Atividade física na infância auxilia o crescimento e o desenvolvimento motor da criança

Julho 22, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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imagem retirada do Facebook da DGS

Debate “O Direito à Infância – Importância no Desenvolvimento Humano” com a presença de Dulce Rocha Presidente do IAC, 20 junho em Lisboa

Junho 18, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Drª Dulce Rocha, Presidente do Instituto de Apoio à Criança irá estar presente no debate.

mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/179258589582132/

Os conselhos de Brazelton, da gravidez aos três anos

Maio 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://observador.pt/ de 14 de março de 2018.

Ana Cristina Marques

O homem que revolucionou a pediatria morreu esta quarta-feira aos 99 anos. T. Berry Brazelton deixa várias obras publicadas, incluindo “O grande livro da criança”, que aqui resumimos.

O pediatra T. Berry Brazelton morreu esta quarta-feira aos 99 anos, a dois meses de completar um século de vida. Considerado por muitos o homem que revolucionou a pediatria, escreveu mais de 200 artigos científicos e 30 livros nas áreas da pediatria, desenvolvimento infantil e parentalidade, incluindo o muito conhecido “O grande livro da criança”.

Com base na mais recente edição do livro, em Portugal, recordamos alguns dos conselhos do cientista e perito norte-americano em desenvolvimento infantil que, segundo o pediatra Mário Cordeiro,humanizou a criança e reforçou o reconhecimento das competências parentais. O livro em questão, editado pela primeira vez em Portugal em 1995, resulta dos 40 anos de prática pediátrica de Brazelton em Cambridge, no Massachusetts, ao longo dos quais ajudou 25 mil pacientes. Foi com base nessa “amostra” que Brazelton desenhou um mapa de desenvolvimento comportamental e emocional, destinado a ajudar pais a enfrentar os “surtos previsíveis do desenvolvimento”.

O livro tem por base o conceito de “touchpoints” (pontos de referência), que Brazelton define como “aquelas fases previsíveis que ocorrem precisamente antes de um surto de crescimento rápido em qualquer linha do desenvolvimento — motor, cognitivo ou emocional –, quando, durante um breve espaço de tempo, se verifica uma alteração no comportamento da criança”.

Considerando os diferentes “touchpoints”, reunimos e resumimos alguns dos conselhos de Brazelton, para aplicar desde a fase de gravidez até aos três anos de vida de uma criança.

Gravidez

O sétimo mês de gravidez é encarado por Brazelton como a altura ideal para uma primeira consulta entre pais e o pediatra que, após o nascimento, acompanhará a criança. Este é, na verdade, o primeiro “touchpoint” apresentado no livro, já que corresponde a uma oportunidade para o médico se relacionar com os pais. “Esta visita pode ter efeitos duradouros”, escreve. A ideia é conhecer bem pai e mãe antes de o bebé vir ao mundo, conhecer as suas preocupações, angústias e dúvidas. Brazelton reforça a igualmente importante participação do pai e explica que, no caso de ambos os progenitores estarem envolvidos na gravidez, é natural que haja uma competição saudável e normal pela atenção e afeto do bebé. “Se os maridos tencionam participar, pai e mãe têm de estar preparados para esta subtil competição.”

Há uma grande riqueza de informação na primeira parte do livro, sendo que, entre muitos outros aspetos, Brazelton explora um pouco da vida intra-uterina. “Existe alguma correlação entre a atividade fetal e o comportamento do bebé. O modo como um feto responde a estímulos pode ser significativo”, escreve, explicando que os fetos adaptam-se à tensão e ao meio ambiente e que podem fazer aprendizagens desse mesmo meio — alguns ficam sossegados, outros mais ativos. Há motivos de preocupação quando há demasiada atividade ou quando o feto não responde aos movimentos da mãe.

Neste capítulo destinado à gravidez também se abordam algumas preocupações associadas ao parto e a alguns dos momentos mais importantes imediatamente após o nascimento. No que à amamentação diz respeito, Brazelton assegura que o leite materno tem inúmeras vantagens e é o ideal para o bebé: “Nenhuma criança é alérgica ao leite materno. A percentagem de proteínas e de açúcar é a ideal, e o leite materno contém anticorpos que vão aumentar o nível de imunidade das mães através da placenta, mas esta imunidade vai diminuindo ao longo dos meses seguintes, a não ser que o leite materno a mantenha. Por isso, os riscos de infeção diminuem com a amamentação”. A amamentação, garante, é a forma ideal de comunicação entre mãe e bebé.

Recém-nascido

O segundo “touchpoint” estipulado por Brazelton consiste na observação do bebé após o nascimento. A observação inicial, refere o autor, é conhecida por índice de Apgar e tem em conta a cor do bebé, a sua respiração, o ritmo cardíaco, o tónus muscular e a sua atividade, sendo feita momentos depois do parto. Este método pretende avaliar a capacidade do recém-nascido em responder ao trabalho de parto e ao novo meio ambiente — a avaliação descrita não prevê o futuro bem-estar do bebé, mas reflete o tipo de parto em causa. Uma avaliação mais profunda, essa, acontece durante os primeiros dias de vida e, já nesta altura, o bebé é avaliado quanto ao “bem-estar físico e ao modo como reage, sob o ponto de vista nutricional”.

“O comportamento de um recém-nascido parece destinar-se a atrair os pais. A maneira como se aconchega deliciosamente ao pescoço ou ao ombro e como procura o rosto do pai ou da mãe, provocam nestes um enorme desejo de o amparar e compreender.”

No livro, Brazelton deixa claro que o bebé é dotado de uma “espantosa variedade de respostas” desde o momento em que nasce. A importância dos estímulos é clara para o autor, que procura esclarecer que quando os bebés são prematuros ou foram sujeitos a sofrimentos intra-uterinos têm uma particular dificuldade em alhear-se de estímulos repetidos. “Respondem a cada agitar da roca, a cada toque de campainha, a cada foco luminoso”, escreve Brazelton, referindo que tal é penoso para os prematuros. “Mostram desagrado, e por vezes dá-se até uma alteração na cor da face, visto que os seus ritmos cardíaco e respiratório aceleram cada vez que há um estímulo.”

Muitos bebés, no período pós-parto, reagem aos estímulos de uma forma muito lenta, “como se estivessem a recuperar do sofrimento que passaram para nascer”, diz o autor. Nesse sentido, e caso a situação persista, deve ser encontrada uma causa, como por exemplo, “um sistema nervoso abalado”. “Será necessário agir o quanto antes”, escreve Brazelton. “Sabemos hoje que uma intervenção precoce num bebé perturbado pode ser muito útil à sua recuperação.”

“O arquear da cabeça e o levar das mãos ao rosto para retirar o pano são exemplos de um sistema nervoso intacto num recém-nascido de termo. Se o bebé estiver muito sedado por medicação materna, ou se for prematuro, todos os seus padrões motores estarão acentuadamente diminuídos. Se houver uma lesão cerebral, a sua atividade motora será desorganizada, e o tipo de tentativas ineficazes para desempenhar todos estes comportamentos tornam-se indicativos de que ele tem problemas.”

Três semanas

“No nosso mapa de pontos de referência, em que são abordadas as fases da vida da criança em que é mais provável surgirem problemas, a questão da alimentação surge inevitavelmente nesta altura em que ela tem três semanas”, assegura Brazelton. Se no início de tudo dar de comer ao bebé sempre que ele acorda é a resposta mais adequada, a partir da terceira ou da quarta semana as mamadas podem ser um pouco adiadas em substituição de um momento de brincadeira. “Não fará mal ao bebé esperar um pouco. Ele aprenderá gradualmente que as brincadeiras intercalares podem ser tão agradáveis como as mamadas.”

“Os pais normalmente encaram a alimentação como a sua maior responsabilidade. Quanto mais intenso é este sentido de responsabilidade, mais receiam que a criança não esteja a alimentar-se convenientemente.”

Assim que os pais ganham maior confiança tendo em conta a alimentação do bebé, estes “podem começar a prolongar os estados vígeis que medeiam entre a altura da sua higiene e o sono”. Segundo Brazelton, as mães têm mais e melhor leite depois de um intervalo de três a quatro horas do que após períodos de amamentação mais próximos uns dos outros. A isso junta-se o facto de as mamadas com intervalos maiores entre si serem menos lesivas para os seios das mães.

