Pós-Graduação em Educação Especial Domínio Cognitivo e Motor na FMH

Agosto 17, 2017 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

mais informações no link:

http://posgrad.fmh.ulisboa.pt/specialeducation/?utm_source=phplist95&utm_medium=email&utm_content=HTML&utm_campaign=Oferta+em+P%C3%B3s-Gradua%C3%A7%C3%B5es

Criança e Natureza: Vamos permitir que elas se arrisquem durante o brincar?

Maio 4, 2017 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Texto do site http://epoca.globo.com/de 17 de abril de 2017.

Fabio Raimo, instrutor de educação ao ar livre, explica sobre a capacidade das crianças de brincar e calcular riscos: “Ninguém se desenvolve se isolando de riscos”

LAÍS FLEURY

“Não suba nesta árvore, você pode se machucar!” “Não pise nesta pedra, você pode cair!” “Cuidado com a água, você pode escorregar!” são algumas das frases que as crianças, certamente, mais escutam dos pais ou responsáveis quando brincam na natureza. O que os adultos não entendem, muitas vezes, é que essas aventuras oferecem pequenos riscos não prejudiciais às crianças, ao contrário: são fundamentais para seu desenvolvimento, e elas sabem, ainda que inconscientemente, como escolher os riscos de suas brincadeiras.

>> A falta que a natureza faz

Já se sabe que as crianças precisam se movimentar para que possam se desenvolver com saúde e em todo o seu potencial. Especialistas mostram que a relação com a natureza para o desenvolvimento de diferentes habilidades corporais, como pular, escalar, correr, construir, é benéfica e fundamental. Não é mera coincidência o impulso das crianças para exercitar essas habilidades em relação ao caráter expansivo, exploratório, curioso e ativo que permeia a infância.

No episódio A criança que se sente capaz, produzido pelo Criança e Natureza, do Instituto Alana, Fabio Raimo, instrutor de atividades ao ar livre, explica o valor do risco para o desenvolvimento da criança e comenta como o brincar na natureza é a prática mais propícia para empoderar os pequenos ensinando-os a lidar com seus medos, conhecer seus limites e sentir-se capazes e confiantes para interagir em segurança com o ambiente, com as pessoas e com o mundo.

 

 

O Bernardo já é hipertenso

Outubro 18, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto publico no http://p3.publico.pt/ de 3 de outubro de 2016.

jenn-richardson

Hoje, as crianças já não podem sair à rua e estão entre as mais sedentárias da Europa. Porquê? Porque é perigoso, porque em cada adulto, um pedófilo, e hoje já não se pode confiar em ninguém, nem nos amigos, nem nos vizinhos

Texto de João André Costa

Eu, quando era catraio e frequentava a preparatória, era na “aldeia dos macacos”, espaço de recreio recheado a pinheiros, caruma, areia e baloiços, que encontrava toda a brincadeira, todas as aventuras no topo das árvores, os joelhos esfolados na areia mais as calças rasgadas de todos os dias, sem que por isso viessem aí as nossas mães de mãos ao ar e credo na boca porque no dito recreio não morava uma caixa de primeiros socorros, um adulto sempre de plantão que nos dissesse o que era permitido, ou não, fazer, e como, um seguro contra todos e uma resma de papel em folha de 25 linhas com todas as medidas a tomar em caso de acidente.

E, se calhar, por não termos a tal resma é que o Francisco partiu a cabeça no 6.º ano quando o Tó lhe mandou uma pedrada à pinha. O Francisco não morreu nem contraiu uma septicemia, foi para os bombeiros e levou três pontos a sangue frio com uma dessas agulhas da caixa de costura, no regresso ainda deu umas lambadas ao Tó e hoje são grandes amigos.

Hoje, a “aldeia dos macacos” foi substituída por um pavimento infantil com placas de borracha, já não há areia nem árvores “derivado ao perigo para as crianças“, ou assim nos disse o presidente da junta, as áreas de recreio foram delineadas a régua e esquadro e no lugar dos baloiços de madeira, cujas farpas insistiam em cravar-se nas mãos e nas pernas, para gáudio do sistema imunitário, temos agora escorregas esterilizados no fim dos quais não há quaisquer hipóteses de nos matarmos e/ou partirmos os dentes, nem que nos atiremos de cabeça, assim logrando todas e quaisquer hipóteses de impressionar as ”garinas“ lá da escola.

Isto, se deixarem as crianças sair à rua. Hoje, as crianças já não podem sair à rua e estão entre as mais sedentárias da Europa. Porquê? Porque é perigoso, porque em cada adulto, um pedófilo, e hoje já não se pode confiar em ninguém, nem nos amigos, nem nos vizinhos, e noutro dia o Paulo teve de dar explicações à polícia por andar de mão dada com o filho num parque.

Não, hoje em dia temos telemóveis com ”touche“, ”tablets“, ecrãs led com ligação à net e computadores, todos ligados ao mesmo tempo para que os catraios não nos chateiem quando chegamos a casa cansados do trabalho, ou da falta dele. Para que, passiva e “ruminantemente”, cresçam e engordem, felizes para todo o sempre. Pelo menos até chegarem à escola onde não existem nem audiovisuais nem quadros interactivos e onde os professores ainda pagam os paus de giz do próprio bolso à senhora contínua, sempre muito incomodada quando a interrompem a meio da leitura da ”Maria“.

E porque hoje as crianças já não podem sair à rua temos ginásios, onde as crianças que ontem corriam na ”aldeia dos macacos“ podem agora aprender a brincar com toda a segurança e conforto. Porque os Bernados deste mundo ainda só têm oito anos mas já são hipertensos e 40 quilos de peso falam sempre mais alto. Mas não só, pois ir ao ginásio também é fino e fica sempre bem dizê-lo em conversa com os amigos ou através daquela ”selfie no “Facebook”. Quando aprendi a andar de bicicleta malhei não sei quantas vezes a saltar por cima das tampas de esgoto. O Miguel, a pedalar freneticamente logo atrás de mim para dar um salto anda maior, ficou com os dentes da frente perdidos entre as gengivas e o volante da “bêémexis”.

