Como ajudar as crianças a serem mais resilientes? A resposta está no cérebro

Agosto 29, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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© CarlosDavid.org iStockphoto

Entrevista de Daniel J. Siegel ao Observador de 20 de julho de 2019.

Em entrevista ao Observador, Daniel J. Siegel, coautor do livro “Crianças Sim”, explica como os pais podem ajudar os filhos a serem mais recetivos, isto é, mais curiosos e imaginativos.

Em 2015, Daniel J. Siegel, coautor do livro e bestseller do The New York Times “Disciplina sem Dramas”, explicava ao Observador como acabar com as birras dos miúdos, aliando a neurociência à educação dos mais novos. Quase quatro anos depois, volta a dar-nos uma entrevista para apresentar o novo livro que, desta vez, pretende ajudar os pais a trabalhar a capacidade inata de resiliência, autonomia e criatividade das crianças.

O psiquiatra Daniel J. Siegel e a psicoterapeuta Tina Payne juntaram-se uma vez mais e assinam em conjunto a obra “Crianças Sim”, da editora Lua de Papel. No livro explicam como as crianças podem ser recetivas (“cérebro sim”) ou reativas (“cérebro não”) a determinadas situações: “Sempre que há um conflito potencial — desligar o telemóvel, fazer os trabalhos de casa, comer os ‘verdes’, ir para a cama — muitas crianças tendem a fechar-se ou a responder negativamente. É uma canseira, para pais e filhos. E é também aquilo a que Daniel J. Siegel e Tia Payne Bryson chamam uma resposta de ‘cérebro não’”, lê-se na contracapa.

Se até aos três anos é de esperar atitudes reativas por parte das crianças, a verdade é que os autores defendem que ainda antes desta idade os pais podem começar a ensinar os filhos a ter uma postura mais aberta e curiosa. Defendem eles que quando as crianças trabalham o “cérebro sim”, estão mais abertas a arriscar e a explorar, são mais curiosas e imaginativas. Ao Observador, Daniel J. Siegel diz mesmo:

“Não conseguimos exercer a parentalidade com eficiência se o fizermos a partir do estado reativo. Este livro, “Crianças Sim”, ensina os pais a diferença entre um “cérebro não” e um “cérebro sim”.

Este livro é um complemento ao anterior, “Disciplina sem dramas”? O que é que traz de novo?
O livro “Disciplina Sem Dramas” tem por base a ideia de que as pessoas pensam que disciplina é castigo, mas no livro tentamos explicar que disciplina significa ensinar e não castigar — em causa estão discípulos ou estudantes, não prisioneiros. O livro “Crianças Sim” olha para o facto de o nosso cérebro ter dois estados: o estado reativo e o estado recetivo. No primeiro, partes do cérebro que são muito velhas e que estão relacionadas com a nossa sobrevivência são ativadas e deixam-nos prontos para lutar, fugir, congelar ou desmaiar — estas quatro fases são formas de nos adaptarmos à sobrevivência. Podemos criar isto em alguém quando essa pessoa ouve continuamente “não, não, não” de uma forma áspera. Isto cria o estado reativo. O que acontece com o estado recetivo é o contrário: quando dizemos a palavra “sim” com muita calma estamos, basicamente, levar a pessoa do estado reativo para o recetivo, em que há conexão, saber receber e aceitar… É tendo em conta este estado que devemos exercer a parentalidade. Não conseguimos exercer a parentalidade com eficiência se o fizermos a partir do estado reativo. Este livro, “Crianças Sim”, ensina os pais a diferença entre um “cérebro não” e um “cérebro sim”.

O que é um “cérebro sim” e o que é um “cérebro não”? Pode dar exemplos concretos?
Um “cérebro não” será, por exemplo, quando a criança está no parque infantil e não quer ir embora, pelo que grita e foge de nós… Isso será um estado reativo. O “cérebro sim”… imaginamos que nos sentamos com o nosso filho no parque e dizemos, ao seu nível e a olhá-lo nos olhos, “Brincar é tão divertido, é normal que não te queiras ir embora, eu também quero ficar aqui” — nesta fase ele olha para nós porque estamos a compreendê-lo e a conectar com ele. Continuamos: “Podemos ligar ao teu tio e dizer que, apesar de ele ter bilhetes para aquele filme que queremos muito ir ver, vamos ficar a brincar e ele que dê os bilhetes a outra pessoa”. Ao dizer isto estamos a explicar à criança que ela tem uma escolha — a maior parte das crianças escolheria o cinema. Esta é uma forma de comunicar com as crianças, em vez de gritar com elas ou tirá-las à força do parque.