“O objetivo é conseguir que o bebé fique acordado cerca de três a quatro horas entre as refeições e faça um sono longo durante a noite.”

Já o ajustamento dos ciclos de sono e de vigília do recém-nascido constituem a primeira tentativa dos pais de adaptaram o bebé ao mundo que o acabou de receber. De facto, conseguir controlar os seus estados de consciência é também uma tarefa muito importante para o recém-nascido. Nesse sentido, importa conhecer os diferentes estados: sono profundo; sono ligeiro; estado indeterminado; completamente acordado, vigília total; estado vígil, agitado, e choro.

Quatro meses

O comportamento exploratório tendo em conta a alimentação faz parte desta fase, altura em que o bebé vai começar a querer brincar com o biberão — não há motivo para não deixá-lo pegar-lhe pela parte de baixo. A alimentação, garante Brazelton, é muito mais do que comida, e a comunicação com o bebé é fundamental. Para atestar esta afirmação, o autor cita estudos que demonstram que os fluídos necessários à digestão “não são ativados se o bebé não tiver um clima agradável quando está a comer”.

Considerando os alimentos sólidos, Brazelton faz notar que alimentos mistos, ovos e trigo são de evitar até aos nove meses, uma vez que estes são alimentos com maior probabilidade de desencadear alergias nos mais pequenos. A introdução dos alimentos sólidos vem acompanhada de uma natural experimentação e brincadeira por parte do bebé que deve ser encorajada.

Mais importante do que os alimentos sólidos é o leite. Caso o bebé esteja a ser alimentado a biberão, o autor sugere como quantidade de leite adequada 570 a 680 gramas. “Quando se torna difícil dar-lhe o peito ou o biberão, é aconselhável diminuir os sólidos, para ser mais fácil dar-lhe o leite. Pode dar-se-lhe o peito ou o biberão duas vezes por dia, num quarto sossegado e escurecido. Deste modo ele irá ingerir o leite de que precisa para crescer e aumentar peso. Um bebé só aumenta de peso quando está a ingerir a quantidade adequada de leite.”

No que toca ao sono, e caso o bebé já consiga adormecer sozinho, os pais podem contar que ele durma noite fora. Certo que ainda se vai agitar na cama, chorar e voltar a adormecer — estes padrões de autoconforto, bem como a capacidade de adormecer sozinho, “tornar-se-ão ainda mais importantes para o bebé ao longo dos dois meses seguintes”.

Ainda nesta altura, o desenvolvimento cognitivo é contínuo, pelo que o mais provável é que o bebé esteja um tanto ou quanto irrequieto, o que obriga a uma vigilância redobrada dos pais: “É vital nunca o deixar sozinho enquanto lhe mudamos a fralda ou o vestimos depois do banho, sobre o tampo da banheira. Deve mantê-lo sempre seguro, mesmo que só com uma das mãos.”

Nove meses

Brazelton é perentório: aos nove meses o bebé vai precisar de ganhar um maior controlo sobre a sua própria alimentação, mesmo que isso faça torcer muitos narizes adultos. Nesta fase, e ao contrário do que se possa pensar, os alimentos não são o mais importante, uma vez que a necessidade que o bebé tem de “imitar, de explorar, de começar a aprender a recusar” passa a ser prioritária. “Aconselho firmemente o pai e a mãe a reconsiderarem quaisquer tentativas para dominarem a refeição da criança e, em vez disso, tornarem esta num espaço de entretenimento e de aprendizagem”, escreve o autor.

“É demasiado importante para a criança começar a aprender a comer sozinha. O problema é que a maioria dos pais sobrevaloriza as refeições. É uma herança do seu próprio passado, que é difícil não querer perpetuar.”

Aos nove meses dá-se o caso de os bebés começarem a acordar de noite à medida que vão adquirindo novas capacidades motoras, ao porem-se de pé e até caminharem, situações de grande excitação para os mais novos. É nesse sentido que Brazelton sugere que os pais estejam preparados “para manter um padrão de conforto mas que seja firme, ajudando o bebé a adormecer sozinho após cada ciclo de sono”.

Ainda neste capítulo, o autor refere-se ao controlo das necessidades fisiológicas para explicar que, ao contrário do que terceiros possam sugerir, é a criança que deve instruir-se a si própria. “Se o fizerem [se treinarem os bebés nesse sentido], estarão a treinar os esfíncteres do bebé, tal como se fazia antigamente quando ainda não havia fraldas descartáveis.”

No reino dos ensinamentos está, então, a difícil arte da separação de pais e bebé. Até por causa dos meses que se seguem, o autor aconselha os pais a prepararem os filhos de cada vez que tiverem de sair e, ao início, a estarem ausentes por um curto período de tempo e a deixarem-nos com alguém familiar. O tempo de ausência deverá ser gradualmente aumentado. “Nesta idade, ele está a desenvolver o conceito de independência e o de afastamento, mas à medida que o faz torna-se cada vez mais dependente.”

Um ano

O primeiro ano de um bebé consiste num surto de desenvolvimento, que precede um período de desorganização. É precisamente nesta fase que o desejo de independência se intensifica e a palavra “não” passa a ser constantemente usada. O negativismo é natural, pelo que os pais têm de se preparar e aceitar a situação, sem que se sintam culpados — “Caso contrário, encaram esse negativismo como se se dirigisse a eles em particular e tentam reprimi-lo ou contrariá-lo”. Morder, bater e arranhar são atitudes que fazem parte de um comportamento exploratório e estão associadas a períodos de sobrecarga.

As birras também são protagonistas desta etapa e, nesse ponto, Brazelton refere que, por vezes, uma atitude firme e fria pode ser a solução: “Sei que parece cruel ignorar uma grande birra, mas as pessoas experientes sabem que, se os pais interferirem, é muito provável que a birra se prolongue mais”. A disciplina é, então, necessária — diz Brazelton que, depois do amor, a disciplina é a segunda coisa mais importante para uma criança.

“Nesta idade, quando a criança pede atenção, precisa de carinho ou de um pouco de consideração, mas não de repreensões. Os castigos físicos como bater-lhe ou dar-lhe palmadas significam duas coisas para ela: uma, que os pais são maiores e não precisam dela para nada e, outra, que gostam de agredir.”

Dois anos

Aos dois anos de idade, uma criança está pronta para começar a ajudar nas tarefas domésticas. Um ponto interessante se pensarmos que o sentimento de utilidade e o ser-se capaz reforça a auto-estima dos mais novos. Ensinar um filho a ajudar em casa deve ser feito de forma gradual e não isento de elogios, que devem acontecer na sequência da participação ativa da criança. Diz o autor que todos estes momentos são um investimento no futuro: “Nesta geração, os rapazes e as raparigas que aprendem a ajudar estarão muito mais bem preparados para um mundo em que os dois elementos do casal têm de trabalhar. Estarão prontos a compartilhar as tarefas domésticas e não ficarem à espera que lhes peçam ajuda”.

É nesta fase que Brazelton introduz o tópico da televisão. Diz o pediatra que a televisão exige um esforço de atenção visual e auditiva muito grande, pelo que uma criança pequena fica extenuada ao assistir a programas televisivos. A TV não pode, por isso, fazer de baby-sitter, até porque as crianças não podem ver televisão durante mais de 30 minutos e apenas duas vezes por dia. 

“Os programas devem ser cuidadosamente escolhidos e as crianças só devem ver no máximo meia hora de cada vez, e não mais de duas vezes por dia. O ideal é a mãe ou o pai participarem pelo menos numa destas sessões”, escreve o autor, que garante que os programas televisivos constituem uma agressão aos sentidos das crianças. “Isso paga-se caro.”

Três anos

“O tipo de aprendizagem tumultuosa que a criança faz neste período parece-me uma antevisão do turbilhão da adolescência”, escreve o autor, referindo-se ao desenvolvimento intenso a que uma criança de três anos está sujeita. É nesta fase que se dá a aprendizagem da identidade sexual e que a criança se identifica mais com o pai ou com a mãe. “Neste período, centraliza a sua paixão e absorve completamente um deles durante algum tempo, ignorando o outro. Se observarmos de perto uma criança desta idade, poderemos detetar características de identificação com o pai ou com a mãe no modo como ela caminha, no ritmo com que fala, nas suas preferências alimentares e em muitas outras áreas.”

