Corona vírus #Covid-19: Como lidar com… situações vulneráveis para crianças e jovens

Maio 1, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Documento completo no link:

https://www.cnpdpcj.gov.pt/corona-virus-covid-19-como-lidar-com-a-situacao1.aspx

Peritos juntam-se para ajudar crianças e jovens em tempos de pandemia. “Todos somos agentes de protecção”

Abril 19, 2020 às 1:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 12 de abril de 2020.

Todos os olhos serão poucos para garantir socorro a quem está em apuros. Grupo formado por profissionais, de algum modo associados à protecção de crianças e jovens em risco, lança apelo a familiares, amigos e vizinhos.

Ana Cristina Pereira

Nem as crianças e jovens ficam fora da chamada para prestar atenção a qualquer sinal de maus tratos, abuso sexual ou negligência. “Não ignores pedidos de crianças, tuas amigas e conhecidas, nas redes sociais. Contacta-as, diz que estás disponível para ouvi-las e ajudar. Fala com os teus pais para que eles contactem as entidades competentes.”

Chama-se AjudAjudar e é uma iniciativa de um grupo informal formado por peritos, de uma maneira ou de outra, associados à protecção de crianças e jovens em risco. Desde quinta-feira à noite, está no ar um site que aloja um manifesto, alguma literatura científica e uma campanha de que faz parte o apelo de abertura deste texto. Entretanto, foi criada uma conta no Facebook. É só o princípio.

Tudo começou com o psicólogo Pedro M. Teixeira, professor na Escola de Medicina da Universidade do Minho, e a psicóloga Catarina Ribeiro, professora na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica e perita em avaliação psicológica no Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses. Perante a propagação da covid-19 e as medidas de contenção, inquietaram-se com a sorte das crianças e jovens em risco, de repente, dentro de casa com as famílias causadoras de risco. Criaram um grupo no Whatsapp para reflectir, discutir e encontrar estratégias para lhes valer.

A literatura científica indicia risco de aumento de abuso, maus tratos e negligência de crianças e jovens em contexto de pandemia, distanciamento social, confinamento. Está comprometida toda a primeira linha de intervenção. As crianças deixaram de ir à escola e de frequentar qualquer actividade fora de casa. E a segunda linha, a das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), remeteu-se ao teletrabalho, restringindo reuniões, atendimentos e visitas ao domicílio ao estritamente necessário e urgente. Em maior risco ficam também as crianças e jovens que se encontram em centros de acolhimento temporário e lares de infância e juventude.

“Há aqui um conjunto de circunstâncias que nos levaram a considerar que é preciso garantir uma resposta”, diz Catarina Ribeiro. Convidaram “pessoas de várias áreas que tivessem experiência académica ou profissional com essa população”, como o procurador Filipe Queirós, o juiz José Barros ou o psicólogo Luís Fernandes, do Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental da Associação Sementes de Vida (Beja).

“Enquanto entidades e indivíduos que intervêm nesta área, este grupo sente como sua a responsabilidade de assumir publicamente a iniciativa de contribuir para minorar os efeitos que o isolamento social pode ter neste contexto. Face à circunstância presente, urge mobilizar a sociedade civil, sensibilizando-a e informando-a do seu papel insubstituível na ajuda às nossas crianças e jovens em risco e perigo”, lê-se no manifesto, que já reúne mais de 400 assinaturas. “Importa que cada um/a de nós cumpra o seu papel, estando atento/a, divulgando formas de auto-protecção e meios para obter apoio, sinalizando as situações de suspeita de negligência, maus tratos, abusos contra crianças e jovens às entidades competentes em matéria de infância e juventude. Todos/as somos agentes de protecção das crianças e jovens. Todos/as temos a obrigação de ajudar.”

É um apelo lançado a familiares, amigos, vizinhos em forma de frases prontas a divulgar nas redes sociais, um dos sítios mais frequentados por crianças e adultos nestes dias de confinamento forçado. “Não nos queremos sobrepor a nenhuma entidade que tem responsabilidades em matéria de infância e juventude, nem a nenhuma instituição que está no terreno”, salienta outro elemento do grupo, Sónia Rodrigues, investigadora externa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e supervisora de casas de acolhimento residencial. “Queremos sensibilizar a sociedade civil para o papel importante que pode ter.”

