Educar sem violência

Julho 30, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eva-Delgado Martins publicado no Público de 14 de julho de 2019.

Quando os pais deixam de bater em casa, os filhos deixam de bater na escola. O apoio à mudança de práticas parentais educativas violentas, ensinando os valores da não-violência possibilitará que os filhos se tornem adultos saudáveis.

Se a violência entre adultos não é um comportamento aceitável na sociedade em que vivemos, não é possível admiti-la nas relações entre pais e filhos. No entanto, a avaliar pela nossa experiência, a maioria esmagadora das famílias portuguesas considera que, “quando é necessário”, o castigo físico é uma forma legítima de educar. Muitos pais continuam a acreditar que, tanto o castigo físico (“umas palmadas”), como a agressão verbal (gritos, insultos e humilhações) devem fazer parte da educação dos seus filhos. Esta é uma crença de que esses recursos agressivos são relevantes para mostrar a sua autoridade como pais.

Ao usar a violência física ou psicológica, ensinamos aos nossos filhos que a humilhação e a prepotência são meios para se alcançar o que quer que seja. Sem se aperceberem, através deste modelo de comportamento violento, os pais transmitem aos filhos o sentimento de uma baixa auto-estima, prejudicando sua saúde física e emocional, o seu desenvolvimento cognitivo e o relacionamento que estabelecem com outras pessoas.

A punição física pode desenvolver nas crianças dúvidas sobre a constância do amor dos pais, o sentimento de não serem amadas e de se atribuírem a si próprias a responsabilidade dessa rejeição — “os meus pais não gostam de mim porque eu não presto”. Os pais pensam que a punição física é uma solução rápida do problema, mas o castigo corporal faz com que a criança julgue que o amor parental lhe vai ser retirado. Os castigos “não corporais” e o diálogo são sempre melhores do que o uso da punição física.

Segundo os dados do relatório Um Rosto Familiar: A Violência na Vida de Crianças e Adolescentes, da UNICEF, de 2017: “(…) cerca de 300 milhões (três em quatro) de crianças na faixa etária de dois a quatro anos, sofrem, regularmente, disciplina violenta por parte dos seus cuidadores; 250 milhões (cerca de seis em cada dez) são punidas com castigos físicos.” (p.19).

Pelo artigo 152.º do Código Penal, revisto em 2007 — “Quem de modo reiterado ou não infligir maus tratos físicos ou psíquicos, incluindo castigos corporais, privações de liberdade e ofensas sexuais” —, a lei proíbe que os pais batam nos filhos.

De acordo com o Relatório Nacional sobre a Implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (Portugal, 2017), “sublinha-se o objectivo estratégico de prevenir e actuar nas diferentes formas de violência contra as crianças, que contempla objectivos operacionais e indicadores na área da prevenção, segurança e adequado acompanhamento das crianças vítimas de violência” (p. 80).

É fundamental procurar soluções para uma transformação construtiva de comportamentos e atitudes neste tipo de dinâmica familiar violenta para com os filhos, com o objectivo de proporcionar aos pais uma prática educativa mais saudável para o bem-estar físico, social, emocional, cognitivo e comportamental dos filhos, procurando formas que eliminem o seu sofrimento e assegurem a protecção imediata da criança, vítima de violência por um ou por ambos os pais.

Crianças educadas com práticas educativas parentais coercivas resultam em jovens e adultos que utilizam práticas similares, uma vez que a falta de modelos positivos leva à aceitação da punição imposta pelos pais como um procedimento educativo normal (Weber; Wiezzer; Brandenburg, 2004). As crianças e os adolescentes tendem a seguir os modelos de educação dos seus pais e, dessa forma, a reproduzir a violência na relação com os outros na família e em demais contextos, como a escola. Em todo o mundo, metade dos alunos com idades entre os 13 e os 15 anos — cerca de 150 milhões de jovens — relata ter passado por violência entre pares na escola ou nas imediações desta (Relatório Unicef, 2018).

Ao contrário, quando os pais deixam de bater em casa, os filhos deixam de bater na escola. O apoio à mudança de práticas parentais educativas violentas, ensinando os valores da não-violência possibilitará que os filhos se tornem adultos saudáveis e que não repetem a punição física com seus próprios filhos.

É a desproporção física entre pais e filhos e o livre-arbítrio do poder parental que facilita o uso da violência, uma vez que dificilmente os filhos retaliarão ou poderão argumentar ao mesmo nível dos pais. O descontrolo dos pais e a consequente dor sentida pelos filhos podem fazer perigar o clima afectivo no seio da família, sobretudo se existir repetição da punição. O cansaço e as preocupações do dia-a-dia levam muitos pais a descontrolar-se e a sujeitar os filhos a agressões físicas ou psicológicas, com um sofrimento inevitável para ambas as partes.

Bater faz com que o comportamento da criança mude por medo e não por interiorizar as regras que queremos transmitir-lhe. Os pais que batem podem ser adultos muitas vezes inseguros, frequentemente insatisfeitos consigo próprios, com dificuldade em relacionar-se com os outros e que exprimem essas frustrações através da violência física. Em princípio, um adulto tem mais experiência, melhor controlo emocional e mais argumentos para explicar e convencer do que uma criança, pelo que não deve precisar de recorrer à agressão física.

Psicóloga e terapeuta familiar

“Diante de um ecrã a criança transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora”

Julho 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Catherine L’Ecuyer ao Observador de 13 de julho de 2019.

Tânia Pereirinha

Ou seja, transforma-se num ser amorfo, que em vez de agir, reage — ou nem isso. Quem o diz é Catherine L’Ecuyer, doutorada em Educação e Psicologia e autora do bestseller “Educar na Curiosidade”.

Canadiana a viver em Barcelona, tem um currículo que impressiona, desde os artigos académicos mais famosos à coluna de opinião no El País, passando pelos livros feitos bestsellers internacionais ou pelo doutoramento acabado de concluir em Educação e Psicologia. Ainda assim, não é por “Educar na Curiosidade” ter sido traduzido em oito línguas, incluindo português, e ir já na 25ª edição em Espanha, que Catherine L’Ecuyer é uma sumidade na matéria.

Só por isso, seria considerada “especialista”. Sobe para o degrau acima porque, além de estudar a fundo o tema, é também mãe, de quatro filhos, de 14, 13, 11 e 8 anos. E, garante ao Observador, é uma mãe que pratica em casa aquilo que advoga na vida profissional.

