Crianças e jovens. Uma “vacina real” contra o isolamento

Maio 14, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da RTP de 19 de abril de 2020.

Quando se é criança e jovem acredita-se que tudo é possível. Mas será esta energia suficiente para ultrapassar a barreira invisível do confinamento motivado pela pandemia? E serão eles, mais do que os adultos amadurecidos pelas vivências, a ensinar-nos como ultrapassar as dificuldades atuais?

por Nuno Patrício

Viver em comunhão e partilha é para crianças e jovens um estado natural. Num mundo cada vez mais sem fronteiras, criar laços de amizade onde a movimentação não se restringe já às fronteiras internas e onde as tecnologias aproximaram ideias e credos, as gerações mais novas adaptaram-se a viver em rotinas dinâmicas de movimentação e de fácil comunicação.

Um mundo que de um dia para outro mudou e pode mudar também a forma de como estas gerações se adaptam e relacionam com ele.

Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico formado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada e Mestre em Aconselhamento Dinâmico, afirma que é natural que crianças e jovens sintam o atual momento como adverso. Contudo este momento em particular pode também ser interpretado como uma excelente oportunidade para uma reaproximação de laços familiares, que a sociedade tanto tem tirado.

“Esta ansiedade que nós criamos”, diz Carlos Céu e silva, “é por vezes mais vinda dos adultos e da nossa perceção de limitação. As crianças obviamente também se sentem limitadas, mas se olharmos para a janela e para a rua, hoje em dia vemos os pais a fazerem aquilo que faziam há 30 anos, que é andar de bicicleta e a fazer uma série de coisas de um modo descontraído e quase que pedagógico ou lúdico”.

A idade como forma de maleabilidade

Os amigos e as brincadeiras parecem agora presos neste passado recente, ainda muito presente. Crianças e jovens vão ter de construir um novo molde.

Sendo as camadas novas “mais plásticas”, existe a tendência para uma maior facilidade na adaptação, muito embora quando esta situação passar se envolvam rapidamente na dinâmica social e destes tempos permaneça apenas uma vaga recordação de dificuldade.

Já os adolescentes, com uma mentalidade mais amadurecida, vão olhar o mundo de uma forma diferente, explica o psicólogo Carlos Céu e Silva.

“Este lado de confinamento tem um lado negativo muito grande que afeta a saúde mental, quer dos adultos, adolescentes ou crianças. (…) Há uma saturação independentemente de toda a criatividade que possam criar”, com a realização de novas tarefas e inovadoras, “ mas também na descoberta de novas facetas que não imaginavam ter”.

Toda uma redescoberta em que a música, a leitura e a informação pode voltar a ser parte de um quotidiano perdido, muitas vezes para as redes sociais, que continuam muito presentes nesta nova sociedade enclausurada.

Mens sana in corpore sano

Estar e ser ativo é questão fundamental para manter uma “mente sã em corpo são”, principalmente neste período.

Precisamente neste campo e preocupados com a falta de oportunidade e espaços para o movimento das crianças, um grupo de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC) levou a cabo um primeiro estudo, no qual analisou rotinas das famílias portuguesas durante as primeiras três semanas de confinamento devido ao surto da Covid-19, criando o projeto C-Ativo em casa.

O encerramento de escolas, bem como muitos dos espaços laborais as rotinas diárias da família e dos filhos, deram origem a taxas de sedentarismo na ordem dos 80 por cento.

De acordo com os dados recolhidos através de um inquérito online, respondido até agora por 1973 famílias e 2167 crianças, os investigadores conseguiram apurar que durante as semanas de entre 10 de março e 1 de abril, a situação de confinamento das famílias originou um decréscimo no tempo de atividade física dos seus filhos em 69,4 por cento dos casos.

Tempo este deslocado para outras atividades que resultam num aumento do tempo dedicado aos ecrãs (68,4 por cento) e um aumento nas atividades em família (82,8 por cento).

Neste estudo foi também avaliado o comportamento das crianças até aos 12 anos.

Fonte: Projeto C-Ativo em casa/DR

Considerando a percentagem de tempo acordado reportado para cada criança (excluindo as horas de sono), o tempo de ecrã lúdico (não contando aulas e trabalhos online), aumenta ao longo das faixas etárias, atingindo valores de 24 por cento na faixa etária dos 0-2 anos, 27 por cento, dos 3 aos 9 anos e 33 por cento, na faixa dos dez aos 12 anos.

A questão do sedentarismo também não foi esquecida, apontando este estudo para um aumento com a idade, atingindo os 62 por cento na faixa etária até aos dois anos; 72 por cento dos três aos cinco anos; 78 por cento dos seis aos nove anos e 84 por cento na faixa etária dos dez aos 12 anos.

Um confinamento que preocupa, mas que aproxima

Ainda no quadro deste estudo, apurou-se que 95,2 por cento das famílias afirmam estar preocupadas ou muito preocupadas com a situação de pandemia actual, sendo que 33,4 por cento consideram que está a ser difícil o isolamento com as crianças, embora 47,9 consideram precisamente o contrário.

Já no que diz respeito à actividade física das crianças, 69,4 por cento das famílias considera que estas têm feito menos ou muito menos exercícios que o habitual. Mas 82,8 por cento do universo estudado indica que tem feito mais ou muito mais atividades em família que o habitual.