De caminho, não deixámos de percorrer em duas rodas todas estas estradas que ainda nos correm no sangue. O teu sobrinho, no entanto, nunca vai poder andar de bicicleta. Da última vez que fomos a casa deixámos-lhe uma bicicleta novinha em folha encostada a um canto para pasto da ferrugem. Entretanto, já ficámos a saber que lá no ginásio tem uma bicicleta de ginástica só para ele. Só nos resta saber quem vai pagar a conta, se tu, se a tua mãe, e eu nunca me lembro de ter pago o que quer que seja para correr na “aldeia dos macacos” ou em cima da bicicleta.

 

 

 

“É inacreditável que hoje se passeiam mais os cães do que as crianças”

Setembro 28, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Entrevista do http://www.dn.pt/ a Carlos Neto no dia 26 de setembro de 2016.

antonio-pedro-santos

Carlos Neto é professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa | António Pedro Santos / Global Imagens

Ana Bela Ferreira

Há mais de 40 anos que o investigador Carlos Neto trabalha com crianças e está preocupado com o sedentarismo. “Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos”

A falta de autonomia das crianças é culpa das famílias ou das escolas que também as ocupam demasiado tempo?

Eu diria que temos de encontrar um conjunto de fatores para explicar o fenómeno, porque não se pode pôr culpas a ninguém em particular. Veja-se a cidade de Lisboa e o inferno que é às seis da tarde e às oito da manhã e a maneira como as famílias têm de se encarregar de distribuir a vida dos filhos no tempo escolar e para além da escola. Por outro lado, não há uma política habitacional pensada do ponto de vista de criar uma mobilidade saudável no crescimento e no desenvolvimento dos jovens. Só dessa maneira é que se pode compreender o que é que está a acontecer com o baixo índice de mobilidade que temos em Portugal. Os estudos que fizemos em 16 países demonstram que ficámos em 14.º lugar. Muito abaixo dos países escandinavos, onde essa mobilidade é muito elevada, onde têm uma autonomia muito grande e vivem a natureza e o território da cidade de forma plena. Em Portugal, e nos países do Mediterrâneo, a situação é muito complexa, porque há perigos diversos e depois há medos que se instalaram na cabeça dos pais.

Mas esses perigos não existem também nos países nórdicos?

Eles têm uma filosofia de organização do tempo e do espaço completamente diferente. Significa que os nossos jovens e crianças têm muita dificuldade em ter essa autonomia desde muito cedo, porque encontram diversos constrangimentos. Desde o trânsito, o fenómeno da urbanização, a maneira como o tempo escolar e o tempo de trabalho dos pais está organizado. Por outro lado, ganhou-se um medo enorme de as crianças andarem autónomas na rua. A rua desapareceu, está em extinção como local de jogo, de brincadeira, de encontro de amigos. O problema da socialização é uma das questões mais importantes que se colocam hoje na nossa juventude e nas culturas de infância. Temos aqui um problema muito sério que só pode ser resolvido com medidas corajosas e arrojadas do ponto de vista político.

Isso significa facilitar os transportes, criar espaços verdes?

Espaços verdes, política habitacional mais adequada à política educativa e também à gestão do tempo de trabalho dos pais. Está tudo demasiadamente formatado e as crianças e jovens precisam que isso seja desconstruído para a vivência do corpo em situações mais espontâneas e mais naturais, do espaço construído e do espaço natural da cidade. Quando falamos em índice de mobilidade baixa, isso significa que temos de atuar em várias frentes para tornar mais sustentável uma vida feliz e com sucesso das crianças e jovens porque elas merecem. E acima de tudo uma perspetiva de não repressão do corpo em movimento porque o sedentarismo não é só físico, é também mental, social e emocional. A investigação científica tem demonstrado claramente que quem mais faz atividade física, mais brinca na infância, mais tem relação com os amigos, são crianças que normalmente têm mais sucesso no futuro, mais rendimento escolar e obviamente têm um índice de felicidade e de empatia muito maior.

Mas hoje as crianças quase só se relacionam com as outras em atividades organizadas.

Praticamente está tudo organizado quer do ponto de vista das atividades no meio escolar quer nas atividade extraescolares. Se isto ainda não bastasse têm depois uma cultura de ecrã muito agressiva. É muito natural ver crianças à volta de uma mesa de café e não se falam, estão todas a olhar para o iPhone. O corpo em movimento é fundamental para todo o desenvolvimento, não só emocional, também cognitivo, social e emocional. A escola tem de urgentemente mudar o modelo de funcionamento, quer na organização curricular quer na forma como as crianças são mais ou menos participativas. Temos de dar uma espécie de um trambolhão na sala de aula, no sentido de tornar as aulas mais ativas por parte das crianças.

Falta uma política de brincadeira?

Há alguns sinais interessantes do Ministério da Educação de tentar que a vida na escola não seja uma coisa tão formal e tão séria, isto é, de ter tempos mais disponíveis para expressão dramática, educação física, música, dança ou um conjunto de atividades que consigam que o corpo disponibilize maior capacidade expressiva, de empatia, de modo a tornar os cidadãos mais cultos, com maior capacidade de ética e de cidadania e portanto não estar apenas centrado nos rankings. Está provado cientificamente que crianças com maior nível de atividade física e relacional no recreio aprendem mais na sala de aula. Portanto, não podemos querer crianças sedentárias ou a ouvir um conhecimento que muitas vezes não lhes interessa. O ensino não pode ser isto no século XXI.

A gestão do tempo da família também tem de mudar?

Temos de dar um ar fresco a este país, este país não pode estar com esta depressão enorme em que temos pais e professores esgotados, porque as crianças reparam em tudo. Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos, e há professores que já não têm capacidade de perceber a importância dessa atividade espontânea do que é correr atrás de uma bola, subir a uma árvore, fazer um jogo de grupo no recreio ou pura e simplesmente subir o muro e tentar descobrir o que está do lado de lá. Ou ter locais secretos. Como é que nós promovemos a saúde pública e mental numa perspetiva de maior cidadania, de maior empreendedorismo e de maior grau de felicidade? É isso que está em causa quando falamos em promover o corpo em movimento. Nunca foi tão importante o papel dos pais e da família na educação dos filhos no que diz respeito à implementação deste tipo de atividades. Sair com as crianças para a rua e brincar, desfrutar a natureza. Os pais têm de ter mais tempo disponível para fazer este tipo de atividades. É inacreditável que hoje se passeiem mais os cães do que as crianças. Inacreditavelmente faz-se hoje um esforço inadmissível de tornar os robôs mais humanos e ao mesmo tempo estamos a robotizar o comportamento humano.