Outras estratégias estão a ser trabalhadas por aquele grupo, que inclui Sofia Neves, presidente da Associação Plano i, e Tito de Morais, fundador do Projecto MiudosSegurosNa.Net, e outros​. “Temos de arranjar formas imaginativas de impedir que crianças que estejam em perigo fiquem sem ajuda. Todos temos obrigação de estar atentos e sinalizar – responsavelmente, não fazendo denúncias sem fundamento”, realça Sónia Rodrigues.

Vizinhança já fora chamada

presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, Rosário Farmhouse, tem apelado a uma espécie de vigilância social. Mais do que nunca, cada um deverá ficar atento ao que se passa em casa da sua vizinhança e meter a colher. Além de um folheto destinado a adultos, este organismo produziu dois dirigidos a crianças e jovens, o último dos quais sobre abuso sexual.

“Tens o direito de dizer não”, lê-se no PDF com ilustrações infantis. “Seja quem for essa pessoa adulta (mesmo que gostes muito dela ou dele), podes contar e pedir ajuda a uma pessoa de confiança ou ligar para a polícia. Toda a criança e jovem tem direito à privacidade e respeito pelo seu corpo. Ninguém deve olhá-lo e tocá-lo de uma forma abusiva, obrigando a fazer ‘coisas’ que não são próprias para o seu crescimento saudável. Se estiveres a passar por um momento particularmente difícil, tenta permanecer num local da casa em que te sintas mais seguro/a e aí podes telefonar a pedir ajuda.”

Em caso de necessidade, a comissão nacional recomenda que se telefone para o número europeu de emergência (112), para a linha SOS Criança (116 111), para o Projecto Care APAV (21 358 79 00) ou para a CPCJ da área de residência (disponível no site: www.cnpdpcj.gov.pt). Também se pode recorrer à comissão nacional, através das suas páginas no Instagram ou Facebook.

O SOS Criança foi reforçado, quer em número de profissionais, quer em horário de funcionamento, quer em meios disponíveis. Desde Março, é possível pedir ajuda por WhatsApp (através do número 91 306 94 04), email e chat  soscrianca@iacrianca.pt ou  http://soscrianca.ajudaonline.com.pt  E os resultados estão à vista. Comparando Março do ano passado com Março deste ano, o número de contactos telefónicos quase duplicou (passou de 103 para 205). Juntando isso aos contactos feitos por email e chat, os pedidos de ajuda ascendem a 231 só naquele mês.

Não deixes que o isolamento se torne num tormento – O IAC pode ajudar

Abril 17, 2020 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Em 2019 aumentaram os casos de crianças e jovens em risco no concelho de Beja

Janeiro 16, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Rádio Pax de 13 de janeiro de 2020.

No concelho de Beja foram assinalados em 2019 duzentos e oitenta e cinco casos de crianças e jovens em risco. O número foi revelado à Rádio Pax por Maria de Jesus Ramires, presidente da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Beja.

Em comparação com 2018 houve um aumento de oitenta casos.

O abandono escolar lidera a tabela com 28 casos. Comportamentos graves, anti-sociais ou de indisciplina, apresentam-se em segundo plano com um total de 23 situações.

“O abandono à nascença, a violência doméstica na infância e os casos de saúde em que as famílias não têm condições que permitam um acompanhamento estável que não ponha em causa o desenvolvimento normal das crianças, continua a ser uma preocupação para a CPCJ”, revelou à Rádio Pax Maria de Jesus Ramires.

A presidente da CPCJ de Beja garante que “só esgotadas todas as hipóteses é que as crianças são retiradas às famílias e encaminhadas para instituições”.

Só no início de Março a Equipa Técnica Regional da CPCJ Alentejo está em condições de disponibilizar todos os dados referentes a 2019 no distrito de Beja.

Ouvir a notícia no link:

https://www.radiopax.com/em-2019-aumentaram-os-casos-de-criancas-e-jovens-em-risco-no-concelho-de-beja/?fbclid=IwAR3UoUosUeChlhp-JYnGVAgg9fZ20eTHq8uiRZOwuY0vM8N6_zmbUQgSSuE

Crianças e jovens em risco : cuidados sensíveis ao trauma

Janeiro 13, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Elisa Veiga publicado no Markeeter Kids de 31 de dezembro de 2019.