“Agir de acordo com um ‘cérebro sim’ não é dizer sempre que sim aos seus filhos. Não se trata de ser permissivo, de desistir, de os proteger das desilusões ou de os resgatar de situações difíceis. E também não se trata de educar uma criança submissa, que obedece automaticamente aos pais sem pensar por si própria. Pelo contrário, trata-se de ajudar as crianças a perceberem quem são, quem podem vir a ser, fazendo com que sejam capazes de ultrapassar as desilusões e os fracassos e escolher uma vida plena de relacionamentos e de significado.” Pág. 19

Porque é que é tão importante que os pais estejam a par do desenvolvimento do cérebro infantil? De que maneira é que esse conhecimento pode impactar a educação das crianças?
É importante porque, em última análise, a interação que os pais têm com as crianças cria alterações na estrutura dos seus cérebros. Quando os pais sabem disto conseguem agir no sentido de contribuir para que o cérebro da criança se desenvolva num sentido produtivo.

As crianças podem ser todas divididas em “cérebro sim” e “cérebro não”?
Isto não é sobre uma criança ser melhor do que a outra, tem que ver com determinados momentos de interação. O cérebro tem um modo recetivo e reativo. Se pensarmos nisso… imaginemos que estamos a andar na praia, que tudo é bonito e, de repente, somos assaltados — vamos de um estado recetivo, em que estamos tão contentes, para o reativo, em que vamos congelar, ou lutar ou fugir… Basicamente temos estes dois estados, é extraordinário.

“As crianças que enfrentam o mundo com um ‘cérebro não’ ficam dependentes da sua sorte e dos seus sentimentos. Ficam presas às suas emoções, incapazes de as alterar, queixando-se da sua realidade em vez de encontrar formas saudáveis de lidar com ela. Ficam preocupadas, muitas vezes de forma obsessiva, por enfrentarem algo novo ou cometerem um erro, em vez de tomarem decisões com a abertura de espírito e curiosidade de um ‘cérebro sim’. A teimosia comanda o quotidiano de um ‘cérebro não’.” Página 17

O que está a dizer é que somos “cérebro sim” e “cérebro não” muitas vezes durante o dia, e que o livro sugere ferramentas para que as crianças sejam mais vezes “cérebro sim” ao invés de “cérebro não”?
Isso mesmo. O livro também oferece ferramentas para que as crianças consigam fazer essa transição entre estados. Enquanto pais não conseguimos exercer a parentalidade com um “cérebro não”. A ideia é aprender sobre estes dois estados que a maior parte das pessoas desconhece. Assim que aprendemos sobre eles ficamos numa posição de fazer alguma coisa.

O cérebro é realmente mais plástico na infância? É mesmo possível programar o cérebro?
Sim, é mais plástico na infância. A criança é mais aberta a aprender e também é mais dependente dos adultos. Nós não usamos a palavra “programar” porque em inglês vai mais no sentido de “controlo da mente”… Nós chamamos a isso aprender. Culturalmente, “programar” é como programar um robô. Olhamos para isto como uma ferramenta de aprendizagem.

Mas até que ponto não estamos a condicionar a personalidade da criança?
Nós somos capazes de melhorar a personalidade das crianças. A personalidade é uma combinação de temperamentos e de experiências.

No livro escreve que “um ‘cérebro não’ aparentemente omnipresente é típico e normal no desenvolvimento de uma criança de três anos”. Como assim?
É verdade. Vemos mais isso numa criança de três anos, que tem uma tendência para ser reativa. Não é uma coisa patológica, é mais uma questão de desenvolvimento. Durante estes primeiros anos eles estão a aprender a regular o cérebro.

Então, deveríamos ser mais compreensivos com as crianças até esta idade?
Exatamente. Não é preciso pensar nisso enquanto uma patologia, podemos antes encarar como uma oportunidade ao nível da parentalidade.

