Eu parti o telemóvel

Maio 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo machado  publicado na Visão de 15 de abril de 2019.

Muitos dos nossos alunos estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

Nunca imaginei fazer esta afirmação. Hoje, porém, após muita reflexão e em plena interrupção letiva de Páscoa, assumo que sonho com uma escola sem internet e com alunos sem telemóveis. Pronto, já disse. Hesitei várias vezes antes de escrever isto mas, por vezes, as decisões são como os precipícios. A gente atira-se por ali a baixo e deixa de haver lugar para arrependimento…

Ando há vários meses a observar os alunos dentro e fora das aulas, sobretudo nos intervalos. Sofrem, quase todos, de nomofobia (fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores). De facto, assim que dá o toque de saída, os alunos na sua maioria limitam-se a ligar o telemóvel e ali ficam, presos ao ecrã. Antes, saíam para os pátios, iam à sala de convívio, jogavam, cantavam, namoravam, sei lá… Agora, limitam-se simplesmente a olhar para o ecrã do telemóvel, que para eles parece ser tão importante como os seus próprios pulmões. Passei há dias por um corredor onde estavam, sem exagero absolutamente nenhum, mais de quinze alunos solitários – como se de ilhas se tratassem – agarrados ao ecrã. Falo de uma escola. De um espaço de socialização por excelência. De descoberta. De partilha. De confronto. Mas não! Aquilo que observo diariamente (e garanto-vos que estou atenta) é preocupante. Os alunos passeiam pela escola de telemóvel na mão e auscultadores nos ouvidos. Julgo mesmo que nada do que ali se passa lhes interessa. Muitos dos nossos alunos, especialmente nos cursos profissionais (experiência própria), estão na escola porque é obrigatório. Não têm escapatória. Podem tirar-lhes tudo, dentro da escola, e eles não reagirão. Tentem tirar-lhes o telemóvel e virá a mãe e o pai e a tia a exigir a sua devolução imediata. Preparem-se até para ser agredidos, se necessário for. Por favor, mas não lhe tirem o telemóvel! Se têm dúvidas, tentem!

A internet veio para ficar e eu própria, tanto na minha vida pessoal como profissional, já não saberia viver sem ela. Porém, analiso as horas que literalmente perco, agarrada aos motores de pesquisa, e tenho dias em que quase me esqueço de abrir um livro. Quando isto acontece, sinto-me culpada e prometo a mim própria controlar o tempo gasto com o uso da tecnologia. Chego a ter vontade de partir o telemóvel… Mas até que ponto isto acontece com as nossas crianças e os nossos jovens, que dele fazem uma utilização livre na maior parte das vezes, sem qualquer controlo parental?

Dentro da sala, utilizo cada vez menos a internet. Infelizmente, quando esta me é necessária, ou não está disponível ou os equipamentos (quase obsoletos) não funcionam. Já me preocupei mais, confesso! Quando isto acontece (quase sempre), a alternativa encontrada para colmatar a falta da ligação à rede acaba por revelar-se muito mais criativa e interativa. É nestas situações que a verdadeira comunicação acontece, a partilha de ideias ocorre e a aprendizagem se desenvolve. Talvez por isto tenha andado a pesquisar o fenómeno Waldorf.

O colégio Waldorf, localizado na Califórnia, foi criado em 1984 por pais e encarregados de educação preocupados com a necessidade de a escola ensinar numa perspetiva global, holística, ajudando os alunos no seu desenvolvimento como indivíduos totais, em termos cognitivos mas também emocionais e motivacionais. Aspeto importante: nesta escola não há computadores. E, interessante analisar porquê, é exatamente para esta escola privada que muitos cérebros de Silicon Valley (funcionários da Google, da Apple e de outras empresas de ponta) enviam os seus filhos. Esta nova tendência – a desconexão – pode ser o futuro do ensino. Voltar às raízes, à essência, à valorização dos sentidos, das emoções, dos espaços, dos afetos…

As escolas estão equipadas com computadores mas o uso que deles se faz nem sempre é produtivo. O computador é apenas uma ferramenta, como muitas outras. E, de facto, como afirma um pai de um aluno a frequentar Waldorf, aquele que só tem um martelo acha que todos os problemas são pregos. Por outro lado, o uso permanente do telemóvel com ligação à internet (entrando os alunos em absoluto estado de nervos quando não têm ligação à rede ou quando esgotam o seu pacote de dados) é a forma mais consistente de distração, de ocupação dos tempos livres e de socialização destas novas gerações.

Sonho com uma escola desconetada. Com alunos sem telemóvel. Com professores capazes de dar uma boa aula sem a bengala da tecnologia. Lembram-se? O luxo, numa escola de futuro, passará por cada aluno possuir uma árvore e estar desligado da internet.

 

Bom aluno e/ou boa pessoa?

Fevereiro 19, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Divulgação | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Carmo Machado de 16 de janeiro de 2019.

