Vigilância e assédio à distância de uma aplicação

Fevereiro 26, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 28 de janeiro de 2019.

Há aplicações que permitem a namoradas e maridos ciumentos aceder a conteúdos e registos dos telemóveis dos parceiros. É só um exemplo do vasto fenómeno do cyberstalking.

Pedro Fonseca

Foi a 18 de Janeiro de 2003 que Peggy Klinke foi assassinada por um ex-namorado e, poucos meses depois, a sua irmã Debbie lançou o Stalking Awareness Month (mês de sensibilização para o stalking, ou perseguição). Pela 15ª vez nos EUA, Janeiro foi o mês dedicado a chamar a atenção pública para este tema.

No passado, o stalking era mais físico e envolvia vigilância presencial, assédio no espaço laboral ou o envio repetitivo de objectos, visando provocar medo na vítima. Em Portugal, a Associação de Apoio à Vítima tem uma página dedicada a explicar o fenómeno.

Em anos mais recentes, evoluiu para formas mais tecnológicas, dando origem ao chamado cyberstalking (o que inclui a análise de conteúdos e registos em telemóveis ou computadores), e também à criação de stalkerware, nome dado ao software que facilita intrusões nos dispositivos electrónicos. Há ainda a disseminação de factos e falsidades sobre uma determinada pessoa nas redes sociais ou em fóruns públicos, um fenómeno conhecido por cyberbullying.

A UNESCO disponibilizou este mês o relatório Behind the numbers: Ending school violence and bullying (“Por trás dos números: acabando com a violência e o bullying nas escolas”), onde aponta que este é um “problema crescente”. Dados de sete países europeus, entre os quais Portugal, mostram que a proporção de crianças entre os 11 e os 16 anos que usam a Internet e foram vítimas de cyberbullying aumentou de 7% em 2010 para 12% em 2014.

Os principais visados são estudantes mais velhos, bem como aqueles considerados “diferentes” (na aparência física, raça, nacionalidade, cor da pele, género sexual), e ainda pobres e migrantes.

Os estudos internacionais, segundo aquela organização das Nações Unidas, indicam que as raparigas são mais vítimas de mensagens electrónicas de texto, enquanto no envio de imagens não existem grandes diferenças de género.

Legislação recente

Portugal tem legislação que penaliza com prisão de dois a cinco anos a chamada “pornografia de vingança”, incluindo a divulgação de imagens e sons online. O diploma foi aprovado por unanimidade na Assembleia da República em Junho e entrou em vigor a 1 de Setembro. Mas os avanços neste domínio são recentes.

“Nos últimos trinta anos o stalking vem sendo conhecido pelo mundo, havendo um desconsenso [sic] quanto ao potencial criminoso das condutas compreendidas por esse fenómeno. Portugal passou a se preocupar com essa conduta há menos de uma década”, escreveu Sephora Marchesini em O stalking nos acórdãos da Relação de Portugal: a compreensão do fenómeno antes da tipificação.

No texto de 2015, publicado na revista Configurações, uma publicação dedicada à Sociologia, nota-se como “o primeiro artigo científico português é do ano de 2007 e nele se apresentou o estado da arte [do stalking] na esfera internacional”. No campo jurídico, apenas em 2010 o Tribunal da Relação de Évora “referenciou pela primeira vez em Portugal o termo stalking, como condutas que consistem na prática do crime de perturbação da paz e sossego”, seguindo-se dois anos depois o Tribunal da Relação do Porto a confirmar que esse crime tinha “características de stalking” e a introduzir “a perturbação da vida privada por telefonema como um tipo penal, com o fim de abranger as condutas conhecidas por stalking“.

No caso do cyberstalking, investigadores da Escola de Psicologia da Universidade do Minho consideravam em 2015 que este fenómeno “poderá ser um modo complementar de perseguir e intimidar no mundo real”.

Em Cyberstalking entre adolescentes: uma nova forma de assédio e perseguição? afirmavam que “o cyberstalking não é substancialmente diferente do stalking convencional”. Porém, notavam que “a omnipresença, a versatilidade e a inovação das estratégias que o cyberstalking ostenta fazem com que este fenómeno encerre um maior potencial de intrusão, exequibilidade e extensão, comparativamente ao stalking convencional”. Mas será mesmo assim?