Um “cérebro sim” implica capacidade de alcançar estabilidade emocional e controlar o corpo e a mente. Isto não será pedir demais às crianças?
Não, estamos a falar de ferramentas que as ajudam. Não estamos à espera que as coisas aconteçam da noite para o dia, mas ao longo dos anos podemos ajudar as crianças a desenvolver estas competências.

“Há uma razão para o equilíbrio ser o primeiro dos quatro fundamentos de um ‘cérebro sim’. De uma forma muito real, os outros três fundamentos — resiliência, discernimento e empatia — dependem todos da capacidade que a criança tem de apresentar algum equilíbrio emocional e controlo.” Pág. 39

Como se fosse uma semente?
Isso, como uma semente que cresce. Bonita analogia.

As crianças parecem brincar cada vez menos. Isso pode refletir-se negativamente no cérebro, dado que a brincadeira permite adquirir conhecimentos a vários níveis?
Brincar é essencial para um conjunto de coisas. É essencial para o desenvolvimento dos pensamentos, para o desenvolvimento emocional e também para o desenvolvimento social. A diminuição das brincadeiras não é bom a todos os níveis, incluindo o desenvolvimento físico. Sentar as crianças à frente de ecrãs e deixá-las fazer coisas sozinhas num ecrã não é brincar. Competir numa equipa também não é o que nós queremos dizer com brincar. Brincar é uma interação espontânea e autêntica, livre de julgamentos.

Mas como é que isto afeta o desenvolvimento do cérebro dos mais novos?
Há muitos estudos que mostram que se não brincarmos podemos ter menos competências emocionais e sociais, bem como criativas.

Isso são coisas importantes que necessitamos também na nossa vida adulta…
Isso mesmo. Acho que infelizmente os ecrãs ocupam muito do nosso tempo com jogos, redes sociais, vídeos… Isso aumenta o nosso sentimento de inadequação.

Quais as principais dificuldades que um adulto com um “cérebro não” enfrenta na vida?
São pessoas que estão constantemente a entrar em lutas, estão constantemente a atacar as pessoas, criam medo nos outros. Se são pais, criam dor nos filhos…Se estão numa equipa, criam terror na equipa… Se são presidentes de um país, criam uma sensação incrível de medo.

Refere-se ao atual presidente dos Estados Unidos da América?
Não vou comentar sobre isso, mas pode deduzir o que quiser dessa afirmação. Mas isto dá para explicar muito da polarização que existe no mundo e dá para perceber que políticos estão a fazer o seu trabalho numa perspetiva de “cérebro não” e os que estão a fazê-lo com base num “cérebro sim”. Se conseguirmos perceber o ponto de vista de um “cérebro não”, conseguimos perceber o que se passa no mundo.

E se o seu filho lhe bater ou disparar um dardo para o olho da irmã?

Outubro 20, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Público de 2 de outubro de 2015.

público

Catarina Gomes

Na maior parte das vezes disciplina-se os filhos “em piloto automático”. Mas com castigos e ameaças muitas vezes apenas se está a “espicaçar o lagarto”, dizem os autores de Disciplina Sem Dramas, que explicam como a neurociência tem tudo a ver com birras.

O nosso filho de nove anos atinge o olho da irmã de cinco anos com um dardo disparado por uma arma de brincar à queima-roupa. Uma taça de cereais é atirada ao ar, salpicando a parede toda da cozinha. Um filho de quatro anos bate na mãe com a mão, a seguir pontapeia-lhe a canela. Depois de uma compra contrariada, o seu filho atira-se para o chão do supermercado a gritar.

Reacções típicas de pais a cenas deste teor ou parecido: “Pára já com isso!, “Acalma-te imediatamente”, “Foste mal criado”. Há também o “vai para o quarto pensar”, “ficas uma semana sem consola”, “vais para a cama mais cedo” ou até “um par de palmadas”. Às vezes a cena é rematada com “o eterno ‘porque eu mando’”. Em resumo, descrevem os autores, ameaças e castigos.

Cenas deste tipo terminam muitas vezes também com adultos a berrar. Um drama, portanto. Um cocktail destas reacções automáticas é o que muitos pais entendem como “disciplina”, quando a origem da palavra nada tem a ver com castigar mas sim com “ensinar, aprender, dar instrução”, dizem os autores do livro Disciplina sem Dramas (editado pela Lua de Papel), que esta semana chegou às livrarias.

