Livros infantis discutem política, gênero e regimes totalitários

Março 10, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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texto do site http://www1.folha.uol.com.br de 27 de fevereiro de 2016.

 

CRISTINA PAIVA DE SÃO PAULO

Você vai com seu filho à livraria e deixa-o escolher os livros que deseja levar pra casa, e, obviamente, as crianças adoram aqueles coloridos e belamente ilustrados. Ele (ou ela) surge então, na hora do jantar, com perguntas do tipo: por que (no caso do garoto) eu não posso usar vestido se homens e mulheres são iguais? O que o seu partido político defende? Nós somos ricos de verdade ou da classe média que inveja os ricos?

Está preparado? Bem, se você é pai ou mãe engajado numa educação crítica e progressista, vai se divertir com a coleção “Livros para o Amanhã”, que a Boitatá (selo da editora Boitempo voltado para crianças) acaba de lançar. São quatro livros que versam sobre o regime democrático (“A Democracia Pode Ser Assim”), o autoritarismo (“A Ditadura É Assim”), as desigualdades entre as classes (“O que São Classes Sociais?”) e entre os sexos (“As Mulheres e os Homens”). Os dois primeiros já foram lançados; os outros sairão em março

Mikel Casal/Reprodução

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Galeria de ditadores para “A Ditadura é Assim”

Os textos foram resgatados de edições espanholas publicadas entre 1977 e 1978 (já as belas ilustrações foram feitas especialmente para as reedições), informação que se encontra na introdução dos volumes e é indispensável na contextualização da leitura.

capaIsso porque o tom afirmativo e um tanto esquemático adotado na apresentação de assuntos complexos causa surpresa, mas torna-se compreensível diante de um pano de fundo no qual valores como o direito à liberdade e à vida se encontram suspensos ou gravemente ameaçados, como no caso dos longos anos (1939-1975) da ditadura do general Francisco Franco.

O problema é que, por trás, há a ideia de que as desigualdades (entre classes econômicas e políticas e entre sexos) são invariavelmente consequência de abusos de poder, da imposição à força. Só que nem sempre é assim, e nem sempre o mundo se divide em apenas dois lados. Nos anos 1970, ainda havia a ideia de oposições distintas mais claras, entre direita e esquerda, conservadores e progressistas ou liberais, golpistas e democratas e até (por que não?) homens e mulheres. Sabemos que, hoje em dia, essas oposições não são tão nítidas: a agenda de partidos mais à direita e ou à esquerda nem sempre segue polarizada, assim como o feminismo não é apenas um e assume nuances e reivindicações que ultrapassam o direito de mulheres ocuparem lugares iguais aos tradicionalmente reservados aos homens (sem tocar no assunto de outros tipos de sexualidade…).

De qualquer modo, não é um discurso que tenha perdido sua validade,capa2 pois há casos e casos de exploração e desigualdade “”e, para romper hábitos culturais e históricos naturalizados, é preciso, pelo menos num primeiro momento, apontar o dedo em riste, denunciar o absurdo, ser curto e grosso. Nem sempre há espaço para relativizações.

Cada um dos volumes é ilustrado por um artista contemporâneo espanhol, trazendo diferentes linguagens estéticas e relações com os textos. Nos volumes já publicados, por exemplo, Marta Pina produz colagens a partir de fotografias e gravuras de revistas antigas, que lembram muito as animações com um pé no surrealismo do grupo britânico Monty Python, emprestando um caráter mais aberto e lúdico ao texto. Já o traço do chargista político Mikel Casal cria uma atmosfera ao mesmo tempo refinada e cômica em “A Ditadura É Assim”, com referências que parecem ir das caricaturas do expressionista George Grosz (implacável satirista da República de Weimar) aos alucinados desenhos da Pantera Cor-de-rosa.

Ao final, são livros que servem bem aocapa3 propósito de instigar o debate e, quando lidos pelas crianças, demandam o acompanhamento de adultos interessados em orientar a reflexão com explicações e novas perguntas. Ou corre-se o risco de ser pego de surpresa e engasgar com a sopa.

A DEMOCRACIA PODE SER ASSIM

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Marta Pina

EDITORA: Boitatá

A DITADURA É ASSIM capa4

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Mikel Casal

TRADUÇÃO: Thaisa Burani

EDITORA: Boitatá

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

O QUE SÃO CLASSES SOCIAIS?