Aprender a dominar a fúria e a agressividade é das tarefas mais difíceis para uma criança desta idade, que testa os pais até obter deles uma reação ou regressa a antigos padrões de birra. “Prefiro ver uma criança desta idade ficar zangada, arreliar e provocar os pais. Está a exprimir abertamente a sua agitação e a aprender mais. Uma criança desejosa de agradar a todos os que a rodeiam sofre mais e terá de estar os pais mais tarde.”

E não esquecer: para Brazelton, brincar é o modo mais poderoso de as crianças aprenderem tarefas importantes.

https://twitter.com/mercnews/status/973945613736992769

 

 

Como traduzir um bebé?

Maio 1, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Entrevista do https://www.educare.pt a Clementina Almeida.

Explica que o cérebro dos bebés nasce imaturo. Para o entenderem os pais devem perceber mais sobre o desenvolvimento infantil. Assim, vão poder lidar melhor com birras, medos e outras situações. Clementina Almeida, psicóloga especializada em bebés, em entrevista ao EDUCARE.PT.

Andreia Lobo

Chamam-lhe “tradutora de bebés”. Clementina Almeida é psicóloga clínica com especialidade em bebés. Fundou o BabyLab, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, onde é investigadora e dirige a ForBabies, no Porto, uma clínica especializada no atendimento de bebés dos zero aos 36 meses.

Empenhada em passar aos pais informação baseada em “evidência científica”, Clementina Almeida escreveu o livro “Socorro! O meu bebé não dorme”, editado pela Porto Editora. Estreou-se, depois, na literatura para a infância, com uma coleção de histórias “com psicologia” para crianças e pais. Quatro personagens ajudam os mais pequenos a identificar-se com a problemática com a situação que vivem e a entender o que  sentem: “Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas”, “Pipo, o urso que não queria ficar sozinho”, “Duda, o leão que tinha medo” e “Tita, a zebra que não queria ter riscas”.

Por detrás de cada livro permanece sempre a preocupação de explicar aos mais crescidos os motivos de alguns dos comportamentos das crianças. Por isso, a psicóloga e escritora admite, com graça, que “escreve ao contrário”. Primeiro, investiga sobre o que a ciência diz a propósito do tema que pretende explorar. Depois, cria uma história que a criança possa entender. No final do livro, volta à ciência e explica aos pais, de forma simples, tudo o que precisam de saber. O EDUCARE.PT conversou com Clementina Almeida sobre desenvolvimento infantil, sobre birras e medos e como entender melhor o que as crianças nos dizem.

EDUCARE.PT (E): Dos zero aos três é a idade em que o cérebro atinge 85% do seu desenvolvimento. Como se explica este desenvolvimento num período tão curto?


Clementina Almeida (CA):
 Ao contrário da maior parte dos órgãos, que quando o bebé nasce já têm a maturidade suficiente, o cérebro nasce completamente imaturo. Se o cérebro crescesse aquilo de que nós precisávamos para que se tornasse maturo era impossível as mulheres darem à luz. Isto tem a ver com a nossa evolução como espécie, o facto de deixarmos de andar em quatro patas e passarmos a andar em duas, as ancas tiveram de estreitar para podermos correr e fugir dos predadores. E, portanto, a natureza arranjou um compromisso que é os bebés nascem ao fim de nove meses, mas com o cérebro ainda imaturo.

O bebé nasce totalmente dependente das relações que vai ter com o seu meio ambiente, das relações próximas com a mãe e com o pai, ou seja, com os cuidadores, mas também das experiências sensoriais que vai ter no primeiro ano de vida. Imagine-se o cérebro como uma pirâmide, em que a parte de baixo são as vias sensoriais mais básicas, como o cheiro, o toque, o ouvir – daí ser tão importante lermos e falarmos para os bebés. Com base nessas partes sensoriais vão edificar-se as estruturas mais complexas em termos cognitivos e emocionais.

No fundo, os primeiros três anos vão determinar as nossas competências em termos de aprendizagens futuras e a nossa saúde. Se tivermos boas fundações, tudo corre bem. Se tivermos experiências adversas de infância, como viver numa família economicamente desfavorecida, ter de lidar com psicopatologia materna, viver em pobreza ou mau ambiente familiar… Tudo tem um impacto tremendo no desenvolvimento cerebral nestes três anos. Quando somos bebés fazemos 700 a mil sinapses por segundo, é um verdadeiro fogo de artifício, nunca mais na vida teremos este tipo de desenvolvimento.

E: Que implicações isto tem?


CA:
 Se pensarmos que todas as sociedades gastam imenso dinheiro em termos de saúde pública, é certo que gastaríamos muito menos se investíssemos na primeira infância. Alguns prémios Nobel da economia dizem que por cada dólar investido na primeira infância temos um retorno de sete a nove dólares. Mas ainda estamos culturalmente muito habituados a achar que os bebés comem, dormem e mais nada. Falar para o bebé para quê, se ele não responde? Graças à evolução das neurociências conseguimos, hoje, perceber o que se passa dentro do cérebro do bebé. E sabemos que se passa muita coisa. Por isso, os primeiros anos não podem ser deixados ao acaso, de forma nenhuma.

E: Tão-pouco se podem deixar ao “acaso” os cuidados nos berçários e nas creches?


CA:
 Sim, por exemplo. Mas em Portugal não temos berçários de qualidade. Desde logo, porque um dos critérios para ter qualidade é o ratio de adulto por bebé. No primeiro ano de idade sabemos que o ideal será o ratio de um para um, porque o bebé precisa de um cuidador que responda de imediato às suas necessidades. Se nos berçários temos oito bebés para dois cuidadores, é óbvio que se um começa a chorar e os outros sete se seguem alguém vai ficar com as suas necessidade inatendidas. E este choro inatendido – quando é repetitivo e não há nada que o acalme – é, muitas vezes, classificado como stress tóxico na primeira infância.

Tóxico porque efetivamente acaba por afetar o desenvolvimento cerebral que se está a dar naquele momento. Que é precisamente o oposto do que se deseja. O stress vai libertar alguns químicos, nomeadamente o cortisol que tem um efeito cáustico no desenvolvimento dos bebés. Por bebé entende-se a idade dos menos nove meses até aos três anos e, depois, os de três estão a deixar de ser bebés, mas ainda são pequeninos. Um bebé que tem sistematicamente estas necessidades inatendidas, fica com o cérebro literalmente menor e com áreas – chamadas de buracos negros – que não se desenvolvem como deveriam.

E: Com tudo o que disse, o que deveria mudar na forma como a sociedade olha para estas idades?


CA:
 Há muito saber deste que ainda está na ciência. Ou seja, que ainda não está acessível aos pais. Os jornalistas têm um papel fundamental de transmitir esta informação. Quanto mais os pais souberem sobre o desenvolvimento, mais vão fazer pelos seus filhos. Portanto, o primeiro passo é possibilitar aos pais o acesso à informação de que os primeiros anos de vida da criança são demasiado importantes para serem deixados aos acaso. Depois, em termos de políticas de prevenção temos tendência para atuar quando já existe a doença ou o sintoma já apareceu. Fazemos pouco em termos preventivos. Em termos políticos, a prevenção é algo cujos resultados só se vêm daqui a vinte ou trinta anos. Não costuma ser uma prioridade em Portugal trabalhar com vista à prevenção.

E: Dê-me exemplos de coisas simples que os pais podem fazer para aproveitarem ao máximo o potencial destes três anos?


CA:
 A coisa mais simples que podem fazer é falar para o bebé. Sabemos que existem bebés que ouvem cerca de 600 palavras por dia enquanto outros ouvem 1500. Aos três anos, por exemplo, dá uma diferença de 30 milhões de palavras. Não seria importante se não estivesse relacionado com o desenvolvimento da linguagem aos dois anos e, inclusive, depois com o sucesso académico até aos 10 anos. Falar não custa dinheiro.