Acolher menores em risco terá apoio de até 690 euros

Setembro 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Jornal de Notícias de 23 de agosto de 2019.

Orquestra Geração. A música como perspetiva de futuro

Junho 18, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A orquestra dirigida por Marija Mihajlovic esteve a atuar quarta-feira na abertura da Feira do Livro em Lisboa Foto Leonardo Negrão / Global Imagens

Notícia do Diário de Notícias de 1 de junho de 2019.

A Orquestra Geração da Santa Casa junta crianças e jovens acompanhados pela instituição, mas também filhos de funcionários, e tem por objetivo combater o insucesso escolar através da música.

Jéssica Silva, de 14 anos, descobriu a Orquestra Geração através das técnicas da segurança social. Chegou à formação de jovens músicos da Santa Casa para tocar violino. Com ela trouxe a amiga Cláudia Fernandes, de 13 anos, que toca violoncelo. Há pouco mais de um ano, foram juntas ver o que era a Orquestra, mas sem grande esperança de conseguir um lugar. “Viemos cá ver quais é que eram mais ou menos os instrumentos, mas não tínhamos a noção que íamos ficar, porque não estávamos assim muito motivadas”, recorda Jéssica.

As duas amigas chegaram tinha a Orquestra Geração Santa Casa apenas um ano. No arranque tinham 25 músicos, “jovens que nunca tinham visto um instrumento de música clássica”, sublinha António Santinha, diretor da Unidade de Apoio à Autonomia da Infância e Juventude da Santa Casa. Neste momento, são 35 elementos, dos seis aos 15 anos, do que é para já apenas uma orquestra de cordas. No próximo ano, a Santa Casa tem prevista a introdução de sopros, o que deve implicar mais dez elementos.

O projeto – que se inspira no Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela e tem como objetivo combater o abandono e insucesso escolar através do ensino da música – nasceu para “tornar acessível a cultura a todas as crianças, que dificilmente noutras condições teriam acesso a alguns instrumentos de cultura”, explica o responsável da Santa Casa. Integram este projeto as crianças que vivem nas casas de acolhimento da Misericórdia de Lisboa, crianças de famílias acompanhadas pela instituição e também filhos de funcionários.

A expectativa inicial era de perceber como é que as crianças iam reagir. Agora, chegam de todos os pontos da cidade – a Santa Casa trata da logística dos transportes – para aprender a tocar um instrumento. “Os miúdos neste momento estão entusiasmados. Uns, no intervalo vão jogar futebol, outros ficam a aprofundar os seus estudos com os instrumentos”, exemplifica, orgulhoso António Santinha.

Os alunos vão começar agora, ao fim de dois anos, a levar os seus instrumentos para casa, a “cuidar do seu instrumento”. Desta forma, aponta o responsável, vão colocar “instrumentos de música, pelos quais os miúdos têm grande afeto e carinho, em sítios onde a cultura às vezes não é tão valorizada e onde não é muito habitual encontrar este tipo de instrumentos e este tipo de atividades.”

O cuidado com os instrumentos

A relação especial de cuidado e carinho com os instrumentos é algo que António Santinha frisa na evolução das crianças e jovens que integram a Orquestra Geração. E de repente o projeto que quer levar a cultura a estes miúdos acaba por fazer nascer neles o desejo de serem músicos. “Vemos que alguns miúdos, de facto, estão muito interessados nos estudos.” A ajudar a esse entusiasmo, António Santinha não tem dúvidas que estão os professores. Um desses exemplos é Marija Mihajlovic Pereira, professora do naipe de violinos e preparadora orquestral. Está há um ano e meio na Orquestra. Começou por ser professora convidada e acabou por ficar a tempo inteiro.

Marija olha para os seus alunos e a primeira palavra com que os descreve é “diversificados”. Nas idades, no comportamento, na nacionalidade, e outros aspectos. “Temos alunos dos 6 aos 15 anos e isso exige um trabalho de abordagem muito diversificado do professor para abranger essas idades”, aponta. Durante a semana, têm três horas de aulas e aos sábados mais quatro. São momentos que os aprendizes de músicos passam com o instrumento que tocam.

