Adolescentes: Negociar mais, criticar menos

Janeiro 13, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ de 14 de novembro de 2017.

Não é fácil lidar com um adolescente e imagens como as da violência na discoteca Urban não ajudam. Já que não é possível fechá-los em casa até aos 25, o melhor é enfrentar o desafio. A psicóloga Cristina Valente escreveu um livro para dar umas pistas.

Texto de Cláudia Pinto

«Está mesmo na idade da estupidez.» «A culpa é das hormonas.» «Os adolescentes estão na idade do armário. » Estas e outras expressões são utilizadas tantas vezes por pais à beira de um ataque de nervos. E pelos amigos deles, com quem desabafam por não saber como lidar com o desafio que têm em casa. Identificou‑se com alguma delas? É provável.

Mas é preciso mudar urgentemente o paradigma. «Já não há desculpas para ridicularizarmos a adolescência, como muitas vezes fazemos», diz a psicóloga Cristina Valente. «Estamos ainda a funcionar com um paradigma do século XIX, em que funciona muito o poder, o controlo e o autoritarismo, e nos miúdos democráticos deste século isso não funciona.»

Essa é uma das conclusões a que chegou a autora de O Que Se Passa na Cabeça do Meu Adolescente? (ed. Manuscrito), coach parental na Academia de Psicologia da Criança e da Família, em Lisboa. Mesmo que inconscientemente, surge a tendência de subestimar as capacidades e os talentos da juventude, e afinal o cérebro do adolescente tem um enorme potencial. «A adolescência é a idade em que existe maior oportunidade para que o ser humano se desenvolva no seu maior potencial», diz a psicóloga.

E se os pais tiverem alguma responsabilidade na forma como os adolescentes se comportam ou na maneira como lidam com eles? É nesta idade que as relações com os amigos e as saídas à noite assumem grande importância, bem como a maneira de se vestir (nem sempre aprovada pelos pais).

Criticar, controlar e exercer demasiada autoridade sobre os adolescentes parece ser a saída mais fácil. Mas não necessariamente a mais eficaz. «Temos de olhar para a educação do adolescente quase como um desafio intelectual, uma forma de sairmos do nosso próprio ego, procurarmos não nos centrarmos no nosso “eu” mas sim disponibilizarmo‑nos para sermos copilotos da viagem que ele está a fazer.».

«Esses teus amigos não são boas companhias» é mais uma frase típica e muito usada pelos pais, acabando por ser frequente a crítica fácil às amizades que os filhos escolhem. Claro que cada caso é um caso e, por vezes, algumas companhias podem mesmo não ser adequadas, mas é boa ideia dar o benefício da dúvida. «A forma mais visível e imediata que os adolescentes têm para demonstrar que são donos de si próprios é a sua aparência física, seguindo‑se os amigos.

Os pais não podem ridicularizar ou criticar a forma como o jovem se veste porque estão a tocar na sua identidade. Por outro lado, é mais eficaz aproximarem‑se dos amigos, convidarem‑nos para ir a sua casa, conhecerem‑nos melhor em vez de criticarem», acrescenta a autora.

Fomentar mais o relacionamento e o tempo de qualidade e enfrentar os medos. Eis duas caraterísticas que podem ajudar os pais. «Há duas formas de educarmos: com base no medo ou com base no amor. A maior parte de nós educa com base no medo sobretudo nesta fase da adolescência.»

Há que gerir o dia‑a‑dia com os jovens da forma mais pacífica possível, baseando‑se sempre na negociação. É importante impor regras, e são os pais que as criam, mas tendo em conta as necessidades dos adolescentes.

«As regras das saídas à noite com os amigos são importantes porque o mundo lá fora está mais perigoso. Também vejo pais a deixar os filhos saírem cada vez mais cedo, e isso significa que não têm autoridade sobre aquelas crianças. Esses são os miúdos que, assim que podem, saem com os amigos porque não foram habituados a ter uma relação de proximidade com os pais, ou de cada vez que estavam com eles havia controlo, zangas, pressão», explica Cristina Valente.

Chegando a acordo, o adolescente já sabe qual será a consequência se chegar mais tarde e quebrar a hora marcada previamente. Se combinou com o seu filho a chegada a casa à meia‑noite, deverá ser esse o horário a respeitar. «Quando estamos a negociar regras com filhos adolescentes, e eles não cumprem, os pais têm de ser rigorosos e não podem resvalar.» Só assim se consegue um ganho duplo: chegar a um consenso com o que os pais e os adolescentes necessitam e desejam.

E será possível chegar a um acordo sem discutir? Cristina Valente acredita que sim defendendo que os pais devem ser líderes e fomentar uma relação positiva com os filhos. «Só assim conseguirão continuar a inspira‑los. Não pode haver liderança quando não houve tempo para uma relação de qualidade com os filhos», defende.

Também em situações‑limite, como a ocorrida na discoteca Urban, em Lisboa, a conversa e o debate devem fazer parte. Só assim faz sentido usar as imagens disponibilizadas pelos meios de comunicação social como forma de alertar os seus filhos. «Há que falar sobre as imagens e não evitar o assunto. As relações de pais e filhos desenvolvem‑se com base no diálogo. Esta é mais uma oportunidade para se conversar sobre estratégias para os adolescentes evitarem o perigo, como por exemplo saberem que podem ligar aos pais se estiverem em risco», sugere Cristina Valente.

O QUE SE PASSA NA CABEÇA DO MEU ADOLESCENTE?