Reconhece-se nalguma das reacções típicas destes pais? O que os autores nos dizem é que se os seus filhos fazem birras ou têm este tipo de “mau comportamento” não porque são inerentemente “maus”, ou “mal-educados”, ou porque quem os educa são pais incompetentes, mas porque lhes é muito difícil agir de forma diferente, por razões biológicas. O que Daniel J. Siegel, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, e Tina Payne Bryson, psicoterapeuta de crianças e adolescentes, pretendem explicar no seu livro é que neurociência têm muito a ver com a educação dos filhos.

Vejamos: Uma criança arremessa um brinquedo e atinge outra criança, o pai responde “em que é que estavas a pensar quando fizeste isso?”. Temos uma ideia de como pensaria um adulto equilibrado: saberia, à partida, que não se atiram objectos quando se está frustrado com alguém porque o acto não resolve o problema e até pode agravá-lo, pode até acabar por estragar o seu próprio brinquedo e ainda pode magoar gravemente a outra pessoa, fazendo com que ela tenha de ser hospitalizada em estado grave com um hematoma ou uma fractura, não falando em perigos de sequelas a longo prazo.

O exemplo não está no livro, mas a ideia é que o que passa pela cabeça de uma criança quando atira um brinquedo porque está frustrada não tem nada a ver com o raciocínio de um adulto. Melhor dizendo, tem pouco de raciocínio, porque a parte do cérebro humano onde estão “as competências de pensamento que permitem ao ser humano tomar decisões acertadas” não está desenvolvida, lê-se.

“Tudo isto significa que, embora gostássemos que os nossos filhos se portassem sempre bem, como se fossem adultos, com equilíbrio emocional e moral, a verdade é que isso lhes é impossível enquanto são muito jovens. Pelo menos não lhes é sempre possível”, escrevem os autores.

Estimular “o andar superior”

O que Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson explicam numa linguagem simples é que educação tem tudo a ver com neurociência, ou seja, com a forma como o cérebro humano funciona.

Os autores norte americanos comparam o cérebro de uma criança a uma casa em construção. Existe “a parte inferior do cérebro, constituída pelo tronco cerebral e pela região límbica” – frequentemente designadas como “cérebro reptiliano” ou “primitivo” – assim designado porque é responsável pelas “operações neurais fundamentais: as emoções fortes, instintos como a protecção dos filhos; e as funções básicas como respirar, regular os ciclos de sono e vigília e a digestão”. Este “andar inferior” é a parte responsável pela atitude de uma criança que atira um brinquedo ou morde em alguém, quando não consegue levar a sua avante. É “a fonte da nossa reactividade” e esta é uma parte do cérebro que está bem desenvolvida por altura do nascimento.

Já “a parte superior do cérebro, responsável por processos mais sofisticados e complexos, encontra-se subdesenvolvida por altura do nascimento e começa a desenvolver-se durante a infância”. E é nesta parte que estão “as competências de pensamento, emocionais e relacionais, que permitem ao ser humano tomar decisões acertadas e de planeamento, regular emoções e o corpo, a introspecção, a flexibilidade e a adaptabilidade, a empatia e a moral.”

“Uma criança de quatro anos bate no pai enquanto está à espera. É desejável? Não. É própria nesta fase de desenvolvimento? Absolutamente.”. Seria melhor que “ela se acalmasse e declarasse com compostura: Mãe, estou a sentir-me frustrada por estares a pedir-me para continuar à espera; e neste momento, estou a sentir o impulso fortíssimo e agressivo de te bater – mas optei por não o fazer e, em vez disso, por manifestar-me com palavras”, ironizam.

O nosso filho de nove anos atinge o olho da irmã de cinco anos com um dardo disparado por uma arma de brincar à queima-roupa. Uma taça de cereais é atirada ao ar, salpicando a parede toda da cozinha. Um filho de quatro anos bate na mãe com a mão, a seguir pontapeia-lhe a canela. Depois de uma compra contrariada, o seu filho atira-se para o chão do supermercado a gritar.

