Iémen é “um inferno na terra” para as crianças, diz UNICEF

Dezembro 4, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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YAHYA ARHAB/EPA

 

Artigo do Observador, publicado em 4 de Novembro de 2018.

 

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disse que o Iémen se tornou “um inferno na terra” para as crianças e exortou as partes em conflito a cessarem as hostilidades.

“O Iémen é hoje um inferno na terra, não para 50% ou 60% das crianças, mas para cada menino e menina do Iémen”, declarou o diretor da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere, numa conferência de imprensa em Amã este domingo. “Os números, na verdade, não dizem muito, mas são importantes porque nos mostram até que ponto a situação se tornou desastrosa”, acrescentou.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância considerou assim que o Iémen se tornou “um inferno na terra” para as crianças, atingidas pela fome, e desafiou as partes envolvidas no conflito a cessarem as hostilidades.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, também apelou na sexta-feira ao fim da “violência” para evitar que o país caia num “precipício”.

A guerra no Iémen opõe as forças pró-governamentais e uma coligação liderada pela Arábia Saudita aos rebeldes Huti, apoiados pelo Irão, que em 2014 e 2015 tomaram vastas áreas do país, incluindo a capital, Sanaa.

O conflito já provocou a morte de quase 10 mil pessoas, a maioria civis, causando a pior crise humanitária do mundo. Além dos casos de fome, a população sofre de doenças como a cólera.

“A cada 10 minutos, uma criança morre por causa de doenças que podem ser prevenidas”, adiantou Cappelaere.

O mesmo responsável disse à agência noticiosa AFP na quinta-feira que 1,8 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de “desnutrição aguda”.

O conflito exacerbou “uma situação que já era má devido a anos de subdesenvolvimento” neste país pobre da região, referiu Cappelaere.

“Apelamos a todas as partes para que se encontrem no final deste mês sob os auspícios do enviado especial da ONU para um acordo de cessar-fogo”, declarou hoje o responsável da UNICEF.

Cappelaere sublinhou que a situação é particularmente preocupante em Hodeida, uma cidade portuária controlada pelos rebeldes no oeste do país, que as forças pró-governamentais estão a tentar recuperar.

“O porto de Hodeida é um ponto vital para 70 a 80% da população iemenita (…), porque é apenas através de Hodeida que são feitas as entregas comerciais e humanitárias que nos permitem fornecer ajuda ao norte do país”, explicou.

“Com o assalto de Hodeida, não nos preocupa apenas a vida de centenas de milhares de crianças (na região), mas também o impacto que isso terá sobre as crianças no norte do país”, acrescentou.

 

Mais informações AQUI.

Bater no fundo: O sofrimento das crianças da Síria nunca foi tão grande, diz a UNICEF

Março 24, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Press Release da UNICEF

DAMASCO/AMÃ, 13 de Março de 2017 – As violações graves dos direitos das crianças na Síria atingiram em 2016 o número mais elevado de que há registo afirmou a UNICEF numa análise preocupante sobre o impacto do conflito nas crianças, no momento em que a guerra chega ao fim do seu sexto ano consecutivo. Os casos confirmados de morte, mutilação e recrutamento de crianças aumentaram significativamente no ano passado, com a escalada de violência em todo o país.

  • Pelo menos 652 crianças foram mortas – um aumento de 20 por cento em relação a 2015 – o que faz de 2016 o pior ano para as crianças da Síria desde o início da verificação formal das mortes de crianças (2014);
  • 255 crianças foram mortas numa escola ou nas suas imediações;
  • Mais de 850 crianças foram recrutadas para combater no conflito, mais do dobro do das que foram recrutadas em 2015. As crianças estão a ser usadas e recrutadas para combater directamente nas linhas da frente e participam cada vez mais activamente, incluindo em casos extremos de execuções, como, bombistas suicidas ou guardas prisionais.
  • Foram registados pelo menos 338 ataques contra hospitais e pessoal de saúde.

“O nível de sofrimento não tem precedentes. Milhões de crianças na Síria estão permanentemente sob a ameaça de ataques, as suas vidas estão totalmente viradas do avesso,” afirmou Geert Cappelaere, Director Regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, em Homs, na Síria. “Todas estas crianças ficam marcadas para o resto da vida com consequências terríveis para a sua saúde, bem-estar e futuro.”