 

Pais e professores devem levar as crianças para a rua

Setembro 17, 2016 às 5:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

texto do http://observador.pt/de 9 de setembro de 2016.

paisprfessoes

Conhecem-se os benefícios de as crianças passarem menos tempo em espaços fechados. Mas, o que podem os pais e as escolas fazer? A solução passa por estimular a brincadeira e até a aprendizagem na rua.

O consenso existe e poucas dúvidas subsistem sobre este tema: é importante que as crianças brinquem mais e, de preferência, ao ar livre. Os benefícios são muitos, não só em termos físicos mas também cognitivos e emocionais. Ainda assim, são escassas as medidas institucionais para incentivar esta prática entre nós.

Luís Ribeiro, presidente da Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI), reconhece isso mesmo: “Podemos dizer que faz parte da retórica do discurso, quer dos professores quer da administração educativa, mas não das suas práticas. Embora os currículos incluam o ensino experimental e a atividade física e desportiva nos respetivos programas, particularmente no primeiro ciclo, a verdade é que raramente foram implementadas políticas educativas que o favorecessem.”

Concretamente, o responsável lamenta o “cada vez maior enfoque social em áreas como a matemática e a língua materna, e a sua consequente hipervalorização no currículo, empobrecendo e estreitando as práticas educativas ao ler, escrever e contar, remetendo-se as atividades ao ar livre quase exclusivamente para os intervalos da componente letiva e sem a importante mediação do educador ou professor”. Segundo Luís Ribeiro, esta tendência revela-se até na educação de infância, em que “a prática educativa de rua, centrada em atividades de experimentação e de envolvimento com a natureza, tem vindo a perder lugar”.

A consequência disto tudo ficou bem patente nos resultados de um estudo levado a cabo pela marca SKIP no nosso país, segundo os quais cerca de 70% das crianças portuguesas passa menos tempo ao ar livre por dia do que os 60 minutos recomendados para os detidos em prisões. Foi precisamente para ir ao encontro desta necessidade que SKIP criou o movimento Dia de Aulas ao Ar Livre, a realizar no dia 6 de outubro, aberto a todas as escolas, professores e pais que queiram subscrever e aderir.

O objetivo é simples: proporcionar que todas as crianças possam ter um dia de aulas no exterior. Por considerar que brincar ao ar livre é fundamental para a aprendizagem de valores como a resiliência, o trabalho em equipa, a liderança, a criatividade e o desenvolvimento motor, a marca pretende não só proporcionar um dia diferente às crianças como sensibilizar a sociedade a questão.

1  Ensinar na rua

Também para Diogo Castro Pereira, presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica/Jardim de Infância do Alto de Algés, “os professores deveriam poder sair para a rua com as crianças e mostrar, exemplificando, algumas das matérias que pretendem lecionar”. Isto porque “o português, o estudo do meio e a matemática estão por todo o lado à nossa volta, dentro e fora de casa, é só uma questão de saber adequar um bom exemplo a uma matéria que ficará na memória das nossas crianças”, justifica.

O responsável acredita que “cabe aos pais em casa e aos responsáveis pelos planos pedagógicos inovar e procurar novas maneiras de ensinar, brincando”. Desta forma, será possível que as crianças estejam mais aptas a “aprender sem pressão, descontraídas e com uma abertura para assimilar diferente daquela que têm em sala”.

E, mesmo sabendo que esta lógica não pode ser aplicada a tudo, salienta que “temos de perceber e melhorar os nossos programas curriculares, que por vezes parecem feitos por quem nunca saiu da cidade, abriu uma janela ou saiu pela porta para viver e sentir o que se passa lá fora em todas as estações do ano”.

2  Arquitetura desadequada

Para potenciar o contacto dos mais novos com o ar livre, entende que as escolas com espaço disponível “podem criar recreios mais adequados à liberdade das brincadeiras, ainda que com supervisão”. Aliás, na sua perspetiva, uma das razões que mais impede as crianças de passarem tempo no exterior prende-se com questões de construção: “A arquitetura da nossa escola e de muitas escolas do nosso agrupamento não foi feita para essa vertente. Muito betão, muita arquitetura minimalista e pouco adequada às idades e ao local onde está implantada a escola.”

Nas suas palavras, esta é uma questão específica que tem vindo a ser debatida nos últimos anos, já que “o espaço de recreio é demasiado exposto aos elementos atmosféricos, não dando a proteção necessária quando chove ou quando está muito sol e calor”. Como consequência, refere que a associação a que preside “já apresentou várias propostas às entidades responsáveis pelo espaço, no caso a Câmara Municipal de Oeiras, e irá continuar a insistir até que se consigam melhorar as condições atuais do recreio da escola”.

3   Alterar a situação

Também Luís Ribeiro clama por maior integração da vida real nos programa escolares: “Na educação de infância e no primeiro ciclo do ensino básico é muito importante que os docentes compreendam que o currículo tem uma natureza holística, quer isto dizer que, na sua operacionalização, todas as áreas do saber devem ser abordadas de forma transdisciplinar, ou seja, devem fazer-se sistematicamente pontes entre elas, para dar sentido ao que os alunos aprendem.” Por outro lado, considera “fundamental compreender que as aprendizagens devem partir do que as crianças sabem e dos seus contextos de vida, pois essas aprendizagens tornam-se, assim, significativas para elas”.

Na sua opinião é igualmente relevante que as escolas entendam a importância que a brincadeira tem no desenvolvimento das crianças. Nesse sentido, defende que “na gestão dos horários dos alunos e das atividades de apoio à família/enriquecimento curricular, o brincar deve assumir uma centralidade inequívoca, evitando-se uma extensão do academicismo escolar até às 17h30 ou 18 horas”.

No mesmo sentido, sustenta que “sobrecarregar os alunos do primeiro ciclo com trabalhos para casa será sempre uma estratégia errada e deslocando para o espaço familiar a lógica escolar, quando seria muito mais importante, sobre qualquer ponto de vista, fortalecerem-se as dinâmicas familiares”.