Quando o assunto são as novas tecnologias é peremptória: antes dos 2 anos nenhuma criança deve ser exposta a qualquer tipo de ecrã e o uso de telemóveis deve ser atrasado ao máximo, sendo que o máximo pode muito bem ser a chegada à idade adulta.

Fácil falar, difícil fazer? Assegura que não e revela que na sua própria casa não há tablets, videojogos, ou smartphones: “Temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que [os meus filhos] utilizam quando necessitam”.

Explica que não é uma questão apenas educativa, mas também pediátrica: o uso das novas tecnologias por bebés, crianças e adolescentes pode ter efeitos críticos nas diferentes fases do desenvolvimento, para além de ainda poder potenciar outro tipo de consequências. “Atrás de um ecrã as crianças e os jovens desinibem-se e dizem coisas que não diriam cara a cara, mostram partes do corpo que na vida real nunca mostrariam”, exemplifica.

Nos Estados Unidos, cientes disto mesmo, são cada vez mais os pais a atrasar deliberadamente a idade com que dão smartphones aos filhos, existindo até movimentos organizados nesse sentido, como o “Wait Until 8th” (Espera até ao 8º), uma espécie de juramento que os pais podem fazer online em nome dos filhos, numa lógica de a união faz a força — já para não dizer que também diminui a pressão social. Outros pais americanos, admitindo a sua incapacidade para educarem sem tecnologia, estão por seu turno a esgotar as agendas dos “consultores de tempo de ecrã”, os mais novos especialistas na matéria, acabados de chegar, aproveitando o nicho de mercado.

Em Portugal recentemente, para dar uma conferência sobre a forma como as novas tecnologias estão a influenciar a capacidade de atenção das crianças, Catherine L’Ecuyer respondeu às perguntas do Observador sobre o tema e deixou pistas para pais e educadores.

Acha que aquelas imagens caleidoscópicas dos canais para bebés fazem maravilhas a acalmar o seu filho de meses? Tem a certeza de que tablets e televisões são coisas completamente diferentes? Acredita que o seu filho tem uma inteligência acima da média porque nenhuma criança da mesma idade poderá algum dia ser capaz de mexer tão bem num smartphone? Esta entrevista é para si.

Falemos de tecnologia, mas vamos por idades. Basta sair para jantar para ver bebés de meses que só comem diante de um ecrã. Outros, assim que conseguem sentar-se ou até antes disso, são deixados em frente à televisão. Que efeitos pode ter a exposição precoce a este tipo de estímulos visuais no cérebro e no comportamento dos bebés?
A Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadiana de Pediatria recomendam que as crianças até aos 2 anos não vejam qualquer tipo de ecrãs, devido ao risco que acarretam nesse período crítico de desenvolvimento. Não é uma recomendação educativa, mas sim pediátrica. Os estudos associam a exposição a ecrãs nessa idade com a desatenção, a impulsividade, a redução do vocabulário, o défice de aprendizagem, etc. O cérebro habitua-se a um ritmo que não existe no  mundo real, logo a criança não está adaptada à realidade, que é lenta.

O que se passa a partir dessa idade, biológica e emocionalmente, para que essa exposição passe a ser “permitida”?
Estas mesmas associações pediátricas recomendam que as crianças entre os 2 e os 5 anos vejam menos de uma hora por dia, por que nessas idades o cérebro continua a estar num período crítico de desenvolvimento. Entre os 2 e os 5 há menos riscos, mas não convém estar a criar este tipo de necessidade. Como diz a Associação Canadiana de Pediatria, “não há provas de que os ecrãs sejam benéficos”.

Mas uma televisão não é o mesmo que um tablet, pois não? Um é preferível ao outro? Quais são as diferenças de efeitos entre o uso passivo e ativo das tecnologias em cérebros tão jovens?
A investigação é cara e morosa. Por isso mesmo, tem sempre um atraso em relação às inovações tecnológicas, que rapidamente se tornam obsoletas e dão lugar a produtos diferentes a cada ano. Em 2014, Dimitri Christakis (o especialista internacional nos efeitos dos ecrãs nas crianças) publicou um artigo em que questionava a comunidade científica sobre se o tablet seria diferente da televisão, precisamente por causa da sua natureza interativa. O artigo não dava respostas, fazia perguntas. Há estudos desse ano que demonstram que o tablet não é menos prejudicial do que a televisão; até é mais viciante porque é interativo. O tipo de interação que o tablet promove não é como a interação humana, que requer um processo ativo. Diante do ecrã, a criança anda a reboque de estímulos frequentes e intermitentes. Transforma-se numa espécie de porta USB ou numa impressora. A criança ainda não desenvolveu as suas capacidades de inibição e atenção, o seu locus de controlo é externo.

O  que significa isso?
O locus de controlo é o lugar a partir do qual uma pessoa acredita que as suas ações são controladas. Se é externo, a pessoa acredita que a sua ação é condicionada pelo ambiente, pela sociedade, pelos outros. Se é interno, a pessoa sente que tem controlo (capacidade de inibir, moderar, tomar a iniciativa, planear, etc) sobre as suas ações, pelo que age em consciência e de forma responsável.

Existe a ideia de que os cérebros das crianças devem ser estimulados e “trabalhados” desde cedo, sob pena de se fechar a “janela de oportunidade”. É especialmente crítica desta teoria. Porquê?
Não é uma opinião. A ideia de que é preciso enriquecer o ambiente durante os primeiros anos de vida para não perder a oportunidade de aprendizagem é um neuromito. Um neuromito é uma má interpretação da literatura em neurociência. Há períodos críticos (janelas de oportunidade irrepetíveis) para o desenvolvimento, mas não para a aprendizagem. Mais nem sempre é sinónimo de melhor. A aprendizagem é um processo lento que deve acontecer ao ritmo da criança. Estudos sobre apego indicam que as crianças não precisam de um bombardeamento sensorial, mas sim de interação de qualidade com o seu cuidador principal.