As dificuldades de acesso em diversas zonas da Síria não permitem avaliar a verdadeira dimensão do sofrimento das crianças, nem fazer chegar com a devida urgência assistência humanitária às raparigas e rapazes mais vulneráveis. Para além das bombas, das balas e das explosões, as crianças estão a morrer em silêncio muitas vezes de doenças que poderiam ser facilmente evitáveis. O acesso a cuidados médicos, bens de primeira necessidade e outros serviços básicos contínua difícil.

As crianças sírias mais vulneráveis são as que vivem em zonas de difícil acesso, cujo número chega aos 2.8 milhões, entre as quais 280.000 crianças que estão sob cerco e praticamente sem acesso a ajuda humanitária.

Após seis anos de guerra, perto de 6 milhões de crianças dependem agora de assistência humanitária, o que representa um aumento de 12 vezes relativamente a 2012. Milhões de crianças foram deslocadas, algumas sete vezes. Mais de 2.3 milhões de crianças estão a viver como refugiadas na Turquia, no Líbano, na Jordânia, no Egipto e no Iraque.

No interior da Síria e além-fronteiras, as alternativas para lidar com a situação estão a esgotar-se, o que leva as famílias a adotar medidas extremas para sobreviver, empurrando muitas vezes as crianças para o casamento precoce e o trabalho infantil. Em mais de dois terços dos agregados familiares há crianças a trabalhar para ajudarem as famílias, algumas em condições muito duras até mesmo para adultos.

Apesar dos horrores e do sofrimento, há histórias incríveis de crianças determinadas a prosseguir os seus sonhos e aspirações. Darsy (12 anos), actualmente refugiada na Turquia, disse: “Quero ser cirurgiã e ajudar as pessoas doentes e feridos do meu país. Sonho com uma Síria sem guerra para podermos regressar a casa. Sonho com um mundo sem guerras.”

“Continuamos a assistir à coragem das crianças da Síria. Muitas delas atravessaram linhas da frente apenas para fazerem um exame na escola. Elas não desistem de querer aprender, mesmo em escolas escondidas, onde não se vê a luz do dia. Há tanto que ainda é possível fazer e deve ser feito para mudar o curso das coisas para as crianças da Síria,” afirmou Geert Cappelaere.

Em nome das crianças da Síria, a UNICEF apela a todas as partes envolvidas no conflito, aos que sobre estas têm influência, à comunidade internacional e a todas as pessoas que se preocupam com as crianças a fim de se chegar a:

  • Uma solução política imediata para pôr fim ao conflito na Síria;
  • Ao fim de todas as violações graves contra crianças, incluindo a morte, a mutilação e o recrutamento, e também os ataques contra escolas e hospitais;
  • O levantamento de todos os cercos e acesso incondicional e sustentado a todas as crianças que precisam de ajuda, onde quer que estejam na Síria;
  • Prestar apoio continuado aos governos e comunidades que acolhem refugiados dirigido a crianças vulneráveis, independentemente do seu estatuto; e
  • Apoio financeiro sustentado para a assistência humanitária que a UNICEF presta às crianças sírias.

História. 24 fotos onde as crianças não deviam estar

Junho 11, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Observador de 30 de maio de 2016.

Um menino russo baloiça num canhão alemão abandonado, depois da Batalha de Estalinegrado.

Um menino russo baloiça num canhão alemão abandonado, depois da Batalha de Estalinegrado.

Marta Leite Ferreira

Elas choram nos escombros, defendem ideais que não entendem, fazem da guerra um parque. Conheça a história de 24 fotografias onde a infância se perdeu, porque as crianças nunca lá deviam ter entrado.

“A criança deverá crescer num ambiente de afecto e segurança moral e material”. Para as crianças retratadas nestas fotografias, o Princípio VI da Declaração Universal dos Direitos da Criança não foi respeitado. E a infância viu-se assim perdida entre guerras políticas, conflitos religiosos, pobreza extrema e a defesa de ideais que elas ainda não entendem.