Num estudo posterior, Vitimação por cyberstalking: prevalência, impacto e factores de risco em jovens adultos universitários, salienta-se uma característica distintiva do cyberstalking, que passa por “incitar outras pessoas a realizar stalking à sua vítima” – o chamado “stalking por procuração” (ou “stalking by proxy”).

Na dissertação de Ana Bessa Santos, apresentada em Setembro passado na Faculdade de Direito da Universidade do Porto e que envolveu um inquérito a 562 estudantes das universidades do Porto, Vila Real, Coimbra e Lisboa, apenas 66 inquiridos referiram “já ter sido vítima de cyberstalking em algum momento na sua vida”. Destes, “14,6% são do sexo feminino (57) e 5,3% correspondem ao sexo masculino (9)”.

Um outro estudo, da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Porto, nota como a maioria das vítimas “é representada por mulheres e os stalkers maioritariamente [são] pessoas do sexo oposto”. Em “O crime de stalking“, a autora, Lígia Teixeira, recorda ainda a tipologia clássica dos agressores, normalmente agrupados em “rejeitado, em busca de intimidade, inapropriado, ressentido/rancoroso e predador”.

Espiar telemóveis

Estas pessoas, também pela evolução tecnológica das últimas décadas, têm agora uma parafernália de aplicações e serviços online, conhecidos por stalkerware. Embora sendo ilegais em países como Portugal, podem ser comprados ou assinados por quem se quiser dar a esse trabalho.

Múltiplos artigos na imprensa internacional têm dado conta de como há aplicações à venda para telemóveis Android que permitem aceder a dados dos telemóveis em que sejam instalados, como a localização, registo de chamadas, as próprias conversas em tempo real, mensagens (no telemóvel ou em redes sociais) e histórico de navegação. Podem até dar acesso à câmara fotográfica ou ao microfone.

Também conhecido por spouseware (devido à palavra inglesa spouse, que significa esposo) este tipo de aplicação sofreu um revés público quando, a partir de 2017, a revista Motherboard publicou um conjunto de reportagens com dados agregados sobre clientes das empresas fornecedoras de stalkerware, permitindo detectar como “pessoas normais – advogados, professores, operários da construção, pais, amantes ciumentos” o usavam.

O assédio persistente tem ainda uma outra vertente de conjugação entre o mundo electrónico e físico, conhecida por swatting.

No início deste mês, um responsável de cibersegurança do Facebook viu a sua casa invadida por uma equipa SWAT (sigla de Special Weapons And Tactics, usada por unidades especiais inseridas nas forças de autoridade), após a polícia ter recebido um telefonema a avisar que ele teria morto a esposa, amarrado os filhos e colocado bombas perto de casa.

Preso durante algumas horas, o executivo da rede social foi vítima de uma partida usando um número de telefone cujo proprietário será difícil de identificar.

O swatting pretende assustar – embora já tenha provocado uma morte, pelo menos – e está disseminado nas comunidades dos videojogos e das criptomoedas. Muitas vezes o objectivo é uma vingança contra a vítima.

Foi o caso do analista de cibersegurança Brian Krebs, que em 2013 foi também vítima de swatting e, em simultâneo, de um ataque para impedir o acesso ao seu site KrebsOnSecurity. No telefonema para a polícia, o autor afirmou ser o próprio Krebs e disse que vários russos se tinham introduzido em sua casa e morto a sua mulher.

Segundo o FBI, os registos iniciais deste tipo de crime remontam a 2008. “As vítimas ficam assustadas e são apanhadas de surpresa”, afirmou Kevin Kolbye, agente do FBI em Dallas, considerando que os responsáveis são “bastante credíveis” nos telefonemas. Mas “é uma situação perigosa de qualquer das formas que se olhe para ela”.