Outro conceito que não lhe é propriamente caro é o que se refere a esta geração como “nativa digital”. Acredita que existe um “plano” por trás disto? Que as empresas tecnológicas, por um lado, constroem os produtos de forma a serem facilmente utilizados pelas crianças; e por outro plantam na mente dos pais a ideia de que a capacidade de manusear a tecnologia é não só uma prova de inteligência dos filhos mas também uma ferramenta capaz de aumentar ainda mais essa inteligência?
O nativo digital é definido como aquele que, nascendo na era digital, está habituado a receber e a processar informações de uma forma que alguém que nasceu antes dessa época (o chamado Imigrante Digital) não consegue. De acordo com essa “hipótese”, os nativos digitais terão vantagens cognitivas que afetarão positivamente a sua aprendizagem, em relação à da geração que os precede, como por exemplo no que diz respeito à multitarefa tecnológica. Apesar da popularidade desta ideia, os estudos dizem que o conceito de nativo digital é sobrevalorizado. Embora demonstrem grande familiaridade e agilidade técnica com a tecnologia, os jovens também dependem demasiado dos motores de busca e não têm competências críticas e analíticas para perceberem o valor e a originalidade da informação que existe na rede. Concluindo: os estudos dizem que a chamada “Geração do Google” não tem o nível de alfabetização digital que lhe tem sido atribuído e que ao próprio conceito falta uma base científica. A crença de que uma pessoa nascida na era tecnológica tem mais habilidades cognitivas para o uso da tecnologia é um mito. E a multitarefa tecnológica também. Se o teu filho aprende a usar um smartphone em minutos não é porque é um génio, mas porque o engenheiro que o desenhou é muito inteligente.

O que é isso da multitarefa tecnológica?
É o ato de fazer muitas coisas que requerem o processamento de informação no âmbito tecnológico ao mesmo tempo. É um mito, a neurociência garante que não podemos realizar em simultâneo várias tarefas que requeiram o processamento de informação. Quando tentamos fazê-lo, o que acontece é que desempenhamos essas tarefas em paralelo e vamos oscilando entre todas elas.

Existem ou não diferenças cerebrais entre as crianças de hoje, que têm toda a informação do mundo à distância de um clique, e os dos seus pais, que quando queriam saber alguma coisa tinham de se dedicar e procurar em livros ou enciclopédias?  
As crianças de hoje aprendem da mesma forma que as de antigamente. Há permanências antropológicas. As previsões alarmistas de que a tecnologia estaria a reestruturar os nossos cérebros (“rewiring our brains”, em inglês) também não têm fundamento científico. Ainda assim, tal como avisa o Conselho Inter-Americano para o Desenvolvimento Integral, a plasticidade tem os seus limites, pelo que a tensão a que uma pessoa está sujeita só é possível dentro de alguns limites, para além dos quais os estímulos podem provocar alterações capazes de comprometer a sua integridade e, consequentemente, a sua aprendizagem. Isto é confirmado pelas evidências que relacionam a multitarefa tecnológica com a diminuição das funções executivas (atenção, capacidade para inibir estímulos externos, etc.). E também pelas evidências que relacionam hiper-estimulação e desatenção. Nas crianças estes efeitos são mais agudos, porque estão num período crítico de desenvolvimento.

Centremo-nos nas crianças entre os 6 e os 12. Há boa e má tecnologia? Que regras ou limites aconselharia nestas idades?
A tecnologia tem de adaptar-se ao ritmo interno da criança, não pode substituir as relações interpessoais reais e não deve veicular conteúdos violentos ou inadequados. A criança tem de desenvolver os seus sentidos de intimidade, privacidade, força, moderação e relevância e a sua capacidade de inibição antes de entrar no mundo virtual. Não é possível desenvolver a noção de intimidade nas redes, por exemplo. A melhor preparação para o mundo online é o mundo offline.

Bem sei que o ideal seria que os consumos fossem sempre acompanhados ou pelo menos supervisionados pelos pais, mas com as vidas atuais isso é praticamente impossível. Que estratégias aconselha a pais e educadores?
Os ecrãs são as amas do século XXI. Temos de oferecer alternativas de qualidade aos nossos filhos: música, desporto, amizades, brincadeiras, natureza, etc. Acreditamos mesmo que estes dispositivos lhes melhoram a qualidade de vida? Nunca houve tantas adições tecnológicas, tanto consumo de pornografia na infância. Tudo na sua medida e no seu devido tempo. Quando atrasamos o uso do smartphone, damos-lhes o luxo das interações pessoais e a oportunidade de fortalecerem qualidades que mais tarde lhes permitirão utilizar estes dispositivos de forma responsável. Um smartphone é um luxo. Por que motivo havemos de lhes comprar luxos?

Caso já tenham comprado esse “luxo”, como podem os pais limitar ou supervisionar o seu uso?  
Não há problema nenhum em atrasar a idade de uso. Eles vão dizer que toda a gente tem e que vão ficar de fora de tudo. Primeiro, é preciso ajudá-los a perceber as estatísticas, nem sempre é garantido que todos têm mesmo. Depois, mesmo que muitos tenham de facto, isso não é um argumento educativo. Muitas crianças consomem pornografia e embebedam-se e isso não é uma justificação para permitir que os seus filhos o façam.

Tem quatro filhos. É essa a estratégia que usa com eles, em casa?
Não sou uma mãe perfeita, pelo que aquilo que fazemos não é “a” solução. Cada família é um mundo e cada pai e mãe é no limite responsável pelas suas decisões. Em nossa casa há uma televisão que só serve para ver filmes selecionados. Temos dois computadores que são usados em espaços de passagem, para o meu trabalho e para o do meu marido. Os nossos filhos não têm videojogos, nem tablets, e só temos um telemóvel familiar — que só dá para fazer chamadas, não tem Internet –, que utilizam quando necessitam. Mas damos-lhes mil alternativas aos ecrãs: passeios, pesca, desporto, música, viagens, natureza, conversas, leitura, etc. Não podemos proibir só por proibir. Temos de dar-lhes alternativas de qualidade.

Há cada vez mais escolas a apostar no uso das tecnologias para ensinar. Paradoxalmente, diz que Steve Jobs, tal como a maioria dos executivos de Silicon Valley, põem os filhos em escolas tradicionais. É mesmo assim? Por que acha que isto acontece?
Os CEOs das empresas tecnológicas de Silicon Valley vendem tablets às escolas públicas da zona, mas têm os filhos em colégios privados que não os utilizam. Eles sabem que não existem estudos que apoiem o uso da tecnologia em sala de aula. Aliás, sabem que o que há são estudos que dizem o contrário. O tablet é parte de uma estratégia de marketing educativo. A novidade é um conceito essencialmente comercial, não educativo.

