Aos oito anos, Laurent prepara-se para entrar na universidade

Julho 6, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 30 de junho de 2018.

Laurent Simons tem apenas oito anos, um QI de 145 e um diploma do secundário na mochila. A criança de oito anos nascida na Bélgica mas a viver actualmente em Amesterdão, na Holanda, concluiu o ensino secundário este ano, depois de condensar seis anos de estudos em apenas um ano e meio. À cadeia de televisão belga VRT, disse que a sua disciplina preferida era a Matemática. “Porque é tão vasta. Tem estatística, geometria, álgebra…”

Agora, Laurent tem dois meses de férias antes de abraçar o próximo desafio: a universidade. O rapaz ponderou estudar para se tornar um astronauta ou um médico cirurgião, acabou por escolher seguir Engenharia Informática na universidade. Não que a escolha preocupasse demasiado os pais: “Se ele decidisse ser carpinteiro, isso não seria um problema para nós — desde que fosse feliz”, disse o pai durante a mesma entrevista.

Como não é invulgar ocorrer noutros casos de alunos sobredotados, Laurent revelou dificuldade em concentrar-se nas aulas. Não porque a matéria fosse particularmente difícil, mas porque se aborrecia. “Às vezes os alunos demoravam demasiado tempo a responder e eu respondia por eles”, contou.

Numa entrevista de 2017 ao PÚBLICO, Cristina Palhares, coordenadora do núcleo de Braga da Associação Nacional para o Estudo e Intervenção na Área da Sobredotação (ANEIS), explicou que os problemas de concentração são comuns nestas crianças: “Todos os dias, a escola é um sítio onde não aprendem e torna-se um lugar de fastio.”

Laurent também teve dificuldades em fazer amigos na escola, como explicou o pai à televisão belga: “Para ele era difícil brincar com os outros. Olhava para ver como tudo se passava. Fazia as coisas de forma diferente. Não sabia o que fazer aos brinquedos”.

Entrar num doutoramento aos 14 anos

O caso de Laurent é raro mas não é inédito, até porque, de acordo com os números da Organização Mundial de Saúde, entre 3% e 5% das crianças apresenta uma capacidade de aprendizagem muito acima da média. Só em Portugal, a Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas estimava a existência de cerca de 40 mil crianças até aos 12 anos com capacidades cognitivas acima da média.

Também este mês, a canadiana Sakina Rizvi, de 17 anos, licenciou-se em História das Religiões na Universidade de Toronto, onde já tinha realizado uma curta passagem por Engenharia Informática. Foi a aluna mais jovem a receber um diploma naquela universidade, como contou a televisão local CityNews.

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Nos EUA, há o caso também recente de Carson Kimp e do irmão, Canaan. Em 2017, então com 14 anos, Carson concluiu uma licenciatura em Física na Texas Christian University (TCU), e está agora a iniciar um programa de doutoramento. Canaan, o seu irmão mais novo, então com 11 anos, seguia-lhe as pisadas e iniciava o curso de Astrofísica e Engenharia na mesma universidade.

No Reino Unido, em 2001, Arran Fernandez fez história ao conseguiu passar no exame de acesso à universidade aos cinco anos de idade.

 

 

 

A maioria dos sobredotados não sabe que o é

Setembro 5, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.dn.pt/ de 10 de julho de 2017.

Pedro Aires, 12 anos, com os pais | Pedro Correia/Global Imagens

Joana Capucho

É estimado que 3% a 5% das crianças sejam sobredotadas. Especialistas e pais queixam-se da falta de respostas em Portugal

Aos oito meses, Pedro disse a primeira palavra. Para grande frustração dos pais, não foi “mamã” nem “papá”, mas “peixes”. Com dois anos já decorava as matrículas e as marcas dos carros. Aos cinco, quando a mãe o viu a ler os rótulos dos frascos de champô e lhe perguntou há quanto tempo sabia ler, disse-lhe que o fazia “há milhões de anos”. Mas as suspeitas de que o filho era sobredotado só viriam a ser confirmadas por volta dos 7 anos. “Tinha um péssimo comportamento nas aulas. Éramos constantemente chamados por causa das suas extravagâncias. Não estava atento, mas tinha ótimas notas”, recorda a mãe, Ana César.

A certa altura, Pedro começou a ser acompanhado na escola por um psicólogo, que o avaliou como “bem dotado”. Mas, apesar do excelente aproveitamento, mantinham-se os problemas de atenção e comportamento. Ana recorda-se de receber inúmeros telefonemas da professora do filho logo às 09.00, porque o Pedro nunca fazia os trabalhos de casa. Foi o “desespero” que levou a família a pedir uma nova avaliação fora da escola. “O relatório indicou que atingia o nível da sobredotação.” Um “alívio” para o pai, que finalmente percebia os seus comportamentos, uma preocupação para a mãe, que não sabia como lidar com isso. Pedro, agora com 12 anos, sabe que as suas capacidades intelectuais são bastante superiores à média, mas essa não é a regra. Dizem os especialistas que a maioria dos sobredotados não estão identificados como tal.