 

 

1º Fórum Nacional Stalking – Prevenir e Atuar – 28 fevereiro em Braga

Fevereiro 27, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrição obrigatória, numero limitado de lugares:https://goo.gl/hi8GtT

mais informações:

Página: https://www.facebook.com/nrdc.rota.solidaria/

Evento  https://www.facebook.com/events/741807709345407/

Já está disponível para download o InfoCEDI n.º 72 sobre Segurança Infantil na Internet

Outubro 27, 2017 às 1:30 pm | Publicado em CEDI | Deixe um comentário
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Já está disponível para consulta e download o nosso InfoCEDI n.º 72. Esta é uma compilação abrangente e atualizada de dissertações, estudos, citações e endereços de sites sobre Segurança Infantil na Internet.

Todos os documentos apresentados estão disponíveis on-line. Pode aceder a esta publicação AQUI.

Baleia Azul. “Os adolescentes nunca deviam levar o telemóvel para o quarto à noite”

Maio 4, 2017 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://sol.sapo.pt/ de 3 de maio de 2017.

No seu consultório já recebeu dois jovens desesperados por terem recebido uma mensagem a pedir que se automutilassem. A esses casos, a psicóloga Bárbara Dias aconselha calma e desprezo por um jogo que é apenas isso, um jogo

Bárbara Dias está habituada a lidar com os jogos que aliciam os adolescentes a pisar o risco. “No ano passado era a ‘Maria Sangrenta’, este ano é a Baleia Azul”, refere, lembrando que o importante é dotar os adolescentes de ferramentas que lhes permitam dizer não a esse tipo de desafios. Um acompanhamento mais próximo dos pais e um acesso limitado à internet são fundamentais, defende a psicóloga.

Já recebeu dois jovens ligados ao jogo da Baleia Azul. De que forma entraram no jogo?

Nos dois casos, os miúdos já eram acompanhados por mim por episódios de ansiedade ou falta de concentração e organização na escola. Como forneço o meu Whatsapp a todos eles, estou habituada a receber desabafos do género “Já não aturo a minha irmã” ou “chateei-me com a Maria”. Desta vez, vieram perguntar-me se podiam ter consulta nesse mesmo dia, porque tinham recebido uma mensagem estranha no telemóvel.

O que dizia?

“Desenha uma baleia com a ponta de uma faca e envia uma fotografia. Se não o fizeres, sabemos onde moram os teus pais e eles morrem.”

Soube imediatamente que se tratava do jogo Baleia Azul?

Não conhecia o jogo, mas fui logo informar-me. Estes jogos são muito comuns. No ano passado era a Maria Sangrenta – jogo em que tinham que enviar uma mensagem 20 vezes “senão a tua mãe morre”. Este é o da Baleia Azul e para o ano será outro. Os miúdos têm é que estar preparados para lidar com estas situações, sejam elas quais forem.

Como é que os tranquiliza?

Tento que percebam que nada de mal vai acontecer à família, que nada daquilo é real e que não passam de brincadeiras de mau gosto. Os miúdos ficam mesmo em pânico.

E é normal essa reação?

Para o comum dos mortais, não. Mas falamos de miúdos mais sensíveis, que já têm necessidade de serem acompanhados, alguns até que se automutilam.

Existe um grupo mais vulnerável portanto.

Sim, quem está mais fragilizado acredita muito mais facilmente. Além disso, olham para este tipo de desafio como a prova de que conseguem cumprir tarefas e são capazes de ultrapassar todas as fases.

Este comportamento também é fruto de uma nova adolescência?

De facto, a adolescência atual não tem nada a ver com a de há uns anos. Os jovens passam imenso tempo sozinhos, o que lhes dá tempo para tudo e mais alguma coisa. Além disso, têm total liberdade para usar tecnologias. À noite, por exemplo, ficam até às tantas ao telefone, a jogar ou a falar com amigos. Nunca deviam levar o telemóvel para o quarto à noite.

Até que idade?

Tem mais a ver com maturidade do que com a idade. Mas um filho meu seria até aos 16 anos.

Os pais estão sensibilizados para a necessidade de um contacto mais próximo?