Elas transformam tanques e canhões em baloiços, vestem princípios políticos que não têm idade para compreender, choram de fome e perante despedidas demasiado precoces. Nestas 24 fotografias históricas (e algumas delas icónicas), as crianças não deviam ser protagonistas. E o campo de guerras nunca se devia ter transformado num parque infantil.

visualizar as fotos no link:

http://observador.pt/2016/05/30/historia-24-fotos-onde-as-criancas-nao-deviam-estar/#

 

Desenhos de tanques e arame farpado: a inocência perdida na fuga à guerra

Setembro 27, 2015 às 1:57 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Murat já sabe fazer bolas de sabão, mas ainda tem pesadelos com arame farpado. Há muitas crianças a fugir à guerra. Foi nessa fuga que Olussom concebeu um filho que, quando nascer, nascerá europeu.

Murat, um menino sírio de cinco anos, nem sabe bem o que lhe espera. Mustafá, o irmão mais velho de 12 anos, molha cuidadosamente um aro de plástico vermelho dentro de uma pequena garrafa cheia com água e sabão. Depois, mete-o à frente da boca de Murat e diz-lhe:

— Agora sopra!

A primeira tentativa sai-lhe gorada. Sopra, é verdade, mas não fechou os lábios num círculo apertado, para que assim o ar passe certeiramente por entre os aros. Mustafá mostra-lhe como tem de pôr a boca, como se fosse um assobio. Murat ensaia o gesto e, pouco depois, já com o aro em frente à boca, sopra como o irmão manda. E, para seu espanto, sem que estivesse a contar com isso, o ar deste acesso à estação de Keleti, em Budapeste, enche-se de bolhas de sabão. As duas mulheres húngaras que trouxeram uma montanha de brinquedos e livros para colorir — “somos mães e achámos que devíamos vir cá brincar com eles, porque precisam muito”, diz-nos uma — aplaudem-no e ele ri alto.

Aprender a fazer bolhas de sabão está longe de ser a maior prova pela qual estes dois rapazes, irmãos de Rana, de 8 anos, e filhos de Raaman, antiga doméstica, e de Mujab, antigo professor de escola primária, passaram ou irão passar.

Foi em 2013 que tiveram de mudar de vida. A guerra na Síria começou um ano antes, mas não demorou muito a chegar à pequena cidade onde esta família vivia, no Norte do país. Naquela altura, a decisão que tinham de tomar era simples e as opções claras: ou ficavam na Síria e arriscavam a morte, ou deixavam tudo para trás e fugiam para a Turquia.

No verão de 2013, instalaram-se em Istambul, a maior cidade da Turquia. “Não quisemos ir para mais longe porque queríamos ficar perto do nosso país, queríamos voltar para lá. Pensámos que dava para ficarmos algum tempo na Turquia e que depois podíamos regressar a salvo à nossa terra”, conta-nos Raaman, a matriarca. O pai de Mujab, esperançado de que a guerra não ia durar muito tempo, ficou para trás a tomar conta da casa que esta família de cinco deixou quase vazia.

A vida em Istambul não foi como a vida que perderam com o início da guerra na Síria. O facto de estarem sem documentos na Turquia levou-os a terem de escolher entre os poucos caminhos que tinham à frente. Para Mujab, era impensável voltar a dar aulas na primária. Porém, tinha experiência de padeiro — profissão que exercia na Síria sempre que precisava de mais algum dinheiro no final do mês. Assim, aceitaram-no numa padaria. E Raaman, também ela clandestina, começou a trabalhar numa fábrica têxtil.

“Mataram o nosso pai!”

Poucos meses depois de chegarem, já no início de 2014, o dinheiro deixou ser suficiente e Mustafá, que na altura tinha 11 anos, começou a ajudar a mãe na fábrica a troco de um pouco de dinheiro. Enquanto a mãe cosia uma nova peça de roupa, o filho dobrava as que iam ficando prontas. Murat e Rana, então com 4 e 7 anos, não iam à escola ou à creche. Durante o dia, o pai tomava conta deles. Quando a padaria o chamava, de madrugada, Raaman assumia essa responsabilidade.

Enquanto a vida da família na Turquia piorava, a certeza de que ela não seria melhor na Síria veio por telefone. “Mataram o nosso pai!”, ouviu Mujab do seu irmão, que lhe ligara para dar a notícia. Morreu com um tiro na cabeça, em circunstâncias até agora desconhecidas, dentro da casa a que Raaman e Mujab esperavam voltar.