E se a preocupação com o tempo de descanso das crianças é fundamental, 48,5 por cento não notam diferença no tempo de sono em relação ao habitual, manifestando 45,2 por cento que as crianças até têm dormido mais.

Apesar da diferença de género, não foram verificadas diferenças acentuadas entre sexos, tendo rapazes e raparigas valores muito semelhantes em praticamente todas as atividades à exceção das categorias de ecrã lúdico (rapazes vs raparigas) e jogo sem movimento (raparigas vs raparigas).

Dados observados em Portugal e ainda com um universo muito restrito, mas claramente exemplificativo das implicações deste isolamento social obrigatório.

No contexto geral este inquérito vem confirmar a tendência decrescente do tempo de atividade física ao longo da infância, mas as crianças que vivem em condições de confinamento obrigatório apresentam um grande tempo de sedentarismo, especialmente derivado da grande percentagem de tempo de jogo sem movimento (até aos cinco anos de idade) e do aumento do tempo de ecrã lúdico após essa idade.

Este estudo da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC), está também a decorrer e a ser replicado em vários países (Grécia, Espanha, Reino Unido, Bélgica, EUA, Austrália, Nova Zelândia).

Mais perto de uns, mais longe de outros

Se pensarmos mais abertamente nas relações sociais criadas já neste período de confinamento, tendemos a crer que vai haver uma maior aproximação de nós para com os mais próximos. Mas se isso é verdade o contrário também pode acontecer e ser perigoso.

Os jovens podem, na sua ingenuidade ou malícia, aproveitarem-se destas fragilidades.

Para o psicólogo Carlos Céu e Silva, este isolamento, bem como distanciamento, pode ser desestruturante, “por mais consciência que tenhamos que isto é provisório, ou transitório, evidentemente afeta sempre o estado mental.”

Uma sociedade só existe se, no conjunto, todos nos comportarmos como seres saudáveis, sempre com uma boa rede social e rodeados de figuras sólidas que possam ser reproduzidas internamente.

De outra forma a anarquia tomará conta de nós, originando conflitos e desorganização no eu em que vivemos. E será o medo que vai travar a impulsividade dos jovens ou torná-los mais resistentes? Certo é que neste campo os mais velhos têm um papel fundamental na gestão da ansiedade.

É preciso compreender os medos da forma mais eficaz para ajudar as crianças a lidar com eles. E uma das formas mais simples a fazer nestas situações é tranquilizá-las, explicando o que se passa em seu redor e desmistificando cenários não entendíveis para a mente infantil.

Mas se os medos causam emoções desagradáveis e desconforto, também podem demonstrar um outro lado de aprendizagem, que se forma através da “nocão, dentro da sua dimensão etária, dos perigos que a vida tem”.

Os medos comuns na infância e na adolescência

Após o nascimento só estamos predispostos a ter medo das quedas e de certos ruídos, mas a partir do primeiro ano de vida, surgem outros medos:

1.º ano de vida: Separação, ruídos, quedas;
2.º ano: Animais, treino do bacio, banho;
3.º ano: Hora de deitar, medo do escuro monstros, fantasmas;
5.º ano: Divórcio dos pais, de se perderem;
7.º ano: Perda/morte dos pais, rejeição social;
9.º ano: Guerra, situações novas, adoção;
12.º anos: Ladrões, injecções.

Sinais que devem preocupar os adultos, sendo estes agentes tranquilizadores e explicadores das situações que as envolvem. E devem respeitar o medo que a criança sente, sem lhe dar, porém, uma importância desmedida.

Crianças devem ser protegidas, avisa ONU

Em tempo de crise são as crianças as mais vulneráveis às adversidades, quer económicas, quer emocionais. E neste sentido, já prevendo em todo o mundo consequências graves, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou às famílias e aos dirigentes de todos os quadrantes para que as crianças sejam elementos de proteção que, apesar de não serem as principais vítimas da pandemia da Covid-19, sofrem também elas significativamente com as consequências.

Segundo um relatório divulgado na passada sexta-feira, a ONU estimativa que esta crise anule os progressos obtidos na baixa da mortalidade infantil, mas não só nesta área.

Com o encerramento das escolas em todo o mundo, as crianças poderão sofrer ainda com a fome, uma vez que cerca de 310 milhões de estudantes dependem dos estabelecimentos de ensino para se alimentarem no dia-a-dia, afirmou.

António Guterres lembra que 188 dos 193 Estados-membros da ONU impuseram o encerramento das escolas, o que afeta cerca de 1500 milhões de jovens

Para o secretário-geral das Nações Unidas, o confinamento e a recessão mundial “alimentam as tensões nas famílias” e as crianças “são, por sua vez, vítimas e testemunhas de violência doméstica e de abusos”.

Tecnologias: “o reverso da medalha”
Até agora, muitos são os estudos que apontam as novas tecnologias, entre os mais novos, como um potencial fator de distração face à rotina social. A facilidade de comunicação e utilização das redes sociais, bem como os jogos online com uma forte obrigatoriedade de permanência em linha, são fontes de afastamento de uma maior socialização presencial.