Faço por isso. Mas ainda a semana passada me apareceram pais a dizer que tiraram os telemóveis aos filhos para evitar que entrem no jogo. Não são essas medidas drásticas que funcionam.

O que recomenda?

Temos é de os ensinar a lidar com essas situações. Se tiverem confiança e uma boa autoestima, são capazes de ultrapassar estas questões facilmente. Da mesma forma que ensinamos os nossos filhos a sentarem-se à mesa e comer com talheres, também temos de os ensinar a navegar na net, sabendo o que é ou não seguro fazer.

 

 

 

“As pessoas são muito descuidadas nas redes sociais. Quando se apercebem, já pode ser tarde”

Junho 28, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Sabe como detetar se alguém está a fazer mau uso do que coloca no Facebook? E o que fazer se alguém o perseguir na internet? Como pode um pai prevenir a proteção de um filho? O agressor pode estar no meio de nós e nunca estamos preparados para o que aí pode vir.

Luzia Pinheiro, 30 anos, investigadora no CECS (Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade) da Universidade do Minho, estuda há muitos anos os casos de agressão (cyberbullying) e perseguição (cyberstalking) através da internet. Continua a espantar-se com a facilidade com que as pessoas se expõem, “como se estivessem num reality show”, sem terem a mínima noção dos perigos que correm. E, conforme conclui na sua tese de doutoramento, “os efeitos são graves: além de perder a reputação, pode a vítima ser estigmatizada pela sociedade, auto estigmatizar-se, entrar em depressão e suicidar-se”. Como já aconteceu. E isto é algo que atravessa qualquer geração. Falamos com ela e ficamos mais alertados.

Porque é o cyberbullying ainda um tabú social?

As pessoas têm ainda vergonha de assumir que são vítimas. Os outros acham que elas é que não souberam lidar com aquilo. Ainda é muito julgado socialmente.

A tendência é para culpabilizar a vítima?

Sim. Mas há uma questão: a vítima pode ser completamente inocente, mas também pode ter alguma culpa, por ter sido ela a expor o conteúdo usado contra ela. Se tivesse sido mais cuidadosa, aquele conteúdo não existiria. Em ultima instância, a culpa é sempre do agressor, porque foi ele quem usou indevidamente o conteúdo.

Há redes sociais mais favoráveis a esses abusos?

Todas aquelas em que temos tendência a expor-nos, em que temos a ilusão de que é só nosso, mas que, na verdade, qualquer pessoa pode aceder. Sublinharia o facebook e o youtube. No youtube, publicam-se muitos vídeos pessoais. Quem quiser praticar cyberbullying tem ali todas as ferramentas de que precisa.

Quais os sinais de que estamos a ser vítimas de perseguição?

Temos de estar alerta sobre as sucessivas tentativas de entrada no nosso email e na nossa conta de rede social. A partir daí, podem ter inclusivamente o nosso número de telefone. Recebermos mensagens privadas de desconhecidos ou chantagens através de chats ou de alguém que criou um perfil que adicionamos num jogo online, por exemplo. A pressão normalmente é psicológica. Pode só querer chatear, mas também pedir que se dispa para uma câmara web. Recebermos avisos de que fomos identificados numa fotografia, que não foi tirada por nós. Relatos de amigos que nos contam que viram coisas que não fizemos. São sinais de que alguém se está a fazer passar por nós, que está a ter acesso aos nossos dados.Colocaram o meu email num site de conteúdos para adulto. Comecei a receber pedidos de amizade de pessoas que não conhecia no messenger. Estranhei porque era um chat privado fornecido pelo email e aceitei um dos pedidos. Essa pessoa pediu-me que me mostrasse na câmara web e perante a minha indignação explicou-me o que se passava.

Esse é um caso de abuso. Pode ser considerado cyberbullying?

Pode, porque é público. O cyberbullying não precisa de ser praticado sempre pela mesma pessoa. Tem é de ser repetitivo: pode ser alguém a divulgar algo, que será republicado por outros. Ultrapassa o nível do abuso e começa a ser perseguição.

FAZER PRINT SCREEN E QUEIXA NA POLÍCIA
O que se deve fazer quando se deteta uma perseguição?