A este propósito, Luís Ribeiro elogia a decisão do Agrupamento de Carcavelos, que aboliu as retenções e os TPC, considerando-a “um excelente exemplo de como uma escola e os seus professores podem construir lógicas organizacionais alternativas”. Mas lamenta a forma como a administração pública olha para as escolas e para a sua autonomia: “Uma retórica pura que não tem consequência entre o que se diz e o que se legisla, ou entre o que se legisla e na verdade se decide, impedindo que estes exemplos se possam disseminar e coartando a transformação da escola.”

4   O papel dos pais

Além das escolas e professores, cabe também aos pais fazer algo para que os filhos não fiquem horas fechados em casa. De acordo com Diogo Castro Pereira, “aqueles que deveriam brincar mais com as crianças, estimulando-as e ensinando algumas das brincadeiras que faziam ao ar livre em criança, não o fazem”. E questiona: “Quantas vezes nos deparamos com crianças a quem nunca ensinaram ou mostraram como se pode brincar ao ar livre?”

Ao mesmo, retira a culpa tantas vezes atribuída aos gadgets eletrónicos, lembrando que “a tecnologia não pode ser desculpa para tudo, pois esta existe para otimizar e melhorar as nossas tarefas, até as tarefas de pai. Só temos de saber separar as águas e não deixar que sejam impeditivas. Por exemplo, hoje temos a facilidade de poder ler uma mensagem de e-mail no telefone, sem ter de ir a casa ou ao escritório, mas se calhar não o devemos fazer quando esse tempo poderá ser dedicado aos nossos filhos.”

Por também ser pai sabe bem do que fala e sublinha que “ninguém é perfeito”, admitindo que “a correria do dia-a-dia contribui para isto”. A terminar deixa mesmo uma chamada de atenção: “Temos de olhar um pouco para nós e para o legado que estamos a deixar aos nossos filhos, pois será isso que eles irão transmitir à geração seguinte.”

5   O Dia de Aulas ao Ar Livre na voz da ANP

Em entrevista ao Observador, Paula Figueiras Carqueja, Presidente da Associação Nacional de Professores, revela a importância deste tipo de ações para as crianças.

O que trazem de fundamental iniciativas como esta do Dia de Aulas ao Ar Livre?

Todas as iniciativas que promovem ou promovam atividades lúdicas às crianças são sempre bem-vindas. A iniciativa da marca SKIP em que convida a comunidade educativa a levar a escola para “a rua”, sair da sala de aula, adaptar e conciliar as aprendizagens, o conhecimento à realidade, ou seja aliar a teoria à prática de uma forma lúdica, desenvolve o poder de investigação, de associação, o espírito crítico e o interesse pelo meio ambiente, pela realidade global que os rodeia e na qual estão inseridas.

O mais interessante desta iniciativa é o consciencializar para uma aprendizagem fora da sala de aula utilizando todos os recursos existentes no exterior, ao ar livre, seja um pau para desenhar, seja para a construção de uma espada, seja para ouvir o chilrear dos pássaros (…).

As nossas crianças, hoje, são os cidadãos/cidadãs com o horário laboral diário dos mais preenchidos na nossa sociedade, a escola a tempo inteiro.

Para além da atividade curricular obrigatória (5 horas) têm tarefas extracurriculares, natação, línguas, dança, artes marciais, ficando sem tempo para simplesmente brincar, pegar numa boneca e conversar com ela, pegar num carrinho e jogar. Estes são momentos emocionais importantes para o seu desenvolvimento integral, para aprender a lidar com a frustração, e as capacita a serem mais autónomas e perseverantes.

A nossa sociedade não está consciente da importância do brincar. Quando uma criança brinca desenvolve competências, nomeadamente físicas, mentais e emocionais, para além de se consciencializar do que a rodeia e ficar mais preparada para enfrentar situações adversas, tornando-a resiliente.

Benefícios do ensino ao ar livre

  1. Melhor apreensão do meio ambiente;
  2. Melhor qualidade na aprendizagem sensorial;
  3. Promoção de estratégias de ensino/conhecimento, aplicadas em contexto real, obtendo melhores resultados de aprendizagem;
  4. Com o movimento “Dia de Aulas ao Ar Livre”, as crianças desfrutam de uma experiência única de conhecimento de forma lúdica.

O que motivou a ANP a associar-se a esta iniciativa?

Um dos objetivos da Associação Nacional de Professores passa por apoiar e promover a realização de ações que contribuam para a dignificação da pessoa humana, objetivo essencial de todo o processo educativo.

Atenta a iniciativas que vão ao encontro do objetivo mencionado, a ANP aceitou participar e envolver-se neste movimento promovido pela marca SKIP. Consideramos uma oportunidade para um envolvimento a nível nacional das escolas e das famílias, de toda a comunidade educativa, neste Dia de Aulas ao Ar Livre, pela sensibilização da importância do brincar através de uma prática efetiva e, num só tempo, participar em práticas pedagógicas diferenciadas e de trocas interpessoais, usufruindo do património local.

Como é que escolas e professores podem pôr em prática este desafio no dia 6 de outubro (e depois replicar noutros dias)?

Observando o espaço onde está inserido o estabelecimento de ensino, o que rodeia, o que existe à sua volta (fotografar, filmar, desenhar ou simplesmente observar e relatar as observações), registando e identificando os ruídos locais, descobrindo os seres vivos, ente outras tantas coisas como correr, saltar, pintar, jogar…

Consulte aqui a lista das escolas que aderiram a este movimento.

 

 

 

Conversa “Libertem as Crianças” disponível na íntegra

Agosto 3, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

texto e vídeo do http://observador.pt/ de 12 de julho de 2016.

A Conversa do Observador “Libertem as Crianças” aconteceu no passado dia 5 de julho, no Jardim da Estrela. Foram quase duas horas de conversa que pode ver aqui na íntegra.

observador

 

 

Crianças que se sujam a brincar são mais felizes

Julho 10, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto do Observador de 24 de junho de 2016.

observador

OBS Lab

Se os seus filhos costumam sujar-se quando brincam, não os repreenda. Significa que estão a fazer o que é suposto, explorando o ambiente que os rodeia. E como resultado, são muito mais felizes.

Quase sempre, o rosto da criança que chega a casa com a roupa suja e os joelhos arranhados depois de brincar traz um sorriso. Já reparou? A explicação é simples: brincar ao ar livre é das melhores coisas que há. E é também, segundo diversos estudos, um promotor da felicidade.

