram um momento de lazer. “A promoção da actividade física não passa por convencer os adeptos da prática, mas por encontrar contextos e motivação para os que não são adeptos e entender o que os afasta”, conclui.

descarregar o documento citado na notícia em baixo:

Adolescent obesity and related behaviours: trends and inequalities in the WHO European Region, 2002–2014

 


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