Mudar as passwords todas imediatamente. E fazer correr um anti-vírus, para o caso de haver um hacker qualquer. Depois, deve-se recolher provas, fazer print screen e guardar. Se o caso for grave, deve-se contactar a polícia e apresentar queixa. De resto, convém fazer um aviso geral aos nossos amigos e familiares, ou meter mesmo um aviso público de que estamos a ser vitimas de perseguição ou de que há alguém a fazer-se passar por nós. Nomeadamente, avisar a empresa ou o nosso patrão.

Avisar a entidade patronal, porquê?

Sim. Se alguém criar um perfil ou email para se fazer passar por nós, pode, a partir daí, aceder a dados da empresa. Imagine que alguém acede ao email do patrão e manda fotos menos corretas ou insultos em nosso nome. Nunca se sabe quem é o agressor. É melhor avisar logo, do que não precaver.

Tem conhecimento de casos desse tipo?

Nos Estados Unidos, uma mulher, à volta dos vinte e tal anos, foi de férias com o namorado. Eram daqueles que filmavam cenas íntimas e trabalhavam no mesmo sítio. Separaram-se, ele criou um perfil falso e mandou as fotos e as filmagens para o patrão, de modo a que parecesse que ela se estava a insinuar. Deu uma grande bronca.

A polícia já está apta a resolver este tipo de casos?

Sim. Tenho algum feed back da Polícia Judiciária. Diz ter pessoas especializadas em cibercrime, preparadas para localizar endereços de IP, encontrar a origem do cyberbullying e identificar os autores. Há quem comece a ser perseguido pelo telemóvel, e só depois nas contas online. A polícia pode pedir o histórico às operadoras. E todos temos um endereço de IP.

Qual a penalização que isso dá?

O cyberbullying ainda não está catalogado na lei portuguesa, só o bullying. Em Espanha já está e nos Estados Unidos dá cadeia. Cá, normalmente, é equiparado ao crime por difamação.

Mas o cyberbullying ou cyberstalking é mais do que difamação, pode ter consequências graves.

Dramáticas. Pode levar ao suicídio. Pode-se perder o emprego, os amigos. Há casos em que a própria família deixa de falar à vitima, por considerá-la culpada. O acompanhamento psicológico para estas vítimas é algo a ter em consideração. Até porque, na altura, pensa-se sempre que se é capaz de lidar bem com isso. Depois, começam a ter comportamentos de muita tristeza e isolamento, levando à depressão.

Qual é a história de Laura Barns, de que fala na sua tese de doutoramento?

Laura Barns era uma adolescente da Califórnia, a miúda mais popular da escola e tinha excelentes notas. Um dia, foi a uma festa típica de adolescentes e bebeu demais, vomitou, adormeceu no chão. Os colegas fotografaram e meteram online. De rapariga mais popular passou a ser a mais gozada. Não conseguiu lidar com isso e, três dias depois, trouxe uma arma de casa, chegou á escola e matou-se. Alguém voltou a filmar, alguns julgando até que ela estaria a brincar. A morte dela ainda está online. Mas há mais casos destes.

NUNCA CEDER Á CHANTAGEM
Teve conhecimento de algum em Portugal?

Por cá, o suicídio tem sido muito mascarado ou não foi ainda documentado. Não encontrei muitos dados sobre isso. Encontrei um que terminou bem, mas poderia ter tido consequências graves. Uma mulher marcou um encontro com um fulano com quem falava online já há algum tempo. Não correu como ela esperava e foi cada um para sua casa. Ele sentiu-se lesado, pelo dinheiro que tinha gasto no encontro. Começou a chateá-la na net. Ela protegeu bem a conta, mas ele pesquisou os amigos e familiares dela. Até que ela recebeu uma mensagem dele a dizer que sabia onde ela morava, com uma foto do local posta por um familiar dela. Fez uma ameaça, queria que ela lhe devolvesse o dinheiro gasto no encontro. Ela transferiu a quantia e a coisa parou ali. Teve sorte. Podia não ter parado ali.

