Ser rapariga, imigrante e ter chumbado contribuem para fracassar a Matemática

Fevereiro 14, 2016 às 5:18 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de fevereiro de 2016.

Descarregar o relatório da OCDE citado na notícia “Low-Performing Students : Why They Fall Behind and How To Help Them Succeed” no link:

http://www.oecd.org/education/low-performing-students-9789264250246-en.htm

Adriano Miranda

Clara Viana

Relatório da OCDE sobre os alunos com desempenhos mais fracos nos testes PISA constata que as características das escolas e dos professores têm mais impacto do que o estatuto socioeconómico.

Uma rapariga de um estrato social intermédio, que viva numa família monoparental, tenha um passado de imigração, fale em casa uma língua diferente da usada na escola, habite numa área rural, não tenha frequentado o ensino pré-escolar, conte já com um chumbo e frequente um curso profissional tem 76% de probabilidades de ter fracos desempenhos a Matemática. É este o principal perfil de risco identificado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) no seu primeiro relatório sobre os estudantes com fracos desempenhos, que foi divulgado nesta quarta-feira.

A comparação entre as probabilidades de insucesso é brutal. Segundo a OCDE, se a situação for a inversa a todos os níveis, mas mantendo-se o mesmo estatuto socioeconómico, a probabilidade de ter fracos desempenhos a Matemática desce para 10%. É o que se passará com um rapaz do mesmo estrato socioeconómico, mas que viva numa família biparental, sem antecedentes de imigração, que fale a mesma língua em casa e na escola, não tenha chumbado e esteja no ensino regular.

Em Portugal, a fórmula repete-se, com a retenção a ser o principal factor de risco. Aos 15 anos, 56,1% dos alunos com piores desempenhos a Matemática nos testes PISA (Programme for International Student Assessment) realizados em 2012 já tinha chumbado pelo menos uma vez. A média na OCDE é de 54,4%. Nos 64 países analisados, Portugal está entre os dez com maior percentagem de estudantes que reportaram já ter reprovado pelo menos um ano: 34,3%, o que quase triplica a média da OCDE.

O segundo factor de risco em Portugal é a frequência dos chamados cursos vocacionais ou profissionais: 49,3% dos estudantes com desempenhos mais fracos estão nesta via (contra 40,6% de média na OCDE). O estatuto socioeconómico vem em terceiro lugar – 44,2% dos estudantes mais carenciados estão entre os que têm piores resultados, sendo que no extremo oposto esta percentagem desce para 7,4%. Em 64 países analisados, Portugal é o 15º com maior diferença de desempenhos entre alunos de estratos carenciados e os de estratos desfavorecidos.

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Quanto aos outros factores de risco, regista-se que entre os 6,9% de alunos de 15 anos com um passado de imigração que estão nas escolas portuguesas quase metade (42,4%) tiveram fracos desempenhos, enquanto entre os que não têm esta origem tal se passou com 22,5%. Em último lugar surge o estatuto da família, com 25,9% dos que vivem em famílias monoparentais a figurarem entre os alunos com piores desempenhos. A média na OCDE é de 21,8%. O género prejudica as raparigas no caso da Matemática, mas na Leitura e Ciências são os rapazes que estão em maioria no escalão dos desempenhos mais fracos.

Estes valores dizem respeito aos alunos que nos testes PISA ficaram abaixo do nível 2. Segundo a OCDE, tal significa que não têm as competências mínimas necessárias para uma participação activa e eficaz na sociedade, por demonstrarem muitas dificuldades em realizar mesmo as tarefas mais simples do dia-a-dia.

Em média, na OCDE, cerca de 28% dos jovens com 15 anos estavam nesta situação em 2012 em pelo menos um dos três domínios avaliados pelo PISA: literacia em Matemática, Leitura e Ciências. E 11,6% ficaram abaixo do nível dois em todos os domínios. Em Portugal foram 12,6%. Como tem sido norma, a percentagem de fracos desempenhos foi maior a Matemática do que nos outros domínios.