Podemos falar com o bebé sobre tudo, ler, cantar, ou seja, usar muitas e muitas palavras, porque estamos a fazer estimulação sensorial auditiva que é muito importante. Também é importante expor o bebé a outras experiências sensoriais: tocar em tecidos, expo-lo a cheiros, do café, do chocolate, da canela… O trabalho na ForBabies começa pelo programa BabySense em que os bebés recebem uma hora de estimulação sensorial adaptada à idade e ao desenvolvimento. Os pais recebem orientações para fazer o programa em casa, o que inclui fazer tintas e plasticina caseiras que são coisas divertidas que os bebés adoram. E, acima de tudo, ajudamos estes pais a perceberem o quão importante este tipo de experiências é para o desenvolvimento cerebral do bebé.

E: Sente que os pais precisam de formação para a parentalidade?


CA:
 Precisam de conhecimento. Mas muita coisa é instintiva. Costumo dizer que os mais especialistas em bebés são os pais, porque os conhecem e percebem todas as suas nuances e diferenças. Todas as famílias são diferentes e eu valorizo muito a criatividade familiar. Por isso também sou avessa àqueles cursos de parentalidade. A maior parte deles ensinam uma determinada abordagem e a mim isso soa-me mal. Parece que pretendem que todos os pais façam daquela maneira para que todos filhos sejam daquela maneira. O que corta muito esta criatividade. Nos EUA e em Inglaterra existem movimentos a favor de ensinar os pais acerca do desenvolvimento. A ideia é não que precisamos de ensinar os pais a serem pais, porque já sabemos que eles vão fazer o melhor que podem. Se eu souber que o meu bebé está a fazer uma birra porque está numa fase de desenvolvimento, que a birra tem estas fases e a seguir posso atuar desta maneira, que ele me está a transmitir um pedido de ajuda e, não propriamente, um confronto comigo, se calhar, consigo perceber de que forma o posso ajudar.

Há determinadas estratégias em cursos de parentalidade que põem os pais a pensar: “Isso é muito giro, mas venha cá a casa quando ele está a espernear.” Noto muito isso na consulta de psicologia pediátrica de rotina que avalia as crianças pequenas para além dos percentis. Os pais procuram muito esta consulta como orientação e dizem-me que a partir do momento em que perceberam o que se estava a passar a situação melhorou logo.

E: A dificuldade é mesmo entender o que está por detrás do comportamento dos bebés.


CA: 
Sim, porque é preciso perceber de desenvolvimento e isso falha. Depois, se a estratégia é dar mais ou menos beijinhos, se é conversar lá fora ou lá dentro, isso depende da criatividade de cada pai e mãe e não devemos cortar isso.

E: A pensar no que é comum a muitas crianças – birras, medos, perdas e dificuldades no desfralde – escreveu uma coleção de livros infantis que servem também de apoio aos pais…
CA: Com mais ou menos exuberância, todas as crianças acabam por passar por uma ou outra destas fases. A ideia dos livros é a criança identificar-se com o animal que protagoniza a história – o leão que tem medo, a zebra que não quer ter riscas – e que representa um momento comum na infância dos zero aos três. No final do livro tento espalhar conhecimento. Explico, por exemplo, aos pais o que são os medos característicos de cada fase e as estratégias genéricas que podem utilizar. Os livros não são apenas “historinhas”, são ferramentas para os pais.

No caso das fraldas, muitas crianças têm dificuldades porque no infantário de repente toda a gente vai desfraldar e não se tem consideração o nível de desenvolvimento cognitivo e emocional de cada criança. O desfralde é uma fase do desenvolvimento, fazê-lo antecipadamente é como ter a criança sem caminhar e querer ensiná-la a correr. Largar as fraldas é um marco, é deixar de estar a brincar e fazer a coisa quando lhe apetece, é ter consciência do funcionamento da sua bexiga, do seu intestino. As crianças têm de ser capazes, em termos motores, de se sentarem durante algum tempo. Tudo isto são metas que vão conquistando e quando se conquistam o desfralde é natural.

E: As birras são também outro desafio para os pais…


CA: 
As birras são outro marco natural do desenvolvimento da criança. Mas acontecem, na maior parte das vezes, porque nós pais fazemos com que elas surjam. Os adultos controlam tudo na vida da criança: a que horas sai de casa, para onde vai, o que vai comer, o que vai vestir, a que horas se deita. Chega uma altura em que a criança começa a ter a sua autonomia e quer controlar qualquer coisa, quer decidir coisas no mundo dela. Uma forma de evitar as birras é dar à criança poder de decisão ao longo do dia. Não é deixá-la fazer tudo o que quer, mas dentro do que eu preciso que ela faça deixá-la decidir alguma coisa. Por exemplo, preciso que ela se vista. Posso dar a escolher: queres esta camisola ou esta? Não é abrir o armário e perguntar: qual é que queres? Isso seria demasiado para uma criança de dois anos. Mas se der à criança possibilidades de escolha, a parte psíquica que precisa de escolher e de sentir que controlou qualquer coisa ali à volta vai-se desenvolvendo saudavelmente. A criança fica mais segura e, ao mesmo tempo, o adulto está a fazer as coisas que quer. Se disser apenas “vamos vestir isto”, a possibilidade que a criança tem de escolher é dizer “não”, porque não lhe foi dada outra hipótese. Portanto, há formas de prevenir e de lidar com a birra quando ela aparece.

E: Muito frequentes são as birras no supermercado. Há alguma explicação?


CA: 
É preciso perceber que os supermercados, os shoppings, são locais de muita estimulação e, portanto, podem rapidamente provocar uma birra porque os bebés não têm ainda capacidade para regular todo aquele estímulo. Muitas vezes os pais pegam na criança que sai da creche onde está completamente contida –  porque também não tem grandes hipóteses de escolha e as coisas estão muito determinadas –  metem-na no carro e a caminho de casa passam pelo supermercado. É como pegar num barril de pólvora e andar a ver se aquilo explode. Se calhar era melhor depois da creche fazer a criança correr para aliviar aquela “panela de pressão” ou fazer ao contrário, ir primeiro ao supermercado e depois ir buscar a criança. Não devemos deixar de os expor às situações, mas é preciso perceber quando os estamos a expor. Há momentos que servem mesmo de gatilho.

E: No final de cada um dos seus livros escreve: “Respire fundo e lembre-se que o adulto é você”. Os pais esquecem-se disto?


CA: 
As crianças precisam imenso da ajuda dos pais para se regularem emocionalmente. Não têm sequer alguns dos neurotransmissores que os adultos têm e a nós, muitas vezes, salta-nos a tampa, a eles que não os têm mais facilmente isso acontece. Se a criança tem dificuldade em lidar com a birra e ainda levar por cima com agressividade ou berros dos adultos vai ter grande dificuldade em lidar com aquilo de forma saudável. A ciência mostra que 80% do que somos é relação e 20% é genética. Vem alguma coisa determinada, mas depois se aquele gene dispara, ou se me torno mais desta forma ou de outra, é pela relação que estabeleço todos os dias.

 

Por que a garotada precisa brincar ao ar livre, segundo a neurociência

Abril 28, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do https://brasil.elpais.com/ de 30 de março de 2018.

MARIO FERNÁNDEZ SÁNCHEZ

Tempo dedicado às brincadeiras em ambientes naturais diminuiu nas últimas décadas, enquanto aumentou o número de crianças com ansiedade e depressão.

Por mais paradoxal que pareça, muitos detentos passam mais tempo ao ar livre do que algumas crianças das nossas cidades. O tempo ao ar livre em contato com a natureza, especificamente, vem diminuindo enormemente, a tal ponto que muitos meninos e meninas passam mais de 90% do seu tempo em espaços fechados. O correto desenvolvimento infantil exige movimento desde o nascimento, e a forma mais fácil e interessante de se movimentar é brincando, se possível ao ar livre.

O sistema nervoso serve para a locomoção, e as demais milhares de páginas de um manual de neurociência estão subordinadas a esse fato natural tão relevante. Trata-se de algo extraordinário, tão belo como complexo. A função primordial de um ser vivo é se reproduzir, e para isso ele precisa se aproximar de certos estímulos, como um possível parceiro sexual, e se afastar de outros, como os predadores.