Ceder, nesses casos, é a melhor solução?

Eu teria contactado a polícia. Não teria cedido. A polícia poderia armar uma cilada e caçá-lo. Aquilo foi uma perseguição. Ela tinha dados suficientes para agir. Ceder foi um grande risco. Não há certeza nenhuma de que a perseguição pare ali. Principalmente, porque a vítima cedeu. E cedendo uma vez…

Fica-se refém?

Completamente. Ceder só se a polícia o recomendar e for um esquema montado para apanhar quem está a perseguir.

Do inquérito que fez aos estudantes universitários conclui-se que não estão muito sensibilizados para estes perigos.

De todo, não estão mesmo! Apanhei um choque quando vi os resultados. Sabia que era assim no geral, mas esperava que tal não acontecesse com estudantes universitários, supostamente informados. No entanto, encontrei pessoas desinformadas, algumas sem sequer saber o que era o cyberbullying, ou apenas com uma vaga ideia de ouvir falar na televisão.

Estão desinformados sobre o fenómeno ou nem sequer têm noção de como se devem proteger nas redes sociais?

De um modo geral, sobre tudo. Dos dados recolhidos, poucas eram as que estavam informadas, só quem já tinha passado por isso. A maioria não tinha qualquer noção de como lidar com o caso, se fossem vítimas. Basicamente respondiam que não ligariam e deixariam andar.

Há um certo estado de inconsciência?

Há. E a sensação de que seriam capazes de lidar bem com isso. Mas ninguém está preparado para um caso destes, mesmo quem está dentro do assunto. Há sempre um impacto emocional muito forte.

Ainda não se sabe que uso se deve dar às redes sociais e como se pode controlar a informação lá posta?

Não. Há quem use as redes sociais da forma mais simples. Raramente vão ver quais os procedimentos de segurança têm ao seu dispor. Há coisas que colocam automaticamente no estado público, sem perceberem que se pode restringir o acesso. Como se pode usar a net com segurança ainda é muito pouco falado. As pessoas são naturalmente descuidadas no uso das redes sociais, acham que nunca lhes vai acontecer e deixam-se ir. E quando se apercebem das coisas que publicaram, já pode ser tarde para evitar consequências. Tive o relato de alguém que publicou no facebook uma foto sua em biquíni, na praia. No ano seguinte, viajou até um paraíso asiático e encontrou a imagem dela num out door publicitário.

NÃO AMEAÇAR TIRAR A NET AOS FILHOS
E como é entre adolescentes e pré-adolescentes?

Praticam muito cyberbullying entre eles, usam as redes para gozar com os colegas, sem ter noção das consequências sobre o outro. Para eles, não passam de brincadeiras. Chegam ao ponto de copiar endereços de email das fichas de professores e passam de uns para os outros. Também fazem tudo para descobrir a password dos colegas.

E sabem identificar quando estão a ser vitimas?

Normalmente sabem, por vezes melhor do que os adultos. Talvez porque ainda não têm vergonha.

Queixam-se aos pais?

Mais depressa contam aos professores. Depende muito da relação que têm com os pais. Se forem daqueles que não castigam nem lhes tiram o acesso à internet, até contam. Mas quando há a mínima hipótese de desconfiarem que lhes vão retirar a net, não contam. Têm medo. Para eles, ficarem sem computador e internet é gravíssimo.

Nesses casos, os pais nunca devem ameaçar tirar o computador?

Não. É o pior que podem fazer. Pode-se ser vítima de cyberbullying quer se use ou não computador. Mas se usarem computador, têm mais possibilidade de saberem que estão a ser vitimas e de se defenderem. Os pais tiram o computador, porque o filho foi irresponsável, pensando que assim evitam que ele seja uma potencial vitima. Mas sem computador, nem sequer saberão o que está a acontecer. Os pais devem ir ver com os filhos o que se está a passar, ensiná-los a alterar as passwords, ver que procedimentos de segurança devem usar. Há passwords ridículas, como o 00000, 123456, ou o próprio nome. Se algo for detetado, devem dar logo conhecimento á escola e á policia. Muitas vezes, o agressor é da escola, um colega ou até grande parte da turma.