O que dizem exatamente esses estudos que vão contra o uso de tablets na escola?
Essa pergunta é demasiado complexa para ser respondida assim. Aquilo que posso afirmar é que não existe atualmente um conjunto de estudos que apoiem o uso de tablets na sala de aula. Não há um conjunto de estudos que estabeleça um benefício entre o uso de tablets e uma melhoria no desempenho académico e nas oportunidades de emprego.

Tempos de atenção cada vez mais curtos, dificuldades de concentração, incapacidade de desenvolvimento de pensamento lógico. Diria que estas expressões descrevem de algum modo a geração adolescente atual? Que papel desempenham as novas tecnologias neste quadro?
Como diz [a romancista americana] Meg Wolitzer, esta é a geração que tem manteiga mas não tem pão. A quem falta o contexto que dá sentido às aprendizagens. O contexto não se encontra na Internet, mas no mundo real. O professor é fundamental, precisamente porque dá esse contexto, torna a aprendizagem “significativa”. Por mais sofisticados que sejam os algoritmos, a educação será sempre uma questão profundamente humana e não tecnológica.

Fala-se muito em dependência e adição às novas tecnologias. Há idades mais permeáveis a isto, no que respeita às fases de desenvolvimento cerebral ou comportamental? A que sinais de alerta devem os pais estar atentos?
Muitas dessas tecnologias estão desenhadas para criarem adição. Quem trabalha nas empresas que as fabricam admite isso mesmo. Não existem estratégias para mitigar esses efeitos em mentes imaturas. Se nos custa a nós, que somos adultos, como é que não vai custar-lhes a eles? Quando uma criança mente para poder consumir tecnologia, está viciada. Mas quando isso acontece, já é um pouco tarde para fazer marcha-atrás. Eu defendo a prevenção: atrasar a idade de uso.

Actividade física: o mais importante entre o menos importante – crianças

Julho 25, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Cíntia França publicado no Público de 12 de julho de 2019.

Cíntia França

Professora de Educação Física e doutoranda em Ciências do Desporto pela Universidade de Coimbra.

Depois de uma criança estar inserida numa prática desportiva organizada, por exemplo, individual ou colectiva, dificilmente conseguirá deixar de a integrar por opção própria. O movimento é a paixão mais forte e benéfica que existe.

O aumento dos tempos lectivos veio acompanhado de mais trabalhos de casa. Esta equação de soma é subtraída do tempo, resultando no tempo livre. Isto, provavelmente, pelo facto de o sucesso escolar ser, na prática, o principal ditador do destino de uma criança. Afinal, só poderemos ser o que quisermos ser se a média o permitir, independentemente das tantas outras coisas que definem um ser humano.

O sistema é vicioso e tira mais do que oferece. O programa curricular é mais extenso e, quando aliado ao número de alunos por professor, percebemos que dificilmente será possível “acompanhar a matéria”. Por essa razão (e não só) surgiram as explicações, aumentando novamente a necessidade de enfiar a cabeça entre os livros. Este é mais um factor que afecta o tempo.

Em suma, é o tempo que está em jogo e, se considerarmos a quantidade de tarefas atribuídas às nossas crianças e jovens, ficamos quase com a sensação de que iremos viver para sempre. Afinal, onde está o tempo para estar na escola, fazer os trabalhos de casa, talvez ir até à explicação, estudar e, quem sabe, fazer algo que não esteja relacionado com a escola, como praticar desporto ou outra qualquer actividade? É preciso tempo para se ser saudável e para se crescer.

Curiosamente, talvez seja esta limitação do tempo que torna a actividade extra tão preciosa. Depois de uma criança estar inserida numa prática desportiva organizada, por exemplo, individual ou colectiva, dificilmente conseguirá deixar de a integrar por opção própria. O movimento é a paixão mais forte e benéfica que existe.

Assim, sobra-nos apenas uma opção: gerir o tempo. E como o tempo é, normalmente, gerido através das prioridades que são individualmente estabelecidas, adoptemos a noção de que o desporto é a “coisa” mais importante entre as “coisas” menos importantes. Continuemos a catalogar o sucesso escolar como o principal objectivo, mas, em detrimento dos tempos mortos em tecnologias, priorizemos o desporto. As crianças ficarão obrigatoriamente presas aos computadores, quer numa fase mais avançada do seu percurso escolar quer num emprego futuro. Portanto, resta-nos evitar que se dispersem na tecnologia enquanto realmente essa opção está disponível.

O desporto é um meio privilegiado para o desenvolvimento da disciplina, do sentido de responsabilidade e de compromisso, do respeito pelo colega ou adversário, da capacidade de superação e, consequentemente, melhoria da auto-estima, do espírito de equipa, resultando, sumariamente, na promoção da felicidade. Se pensarmos no que consiste a vida, lembrar-nos-emos destes princípios. Queremos seres humanos bem-sucedidos e queremos igualmente bons seres humanos. Vamos dar-lhes a conhecer o desporto e a recompensa humana será, provavelmente, bem mais valiosa do que a média

Manter ou não as rotinas dos miúdos nas férias, eis a questão

Julho 24, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do DN Life de 20 de julho de 2019.

Flexibilidade é palavra de ordem quando falamos de férias escolares. Só assim os mais pequenos conseguem aproveitar verdadeiramente o período de pausa dos compromissos escolares. No entanto, até aos três anos é importante manter algumas rotinas. Como gerir os horários? Quando voltar à normalidade? O pediatra Hugo Rodrigues e a psicóloga clínica Olga Reis deixam alguns conselhos.

Texto de Joana Capucho

Se o seu filho não quiser ir para a cama antes das 23.00, não se preocupe muito com isso. Durante as férias, deixe-o deitar-se mais tarde, garantindo que dorme o número de horas recomendado para a idade. E também não precisa de assegurar que almoça às 12.30 como é habitual no período de aulas. “Não é preciso um grande stresse com as rotinas, porque tentar mantê-las nas férias acaba por ser uma fonte de discussão e não de prazer, o que é contraproducente”, diz o pediatra Hugo Rodrigues.

Estas considerações são válidas a partir dos três anos, ressalva o pediatra da Unidade Local de Saúde do Alto Minho, em Viana do Castelo. “As crianças mais pequenas precisam das rotinas para se sentirem seguras, tranquilas, para poderem antecipar o que vem a seguir. Por isso, faz sentido nos aspetos mais básicos do dia-a-dia – como comer e dormir – manter alguma regularidade em relação ao padrão habitual, apesar de haver espaço para alguma flexibilidade”, aconselha Hugo Rodrigues.