Para perceber melhor esta ligação falámos com Helena Águeda Marujo, professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e uma das principais investigadoras em Portugal na área da Psicologia Positiva. Nas suas palavras, “a importância da brincadeira ao ar livre para o desenvolvimento de crianças felizes é extrema, até mesmo vital”.

Brincar é fundamental para a saúde física, cognitiva, afetiva e relacional das crianças, sendo que estes benefícios tendem a fazer-se sentir ao longo da vida. Segundo a docente, as mais-valias da brincadeira “têm sido documentadas por inúmeras investigações científicas ao longo de décadas”, de tal maneira que “parece estranho estarmos a caminhar para sociedades que limitam o brincar ao mínimo”. Contrariando a tendência que se vive atualmente, reforça que “a escola é apenas uma parcela da vida, e cada vez com menos peso se não for entendida de forma holística, global, integradora, formadora do caráter e das virtudes, ensinando até a felicidade”.

Sujidade é descontração

Brincar ao ar livre tem quase sempre como consequência roupas e mãos encardidas. Mas quando se diz que uma criança suja é uma criança feliz, não se está a usar apenas uma forma de expressão. Trata-se de algo concreto em termos biológicos.

De acordo com a professora, que é igualmente presidente da Associação Portuguesa de Estudos e Intervenção em psicologia positiva, a brincadeira no exterior, nomeadamente em contacto com a natureza, tem implicações ao nível de neurotransmissores como a serotonina. “As emoções positivas que advêm de brincar nestas condições estimulam até o sistema imunitário, em vez de o enfraquecer como muitos pensam”, afirma, explicando que “a serotonina está associada a este brincar no exterior, sujar e desorganizar a arrumação da vida certinha e limpinha”.

Para a especialista, “o prazer que uma criança tem ao enfiar os pés nas poças, sujar-se na terra, moldar bolos de areia ou a fazer carreiros de água alimenta um lado do desenvolvimento que não se pode perder”.

Paralelamente, algumas investigações vieram reforçar a convicção de que brincar na natureza tem efeitos benéficos ao nível da serotonina. Uma dessas pesquisas foi levada a cabo na Universidade de Bristol, no Reino Unido, tendo concluído que uma bactéria presente na terra (a Mycobacterium vaccae) ajuda a ativar aquela substância, contribuindo para a regulação do humor, sono e apetite.

Felicidade a brincar

O que não falta são motivos que atestam a importância da brincadeira no desenvolvimento de criança felizes. De acordo com a também coordenadora da Plataforma para a Felicidade Pública, da Universidade de Lisboa, “a felicidade está fortemente associada a tempo passado com amigos, atividade física e tempo lúdico e de lazer”. Entre as várias razões, destaca os benefícios do sol, que estimula a produção de vitamina D, essencial ao desenvolvimento dos ossos e dentes, mas que também ajuda na melhoria do humor e consequente diminuição da depressão.

Por outro lado, recorda que “a beleza da natureza e o ar não poluído têm aparecido na investigação científica como associados ao bem-estar”. “A nível físico até a visão melhora, por permitir um constante movimento e adaptação dos músculos oculares a diferentes distâncias, o que não acontece quando se está a olhar para um computador ou outro tipo de ecrã durante horas”, frisa.

Sabe-se ainda que a capacidade de foco das crianças que brincam no exterior é maior, o que acaba por beneficiar o seu desempenho escolar. Helena Águeda Marujo justifica a relação: “Fora de paredes os comportamentos podem ser mais ruidosos e expansivos, mais divertidos e menos estruturados. Tudo isto é fundamental para termos crianças felizes e saudáveis e, por isso, sociedades felizes e saudáveis.”

Dar autonomia aos mais novos

Acima de tudo, é importante “normalizar o sair de casa”, diz a professora de psicologia, referindo o facto de Portugal ter sido considerado o quarto país mais seguro do mundo. Acredita que “o medo e a desconfiança em deixar brincar fora de casa é muitas vezes uma justificação simples para razões mais complexas, impedindo a experimentação e a autonomização dos mais novos”.

Dito de outra forma, “temos receio de dar autonomia aos nossos filhos”. “É uma forma de poder como qualquer outra, e é mais fácil limitar e impedir essa autonomização do que a apoiar e guiar em passos pequenos para ir sendo gerida da melhor forma pelas crianças e jovens”, constata. Para ajudar as famílias a encontrar tempo para as saídas, deixa um desafio, que passa pela “hierarquização do essencial”: “Será preferível ter a casa toda arrumada ou sair meia hora até ao parque com os filhos?”

Mas nem tudo é mau e a sociedade parece estar a tomar consciência da situação em que se vive atualmente. Na perspetiva de Helena Águeda Marujo, está a assistir-se a um “investimento recente em muitas áreas geográficas, mesmo nas grandes cidades, em espaços de lazer comum e que permitam atividades ao ar livre”.

A também autora de diversos estudos e obras sobre psicologia positiva acredita que esta aposta “deverá minimizar a queixa de muitos pais de que não têm fácil acesso a zonas de natureza”. Tal é mesmo importante. Afinal, como escreve Mia Couto em Pensageiro Frequente, “ser menino é estar cheio de céu por cima”.

Este artigo foi desenvolvido ao abrigo da parceria entre o Observador e a SKIP.

10 Aspetos que melhoram em crianças que brincam

1 – Socialização e criatividade. Estar sentado e inativo é um problema sério na atualidade. Segundo Helena Águeda Marujo, “estamos a potenciar uma geração não sociável, inativa e até não imaginativa”. Mas a brincadeira em espaços abertos e na natureza “traz recursos imprevistos e estimula formas de brincadeira desestruturada, essencial para desenvolver a imaginação e a criatividade”.

2 – Desenvolvimento de competências físicas. Coordenação, musculação, estiramento e equilíbrio são alguns dos aspetos essenciais para a saúde motora que acabam por ser desenvolvidos com a brincadeira. “Crianças que brincam menos ao ar livre têm mais propensão para ter problemas de excesso de peso”, acrescenta.

3 – Menos problemas de comportamento. Resultados de estudos recentes evidenciam o “impacto interessante de atividades na natureza na melhoria do comportamento de crianças ditas hiperativas e desconcentradas”.

