“Passei 899 dias numa instituição. Hoje fui adoptado”

Maio 24, 2016 às 9:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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texto do http://p3.publico.pt de 7 de maio de 2016.

Together we rise

Todos os dias, 1200 crianças são institucionalizadas nos Estados Unidos da América — por serem abandonadas, retiradas às famílias em processos que envolvem violências várias ou por falta de condições económicas dos pais. É uma realidade mundial — em Portugal, em 2014, havia mais de 8000 menores em instituições de acolhimento. A história da Together We Rise começa exactamente em família. Um jovem norte-americano, estudante de Direito, descobriu que tinha um primo de nove anos a viver num carro. Queria fazer algo por ele, e outras crianças que precisavam de adopção, e, com amigos de curso, tentou inscrever-se numa instituição de solidariedade. Sem sucesso: tinham menos de 21 anos e não podiam os aceitaram. Foi então que lhes ocorreu criar uma associação própria. A Together We Rise, nascida em 2008, proporciona programas educacionais e bolsas de estudo, oferece materiais escolares, bicicletas e outros brinquedos e forma voluntários para trabalhar nesta realidade. Objecto primeiro: melhorar a vida destas crianças. Numa campanha de sensibilização, decidiram agora mostrar o outro lado desta realidade quase sempre triste: as adopções. “Vemos muitas notícias negativas sobre as instituições de acolhimento e achamos necessário destacar as adopções maravilhosas que acontecem todos os dias, contou ao The Huffington Post Gianna Dahlia, directora da associação. Com a “hashtag” #fosterlove, os meninos e meninas aparecem ao lado de um quadro preto e uma mensagem. “Passei 411 dias numa instituição. Hoje, 10 de Novembro de 2015, fui adoptada”, lê-se num dos quadros. “A nossa família está completa”, aparece noutra. “Há muitos estereótipos negativos à volta de crianças institucionalizadas, mas elas são apenas meninos em busca de famílias que as amem – e há famílias lá fora a lutar por eles.” Este é o primeiro dia do resto da vida deles.

mais fotos no link do Público

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/20387/passei-411-dias-numa-instituicao-hoje-fui-adoptada

“Crianças abandonadas têm cérebros mais pequenos e perdem massa cinzenta para sempre”

Fevereiro 19, 2016 às 12:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Entrevista do Observador a Charles Nelson no dia 29 de janeiro de 2016.

crianças

Rita Ferreira

O cérebro das crianças abandonadas perde massa cinzenta para sempre, comprometendo o seu futuro. Pais que pressionam demais os filhos também causam problemas. Charles Nelson, neurocientista, explica.

Charles Nelson é professor de pediatria na Universidade de Harvard e durante anos estudou o desenvolvimento do cérebro de crianças sujeitas a condições extremas, como o abandono e os maus tratos. As conclusões a que chegou são surpreendentes. Estas crianças, quando não são retiradas desses ambientes num curto espaço de tempo — até aos dois anos — sofrem danos irreversíveis no cérebro. Perdem massa cinzenta e o seu Quociente de Inteligência não ultrapassará os 60/ 70.

Ficar numa instituição também não é uma boa solução. Para Charles Nelson não há dúvidas: uma família de um pai, uma mãe, dois pais, duas mães ou um pai e uma mãe é sempre melhor do que uma instituição, por melhor que essa instituição seja.

Mas e nas famílias “normais”? Podemos estimular o cérebro de uma criança para que ele se desenvolva mais? E até que ponto é que puxar demasiado pelos filhos pode ser prejudicial?

Charles Nelson esteve em Portugal para participar na conferência Love Synapses, organizada pela Fundação Brazelton/ Gomes Pedro e o Observador falou com ele.

charles

– Qual é o objecto do seu estudo?

Estudo o desenvolvimento do cérebro em bebés e crianças e o que lhes acontece quando passam por coisas más. Durante 15 anos estudei bebés, que hoje são adolescentes, que foram abandonados em crianças e tiveram de ser criados em instituições públicas, em orfanatos. Estudei crianças de um bairro de lata no Bangladesh, que são expostas a todo o tipo de coisas horríveis. Estudei crianças no Brasil que crescem em bairros com elevados níveis de violência. Estudo coisas terríveis.

– E que a que conclusões chegou?

A conclusão não surpreendente é que as más experiências, que acontecem cedo na vida das crianças, podem ter um impacto no desenvolvimento. Depois, durante o que chamamos de período crítico, o cérebro precisa de experiências que ocorram em alturas específicas para que se consiga desenvolver de forma normal. Quando se falham essas janelas temporais, o desenvolvimento da criança atrasa­-se. Para uma criança aprender a falar, tem que ouvir uma linguagem numa determinada altura. Se quiser que ela desenvolva a visão, tem que ser exposta ao mundo visual. A parte surpreendente é o quão regulados são estes períodos temporais. É fácil falhar uma oportunidade.

– Não há tempo para esperar…

Vamos usar os Estados Unidos como exemplo. As crianças que crescem num lar onde são sujeitas a maus tratos, onde os pais lhes batem ou as negligenciam, o que muitas vezes acontece é que os casos não chegam ao conhecimento das autoridades ou, quando chegam, demora-­se muito tempo até retirar a criança desse lar. Nessa altura, o desenvolvimento do cérebro já foi, possivelmente, alterado permanentemente. Essas são algumas das conclusões. Ao outro problema chamamos de “resgatar o período crítico”. Por exemplo, vejo que os seus olhos são perfeitamente alinhados, mas quando vemos bebés com os olhos tortos ou com os olhos a deambularem no campo de visão, esses problemas têm que ser tratados durante os primeiros dois anos de vida. De outro modo, ficarão com problemas permanentes na visão.

Em Itália e noutros sítios, alguns trabalhos recentes sugerem que poderá haver tratamentos, em idade adulta, para este tipo de problemas. Mas são experimentais e não estão prontos para serem consumidos. Agora pense nos milhões de crianças no mundo, a quem acontecerem coisas más. Tipicamente, se não intervimos nos primeiros anos, os efeitos podem ser permanentes. Mas há estudos recentes, na área da neurociência, que fizeram a sugestão entusiasmante de que poderão ser desenvolvimentos tratamentos para resolver estes problemas em idade adulta. Um estudo publicado esta semana estimou que um milhar de milhão de crianças é todos os dias exposta a violência. Ou seja, um quarto das crianças do mundo, até aos 17 anos.

Além disto, temos 100 milhões de orfãos e oito milhões que vivem em orfanatos e instituições. Uma enorme quantidade de miúdos estão expostos a isto. É um grande problema de saúde pública.

– Descobriu o que acontece ao cérebro das crianças quando são expostas a este tipo de experiências?

Entre as muitas coisas más que podem acontecer ao cérebro numa fase inicial da vida, a pior é negligenciá-­lo. Vou fazer uma analogia com os computadores. O cérebro infantil não sabe estabelecer ligações e está à espera de receber um conjunto de instruções, de códigos que digam, faz isto, e isto e aquilo. Quando não o recebe, desmorona-­se, não sabe como funcionar. Num estudo que fizemos na Roménia, observámos que a atividade elétrica do cérebro é muito menor em crianças que estavam em orfanatos, em comparação com as que não estavam. Se as retirarmos de uma má instituição e as pusermos numa boa família, a atividade cerebral fica normalizada, embora isto tenha que ser feito até aos dois anos de idade. Depois realizámos ressonâncias magnéticas aos cérebros dessas crianças, entre os 8 e os 10 anos, e descobrimos que as crianças que estavam numa instituição tinham cérebros mais pequenos, com menor quantidade de massas cinzenta e branca.

A massa branca, que é a que carrega os impulsos elétricos, contudo, aumentava um pouco se essas crianças fossem retiradas das instituições e colocadas numa família de acolhimento. A massa cinzenta, contudo, não apresentou qualquer melhoria. E isso pode significar que tenham perdido células ou as ligações entre elas. e esse efeito pode ser permanente. Quando nascemos temos demasiadas células e demasiadas ligações e começamos a seleccioná-las (deitamos fora as que não interessam e investimos nas que são importantes). E o que pensamos que acontece nestes casos é que o cérebro descarta ligações e células em demasia, porque vimos que as instruções sobre o que fazer não estavam lá. Estes efeitos são muito sérios, porque, se forem permanentes, provavelmente não haverá tratamento para os reverter.

– Mas quais são as consequências concretas que isso terá na vida dessas crianças?