Os subsistemas sensoriais e emocionais estão a serviço do subsistema motor, que por sua vez está relacionado com uma conduta de aproximação ou afastamento. Podemos comprovar isso na vida cotidiana. Se pisamos em algo cortante na piscina, levantamos o pé instintivamente. Se alguém ou algo nos atrai, nos aproximamos pouco a pouco. Do mesmo modo, nos afastamos se não gostamos de uma situação ou detectamos um perigo. Tudo é movimento, portanto. E o nosso cérebro dedica muitos neurônios à realização dessa função.

Uma grande superfície dos nossos hemisférios cerebrais – especificamente o córtex motor primário e secundário – é dedicada ao controle motor. Existem núcleos neuronais (um complexo chamado estriado, situado nas profundezas do cérebro) dedicados, entre outras coisas, ao movimento planejado. Do mesmo modo, o cerebelo, que se encontra na parte posterior do encéfalo, é outra estrutura fundamental para o movimento. Também existe um subsistema completo, chamado vestibular, para garantir o equilíbrio em todos os nossos movimentos. São muitíssimos recursos, e nossa vida depende deles.

Durante as primeiras etapas do desenvolvimento, nossa espécie aprende paulatinamente a se movimentar de maneira cada vez mais sofisticada, o que significa que aprende a comandar os subsistemas envolvidos nesse movimento: o sensorial, o vestibular, o cognitivo e, obviamente, o emocional. E essa aprendizagem se realiza na infância graças às brincadeiras.

Muitas funções do sistema nervoso têm janelas temporais de neuroplasticidade, nas quais a sensibilidade é crítica e sua formação é a ideal. Por exemplo, andar e falar são tarefas aprendidas nos três primeiros anos. A alteração da plasticidade durante períodos críticos de desenvolvimento está ligada a muitos transtornos neurológicos pediátricos.

Essas janelas têm como fundamento de aprendizagem a brincadeira em todas as suas variantes. Algumas funções são fisiológicas, como o sistema nervoso vestibular, que, como explicamos, realiza dentro do cérebro a função do equilíbrio e necessita de estímulos para seu desenvolvimento, já que do contrário a mobilidade da criança não será otimizada e ela terá medo perante qualquer desafio que envolva deslocamentos em altura, velocidade, giros ou mudança posturais bruscas. Os hematomas, cortes e arranhões são, portanto, um direito das crianças na hora de aprender. E não só isso: pretender evitá-los a todo custo pode causar déficits cognitivos e emocionais para toda a vida.

Modular a agressividade e a empatia

A brincadeira deve ser a principal atividade de uma criança. É o que seu cérebro espera: brincadeiras e mais brincadeiras, sobretudo relacionadas com a atividade física, e preferivelmente ao ar livre. Pode-se brincar sozinho – e o cérebro também precisa aprender a se entediar – e, sobretudo, em companhia. Quanto mais heterogêneas forem as idades das crianças que brincam, melhor será para o desenvolvimento das relações pessoais e para a modulação da agressividade e da empatia.

Qualquer pessoa que já tenha lidado com crianças terá observado quais são suas preferências e como se divertem quando vão a um playground, para não falar dos parques de diversões. A velocidade, as voltas, a sensação de perigo causada pela altura, os desafios do equilíbrio… Tudo isso é muito atrativo para a criança, porque o que estamos fazendo é levar seu cérebro ao ambiente onde evoluímos durante milhões de anos e ao qual estamos adaptados. Faz poucos séculos que passamos a habitar as cidades, e a evolução não foi capaz de adaptar nosso organismo a viver nelas. Quando uma criança brinca ao ar livre, preferivelmente em um ambiente natural, o cérebro agradece com uma injeção de felicidade. Há riscos? Claro, isso é viver.

Por natureza, as crianças não têm excessiva consciência do passado e do futuro – vivem o momento. Sua atividade principal é brincar. E a brincadeira permitirá que nossa prole aprenda a se movimentar com destreza, a não se machucar, a avaliar as situações de maneira adequada e, quando não houver outro remédio, a ser agressivo e sobretudo a sê-lo na medida certa, respeitando dentro do possível os valores aprendidos. Nisso o ambiente familiar tem um papel fundamental.

Se for para escolher, é melhor brincar na natureza do que na praça do bairro, porque o cérebro precisa de novidade, curiosidade e investigação. A brincadeira permite que as crianças, depois de examinar seu entorno, gerem de maneira bastante eficaz um repertório de comportamentos inovadores que podem se adaptar a um nicho específico. A exploração do desconhecido, felizmente, está nos nossos genes.

Crianças com ansiedade e depressão

Durante as últimas décadas, ocorreu nas sociedades modernas – sobretudo as ocidentais – um declínio na liberdade das crianças para brincar, especialmente em brincadeiras sociais e em grupos de idade heterogênea, longe dos olhares vigilantes dos adultos. Ao mesmo tempo, ocorreu um aumento considerável dos casos de ansiedade, depressão, sentimentos de tristeza, impulsividade e narcisismo entre as crianças.

Todos nós já fomos crianças e nos divertimos com o frio na barriga quando estávamos no topo do escorregador ou subíamos pela estrutura de ferro dos balanços. Girar nos carrosséis ou se pendurar por qualquer lado, feito um macaco – afinal de conta, é isso que nós somos –, é uma evidente fonte de prazer. Qualquer conduta que teste nosso senso de equilíbrio nos atrai como um desafio. Tanto é que, durante seu desenvolvimento, as crianças experimentam os limites para se superarem pouco a pouco. Um passo a mais, um degrau a mais, uma volta a mais… O perigo lhes atrai, pois marca esses limites.

Assim, a teoria da regulação emocional através da brincadeira propõe que uma das principais funções da brincadeira entre jovens mamíferos é a aprendizagem de como regular o medo e a raiva. Em uma brincadeira com certo risco, os pequenos aprendem a enfrentar pequenas doses manejáveis de medo, sem cair em emoções negativas por muito tempo. Assim, aprendem que é possível superar a situação e posteriormente recuperar um estado emocional normal de alegria.

As análises revelam que, ao mesmo tempo em que se limita a liberdade na brincadeira, entre cinco e oito vezes mais jovens sofrem níveis clinicamente significativos de ansiedade e depressão, segundo os padrões atuais, muito maiores que nos anos cinquenta. Assim como a diminuição na liberdade de brincar com certo risco foi contínua e gradual, também foi contínuo e gradual o aumento da psicopatologia infantil. São necessários mais estudos para corroborar isto. Por exemplo, Peter Schober, da Universidade de Medicina de Graz (Áustria), afirma que crianças sedentárias, que não assumem nenhum risco, adoecem cinco vezes mais de depressão que as que se mantêm ativas.

Eles sabem quando assumir riscos

Temos uma tendência inata a subestimar as capacidades cognitivas das crianças, mas o fato é que elas sabem melhor do que nós quando estão preparadas para assumir certos riscos. Na praia, minha filha pequena sabe perfeitamente até que altura podem chegar as ondas antes que ela saia correndo para a areia. Há pouquíssimas possibilidades de que uma onda a pegue de surpresa, pois seu cérebro ativa os mecanismos para saber onde estão os limites.

É fato que as crianças podem se enganar – se enganam mesmo, e assim aprendem –, mas não costuma ser frequente. Se não, não teríamos sobrevivido como espécie. Como as crianças enfrentam desafios e riscos manejáveis, um resultado negativo leve é aceitável. E, se não, os pais podem ficar de olho, como aliás sempre devemos fazer em praias e piscinas.

Porque é muito importante saber que nem todas as crianças são iguais. O que para uma pode ser estimulante para outra pode ser traumático. Nesta diferença os pais desempenham um papel fundamental. As crianças devem escolher o risco que podem administrar. Não devemos forçá-las a lidar com riscos maiores, mesmo se soubermos que não são prejudiciais. O ponto de vista da criança é diferente. Se ela tiver medo que uma onda lhe cubra o rosto, não se deve forçá-la, por mais que saibamos que não há problema. A melhor forma de superar desafios é a que a criança escolher. E a brincadeira é o caminho que guia essas condutas.

Vale a pena dar uma olhada neste documentário que mostra como algumas comunidades promovem a brincadeira ao ar livre, a partir da aventura, para fomentar o correto desenvolvimento físico e cognitivo da criança. O documentário está em inglês.