4 – Maior autoconhecimento. “A exploração e os comportamentos com algum risco controlado, como subir pedras, saltar pequenos ribeiros ou subir árvores permitem a aprendizagem e o autoconhecimento de forças e limitações a melhorar”, sustenta a especialista.

5 – Autodeterminação estimulada. O contexto das brincadeiras permite mais oportunidade para as crianças “guiarem as suas próprias ações, fazerem escolhas e terem consciência espacial e corporal”.

6 – Consciência ecológica apurada. “As crianças com tempo e oportunidade para brincar fora de paredes tendem também a evidenciar um maior apreço pela natureza e pelos animais, aspeto essencial numa sociedade que precisa de voltar a cuidar de forma determinada da sustentabilidade e da ecologia.”

7 – Mais experiência de amor. Brincar em espaços confinados ou através de plataformas virtuais “faz perder alguns dos mais essenciais fenómenos psicológicos”, nomeadamente o contacto ocular, o toque ou o rir em conjunto que são “essenciais até para a experiência de amor”, diz, citando a autora norte-americana Barbara Fredrickson.

8 – Capacidade de empatia desenvolvida. Brincar com outras crianças ajuda também no desenvolvimento moral através da perceção de modelos, aprendizagem de regras sociais e até promoção da empatia.

9 – Melhores perspetivas de futuro. Até as perspetivas de futuro revelam-se diferentes para melhor em crianças com brincadeira de exterior nas suas vidas.

10 – Mais competências linguísticas. A investigação tem vindo a mostrar que além de estarem em melhor forma física, as crianças que brincam no exterior têm também melhores competências linguísticas

 

Crianças presas em espaços fechados não aprendem nem crescem

Julho 7, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Artigo do Observador publicado no dia 21 de junho de 2016.

getty images  iStockphoto

OBS Lab

Quanto mais protegemos as crianças mais as aprisionamos. De tal maneira que muitas acabam por passar menos tempo ao ar livre do que os detidos em estabelecimentos prisionais. A mudança é urgente.

E se lhe dissessem que 70% das crianças portuguesas passam menos tempo ao ar livre por dia do que os 60 minutos recomendados para os detidos em prisões? Provavelmente não acreditaria, mas é verdade. A conclusão é de um estudo levado a cabo pela marca Skip no nosso país e vem reforçar as convicções de vários especialistas, segundo os quais é necessário fazer algo para mudar a situação com urgência. Preocupada com o desenvolvimento infantil a marca publicou nas últimas semanas um vídeo online que alerta justamente para esta questão.

Uma das vozes que mais se tem feito ouvir nesta matéria é a de Carlos Neto, professor catedrático e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Nas suas palavras, esta tendência de manter as crianças em espaços fechados “retira-lhes a possibilidade de poderem viver uma infância feliz, por não experienciarem situações corporais que são próprias da idade e fundamentais na formação da sua personalidade e identidade”.

O Professor revela que “são crianças muito protegidas e aprisionadas corporalmente quanto a possibilidades de confronto com o espaço físico exterior”, lembrando ainda que esta não é uma situação exclusiva de Portugal: “Verifica-se de forma generalizada por todo o mundo e tem vindo a assumir dimensões muito preocupantes na perspetiva dos direitos e da saúde das crianças.”

Pandemia do controlo

Mas como é que se chegou a este ponto? Carlos Neto não hesita em apontar o dedo àquilo que designa por “pandemia do controlo adulto das experiências de movimento na infância” ou “terrorismo do não”. As consequências são as que se adivinham e o professor, a trabalhar com crianças há mais de quatro décadas, enumera-as: “Promove uma pobreza de cultura motora, criando condições para que se instale uma iliteracia física, prejudicial ao desenvolvimento de estilos de vida saudável nestas idades e ao longo da vida.”

alteraçõesEmbora admita a importância do estabelecimento de regras na educação dos mais novos, realça que “os pais atuais têm uma preocupação excessiva, e por vezes obsessiva, em não permitir que os filhos corram riscos em situações de movimento ou de atividade física”. O problema é que, ao impedirem o confronto com o risco físico, estão a “contribuir para um aumento do sedentarismo e analfabetismo motor na infância”. Sublinha ainda que “aprender a mover o corpo em liberdade e sem constrangimentos é uma necessidade crucial para o desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social da criança”.

Desaparecimento da rua

Questionado sobre o contexto que levou pais e educadores a aprisionarem as suas próprias crianças, o professor elenca diversos motivos. Entre eles, o “desaparecimento da rua enquanto local de jogo”, muito por via da crescente urbanização das cidades, aumento do tráfego automóvel e ausência de políticas públicas dirigidas ao bem-estar na infância. Ao mesmo tempo, assiste-se ao “excessivo alarmismo dos órgãos de comunicação social sobre os perigos a que as crianças estão sujeitas”, levando à redução da permissão dada pelos pais para que se desloquem sozinhas.

O que os pais não sabem – ou facilmente esquecem – é que esta via da proteção excessiva está longe de ser benéfica para os filhos: “Brincar é ganhar confiança em si próprio e é também o melhor caminho para evitar o acidente, ou seja, quanto mais risco mais segurança.”

Ainda assim, o fundador e antigo presidente da Sociedade Internacional para Estudos da Criança não tem dúvidas em afirmar que “hoje temos melhores pais, melhores famílias, melhores crianças e melhor sociedade do que há anos atrás. O que está em causa é o aparecimento de novos problemas associados à educação das crianças do nosso tempo que podem estar a colocar em perigo a sua identidade, autonomia e necessidades básicas de desenvolvimento biológico e cultural”, alerta.

Mudanças precisam-se

Para inverter a situação são necessárias mudanças urgentes. Entre elas, Carlos Neto destaca “mais políticas públicas dirigidas à infância” e também “mais coragem política” na adoção de modelos que permitam conciliar melhor o trabalho dos pais com a escola e a família.

Na sua perspetiva, “a angústia da gestão do tempo dos filhos instalou-se na vida quotidiana dos pais, tornando-se um dos fenómenos mais intrigantes do nosso século”. Como resultado, os mais novos estão a ser vítimas daquilo que designa como um “inconsistente modelo de organização da vida social”. Pais cansados e em stress por excesso de horas de trabalho, por um lado, e crianças com agendas excessivas de tempo escolar e extraescolar, por outro, não permitem pensar na existência de tempo disponível para uma relação equilibrada e saudável do tempo para brincar entre pais e filhos”, afirma. E acrescenta mesmo que “de forma paradoxal, no nosso tempo passeiam-se mais os cães do que as crianças”.