Funcionalmente, serão crianças com um QI entre os 60 e os 70 [segundo a classificação de Wechsler, o valor da inteligência média é entre 90 e 109, mas estes valores são controversos]. Terão problemas em termos de elevadas funções cognitivas. Por exemplo, estamos a ter uma discussão em que ambos achamos que temos razão. Se eu tiver muita flexibilidade cognitiva, vou mudar de ideias se, com o tempo, você apresentar um argumento melhor. Mas se não tiver essa flexibilidade, isso não acontecerá. Estas funções são prejudicadas, a memória fica reduzida, a linguagem é afetada e a capacidade de termos relações fica devastada. A nossa capacidade de termos relações adultas está ligada às relações que os bebés constroem cedo na vida com o pai ou com a mãe. E não se trata de relacionamentos íntimos, mas de relações sociais.

Resumindo, se estas crianças têm QI’s reduzidos, má memória, má capacidade de planeamento, más capacidades linguísticas e reduzida aptidão de planeamento, como se vão tornar membros da sociedade? Portanto, a preocupação é que os eventos tóxicos que acontecem numa fase prematura da vida também podem ter um enorme impacto económico, porque estas crianças não estarão preparadas para serem pessoas que contribuam para a sociedade.

– Os seus estudos centram-­se em casos extremos, mas pode isto ser aplicado a famílias e crianças ditas normais? Algumas das maiores discussões entre pais focam­-se entre deixar o bebé experimentar por ele próprio ou obrigá­-lo, por exemplo, a ter uma rotina de sono. Ninguém costuma pensar nisto como algo tóxico ou extremo. A neurociência estuda este tipo de eventos, mais quotidianos?

Nem por isso e a razão é que a maioria das pessoas foca­-se nos eventos extremos, como a pobreza ou o stress. As crianças que vivem e são criadas em famílias com lares normais serão membros normais da sociedade, a não ser que sofram de uma doença mental grave ou de uma deficiência física debilitante. Durante muitos anos, até provavelmente há 15 ou 20 anos, grande parte do foco estava em crianças normais, que não estavam expostas a ambientes adversos. Descobrimos diferenças individuais que afetam os resultados. Como o temperamento, por exemplo. 15% dos bebés são muito tímidos e a maioria continua a sê-­lo em idade adulta. Isso pode ser muito debilitante. Se os virmos numa sala de aula, são aqueles que se sentam a um canto e não interagem com as outras crianças.

Se esses miúdos forem educados num lar onde os pais não os pressionem, os apoiem e entendam os momentos pelos quais eles estão a passar, eles vão, gradualmente, dessensibilizar­-se. Mas, num lar diferente, a mesma criança poderá enfrentar os pais e desafiá-­los. O meu filho, por exemplo, jogou futebol e hóquei durante muitos anos. Ia aos jogos e estavam lá pais inacreditáveis, a gritarem aos filhos de seis anos e a chamar-­lhes nomes por falharem um golo. Essas crianças correm o risco de ter problemas psicológicos, embora ainda estejam dentro dos limites. Podem crescer a odiar o pai, mas não terão um QI de 60 ou um cérebro mais pequeno.

–  Com base nas conclusões dos seus estudos, será que é possível enriquecer as atividades cerebrais das crianças?

Ah, já parece os pais dos meus alunos em Harvard. Quer inventar a super criança. Bem [pára uns segundos para pensar], vamos pensar em habilidade cognitiva, na inteligência. Não sabemos qual é a contribuição que os genes e a educação dos pais têm nesse campo. Digamos que um pai quer que o filho vá para a melhor universidade do mundo, se torne no Steve Jobs e vá liderar a Apple. Sabemos que os pais que pressionam muito os filhos podem criar crianças com muitos problemas. Está a perguntar se há maneira de os incentivar sem criar problemas. A resposta é sim, se isso for feito dentro dos limites do que a criança é capaz de fazer. Se o seu QI estiver nos valores normais, não é possível que cresça até ao 180. Se a criança nascer com o potencial de ter um QI de 130, é capaz de conseguir puxá-­lo até aos 150, com certas experiências. Mas há um limite. Mas agora deixe-­me perguntar­lhe: o que queria dizer com enriquecer?

– Não estava a falar em pressiona­-las demasiado, mas de criar um meio termo.

E não é isso que a maioria dos pais faz? Não queremos que o pêndulo baloice muito. O que me preocupa é o lado extremo, que é muito perigoso. Nos EUA, há pais que pensam que, a não ser que o filho frequente o jardim de infância certo, quando têm três ou quatro anos, não conseguirá entrar na universidade certa. Pensam que isso determina o futuro universitário, 15 anos depois. Há pais que querem ensinar crianças de três anos a ler. Se mostrarem interesse, há que encorajá-­las, claro, mas não podemos forçá-­las pela goela abaixo.

– Em que ponto é que isso se torna um problema?

O que um bom pai faz é ler a criança. Se deteta sinais de que o facto de puxar pelo filho lhe está a causar stress, ou ansiedade, ou angústia, então deve recuar. Se o pai puxa pelo filho e a criança responde bem, está tudo ok.

– Mas se um pai está no extremo de puxar muito pelo filho, como é que consegue reparar nisso? Porque pode sempre pensar: “Ok, ele não gosta disto, mas é para o bem dele, um dia vai percebê-­lo, quando tiver sucesso”.

O exemplo clássico é a música. A maioria das crianças que começam com aulas de música muito cedo odeiam praticar. Os pais obrigam­-nas a praticar, mas se falar com a maioria dos músicos profissionais, eles vão agradecer aos pais por os terem obrigado a treinar, apesar de, naquele tempo, ser uma fonte de discussão. Mas uma coisa é dizer que se tem de praticar, outra é dizer que é um menino feio ou estúpido se não praticar. Essa é a linha da qual estamos a falar. Não há problema em puxar pelas crianças, desde que saibamos o ponto em que temos de recuar. No caso dos pais que não sabem, que não conseguem captar os sinais, os filhos terão problemas.

– Que tipo de problemas?

São problemas que terão tendência a aparecer cedo, mas persistirão no tempo, no caso de os pais continuarem a insistir. A ansiedade será o primeiro, seguido da depressão. Depende do que os pais fizerem à criança,­­ se apenas a pressionam ou se é um abuso verbal ou emocional. Se forem exigentes, mas estiverem a pensar nos interesses da criança, é diferente dos momentos em que os pais quebram a tal linha limite. A questão está nos pais, nos que nunca foram muito bem sucedidos e querem à força que o filho tenha sucesso. Estão a viver através da criança, aí é que surgem os problemas.

– Porque se foca mais nos extremos e não estuda tanto isto?

Primeiro, porque um neurocientista olha para casos extremos esses casos e, em segundo, porque estou mais preocupado nos milhões de crianças que não têm hipótese nenhuma na vida, ao invés das crianças que apenas têm pais que os pressionam.

“Sou contra a institucionalização de crianças em quase todos os casos”

– Pode aplicar as conclusões a que chegou, relativas às crianças em situações limite, às políticas de adoção e de famílias de acolhimento? Acha que algo tem de mudar?

Sim, já falei com muitos advogados sobre isto. Têm de prestar atenção aos períodos críticos. Muitas vezes, a justiça demora demasiado tempo a tomar uma decisão sobre o futuro da criança. Insiste em dar segundas hipóteses aos pais e a inseri­-los em programas, sem se aperceberem que os danos causados se vão acumulando e podem ser irreversíveis. Depois, há que treinar os assistentes sociais para reconhecerem problemas e intervirem mais cedo. A lei tem de mudar.

Já usei Portugal como exemplo. Portugal tem muitas crianças a crescerem em instituições, o que não é bom. Por isso, têm de arranjar alternativas aos cuidado dos orfanatos. Mas se um pai abandona um bebé, então o que temos de fazer é encontrar uma solução permanente. Uma família de acolhimento é algo temporário, por isso será que podemos colocá-­los para adoção, a nível interno ou internacional? O importante é não as deixar em instituição ou orfanatos.

– Nem em instituições que sejam consideradas boas?

Não. Confesso, sou contra a solução da instituicionalização em quase todos os casos. Mas não sou ingénuo. Se pensar no Médio Oriente , no Afeganistão e no Iraque, por exemplo,­­ ou em África, haverá órfãos em qualquer local onde haja um cenário de guerra ou doença. Nem sempre é razoável dizer que oito mil crianças cujos pais morreram com o ébola vão ser adotadas. Como uma solução a curto ­prazo, uma instituição pode ser uma solução, mas apenas durante alguns meses, caso se tratarem de bebés. Se forem crianças ou adolescentes, os casos mudam. Se tiverem 15 anos, o efeito de ir para um orfanato não se compara ao que um bebé de um ano sentirá.