E embora haja diferenças entre os mais “dedicados” e os mais “de brincadeira”, “todos eles acabam por se envolver de alguma forma”, defende a professora. Marija considera ainda o grupo “unido” e diz que teve “uma boa evolução” desde o arranque da Orquestra. E essa evolução é medida não só em termos musicais: “Evolução social, musical, da convivência, de empenho e de uma forma muito particular que faz esse projeto bem especial para mim, porque muitos deles sentem isto como uma segunda casa. É uma instituição acolhedora não só para eles, mas também para os professores”, elogia.

Como professora de um grupo de crianças e jovens que não tinha qualquer contacto com a música antes, Marija Mihajlovic Pereira elogia a entreajuda. “Os que aprendem primeiro puxam com tanta força os outros que eles rapidamente se agrupam.”

“Nem conseguia colocar bem o primeiro dedo”

Do lado dos alunos, também há o elogio ao esforço de quem ensina. “Os professores desta escola são melhores do que os professores da escola normal porque interagem mais com os alunos. Aqui conseguimos falar se estamos tristes ou se temos alguma coisa. Os professores perguntam”, refere Jéssica Silva.

Antes dos concertos, os professores insistem “na disciplina de concentração, não interagir com o público no concerto. Na hora do concerto eles dizem que sentem o coração a bater. Acho que ficam felizes”, descreve Marija Mihajlovic Pereira. E quantos mais concertos fazem, mais confiança de palco ganham. A Orquestra Geração já tem “uma tournée quase”, descreve António Santinha. Tocaram no primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa, na passada quarta-feira, são presença assídua na Feira de Natal da Santa Casa, além de muitas solicitações da paróquia e de festas, que nem sempre conseguem cumprir devido à conciliação que é necessária com os horários da escola.

Mas mesmo que não consigam dar tantos concertos como gostariam, o importante, acredita António Santinha, é deixar nos músicos da Orquestra a ideia de que “a cultura alarga o leque de possibilidades de escolha e alarga o horizonte”. “Muitas vezes, em crianças e jovens que vêm de meios menos favorecidos, aquilo que nós notamos é a dificuldade no seu horizonte de futuro, e este tipo de atividades, em que eles podem sobressair, alargam o horizonte – porque

Amanda Silva diz que o seu professor “é um chato”, mas acaba por confessar que se dão bem. Aos 15 anos descobriu por acaso a paixão pelo contrabaixo. A aluna do 9.º ano recorda a sensação “estranha” de tocar nos instrumentos. Depois de tentar vários instrumentos acabou por escolher o contrabaixo: “Agora adoro.”

Amanda ainda se lembra de que quando chegou à Orquestra não tinha qualquer noção do instrumento. “No início nem conseguia colocar bem o primeiro dedo como deve ser que saía desafinado. Agora já consigo tocar bastante bem e andar mais rápido no contrabaixo.” A jovem é um dos elementos da Orquestra que quer seguir carreira. “Penso 24 horas por dia no contrabaixo. Penso logo tenho que acabar as aulas para começar a tocar.”

Sobre o ambiente da orquestra só tem coisas boas a dizer. “Aqui perdi a vergonha, posso falar com quem quiser que somos todos amigos.” Além de que é um espaço que a ajudou a encontrar a sua vocação. E nem os concertos a assustam. “Só fico nervosa um bocadinho antes. Quando estou lá já passaram os nervos, toco, penso em outras coisas.”

Antes dos concertos, os professores insistem “na disciplina de concentração, não interagir com o público no concerto. Na hora do concerto eles dizem que sentem o coração a bater. Acho que ficam felizes”, descreve Marija Mihajlovic Pereira. E quantos mais concertos fazem, mais confiança de palco ganham. A Orquestra Geração já tem “uma tournée quase”, descreve António Santinha. Tocaram no primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa, na passada quarta-feira, são presença assídua na Feira de Natal da Santa Casa, além de muitas solicitações da paróquia e de festas, que nem sempre conseguem cumprir devido à conciliação que é necessária com os horários da escola.