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Joan Negrescolor

TRADUÇÃO: Thaisa Burani

EDITORA: Boitatá

AS MULHERES E OS HOMENS

QUANTO: R$ 39 (52 págs.)

AUTOR: Equipo Plantel

ILUSTRAÇÕES: Luci Gutiérrez

TRADUÇÃO: Thaisa Burani

EDITORA: Boitatá

 

 

 

 

 

Escolaridade dos pais ainda é determinante no percurso dos filhos

Outubro 31, 2015 às 8:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 21 de outubro de 29015.

adriano miranda

 

Romana Borja-Santos

Estudo acompanhou jovens nascidos na década de 1990 e entrevistou-os em vários momentos. Percurso escolar ainda é muito influenciado pelos anos de escolaridade que os próprios pais conseguiram e pelo rendimento das famílias.

É jovem, tem 21 anos e 15 ou mais anos de escolaridade. Quem serão os seus pais? A pergunta, aparentemente, pode não fazer sentido. Mas a resposta mais comum, encontrada por um estudo que será apresentado nesta sexta-feira, ainda aponta para que este rapaz ou rapariga seja filho de um casal com um nível de escolaridade idêntico. Caso os pais tenham menos habilitações, então o mais provável é que este jovem tenha conseguido contrariar esse determinante social com mais leitura, estudo e desporto durante a adolescência. É também mais verosímil que seja uma rapariga.

“A classe social de origem e a educação dos pais ainda têm muito peso no percurso escolar dos filhos. A origem social ainda pesa muito, apesar de os filhos com ensino superior terem triplicado em relação aos pais que tinham chegado a esse nível”, resume ao PÚBLICO a socióloga Anália Torres, coordenadora do estudo Reproduzir ou Contrariar o Destino Social?. O trabalho será apresentado nesta sexta-feira na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e faz parte do projecto Epiteen24 (Epidemiological Health Investigation of Teenagers in Porto).

A investigação da também professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa contou com uma amostra de 2942 pessoas nascidas na década de 1900 e que em 2003/2004 frequentavam as escolas públicas e privadas do Porto. O grupo tem sido acompanhado e inquirido aos 13 anos, 17, 21 e agora 24 anos, com os investigadores a publicarem vários trabalhos ao longo deste período. Os dados recolhidos aos 21 anos já estão totalmente fechados e a equipa está a trabalhar os resultados obtidos aos 24 anos.

As conclusões do estudo antecipado ao PÚBLICO apontam, de forma clara, para que “uma parte substancial das diferenças no desempenho educacional está associada à escolaridade dos pais, o que sugere a continuidade de mecanismos de desigualdade de oportunidades num quadro geral de democratização da educação”. Anália Torres destaca que, independentemente da escolaridade, os rendimentos do agregado familiar também pesam, com as famílias com menos habilitações mas com mais orçamento a conseguirem levar os filhos mais longe na escola.

A propósito do peso dos pais nas diferenças encontradas, a investigadora exemplifica que a taxa de chumbos alcançou os 78% entre os jovens com menos anos de escolaridade e filhos de pessoas com menos habilitações. Entre os jovens com pelo menos 15 anos de escolaridade e filhos de pais com os mesmos anos de estudos a taxa de reprovação em algum momento do percurso escolar ficou-se pelos 1,6%. De destacar que nos inquiridos que conseguiram ultrapassar os pais com menos habilitações a taxa de chumbos cai para 12,9%.

Apesar disso, Anália Torres ressalva que há situações positivas e tendências que contrariam esta realidade maioritária. “Há casos que mostram que há também hipótese de as pessoas, através da educação, poderem melhorar a sua situação. É muito mais fácil para os que têm pais com escolaridade elevada chegarem eles próprios a uma escolaridade elevada, mas a escola também pode correr bem aos jovens com pais com escolaridade mais baixa, desde que se foquem”, diz.

A investigadora dá como exemplo que os jovens que aos 13 anos tinham hábitos de leitura, de estudo e de desporto chegaram mais longe nos estudos, independentemente do percurso dos pais. “É como se o esforço da leitura, do estudo e do desporto acabasse por poder compensar o nível de educação”, afirma. Paradoxalmente, estes adolescentes viam tanta televisão e jogavam tanto computador como os que obtiveram piores resultados.

