“Quando se lê em criança, o cérebro cresce”, diz Carlos Fiolhais

Maio 7, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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“Devo aos livros aquilo que sou. Só me conheço a ler”, diz Carlos Fiolhais DANIEL ROCHA

 

Texto do https://www.publico.pt/ de 19 de abril de 2018.

Para assinalar dez anos de vida literária, João Manuel Ribeiro organizou as jornadas 10 de Letra. Primeiro no Porto e agora em Lisboa. Carlos Fiolhais é um dos convidados.

RITA PIMENTA

Começou a ler cedo, “ainda antes da escola”, e não tem dúvidas de que, “quando se lê em criança, o cérebro cresce, desenvolve-se, eu sou a prova disso”. Quem assim fala é o físico Carlos Fiolhais. “Devo aos livros aquilo que sou. Só me conheço a ler, foi assim que conheci mundos que não conhecia”, diz o cientista e um dos oradores das Jornadas Literárias 10 de Letra que decorrem nesta quinta-feira, em Lisboa, na Sociedade Portuguesa de Autores (a partir das 17h30). Uma conferência que comemora os dez anos de livros de João Manuel Ribeiro, autor de mais de 50 títulos e editor da Trinta por Uma Linha.

Carlos Fiolhais diz ver os livros como “uma grande invenção que pôs os cérebros a comunicar” e “que, de uma forma compacta, nos levou à revelação e ao conhecimento”. Conta ao PÚBLICO que foi para cientista porque na adolescência descobriu, em bibliotecas, livros de divulgação científica: “O meu cérebro escolheu um caminho. Um livro é um abridor de portas. Eu descobri que o mundo é misterioso e quis ajudar a desvendar o mistério da sua formação.”

Sobre os destinatários das obras, crianças, jovens ou adultos, diz: “Os livros são de quem os apanhar, a idade é algo que nem sempre se percebe. Já escrevi a pensar que era para ser lido por adultos, mas foram os mais jovens que os preferiram.” O contrário também já lhe aconteceu.

No caso de João Manuel Ribeiro, que escreveu o primeiro livro para a infância em 2008 (Rondel de Rimas para Meninos e Meninas, ilustrado por Anabela Dias), a entrada neste segmento deu-se por acaso. Convidaram-no, num colégio com que colaborava, para escrever uma história de Natal. “Sem me dar conta da responsabilidade, escrevi um conto breve que foi do agrado dos alunos; no Natal seguinte, voltei a escrever outra história com igual aceitação. Nunca mais parei, Sem querer, contaminei-me com esta literatura e, desde então, vivo para ela, inteiramente.”

No passado, teve “participações poéticas esporádicas no Jornal de Notícias e no Diário de Notícias jovem”. Destes dez anos de letras, o que retém de mais relevante é a publicação do primeiro livro, “por ser o primeiro e abrir a porta a todos os outros, sobretudo os de poesia (ainda tão mal-amada)”; a publicação de Meu Avô, Rei de Coisa Pouca, “por ser autobiográfico e pelo imenso prazer que me deu escrevê-lo”; os encontros com os pequenos leitores, “nessa árdua mas deliciosa tarefa de ‘fazer’ leitores”, e “as recentes traduções no estrangeiro, pelo reconhecimento que proporcionam”.

“Se não tivesse conhecido os teus livros, seria mais pobre”

E quem é que pode ficar indiferente a estas frases que algumas crianças lhe foram dirigindo durante a última década? “Gostava de ter sido teu companheiro de infância”; “tu só escreves poesia, mesmo quando escreves em prosa”; “esse livro [Meu Avô, Rei de Coisa Pouca] produziu em mim um sismo interior” e “se não tivesse conhecido os teus livros, seria mais pobre”.

O autor (doutorado em Ciências da Educação, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, e Mestre em Teologia, pela Universidade Católica do Porto) criou recentemente a revista de literatura infantil e juvenil A Casa do João (com o Centro UNESCO de Amarante) e tem um propósito que extravasa a literatura: “Espero, luto e trabalho (quase sempre sem o conseguir) por um mundo justo, fraterno, plural, que seja, de facto, uma casa grande, de todos e para todos.”