A partir dessa idade, não existe um limite relativamente aos horários nas férias. “É preciso bom senso”, sublinha o pediatra, destacando que é importante analisar os comportamentos da criança para perceber se lida bem com as novas rotinas. “Se estiver bem-disposta e tranquila, é porque não há problema com o que se está a fazer. Mas se estiver cansada e irritada, tem de se repensar os horários”.

“Não tem mal nenhum, pelo contrário, quebrar um pouco as rotinas, uma vez que passamos o ano inteiro com inúmeras atividades”

A preparação é importante: “Não deve haver uma mudança muito grande de um dia para o outro. Deve ser uma coisa progressiva”. Numa criança maior meia hora ou uma hora não fazem diferença, mas nos primeiros anos de vida é uma mudança que pode ser agressiva.

Olga Reis, psicóloga clínica e autora do livro Acabar com as fraldas e o xixi na cama, também considera que “não tem mal nenhum, pelo contrário, quebrar um pouco as rotinas, uma vez que passamos o ano inteiro com inúmeras atividades”. Reforçando a necessidade de não fugir muito dos horários habituais com crianças até aos três anos, diz que a partir dessa idade “os horários podem ser flexíveis”, mas com muita atenção ao número de horas de sono.

“No que diz respeito à alimentação, também “não há grandes benefícios em ter um sistema muito mecanizado ao longo do ano”.

“Se a criança se deita mais tarde não pode ser obrigada a acordar muito cedo para ir para a praia. O sono é muito importante”, afirma a psicóloga. Nos primeiros anos, as crianças precisam de dormir entre 10 a 12 horas, que podem ser compensadas com as sestas, e até aos 10 anos são recomendadas 9 a 10 horas de sono.

No que diz respeito à alimentação, também “não há grandes benefícios em ter um sistema muito mecanizado ao longo do ano”. De acordo com os especialistas, não há problema se saltar um ou outro lanche, mas deve ter cuidado com a ingestão de açúcar, pois há uma tendência maior para consumir sumos, gelados e doces. “Podem fazer um gelado com um sumo de frutas natural, por exemplo”, sugere Olga Reis. Apesar de poder haver uma aposta em refeições mais leves, deve ser assegurada uma alimentação equilibrada.

Promova experiências diferentes

Tal como para os adultos, é importante para as crianças quebrar a monotonia em relação às atividades que fazem durante o ano letivo. “Quanto mais experiências diferentes as crianças tiverem, melhor se desenvolvem”, destaca Hugo Rodrigues, acrescentando que nas férias há a oportunidade de experimentar “coisas mais físicas e mais artísticas”. Sugere, por exemplo, idas ao teatro ou a concertos. “São coisas que não se fazem habitualmente e que podem despertar áreas e curiosidades diferentes”.

Destacando a importância de “conviver com outras pessoas”, o pediatra considera que as crianças devem evitar os ecrãs durante as férias. “Há momentos para isso”, reconhece, “mas como exceção”. Como regra, aconselha, as crianças devem “andar no exterior, estar com outras crianças, com outros adultos, e passar o menor tempo dentro de casa”.

“Cerca de um mês antes do início do ano letivo, as famílias devem tentar “restabelecer a rotina”

Levá-los para o exterior pode ser um grande desafio, sobretudo se estivermos a falar de adolescentes. “Mas é fundamental tirá-los de casa, dizer-lhes para saírem, estar com amigos. Podem ir de autocarro ou de comboio até à praia, por exemplo”, propõe Hugo Rodrigues. Cabe aos adultos “dar-lhes autonomia e responsabilidade q.b., porque a superproteção dificulta o crescimento”.

Ao contrário do que acontecia com as gerações anteriores, que queriam sair de casa para estar com os amigos, os adolescentes “colmatam o estar com os outros com a comunicação através das tecnologias – não exatamente da mesma forma e se calhar com alguns handicaps“.

O regresso às rotinas

Cerca de um mês antes do início do ano letivo, as famílias devem tentar “restabelecer a rotina”, aconselha Olga Reis. Se isso não for possível, uma vez que há famílias que tiram férias mais tarde, os horários devem voltar à normalidade “pelo menos duas semanas antes de iniciar a escola, para haver uma adequação de todo o funcionamento físico e cognitivo”.

Se não houver essa adaptação aos horários, há tendência “para haver birras e chatices”. “Como as crianças não têm maturidade emocional muito desenvolvida, o corpo encarrega-se de libertar os stresses e as necessidades – e às vezes não há compreensão das famílias e há mais chatices”.

Crianças estão com dificuldades para segurar lápis devido ao uso excessivo de aparelhos eletrônicos, alertam especialistas

Julho 23, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Revista Crescer Globo de 7 de março de 2018.

Para contornar o problema, pais, professores e cuidadores devem promover mais atividades manuais dentro e fora de casa

Por Crescer online

Patrick, 6 anos, está há seis meses fazendo sessões semanais com uma terapeuta ocupacional para desenvolver a força necessária em seu dedo indicador e conseguir segurar corretamente o lápis. A mãe do garoto, Laura, culpa a si mesma pela situação. “Olhando para trás, vejo que dei muitos itens tecnológicos para Patrick brincar, excluindo os brinquedos mais tradicionais. Quando ele entrou na escola, os professores me chamaram e mostraram preocupação: ele segurava o lápis como um homem das cavernas. Ele simplesmente não conseguia segurar de outra maneira e, consequentemente, não conseguia aprender a escrever porque ele não consegue manejar o lápis com precisão”, disse a mãe em entrevista ao jornal The Guardian.

Ainda que a situação de Patrick cause estranheza, ela não é tão incomum. De acordo com médicos ingleses, cada vez mais, as crianças estão com dificuldades em segurar lápis e canetas devido ao uso excessivo de tecnologia. Tablets e smartphones, especialmente os sensíveis ao toque, quando utilizados exageradamente podem fazer com que os músculos dos dedos das crianças não se desenvolvam o suficiente para permitir que os pequenos segurem um lápis corretamente.

“As crianças não estão entrando na escola com a força da mão e a destreza que tinham há 10 anos. Para poder segurar um lápis e movê-lo corretamente é necessário um forte controle sobre os movimentos finos dos dedos. As crianças precisam de muitas oportunidades para desenvolver essas habilidades”, explica a terapeuta ocupacional pediátrica Sally Payne, da Heart of England foundation NHS Trust. Fica a dica.