– Então acha que, na maioria dos países europeus, nenhuma criança deveria chegar a um orfanato?

Sem dúvida. Parece surpreendida…

– É que às vezes pensamos nas instituições e reconhecemos que, mesmo sem terem lá os pais, as crianças não sofrem de violência ou de maus­tratos, portanto, o que falta?

Várias coisas. Lá não há realmente um adulto que invista nas crianças. Estão lá porque são pagos para estar a tomar conta delas. Depois há turnos, por isso várias pessoas poderão tratar da mesma criança. E devido ao rácio de crianças, um adulto pode, ao mesmo tempo, ter de cuidar de dez crianças, o que privará a criança da atenção individualizada que teria se estivesse com uma família. Já estive em boas instituições, e o bom aqui significa que tinham um melhor rácio entre crianças e funcionários ­­— talvez de cinco para um. Mas a criança sente sempre uma sensação de abandono.

– A partir de que idade começa a senti­-lo?

Depende. Se tiverem sido abandonados à nascença, quanto tiverem poucos anos de idade percebem que estão ali por não terem pais. Mas se lá chegarem já com alguma idade, percebem imediatamente o que aconteceu.

– E se tiverem dois anos?

Essa é a altura mais difícil. Vão perceber que algo lhes foi retirado, mas sem compreenderem exatamente o quê. Talvez consigam formar um novo laço, mas esse é o problema das instituições. Imaginemos que tenho dois anos, os meus pais morrem e chego a um orfanato. A quem me afeiçoo? Com quem formo uma ligação? Preciso de uma pessoa que se chegue à frente e, realmente, tome conta de mim. Mas essa pessoa irá sempre para casa ao final do dia, ter com a sua família. Por isso, quem cuidará de mim?

– Isso tem implicações no desenvolvimento do cerébro.

Enormes. A primeira está na capacidade em criar relacionamentos. Temos de pensar que, a partir do momento em que afeta o comportamento, o cérebro já está afetado. O que não sabemos é o que acontece ao cérebro de crianças que estão em boas instituições e que lá chegam com dois anos, em vez de bebés. Estamos a pensar fazer estudos em outras partes do mundo para abordar esta questão. A única forma de aproximar uma instituição de uma família é ter adultos que lá estejam 24 horas por dia, como se faz em alguns locais em África. Se lá estiverem assim, todos os dias da semana, parece uma família.

– Uma família numerosa…

Há adultos que têm um papel permanente na vida de uma criança. Muitas vezes perguntam-­me isto: crescer numa família com oito ou nove irmãos não será o mesmo que estar num orfanato? Porque, nesses casos, o mais novo recebe a atenção dos mais velhos, mesmo que os pais estejam lá sempre, pois não conseguem prestar a mesma atenção a dois miúdos ou a dez. Mas não deixam de ser os pais.

– Há alguma solução para isto?

Não sei, mas gostaria de saber, por isso é que tento trabalhar com a UNICEF, para ir a locais diferentes e tentar coisas diferentes. O meu problema é que sei qual é o problema, mas desconheço a solução. É irritante ouvir pessoas a criticar os problemas e, depois, quando perguntos por soluções, elas dizem que não sabem. Na Serra Leoa, onde o vírus do ébola mais atacou, houve milhares de crianças que ficaram sem pais. E o pior foi que ninguém se aproximou dessas crianças, por pensarem que estavam infetadas. As pessoas usavam aqueles fatos de proteção para irem ter com as crianças, o que era assustador. Nessa situação, que é extrema, porque não se colocaram as crianças com famílias em vez de instituições? Mesmo que não fosse uma solução permanente, ao menos era similar ao ambiente ao qual estavam habituadas.

A solução será convencer mais famílias a acolherem crianças, nem que seja temporariamente. Outra solução poderia ser dá­-las para adoção, embora isso exija maiores cuidados, em termos de investigação dos pais que acolhem as crianças, porque há muitas pessoas com ideias perigosas, como o tráfico sexual.

– Quando disse que os cuidados de assistência social deviam estar mais atentos aos problemas das crianças, que problemas são esses?

Portugal, por exemplo, terá de ter uma economia muito forte para fazer isto. Penso que qualquer grávida deveria ter uma enfermeira que a acompanhasse durante a gravidez, e ela estaria treinada para detetar certos sinais. Dever­-se-­ia procurar sinais na mãe. Se era ou não, uma gravidez desejada, se a mãe está deprimida, se está ressentida por ter um bebé e o considera como a causa dos seus problemas. Ou podem procurar sinais que indiquem apenas que a mãe precisa de ser educada a ser mãe, a cuidar do bebé. Não existe um manual de instruções que ensine como ser pai. Alguns apenas precisam de ajuda. Não estou a falar de uma ajuda diária, mas apenas de algumas visitas durante a gravidez e outras tantas após o nascimento.

Hoje não o fazemos, em todo o mundo, porque assumimos que temos o direito individual de cuidarmos do nosso filho da maneira que entendermos. Não creio que essa seja a abordagem correta. Acho que temos a obrigação, enquanto sociedade, de cuidarmos das nossas crianças.

“O cérebro desenvolver-se-á sempre melhor num ambiente familiar, seja com heterossexuais, seja com um casal gay”

– Em Portugal, o Presidente da República vetou recentemente um projeto de lei para a adoção por casais do mesmo sexo. O argumento das pessoas que são contra este tipo de adoção alegam os interesses da criança, dizendo que ela ficará melhor numa instituição do que numa família onde não tenha um pai e uma mãe de sexos diferentes.

Existem sólidas provas e estudos científicos de crianças que crescem em famílias homossexuais. São tão saudáveis como crianças que cresceram em famílias heterossexuais e crescer numa família gay não tem qualquer impacto na orientação sexual da criança. Por isso, é muito melhor para uma criança estar numa casa com apenas um pai ou uma mãe, ou com pais homossexuais, do que estar num orfanato. De longe. Não votaria nesse homem agora.

– Portanto, e tendo em conta esses estudos, a conclusão é que o cérebro se desenvolverá sempre melhor se estiver no meio de um ambiente familiar?

Sempre. Mesmo se os pais forem gays.

 

 

Portugal tem de apostar mais nas famílias de acolhimento

Novembro 24, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 13 de novembro de 2015.

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Fundação Gulbenkian discutiu a situação dos menores em instituições.

“Portugal tem demasiadas crianças institucionalizadas e tem de apostar mais na solução de famílias de acolhimento”. As palavras são de Andrew Kendrick ,professor da Universidade de Strathclyde, em Glasgow, Escócia, especializado em cuidados de crianças institucionalizadas. O professor falava ao DN à margem da conferência “Acolhimento de Jovens em Instituição”, o culminar de um projeto que a Fundação Calouste Gulbenkian desenvolve desde 2012. “Reparei que uma das grandes diferenças entre Portugal e a Escócia é que nós temos muitas mais crianças em famílias de acolhimento e muito poucas em instituições”, explica o professor universitário em entrevista ao DN. “Em Portugal tem de haver um equilíbrio maior, tem que se perceber o que tem de ser feito para mudar este estado de coisas e o que é que existe na cultura em Portugal que não permite a escolha dessa vertente”. Segundo explicou Daniel Sampaio, coordenador científico do programa da Gulbenkian, atualmente existem cerca de oito mil crianças institucionalizadas. Na Escócia, no universo de seis milhões de habitantes, existem apenas mil crianças em residências de acolhimento, termo técnico usado no Reino Unido que recusa a expressão “institucionalização”. Daniel Sampaio admitiu ainda que em Portugal é necessário “reduzir o tempo de institucionalização, já que muitas vezes este se arrasta por muito tempo por alguma dificuldade de resposta do sistema. Há ainda uma necessidade de reforçar o treino e a supervisão dos técnicos que trabalham com crianças em instituições, que ainda falha em Portugal”, diz o psicólogo. “Deve ser considerado que os técnicos têm de ter um estatuto superior do que o que têm atualmente na sociedade” acrescenta Andrew Kendrick. “Hoje em dia ainda têm um papel menorizado. Há aqui uma ambivalência que tem de acabar”. O professor universitário defendeu ainda que “há falta de oportunidade de soluções para a realização de um treino mais adequado para os técnicos que trabalham nas instituições em Portugal. O treino e a preparação técnica é crucial e deve ser desenvolvido”.