“Nessa altura tive a maior certeza que já tinha tido na vida. Tínhamos de sair de Istambul, deixar a guerra para trás, fugir para o mais longe possível. Em Istambul não há guerra mas também não há vida para nós. Como é que eu posso educar os meus filhos se eu tenho de obrigá-los a trabalhar para podermos comer? Como é que eles vão estudar, para serem alguém nesta vida? Não podia deixar que lhes tirassem o futuro das mãos”, afirmou Mujab.

O Google deu Holanda

O patriarca começou a fazer contas. Por um lado, tinha algum dinheiro de reserva, para uma emergência. Depois, pediu outro tanto emprestado. A seguir, tratou que tudo o que tinha deixado na Síria, inclusive a casa onde lhe mataram o pai, fosse vendido e que o dinheiro lhe fosse transferido. Por fim, foi ao Google com a mulher e procurou saber qual era o melhor sítio na Europa para poderem retomar as suas vidas. A pesquisa deu-lhes a Holanda — e foi em direção à Holanda que partiram.

“A viagem correu bem”, relativiza Mujab, que já viu as fotografias de Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que deu à costa já cadáver depois de se ter afogado na travessia do mar Egeu, entre a Turquia e a Grécia. “Felizmente não fomos pelo mar, é muito perigoso. À exceção de um rio que tivemos de atravessar de uma margem à outra, fizemos o caminho todo por terra.”

Turquia, Grécia, Macedónia, Sérvia e Hungria. Uma trajetória pouco original — de uma maneira ou de outra, a grande parte daqueles que aguarda na estação os comboios em Budapeste, que partem em direção à Áustria, fez este percurso — mas que mesmo assim custou 10 mil euros à família. “Não tínhamos escolha”, diz Mujab.

Quando chegaram à fronteira com a Sérvia e Hungria, depararam-se com a barreira de arame farpado. “Nessa altura estávamos todos muito assustados”, conta Mujab. Até então, os relatos que lhes chegavam da Hungria e da sua guarda fronteiriça eram tudo menos positivos. Por isso, Mujab e Raaman, até aí otimistas, tiveram medo. E pior: os seus três filhos entenderam que não estavam serenos. “Tentámos esconder isso deles, mas eles não são parvos, eles entendem o que está à volta deles.”

Era de noite e não se via nada além da pouca luz que os ecrãs de telemóvel espalhavam. Alguém lhes disse que se andassem para a esquerda, ao longo daquela cortina de ferro, havia uma falha por onde podiam entrar sem problemas. Enquanto caminhavam para lá, Murat tropeçou na terra e caiu diretamente com a cara no chão. Quando os pais o levantaram, tinha o sobrolho esquerdo a escorrer sangue da queda. Mujab pegou num lenço para estancar a hemorragia e pegou no filho ao colo pedindo-lhe que não fizesse barulho. Pouco depois, atravessaram a fronteira através da falha no arame farpado que lhes prometeram. Chegaram à Hungria.

“Nós estamos bem, a sério”, garante Mujab. “Só o Murat é que de vez em quando tem pesadelos, porque ficou muito assustado depois de ter caído. Foi como se naquela altura ele soubesse o que se passa aqui. Mas já passou.”

Não é por acaso que o pai de Murat garante que o seu filho está bem. Afinal de contas, enquanto ele nos conta esta história por intermédio de uma tradutora, o rapaz de cinco anos continua a dar os primeiros passos na arte de fazer bolhas de sabão. Mesmo ali ao lado. Tanto que, uma delas, por pouco não rebenta nos cabelos grisalhos de Mujab.

Os gémeos que nasceram em fuga

Por perto, Parvis passeia-se com a sua filha de dois meses nos braços, envolta numa manta cor-de-rosa. “É a Mahdiz”, diz-nos enquanto a rapariga dorme. “E também há o Mahdia!”, diz-nos, apontando para a tenda onde os refugiados recebem comida dos voluntários que se juntam na estação. É lá que está a sua mulher Mahdia, com o irmão gémeo de Madhiz, nos braços. Em tudo igual, à excepção da manta que, em vez de cor-de-rosa, é azul.