Se todos estes elementos eram já disruptivos, com a imposição de um ainda maior confinamento, tudo isto pode ser ampliado.

Todavia, também existem aspetos positivos nas novas tecnologias e são estas que nos capacitam para a continuidade de uma relativa “normalidade”, como por exemplo o ensino à distância.

Compreendendo muito do que se passa dentro da mente das crianças e dos jovens, Carlos Céu e Silva diz que este novo paradigma, entre o restringir e o facilitar o acesso aos jogos e tecnologias, tem de exigir, por parte dos adultos, um maior equilíbrio.

“A partir de agora vamos olhar para os jogos, para os vídeos e para estas coisas todas, de uma forma diferente. E vamos todos tentar compreender melhor este mundo (…) e se não tivéssemos acesso a esta tecnologia que temos hoje estaríamos a viver um período medieval”.

Se “estas ameaças apenas ajudam a evoluir mais na nossa condição humana”, refere o psicólogo, também podem despertar ações menos positivas como o caso de uma maior facilidade e risco de assédio sexual a menores, ou ao cyberbullying.

O psicólogo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, habituado a lidar com os problemas dos mais novos, afirma que não é através do negativismo que se ultrapassa os problemas e que vão ser os mais novos que vão ensinar – e muito – os atuais adultos, na nova normalidade que virá depois desta crise.

“Eu acho que nos próximos anos não vai haver normalidade. Nós temos um registo interno de trauma que vai ficar com este vírus”, explica Carlos Céu e Silva. E vão ser os mais velhos a salvaguardar-se mais isolando-se.

Já o contrário será feito pelos mais novos, com uma mentalidade mais aberta, mais madura e mais responsável, sempre com a necessidade de voltar à escola, às rotinas e amizades suspensas no tempo por uma ameaça para a qual ninguém estava preparado.

Construir a resiliência desde a infância: qual o papel do adulto?

Março 13, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Público de 10 de março de 2020.

Sofia Garcia da Silva

A resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois.

A física refere-se ao termo “resiliência” como “propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação” (in Priberam). Nas ciências sociais, apesar de encontrarmos múltiplas aceções, a mais comum é aquela que define a resiliência como a capacidade ou o conjunto de capacidades que permitem ao ser humano lidar e adaptar-se de forma positiva às circunstâncias adversas. Porém, ao contrário dos corpos a que a física se dedica, sabemos que no ser humano as experiências, sobretudo na infância, permanecem connosco e modificam a forma como pensamos e sentimos.

Apesar de vivermos uma era em que a adversidade é frequentemente abafada pelo aparente estado contínuo de felicidade que as redes sociais promovem, a verdade é que, em determinados momentos, todas as famílias vivem situações difíceis e stressantes. Divórcios, problemas de saúde física e mental e experiências escolares negativas estão talvez entre as mais frequentes, mas não nos esqueçamos de uma parte significativa da nossa população (e das nossas crianças) que vive em grande desvantagem social, na pobreza e/ou exposta à violência. Neste sentido, a ciência tem demonstrado que exposição sistemática e prolongada a experiências adversas na infância está associada a um maior risco de desenvolvimento de doença mental, abuso de substâncias, abandono escolar e perturbações de ansiedade.

Perante isto, devemos questionar-nos: porque é que há crianças que superam melhor a adversidade do que outras? Como podemos ajudá-las a desenvolver o seu sentido de resiliência e prepará-las para as dificuldades que poderão enfrentar durante a adolescência e a vida adulta?

Para tal, importa entender que a resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois (Beyond Blue Ltd., 2017). Imagine uma balança com dois pratos: a resiliência manifesta-se quando a saúde mental e o desenvolvimento de uma criança se encontram numa direção positiva, apesar do peso que os fatores negativos exercem no outro lado (Center on the Developing Child, 2015). E, ainda que o acompanhamento adicional e especializado não deva ser descurado em crianças que passam por eventos traumáticos ou por experiências negativas continuadas, a literatura aponta para várias estratégias e abordagens consideradas universais e ajustáveis a todas as crianças. Vejamos algumas delas.

Fale sobre resiliência 
Leia livros e conte histórias que abordem a superação de situações difíceis. Incentive a criança a falar sobre casos que conheça. Explique-lhe onde e a quem pode recorrer quando necessitar de ajuda.

Construa e fomente relações de suporte
Crie uma relação próxima e afetiva. Faça com que a criança ganhe um sentido de pertença. Dê atenção e afeto, brinque, conforte, ouça os seus interesses e mostre empatia, o que não significa que concorde sempre com ela, mas que é capaz de se pôr no seu lugar e entender os seus sentimentos.

Promova o autocontrolo e a autorregulação
A criança aprende a autorregular o seu comportamento através das interações diárias com os cuidadores. Por isso, garanta bons hábitos de sono e de alimentação. Ajude-a a acalmar-se, através da respiração ou a imaginar algo que lhe dê prazer. Ensine-a a saber esperar desde cedo: recorra a rimas e lengalengas enquanto espera por algo; defina rotinas e momentos próprios para determinadas ações; elogie sempre que se mostra paciente. Encoraje a perseverança perante os desafios e a frustração.