Reacções típicas de pais a cenas deste teor ou parecido: “Pára já com isso!, “Acalma-te imediatamente”, “Foste mal criado”. Há também o “vai para o quarto pensar”, “ficas uma semana sem consola”, “vais para a cama mais cedo” ou até “um par de palmadas”. Às vezes a cena é rematada com “o eterno ‘porque eu mando’”. Em resumo, descrevem os autores, ameaças e castigos.

Cenas deste tipo terminam muitas vezes também com adultos a berrar. Um drama, portanto. Um cocktail destas reacções automáticas é o que muitos pais entendem como “disciplina”, quando a origem da palavra nada tem a ver com castigar mas sim com “ensinar, aprender, dar instrução”, dizem os autores do livro Disciplina sem Dramas (editado pela Lua de Papel), que esta semana chegou às livrarias.

Reconhece-se nalguma das reacções típicas destes pais? O que os autores nos dizem é que se os seus filhos fazem birras ou têm este tipo de “mau comportamento” não porque são inerentemente “maus”, ou “mal-educados”, ou porque quem os educa são pais incompetentes, mas porque lhes é muito difícil agir de forma diferente, por razões biológicas. O que Daniel J. Siegel, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, e Tina Payne Bryson, psicoterapeuta de crianças e adolescentes, pretendem explicar no seu livro é que neurociência têm muito a ver com a educação dos filhos.

Vejamos: Uma criança arremessa um brinquedo e atinge outra criança, o pai responde “em que é que estavas a pensar quando fizeste isso?”. Temos uma ideia de como pensaria um adulto equilibrado: saberia, à partida, que não se atiram objectos quando se está frustrado com alguém porque o acto não resolve o problema e até pode agravá-lo, pode até acabar por estragar o seu próprio brinquedo e ainda pode magoar gravemente a outra pessoa, fazendo com que ela tenha de ser hospitalizada em estado grave com um hematoma ou uma fractura, não falando em perigos de sequelas a longo prazo.

O exemplo não está no livro, mas a ideia é que o que passa pela cabeça de uma criança quando atira um brinquedo porque está frustrada não tem nada a ver com o raciocínio de um adulto. Melhor dizendo, tem pouco de raciocínio, porque a parte do cérebro humano onde estão “as competências de pensamento que permitem ao ser humano tomar decisões acertadas” não está desenvolvida, lê-se.

“Tudo isto significa que, embora gostássemos que os nossos filhos se portassem sempre bem, como se fossem adultos, com equilíbrio emocional e moral, a verdade é que isso lhes é impossível enquanto são muito jovens. Pelo menos não lhes é sempre possível”, escrevem os autores.

Estimular “o andar superior”

O que Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson explicam numa linguagem simples é que educação tem tudo a ver com neurociência, ou seja, com a forma como o cérebro humano funciona.

Os autores norte americanos comparam o cérebro de uma criança a uma casa em construção. Existe “a parte inferior do cérebro, constituída pelo tronco cerebral e pela região límbica” – frequentemente designadas como “cérebro reptiliano” ou “primitivo” – assim designado porque é responsável pelas “operações neurais fundamentais: as emoções fortes, instintos como a protecção dos filhos; e as funções básicas como respirar, regular os ciclos de sono e vigília e a digestão”. Este “andar inferior” é a parte responsável pela atitude de uma criança que atira um brinquedo ou morde em alguém, quando não consegue levar a sua avante. É “a fonte da nossa reactividade” e esta é uma parte do cérebro que está bem desenvolvida por altura do nascimento.

Já “a parte superior do cérebro, responsável por processos mais sofisticados e complexos, encontra-se subdesenvolvida por altura do nascimento e começa a desenvolver-se durante a infância”. E é nesta parte que estão “as competências de pensamento, emocionais e relacionais, que permitem ao ser humano tomar decisões acertadas e de planeamento, regular emoções e o corpo, a introspecção, a flexibilidade e a adaptabilidade, a empatia e a moral.”

“Uma criança de quatro anos bate no pai enquanto está à espera. É desejável? Não. É própria nesta fase de desenvolvimento? Absolutamente.”. Seria melhor que “ela se acalmasse e declarasse com compostura: Mãe, estou a sentir-me frustrada por estares a pedir-me para continuar à espera; e neste momento, estou a sentir o impulso fortíssimo e agressivo de te bater – mas optei por não o fazer e, em vez disso, por manifestar-me com palavras”, ironizam.