O terceiro livro de Cristina Valente tem estratégias, conselhos práticos e ferramentas úteis. E ajuda a perceber os comportamentos dos adolescentes, o seu cérebro, as mudanças por que passam, as suas emoções, a melhor maneira de comunicar com eles, sem discussões nem lutas de poder. A autora de Coaching para Pais (2014) e O Que se Passa na Cabeça do Meu Filho? (2016) considera que «o melhor que podemos dar aos filhos adolescentes é a capacidade para saber tomar boas decisões, escolher o seu caminho e dar‑lhes asas para voarem em segurança».

 

 

“Pressão para perfeição e sucesso causa sempre infelicidade na criança”

Março 14, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Livros | Deixe um comentário
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Texto do site http://www.noticiasaominuto.com/lifestyle/ de 16 de fevereiro de 2016.

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Atitudes, silêncio, tristeza, teimosia, afeto. Afinal, ‘o que se passa na cabeça do meu filho?’. O Lifestyle ao Minuto falou com a autora do livro, Cristina Valente.

POR Daniela Costa Teixeira

Compreender os comportamentos, as oposições, os silêncios e os pensamentos dos filhos não é uma tarefa fácil, mas também não é impossível. No livro ‘O que se passa na cabeça do meu filho’ [Manuscrito], a mentora de famílias Cristina Valente explica as melhores formas de conseguir entender as crianças.

E um dos primeiros passos é “escolhermos o amor em vez do medo”. Em resposta por e-mail ao Lifestyle ao Minuto, Cristina Valente revela que o nascimento da sua filha Constança – que nasceu com líquido cefalorraquidiano) trouxe a vontade de “aproveitar ao máximo o que cada momento presente tem para nos dar”.

“No fundo, é a forma ideal para vivermos todos os dias. De facto, o que fiz foi distinguir entre o que estava dentro do meu controlo e o que não estava. Com aquilo que eu poderia controlar, eu dava o meu máximo. Com o que não podia controlar, largava: Let go and let God. É muito importante sabermos separar as coisas. E escolhermos o amor em vez do medo”, diz.

Ao longo do seu livro, e tentando explicar de forma clara algumas evidências científicas, a psicóloga aborda a importância da aceitação total de uma criança, algo que se torna essencial no caso da mãe.

“A ressonância límbica é o ‘mecanismo do amor’ e é o que promove a ligação entre mãe e filho. Um recém-nascido pode morrer por falta dessa ligação fundamental com a mãe. Ele consegue viver sem o cuidado do pai ou de outros cuidadores. Mas com a falta do olhar, do toque e do cheiro da mãe…as feridas são infinitamente maiores”, explica.

Compreender a criança

Mas além da aceitação, a maternidade e a paternidade têm também muito de compreensão e é aqui que entra a leitura dos pensamentos das crianças. “As birras, a teimosia e o temperamento têm características e objetivos distintos. O que temos que fazer é identificar as diferenças e sabermos o que fazer em cada situação. Ceder em alguns casos, optar por alternativas noutras e procurar o equilíbrio noutras. Mas sempre com amor e respeito”, afirma, garantindo que é possível ler a mente das crianças “pelos comportamentos e conhecendo as leis que regem esses comportamentos”.

E dentro do leque de comportamentos, “existem maus comportamentos e silêncios normais”. Segundo a mentora de famílias, “há comportamentos e silêncios preocupantes” e cabe aos pais estarem “sempre muito atentos e saberem distinguir uns de outros. Para isso não basta a intuição e o instinto. Os pais têm que se ‘formar’em parentalidade”.

Contudo, e no que toca ao silêncio das crianças, este “pode ser sintoma de tristeza, mas não só: uma criança com medo pode calar-se e ter medo de falar. Nunca se devem ensinar as crianças a evitar a tristeza ou o medo – quatro das nossas emoções básicas. Temos é que ensinar a crianças a enfrentá-las, a aceitá-las e a resolvê-las”.  

E podem os pais ser, em parte, ser os culpados pela tristeza dos filhos? Sim: “a pressão para a perfeição e o sucesso causa sempre infelicidade nas crianças, pois elas percebem que não estão a ser ‘suficientemente boas para serem amadas’ e que não estão a cumprir as expectativas”.

Castigar ou não castigar, eis a questão (que se pode responder com comunicação)

Ao Lifestyle ao Minuto, Cristina Valente defende que “castigar uma criança quando se porta mal ou premiá-la quando se porta bem é uma técnica que é usada para treinar animais”.

Para a autora, “as crianças conseguem fazer melhor e crescer sem utilizarmos estes métodos básicos. Estes métodos dão menos trabalho, mas obrigam os pais a estarem sempre a policiar os seus filhos e não treina as crianças para a autonomia nem para a autoestima”.

“Um dos problemas do castigo, para além da dor que sente, é que as faz sentir mais fracas, impotentes e incapazes” lê-se no livro. E a comunicação pode ser a solução.

Mas como deve ser a comunicação com os filhos? Deve ser feita “com amor”. “Significa pararmos tudo, olharmos para os seus olhos e estarmos verdadeiramente interessados naquilo que têm para nos dizer. Falar menos e ouvir mais”, conclui.

Saber falar com uma criança “significa termos uma ideia bem clara daquilo que queremos realmente dizer; e, depois, enviar a nossa mensagem de uma forma carinhosa e assertiva” que, como se lê no livro, implica dar um feedback positivo e encorajar e colocar perguntas abertas.

 

 

 


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