Armando Leandro, presidente da Comissão de Proteção das Crianças e Jovens em Risco, e um dos oradores do encontro, admitiu que “o foco em Portugal deve estar nas crianças”, reforçando a tónica de que “as opções públicas e as estratégias orçamentais devem esta centradas nesse aspeto”, explicou o juiz conselheiro. “Temos de assegurar a vigilância feita às crianças, estar sempre atento e pôr sempre a possibilidade de abusos sexuais ao mínimo sinal. Até aqui não acontecia porque as crianças não falavam ou, quando falavam, não acreditavam nas queixas”, sublinha o especialista escocês, também investigador de casos de abusos sexuais ocorridos em instituições. No que respeita à possibilidade de abusos sexuais, “tem de haver uma cultura e atitude aberta. No passado não havia essa atitude, as instituições fechavam-se em si mesmas”, conclui o investigador.

Em 2014, as autoridades portuguesas detiveram 146 homens e oito mulheres por abuso sexual de crianças, cinco homens por abuso sexual de menor dependente, 15 homens por abuso sexual de pessoa incapaz de resistência e sete agressores por atos sexuais com adolescentes. A grande fatia dos casos investigados pelas autoridades policiais ocorre, porém, em seio familiar (45%).

 

 

 

 

A casa dos não adotados. E as vidas que eles seguiram sozinhos

Novembro 1, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe o seu comentário
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Reportagem do Observador de 11 de outubro de 2015.

Observador

Tiago Palma

São acolhidos nos lares ainda crianças. Vivem lá a infância e a adolescência. A certa altura percebem que não vão ser adotados ou retornar à família. Chegada a maioridade, têm que sair. Para onde vão?

O Bairro 18 de Maio, na Outurela, em Carnaxide, logo às portas de Lisboa, é mal afamado. Ana Têmpera chegou em novembro de 2012. Foi ela uma das primeiras raparigas que para lá foram morar vindas dos lares da Fundação “O Século”, onde cresceram, ocupando um de dois apartamentos de autonomia que a Câmara Municipal de Oeiras disponibilizou à Fundação.

Ana sai sempre cedo para a faculdade, onde está a tirar o mestrado, depois de se ter licenciado bem recentemente em Publicidade e Marketing. Foi a primeira das raparigas (e rapazes) institucionalizados nos lares de “O Século” a consegui-lo. Ana regressa sempre quando a noite já se pôs, mas diz que ninguém lhe perguntou, nunca, de onde vem e para onde vai, e que se sente, hoje como no primeiro dia, mais uma moradora daquele bairro social.

Ana chegou à Fundação “O Século” em meados de 2001 — tinha sete anos — acompanhada de duas das três irmãs, todas mais velhas. Nunca foi adotada. Viveu lá até aos 18 anos, altura em que ingressou em Direito, um curso que era o desejado, mas que não foi o desejável, e deixou-o logo para trás. Não foi fácil a saída do lar. “Eu sempre disse que quereria viver no lar até aos 30 anos [risos], que não me queria ir embora de lá, que aquilo era a minha casa e que não me imaginava a viver sozinha, a sair de lá. Quando fiz 18 anos, começou a falar-se nisso, na abertura dos apartamentos de autonomia, e a verdade é que, na altura, eu sentia-me cada vez menos integrada no lar, tinha acabado de entrar na faculdade, as raparigas eram muito mais novas do que eu, e foi aí que percebi que era tempo de fazer a transição, embora me custasse fazê-lo. Foi das decisões que mais me custou tomar na vida”, recorda.

A Fundação “O Século” tem dois lares de acolhimento, todos em S. Pedro do Estoril. Há a “Casa das Conchas”, que se destina ao acolhimento de 25 crianças e adolescentes em risco, de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 6 os 18 anos, privilegiando, quando assim é possível, a reintegração destes nas famílias. E há a “Casa do Mar”, destinada ao acolhimento de 12 adolescentes do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos, adolescentes que necessitam de ser afastadas das suas famílias, por serem vítimas de maus tratos ou de outras situações de perigo.

Excluídas as hipóteses de adoção e de reintegração na família biológica, o que o lar privilegia é a elaboração um projecto de vida pessoal e profissional, autonomizar as adolescentes, promovendo assim a sua uma integração social. Os apartamentos de autonomia são o derradeira etapa da autonomização. É numa dessas “Casas da Ponte” que Ana vive.

Leonor Lucena é assistente social na Fundação “O Século” e a responsável técnica pelos apartamentos, as “Casas da Ponte”. Porquê esse nome? “Ao longo dos anos de trabalho nestes lares, começámos a pensar que era importante haver um sítio que pudesse fazer a ‘ponte’ entre os lares e a vida autónoma dos jovens. Ou seja, um sítio onde eles pudessem treinar melhor as competências de autonomia, competências que no lar são difíceis de treinar, pois é um contexto de instituição, um lar que é grande, com muitos jovens e em que estes nunca, ou quase nunca, fazem sozinhos uma só coisa. O nome, ‘Casas da Ponte’, vem precisamente daí, casas que são uma ponte entre o lar e a vida autónoma. Nós sentíamos um fosso, um grande fosso, quando estes jovens saíam autonomamente, do lar, para a vida deles.”

A Fundação “O Século” recebeu os apartamentos há três anos. “Não fomos logo, logo para lá. Ainda precisámos de os equipar, com mobiliário, com electrodomésticos, de os decorar, e em novembro desse ano vieram as primeiras jovens, sendo que as segundas vieram logo depois, em maio. Os apartamentos foram realmente importantes. Elas tinham dificuldades em muitas, muitas coisas, no que diz respeito à autonomia”, explica Leonor.

Ana, por sua vez, recorda que na “Casa do Mar” faziam tudo pelas raparigas. Ou quase tudo. “Nós tínhamos uma tarefa, diária, o que não é nada se se comprar com aquilo que temos, hoje, de fazer no apartamento. Aqui, tudo o que é cozinhar, tudo o que é limpar, tudo o que são despesas, é responsabilidade nossa. O maior desafio, curiosamente, pelo menos para mim foi-o, é avisar as duas colegas de casa sobre o que é que vou fazer, onde é que ando, e isso, confesso, ainda me faz confusão. É claro que somos autónomas, que cada uma sabe o que faz da sua vida, não tenho que dizer com quem vou, mas tenho de avisá-las se durmo ou não durmo em casa, para que durmam, elas, descansadas, tenho de avisá-las se trago ou não trago amigos e amigas cá a casa, e isso foi um desafio, pois acreditava que ao vir para cá, a autonomia seria total, e não é.”

Quando a adopção não é opção e o retorno à família também não

Em dezembro de 2014, de acordo com os dados do Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, existiam 429 crianças e adolescentes em situação de adoptabilidade. O número de candidatos que se predispunham a adoptar, mas ainda em lista de espera, era quatro vezes superior: 1805. Até aos seis anos de idade, o número de pretensões era cerca de 24 vezes superior ao número de crianças disponíveis para adopção. Mas a verdade é que são menos, bem menos os que querem adoptar uma criança dos sete aos 12 (349 candidatos para 217 crianças) . E menos ainda (22 para 34) os que o querem fazê-lo com adolescentes dos 13 aos 15 — a idade até à qual se pode ser adoptado em Portugal.

Ana Têmpera chegou à Fundação com sete anos, em situação de adoptabilidade, mas tal nunca veio a acontecer. A razão é só uma: não estava só. Em 2014, só 20 por cento dos candidatos a adoptantes estavam predispostos a adoptar irmãos. Os números são diferentes de 2001 até hoje, mas a tendência não se alterou tanto assim.

“Apesar de eu só ter sete anos na altura, e de ainda ter idade para ser adoptada, nunca fui, uma vez que vivia com as minhas irmãs, e não fazia sentido adoptarem só uma de nós e não as restantes. Mais a mais, eu tenho muitos, muitos irmãos, o mais velho com 63 anos, e eu sou a mais nova, com 22. A minha irmã do meio, que vivia comigo no lar, tem 26 e a outra, que também vivia lá, 30 anos. Nunca perdi o contacto com eles. E ainda que nos adoptassem às três, que surgisse uma família, na ‘Casa do Mar’ a adopção não era, aparentemente, uma opção. Nunca foi. E nós sabíamos disso. A idade legal para se entrar lá é a partir dos 12 anos — excepcionalmente, eu entrei mais nova –, e essa era, na altura, que me recordo, a idade final para se ser adoptado. Ninguém é adoptado com 12 anos. Nunca conheci quem tivesse sido adoptado lá com essa idade. Como é um lar de acolhimento, nós sabemos que, ou se é reintegrado na família, ou vivemos lá até atingir a maioridade. Eu sempre soube que ia lá viver até aos 18 anos”, lembra Ana.