Quando é que o processo termina? “Lamentamos informar que a parte superior do cérebro só fica totalmente desenvolvida por volta dos 25 anos”.

Okay, então as crianças ainda não são muito boas a fazer escolhas acertadas. Solução? Aceitar passivamente que o seu filho se atire para o chão? Que chame nomes e arremesse brinquedos?

Não, respondem o psiquiatra e a psicoterapeuta. A ideia é mudar de estratégia porque a tradicional, aquela que é familiar e automática para a maioria dos pais, é contraproducente.

“Se perante uma birra monstruosa no supermercado se inclina sobre a criança, de dedo em riste e lhe diz, entre dentes cerrados, ‘acalma-te imediatamente’, está ‘a espicaçar o lagarto’, desencadeando uma reacção na parte inferior do cérebro.” Isto porque a criança assimila na linguagem corporal e nas palavras da mãe uma ameaça que acciona, em termos biológicos, “o circuito neural que lhe permite sobreviver a uma ameaça”. A saber: entra em modo de luta ou de fuga.

O psiquiatra e a psicoterapeuta explicam que não podemos estar, ao mesmo tempo, num estado reactivo e receptivo, e que se a mãe quer apelar à parte do cérebro superior talvez esta não seja a atitude mais correcta. Mais ainda, “os castigos e os sermões são ineficazes quando a criança está perturbada e incapaz de ouvir os ensinamentos que lhes estiver a transmitir.”

A boa notícia é que se é verdade que o cérebro da criança está em construção e o do adolescente em “auto-reformulação”, os pais podem ajudá-los a estimular cada vez mais “a competência interna de acalmar a tormenta e reflectir sobre o que está a passar-se no interior”.

Estratégia possível perante a birra: Descer ao nível dos olhos das crianças, “tentar fazer ligação com ela”, perguntando-lhe algo como “porque é estás assim?”

Mas, atenção, dizem os autores, “fazer ligação não é o mesmo que permissividade. É tentar que ela consiga ficar de novo receptiva a ouvi-lo. E, no processo, fazer com que a criança se sinta compreendida nas suas emoções.” E, durante o processo, pode acabar por perceber o porquê do seu comportamento: “Eu sei que é difícil esperar. Queres muito que vá brincar contigo e estás zangado porque eu estou no computador. Não é verdade?”. “Sim”. É um dos diálogos do livro.

Isso é tudo muito bonito mas…

O facto de o cérebro estar em mudança não é motivo para ignorar os maus comportamentos, é aliás mais uma razão para que os pais imponham limites definidos, defendem. “Porque não têm barreiras internas precisamos de as impor externamente. As crianças precisam de ajuda a compreender o que é permissível e o que não é.”

Depois de conseguir acalmar a tempestade, é tempo de passar a mensagem moral, de explicar o que é correcto e não correcto, o que os autores chamam de “redireccionar”. Explicar-lhe que em vez de bater há alternativas como dizer porque está zangado.

O que os autores preconizam é que estes momentos de crise são oportunidade para estimular “uma bússola moral”, para que, “mesmo quando não esteja presente um adulto, as crianças aprendam a ser ponderadas, saibam gerir as suas reacções à frustração e aprendam a capacidade de se colocarem no lugar do outro.” Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson defendem que é possível ensinar a desenvolver a empatia, introspecção e da compaixão,  base da inteligência emocional e social.

Mas para isso, quando se disciplina, os pais têm de trabalhar para compreender os pontos de vista dos filhos, o seu estádio de desenvolvimento e aquilo que eles são capazes de fazer. Muitos dos castigos são injustos porque se baseiam em expectativas irrealistas sobre a forma como os filhos são capazes de reagir, notam.

Isso é tudo muito bonito mas… “Eu trabalho! Tenho outros filhos! E o jantar para preparar! E aulas de piano, ballet, treinos de futebol e centenas de outras coisas para fazer”. São respostas que estes profissionais de saúde mental ouviram muitas vezes. Dizem-lhes que o seu método é “um luxo” para pessoas com tempo.

“Percebemos tudo isso, pois ambos trabalhamos, os nossos cônjuges trabalham e somos ambos pais empenhados”. Nem sempre se consegue, admitem, e até “um perito em parentalidade perde a cabeça”, confessam.