A socióloga adianta que nas entrevistas que fizeram agora aos jovens com 24 anos que estão a tentar perceber em que medida é que foram os próprios alunos a fazer este esforço ou os pais a incentivar – tentando distinguir, por exemplo, os casos em que pais e filhos estudavam juntos. Porém, avança que os resultados preliminares apontam para que a crise tenha “acentuado algumas diferenças”, com mais jovens a deixarem os estudos não por insucesso mas por “necessidade de trabalharem devido a situações de desemprego dos pais”.

Outra tendência interessante identificada está nas diferenças entre rapazes e raparigas. “No grupo de jovens com pais pouco escolarizados são as raparigas que atingem maior nível de escolaridade”, representando dois terços do total. Também “no grupo de jovens cujos pais têm licenciatura ou mais, são os rapazes que encontram maior dificuldade em atingir o mesmo nível de escolaridade”, acrescenta-se. Mas Anália Torres ressalva que na chegada ao mercado de trabalho a realidade inverte-se. “No mercado de trabalho parece que as vantagens das raparigas desaparecem. Estão mais desempregadas e com trabalho a tempo parcial. É como se pudessem vir a ser mães e isso as prejudicasse, o que é uma contradição em relação ao mérito”, lamenta a socióloga.

A este propósito, sublinha que encontraram algumas explicações numa parte em que avaliaram o chamado capital social dos jovens e em que se percebe que as redes de apoio dos rapazes são mais públicas e as das raparigas mais familiares. “Uma das interrogações que fizemos foi ‘onde é que os rapazes compensam se elas estudam mais e se apresentam mais cedo no mercado de trabalho e com mais habilitações?’”, explica, concluindo que “uma das coisas que é muito interessante verificar é que eles fazem o que se chama de mais bridging, ou seja, através do desporto e de redes de conhecimento mais públicas mobilizam contactos de emprego e compensam as falhas em termos de estudo”.

 

 

Mais vale rico que inteligente. Estudo mostra que família rica é fator mais importante para sucesso

Julho 30, 2015 às 10:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 27 de julho de 2015.

Brad Flickinger

Um estudo que acompanhou as vidas de 17 mil pessoas mostrou que as crianças ricas tinham maior probabilidade de sucesso do que as pobres mesmo que fossem menos inteligentes.

As crianças que nascem e crescem em famílias ricas têm maior probabilidade de serem bem-sucedidas do que as crianças de famílias pobres, mesmo que as crianças desfavorecidas sejam mais inteligentes. A conclusão é de um estudo realizado no Reino Unido pela Comissão para a Mobilidade Social e Pobreza Infantil, revelado esta segunda-feira.

O estudo analisou as vidas de 17 mil pessoas que tinham nascido na mesma semana em 1970, comparando o que essas pessoas tinham conseguido aos 42 anos. Concluíram que mesmo quando as crianças, aos 5 anos, se tinham saído mal em testes cognitivos, tinham maior probabilidade de ser bem-sucedidas se fossem ricas do que crianças de famílias desfavorecidas que tinham bons resultados nesses testes.

As crianças de famílias ricas tinham 35 por cento maior probabilidade de virem a ganhar bem na sua vida adulta do que crianças mais inteligentes nascidas em famílias pobres. “Existe uma vantagem clara para as crianças que estudam em escolas privadas”, lê-se no estudo, que também encontrou uma correlação entre o nível de educação dos pais e o futuro sucesso das crianças nas suas carreiras.

“Se os políticos estão a falar a sério acerca do seu desejo de aumentar a mobilidade social no Reino Unido, precisam de lidar com as barreiras que impedem as crianças de atingir o seu potencial total, e de remover as barreiras que bloqueiam a mobilidade social para baixo”, acrescentam os investigadores da Comissão que realizou o relatório.

Com o termo “mobilidade social para baixo”, os investigadores referem-se à dificuldade que existe em mudar de classe social para uma menos favorecida quando se pertence a famílias muito ricas. Tal como é difícil para as crianças pobres alcançarem estatutos socioeconómicos superiores ao longo da vida, existe aquilo a que chamam um “chão de vidro” que impede que as crianças de famílias ricas sejam significativamente menos bem sucedidas que as famílias, mesmo que sejam menos inteligentes que as restantes.

 

 


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