Caligrafia

Segundo a terapeuta ocupacional pediátrica Melissa Prunty, especializada na dificuldade de caligrafia infantil, um número crescente de crianças está desenvolvendo a caligrafia tardiamente. O motivo também seria o uso excessivo de tablets e smartphones.

Para contornar o problema, as especialistas recomendam que as crianças façam mais atividades manuais, como recortar, rabiscar, colar, brincar com blocos, entre outros.

Uso de telas

A Academia Americana de Pediatria libera o uso de telas (que também inclui TV) para crianças maiores de 1 ano e meio, porém, até os 5 anos, o tempo de exposição não deve ser maior do que duas horas por dia. O ideal é que esse período seja intercalado com outras atividades, como leitura, brincadeiras e atividades ao ar livre.

Além de prejudicar a caligrafia, o uso excessivo de tecnologia pode trazer outros problemas, como dores musculares, nas articulações, má postura, dores de cabeça, alteração visual e do sono. As crianças ainda podem apresentar sintomas de ansiedade, irritabilidade, agressividade, queda no desempenho escolar e isolamento. Portanto, vale ficar de olho e usar tais aparelhos com bom senso.

Mais informações na notícia do The Guardian:

Children struggle to hold pencils due to too much tech, doctors say

Como identificar problemas de visão nas crianças?

Julho 22, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 8 de julho de 2019.

Por  Rita Costa

Uma criança que se aproxima muito da televisão ou que semicerra os olhos pode ter problemas de visão. Raul de Sousa, presidente da Associação de Profissionais Licenciados de Optometria revela sinais que merecem atenção.

“Quando uma criança tenta ler um livro demasiado perto ou se aproxima muito da televisão para ver isso é, normalmente, denunciador de miopia”, afirma Raul de Sousa que acrescenta outros sinais que podem revelar problemas de visão.

Ouça aqui o programa completo.

” Semicerrar os olhos é um sinal de que alguma coisa não está a funcionar bem.” Além disso, há as dores de cabeça e os olhos desalinhados. Sinais que pelo que adianta o presidente da Associação de Profissionais Licenciados de Optometria podem indicar igualmente problemas de visão e devem levar a uma consulta de especialidade.

Uma quebra acentuada no desempenho escolar deve também alertar os pais. Muitos vezes é algo que não está bem com os olhos das crianças.

Para ir vigiando o estado da visão das crianças, Raul de Sousa recomenda que se faça uma experiência pelo menos de três em três meses. “Tapar um olho, olhar à distância e comparar a visão com o outro olho, ou seja, tapar os olhos alternadamente e comparar a visão de um olho para o outro.” Além disso é importante fazer consultas de rotina.

Barbie com “curvas” não é bem recebida pelas crianças, diz estudo

Julho 22, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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A linha Fashionistas da Barbie foi lançada em 2016 MATTEL

Notícia do Público de 8 de julho de 2019.

A curvy Barbie faz parte da linha Fashionista, lançada em 2016 pela Mattel. A Barbie é um ícone cultural há 60 anos. Durante muito tempo, a boneca mais famosa do mundo tinha cabelo loiro, olhos azuis, corpo longo e magro, “cintura de vespa”, pés em pontas e peito pronunciado. Evoluiu: foi enfermeira, bombeira, cientista, presidente. Começou a namorar (com o Ken), ganhou uma irmã (a Chelsea) e amigas de diferentes etnias. Mas até há bem pouco tempo, a diversidade não tinha chegado aos diferentes tipos de corpo.

Como resposta às criticas por comercializar uma boneca com uma figura irrealista, a Mattel expandiu, em 2016, a linha Fashionistas da Barbie com três novos modelos: tall, mais alta do que as outras; petite, mais pequena; e curvy, com mais curvas. Mas, de acordo com um estudo publicado na revista Psychology Today, a última não está a ser bem recebida pelo seu público-alvo: as crianças.

O estudo conduzido por Jennifer Harriger, da Universidade Pepperdine, analisou as reacções de raparigas entre os 3 e os 10 anos aos novos corpos da boneca. Os resultados mostraram que as crianças ainda têm preconceitos em relação a corpos com mais curvas.

Dentro dos quatro modelos da linha ​Fashionista – a Barbie original, a tall (alta), a petite (pequena) e a curvy (curvilínea), as crianças foram desafiadas a seleccionar a Barbie que lhes parecia mais “feliz”, “esperta”, “com mais amigos”, “bonita”, “ajudar os outros”, “triste”, “não ser esperta”, “não ter amigos”, “não ser bonita” e “má”. Também tiveram de escolher com que boneca queriam brincar e com qual não queriam.​ No estudo, as quatro bonecas tinham a mesma cara, o mesmo penteado e usavam o mesmo fato de banho.

O estudo revelou uma clara preferência pelas Barbies mais magras. Apenas 6% da amostra seleccionou a Barbie curvilínea como a que gostariam de brincar. Mais de metade do grupo apontou a boneca como a menos bonita. Foi também a menos escolhida como sendo feliz ou esperta. Quando questionadas sobre o motivo pelo qual não queriam brincar com ela, 25 % das crianças respondeu que era por ser “grande”, “gordinha” ou “gorda”.

Num artigo científico publicado em 2018 pelos investigadores María-Pilar León, Irene González-Martí, Juan-Gregorio Fernández-Bustos e Onofre Contreras, da Universidade de Castilla-La Mancha, que analisou a percepção corporal em crianças dos 3 aos 6 anos, os autores estabeleceram uma relação entre a vontade de ser mais magro e a crescente exposição aos media e consequente interiorização dos conceitos de beleza da sociedade ocidental, focados na magreza das mulheres.

A infância acaba aos 6 – Eduardo Sá

Julho 19, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Observador de 7 de julho de 2019.

Se continuarmos por aqui, e se não cultivarmos mais as crianças para o brincar, a infância pode estar “à beira da extinção”.

A partir do momento em que a escola se tem vindo a transformar no “trabalho infantil” do século XXI, temos cada vez mais famílias a fazer com que os seus filhos entrem nela mais tarde – aos 7 – para que tenham direito a mais um ano de infância(!). Ou seja, no século XXI a infância parece terminar aos 6! Se, dantes, a escola se caracterizava como “O” indicador mais inequívoco das crianças com direito à infância, hoje, até porque todas elas vão (felizmente!) à escola, aquilo que distingue as crianças que têm infância daquelas que não a “têm” é o brincar. O tempo e a qualidade do brincar diários que os pais reservam para os filhos.