Fomente a autonomia e a responsabilidade 
Dê oportunidade para que a criança tome decisões relevantes sobre os contextos em que está envolvida e que possa ser ela própria, e não o adulto, a encontrar formas de resolver os seus problemas. Permita-lhe correr riscos saudáveis, adequados à sua idade e fase de desenvolvimento.

Ajude a gerir emoções 
Nem todas as adversidades são traumáticas e muitas delas podem ser positivas. Ao experienciar dificuldades, criam-se oportunidades de crescimento. Ser resiliente não é estar sempre bem ou ter menores reações emocionais. É saber lidar e gerir essas emoções de forma saudável e positiva. Por isso, valide os sentimentos da criança, incentive-a a nomear o que sente, fale com ela sobre situações que a deixam ansiosa e ajude-a a encontrar formas de se sentir mais segura.

Em conclusão, a construção da resiliência na infância deve iniciar-se no seio de relações afetivas, através de modelos positivos em casa e na comunidade, em que pais, cuidadores e educadores assumem um papel de máxima importância na promoção da saúde mental.

Técnica Superior de Educação Especial no CADIn

Palestra “A Criança, o Jogo e as Culturas de Infância” por Frederico Lopes – 4 de março em Faro

Março 3, 2020 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/195848914851175/

Avaliação Psicológica da Criança – Formação contínua no ISPA – 11 março a 29 de abril

Fevereiro 15, 2020 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Acreditada pela ORDEM DOS PSICÓLOGOS / Acesso a diploma de Pós-Graduação em Avaliação Psicológica

Destinatários 

Psicólogos

Finalistas do mestrado integrado de Psicologia

Finalistas de 2º Ciclos de Psicologia (desde que habilitados com 1º Ciclo em Ciências Psicológicas ou Psicologia)

Objectivos

Aprofundar conhecimentos e prática de avaliação clínica e psicométrica de crianças, com vista à realização do diagnóstico psicológico
Treino de aplicação e interpretação de provas psicométricas e projectivas: Escala de Griffith’s; Provas Grafo-perceptivas(Bender; Baby-Bender, Rey); Competências cognitivas(WPPSI-R, WISC III, matrizes de Raven). Provas projectivas (Desenho Temático, CAT,TAT, TAT-E, Rorschach)
Integração interpretativa dos dados obtidos a partir da observação, entrevista e análise qualitativa das provas psicométricas e/ou projectivas aplicadas, a partir da discussão de casos clínicos
Aprofundar conhecimentos sobre desenvolvimento e psicopatologia com referência aos sistemas de classificação nosológica
Treino na formalização oral e/ou escrita das conclusões da avaliação psicológica na perspectiva da compreensão dinâmica da criança, fundamentando a formulação do diagnóstico e a orientação proposta.

Competências

Desenvolver competências de avaliação psicológica da criança nas diferentes fases do desenvolvimento
Desenvolver competências e práticas de avaliação clínica e psicométrica na primeira infância, idade pré-escolar e escolar
Desenvolver competências específicas de avaliação e diagnóstico psicológico na perspectiva da orientação para a intervenção

mais informações no link:

http://fa.ispa.pt/formacao/avaliacao-psicologica-da-crianca

Brincadeiras e linguagem

Agosto 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Cenkerdem/Getty Images

Artigo de opinião de Ana Rita Gonzalez publicado no Público de 28 de julho de 2019.

Cada criança é diferente e irá despertar para o poder da comunicação ao seu ritmo. No entanto, há sinais de alerta aos quais deve estar atento.

Brincadeiras?!… Sim! Brincadeiras porque o brincar é uma ferramenta de aprendizagem essencial no desenvolvimento global e de competências cognitivas que estão diretamente ligadas com a comunicação e a relação com os outros. Brincar cria um contexto relaxado e securizante, permitindo aos pais orientar, modelar e ensinar.

Desde que nasce, o bebé vai descobrir várias formas de comunicar com os pais e com quem o rodeia, desde o choro ao sorriso, chegando por fim às palavras.

Ao longo dos primeiros meses, os momentos de interação com os pais vão aumentando e vão para além dos até então estabelecidos e regulados pelo choro. O bebé já descobriu que quando chora recebe atenção, ou seja, se faz barulho, os pais aproximam-se. E é aqui que reside a descoberta do poder da comunicação. Vão então aprimorando as diferentes formas a utilizar para modificar o ambiente à sua volta, sempre com base neste princípio de ação-reação. Surgem as primeiras conversas, horas de filme gasto pelos pais para registar estas preciosidades! Pais e bebé num diálogo que só eles entendem. O bebé palra, os pais respondem, o bebé palra de novo, os pais imitam. O bebé sorri, os pais, derretidos, sorriem também.

Estes momentos são fundamentais para o estabelecer de uma relação que se quer segura e para a aquisição de uma regra básica de comunicação, o pegar a vez. Aquilo que, mais tarde, vai permitir à criança participar em conversas, sabendo como iniciar, manter e terminar diálogos, dando espaço aos outros participantes para comunicarem também.

Antes de conseguir falar, a criança tem então de adquirir uma série de requisitos cognitivos para ser capaz de aprender conceitos linguísticos — por exemplo, aprender que palavras não são coisas, não são os objetos, são, sim, representações dos objetos.