Com estas jornadas, deseja “ajudar a descobrir que a literatura faz bem, é uma vitamina sem a qual nos tornamos ictéricos”. Espera também “chamar a atenção para a importância da literatura infantil e juvenil na vida das crianças (e não só) e contribuir para mostrar, apesar do seu destinatário e da sua especificidade, que é literatura como a outra; não é uma literatura menor”.

Diz Fiolhais: “Escrever bem é escrever para todos.” Depois, pergunta: “Para que idade é o Principezinho, de Saint-Exupéry?” E conclui: “Um bom livro fala-nos de coisas possíveis e impossíveis. Faz-nos pensar e sonhar. No Principezinho, há desde ciência a auto-ajuda.”

Quanto mais cedo, melhor

O cientista afirma ser viciado em leitura e não conseguir viver sem livros. “Quanto mais cedo se começar, melhor. Não me fizeram mal.” Recentemente, participou num projecto de livro e CD que fala de ciência a crianças dos três aos dez anos através de poesia e canções de José Fanha e Daniel Completo: Entre Estrelas e Estrelinhas — Este Mundo Anda às Voltinhas. “Procurei que os versos contivessem a lição de interrogar, observar, demonstrar. Uma chamada à ciência.” E diz gostar de cruzamentos, não de becos. “Cruzamentos de temas, de cérebros, de autores.”

O físico ainda não sabia o que iria dizer na conferência desta quinta-feira, mas tudo pode acontecer quando Carlos Fiolhais se entusiasma. A conversa com o PÚBLICO terminou na seguinte reflexão: “Por que seria que andavam de mão em mão as pombinhas da Catrina?”

As jornadas abrem com o psicólogo Eduardo Sá e a comunicação “As crianças e a leitura”. Segue-se um painel que reúne ainda os autores de literatura para a infância e juventude Luísa Ducla Soares e José Jorge Letria, sob o mote “A literatura, o indispensável supérfluo” e moderado por Helena Gatinho.

A encerrar, o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores apresentará o livro Os Direitos das Crianças — Antologia Poética, que reúne poemas de cerca de 20 autores portugueses, espanhóis e brasileiros, como João Pedro Mésseder, José António Franco, Emiliana Carvalho (Brasil) António Garcia Teijeiro e Alfredo Ferreiro (Espanha).

 

 

“A inteligência é como um músculo que tem de ser treinado”

Outubro 22, 2011 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia de Sara R. Oliveira no site Educare do dia 12 de Outubro de 2011.

Lynne Reder, professora de Psicologia da Universidade de Carnegie Mellon, aconselha a evitar distrações na sala de aula e a não ensinar muito ao mesmo tempo. Recomendações feitas no debate “Em causa: Aprender a aprender”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, na Universidade de Aveiro.

 O ciclo de conferências sobre as questões-chave da educação, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, arrancou com uma expressão que se tornou um grande chavão no seio da comunidade educativa. “Em causa: Aprender a aprender” juntou esta terça-feira à tarde vários especialistas da matéria. Carlos Fiolhais, professor e responsável pelo programa de educação da Fundação, moderou o debate que abordou vários conceitos e fez pensar. O encontro teve lugar no auditório da reitoria da Universidade de Aveiro e a sala estava praticamente cheia.

“A inteligência é como um músculo que se não for utilizado fica mais fraco.” Lynne Reder, professora de Psicologia da Universidade de Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, centrou o seu discurso nas ideias recorrentes sobre as práticas educacionais para, no final, recomendar que o melhor caminho é espaçar as práticas de aprendizagem e utilizá-las em diferentes contextos, evitar distrações nas salas de aula e não ensinar muito ao mesmo tempo para não sobrecarregar os alunos. “A inteligência é maleável”, reforçou. E, por isso, precisa de ser estimulada.

“Todos precisam de praticar”, avisou. Porque é importante praticar as competências uma vez, outra vez e vezes sem conta. E evitar o que pode distrair a cabeça. Segundo a professora norte-americana, há estudos que demonstram que excessivas decorações nas paredes das salas de aula podem distrair os alunos. Há investigações que concluem que os “alunos aprendem mais quando as paredes estavam vazias, não se distraem tanto”.