Leonor Lucena explica que “sem excepção, todos os jovens, mais novos ou mais velhos, que ali entram, sabem, à partida, que não vão ser adoptados”, que o que lhes vai suceder é que “vão trabalhar, connosco, no sentido de se autonomizarem”. Muitas vezes, em alternativa, o que ainda pode vir a suceder é a reintegração deles na família biológica, “e é por isso que nós trabalhamos, também, com as famílias, é por isso que queremos manter um contacto com elas, pois, independentemente de regressarem ou não para ela, as famílias são importantes, são uma figura de ligação à vida fora do lar e são uma figura de apoio para nós, lar, e para os jovens que cá vivem. O nosso objectivo é o de autonomização dos jovens. Ou se autonomizam ou retornam às famílias biológicas. Não há, habitualmente, e salvo raríssimas excepções, uma terceira opção”, explica Leonor.

“Casas da Ponte”. Quem são (e como têm de ser) estas meninas-mulheres?

A vida no lar, crescer no lar, apesar de se saber que poderá ser longa a permanência, é normal, tão normal quanto é possível. “Igual, igual, não é, pois vivem no lar. Mas, de resto, vão à escola da comunidade, escolhem o que querem estudar, que curso querem, pratica desporto quem quer praticar desporto, faz actividades culturais quem quer fazê-las, vão ao teatro, vão ao cinema, saem à noite, com horários de regresso ao lar que variam consoante a sua idade e a sua responsabilidade, são crianças e adolescentes que têm os seus amigos, dentro e fora do lar, crianças e adolescentes que procuramos que tenham uma vida tão normal e feliz quanto nos for possível dar-lhes. O lar não é, nem deve nunca ser, não é saudável que o seja, uma estrutura fechada ao exterior”, diz Leonor Lucena.

Ana lembra-se de quando chegou ao lar, 15 anos. Por ter consigo as irmãs, teve a integração facilitada, mas fez dela uma criança “birrenta”, como a própria hoje se descreve. “Vivi sempre com elas. Antes, vivi durante um ano num centro de acolhimento temporário — supostamente, e por lei, como é um centro de urgência, só lá ia ficar duas noites; fiquei um ano… –, mas sempre com elas. A minha integração foi muito mais fácil por causa disso. Mas também é verdade que os próprios monitores, que criam ligações muito fortes connosco, que são quase como nossos pais, foram importantes na minha integração. Claro que foi uma infância e uma adolescência diferente, diferente da das minhas amigas e dos meus amigos, que voltavam para casa, para os pais. No fim da escola eu regressava ao lar. Mas tive uma infância e uma adolescência felizes, sim.”

As irmãs acabaram por sair, Ana continuou por lá. E continuou com o mesmo objectivo do começo. “Quando fui para o lar estava no 1.º ano. E sempre fui muito boa aluna, um dos meus sonhos sempre foi o de entrar na faculdade, não sei porquê, mas tinha esse ‘bichinho’ de entrar na universidade em mim, desde pequenina. Um sonho que era também o de todas as pessoas que me ajudaram no lar, que me criaram lá. Então, não fiz mais do que investir nesse sonho, não olhei para o lar como, ‘sou uma pobrezinha, que tenho que viver aqui!’, mas antes como, ‘o lar está a dar-me uma oportunidade para estudar e eu vou ter que aproveitá-la!’”

Ana é um caso de sucesso nos estudos e na vida, autónoma, fora do lar. Mas nem sempre é assim. “É verdade que muitas das raparigas que chegam ao lar, chegam muitas vezes numa fase da sua vida em que pouco ou nada fazem para mudá-la, talvez por serem mais velhas, raparigas muito revoltadas, que não aceitam o passado que tiveram, a vida que têm, e vão para o lar a pensar no dia em que vão sair. Eu, como fui para o lar em pequenina, adequei-me ao que o lar tinha para me dar, às regras, mas sempre vi o lar como uma coisa boa. Não tenho do que me queixar”, recorda Ana.

As raparigas que, saídas dos lares da Fundação, vão viver para as “Casas da Ponte”, têm que ter características particulares. Desde logo, a idade. E, mais importante, a postura. Não de hoje, mas de sempre. “Todas as jovens que vêm para os apartamentos de autonomia têm que ser, logo à partida, maiores de idade. Vão viver sozinhas, sem nenhum adulto aqui, e têm que ter mais de 18 anos. Depois, têm que ter características muito próprias, têm que ser jovens que, logo no lar, demonstrem responsabilidade, maturidade e, sobretudo, que queiram vir – isto tem que ser importante para elas, ninguém pode estar cá a contragosto, só porque sim, pois isso vai prejudicar o ambiente que se vive na casa. Por fim, são jovens que têm um projecto de vida totalmente definido, sabem o que querem fazer, umas estudar, em cursos específicos, profissionais ou superiores, outras trabalhar, ou tentar procurar um emprego, e são, portanto, jovens que querem investir no futuro”, explica Leonor Lucena, a responsável técnica pelos apartamentos de autonomia.

Nas “Casas da Ponte” da Outurela só vivem raparigas. A mais velha tem 24 anos. “É verdade que ultrapassou a idade máxima para viver nos apartamentos de autonomia, mas, excepcionalmente, a Elvira vai continuar connosco, pois está desempregada e vamos apoiá-la até se empregar”, explica Leonor. As restantes têm entre 18 e 23 anos. Uma delas, Cátia, trabalha na cozinha da Fundação e é “uma cozinheira de mão-cheia”. As restantes estudam. Ana Têmpera vai começar o Mestrado em Comunicação e Marketing, duas estão a licenciar-se, uma em Design, outra em Educação, e mais uma rapariga no 12.º ano, no curso profissional de Teatro. “Como tenho a hipótese de continuar a estudar, quero terminar o meu Mestrado, quero trabalhar no entretanto, ganhar o meu dinheiro e continuar a viver mais um tempinho no apartamento, não muito tempo mais, uma vez que sei que vou fazer 23 anos, mas vou viver lá até à transição para a minha casinha, para o meu espaço, que não precisa de ser grande, nem precisa de ter grande coisa. É esse o meu objectivo. Depois, se Deus quiser e Portugal me deixar, vou trabalhar na minha área”, assume Ana como ambição.

As raparigas têm uma renda mensal a pagar à Fundação “O Século” e cada uma paga a sua parte. As despesas, no início, não estavam incluídas na renda, mas negociou-se, pediu-se à Fundação que as incluíssem, aumentou-se ligeiramente a renda e lá se incluíram. “A única despesa que nós temos que pagar, fora a renda, é a Internet e a TV, que é paga entre todas. Normalmente, e como cá em casa nenhuma de nós está a trabalhar, não tem um ordenado fixo, o tribunal apoia as raparigas até aos 21 anos — às vezes, excepcionalmente, até depois disso –, dando-lhes um suporte de autonomia de vida, um valor fixo todos os meses. E é através desse dinheiro que nós pagamos a renda, as despesas e geri-mo-lo o melhor que sabemos”, explica Ana.

A Fundação “O Século”, e concretamente Leonor, o que faz é ser uma figura de acompanhamento. Às vezes distante. Propositadamente. “Nós o que fazemos é ajudá-las a aprender a gerir esse dinheiro. Elas têm as despesas normais que cada um de nós tem, despesas com alimentação, com os transportes, com a faculdade, a roupa, o telemóvel e, em casa, têm que pagar a água, a luz, o gás e a electricidade. O nosso objectivo é que elas saibam, enquanto vivem nas ‘Casas da Ponte’, gerir o orçamento. Para isso, eu reúno-me com elas, uma vez por mês, às vezes quinzenalmente, e falamos sobre estratégias para gerir, também para conseguir poupar, mas isso é só uma sugestão e são elas, sozinhas, quem gere o próprio dinheiro. Se me importava de as ajudar em tudo? Não, claro que não. Mas às vezes obrigo-me a não fazê-lo para que elas saibam o quanto custa ser autónoma”, explica.