Inicialmente, entre os nove e os 12 meses, as crianças utilizam uma determinada palavra numa determinada situação e não em todas as situações em que esse conceito aparece. Isto acontece porque ainda não têm a noção de que a mesma palavra tem o mesmo significado em diferentes contextos. Por exemplo: a criança diz “cão” quando, na sua varanda, vê o cão do vizinho do lado, mas não o diz quando vê um cão junto a si, na rua. Nesta fase, observando a criança a brincar e o progressivo aumento da complexidade das suas brincadeiras, vamos vendo o desenvolvimento da linguagem a acontecer. A criança vai explorando os brinquedos típicos de causa-efeito, em que carrega e acendem luzes, puxa e faz um som, roda e aparece um boneco. Mantendo as palavras soltas ainda muito dependentes do contexto, dirigindo-as sempre com o olhar para os outros que estão por perto. A comunicação verbal vai-se desenvolvendo e tornando-se mais intencional e consistente.

Entre os 17 e os 19 meses, a criança faz um jogo simbólico centrado em si. Faz de conta que está a comer com um prato e uma colher, pega numa maçã de brincar e finge que a come. Nesta fase, a linguagem verbal está a desenvolver-se, aumenta o vocabulário, e as palavras são usadas para vários contextos, para fazer referência ao aqui e agora. A criança pode utilizar a palavra “papa” para sopa, carne, iogurte, etc.

Antes dos 20 meses, a criança já dirige o seu jogo simbólico a um brinquedo ou mesmo a outra pessoa, dá com a colher a sopa à boneca, ou até penteia com um pente de brincar os cabelos da sua mãe. Começamos a ouvir a combinação de palavras e a criança começa a fazer referência a objetos ou pessoas que não estão presentes naquele instante.

Perto dos dois anos, com as brincadeiras de faz de conta, brincar às casinhas, aos pais e às mães, ouvimos frases curtas e simples, que descrevem o que estão a fazer. Mais tarde, vêm as representações de situações vividas ou observadas noutros contextos. Nesta fase, a criança tende essencialmente a brincar junto às outras crianças, mas desenvolvendo as suas próprias ideias com os seus brinquedos (jogo paralelo). No entanto, começa pontualmente a surgir um jogo mais interativo, pode estar num grupo de crianças em que desenvolve atividades semelhantes, mas não necessariamente seguindo as mesmas instruções. Começamos, assim, a ouvir a utilização da linguagem para analisar e descrever situações.

Com o desenvolver das brincadeiras vamos ouvindo as primeiras perguntas: “O quê?”, “quem?”, “onde?”. Aos três anos, as brincadeiras de faz de conta continuam, agora mais complexas, com vários acontecimentos encadeados. Já brincam entre si, de forma mais organizada para atingir um fim comum (numa cozinha, a preparar uma refeição para servir aos amigos ou aos pais). A criança já percebe uma sequência de acontecimentos, começa a ter noção de acontecimentos presentes e passados.

Mais tarde, vêm brincadeiras mais elaboradas, em que a criança percebe que pode brincar com objetos cada vez menos realistas porque a sua capacidade de representação simbólica está cada vez mais desenvolvida (com peças de Lego representa copos, pratos, etc.)

Ao ler esta descrição do desenvolvimento da linguagem, deve estar a reconhecer o seu filho, o seu neto e outras crianças com quem convive. Cada criança é diferente e irá despertar para o poder da comunicação ao seu ritmo. No entanto, há sinais de alerta aos quais deve estar atento.

Se o seu filho de três ou quatro meses não emite sons, não palra, não sorri, ou não olha para si, ou se está perto dos dois anos e não diz palavras nem parece ter interesse em brincar e/ou comunicar, deve expor essa preocupação ao médico pediatra, que o poderá orientar e encaminhar para um terapeuta da fala ou outro especialista, caso verifique essa necessidade.

Terapeuta da Fala do CADIn – Neurodesenvolvimento e Inclusão

Ordem dos Advogados a favor de estatuto de vítima para crianças que presenciem violência doméstica

Julho 15, 2019 às 2:43 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 11 de julho de 2019.

Carolina Reis

Parecer da Ordem chegou ao Parlamento já depois do chumbo do projeto de lei em comissão. Instituto de Apoio à Criança apela aos deputados que, na votação em plenário, aprovem o diploma.

A Ordem dos Advogados emitiu um parecer favorável à proposta do Bloco de Esquerda para a atribuição do estatuto de vítima às crianças que testemunhem situações de violência doméstica. O documento, com data desta quarta-feira, tinha sido pedido pelo grupo de trabalho que analisou vários diplomas sobre violência doméstica e de género, mas chegou ao Parlamento já depois do chumbo da lei em sede de comissão.

“Na exposição de motivos desta proposta está plasmada a ideia há muito defendida por este Conselho Geral da Ordem dos Advogados, ou seja, a de que as crianças são vítimas de violência doméstica decorrente da violência doméstica conjugal. Neste sentido, é já longo o trabalho de consciencialização que este Conselho Geral da Ordem dos Advogados tem realizado. Por isso, não poderia a Ordem dos Advogados estar mais de acordo com os pressupostos subjacentes à proposta de lei”, lê-se no parecer a que o Expresso teve acesso.