Tina Payne Bryson, mãe de três filhos e directora de relações parentais no Mindsight Institute, conta aquela vez em que o filho de três anos lhe bateu e ela respondeu como deve ser, de forma afectuosa e compreensiva, “as mãos são para ajudar e amar, não para magoar”. “Ele bateu-me outra vez”. De uma forma talvez um pouco terna disse “Au! Isso magoa a mamã”. À terceira agressão: “Nós não batemos. Se estás zangado precisas de utilizar as tuas palavras”. E ele bateu-lhe outra vez. Aí a especialista em desenvolvimento infantil na Saint Mark’s School mandou-o de castigo para o quarto e ele deu-lhe um pontapé na canela. “E foi então que me mostrou a língua”.

“Em resposta, a parte superior do meu cérebro, racional, empática, responsável, capaz de resolver problemas, foi sequestrada pela parte inferior do meu cérebro, primitiva e reactiva e eu gritei: “Se puseres a língua de fora mais uma vez eu vou arrancá-la da tua boca”.

“Este não foi um bom momento parental”. “O meu filho atirou-se para o chão a chorar. Eu tinha-o assustado e ele só dizia “És uma mamã má!”. Pausa.

“Ajoelhei-me, segurei-o perto de mim e disse que estava arrependida. Deixei-o falar sobre o quanto ele não tinha gostado do que se tinha acabado de passar. Voltámos a contar a história do que se passou para ele tirar sentido da situação e reconfortei-o”. “Acontece à maior parte de nós”. Para disciplinar “sem dramas” é preciso treinar.

Alguns conselhos para evitar “erros de disciplina que até os melhores pais cometem”

Não disciplinar “em piloto automático”

Quando se disciplina “em piloto automático” concentramo-nos tanto nos castigos que estes se tornam o objectivo final. O objectivo da disciplina não é uma consequência ou um castigo, “é ensinarmos os nossos filhos a viver bem no mundo.”

Ir aos porquê

Qualquer médico sabe que “um sintoma é apenas um sinal de que uma outra coisa precisa de ser tratada”, dizem os autores. O comportamento irá repetir-se “se não estabelecermos uma ligação com os sentimentos dos nossos filhos e com as experiências subjectivas que levaram a esse comportamento”. “Concentramo-nos demasiado no comportamento e não o suficiente no porquê por detrás do comportamento”, escrevem.

Disciplina com afecto

Estes dois aspectos da parentalidade podem e devem coexistir. “É possível combinar limites claros e consistentes com uma empatia terna.” Não subestime o poder de um tom de vez gentil, aconselham.

Falar demasiado

Muitas vezes, quando as crianças estão reactivas e têm dificuldades em ouvir, precisamos apenas de estar calados. Quando falamos e falamos estamos a dar-lhes “imensos estímulos sensoriais que podem desregulá-los ainda mais”. Em vez disso, utilizar mais a comunicação não verbal: “abrace-os, sorria”.

Não disciplinar para a audiência “A maior parte de nós preocupa-se com o que as outras pessoas pensam, especialmente no que toca à forma como educamos os nossos filhos. Chame o seu filho à parte e fale sossegadamente com ele”.

Não presumir o pior

“Não me importa. Não quero ouvir. Não há razão, nem desculpa”. “Antes de condenar uma criança pelo que parece óbvio, descubra o que ela tem para dizer. Então, pode decidir a melhor forma de responder.”

Não disciplinar em resposta a hábitos

“Por vezes atacamos o nosso filho porque estamos cansados, ou porque foi isso que os nossos pais fizeram connosco. É necessário reflectir sobre o nosso comportamento e responder apenas ao que está a ter lugar naquele instante.”

Peritos e instintos

Os autores põem na categoria de “peritos” tanto autores como eles, como amigos e familiares com opiniões sobre como devemos educar os nossos filhos. “É importante que evitemos disciplinar os nossos filhos com base no que as outras pessoas pensam”. “Encha a sua caixa de ferramentas disciplinar com informação de muitos peritos (e não peritos), depois ouça os seus próprios instintos quando for para seleccionar a melhor abordagem à sua família e ao seu filho.”

 

 


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