Que cuidados deve ter um pai?

Alertar os filhos para que não aceitem certo tipo de comportamentos, de linguagem e ameaças. Aquilo que não se considera correto no dia-a-dia também não é correto na internet. Devem ensiná-los a ter cuidado com as pessoas que aceitam como amigos e a não se exporem demasiado, não contarem conversas de casa e ter muito cuidado com as fotos que colocam. Devem ensinar a diferença entre o que é privado e o que é público. Os miúdos nunca devem dizer onde moram.

Isso não é ensinado nas escolas?

Não é algo que venha nos programas escolares. É algo que fica à mercê da vontade ou interesse do professor. A experiencia que tive não foi muito positiva. As escolas têm medo de perder reputação se assumirem que há ali bullying ou cyberbullying. Tentam esconder.

O inquérito que fez foi em 2013, houve alguma evolução de então para cá?

Gostava que estivessem desatualizados, mas ainda refletem muito a realidade. Continuei a acompanhar casos e quase não houve evolução. E isso é grave.

Em que aspeto?

Continua a ser um tabú, continuamos desinformados e a meter coisas na internet que não deviam lá estar. Cada vez mais se age no facebook como se se estivesse num reality show! Peguei num perfil aleatório do facebook que estava semi-aberto (o que quer dizer que tem conteúdo público e privado): mulher portuguesa, com formação superior. Não sou amiga dessa pessoa. Fui seguindo esse perfil ao longo de um ano. Consigo dizer-lhe o que ela faz à segunda, à terça, à quarta, à quinta, à sexta e ao fim de semana, os destinos de férias e com quem viajou. Inclusive onde mora e trabalha e por onde anda entretanto.

Pôs-se na pele do potencial agressor?

Sim. Para perceber o que consigo fazer se a quiser perseguir. Ela mete tantas fotos e tanta informação que fico a saber tudo. Estamos a falar de alguém com mestrado, que sabe usar um computador. Mas tem lá fotos de biquíni cai-cai, dentro do mar. É fácil despi-la com fotoshop e mostrá-la como se estivesse completamente nua.

Há uma ânsia de se mostrar?

É isso. Aquilo é muito forte, mesmo sabendo que pode trazer consequências gravíssimas. Só vai ter consciência de que se expos demais, quando algo acontecer. Há outros exemplos, não fiz isso só com uma pessoa. Tirei vários perfis aleatórios para fazer estudo de caso e ver como as pessoas continuam a comportar-se na internet.

Está a preparar outro estudo?

Estou a ponderar lançar um livro e a trabalhar num projeto de pós-doutoramento, sempre a investigar esta área.

O QUE SE DEVE FAZER PARA EVITAR O CYBERBULLYING?
* Não partilhar fotos e vídeos de momentos íntimos com o namorado. São um perigo. Podem ser roubados por terceiros ou usados por um dos envolvidos, se a relação acabar mal.

* Cuidado com as fotos que podem ser manipuladas por programas de computador, como o fotoshop. Zero de poses em biquíni.

* Ter noção de que o que se põe online permanecerá para sempre, mesmo que seja apagado pelo próprio. Entretanto, pode já ter sido partilhado e copiado e já se perdeu o controlo

* Não usar fotos de casas ou locais, que possam ser identificadas por outros.

* Não usar dados pessoais, que permitam que alguém se aproxime demasiado.

* Não usar dados do local de trabalho, ou dar indicação das rotinas do dia-a-dia.

* Escolher muito bem a password e mudá-la de tempos a tempos. Evitar o óbvio, como o 00000, 123456, datas de aniversário ou os nomes próprios

* Ter vários níveis de segurança e partilha. Ter consciência de que mesmo um conteúdo circunscrito aos nossos amigos, pode ser indevidamente usado por um deles e outros lhes podem aceder.

* Fazer de quando em vez uma pesquisa com o próprio nome num motor de busca para ver que conteúdos aparecem.

 

Cesaltina Pinto para a Visão, em 10 de junho de 2016


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