O documento, assinado pelo bastonário cita várias vezes o último relatório do GREVIO, o grupo de peritos do Conselho da Europa para acompanhar o cumprimento da Convenção de Istanbul, que visa erradicar a violência contra as mulheres e crianças.

Também o Instituto de Apoio à Criança (IAC) emitiu um comunicado a pedir que a lei seja aprovada. “No ano em que se celebra o 30 aniversário da Convenção dos Direitos da Criança, o IAC apela ao Parlamento no sentido de reconsiderar o seu sentido de voto, por forma a que em plenário seja ainda possível reverter a situação com vista ao cumprimento do Superior Interesse da Criança.”

Nas votações indiciárias, terça-feira, PS, PCP e CDS votaram contra. Só o PSD se colocou ao lado do BE nesta matéria. Apesar do chumbo, os bloquistas não desistem do diploma e vão levá-lo a votação no plenário, à procura de votos de deputados dissidentes.

O projeto de lei bloquista propõe incluir na categoria de vítima especialmente vulnerável as crianças que vivam em contexto de violência doméstica ou o testemunhem. Na altura da apresentação do diploma, Catarina Martins sustentou que a ideia era a de evitar que os agressores ficassem com a regulação do exercício das responsabilidades parentais. “Quando o tribunal de família tiver de tomar decisões sobre a guarda de crianças vai compreender que aquelas crianças são vítimas e que, se há um agressor, elas devem ser afastadas desse agressor”, disse a líder do BE.

Em defesa do voto de chumbo do PS, a deputada Isabel Moreira considerou que “convém não esquecer que as crianças que presenciam atos de violência doméstica inscrevem-se no âmbito de proteção da Lei de Promoção e Proteção de Crianças e Jovens em Risco”. A parlamentar insiste que o atual conceito de vítima a que se reporta o regime jurídico aplicável à violência doméstica, à proteção e à assistência das suas vítimas já inclui as crianças. “A lei também tem disposições específicas sobre vítimas menores. O conceito de ‘vítima especialmente vulnerável’ do CPP já possibilita que esse estatuto decorrente da lei da violência doméstica seja conferido às crianças”, frisa.

Parecer – Ordem dos Advogados

http://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063446f764c324679626d56304c334e706447567a4c31684a53556c4d5a5763765130394e4c7a464451554e45544563765247396a6457316c626e527663306c7561574e7059585270646d46446232317063334e68627938794d6a49344f545a6c597930774e6a4e684c5451305a544974596d45304d4330324e475a6d4e6d51785a474e6a4e546b756347526d&fich=222896ec-063a-44e2-ba40-64ff6d1dcc59.pdf&Inline=true

Projeto de Lei 1183/XIII

https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheIniciativa.aspx?BID=43597

Comunicado do IAC sobre a não aprovação do Estatuto de Vítima para a Criança

Julho 10, 2019 às 3:20 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Uma criança que lê será um adulto que pensa

Junho 30, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

Uma criança que lê será um adulto que pensa, porque não há um domínio mais amplo de conhecimento do que aquele que os livros nos oferecem.

Uma criança que lê será um adulto que pensa

Fomentar a leitura em qualquer idade é sempre sinónimo de enriquecimento, mas incentivar este hábito entre os mais jovens da sociedade é uma garantia total de um futuro melhor. Uma criança que lê será um adulto com ideias próprias e mentalidade firme. Será capaz de questionar e de compreender mais facilmente o seu lugar no mundo.

Uma criança que lê será um adulto que pensa, porque não há um domínio mais amplo de conhecimento do que aquele que os livros nos oferecem. Quando lemos estimulamos o raciocínio e desenvolvemos a imaginação. Somos mais receptivos a tudo: as crianças, por não terem preconceitos, são capazes de depositar toda a criatividade na leitura.

Uma criança que lê será livre para sempre

Ler ajuda-nos a pensar. Pensar liberta-nos. Assim, se o seu filho gosta de passar tempo a ler, é um ótimo sinal. Na verdade, essa será a forma mais eficaz que terá para explorar sozinho o desconhecido, opiniões e condutas que a vida oferece. Isto ajudará a formar a tolerância da criança, a empatia, o respeito e a solidariedade.

Muitas vezes os adultos surpreendem-se ou sentem-se incomodados quando se deparam com opiniões diferentes das suas. Estes “conflitos” advêm sobretudo, por acreditarem que somente as suas ideias são válidas. Felizmente, este tipo de pensamento deriva sobretudo da ignorância.

Ler é como viajar

Ler é como viajar, em todos os sentidos. Ajuda-nos a abrir a mente. Uma criança que lê descobrirá outras culturas, outros modos de vida, outros costumes e saberá que existem outras coisas além do que conhece no seu dia-a-dia. Ter esta consciência fará com que se torne num adulto que não fará juízos de valor gratuitos. Um adulto mais tolerante, compreensivo e bem resolvido.

O refúgio contra as misérias da vida

Por sorte ou azar, o mundo dá vida plena aos que acreditam ser loucos. Já dizia Dom Quixote: lia e lia até que encontrou a forma de viver baseado nas suas crenças e ilusões. Isto permitia-lhe ser feliz, enquanto que à sua volta continuava preso a uma realidade convencional que julgava a sua maneira de viver.