Escolas contam mais

Mas as diferenças entre as características socioeconómicas, demográficas e de percurso escolar dos alunos só explicam, em média, 15% das variações na proporção dos estudantes com piores resultados, adianta o relatório. A OCDE já tinha constatado que o tipo de políticas adoptadas pelos Estados e as práticas seguidas pelas escolas tinham um impacto maior na educação do que o nível de desenvolvimento económico do país. Agora volta a fazê-lo, ao concluir que 35% da proporção dos alunos com piores desempenhos se devem às diferenças entre escolas.

Diz a este respeito que “os estudantes que frequentam escolas onde os professores os apoiam mais e estão mais empenhados têm menos probabilidades de terem piores resultados, enquanto os alunos que têm professores com poucas expectativas sobre eles e que faltam têm maiores possibilidades de ter desempenhos mais fracos a Matemática”, independentemente do meio socioeconómico em que se inserem. Parece óbvio, mas a má notícia é que Portugal figura, segundo a OCDE, entre os seis países em que o empenho dos professores é menor. Para esta variável são tidos em conta o entusiasmo com que desenvolvem o seu trabalho, o orgulho que têm na escola e o modo como valorizam o sucesso académico.

A OCDE constatou a, este respeito, que as escolas com maior percentagem de alunos com fracos resultados são aquelas onde os professores faltam mais. Portugal figura outra vez entre os países onde este problema tem maior impacto. Em conjunto com a Bélgica, Emirados Árabes e Uruguai, a diferença na percentagem de estudantes com fracos resultados é de 15 pontos percentuais ou mais entre as escolas com forte absentismo dos professores e aquelas onde este problema não tem significado. Metade dos alunos portugueses com piores desempenhos nos testes PISA frequentavam estabelecimentos de ensino onde os docentes faltavam, contra uma média 27,6% na OCDE. Já as baixas expectativas dos professores em relação ao desempenho dos estudantes contribuem para 32,4% dos maus resultados. Na OCDE a média foi de 30,6%.

Outro factor de peso tem a ver com a autonomia das escolas. No relatório refere-se que quando têm mais autonomia de decisão sobre o currículo e as formas de avaliação a percentagem e alunos com fracos desempenhos diminui. “Mas esta associação não é observada quando as escolas têm mais autonomia na contratação de professores”, pode ler-se.

O exemplo da Ásia

É, aliás, pelas escolas e pelos seus professores que, segundo a OCDE, passa grande parte do sucesso obtido pelos países asiáticos nos testes do PISA, onde figuram nos primeiros lugares da tabela. Em Singapura, por exemplo, os estudantes são submetidos, logo no 1.º ano, um teste de diagnóstico sobre as suas competências a Matemática. Os que mostram dificuldades passam a ser acompanhados por um professor quatro a oito vezes por semana. No Japão os docentes têm “expectativas altas em relação a todos os seus estudantes, mesmo aqueles com desempenhos mais fracos”. E não existem praticamente retenções, nem segregação entre estudantes no ensino obrigatório. “Os professores têm de trabalhar com estudantes com diferentes necessidades e competências”, assumindo como principal responsabilidade a de todos os alunos seguirem o currículo, prestando mais apoios aos que demonstram maiores dificuldades seja nas aulas ou fora delas.

No que respeita a Portugal, há também um destaque pela positiva: faz parte do grupo de nove países que, entre 2003 e 2012, conseguiram reduzir a percentagem de alunos abaixo do nível 2 nos testes do PISA que medem a literacia a Matemática. Os outros são a Alemanha, Brasil, Rússia, Itália, México, Polónia, Tunísia e Turquia.

Crescimento económico

Nesta análise, a OCDE alerta que “é urgente agir” para reduzir o número de jovens com piores desempenhos, frisando que “os maus resultados escolares têm consequência a longo prazo tanto para os indivíduos em causa como para a sociedade no seu conjunto”.