“Nasceram na Turquia, enquanto fugíamos do Afeganistão”, conta-nos. “Saímos de lá por causa dos talibãs, lá há muita guerra, não é só na Síria”, diz-nos em voz baixa, para não acordar o filho. O parto fez-se pelo caminho da fuga. “Não havia hospital, não havia médico, nada… Mas agora está tudo bem!”

“Não queria acreditar quando vi aqueles desenhos”

David Markus, um estudante de medicina húngaro de 19 anos, tinha à sua frente um grupo de crianças sírias acabadas de chegar à Hungria vindos de um campo de refugiados. Diz-nos o local mas pede para que não escrevamos: “Fui obrigado a assinar um documento legal a dizer que não ia divulgar o que se passou lá dentro. Sendo assim digo-te o que se passou mas não digo onde foi”. Sentado numa cadeira de campismo do posto médico improvisado na estação de Keleti, David olha em volta para falar. A sala não está muito cheia, além de três mulheres que estão sentadas. Entre elas está Olussom, uma síria de 21 anos com um ar nervoso e com os olhos vermelhos, de quem não há muito tempo estava a chorar.

David retoma, então, a sua história. “Eu estava num sítio onde tinham acabado de chegar refugiados. Entre eles, estavam algumas crianças. E como não havia ligaduras nem comprimidos, mas havia uma resma de papel e uma caixa cheia de lápis de cor, decidi entreter as crianças. Fui ter com um grupo de para aí dez miúdos que estavam sem fazer nada e meti-os a desenhar”, conta.

Pouco tempo depois, os desenhos já estavam prontos, e cada uma das crianças queria mostrar, com orgulho, as folhas de papel já coloridas a David. A maior parte dos desenhos eram talvez iguais aos de qualquer outra criança. “Desenhavam a família deles, desenhavam o sol, flores e árvores grandes”, diz. “Mas houve dois desenhos que me deixaram de rastos. Não queria acreditar quando vi aqueles desenhos.” David tirou o telemóvel do bolso, vai ao arquivo de fotografias e finalmente mostra aquilo de que nos falava.

Em cima, uma folha de papel em que a criança só usou um lápis de cor cinza. Ao lado da sua família, feita com traços infantis, estava um emaranhado de riscos confusos que dividiam a página em dois. Enquanto explicava o desenho, a criança, colocando o dedo de cada um dos lados daquelas bolas cinzentas, dizia-lhe. “Here, Serbia. Here, Hungary.”

Por baixo, ainda outro desenho, desta vez a cores. Mais precisamente a verde — verde cor de tanque de guerra, que naquela folha de papel estava desenhado em detalhe e com o canhão apontado a uma pessoa.

Um bebé a caminho

“Aquilo que eu mais noto nas crianças são os pés”, conta-nos David com alguma pressa, porque tem aulas na faculdade de medicina dentro de 30 minutos. “Chegam com cortes nas plantas dos pés, com feridas, bolhas… Têm de andar muito e raramente têm cuidados médicos. É horrível.”

David está mesmo com pressa e faz sinal de que vai sair. Mas, quando já se está a preparar para ir porta fora, arreda o passo. Isto porque Olussom, a rapariga síria que ali se sentava com um ar preocupado, acaba de sair da casa de banho. Tem uma notícia para dar, mas as lágrimas de felicidade que lhe caem da cara entopem-lhe a fala. Por isso, mostra à médica responsável pelo posto a razão da sua emoção: um teste de gravidez positivo.

“Vais ter um bebé?! Estás grávida, estás grávida! Aaaah! Parabéns, parabéns!”, diz-lhe a médica, que quase salta para cima de Olussom num abraço.

David, já de mochila às costas, pergunta à jovem mulher que agora sabemos estar grávida se lhe pode tirar uma fotografia. “Quero recordar-me deste momento” diz. Ela acede, antes de sair com um sorriso enorme na cara. Dentro de alguns meses vai ter o primeiro filho e daqui a 30 minutos parte para um comboio com destino a Viena.

João de Almeida Dias, em Budapeste, para o Observador em 8 de Setembro de 2015

Conflitos impedem 13 milhões de crianças de ir à escola este ano

Setembro 21, 2015 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Mais de 8850 escolas na Síria, no Iraque, no Iémen e na Líbia não podem acolher alunos e a insegurança mantém milhares de crianças em casa em vários países afectados pela guerra.