Os “loucos” que leem são capazes de encontrar refúgio das misérias da vida. Os restantes vivem-nas sem sequer terem consciência disso. É preciso deixar uma criança chorar e rir ao ler um livro. Permitir que se apaixone por uma história e apoiá-la se decidir “ir com tudo” no campo da imaginação que está ao seu alcance..

Unamuno empregou as palavras corretas ao pedir que as crianças cresçam a ler porque assim serão adultos menos vulneráveis, menos indefesos e mais humanos.

Leitura é a fábrica da imaginação

Existem diversas actividades que ajudam a desenvolver e melhorar a imaginação independentemente da idade que tenhamos. A leitura é uma fábrica inteira onde é forjada e recolhida toda criatividade dos seres humanos.

Uma criança que lê será uma criança que pensa, afirmou algum pensador genial, e não estava enganado. Ler é brincar, é entretenimento, é construir sonhos, é refletir, é um estado de ânimo, é isolamento e companhia, é prazer. Ler é brindar às lembranças do que já fizemos um dia e ao que ainda queremos fazer. Move as incertezas mais internas para depois nos aproximarmos delas.

Uma crianças que lê, é uma criança feliz.

“Ler é como pensar, como rezar, como conversar com um amigo, como apresentar ideias, como ouvir as ideias dos outros, como ouvir música, como contemplar uma paisagem, como dar um passeio no praia” -Roberto Bolaño

Publicado em La mente es maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

 

 

Brincar faz assim tanta diferença? Os benefícios estudados pela ciência

Junho 1, 2019 às 7:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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© Dreamstime

Notícia e imagem do i de 30 de abril de 2019.

Marta F. Reis

Um artigo publicado em 2018 na revista “Pediatrics” fez uma revisão dos efeitos demonstrados ao longo das últimas décadas, também em animais.

Uma função superior mas não só 

“Embora a brincadeira esteja presente numa grande faixa de espécies, de invertebrados (como o polvo, lagarto, tartaruga e abelha) a mamíferos (ratos, macacos e humanos), a brincadeira social é mais proeminente em animais com um grande neocórtex” [área mais desenvolvida no Homo sapiens], lê-se no artigo “The Power of Play”. Brincar dá competências vitais para a sobrevivência, mas há indícios de que os animais brincam mesmo em situações que os deixam em risco.

As primeiras brincadeiras no berço 

Cucu? “O bebé humano nasce imaturo em comparação com outras espécies, com o desenvolvimento do cérebro a acontecer após o nascimento. Os bebés são totalmente dependentes dos pais para regular os ritmos de sono-vigília, alimentação e muitas interações sociais. Brincar facilita a progressão da dependência para a independência e da regulação para a autorregulação. Esta evolução começa nos primeiros três meses de vida”, dizem os autores.

Mudanças vísiveis no cérebro 

O artigo assinala que muitos estudos têm sido feitos em animais, não sendo possível extrapolar as conclusões para o ser humano. Ainda assim, os trabalhos com animais como ratinhos dão pistas. Crias privadas de brincar revelam, mais tarde, menos eficiência e comportamentos mais imaturos. “Ratos criados em gaiolas cheias de brinquedos tinham cérebros maiores, córtex mais espesso e completavam labirintos mais rapidamente”, exemplificam os autores.

Os benefícios para a saúde… e académicos 

O exercício físico associado a muitas brincadeiras não só previne o excesso de peso como tem vantagens para o sistema imunitário, endócrino e cardiovascular, mas também na prevenção de doenças como a depressão. Os autores, da Academia Americana de Pediatria, citam ainda trabalhos que sugerem que as crianças prestam mais atenção às aulas depois de um recreio de brincadeiras livres do que por exemplo de atividades de educação física, mais estruturadas.

Um cérebro pró-social

O artigo faz referência ao livro Affective Neuroscience, de Jaak Panjsepp (1998), para sublinhar que vários estudos com animais sugerem que a função de brincar é construir um cérebro pró-social capaz de interagir com outros de forma efetiva. O autor estudou as bases neurológicas das emoções em animais e sugeriu também que a privação de brincadeira estará ligada a casos de síndrome de défice de atenção e hiperatividade.

Menos stress?

É mais uma pista de estudos com animais. “Doses elevadas de brincadeira estão associadas a níveis baixos de cortisol, o que sugere que brincar reduz o stresse ou que animais sem stresse brincam mais”, lê-se no artigo. Um estudo com crianças de três e quatro anos ansiosas com a ida para a escola estudou o efeito de 15 minutos de brincadeira em comparação com ouvir a professora a ler uma história. O grupo que brincou tinha níveis de ansiedade mais baixos.

Aprender a negociar

“Brincar com colegas geralmente envolve a resolução de problemas sobre as regras do jogo, o que requer negociação e cooperação. Através destes encontros, as crianças aprendem a usar uma linguagem mais sofisticada”, escrevem os autores.