Como as crianças têm menos tempo de infância, menos irmãos e famílias menos alargadas, menos actividade física, menos recreio, menos convívio e menos relação com o ar livre, receio que tenhamos crianças cada vez mais quietas, mais apáticas e mais caladas. Crianças que não crescem aprendendo com o corpo mas contra o corpo. Crianças que convivem com famílias muito pequenas. Que não brincam tanto como deviam. Que vivem espartilhadas em compromissos escolares e confinadas a espaços reduzidos. Que, muitas vezes, mandam muito mais nos pais do que deviam. Que, por isso, se vão transformando em “novos chefes de família”. E que são tratadas como adultos de tamanho “S”. Restam-lhe os amigos. E os jogos! Até porque (já repararam?) as lojas de brinquedos vão morrendo, aos bocadinhos. Por outras palavras, a solidão no crescimento das crianças começa a ser assustadora. Se continuarmos por aqui, e se não as cultivarmos mais para o brincar, para a palavra, para a fantasia e para as histórias – de forma a minimizarmos a relação (cada vez mais hegemónica) que elas têm com as novas tecnologias – por mais que falemos das crianças como nunca o fizemos, a infância pode estar “à beira da extinção”.

É, portanto, urgente que se deixe de entender o brincar como um actividade de lazer. Ou como uma distracção. Ou quase como um proforme que entendemos conceder às crianças sempre que falamos da infância. Brincar é desconstruir mistérios. É intuir e analisar inúmeras hipóteses. É formular problemas. É discorrer sobre eles e resolvê-los. Brincar é, depois de entrar nelas, “desmanchar” as histórias. E entendê-las naquilo que elas nos querem dizer. E reconstruí-las de forma sempre mais simples, mais esquemática e mais sábia. Brincar é recolher imagens e, ao recombiná-las, cultivar e expandir a imaginação. Brincar não serve para distrair; serve para lavrar a atenção. (Aliás, não há nada que incentive mais a atenção do que o brincar!) Brincar é aprender. Brincar é melhor que fazer trabalhos de casa. Brincar educa para a intuição e para a interpretação. Brincar “puxa pela cabeça”, pelo corpo e pela “alma”. Brincar é “trabalhar”. E é pensar!

Ora, sejamos razoáveis, se continuarmos a estruturar o trabalho dos adultos, unicamente, pelas horas que eles lhe dedicam e nunca pelo realização das tarefas a que se comprometem, fazemos por ignorar que as horas que os adultos trabalham nunca correspondem aquelas em que eles conseguem estar, efectivamente, atentos e concentrados, e a produzir em concomitância com tudo aquilo de que são capazes. Trabalharmos muitas horas parece ser, às vezes, uma forma de expiarmos a culpa pela forma como reconhecemos que nunca conseguimos produzir tanto quanto trabalhamos. Aliás, quando distinguimos um  emprego de um trabalho – e somos capazes de estabelecer a distinção entre ambos e a expressão que alguns tornam sua quando afirmam: “Agora que me divirto, já posso deixar de trabalhar” – parecemos assumir que trabalhar é uma actividade monótona, soturna e onde ninguém nos paga para nos divertirmos. Deve ser por isso que consideramos o trabalho como o contrário do brincar. Como se o nosso trabalho e o das crianças fosse sisudo, difícil e, até, penoso. E o brincar leve, descontraído e amigo do prazer. Mas o mais grave é que, com os nossos filhos, reproduzimos estes vícios de forma. E acabamos a considerar que trabalhar é – sempre! – mais importante do que brincar.

É por tudo isto que não podemos deixar que as crianças continuem a perder, como tem vindo a acontecer desde há vinte anos, horas de brincar. É por tudo isto que é urgente que elas brinquem duas horas por dia, todos os dias! É por tudo isso que não podemos continuar a permitir que, na escola, o brincar seja uma actividade sazonal, de Primavera/Verão, e que esteja quase extinta. E é por tudo isso que, em casa, brincar não pode ser, unicamente, uma actividade de fim-de-semana. Da mesma forma como as crianças ganham quando brincam, os pais ganhariam se brincassem. Aliás, é por não saberem brincar que os pais “desconfiam” da sua utilidade! Portanto, deixe-mo-nos de “brincadeiras” e assumamos que é urgente o brincar! Para que o “fim” da infância não coincida com o início da escola. E para que todas as crianças tenham direito ao brincar indispensável sem o qual pode haver crianças sem que haja infância.

Pai, mãe, ensinem as crianças a mexerem-se

Julho 18, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Daniel Rocha

Artigo de opinião de Cíntia França publicado no Público de 5 de julho de 2019.

São vários os estudos que concluem que a inactividade durante a infância e a adolescência raramente é contrariada na vida adulta. Logo, é forte a probabilidade de existirem cada vez mais adultos sedentários.

A evolução para uma sociedade totalmente capitalista e dependente da tecnologia produziu um impacto (quase) incalculável nas nossas crianças. Enclausurámo-nos em apartamentos, rodeados de estradas ou de outros apartamentos, e o espaço tornou-se contado ao pormenor, definido pelos limites do que é considerado seguro aos nossos olhos. Ganhámos o urbanismo e perdemos a independência.

Será, portanto, impensável — e inconcebível, por vezes — deixar uma criança ir a pé para a escola. Não fará sentido não a deixar à porta das suas actividades diárias, evitando a necessidade de se ter que atravessar uma passadeira. Estamos demasiado cansados, depois de um dia de trabalho, para nos deslocarmos até onde exista um verdadeiro espaço. Estamos, definitivamente, cegos por não nos apercebemos da forma como impactamos o desenvolvimento das nossas crianças.

As provas de aferição realizadas na área da Educação Física, realizadas, pela primeira vez, no passado ano lectivo, sumarizaram dados extremamente preocupantes. Ora vejamos:

  • 33% dos alunos apresentou dificuldades em participar num jogo colectivo;
  • 46% não conseguiu dar seis saltos consecutivos à corda;
  • 40% não conseguem dar uma cambalhota para a frente.

Estes foram os dados escandalosamente repetidos na comunicação social. Estes são os dados que expressam as capacidades dos nossos alunos do 2.º ano de escolaridade. Crianças cuja motricidade foi seriamente afectada pelo nosso estilo de vida. Crianças que dominam a tecnologia do telemóvel e do tablet, privilegiando a activação dos “dados móveis” em detrimento da participação activa no recreio da escola. Crianças que se deparam com a instabilidade que ronda a importância da Educação Física no contexto escolar: ora pela distribuição dos tempos lectivos, ora pelo facto de a disciplina pesar, ou não, nas médias finais. Crianças essas que dificilmente terão a oportunidade de assistir a um evento desportivo que não esteja centrado no futebol.