E os apartamentos de autonomia para rapazes? “O nosso objectivo é, no curto prazo, ter também apartamentos de autonomia para eles, sim. A Câmara Municipal de Cascais cedeu-nos, há pouco tempo, um apartamento ali na zona da Parede. O que falta fazer? Faltam-nos as obras de requalificação, mobilá-lo e trazer os rapazes. Acreditamos que pode vir a acontecer no próximo ano.”

mais fotos e vídeo no link:

http://observador.pt/especiais/casa-dos-nao-adotados-as-vidas-seguiram-sozinhos/

 

 

I Fórum da Gondomar Social – “O Acolhimento Terapêutico de Crianças e Jovens”

Setembro 9, 2015 às 6:00 am | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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gondomar

A Gondomar Social – Associação de Intervenção Comunitária é uma Instituição Particular de Solidariedade Social vocacionada para o desenvolvimento de respostas que prossigam fins sociais e cuja atividade se centra na dinamização de um Lar de Infância e Juventude Especializado «Coração d’Ouro» que acolhe 18 jovens do sexo feminino com idades entre os 12 e os 18 anos e com problemas de comportamento e saúde mental diagnosticados.

Atualmente estamos a organizar o I Fórum da Gondomar Social – O Acolhimento Terapêutico de Crianças e Jovens que decorrerá nos próximos dias 8 e 9 de Outubrono Pavilhão Multiusos de Gondomar. Pretendemos criar um espaço de reflexão, estudo e partilha relativamente ao acolhimento institucional, em geral, e à importância de investir em práticas cada vez mais específicas e dirigidas às necessidades que as crianças e, em particular, os jovens revelam. Assim, este Fórum irá contar com a participação de ilustres palestrantes não só de todo o país, mas também internacionais, como é o caso do Prof. Richard Rollinson, conceituado palestrante na área do acolhimento residencial especializado junto de jovens com problemas de comportamento.

Serve o presente para remeter o Programa deste fórum estando certos de que a dinamização desta iniciativa contribuirá para o enriquecimento de todos os profissionais que intervém nas áreas da infância, juventude e respetivas famílias. Assim solicitamos a v/ prestimosa colaboração na divulgação deste evento.

As inscrições devem ser enviadas através do link: https://docs.google.com/forms/d/1cLvBP9xdP___iJm4B7it8OfJ8t3FbU4leP4kaFu8tis/viewform?usp=send_form

Caso tenha problemas a preencher o formulário de inscrição poderá mandar os seguintes dados para o email: gondomarsocial@gmail.com

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O valor da inscrição é de:

€15: Público em Geral.

€10: Estudantes/Desempregados(as).

O pagamento deverá ser efetuado mediante transferência bancária para:

NIB 0010 0000 45939510001 42.

Após o pagamento agradece-se o envio do comprovativo da transferência por e-mail ou fax, para validação da inscrição.

Relembramos que as inscrições são limitadas à capacidade da sala, pelo que serão validadas por ordem de remissão de comprovativos. INSCREVA-SE!!

Quaisquer esclarecimentos adicionais, agradece-se o contacto:

gondomarsocial@gmail.com

Tel. 22 421 99 20 | Fax. 22 421 99 29

http://gondomarsocial.webnode.pt/lar-de-inf%C3%A2ncia-e-juventude-especializado/

Tertúlia – “Crianças e jovens institucionalizados – Desafios da (re) construção de um projeto de vida”

Agosto 25, 2015 às 12:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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Cartaz da tertulia

mais informações:

www.solardomimo.org

A ideia da não vinculação é monstruosa para a espécie humana

Julho 21, 2015 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Entrevista do Público a Jesús Palácios no dia 13 de julho de 2015.

Paulo Pimenta

Uma criança adoptada quase nunca quer voltar para a família biológica diz o psicólogo espanhol Jésus Palácios Paulo Pimenta

Ana Cristina Pereira

Jesús Palacios, professor da Universidade de Sevilha, estudioso da adopção e do acolhimento, diz que a aposta em famílias de acolhimento tem de ser faseada e acompanhada. “Para desenvolver-se bem, toda a criança precisa que alguém esteja louca por ela”, acrescenta, citando o seu “mestre”.

O professor da Universidade de Sevilha esteve na abertura e no encerramento do I Simpósio do Programa Doutoral de Psicologia, no final da semana passada, na Universidade do Porto. Entusiasmou-se ao falar nas suas investigações sobre crianças e adolescentes, em particular sobre o acolhimento familiar e a adopção, de que há tantos anos se ocupa. Alguns dos modelos que desenvolveu nessas áreas foram aplicados em Espanha e inspiraram outros países, como Portugal.

PÚBLICO: Portugal decidiu agora privilegiar o acolhimento familiar de crianças até aos seis anos, em vez do acolhimento em instituição. É uma mudança a que se assiste em toda a Europa. Porquê?

Jésus Palacios: Cada espécie animal está preparada para crescer num contexto: este é o meu argumento. A espécie humana, particularmente nos primeiros dois a três anos, precisa de um contexto individualizado, com forte vinculação. As instituições resolvem bem alguns problemas, mas não esta necessidade de personalização, de compromisso pessoal. Como dizia o meu mestre Bronfenbrenner, para desenvolver-se bem, toda a criança precisa que alguém esteja louca por ela.

As famílias de acolhimento podem dar isso?

É isso que têm de dar.

Há quem defenda que essa opção deva ser evitada porque a criança já foi retirada à família biológica e entregue à família de acolhimento, pode mudar para outra, regressar à família biológica ou ir para uma família adoptiva.

A alternativa qual é? Estar num lugar sem vinculação. A ideia da não vinculação é monstruosa para a espécie humana. Uma das coisas básicas que um profissional [de um centro de acolhimento] tem de aprender é a distanciar-se. Não pode sofrer pelas 24 crianças que tem a seu cargo. Às famílias de acolhimento não lhes pedimos que se vinculem pouco, porque a criança vai sair de lá, pedimos-lhes que se vinculem o mais depressa possível. Deve é evitar-se a acumulação de transições.

Algumas são inevitáveis…

São. Devem ser preparadas. O que estamos a passar não é um objecto, não é um pacote, não é um móvel. É um menino ou uma menina que tem relações estabelecidas, vínculos. Há que fazer a mudança de maneira gradual, suave, permitindo à criança manter algum tipo de contacto com a família anterior.

As famílias de acolhimento querem vincular-se?

Se estiverem bem seleccionadas e bem formadas, sim. Normalmente, já têm filhos. O seu projecto não é de parentalidade, é de solidariedade. Acolher é gostar, é acompanhar, e frequentemente, é despedir-se e ajudar a criança a despedir-se. Isto é fantástico para as famílias que se sentem cómodas a fazer isto, mas o acolhimento, como a adopção, não é para todos.

Que características é preciso ter em mente na hora de seleccionar as famílias de acolhimento?

Queremos que sejam mentalmente sãs. Isto não significa que não têm  problemas, significa que têm saúde mental. Se é um casal, que tenha boa relação. Se tem filhos, que tenha boa experiência parental. Têm todos de entender bem o que significa acolhimento. O acolhimento não é uma solução do tipo pronto-a-vestir. Depende da criança. Há acolhimentos de curta duração, porque o prognóstico de recuperação da família biológica é positivo a curto prazo; há acolhimentos de dois ou três anos, porque o prognóstico de recuperação é positivo mas lento; há acolhimentos até à maioridade, porque a família não pode recuperar, mas a criança não pode ser adoptada.

Como por exemplo?

Imagine uma mãe sozinha que tem uma pequena deficiência mental. Ela adora o filho, o filho adora-a. Enquanto ele é pequeno, ela consegue garantir as rotinas básicas, mas, à medida que ele cresce, tem necessidades mais complexas. Ele não pode ir para adopção. Vamos procurar uma família onde possa estar até aos 18 anos e que se sinta bem a integrar a mãe na vida dele [com visitas, com telefonemas…].

Nota-se, na opinião pública, dificuldade em entender por que há em Portugal mais de oito mil crianças e jovens em situação de acolhimento e centenas de famílias candidatas a adopção que esperam há anos.

As crianças que vão para adopção correspondem aos casos mais extremos. Nos nossos países, os critérios são muito restritos. Poucas crianças que não podem estar com a família biológicas podem ser adoptadas e temos um grupo importante de crianças que podem ser adoptadas mas não encontramos candidatos. Se tiverem mais de 10 anos é difícil. Se tiverem um irmão ou dois, pior.

Qual o maior risco de crescer numa instituição?