O faz de conta

A análise cita estudos que sugerem que brincar com brinquedos tradicionais está ligado a um vocabulário maior e com mais qualidade do que brincar sobretudo com brinquedos eletrónicos. Também aponta vantagens às brincadeiras de faz de conta: “Encorajam a autorregulação uma vez que as crianças têm de colaborar no ambiente imaginário, concordar em fingir e conformar-se aos papéis, o que melhora a sua capacidade de raciocinar sobre acontecimentos hipotéticos”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

The Power of Play: A Pediatric Role in Enhancing Development in Young Children

O desenvolvimento da linguagem: “A criança percebe tudo, mas não diz quase nada”

Abril 17, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Sandra F. Afonso publicado no Público de 2 de abril de 2019.

Não existem medicamentos para estas situações. A solução passa por estratégias para os pais e intervenção profissional.

O orgulho e recordação de qualquer pai ao ouvir pela primeira vez o seu filho dizer “mamã” ou “papá”, ocorre tradicionalmente no primeiro ano de vida da criança. Segue-se um período de grande desenvolvimento da linguagem, em termos de vocabulário e combinação de palavras, surgindo pequenas frases por volta dos 2 anos de idade, dizendo entre 50 e 100 palavras. Mas e quando isto não acontece? Será que a fala realmente irá surgir mais tarde?

Atraso na fala é uma das causas mais comuns de preocupação dos pais de crianças pequenas, motivando consulta no pediatra ou outro profissional de saúde. Esta situação ocorre em 5 a 10% das crianças em idade pré-escolar, podendo resultar de uma dificuldade específica apenas ao nível da linguagem, ou ser indicador precoce de um problema mais global, como atraso no desenvolvimento ou autismo.

É importante distinguir entre linguagem e fala, usados frequentemente como sinónimos. A linguagem é o uso do código para estabelecer comunicação. Na forma verbal, pelo uso de palavras escritas ou orais, a fala. Na comunicação não verbal, através de meios alternativos, como gestos e expressões faciais, tão espontâneos e significativos nas crianças. Para o normal desenvolvimento da linguagem é necessário que a criança cumpra determinados pré-requisitos, como um nível cognitivo normal, audição mantida, aparelho fonatório (estruturas envolvidas na fala) íntegro, correta programação dos movimentos para a produção da fala, e ainda manifestar vontade de comunicar.

Igualmente importante é a adequada estimulação, que emerge como um problema do século XXI, devido ao atual excesso de tempo de exposição aos ecrãs. Na perturbação da fala existem problemas relacionados com aspetos mecânicos da produção das palavras, prejudicando a articulação das palavras, o ritmo e inteligibilidade do discurso, sendo um exemplo típico a gaguez.

O desenvolvimento da linguagem ocorre espontaneamente e por etapas, existindo diferenças na velocidade de aquisição, e entre as várias culturas e línguas. Começa ainda antes de a criança emitir as suas primeiras palavras, com o balbucio, conhecido como palrar. Utiliza-se o termo atraso de linguagem quando a aquisição se faz de forma normal, com a sequência típica, mas com um ritmo lento, surgindo mais tarde do que a idade habitual. Por regra a compreensão precede a expressão, sendo frequente ouvir os pais afirmarem que a criança “percebe tudo, mas não diz quase nada”! Na chamada perturbação específica da linguagem, o desenvolvimento é atípico, não segue a sequência normal.

Há sinais de alarme que devem preocupar os pais, educadores e cuidadores das crianças, levando-os a procurar ajuda. Não palrar aos 6 meses, não dizer nenhuma palavra aos 12 meses, não apontar aos 15 meses, não compreender ordens simples aos 18 meses, falar sem objetivo de comunicar ou não juntar palavras aos 2 anos, não construir frases aos 3 anos, linguagem incompreensível aos 3 anos, ter uma fala com muitas trocas de letras acima dos 4 anos.

Na prática, perante uma criança com menos de 3 anos, com um atraso na linguagem, mas desenvolvimento psicomotor adequado, compreensão verbal normal, boas capacidades comunicativas e uma história familiar de aquisição tardia, é lícito uma atitude de vigilância, sem necessidade de intervenção imediata. Mas sempre que os pais manifestem preocupação com a comunicação ou socialização da criança, existam fatores de risco tais como prematuridade ou familiares diretos com perturbação da linguagem ou dificuldades de aprendizagem, recomenda-se o encaminhamento para uma avaliação detalhada.

Perante a hipótese de perturbação da linguagem, deve ser realizada uma avaliação da audição, do desenvolvimento psicomotor e cognitivo, incluindo a sociabilização e comunicação. Raramente é necessário efectuar exames de diagnóstico.

Não existem medicamentos para estas situações. A solução passa por estratégias para os pais e intervenção profissional. Pode ajudar o seu filho a desenvolver a fala, conversando frequentemente com ele, contando histórias, cantando músicas com gestos para acompanhar o som, descrevendo as ações do dia-a-dia, relatando o que estão a ver ou fazer juntos. Até os 2 anos de idade evitar o uso de ecrãs. A intervenção profissional é adaptada a cada criança. Consiste em treino em terapia da fala e enquadramento escolar específico, quando indicado. Para não prejudicar o desenvolvimento da criança e prevenir problemas emocionais e isolamento social consequentes a este tipo de perturbações, pode ser necessário recorrer a técnicas de comunicação aumentativa e língua gestual.

 

Pediatra no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas

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