Mais de 13 milhões de crianças não vão à escola este ano por causa da guerra em vários países do Médio Oriente e de África, concluiu a UNICEF num relatório publicado esta quinta-feira. A organização da ONU para a infância denuncia uma “situação desastrosa”.

O relatório debruça-se sobre seis países e territórios em guerra ou instáveis (Síria, Iraque, Iémen, Líbia, territórios palestinianos e Sudão), bem como três outros países que acolhem um grande número de refugiados sírios (Jordânia, Líbano e Turquia). “O impacto destrutivo dos conflitos é sentido pelas crianças em todas estas regiões”, resume Peter Salama, o director da UNICEF para o Médio Oriente a o Norte de África. “Não se trata apenas de escolas que foram destruídas ou não estão em condições de abrir, trata-se do desespero de uma geração de alunos que vêm o seu futuro comprometido.”

Mais de 8850 escolas na Síria, no Iraque, no Iémen e na Líbia não podem acolher alunos porque foram destruídas ou danificadas, porque servem de abrigo a famílias deslocadas ou estão ocupadas por beligerantes. Na Faixa de Gaza, famílias inteiras utilizam os estabelecimentos escolares como refúgio porque as suas casas foram destruídas durante a ofensiva militar de Israel no Verão de 2014. O mesmo acontece no Iraque, onde as escolas acolhem alguns dos três milhões de deslocados que fugiram das suas cidades afectadas pela violência, nomeadamente provocada pelos jihadistas do autodenominado Estado Islâmico.

Na Síria, no Sudão e no Iémen, bem como numa grande parte da Líbia, os pais não deixam os seus filhos ir à escola por razões de segurança, acrescenta a UNICEF. Ir à escola implica “muitos perigos” para milhares de crianças, sublinha a organização que contabilizou 214 ataques contra estabelecimentos escolares nos países analisados em 2014.

“Na Síria, o conflito destruiu décadas de trabalho a favor do alargamento do acesso à educação”, lê-se no relatório. A guerra já produziu 7,6 milhões de deslocados no interior do país e levou mais de quatro milhões a refugiarem-se noutros países. Mais de 52 mil professores abandonaram o seu trabalho. Fora da Síria, mais de 700 mil crianças sírias não estão a ir à escola.

Um outro factor que contribuiu para este abandono escolar é que os conflitos diminuíram consideravelmente os meios de subsistência das famílias, levando muitas crianças a deixarem a escola para irem trabalhar ou, no caso das raparigas, para se casarem.

Privados de escola, alguns jovens acabam por se juntar, voluntariamente ou não, a grupos armados envolvidos nos conflitos, alerta também a UNICEF. A ausência de educação é uma das razões avançadas por refugados sírios que arriscaram a viagem até à Europa. O relatório cita a justificação de Nisreen, uma mãe de família de 34 anos que chegou recentemente à ilha grega de Kos: “Eu quero que os meus filhos possam brincar e ir à escola como todas as crianças”.

Público, em 3 de Setembro de 2015

A dor maior. Quando as crianças se tornam símbolos

Setembro 7, 2015 às 11:59 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A imagem do menino morto à beira mar tornou-se o ícone mais marcante do drama diário de milhares de refugiados sírios. De Hiroshima ao Sudão, outras imagens que viraram bandeiras de desastres humanitários.

Publicar ou não uma imagem de uma criança morta é um exercício discutível, que põe em causa os princípios deontológicos dos media. Mas a fotografia de Aylan Kurdi encontrado morto à beira mar na Turquia tornou-se viral também nas primeiras páginas dos jornais por todo o mundo. Pela carga emocional que acarreta, tornou-se símbolo de um movimento de migração de refugiados que assumiu proporções incontroláveis, às quais é impossível continuar a responder da forma como a Europa tem feito até agora.