“Os alunos com dificuldades escolares aos 15 anos têm um risco elevado de abandonar a escola; e como uma parte importante da população não possui competências fundamentais, é o crescimento económico que, a longo prazo, fica largamente comprometido”, alerta-se. Dito de outro modo, os países com um desenvolvimento médio que consigam que todos os seus jovens de 15 anos adquiram as competências básicas exigidas pelo PISA poderão registar um aumento da ordem dos 28% do seu Produto Interno Bruto durante os próximos 80 anos, antevê a OCDE

O que deve ser feito para que tal aconteça? Eis algumas das propostas apresentadas no relatório: melhorar o acesso de todos à educação pré-escolar; apoiar o mais cedo possível os alunos com dificuldades; propor actividades escolares atractivas; limitar os chumbos e as turmas de nível, em que os alunos são agrupados em função das suas competências; reforçar a motivação dos estudantes, criando ambientes escolares estimulantes; os professores com mais empenho e com maiores expectativas devem ser também os que apoiam os alunos com mais dificuldades; dar mais autonomia às escolas para decidir o seu currículo e as modalidades de avaliação.

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Cursos vocacionais. Combater insucesso ou “limpar” estatísticas?

Abril 10, 2015 às 8:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 6 de abril de 2015.

Tiago Miranda

Apesar de continuarem a ser apresentados pelo Ministério da Educação (MEC) como uma “experiência-piloto”, os cursos vocacionais são já frequentados por perto de 25 mil alunos, a esmagadora maioria no ensino básico. E a ideia é chegar a mais no próximo ano letivo. As candidaturas para a abertura de novos cursos iniciaram-se na segunda quinzena de março e o objetivo é assumido: ter ainda uma “maior procura” por estas formações mais práticas, para onde podem ser encaminhados jovens a partir dos 13 anos que já contam com vários chumbos no currículo.

O gabinete de Nuno Crato assume que, apesar do alargamento exponencial – de uma experiência numa dúzia de escolas e menos de 300 alunos passou-se, em dois anos, para 24.500 estudantes em vocacionais – a avaliação continua por fazer. “O MEC já solicitou uma avaliação que se encontra em fase de conclusão.” Conhecidos os resultados, prevê-se que “a oferta passe, em definitivo, a ser uma das vias profissionalizantes”, explica em resposta enviada ao Expresso.

Para já, as críticas de diretores são várias. Faltam condições e recursos para garantir a relevância e eficácia de cursos que acabam por servir como ‘depósito’ de alunos em dificuldades, contribuindo assim para “limpar” as estatísticas do insucesso, exemplificam diretores ouvidos pelo Expresso

A procura de alternativas mais eficazes para ensinar quem há muito se desmotivou da escola, mas tem de lá estar fruto de uma escolaridade obrigatória alargada até aos 18 anos, há muito que é preocupação dos responsáveis da 5 de Outubro. Ninguém questiona a necessidade de encontrar cursos e vias diferentes para quem tem percursos e planos também muito distintos. Para Nuno Crato, a resposta está nos cursos vocacionais. Que têm como grande novidade o facto de poderem receber alunos a partir dos 13 anos, logo no 2º ciclo do ensino básico, desde que já tenham chumbado duas vezes nesse ciclo. Os antigos cursos de educação e formação recebiam alunos com percursos problemáticos apenas a partir dos 15 anos.

Para a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, o problema dos vocacionais é mesmo a antecipação da idade. A inovação de Nuno Crato, acusa, foi feita “à revelia da Lei de Bases do Sistema Educativo”. “O limite dos 15 anos servia como garantia mínima de que antes dessa idade não era possível desviar os alunos para percursos alternativos. É isso que diz a lei de bases ao estabelecer o ensino básico unificado e não dualizado”, argumenta.