Defende que “as cidades devem ser amigas das crianças e desenvolver projetos adequados às suas necessidades de desenvolvimento”. Para tal, considera que é necessária uma “nova cultura governamental das cidades e do seu planeamento”, contribuindo para a qualidade de vida das populações. Algo que já está “em grande desenvolvimento em muitas cidades do mundo”, nomeadamente nos países escandinavos, sublinha.

5Mais presos, menos atentos

Comparar o tempo de recreio dos detidos em estabelecimentos prisionais com o tempo de recreio escolar é, para Carlos Neto, uma “forma inteligente de demonstrar o que está a acontecer na infância atual”. Apoiado em diversos estudos sobre o assunto, lembra que está demonstrado que “crianças ativas no recreio são aquelas que aprendem melhor dentro da sala de aula”, revelando mais capacidade de atenção e concentração. Por esse motivo, entende que “necessitamos de valorizar o tempo de intervalo escolar no projeto educativo das escolas públicas e privadas” e os “recreios devem ser estruturados de forma a ser aliciantes para as crianças”.

Lamenta que o tempo de recreio escolar seja uma espécie de “terra de ninguém”, acabando por ser “pouco valorizado pelos adultos”. “É caso para dizer que as crianças aprendem muito no recreio e deveriam brincar mais dentro da sala de aula”, sintetiza, explicando que “cerca de 90% dos reclusos presos por homicídio foram privados de brincadeira na sua infância”.

Este artigo foi desenvolvido ao abrigo da parceria entre o Observador e a SKIP.

 

 

Crescer. As crianças portuguesas são das que têm menos liberdade no dia-a-dia

Janeiro 29, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

texto do i de 12 de setembro de 2015.

Filipe Casaca

Não vão sozinhas para a escola e são quase sempre os pais que as levam de carro. Não saem de casa à noite. Não vão brincar para o parque. Que adultos serão no futuro?

Há 30 anos as crianças portuguesas começavam a ir para a escola sozinhas com oito ou nove anos. Agora, só aos 12 é que os pais lhes dão carta branca, mas a maioria vai mesmo de carro, embora vivam quase sempre a menos de meia hora da escola. Poucos são os que saem de casa à noite e, ao fim-de-semana, dominam as idas às compras e as visitas a familiares mais do que as idas ao parque com adultos ou amigos da mesma idade.

Podia ser apenas um sinal dos tempos, mas um estudo coordenado pelo think tank Policy Studies Institute (PSI) concluiu recentemente que as crianças portuguesas são das que têm menos liberdade no dia-a-dia. Em 16 países analisados, Portugal surge em 14.o lugar a par da Itália e só atrás da África do Sul. Quem trabalha com crianças não estranha, mas não hesita em apontar consequências que os pais devem ter em conta na hora de tentar controlar tudo: crianças pouco autónomas são menos despachadas, mais inseguras, menos tolerantes e até podem chegar a adultos com défices ao nível motor e emocional. 

A análise do PSI, que em Portugal contou com a colaboração de uma equipa de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana, foi divulgada este Verão. Em altura de regresso às aulas, um dos autores do trabalho, Carlos Neto, defende ao i que os resultados devem dar que pensar e apela a uma mudança por parte dos pais portugueses. Segundo o especialista, há receios exagerados que depois passam inseguranças aos filhos e os acompanham pela idade adulta, ainda que o efeito se note logo em pequenos.

“As crianças que não são confrontadas com o risco são as que estão mais propensas a ele”, diz o investigador numa entrevista que pode ler nas páginas que se seguem.
O investigador tem uma expressão para a sociedade de medo em que pais e crianças passaram a mover-se: o terrorismo do não. E avisa que as consequências a longo prazo podem ser significativas, já que crianças que não arriscaram e nunca lidaram com desafios na idade certa terão mais dificuldades em ser adultos empreendedores no futuro.

O tesouro dos pais Rita Jonet, psicóloga educacional no externato “O Nosso Jardim”, em Lisboa, admite que não estava à espera de uma posição tão na cauda na comparação internacional sobre autonomia das crianças, mas diz que os sinais são visíveis há muito.“Os pais estão cada vez mais protectores em relação às crianças”, diz a especialista.

Quanto às raízes deste problema, a psicóloga admite que estarão mesmo na crise de natalidade que o país vai atravessando. “Os pais focam-se no único filho que têm, é o tesouro deles e não arriscam.” E isso leva a outro problema que poderá explicar por que motivo as crianças em Portugal têm pouca liberdade nas idades mais novas: “O filho deles é a coisa mais preciosa mas não se importam muito com as outras crianças. Existe uma baixa cultura de considerar as crianças como pessoas como acontece nos países mais desenvolvidos, nomeadamente nos países nórdicos”, diz Jonet.

É precisamente a Finlândia que lidera o ranking dos países em que as crianças têm maior autonomia em termos de mobilidade, seguida da Alemanha. E curiosamente é nestes dois países que os pais concordam menos com a ideia de que outros jovens e adultos nas redondezas são motivos para recear que as crianças brinquem na rua sozinhas. Em Portugal, quase 50% dos pais inquiridos tem esta preocupação e nesses países só dois em cada dez a expressaram no estudo do Policy Studies Institute. 

Mas além da ausência de um sentido de comunidade, o próprio meio urbano pode fazer parte da equação. Carlos Neto diz que as cidades são pouco amigas das crianças, com poucos espaços de lazer. O pediatra Mário Cordeiro tem a mesma opinião. E acredita que mais do que a probabilidade rara de as crianças serem atraídas por predadores, que leva a algum excesso de zelo por parte dos pais, há efectivamente problemas no espaço urbano: “Os prédios não têm espaços livres comuns (pátios, jardins, logradouros) e a rua pode ser perigosa por causa do trânsito”, diz. Para o especialista, isto e o conforto do “não” são razões evidentes para aquilo que chama sedentarismo claustrofóbico. “Estar em casa, sobretudo com uma consola ou um computador nas mãos, é meio caminho andado para não darem maçadas e estarem tranquilos e sossegados, sem fazerem birras nem precisarem de investimento dos pais”, diz.