Aproveito as muitas obras literárias que somos obrigados a ministrar ao longo dos três anos do secundário para apostar tudo o que posso nas competências sociais e emocionais dos meus alunos. Quando quase tudo está perdido, que se salvem as almas…

Li aqui na VISÃO, com atenção redobrada, a entrevista da jornalista Teresa Campos a Andreas Schleicher, diretor do Departamento de Educação e Competências em Educação da OCDE e fundador do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Para quem só agora ouviu falar deste senhor, Andreas Schleicher – eminente pesquisador em Educação – anda pelo mundo a visitar escolas e a conhecer os diversos modelos educativos existentes. Já foi premiado várias vezes, tendo recebido o prémio Theodor Heuss, concedido na Alemanha pelo seu “compromisso exemplar” para com a democracia. Mas de onde vem o interesse deste nome e a pertinência (ou não) desta crónica, afinal?

Participei há vários anos, enquanto mestranda no Instituto de Educação da Universidade Católica, num trabalho de pesquisa para o programa Pisa em colaboração com o Instituto Superior Técnico. O nosso estudo incidia sobre as competências dos alunos em Matemática à entrada no Ensino Superior; o objetivo do nosso grupo de trabalho era compreender e tentar explicar os fracos resultados dos alunos nesta disciplina ao longo do ensino secundário, enquanto outros grupos analisavam os mesmos resultados em outros ciclos de ensino. Portanto, lendo com atenção tudo ao que ao PISA diz respeito, eis que aquando dos últimos resultados apresentados, o dito senhor classificou Portugal como o maior êxito educativo da Europa. Pode ser que ele e o estudo tenham razão. Eu tenho dúvidas.

O meu ceticismo não provem, acreditem, de qualquer tipo de visão catastrófica sobre o ensino público em Portugal. Se assim fosse, mea culpa, uma vez que a ele tenho dedicado a vida ao longo das últimas três décadas sem intervalos e em exclusividade. Pelo contrário, esta minha abordagem realista deve-se ao facto de viver na escola todos os dias e verificar que se, por um lado, os nossos alunos estão cada vez mais desligados de saberes não significativos, por outro lado não interiorizam como deviam os conteúdos que sendo por essência significativos, os deveriam motivar, levando-os a pesquisar sobre eles, a aprofundá-la, a integrá-los na sua bagagem cultural e científica. Contudo, tal não se verifica de forma consistente. Pelo contrário, somos confrontados diariamente com abordagens superficiais dos conteúdos, muitas vezes copiadas da internet, mostrando pouca ou nenhuma reflexão e/ou espírito critico por parte dos alunos. Muitas vezes chego a questionar-me sobre qual a nossa quota parte de culpa, professores, nesta atitude dos alunos. Será que o facto de estarmos a ficar velhos e desgastados por uma carreira feita de desilusões foi apagando a chama que nos iluminava por dentro? Admito que possamos ter, enquanto professores, aqui alguma responsabilidade. Contudo, sejamos factuais: há muito que a escola se revela incapaz de competir com as imensas e permanentes solicitações do mundo em que os nossos jovens habitam, impossíveis de enumerar. Creio ser este um dos principais fatores, entre muitos outros, que contribui em grande parte para esta situação. Ao mesmo tempo, para muitos não será essa a função da escola… Ou será?

Perante o aluno que olha com enfado para os conteúdos da aula de Português ou de Matemática, o que fazer? Na maior parte dos casos que eu conheço, o argumento do exame ou do prosseguimento de estudos já não os convence. O desinteresse está há muito instalado e não há volta a dar. Assim, dou por mim diariamente a procurar estratégias alternativas para transmitir motivação e procurar que os alunos encontrem significado nos conteúdos de lecionação obrigatória. Para tal, aproveito as muitas obras literárias que somos obrigados a ministrar ao longo dos três anos do secundário para apostar tudo o que posso nas competências sociais e emocionais dos meus alunos. Quando quase tudo está perdido, que se salvem as almas… Foi assim que no primeiro dia de aulas deste segundo período, furiosa que estava com os fracos resultados do primeiro, dei por mim a gritar-lhes: não pode ser, devem estudar ao longo do período e não apenas na véspera dos testes, a vida não é só feita de brincadeira, festas, torneios de volley e saídas de grupo, comemorações de tudo e mais alguma coisa, vão ter exame nacional, e isto e aquilo e aqueloutro… Foi então que um dos meus alunos mais fiéis me olhou de frente e, com o seu discurso sempre apaziguador, disse: Não se zangue, stora. Podemos não ser os melhores alunos mas somos sem dúvida melhores pessoas. Não era isso que queria?

Talvez seja este o caminho, senhor Andreas Schleicher. Mas não tenho toda a certeza… Sei apenas que, de todos os alunos que conheço e com quem lido diariamente, apenas cerca de 10% é resiliente no estudo e consegue boas médias. Mas confesso que também já não sei se é isso que verdadeiramente interessa. Aos meus alunos, sei que não… Poucos apresentam ideias definidas do que pretendem fazer quando terminarem o 12º ano, conscientes que estão de que com tão baixas médias a universidade pública lhes estará vedada e a privada, pelas vidas que transportam às costas, impossível de alcançar.

Porém, quando saírem os resultados em 2020 do novo estudo PISA sobre competências sociais e emocionais, talvez sejamos mesmo os melhores da Europa. E talvez as universidades comecem a selecionar os alunos também por este tipo de competências. Aí, sim, estaríamos perante uma das muitas mudanças de paradigma que a escola, as universidades e o mundo precisam.

 

 


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