Mas mesmo que não consigam dar tantos concertos como gostariam, o importante, acredita António Santinha, é deixar nos músicos da Orquestra a ideia de que “a cultura alarga o leque de possibilidades de escolha e alarga o horizonte”. “Muitas vezes, em crianças e jovens que vêm de meios menos favorecidos, aquilo que nós notamos é a dificuldade no seu horizonte de futuro, e este tipo de atividades, em que eles podem sobressair, alargam o horizonte – porque viajam, vão para fora do seu bairro, porque se encontram com outros miúdos, porque trocam impressões com outras pessoas que têm profissões diferentes.”

 

 

 

 

“A minha família é esta com quem vivo”

Junho 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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João Silva

Reportagem do Diário de Notícias de 13 de maio de 2019.

Céu Neves

Crianças e jovens em perigo. Filhos de famílias com vidas marcadas por dependências, abandono e negligência estão a construir um caminho novo. Aprendem a ser independentes para serem lançados para o mundo real. Mas a habitação é um problema.

Quem é a tua família? “A minha família é esta com quem vivo”, responde Catarina. Partilha casa com a Vanessa, a Núria e a Beatriz. Estão num apartamento de autonomia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), destinado a quem já tem maturidade e vai deixar a instituição. No coração está ainda gravada a “família amiga”. A biológica ficou lá atrás, aos 7 anos, quando foi viver para um centro de acolhimento, e ainda hoje, aos 23, não consegue perceber as razões. “Acho que não foi possível viver com a minha mãe, mas não tenho a certeza.” O pai morreu tinha ela 8 anos.

É a segunda mais velha de seis filhos, os irmãos vivem em Inglaterra, com a mãe. Sem compreender o que lhe estava a acontecer, Catarina foi para um centro da SCML gerido por freiras. Aos 16 mudou-se para uma casa de pré-autonomia, para se preparar para o apartamento de autonomia (AA), para onde foi em janeiro.

As casas de autonomia são mistas, na SCML destinam-se a quem tem entre os 16 (15 na Casa Pia) e os 21, e têm um educador em permanência. Os AA são femininos ou masculinos, os residentes podem ter até 25 anos e são eles que se organizam, com a supervisão de uma equipa técnica. A idade limite para a proteção legal são os 18 anos, que podem ser prorrogados até aos 25 se o jovem estiver a estudar ou a trabalhar.

Catarina está no 1.º ano do curso de Animação Sociocultural, quer trabalhar com crianças. Ri-se, talvez “dos nervos”, é divertida e faz poses para a foto, como Vanessa Sanches, 19 anos, que também reconhece nas companheiras a sua família.

Vanessa deixou a família diretamente para o apartamento. É acompanhada desde os 10 anos pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), aos 17 pediu para sair de casa. “Havia negligência por parte dos meus pais, pedi ajuda à CPCJ e à SCML e, passados uns anos, deram-me esta resposta por já ter idade para me candidatar.” É a filha do meio de um agregado com cinco crianças, a mais velha também viveu na SCML, os outros ficaram com os pais. Conta que a mãe está grávida.

Inaugurou o apartamento no dia em que fez 18 anos, a 22 de dezembro de 2017. As técnicas reconheceram-lhe “competências pessoais para ter um futuro melhor, que ficando com a família ficaria muito comprometido”. Vanessa trabalha desde os 17 anos, está numa ação de formação de uma cadeia de alimentação saudável que vai abrir um novo espaço na segunda-feira, onde irá trabalhar. Entra na picardia com as colegas da casa, em especial com Catarina.

A terceira habitante é a Núria, 19 anos, que prefere não dizer o apelido nem tirar fotos. É mais recatada, também por causa da família com que se tem dado ultimamente. Tem quatro irmãos, o mais novo vive com a mãe, dois vivem na Alemanha e um em Londres.

Diz a Catarina e a Vanessa: “A minha família é a minha mãe e o meu irmão, vocês são colegas de casa com quem tenho uma boa relação.” Contra-argumenta Vanessa: “É o teu caso, eu não tinha bom ambiente familiar.” Concorda Catarina: “Posso dizer que tive uma boa infância na instituição e tenho a ‘família amiga’, levavam-me nas férias, no Natal, nos anos, eu adorava.” É um casal de Sintra, com os filhos crescidos, e que se voluntariou para apoiar diretamente uma criança de um centro de acolhimento.