No passado, outras imagens também se tornaram símbolos de conflitos e tragédias humanitárias, e as crianças foram protagonistas principais. Talvez por serem as vítimas mais inocentes de um estado de coisas para o qual não contribuíram, personalizam o maior e mais doloroso dos sofrimentos humanos ao qual é impossível ficar indiferente. Recordamos quatro:

crianca-xangai-922eXangai,  Agosto de 1937

A imagem de um bebé a chorar entre os destroços na cidade chinesa de Xangai depois de um ataque aéreo japonês foi vista por milhões de pessoas depois de aparecer na revista Life em Outubro seguinte. Mais tarde surgiram imagens do pai a colocar a criança naquele sítio, surgindo a tese de que a situação tinha sido encenada por H.S. Wong para dar dramatismo ao acontecimento.

crianca-hiroshima-3e84Hiroshima, Agosto de 1945

Depois dos bombardeamentos de Hiroshima, um fotógrafo captou a imagem de um bebé agachado a chorar entre os destroços. A imagem emocionante correu o mundo e ajudou a mobilizar a opinião pública contra o sacrifício de civis.

crianca-vietnam-8de1Vietname, Junho de 1972

A imagem da menina que corria despida depois de um ataque de napalm por parte das tropas norte-americanas é o retrato do sofrimento de um povo durante a guerra do Vietname. Kim Phuc era uma menina de 9 anos a fugir desesperada quando Nick Ut da Associated Press imortalizou o momento, o que lhe valeu um prémio Pulitzer.

crianca-sudao-ee7eSudão, Março de 1993

Kevin Carter foi o autor da imagem impressionante que mostrava um abutre que se preparava para atacar uma criança sudanesa desnutrida e em agonia. O frame icónico publicado no New York Times valeu-lhe um Pulitzer, mas o fotógrafo sul-africano viria suicidar-se em 2011, carregando consigo o peso de não ter feito mais para ajudar a menina. Confessou ais tarde quando recebeu o prémio que aguardou 20 minutes até disparar, esperando que o abutre abrisse as asas, e que viveu para sempre com esse arrependimento.

para a Visão, em 3 de Setembro de 2015 

The New Way of War: Killing the Kids

Julho 19, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do The New Yorker de 4 de julho de 2014.

Photograph by Moises Saman Magnum

Photograph by Moises Saman/Magnum

 

Posted by Robin Wright

In 1994, on the eve of Rwanda’s genocide, Radio Mille Collines, in Kigali, incited listeners with a venomous message: “To kill the big rats, you have to kill the little rats.” It was a veiled command to murder the youngest generation of Tutsis, the country’s minority tribe. In less than four months, an estimated three hundred thousand children were slashed, hacked, gunned, or burned to death, according to the United Nations. Among the dead were newborns.

The Rwandan slaughter was not unique. The specific targeting of children is one of the grimmest new developments in the way conflicts have been waged over the past fifty years. In the eighteenth, nineteenth, and early twentieth centuries, roughly half of all deaths in conflict zones were civilian, according to the U.N. During the Second World War, civilians accounted for two-thirds of the fatalities. By the twentieth century’s end, almost ninety per cent were civilian.

Children have accounted for increasingly large chunks of those deaths. In 1995, UNICEF reported that roughly two million kids had been killed in wars over the previous decade—more children than soldiers. “Children are not just getting caught in the crossfire, they are also likely to be specific targets,” Graça Machel, the Secretary-General’s Special Representative, declared in the first U.N. “Children in War” report, in 1996. She went on:

When ethnic loyalties prevail, a perilous logic clicks in. The escalation from ethnic superiority to ethnic cleansing to genocide, as we have seen, can become an irresistible process. Killing adults is then not enough; future generations of the enemy—their children—must also be eliminated.

In the twenty-first century, the escalating dangers to children in conflict zones are often overlooked amid the terrible dramas of individual loss, such as the recent killing of three Israeli teen-agers and a young Palestinian. But the worldwide numbers are unprecedented. “We’re seeing everywhere that violence against children is an epidemic, amplified in conflict situations,” Susan Bissell, UNICEF’s chief of child protection, told me this week. “One billion children are today living in countries and territories affected by war or conflict—and it’s fair to conclude that large numbers suffer violent injuries and death.”