 

 

 

Morreu Berry Brazelton, o médico que revolucionou a pediatria

Abril 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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REUTERS

Notícia do https://www.publico.pt/ de 14 de março de 2018.

Autor da obra O Grande Livro da Criança, Brazelton foi um dos clínicos e defensores mais influentes em pediatria e em desenvolvimento infantil da era moderna. Em Portugal, a Fundação T. Berry Brazelton é representada pelo pediatra Gomes-Pedro.

BÁRBARA WONG

Faria cem anos no dia 10 de Maio, mas os preparativos já tinham começado a ser feitos, não para essa data, mas para 23 e 24 de Abril, um congresso e a comemoração antecipada do aniversário, em Boston, EUA. O pediatra, cientista e perito norte-americano em desenvolvimento infantil Thomas Berry Brazelton morreu nesta terça-feira, aos 99 anos, na sua casa em Barnstable, Massachusetts, anunciou o Centro Brazelton Touchpoints. “O mundo perdeu um verdadeiro herói para os bebés, crianças e famílias”, diz o comunicado.

Antes de Brazelton, assim que nascia, “o bebé era embrulhado e esquecido a um canto”. Foi Brazelton quem descobriu a importância de, nos primeiros minutos de vida, o recém-nascido ter contacto com a mãe, “pele com pele”, resume Gomes-Pedro, pediatra que em Portugal desenvolveu a teoria dos Touchpoints do norte-americano e criou o primeiro centro fora dos EUA com o nome do especialista, a Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família.

O conceito de Touchpoints consiste numa abordagem teórica e prática de um modelo de desenvolvimento focado no bebé ou na criança e centrado na família — mas também pode ser usado com adolescentes e adultos, nota Gomes-Pedro. Esta proposta explica o desenvolvimento humano e levou a uma mudança no modo de intervenção dos profissionais, não só dos pediatras mas de todos os que lidam com os mais pequenos, de modo a privilegiar a relação bebé-família. Em Portugal, a fundação faz isso mesmo: oferece formações a pediatras, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, educadores, etc..

“Quando fortalecemos as famílias, fortalecemos a comunidade. O nosso objectivo é que os pais, em todos os lugares, trabalhem com profissionais [de saúde e educação] que lhes dêem apoio, se sintam confiantes no seu papel parental e criem ligações fortes e resilientes com os seus filhos. Para ajudar a alcançar isso, os profissionais devem responder aos pais, pois são os que conhecem o desenvolvimento da criança e estão ansiosos por ver todos os pais a serem bem sucedidos”, defendia Brazelton, citado no site do centro com o seu nome.

“É uma partilha que é uma autêntica descoberta”, aponta o pediatra português, acrescentando que Brazelton esteve em Portugal mais de 30 vezes. “Não havia aldeia que não conhecesse. Ele gostava da nossa comida, da nossa cultura. Nos primeiros anos vinha fazer congressos, nos últimos já não tinha coragem para lhe pedir para vir falar”, confessa o pediatra, emocionado com a notícia da morte do seu “mestre”.

Ler e compreender a criança

Berry Brazelton, autor de O Grande Livro da Criança, e de mais de três dezenas de títulos, a grande maioria best-sellers, era professor emérito de pediatria na Harvard Medical School e pediatra emérito no Hospital Pediátrico de Boston. Foi talvez o mais conhecido especialista depois de Benjamin Spock (1903-1998), o primeiro a aplicar a psicanálise à compreensão da dinâmica familiar e considerado um “herói” por Brazelton, recorda o Washington Post. A grande mudança que Brazelton protagonizou, na década de 1970, foi a de o pediatra não ser apenas o médico que trata das doenças das crianças, mas que acompanha a família, que conhece as competências das crianças e as potencialidades dos pais.

Gomes-Pedro conta que, antes de Brazelton, os médicos e cientistas estavam convencidos de que os recém-nascidos não viam, não ouviam, não entendiam nada à sua volta; uma das inovações propostas pelo pediatra norte-americano foi precisamente fazer uma consulta pré-natal, antes de o bebé nascer, porque a interacção entre pais e filho acontece muito antes do nascimento. “Brazelton criou um modelo relacional baseado na interacção, na descoberta do outro, de significado afectivo e emocional”, define Gomes-Pedro.

Em vez de dar lições aos pais sobre como criar o bebé, o médico defendia que estes deviam ser ajudados a “ler” o filho, a compreendê-lo. “A minha missão é revelar aquela criança aos pais. Conseguir que compreendam a personalidade do filho que têm e, agindo em conformidade com o seu temperamento, sejam capazes de se ligar a ele desde o primeiro momento”, dizia o pediatra norte-americano, em entrevista à edição portuguesa da Marie Claire, em 1990.

Brazelton defendia que é preciso transmitir aos pais que são eles as pessoas mais importantes na vida dos filhos e que têm de se sentir competentes para serem pais. Para isso, têm a ajuda do pediatra e de outros especialistas, profissionais de saúde e de educação, define Gomes-Pedro. “O nosso sonho, e também o de Brazelton, é que cada bebé nasça com oportunidades. Uma das grandes mudanças nas maternidades foi trazer o bebé para junto da mãe, e isso representa o ponto de partida no sentido da felicidade”, acrescenta o pediatra português, que se orgulha de ser um discípulo do norte-americano.

As palavras do famoso pediatra continuam actuais, em 1979 apontava o dedo aos pais que se preocupavam tanto que não sorriam. “Não conseguem sorrir e passar às crianças o entusiasmo que é ser progenitor. Gostaria de saber o que é preciso fazer para que os pais relaxem e não levem a parentalidade tão a sério”, dizia então, citado agora pelo Washington Post. “Cada criança tem direito a que pelo menos um adulto esteja loucamente apaixonado por ela”, declarou à Marie Claire.

Brazelton dizia que a sociedade americana era a “menos amiga das famílias, de todo o mundo ocidental”, e lembrava os casos dos tiroteios nas escolas, levados a cabo por adolescentes. “Ainda estamos a pagar caro o facto de não darmos à família toda a atenção que ela merece”, dizia ao Correio da Manhã, em 2004. Sobre os pais portugueses, elogiava: “Sinto que ainda há uma ternura, um calor humano entre as famílias.” Contudo, dois anos antes, alertava para os malefícios da televisão e da Internet, apelando aos pais para que as crianças não tivessem acesso a estes meios nos seus quartos.

 

 

 

Investidores da Apple pedem medidas contra o vício das crianças no iPhone

Janeiro 22, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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ACF

Notícia do http://observador.pt/ de 9 de janeiro de 2018.

Dois dos maiores investidores da Apple escreveram uma carta aberta à empresa. No documento, pedem um verdadeiro combate ao vício das crianças no iPhone e nas redes sociais. Apple já respondeu.

Dois dos maiores investidores da Apple estão a pedir à empresa que combata o crescente vício das crianças no iPhone e na internet. Numa carta aberta, a Jana Partners e o California State Teachers’ Retirement System demonstraram uma grande preocupação com os efeitos da tecnologia e das redes sociais no desenvolvimento dos mais novos.

Os investidores, que juntos controlam 2 mil milhões de dólares de ações da Apple, afirmam que “existe um consenso crescente em todo o mundo, incluindo Silicon Valley, de que as potenciais consequências a longo termo das novas tecnologias precisam de ser ponderadas logo no início, e nenhuma empresa pode delegar essa responsabilidade”.

Em resposta aos investidores, como reporta a Bloomberguma responsável de comunicação da Apple afirmou que a empresa “sempre se preocupou com as crianças e trabalha arduamente para criar produtos que inspirem, entretenham e educam as crianças enquanto, ao mesmo tempo, ajudam os pais a protegê-las online. A empresa divulgou ainda que “novas funcionalidades” no controlo parental estão a ser preparadas para melhorar as ferramentas já existentes nos sistemas da Apple.

Os dois grupos pediram à Apple para criar ferramentas que ajudem as crianças a evitar a adição e garantir mais opções aos pais, para que consigam proteger a saúde dos seus filhos através do controlo do tempo passado à frente de um ecrã de telemóvel. Ainda que o atual sistema iOS já inclua algumas medidas de controlo parental, os investidores pedem mais: a possibilidade de personalizar a idade do utilizador do iPhone, a implementação de um limite de tempo em que o ecrã pode funcionar, horas do dia em que o telemóvel pode ser usado e bloqueio de algumas redes sociais.