Pai, mãe, ensinem as crianças a mexerem-se! O desporto é algo demasiado importante para ser ignorado. Capaz de ensinar a vencer e a ser vencido; de incentivar o respeito pelo outro; de perceber a relação entre o corpo e o espaço; de elevar os limites para aquelas que julgamos ser as barreiras das nossas capacidades; de relacionar com o outro, permitindo-nos ganhar amigos para a vida.

Pai, mãe, o desporto é algo demasiado importante para privarem as crianças de o praticarem. São vários os estudos que concluem que a inactividade durante a infância e a adolescência raramente é contrariada na vida adulta. Logo, é forte a probabilidade de existirem cada vez mais adultos sedentários e que serão, precocemente, afectados pela doença.

Pai, mãe, provavelmente nada será mais libertador do que o movimento. Para tal, é necessário que os vossos filhos aprendam como fazê-lo: no recreio da escola, no parque, na actividade extracurricular, no clube, no quintal de vossa casa. Sem esquecer que a aprendizagem envolve prática e não resulta de uma actividade esporádica.

Pai, mãe, ensinem as crianças a mexerem-se e elas ficar-vos-ão gratas para o resto da vida.

Cíntia França

Professora de Educação Física e doutoranda em Ciências do Desporto pela Universidade de Coimbra.

“Dar um celular para uma criança de 5 anos é um crime”

Julho 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Época Negócios de 31 de agosto de 2018.

Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação, defende que pais e escolas têm o dever de estabelecer limites aos filhos no uso da tecnologia.

Saber escolher a idade e o momento para dar um celular ao filho envolve analisar duas questões. É preciso, previamente, saber qual função o aparelho desempenhará na vida da criança. Em paralelo, exige analisar o comportamento do filho e seu entendimento sobre limitações e privações.

Este é o conselho de Sharon Thomas, psicóloga especializada em educação com formação na Georgetown University, na Universidade de Londres e no Hunter College. Nascida no Brasil, mas vivendo nos Estados Unidos desde os 11 anos, Sharon fundou em Nova York o Centro de Educação e Recursos MAIA. Seu trabalho é orientar pais, escolas e professores sobre desenvolvimento acadêmico, déficits de aprendizado e, entre outros fatores, analisar a efetividade da tecnologia dentro e fora da sala da aula.

“Hoje, o celular virou um bem que as pessoas acham que devem ter porque todo mundo tem”, afirma Sharon em entrevista à Época NEGÓCIOS. “Muitos pais me falam: ‘Minha filha tem 5 anos, a amiguinha tem um celular já e ela quer também’, mas eu acho um crime dar um celular para uma criança de 5 anos. Nesta idade, ela não desenvolveu as habilidades básicas.”

As habilidades às quais Sharon refere-se são denominadas nos Estados Unidos como function executives. “Parece papo de CEO, mas a metodologia das escolas americanas é estruturada com base em funções desenvolvidas no lobo dos cérebros e são essenciais para tudo que fazemos em nossas vidas”, afirma. Entre essas funções executivas, estão a capacidade de planejamento, estabelecimento de metas no longo prazo, iniciativa para tomada de decisões e flexibilidade comportamental.

“Nos EUA, as escolas tentam entender como a tecnologia está afetando ou beneficiando o desenvolvimento dessas funções executivas. Às vezes, uma nova tecnologia entrega um aprendizado tão rápido, que dificulta que as pessoas foquem, absorvam e se aprofundarem no conhecimento. Parece que virou tudo bullet point”, diz.

As funções executivas, segundo Sharon, demoram de 25 a 32 anos para serem desenvolvidas por completo – por esta razão, diz a especialista, “seria irrealístico esperar que crianças e jovens consigam se automonitorar e impor os limites sobre o uso da tecnologia”. No caso da criança de cinco anos, um celular não teria a função prática (“uma criança nesta idade não fica sem supervisão”) e poderia expô-la a situações inseguras (“com quem ela vai começar a conversar?”). “A idade certa para dar um celular varia de pessoa para pessoa, mas é preciso entender o motivo dele ser necessário. Eu não daria para um adolescente só ‘porque todo mundo tem’. A função dos pais também é saber dizer não”, diz.

Sharon defende que é preciso celebrar os benefícios que a tecnologia proporciona, em termos de conhecimento e comunicação, mas é preciso monitorá-la para não criar vícios, desânimo e até comprometer o desenvolvimento dos filhos. “Muitos pais me procuram dizendo que seus filhos estão desanimados e indo mal na escola. Vamos analisar a rotina deles e vemos que eles passam grande parte do dia no quarto conectados, socializando com várias pessoas e, depois de várias horas, ficam exausto e ‘sem tempo'”.

Sharon recomenda que os pais mostrem aos filhos os benefícios da internet e as limitações do mundo virtual. “A vida online só aponta para tudo que é maravilhoso em geral. E, no caso de uma adolescente que está lutando para criar uma identidade diferente das dos pais, seu uso excessivo pode se tornar uma pressão e virar até bullying”, diz.

Um outro aspecto a trabalhar nesta relação, segundo Sharon, é dar o exemplo. “Uma das coisas ruins que a tecnologia trouxe para os adultos foi esse fácil acesso a todos o tempo todo. Eles se sentem impelidos a responder rapidamente a todos. E aí ocorre que ficamos o tempo todo online. Mas precisamos criar limites para nós mesmos. Do contrário, os filhos vão falar: você não quer que eu use o iPad, mas olha você conectado o tempo todo”, diz.

Do lado das escolas, Sharon diz que as instituições possuem a responsabilidade de entender se a tecnologia levada para a sala de aula está, de fato, ajudando no desenvolvimento dos alunos. E fazer intervenções, para garantir que não está desenvolvendo um aprendizado mais profundo e eficaz. É uma missão difícil, diz, porque o que vende hoje no mundo da educação é “tecnologia” e qualquer escola nova irá ser construída em torno de alguma novidade de mercado. “Vemos muitas escolas enchendo salas de iPads e novas ferramentas tecnológicas, mas sabemos que o nosso aprendizado não depende apenas de conseguirmos uma informação. Mas, de como sabemos usar essa informação de forma relevante.”

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