Adoção perdeu-se na espera

Núria foi viver aos 6 anos para uma instituição em Fátima, da qual não guarda boas memórias. “Éramos 24 crianças, era muito complicado.” Esteve indicada para a adoção – o pai não estava contactável e a mãe estava impedida de a contactar -, mas o processo judicial demorou tanto tempo que só aos 11/12 anos ia concretizar-se – nesta altura foi Núria a dizer “não”.

“Não quis ser adotada porque não poderia falar com a minha mãe. Durante muito tempo não falei com ela e eu queria saber muitas respostas.” Teria sido uma vida diferente, seguramente, mas também não seria a pessoa que é hoje e admira. “Sou uma pessoa com juízo, é complicado viver numa instituição, não é fácil sair sã. Só dependemos de nós, não há ninguém em quem possamos confiar, só as pessoas da nossa idade.” Está a terminar o 12.º ano para tirar um curso superior, talvez Fisioterapia se a nota de exame a Matemática ajudar.

A quarta residente, Beatriz, não está presente, ainda está na escola.

Vivem numa casa de cinco assoalhadas, numa praceta com jardim em São Domingos de Benfica. Têm um quarto para cada uma, paredes em tom pastel e tetos altos brancos, camas decoradas com peluches.

É uma vida autónoma, com o apoio dos educadores Marisa Roque e Paulo Tavares, além de uma psicóloga, que ajudam também a gerir a bolsa mensal, de 388,50 euros.

A SCML deposita o dinheiro na conta bancária ou entrega por parcelas, depende das características do jovem. As contas são fáceis de fazer mas difíceis de gerir; a estratégia de Catarina é anotar todas as despesas.

Contribuem com 50 euros para a renda e as despesas da casa, mais dez para o fundo comum, e cem vão para poupança. O resto é para o passe, alimentação, roupa e gastos pessoais. Catarina acompanha as crianças da Orquestra Geração da Santa Casa, o que lhe rende mais 111 euros por mês. E prepara-se para a profissão que quer abraçar.

Casas que é difícil ter na vida real

A SCML tem dez apartamentos de autonomia em Lisboa – três femininos e sete masculinos, onde vivem 32 jovens. “É uma resposta que está em crescimento e, até ao final do ano, vamos inaugurar dois. Há muitos jovens que estão em centros de acolhimento e que, pela idade, faz mais sentido estarem em projetos de autonomização. E também há quem tenha vindo diretamente da família [o caso de Vanessa]”, explica Margarida Cruz, diretora dos AA da SCML.

Podem candidatar-se os jovens que trabalham ou estudam, “que tenham maturidade e capacidade de autocontrole e estejam centrados no seu futuro”. O que, nas palavras de Catarina, “não quer dizer que não tenhamos conflitos, temos é a capacidade de os resolver. Acrescenta Vanessa: “Temos a nossa vida e a que partilhamos, refeições, saídas, compras, consultas, etc.”

A Casa Pia é outra instituição com AA, oito (um para mães com filhos), onde vivem 23 jovens. Tem ainda duas casas de acolhimento com programa de pré-autonomia, agora com 24 residentes. Uma delas é a Casa João José de Aguiar, uma vivenda ao lado do Palácio da Ajuda, branca por fora e colorida por dentro, com quatro raparigas e oito rapazes, além dos cinco educadores. Tal como o apartamento da SCML, é uma boa casa.

É cada vez mais difícil para quem sai de um apartamento de autonomia ou de pré-autonomia obter um espaço habitacional com condições dignas e a um preço que consiga suportar.

“A situação habitacional é o maior desafio. É cada vez mais difícil para um jovem que sai de um apartamento de autonomização ou de um programa de pré-autonomia encontrar um espaço habitacional com condições dignas e geograficamente compatíveis com o seu enquadramento escolar/laboral a um preço que consiga suportar”, diz Leonor Fechas, diretora executiva do Centro de Educação e Desenvolvimento Santa Catarina, da Casa Pia. Há quem tenha de “desistir dos estudos e regressar a agregados familiares que apresentam grandes riscos psicossociais”. São os valores das rendas mas também o facto de muitos senhorios “negarem o arrendamento devido à inexistência de fiadores, a questões raciais e por serem jovens ao abrigo do Estado”.