According to the Secretary-General’s latest “Children and Armed Conflict” report, issued on Tuesday, one of the most dangerous places to be a child is Syria. To take a single example: in the spring of 2011, Hamza al-Khateeb, a pudgy thirteen-year-old, got separated from his parents during a protest against the government of Bashar al-Assad. His mutilated corpse—with gunshot wounds, cigarette burns, a shattered jaw and kneecaps, and a severed penis—was returned to the family a month later. A government medical examiner reportedly claimed that the boy had been shot during the protest, and that the disfigurement was either normal decay or faked. Pictures of the body circulated on the Internet and in Syrian media, perhaps as a warning to dissidents and parents.

Since then, at least eleven thousand Syrian children—and probably thousands more—are estimated to have died in the vicious civil war. Almost eight hundred were summarily executed, with dozens killed by chemical weapons, according to the Oxford Research Group. One of the most memorable pictures from the Syrian regime’s use of sarin nerve gas last August was the long row of little corpses, wrapped in white shrouds that exposed innocent faces, as they awaited burial.

Other kids have become collateral for combatants. As Israel searched for the three abducted teenagers, UNICEF issued a statement of “grave concern” about the May 29th kidnapping of a hundred and forty Kurdish schoolboys in northern Syria. As they were returning to their hometown from junior-high-school exams in Aleppo, they were seized and taken hostage by the Islamic State of Iraq and al-Sham (ISIS). Four managed to escape; the rest are still missing.

Technology, ranging from nuclear weapons to small cluster bombs, has made non-combatants, especially the young, particularly vulnerable. I lived in Lebanon during its civil war. After the Israeli invasion in the nineteen-eighties, dozens of Lebanese kids were killed by cluster bombs, either in direct hits or by stepping on them or after mistaking them for toys.

When it comes to the use of insidious weaponry, nearly all sides have something to answer for. In Afghanistan, at least thirty-five thousand children have been victims of land mines since 1979, according to the U.N. Special Representative for Children and Armed Conflict. When I visited the orphanage in Kabul in 1999, during the Taliban’s rule, a turbaned official lamented losing orphans who wandered into neighborhoods where land mines or explosives had been deposited by assorted domestic and foreign militaries over the previous two decades. Fifteen years later, Afghan children are still dying from the weaponry of conflicts both old and new.

Death tolls for kids are sometimes fuzzy and often not final, even long after wars end. In Bosnia, more than a thousand children are reportedly missing from a war that ended a generation ago. Aid groups also point out that politicians, militias, and interest groups exploit child deaths—both their numbers and circumstances—for propaganda value, a recurrent controversy in counting the death toll in Iraq’s various conflicts.

Regardless of public revulsion, U.N. officials told me this week, the rising number of child casualties is unlikely to subside anytime soon. Today’s wars are increasingly within countries rather than between them; the fighting has moved to city streets, invading the playrooms of homes and kindergartens.

Photograph by Moises Saman/Magnum.

 

“A Guerra não é Brinquedo”

Maio 27, 2010 às 9:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A campanha “A Guerra não é Brinquedo” é uma iniciativa da Amnistia Internacional – Portugal.

Campanha da UNICEF em defesa das crianças vítimas da guerra

Maio 25, 2010 às 9:00 pm | Publicado em Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança | Deixe um comentário
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A UNICEF lançou uma campanha em África no âmbito do seu trabalho com crianças soldado. O nome da campanha é UNICEF Toy Soldiers e foi desenvolvida pela Y&R South Africa. Consiste no envio por correio de uma embalagem que parece conter um conjunto de típicos soldados de brincar mas, ao abrir, constata-se com surpresa que as miniaturas representam na verdade crianças a ler, a jogar futebol, a andar de bicicleta e outras actividades próprias da infância:

The African continent has the world’s highest number of child soldiers, fighting in wars they don’t believe in, for causes they don’t understand. UNICEF extract many of these children from combat and reintegrate them into society. Our aim was to rally support for this programme. The mailer, sent out to UNICEF supporter mailing lists and potential corporate sponsors, appeared to be a typical packet of toy soldiers. Once opened, the recipient would see that the figurines were in fact children, reading books, playing soccer, riding bikes and doing other childhood activities. The campaign was recognised with a Silver Pencil for Collateral at the 2010 One Show.

Research into the campaign’s reception indicate that awareness is up, and beyond the desired reaction from the recipients. Many compliments are being received about the unique way in which it was put forward. More than a simple message, it’s an ongoing reminder of the realities these children face every day”.

Fonte: The Inspiration Room


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