A felicidade escondida: “Não se negam pedidos a um anjo”

Dezembro 3, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do Expresso de 21 de novembro de 2015.

Teresa Pinto Basto

Filipa Sáragga pinta, escreve e pratica solidariedade social. Tem 31 anos, três livros publicados e uma vontade imensa de partilhar o que aprende com as “crianças azuis” com quem convive.

Katya Delimbeuf

que leva uma rapariga de 26 anos, formada em Belas-Artes, a começar a escrever e a ilustrar livros? O pedido de uma menina de 7 anos com cancro terminal pode dar um valente empurrão. Foi este o clique na vida de Filipa Sáragga, hoje com 31 anos, madrinha desta menina que se chamava Maria – e que morreu. Quando Filipa disse a Maria “um dia vou pintar a tua história”, ela respondeu-lhe “não, a madrinha pinta e escreve”. “Não se negam pedidos a um anjo”, pensou Filipa. Nesse momento, naquele quarto do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, ela soube que tinha de escrever a história de Maria, para dar a conhecer a sua sabedoria e o modo como sorria “no meio de tanto sofrimento”.

Nascia assim o livro “Talvez um Anjo”, o segundo de Filipa Sáragga, escrito e ilustrado por ela. Dedicado à memória de Maria Luísa Lousada Laureano, os lucros das vendas reverteram na íntegra para a Associação Nariz Vermelho e para a família da menina. O prefácio foi escrito pela mão do então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, e lançado na Fundação Calouste Gulbenkian.

Filipa Sáragga

Antes já tinha havido um primeiro livro (infantil), “O Toiro e a Bailarina”, ilustrado com base em pinturas a óleo da autoria de Filipa Sáragga. A pintora passou por um momento mais difícil na sua vida pessoal e decidiu transformá-lo em algo positivo. “Nesta altura, fora de casa, já me tinha deparado com o verdadeiro sofrimento, com as verdadeiras fragilidades, e decidi que queria pôr o meu trabalho ao serviço dos outros.”. Fala do voluntariado que desenvolveu sempre junto de crianças, muitas institucionalizadas ou “diferentes”, com síndromas de autismo ou trisomia 21. Chama-lhes “crianças azuis”, mas esclarece que também há muitos adultos que se sentem marginalizados e excluídos e que por isso são mal rotulados.

Imprimiu 1700 livros numa gráfica, convenceu Marcelo Rebelo de Sousa e Laurinda Alves a escrever, a apresentou a sua primeira obra no Centro Cultural de Belém (imagine-se…!). Encheu a sala e vendeu os exemplares todos. Os 23.800 euros foram direitinhos para duas associações: a Terra dos Sonhos e a Associação Salvador. Com este novo projeto, Filipa encontrou uma vocação. “Antes sonhava em vir a ser uma boa pintora. Era bastante carreirista”, assume. Depois percebeu que “é uma perda de tempo estarmos demasiado concentrados em nós mesmos”.

Filipa Saragga

Uma das ilustrações de Filipa Sáragga para o livro “A Princesa Azul e a Felicidade Escondida”, onde são visíveis os “meninos azuis” Filipa Saragga

O voluntariado já vinha de trás. “Os meus pais sempre nos incentivaram – a mim e às minhas irmãs – a respeitar e cuidar de quem mais precisa. Lembro-me, desde muito pequena, da felicidade que sentia no Natal quando íamos em família distribuir cabazes a um bairro social muito carenciado. Lembro-me como se fosse hoje da felicidade daquelas famílias ao receberem os cabazes. Consigo ver-lhes o sorriso e sentir-lhes os abraços. A felicidade daquelas crianças era irresistível.”

A felicidade escondida

Este ano, Filipa escreveu nova obra. “A Princesa Azul e a Felicidade Escondida” é um “livro de adultos para crianças que conta a história de uma princesa diferente, nascida com uma cor que não existe”, por ser vítima de bullying, discriminação, exclusão e todos os sofrimentos daí decorrentes. Determinada, Filipa queria contar com o comentário de António Guterres, alto comissário da ONU para os refugiados, na sua obra. Feitos os contactos, ele ligou-lhe, explicando que até poderia ler o livro “sem compromisso” na próxima viagem de avião, mas que não lhe podia prometer nada. Foi por isso com enorme surpresa e satisfação que Filipa recebeu a notícia de que Guterres aceitara escrever-lhe um texto para o início da obra. “Quando olho para os 50 milhões de pessoas que no mundo de hoje tiveram de fugir das suas casas e das suas comunidades por causa da guerra e da violência, gostaria muito que os responsáveis pudessem ter lido ‘A Princesa Azul e a Felicidade Escondida’ e aprendido a lição. O mundo seria bem melhor”, escreveu António Guterres. O livro de Filipa acabou por ser integrado no Plano Nacional de Leitura, no 6º ano.

Filipa Sáragga 3

Entretanto, Filipa está já a escrever o quarto livro. É uma obra que fala sobre a sua “redescoberta”, que lhe ensinou “o verdadeiro sentido da vida”. Espera “ter oportunidade de fazer isto o resto da vida”. Tem a sorte de ter uma família que a “ajuda a ajudar” e que tem orgulho no caminho que ela escolheu para si. Aprendeu muito com as suas experiências. A não julgar, a relativizar os males da vida, a olhar para o outro e não para si. No fim de tudo, gostava de sentir que fez “outras pessoas felizes” e que valorizou “aquilo que realmente é importante”. Filipa está a fazer a parte dela.

 

 

 

 


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