Na Secundária Afonso Lopes Vieira, em Leiria, a intenção é alargar a oferta, mas as críticas do diretor são muitas. A começar pela falta de apoios às escolas para assegurar estes cursos, em que predomina um “ambiente de indisciplina e de reiterado incumprimento das regras de conduta, contaminado por um sentimento de impunidade, pois os jovens têm a noção de que não podem ser retidos”, descreve Pedro Biscaia. A diversidade das turmas não ajuda: “Alguns dos alunos não possuem pré-requisitos mínimos, já que têm apenas a frequência do 6º ano. A única condição comum é terem um historial de repetências. Seria importante haver equipas de apoio especializados como assistentes sociais, animadores socioculturais. Os professores nem têm formação adequada, nem são exclusivos destas turmas e começa a gerar-se o sentimento de ‘atirar’ estas turmas para horários sobrantes.”

Tudo somado, remata Biscaia, “está a generalizar-se a ideia de que estes cursos servem para ‘limpar’ o insucesso do ensino regular e que estes alunos estão aqui só para dar a impressão de que estão a cumprir a escolaridade de 12 anos”.

Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares e diretor do Agrupamento de Cinfães, reconhece a “pressão para reduzir a repetência”, mas também a necessidade de criar alternativas a alunos que não sentem “qualquer motivação para continuar a estudar”. “Dantes, havia os cursos de educação e formação. Só que esses eram financiados pelo Fundo Social Europeu e as escolas conseguiam contratar técnicos para dar as áreas profissionais. Agora, estamos dependentes dos recursos que já existam nas escolas e as ofertas das áreas vocacionais são limitadas por isto.”

O “desenrascanço”

O caso do Agrupamento de Cinfães é bem o exemplo das dificuldades de uma escola do interior, sem tradição em cursos técnicos (como as antigas escolas industriais) e poucas empresas para assegurar a formação em contexto de trabalho prevista. Ali, a área de Carpintaria é assegurada por um professor com jeito para trabalhos em madeira; a de Estética por uma professora de Artes Visuais com sensibilidade e disponibilidade para tal e a de Agricultura por outro colega que tem uns terrenos, descreve Manuel Pereira. “Passa muito por criatividade e desenrascanço”, assume.

No Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente, a experiência tem sido diferente e positiva, garante o diretor, Cesário Silva. “É preciso ter a consciência de que oferecer uma única via aos alunos é a pior discriminação que se pode fazer em relação a quem tem menos e precisa de mais”, começa por defender. E se essas alternativas surgirem mais cedo do que os 15 anos e não se tiver de esperar pelo insucesso repetido para oferecer outra via tanto melhor, argumenta. “Não tem é de ser de menor qualidade nem com menos empenho nas escolas”, sublinha.

No caso do seu agrupamento, a partir dos 14 anos, os alunos dos vocacionais começam a ir às empresas, que, ao contrário de Cinfães, não escasseiam naquela região. “Esta experimentação que é feita em três áreas pode ser uma boa forma de orientação e descoberta. E não significa que vão trocar os estudos pelo trabalho, porque há uma idade mínima (16 anos) e têm de continuar na educação até aos 18.”

O MEC argumenta da mesma forma, lembra que a oferta inclui a aquisição de conhecimentos em disciplinas estruturantes, como Português e Matemática e que ajuda a não acumular retenções, “por permitir intervir atempadamente e motivar para a escola alunos que estão em risco de abandono”.

 

BI DOS CURSOS

26% têm menos de 15 anos

Os cursos vocacionais do ensino básico destinam-se a alunos a partir dos 13 anos que já chumbaram várias vezes. Em 2013, dos 11 mil inscritos, 26% tinham menos de 15 anos. Este ano, o total de matriculados duplicou e ascende aos 22.600. A transição para o ensino regular é possível mas implica fazer exames nacionais

Curta duração

Permitem concluir o 2º e o 3º ciclos em um ou dois anos e integram 210 horas/ano de prática simulada em empresas ou na escola em três áreas profissionais. Não dão uma certificação profissional, mas estão a substituir os cursos de educação e formação

Rendimentos mais baixos

Ao longo da sua vida ativa, um licenciado ganha mais €1,3 milhões do que um trabalhador que se tenha ficado pelo 12º. Os números foram divulgados por David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação. “Portugal é ainda um país de doutores. É preciso valorizar o ensino profissional”, defendeu o ex-ministro

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de março de 2015

 

 

 

 


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