Não gosto de ‘psicopatologizar’. Muitas crianças crescem em instituições e tornam-se adultos funcionais, mas é verdade que a institucionalização facilita alguns comportamentos. Aprendem, por exemplo, que os adultos são substituíveis. Estas crianças pensam: ‘O que importa é haver um adulto que cuide de mim. Para mim, é igual que seja o da manhã, o da tarde ou o da noite.’ Com frequência, perguntam: ‘Hoje, quem vem? Hoje, a quem cabe?’ Isto é uma má aprendizagem. ‘Não cuidam de mim porque gostam de mim, porque são loucos por mim. Cuidam de mim porque é o seu trabalho, a sua obrigação’, pensam. Há maior fragilidade emocional, maior insegurança. Os companheiros também mudam. Chegam, vão embora. Eles aprendem depressa que as separações são dolorosas e frequentes. Aprendem a proteger-se.

Não se dão?

Têm relações mais superficiais. Quando chegam a uma família, põem muito à prova. Querem saber se também são dos que se vão embora ou se vão estar aí mesmo quando eles se portem mal. Precisam de confirmação. Se a resposta for ‘se te portas mal, não gosto de ti’, eles sabem que é melhor não se vincularem.

Em Portugal as famílias respondem por 4,5% das crianças em situação de acolhimento. Os lares de infância e juventude e os centros de acolhimento por 88%. Como pode um país mudar de paradigma?

A transição de um sistema para o outro não se pode fazer de uma maneira drástica, acelerada. É importante começar pelas crianças mais pequenas, que mais beneficiam de crescer numa família e que são casos mais fáceis, e progressivamente ir fazendo a desinstitucionalização das mais velhas. A decisão não pode ser: a partir de 1 de Janeiro, todos para famílias de acolhimento. Seria um fracasso. Se isto começa sem formação, sem apoio, sem acompanhamento, não funciona.

Qual a melhor forma de captar famílias?

Fazendo acolhimentos satisfatórios. Eu conheço o trabalho da [instituição de solidariedade que trabalha com famílias de acolhimento] Mundos de Vida, em Famalicão. Aí existe um bom modelo de trabalho.

Também há uma mudança de mentalidade a fazer?

Sim. Temos o mesmo problema em Espanha. Vêm crianças da Bielorrússia, do Sara Ocidental, para acolhimento de Verão com famílias. Acolher uma criança da Bielorrússia, do Sara Ocidental ou de Chernobyl é bom? Ser família de acolhimento é fazer o mesmo mas com crianças de perto. Recebes a criança, não para ficar com ela, não para que seja tua filha, mas para estar com ela um tempo, cuidar dela, desfrutar da sua companhia, depois despedes-te dela. Claro que todos choram na despedida, mas todos estão contentes porque cumpriram o objectivo.

Que campanhas podem funcionar?

Existem dois tipos de campanhas. Umas gerais, de sensibilização, que captam à volta de 10% das famílias de acolhimento. E há campanhas específicas, dirigidas a sectores da população que podem ser mais sensíveis ou a zonas com maior tradição. Se não se fizer nada, ninguém vai procurar.

Como se preparam estas famílias?

A formação é importante. Muitas pessoas pensam que o acolhimento é só de crianças pequenas, que é para sempre. É preciso conversar sobre o que significa, explicar que idades têm estas crianças, que problemas, que perspectivas. Não é dar conferências. É fazê-las sentir as coisas e perceber quais as necessidades emocionais destas crianças, quais os problemas de comportamento que podem ter, a importância de respeitar a sua identidade, as suas origens. Nada disto é intuitivo. Uma pessoa pode ter muita capacidade e com bom critério pensar que o melhor que pode acontecer a um menino acolhido ou adoptado é não saber que é acolhido ou adoptado, por exemplo. O nosso trabalho é explicar-lhe que ser acolhido ou adoptado faz parte dos direitos daquele menino. Não é uma opção que ele tem. Temos de lhe dar formação para que entenda isso e para que saiba como fazê-lo.

Formação e acompanhamento?

Sim. Tem de haver um trabalho de formação prévio e um trabalho de acompanhamento, que seja mais próximo e mais intenso nas primeiras etapas, nas quais é mais fácil que aconteçam coisas novas. É aconselhável ter uma linha telefónica para apoiar as famílias de acolhimento a funcionar 24 horas.

E, ao mesmo tempo, ter alguém a trabalhar com as famílias biológicas?

O acolhimento temporário só tem sentido se se trabalhar com a família biológica. Se não, é hipócrita. Por exemplo, tens uma mãe com problemas de alcoolismo, retiras-lhe a criança. Ou a ajudas ou ela tem mais uma razão para beber. Se não vais ajudar, não ponhas a criança em acolhimento temporário. Há que determinar se há prognóstico de recuperação ou não. Essa decisão não pode esperar a infância toda. Um dos problemas das leis de protecção é que não controlam o suficiente os tempos. Creio que ao fim de 18 meses tem de haver um prognóstico de recuperação ou não recuperação.

A tendência é para esperar anos que a família mude.

São famílias disfuncionais. As suas possibilidades de mudança são reduzidas e dependem da ajuda que se lhes possa dar. Se não houver ajuda, não mudam. É preciso planificar acolhimentos mais longos, se a adopção não é possível. Se a adopção é possível, adopção. A adopção dá mais estabilidade. É uma medida de filiação. Mas na maior parte dos casos a adopção não é possível. Agora, em Espanha, vai começar a adopção aberta. A criança é adoptada mas mantém algum tipo de contacto com a família biológica. É só para as famílias que estão dispostas a isso.

A nova legislação portuguesa também admite essa possibilidade de contacto. O que diz a experiência internacional?

Que a figura do mediador é importante. Tipicamente, as necessidades mudam com o tempo. Podes começar por não querer muito contacto e depois querer mais. Ou, pelo contrário, podes começar por querer muito e, depois, a família de origem começar a ter atitudes que não te agradam e quereres diminuir o contacto. É bom haver profissionais que ajudem a regular isto.

Quem desempenha esse papel?

Há diferentes modelos. Nuns países, técnicos do equivalente à Segurança Social em Portugal; noutros, técnicos de agências especializadas em adopção. As redes sociais, como o Facebook, minam estes modelos. Os miúdos acabam por encontrar alguém. Isto levanta vários problemas, um deles é uma parte a impor-se à outra. ´Eu quero encontrar-te. É-me indiferente se queres ou não.´

A família biológica pode não querer contacto.

Sim. Havendo mediação, encontra-se uma forma que seja aceitável para as partes. Talvez no início seja melhor por carta, por telefone.

Como costumam reagir as famílias adoptivas?

Normalmente não gostam. Têm medo que a criança queira voltar para a família biológica, mas isso quase nunca acontece. A criança não quer voltar, quer conhecer, compreender, compor a sua história. Quanto mais a família adoptiva facilitar essa tarefa, menos ameaçadora é, menos angustiante.

A legislação também mudou no sentido de facilitar a busca da origem genética. Quando a hora chega, que devem fazer os pais adoptivos?

Transmitir a segurança de que estarão sempre ao lado do filho ou filha. Se algum dia ele ou ela quiser procurar a família biológica, vão acompanhá-los neste processo. Chegarão a um acordo sobre qual o melhor momento. Nem todos os momentos são bons para isso. Muitos adolescentes que dizem que querem procurar a mãe biológica, na verdade, só precisam de saber que essa possibilidade existe.

O risco de desilusão é grande?

Sim, mas com mediação é menor. Antes do encontro, o mediador pode dizer: se agora formos procurar a tua mãe, o que vamos encontrar é … O melhor é esperar. O adolescente entende. O que não entende é o engano, a ocultação, a ameaça.

 

Família de acolhimento em vez de lar de infância

Julho 4, 2015 às 1:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 28 de junho de 2015.

O documento citado na notícia é o seguinte:

Casa 2014 : Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens de 2014

 

Nuno Ferreira Santos

Ana Cristina Pereira

Alteração aprovada pela Assembleia da República remete para crianças até aos seis anos. Como irá o país perder a tendência para as institucionalizar?

Anuncia-se uma grande mudança no sistema de protecção de crianças e jovens em risco em Portugal: se a família restrita ou alargada não serve, deve privilegiar-se uma família de acolhimento, em detrimento de qualquer instituição, sobretudo se as crianças tiverem menos de seis anos.