Há outros detalhes que convém ter em conta. Para facilitar a memória, os textos podem ter os principais pontos sublinhados e sumários a negrito para evidenciar o que é importante aprender. “O grande desafio é ensinar os estudantes a perceber quando devem aplicar as novas competências”, sublinhou. Para isso, a aprendizagem passiva não pode ser usada para que os alunos se envolvam e aprendam. “Todos os alunos podem predizer os resultados de uma experiência”, exemplificou. Em todo processo, a familiaridade dos termos é também importante.

Paula Carneiro, investigadora auxiliar na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, falou dos testes. Simples instrumentos de avaliação ou mais do que isso? Mais do que isso.
“Testar a memória não serve apenas para avaliar o que se aprende – modifica o que se aprendeu”, referiu. Recorrendo a vários estudos, a doutorada em Psicologia Experimental lembrou que é importante testar mesmo o que já foi aprendido para que a informação permaneça durante muito mais tempo.

“Os estudantes parecem desconhecer totalmente a ideia de que testar os conhecimentos estudados é uma boa estratégia para aumentar a aprendizagem”, afirmou. E o feedback é fundamental para se perceber o que foi ou não apreendido pelos alunos, ajuda a identificar as lacunas do conhecimento e estimula a capacidade de organização de quem anda a aprender.
Paula Carneiro deixou duas recomendações. Uma para os professores: para que usem os testes tendo também em conta que os exames podem funcionar como uma recuperação ativa dos conhecimentos. E outra para os alunos: para que façam autotestes dos seus conhecimentos mesmo para matérias que pensam estar permanentemente adquiridas.

Pedro Albuquerque, professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho e que, neste momento, dirige o Grupo de Investigação em Memória Humana da mesma faculdade, concentrou-se na memória de trabalho e como ela trabalha. Essa memória, que permite a leitura e compreensão de textos, possibilita a realização de cálculos mentais, organiza representações espaciais e temporais, ajusta e congrega informação de diversos tipos de conceito.

“A memória é provavelmente o único processo cognitivo que pode ser treinado”, sustentou. O tal músculo de que tinha falado Lynne Reder. Pedro Albuquerque lembrou ainda um estudo feito em Inglaterra a 500 crianças de quatro anos quanto à sua capacidade de memória de trabalho. Trinta meses depois, as mesmas crianças, já no 2.º ano do 1.º ciclo, foram novamente testadas e chegou-se à conclusão de que as que tinham uma alta memória de trabalho aos quatros anos mantinham esse nível aos sete. O mesmo se verificou com as que tinham uma baixa e média memória de trabalho.

As questões-chave da educação estão no centro das atenções da Fundação Francisco Manuel dos Santos num ciclo de conferências que termina a 6 de dezembro. Esta quarta-feira, o primeiro debate volta a reunir os mesmos especialistas na Torre do Tombo, em Lisboa, a partir das 17h30, para voltar a abordar o “aprender a aprender”. “O valor do ensino experimental” é analisado por David Klahr, professor de Desenvolvimento Cognitivo e de Ciências da Educação da Universidade de Carnegie Mellon, e por Margarida Afonso, professora na Escola de Educação do Instituto Politécnico de Castelo Branco, a 10 de novembro na Universidade do Minho, a partir das 16h30, e no dia seguinte no auditório da Torre do Tombo, em Lisboa, às 17h30. Laurinda Leite, da Universidade do Minho, modera o primeiro encontro e Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra, o segundo.

“Aprender uma segunda língua” é o tema que fecha os debates sobre as questões-chave da educação com as participações de Cármen Muñoz, professora de Linguística Inglesa e Linguística Aplicada na Universidade de Barcelona, Luísa Araújo, doutorada em Ciências da Educação pela Universidade de Delaware, e Carlos Ceia da Universidade Nova de Lisboa. A primeira sessão realiza-se a 5 de dezembro no grande auditório da Universidade do Algarve, às 14h30, e a segunda a 6 de dezembro, no auditório da Torre do Tombo, em Lisboa, às 17h30. Manuel Célio Conceição modera os dois encontros.

Consulte aqui a entrevista realizada pelo EDUCARE.PT a Carlos Fiolhais, responsável pelo programa de Educação da Fundação Francisco Manuel dos Santos.


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