A carta aberta cita estudos e investigações que atribuem ao uso exagerado de telemóveis vários efeitos negativos no desenvolvimento de uma criança. Desde os mais comuns, como falta de atenção na sala de aula e problemas de concentração, até questões mais graves como riscos mais altos de suicídio e depressão. Os dois grupos de investidores propõem ainda a criação de um comité de especialistas em desenvolvimento infantil que todos os anos produza um relatório para a Apple.

*Atualizado às 17h00 com resposta da Apple

 

 

Psicóloga explica por que razão acreditar no Pai Natal faz bem às crianças

Dezembro 19, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 14 de dezembro de 2017.

Com a chegada no Natal muitos são os pais que se questionam se devem ou não contar a verdade sobre o Pai Natal aos filhos. Especialista acredita que é melhor não o fazer

época festiva é um momento de grande alegria especialmente para os mais novos que esperam ansiosamente pelo aparecimento do homem de barba branca que entra pela chaminé. vestido de vermelho e com um saco de presentes as ombro. Mas esta é também a altura em que os pais se deparam com o dilema de alimentar ou não esta fantasia que envolve o Pai Natal, preocupados com o impacto que a descoberta da verdade possa ter nos filhos. Kristen Dunfield, professora assistente de Psicologia na Universidade de Concordia, considera que acreditar no velho das barbas faz bem às crianças.

Kristen Dunfield começa por dizer que “pesquisas no campo do desenvolvimento psicológico sugerem que estas crenças imaginárias não são de todo nocivas, mas são sim associadas com um vasto número de resultados positivos no desenvolvimento ao exercitarem habilidades de raciocínio contrafactual necessárias para a inovação humana impulsionar o desenvolvimento emocional”.

Como cientista do desenvolvimento, Kristen falou com o Global News para esclarecer as dúvidas que pairam na cabeça dos pais e para dar dicas de como e quando contar a verdade aos mais pequenos. Kristen tranquiliza os progenitores ao esclarecer que “não depende tudo de vocês! Na verdade, a melhor abordagem consiste em apoiar as crianças enquanto elas descobrem tudo por conta própria. Mais cedo ou mais tarde, elas vão perceber e não vai ser tão mau como os pais pensam.”

Segundo a especialista, as crianças deixam de acreditar no mito do Pai Natal por volta dos oito anos de idade e, apesar de muitos pais temerem este momento, ela acredita que é um evento crucial do crescimento de uma criança. “Eu vejo o desenvolvimento da crença na realidade física do Pai Natal, e o eventual abandono do mito, como uma conquista impressionante que merece ser celebrada e não temida!”.

À medida que crescem, as crianças começam a perceber que o mito do Pai Natal envolve tarefas fisicamente impossíveis como voar num trenó com a ajuda de renas, percorrer o mundo inteiro numa só noite e saber exatamente quem são as crianças que se portaram bem ao longo do ano. É nesta altura do desenvolvimento que os mais novos começam a inundar os pais com perguntas. Kristen aconselha os pais a “ver estas perguntas por aquilo que são – desenvolvimento cognitivo em ação”.

Os pais que pretendam acabar com a mentira podem apresentar provas e explicações diretas aos filhos para que eles passem para a fase de perceção e desconstrução do mito. Quem não quiser destruir a crença tem várias hipóteses, segundo Kristen. Pode virar as perguntas para a criança e permitir que ela própria apresente explicações ou, no caso de querer mesmo manter a mentira, pode recorrer à plataforma Norad, que segue o percurso do Pai Natal na véspera da Consoada e vai certamente ajudá-lo a lidar com a curiosidade do seu filho.

Depois de decidirem se devem ou não contar a verdade, os pais deparam-se com outra questão: como é que a criança vai reagir ao descobrir que os próprios pais lhe mentiram? Pode isso afetar a confiança que os pequenos depositam nos mais velhos? Um estudo da Universidade do Texas revela que não. Foram analisadas as reações de 52 crianças que já não acreditavam no Pai Natal e estas foram “predominantemente positivas”. O mesmo não se pode dizer dos pais que se martirizaram mais com a transição do que as próprias crianças.

Kristen acrescenta que não há razões para os pais se preocuparem tanto com esta descoberta: “quando comparada com toda a informação confiável que os pais partilham com os filhos ao longo da vida, é altamente improvável que uma única mentira provoque danos irreparáveis”. É também nesta altura que as crianças começam a entender que algumas mentiras, como a do Pai Natal, são ditas com boas intenções.

 

 

James Heckman e a importância da educação infantil

Outubro 24, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://veja.abril.com.br/revista-veja/ a James Heckman no dia 22 de setembro de 2017.

O Nobel de Economia, que falará em São Paulo nesta segunda 25, diz que investir nos anos iniciais das crianças é o caminho para o país crescer

Por Monica Weinberg

O americano James Heckman, 73 anos, é reverenciado tanto em sua área de origem, a economia — que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 2000 —, como na educação, que ele investiga com a curiosidade de quem ama calcular. Heck­man criou métodos científicos para avaliar a eficácia de programas sociais e vem se dedicando aos estudos sobre a primeira infância — para ele, um divisor de águas. É sobre esse assunto que falará, na segun­da-feira 25, no encontro Os desafios da primeira infância — Por que investir em crianças de zero a 6 anos vai mudar o Brasil, organizado pelas revistas Exame e VEJA e apoiado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, pela Funda­ción Femsa e pela United Way Brasil. Professor na Universidade de Chicago, Heckman veio uma dezena de vezes ao Brasil. Estava no Rio quando recebeu o telefonema de sua vida. “Disseram-me que seria premiado com o Nobel, e eu achei que era trote”, revela ele, que fala com rara propriedade sobre o país.

Por que os estímulos nos primeiros anos de vida são tão decisivos para o sucesso na idade adulta? É uma fase em que o cérebro se desenvolve em velocidade frenética e tem um enorme poder de absorção, como uma esponja maleável. As primeiras impressões e experiências na vida preparam o terreno sobre o qual o conhecimento e as emoções vão se desenvolver mais tarde. Se essa base for frágil, as chances de sucesso cairão; se ela for sólida, vão disparar na mesma proporção. Por isso, defendo estímulos desde muito cedo.

Quão cedo? Pode parecer exagero, mas a ciência já reuniu evidências para sustentar que essa conta começa no negativo, ou seja, com o bebê ainda na barriga. A probabilidade de ele vir a ter uma vida saudável se multiplica quando a mãe é disciplinada no período pré-natal. Até os 5, 6 anos, a criança aprende em ritmo espantoso, e isso será valioso para toda a vida. Infelizmente, é uma fase que costuma ser negligenciada — famílias pobres não recebem orientação básica sobre como enfrentar o desafio de criar um bebê, faltam boas creches e pré-escolas e, sobretudo, o empurrão certo na hora certa.

Qual é o preço dessa negligência? Altíssimo. Países que não investem na primeira infância apresentam índices de criminalidade mais elevados, maiores taxas de gravidez na adolescência e de evasão no ensino médio e níveis menores de produtividade no mercado de trabalho, o que é fatal. Como economista, faço contas o tempo inteiro. Uma delas é especialmente impressionante: cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer — melhor, mais eficiente e seguro do que apostar no mercado de ações americano.

Se isso é tão claro, por que a primeira infância não está na ordem do dia de quem tem a caneta na mão para decidir? Há ainda uma substancial ignorância sobre o tema. Algumas décadas atrás, a própria ciência patinava no assunto. A ideia que predominava, e até hoje pesa, é que a família deve se encarregar sozinha dos primeiros anos de vida dos filhos. A ênfase das políticas públicas é na fase que vem depois, no ensino fundamental. E assim se perde a chance de preparar a criança para essa nova etapa, justamente quando seu cérebro é mais moldável à novidade.

A classe política também evita olhar para a primeira infância por achar que esse é um investimento menos visível a curto prazo? Os políticos podem, sim, considerar isso, mas estão redondamente enganados. Crianças pequenas respondem rápido aos estímulos de qualidade. Para quem tem o poder de decidir, deixo aqui a provocação: não investir com inteligência nesses primeiros anos de vida é uma decisão bem pouco inteligente do ponto de vista do orçamento público. Basta usar a matemática.