Basta ler o relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens de 2014 para perceber para onde está orientado o sistema: as famílias respondem por 4,5% das crianças em situação de acolhimento; os lares de infância e juventude e os centros de acolhimento por 88%.

Visto à lupa, no ano passado havia 5388 crianças e jovens em lares de infância e juventude, 2062 em centros de acolhimento temporário, 341 em famílias de acolhimento, 208 em comunidades terapêuticas, 93 em centros de apoio à vida, 84 em colégios de ensino especial, 92 em lares residenciais, 59 em lares de apoio, 55 em acolhimento de emergência, 42 em comunidades de inserção e 46 em apartamentos de autonomização. Só 13% das crianças em situação de acolhimento tinham menos de seis anos.

A alteração legal já foi aprovada na generalidade pela Assembleia da República, com os votos a favor do PSD e do PP, e está na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. Partiu da equipa, liderada pelo procurador Maia Neto, que coordenou o debate em torno da revisão da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo, em vigor há 14 anos.

Não é uma invenção nacional. Portugal tem merecido reparos do comité que acompanha a aplicação da Convenção dos Direitos da Criança por ser um dos países da Europa ocidental com maior proporção de meninos e meninas em instituições: Espanha tem em famílias 30% dos acolhidos, França 66%, o Reino Unido 77%.

“Há evidência científica de que o contexto familiar é o mais adequado para uma criança ou jovem se desenvolver”, comenta Paulo Delgado, professor do Instituto Politécnico do Porto que se tem dedicado a estudar estas medidas de protecção. “Desde logo pela possibilidade de ter uma resposta mais individualizada, mais próxima, com mais hipótese de estabelecer laços, relações afectivas.”

Multiplicam-se as perdas numa instituição: ora estão de serviço uns técnicos e auxiliares, ora outros; ora entram crianças e jovens, ora saem — uns mudam de sítio, outros regressam às famílias de origem, outros são adoptados. E tudo isso vai alimentado insegurança, privando de vínculos, inibindo de explorar o mundo, explica o juiz Joaquim Manuel Silva, do Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, em Sintra.

Nem todos aplaudirão a mudança, como se viu em Lisboa por ocasião do 25.º aniversário da Convenção dos Direitos da Criança, num encontro organizado pelo Instituto de Apoio à Criança. Manuel Araújo, presidente da associação Mundos de Vida, falou na importância de fazer “uma alfabetização das emoções” através do acolhimento, mesmo que temporário, numa família. Sandra Veiga, representante da Casa Pia, defendeu que “mais vale uma boa instituição do que uma má família” e que “a institucionalização já evoluiu muito”, no sentido de contrariar “os efeitos nefastos”.

Apoio financeiro

Como irá o país perder a velha tendência para institucionalizar as crianças que retira às respectivas famílias, sobretudo, por falta de supervisão e acompanhamento ou por exposição a comportamentos desviantes? O universo de famílias de acolhimento está em queda desde 2008, altura em que se deixou de aceitar que avós, tios ou primos exercessem tais funções.

Para já, Portugal conta com 275 famílias de acolhimento, segundo o já referido relatório de Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens de 2014. A ideia é aumentar esta resposta através de entidades privadas que ficarão responsáveis por uma bolsa de famílias, como faz a associação Mundos de Vida, em Famalicão, que entre 2006 e 2014 formou 112 famílias.

A lei em vigor prevê campanhas contínuas, acompanhamento permanente, apoio financeiro: 153,4 euros pela manutenção de cada criança ou jovem e 176,89 pelo serviço prestado. “Tem havido muito desinvestimento em candidaturas espontâneas”, torna Paulo Delgado. Também houve famílias dispensadas pela Segurança Social por se terem revelado incapazes de cumprir a tarefa a que se tinham proposto.

De acordo com a nova lei, deve privilegiar-se as famílias de acolhimento “em especial” até aos seis anos. Os pareceres que já chegaram ao Parlamento mostram alguma discordância entre quem mais faz acolhimento em Portugal. A União de Misericórdias Portuguesas sugere que se privilegie este tipo de solução só até aos três anos. E a Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade sugere que não haja idade: “Consideramos que devem coexistir todas as medidas de acolhimento numa perspectiva de complementaridade, devidamente qualificadas, suportadas em efectivos e eficazes sistemas de acompanhamento, monitorização e avaliação, sem privilégios de uma sobre a outra que não seja o interesse da criança, daquela criança, em que a idade é um aspecto mas não o único”, dita o documento. Nesse sentido, a confederação admite que o acolhimento familiar possa ser mais adequado para um adolescente.

São cada vez mais velhas crianças retiradas às famílias biológicas    

As instituições vão ter de organizar-se de modo a conseguirem casas de acolhimento de emergência e casas de acolhimento de resposta a problemáticas específicas de necessidades de intervenção e terapêutica.

A orientação para a especialização já era esperada. Têm cada vez mais idade as crianças e jovens retirados às famílias biológicas e entregues a famílias de acolhimento ou a instituições. No ano passado, 21,1% tinham entre os 12 e os 14 anos; 35,1% tinham entre 15 e 17; e 12,5% tinham mais de 18 anos. As crianças até três anos representavam apenas 8,7% e as de quatro e cinco outros 4,3%.

Muitas destas crianças sofrem de problemas graves, nota o procurador Norberto Martins. Um exemplo: num dos centros da Crescer Ser, de cuja direcção faz parte, seis em 12 rapazes têm problemas de foro psiquiátrico.

Não é só ali. No ano passado, 3922 crianças e jovens acolhidos tiveram acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico. A Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens de 2014 indicava diversas problemáticas para lá da saúde mental. Sobressaem as questões de comportamento, o consumo regular de estupefacientes, a debilidade mental (dificuldade de adaptação social e perturbações de julgamento), a deficiência mental, a deficiência física.

É na faixa etária dos 15-17 anos que ocorrem mais problemas de comportamento — ligeiros, médios e graves.

Recriar nas instituições o ambiente doméstico

Não basta dar preferência ao acolhimento familiar. As instituições devem procurar recriar o ambiente de uma família nos centros que dirigem.

No parecer que remeteu à Comissão Parlamentar de Direitos, Liberdades e Garantias sobre as alterações à Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo, a Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade diz reconhecer “como positivo o paradigma apresentado, centrado no interesse da criança e nas suas específicas condições”. E começa por reparar na mudança de linguagem. A lei deixa de usar termos como “lar de infância e juventude”, “centro de acolhimento temporário”, “lar residencial”. Passa a falar apenas em “acolhimento residencial” e em “casa de acolhimento”. Segundo o diploma, as casas devem ser “organizadas em unidades que favoreçam uma relação do tipo familiar, uma vida diária personalizada e a integração na comunidade”. As crianças ou jovens devem ser ouvidas/os e participar em todos os assuntos que lhes digam respeito. Sempre que possível ficarão numa casa próxima da família de origem e não devem ser separados de irmãos também em situação de acolhimento, a menos que isso seja prejudicial. Já se percebeu há muito que os grandes lares não são o mais indicado, comenta o procurador Norberto Martins, da Crescer Ser. Os especialistas apontam para pequenas unidades, nas quais se tentará recriar, na medida do possível, o ambiente de uma família.

 

 

 

 

ReMoved – Um filme sobre adoção

Junho 18, 2015 às 6:00 am | Na categoria Vídeos | Deixe o seu comentário
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texto do site http://psicologiaacessivel.net de 5 de junho de 2015.

ReMoved (ou, “Removida” em português), é um curta-metragem ganhador de vários prêmios, que mostra o ponto de vista de uma garotinha dentro do sistema de adoção.

Um importante tema ainda a ser discutido, que nos faz perceber a nossa responsabilidade sobre o futuro de todas as crianças da sociedade, inclusive as institucionalizadas. Não podemos culpabilizar as crianças pela realidade em que elas foram expostas, pelo contrário, nós, adultos é que somos responsáveis por elas e pelo seu futuro. Todos nós, aliás.

O vídeo discute também a questão de famílias adotivas que “devolvem” a criança ao abrigo e o impacto negativo disso na vida delas. Um vídeo que vale a pena ser assistido. Cada minuto!

Confira:

 

 

 

Projecto Pi-Pequena Infância – Oficinas de expressão dramática com crianças/jovens hospitalizados e institucionalizados

Fevereiro 8, 2015 às 3:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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pi

239859981

projectopinfancia@gmail.com

https://www.facebook.com/pages/Projecto-Pi-Pequena-Inf%C3%A2ncia/464939490243570?sk=timeline

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