Vencer o medo Segundo o estudo do Policy Studies Institute, o maior receio por parte dos pais é que os filhos sejam atropelados. Já as crianças têm receio do que lhes poderão fazer os “estranhos” mas também de se perderem ou serem vítimas de bullying. 

Mário Cordeiro defende que os medos devem ser contrariados, mas não há receitas fáceis. A autonomia e liberdade dependerá da criança, temperamento, maturidade e grau de responsabilização. Aos poucos, e conhecendo os filhos, os pais poderão ir introduzindo as várias experiências de autonomia, recomenda. “Seja o caminho de e para a escola, ir comprar coisas ao lado de casa, brincar com amigos que morem ao pé”, exemplifica.

Para Carlos Neto, tornar as escolas, nomeadamente os recreios, um espaço de maior experimentação é outra frente de ataque. Para o especialista, uma escola que reconhecesse mais a necessidade do risco para se aprender e crescer teria melhores resultados de que uma cultura de hipervigilância que se tende a instituir para dar resposta às inquietudes dos pais e evitar chatices nos recreios.

Rita Jonet sente esse braço de ferro entre o que lhe sugere a pedagogia e os receios dos pais, mas acredita que há forma de dar a volta mostrando bons resultados às famílias. No externato onde trabalha, começaram há uns anos a fazer uma experiência com os alunos da terceira classe, portanto aos oito anos. Têm uma actividade que consiste em dar recados a este alunos para fazerem na rua, por exemplo comprar maçãs. “Vão em pequenos grupos, acompanhados por alunos do 4.o ano”, explica. “A ideia é que conheçam o bairro e se desenvencilhem.” 

Segundo a psicóloga, se ao início os pais eram cépticos, hoje a maioria autoriza a aventura. Para Rita Jonet, só este tipo de intervenções permitirá que as crianças não cresçam só “grandes cabeças” com dificuldades sociais. “São crianças que vivem num mundo tão pequeno que por vezes, quando vamos a uma visita de estudo, sinto que se vêem alguém mais diferente têm uma reacção pouco natural, olham mais de lado”, diz a psicóloga, alertando para  um contraconsenso de que por vezes os pais não se apercebem. “Dizem não a experiências que os podem fazer crescer mas para jogos, gadjets e horas de ir dormir muitas vezes não existem tantas limitações.”

Se o sedentarismo e a consequente epidemia da obesidade são perigos conhecidos, Mário Cordeiro chama também atenção para o lado humano.“A ecrã-dependência, o sedentarismo, o isolamento, a transformação das relações sociais em páginas de Facebook são uma pena não apenas pela parte física mas pela desumanização das crianças e pelo aumentar do hiato entre o ser humano e a Natureza e o exterior”, diz. 

Mas se as razões espirituais não chegarem, que os pais pensem em coisas práticas. “Brincar no exterior ajuda muito a ter menos infecções, a ganhar defesas imunológicas e autonomia psicológica. Ajuda a crescer em todos os sentidos, enquanto estar sempre em casa, bloqueado num bunker, estiola e faz regredir, inclusivamente do ponto de vista intelectual.”

 

 

 

 

Crianças passam demasiado tempo dentro dos infantários

Julho 27, 2015 às 12:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Texto do site http://lifestyle.sapo.pt/ de 23 de julho de 2015.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Interação criança-espaço exterior em jardim de infância

LUSA

Nuno Noronha Lusa

Um estudo de uma investigadora da Universidade de Aveiro (UA) conclui que as crianças passam pouco tempo nos espaços exteriores dos jardins-de-infância e com pouca atividade motora.

A investigação de Aida Figueiredo, do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, a primeira em Portugal a estudar a interação das crianças com os espaços exteriores das creches e jardins-de-infância, conclui que os espaços exteriores e as atividades proporcionadas às crianças “não promovem o desafio, a exploração, a autonomia e a liberdade, aspetos importantes no desenvolvimento da autoconfiança e do bem-estar emocional” entre os mais novos.

“As crianças permanecem no exterior apenas 10,8% do tempo passado no jardim-de-infância e por períodos curtos de tempo que em média têm 30 minutos, dedicando ao jogo livre apenas uma pequena fração desse tempo”, afirma Aida Figueiredo, investigadora do Departamento de Educação e do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da UA.

Segundo Aida Figueiredo, “as crianças [no exterior dos jardins de infância] evidenciam pouca atividade motora, permanecendo a maior parte do tempo de pé e a andar, não existindo ações que requerem contacto do corpo com o solo, equilíbrio ou desafio, como trepar, pendurar ou balançar, percorrendo distâncias inferiores a dez metros, independentemente da área e do tipo de espaço”.

As conclusões resultam do trabalho de doutoramento da investigadora que, durante meses, analisou as interações de 16 crianças, entre os 4 e os 5 anos, com os espaços exteriores de quatro jardins-de-infância das cidades de Aveiro e de Coimbra.

Ainda que o estudo se tenha centrado em quatro espaços infantis, Aida Figueiredo não tem dúvidas quanto ao cenário, em tudo semelhante, que se poderá encontrar no país.

“Não se pode generalizar do ponto de vista investigativo, mas o saber empírico que detemos, a partir de supervisão de estágios, seminários e conversas informais, diz-nos que a probabilidade desta situação ser muito frequente em Portugal é elevada”, afirma a investigadora.

Aida Figueiredo lembra que a interação das crianças “com espaços exteriores diversificados, estimulantes, desafiadores, que incorporem elementos da natureza, seja terra, água, flores, folhas, pedras ou areia, e que convidem ao movimento e à exploração aumenta o seu nível de atividade física, enriquece o comportamento de jogo livre e potencia o seu desenvolvimento cognitivo, emocional e físico”.

Relativamente à atividade motora, “observou-se que as crianças apresentam predominantemente ações que envolvem a parte superior do corpo [tronco, mãos e cabeça], permanecem de pé e andam, sendo pouco frequentes ações motoras mais intensas [como correr e saltar] ou com maior grau de qualidade [como trepar, equilibrar e suspender]”.

 

« Página anteriorPágina seguinte »


Entries e comentários feeds.