“Estima-se que 3% a 5% das crianças e adolescentes que frequentam as escolas têm características de sobredotação. A maioria está por identificar. Muitos destes jovens passam despercebidos na escola por falta de estruturas de identificação e acompanhamento”, afirma Alberto Rocha, presidente da direção da Associação Nacional para o Estudo e a Intervenção na Sobredotação (ANEIS). Atendendo aos últimos dados do Ministério da Educação sobre os estudantes matriculados em Portugal (2014-15), podem existir até 80 mil crianças e jovens sobredotados em Portugal. “Muitos são apenas percebidos como hiperativos, desinteressados ou como alunos incómodos, em conflito com o próprio ensino, que não corresponde às suas necessidades e expectativas. Uma percentagem significativa de professores confessa nunca ter detetado um aluno sobredotado ao longo da sua vida profissional”, acrescenta o especialista em psicologia da educação.

Foi a pensar “nos casos que não são detetados” que Ana César decidiu deixar de falar sob anonimato: “Parece um assunto tabu. Ninguém fala, ninguém quer saber.” Para Helena Serra, presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS), a falha na identificação deve-se “à falta de estrutura (como por exemplo uma Equipa de Apoio à Capacidade/ou à Sobredotação), que é preciso providenciar e que teria funções e responsabilidades atribuídas quanto a estes alunos, como é o caso das Equipas/Departamentos de Educação Especial atuais que existem em qualquer Agrupamento”. A professora da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti considera que “essa falta de “estrutura de resposta” deve-se aos “mitos” que ainda estão muito presentes no caso destes alunos. Só os “coitadinhos” é que despertam vontade política de responder porque socialmente “fica bem””.

Essa falha tem consequências graves para as crianças, que, segundo Helena Serra, “muitas vezes andam tão saturadas na escola, entediadas, desgastadas, sem estímulos, portam-se mal, são provocadoras, têm insucesso, batem com a porta, abandonam e algumas podem depois cair nas franjas”. Ou então, adianta, “andam silenciadas, talvez desligadas e a cumprir “mínimos”, mas frustradas, tristes, infelizes, sem estímulo ou motivação”.

Entrar na escola aos quatro

L. tem 6 anos e meio e um QI (média ponderada) de 144. Passou agora para o 3.º ano. Entrou na escola com 4, sensivelmente um ano depois de os pais terem descoberto que era sobredotada, na sequência de um ataque de pânico. Até então, nem mesmo as perguntas sobre a vida e morte fizeram os pais desconfiar. “Tinha alguns problemas comportamentais e um dia disse-me que não queria ir para a escola. Eu insisti e, quando chegámos, teve uma crise de pânico”, recorda a mãe, A., ao DN. Já no 1.º ano, L. começou a “mostrar comportamentos de aborrecimento. Dizia que não queria ir para a escola, que estava farta, porque todos os dias lhe perguntavam a mesma coisa”. No 2.º ano começou um programa diferenciado de ampliação de conhecimentos.

Segundo Helena Serra, as respostas para estas crianças incluem “a “aceleração”, que é o poder avançar um ano por ciclo, num máximo de dois anos, e o princípio geral da diferenciação no ensino-aprendizagem, que é de facto uma ideia peregrina, porque na prática é bem complicado numa mesma sala ter opostos e a média e gerir com êxito tudo isso”. Considera, por isso, que a resposta é “curtíssima e falaciosa”. Uma opinião partilhada por A. “Portugal tem de respeitar estas crianças. Dar-lhes as mesmas condições que dá aos demais. Só peço que a L. possa seguir ao ritmo dela.” A. pediu um parecer para que a filha avance mais um ano, mas “veio no sentido do indeferimento, porque a lei só permite uma aceleração e não prevê que um aluno termine o quarto ano antes dos 9 anos”. No entanto, adverte, isso vai sempre acontecer, uma vez que L. entrou aos 4 anos. Por outro lado, critica, essa “antecipação está a contar como uma aceleração quando não o é”.

L. sabe os números “até aos milhões” e “só lhe perguntam quanto é dois mais dois”. Isso faz que passe fases de grande angústia. Segundo os especialistas, L. tem uma idade cognitiva que corresponde sensivelmente ao dobro da sua idade. “No outro dia perguntou-me quando é que pode sair para tomar café com um amiga”, conta a mãe, destacando que, naturalmente, a educação não é dada de uma forma típica. L. é uma criança “muito racional”. Para perceber o que era o Alzheimer, por exemplo, a mãe teve de lhe mostrar algumas TAC. Mas não deixa de ser uma criança como qualquer outra: tanto gosta de ver o National Geographic e o Odisseia como o Panda.

Falta de respostas preocupa pais

Ana César teve de lutar para que o colégio que o filho frequenta lhe arranjasse um plano diferente. Finalmente conseguiu. “Não há respostas. As escolas deviam ter um plano diferente para estas crianças, que, no entanto, devem estar nas turmas com as outras crianças”, lamenta.

Alberto Rocha concorda que “as respostas são quase inexistentes” em Portugal. “Entendemos que a implementação de medidas educativas para apoio aos alunos com características de sobredotação deve prever uma estrutura que permita a aceleração, a complexidade e o aprofundamento curricular, bem como todo o material suplementar necessário ao desenvolvimento das várias áreas do desenvolvimento psicossocial destes alunos”, sugere.

 

 

 

 

 


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