O que mostra a matemática? Vamos pegar o exemplo da segurança pública. Há ao menos dois caminhos para mantê-la em bom patamar. Um deles é contratar policiais, que devem zelar pelo cumprimento da lei. O outro é investir bem cedo nas crianças, para que adquiram habilidades, como um bom poder de julgamento e autocontrole, que as ajudarão a integrar-se à sociedade longe da violência. Pois a opção pela primeira infância custa até um décimo do preço. Recaímos na velha questão: prevenir ou remediar? Como se vê, é muito melhor prevenir.

O senhor pode soar fatalista: ou bem a criança é estimulada cedo ou terá perdido uma oportunidade única para o aprendizado? A discussão realmente abre uma margem para essa interpretação, mas não é bem isso. A mensagem jamais pode ser: depois dos 5 anos, já era. Desde que a criança esteja vivendo em sociedade, ela vai aprender. Existe na espécie humana uma extraordinária capacidade de se beneficiar do ambiente. Só não podemos deixar de encarar o fato de que uma criança que tenha sido alvo de elevados incentivos conquistará uma vantagem para o resto da vida. De outro lado, quanto mais uma criança fica para trás, mais dificuldade ela terá para preencher as lacunas do princípio.

O senhor discorda então de uma ala de cientistas que vê as chamadas janelas de oportunidade para o aprendizado como algo mais definitivo? Acho que há exagero nesse campo: é como se tivéssemos no cérebro janelas que se abrem por inteiro numa fase e se fecham por completo em outra. Dito isso, há, sim, momentos mais favoráveis para a aquisição de certos conhecimentos: se quiser falar um idioma sem sotaque, é mais apropriado começar aos 8 do que aos 16 anos.

A propósito dos 8 anos, o economista Adam Smith (1723-1790) dizia que as crianças eram todas essencialmente iguais até essa idade. O senhor concorda? Não. Smith tinha uma visão idealista segundo a qual todos seríamos iguais por natureza até esse ponto da vida e, só aí, começaríamos a nos diferenciar uns dos outros. Mas a ciência já deixou claro que há capacidades inatas que nos distinguem, como a noção espacial ou a habilidade numérica ou ainda o talento para piano, artes e xadrez. Reconhecê-las e incentivá-las cedo torna-­se uma vantagem.

Que tipo de política pública de primeira infância tem surtido mais efeito? O grande impacto positivo vem de programas que conseguem envolver famílias pobres, creches e pré-­escolas, centros de saúde e outros órgãos que, integrados, canalizam incentivos à criança — não só materiais, evidentemente. O programa americano Perry, da década de 60, é um exemplo clássico de que o investimento em uma boa pré-escola produz ótimos resultados.

Por que esse modelo é bom? Ele envolve ativamente os alunos em projetos de sala de aula, lapidando habilidades sociais e cognitivas, sob a liderança de professores altamente qualificados. A família mantém um estreito elo com a escola. Temos de ter sempre certeza de que a família está a bordo, qualquer que seja a iniciativa.

Não é irrealista esperar tanto de famílias que vivem na pobreza, como no Brasil? Um bom programa de primeira infância consegue ajudar a família inteira, fazendo chegar até ela informações, boas práticas e valores essenciais, como a importância do estudo para a superação da pobreza.

Pesquisas brasileiras mostram que muitas crianças que frequentam creches e pré-escolas acabam se saindo pior nos primeiros anos de estudo do que outras que ficam em casa. O resultado o espanta? Não. Já vi estudos que chegaram a conclusão idêntica nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa. Trata-se de uma questão sem resposta absoluta: tudo depende do tipo de incentivo que a criança tem em casa e daquele que receberá na creche. Não é que a escola faça mal, mas é preciso indagar: onde a criança tem mais a ganhar ou menos a perder?

O que o Brasil pode aprender com a experiência internacional? Os programas de maior retorno são justamente aqueles que se apoiam em uma rede e, através dela, levam às famílias toda sorte de incentivos, de diferentes áreas que convergem. Aliás, o Brasil tem uma vantagem aí: o sistema público de saúde alcança todos os cantos e pode funcionar como ponto de partida para essa rede de estímulos. O país também deveria prestar atenção na qualidade dos professores: países como a Finlândia souberam valorizar a carreira docente — não apenas no salário, que fique claro — e colheram grandes resultados na educação desde cedo.

Existe um debate no Brasil sobre a extensão da licença paternidade — a lei brasileira garante hoje apenas cinco dias ao pai. O senhor é a favor? O princípio de o pai ter a chance de estreitar laços com o filho desde o começo é bem-vindo. Os benefícios vão depender, porém, de como esse tempo será efetivamente aproveitado.

O senhor é um dos precursores de uma discussão que agora está em alta nas rodas educacionais: o desenvolvimento de habilidades so­cioemo­cio­nais. É possível mesmo ensiná-las? Sim, na escola e em casa. O grande erro nesse debate é tratar tais habilidades — autocontrole, resiliência, trabalho em equipe — como algo que não tem nada a ver com as habilidades cognitivas, o aprendizado das matérias propriamente ditas. Não existe essa fronteira. O bom professor está sempre ensinando as duas: ao aprender a ler e a soletrar as palavras, a criança interage com amigos, forma vínculos, lida com emoções ligadas ao sucesso e ao fracasso — enfim, aprende a se comunicar de forma ampla.

Por que tantos educadores torcem o nariz quando se fala em habilidades socioemocionais? Eles ainda estão aferrados à ideia obsoleta de que inteligência se resume a QI, um conceito de cinquenta anos atrás que não evoluiu com o mundo.

Ler para a criança desde cedo está no rol dos grandes incentivos de efeito comprovado pela ciência. Por que isso é tão poderoso? Porque estimula ao mesmo tempo o gosto pela leitura, a capacidade de comunicação e a curiosidade para adquirir conhecimento. Se nada der errado, isso se desdobrará por toda a vida.

O incentivo dos pais pode virar exagero? Observo em famílias de classes mais altas uma tendência à proteção exagerada dos filhos. Considero isso um erro. Todo mundo deve experimentar não só as vitórias como também os fracassos. São eles, afinal, uma fonte essencial para o aprendizado.

Publicado em VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549

 

 

Sabe o que um ovo por dia pode fazer aos bebés?

Julho 12, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do site http://tpa.sapo.ao/ de 8 de junho de 2017.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Eggs in Early Complementary Feeding and Child Growth: A Randomized Controlled Trial

Em primeiro lugar, sim, as crianças podem comer um ovo por dia.

Passados anos a apontar o dedo ao impacto nocivo que o consumo de ovos pode ter na saúde, um recente estudo publicado na revista Pediatrics não só sugere que os bebés passem a comer um ovo por dia, como garante que tal pode ajudá-los a evitar qualquer tipo de atrofia associada ao crescimento.

Conta o site da BBC que independentemente da forma como é confeccionado – embora seja mais do que sabido que o ovo estrelado é de evitar pela quantidade de gordura -, o consumo diário de um ovo parece ser suficiente para equilibrar o porte nutricional das crianças e, com isso, ajudá-las a crescer de uma forma saudável..

Para o estudo, os investigadores de quatro universidades norte-americanas deslocaram-se até ao Equador e deram ovos a metade dos 160 bebés entre os seis e os nove meses que participaram no teste. Este teste durou seis meses e, ao longo desse período, os cientistas visitaram uma vez por semana cada uma das 160 crianças, não só para perceber se existiam ou não melhorias, mas também para despistar qualquer possível alergia a ovos.

À medida que iam cruzando os dados obtidos dos bebés que comeram um ovo por dia com aqueles que diziam respeito às crianças que não tinham este alimento na dieta (ou que tinham numa quantidade relativamente menor), a equipa liderada por Lora Iannotti repara que o risco de atrofia era 47% menor entre os bebés que consumiram um ovo por dia.

Além disso, o consumo diário de ovo foi ainda associado a uma menor ingestão alimentos adoçados com açúcar, o que leva os investigadores a acreditar que esta proteína de origem animal é mesmo um complemento nutricional importante para as crianças.

Fonte: lifestyle/BA

 

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