A autonomia conquista-se

O DN foi recebido na Casa João José de Aguiar, com mesa posta para jantar: salada de polvo, de alface e queijos, bacalhau com natas como prato principal, salada de fruta, brigadeiro e bolo de cenoura para sobremesa. Educadores e residentes confecionaram. Têm entre 16 e 19 anos. O compromisso é não fotografar os menores. Estão num programa de 20 meses, mas podem ser mais, até concluírem as quatro fases: integração, desenvolvimento, consolidação e autonomização. Cada uma concede uma bolsa, que se inicia nos 90 euros mensais e acaba nos 145.

Érica Oliveira, 18 anos, está na residência há dois anos, frequenta o 1.º ano do curso de Animador Sociocultural. Entrou para a instituição com 6 anos, com uma irmã, tem mais quatro irmãos. Mas, sublinha, “a minha família são algumas pessoas da Casa Pia e alguns irmãos. Viver aqui é igual a uma família, só que não é a família de sangue.”

Aprendeu a “não ser tão exigente com os outros, nem tão direta”. Tem um quadro no quarto com a data da fundação do Benfica: 28/2/1904, um trabalho de artes plásticas realizado na Fundação Berardo, com a qual a Casa Pia tem um projeto de cooperação.

Miriam Reis, 19 anos, criou um quadro com a data de entrada na Casa Pia: 10/8/2012. Termina o curso profissional de Cozinha e Pastelaria, está a acabar um estágio profissional, quer ir para a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Ganhou um prémio empresa de 300 euros.
A mãe faleceu e o pai não teve condições para a criar. “Fui perdendo o contacto”, mas ainda assim é a pessoa de referência. E ela é uma referência para os colegas. “Viver aqui é como viver em família, mas com pessoas diferentes, tento ter boa relação com todos.”

Márcio Fachadas, 19 anos, teve de sair da mesa, quando regressa tem uma fatia de bolo brigadeiro que uma colega lhe reservou, o que é alvo de piadas sobre namoricos. Tinha 10 anos quando ali chegou, vivia com a avó paterna, que teve um AVC. “Foi ótimo vir para aqui. Quando penso no que fazia em criança, não tinha horários, regras, a minha avó não tinha condições.” Não foi difícil a adaptação, “só estranho”.

Vive na residência há dois anos, está no 12.º ano, a concluir um curso profissional de Informática. É o segundo ano em que estagia numa televisão, tem esperança de que isso signifique um emprego no futuro.

Quem viveu nesta casa de pré-autonomia foi Murilo Matias, 20 anos, agora convidado para jantar. Passou com êxito todas as fases, vive num AA vai fazer um ano sem setembro. “É fácil concluir, desde que se respeite as regras, não percebo por que razão há pouca gente a terminar”, comenta.

Entrou para a Casa Pia com 13 anos, ele e a irmã, dois anos mais nova. Viveram no Centro de Acolhimento Temporário da Casa Pia e ele, dada a sua idade e maturidade, seguiu para a pré-autonomia. Está a terminar o 12.º ano, “quer estudar Animação Sociocultural na Universidade de Vila Real, quer sair Lisboa. Recebe 419,22 euros, dos quais entrega 160 euros para as despesas da casa e 100 para poupança. O resto é para passe, alimentação e despesas pessoais.

Trabalhou nas atividades praia-campo, da Junta de Belém, juntou dinheiro para ir até Auschwitz com os amigos. Com isso desenvolveu um projeto escolar, apresentado na última quarta-feira, onde esteve o embaixador de Israel. E, tal como Miriam, esteve no ano passado na ilha francesa da Reunião no âmbito de um projeto de intercâmbio. E os franceses vieram a Portugal.

Murilo mantém contacto com a mãe, com altos e baixos. Agora estão numa fase menos boa. Quando se lhe pergunta quem é a sua família, responde: “É a Casa Pia, que sempre me apoiou, passei Natais com os educadores. Os dois últimos estive com a família do meu melhor amigo, o Bernardo, que conheci no 7.º ano. É o oposto de mim, tem tudo, família, rendimentos …”

 

 

 

Lançamento livro “Crianças e jovens em perigo” 6 junho no Seixal

Junho 4, 2019 às 8:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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V Fórum ABRIGO : Que crianças queremos, que adultos teremos? – 9 maio no Montijo

Abril 30, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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