O (novo) trabalho infantil – Eduardo Sá

Abril 23, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Observador de 1 de abril de 2019.

Será razoável que haja crianças que comecem a trabalhar às 8 e terminem de trabalhar às 8, todos os dias? Será sensato que não ponderemos as consequências deste novo trabalho infantil?

Foi a escola que fez com que o futuro das crianças fosse, para elas todas, mais justo. E foi porque a obrigatoriedade da escola retirou as crianças do trabalho e as devolveu ao seu direito de serem crianças, do qual não se afasta o direito a aprenderem, que todos aceitámos que o trabalho infantil é um atentado ao seu desenvolvimento e passámos a reprimir e a castigar quem com ele pretendia afastar crianças do seu direito à infância.

Deixámos — há muito, felizmente — a perspetiva das crianças como elementos contributivos para a economia da família e parecemos ter, agora por outros motivos, crianças a contribuírem para uma ideia de infância onde volta a não se ter tempo para se ser criança. Como se pouco importasse a forma como elas repartem o seu tempo entre o trabalho e os tempos livres. E fosse pouco relevante que os tempos das aulas parecessem expandir-se para cima dos recreios, engolindo-lhes tempo de convívio, de correria, de algazarra e de brincar. Ou que os ateliês de tempos livres se tenham transformado em locais onde elas realizam os “trabalhos de casa” (numa mesma perspetiva mecânica, como se ninguém se incomodasse pelo facto de eles serem mais escola fora da escola). E que os centros de explicações proliferassem intensamente (como se o facto de a escola não as ensinar a aprender nem as ensinar a estudar exigisse que as crianças tivessem mais escola a propósito da escola). E que — a pretexto duma actividade desportiva, da formação musical ou de atividades lúdicas — houvesse muitas mais a terem outras escolas a concorrerem, em grau de exigência e em ânsia de protagonismo, com a própria escola.

Porque a escola é demasiado séria e demasiado preciosa, em nome da salvaguarda do seu desenvolvimento saudável, as crianças foram protegidas do trabalho infantil com o auxílio da própria escola. Mas, entretanto, pelas consequências da forma como ela tem sido interpretada, a escola tem comprometido a infância. E tem transformado, através de atividades escolares em exagero, o direito à infância num novo tipo de trabalho infantil.

Começa, pois, a ser urgente que se acerte onde termina a escola, como direito inalienável das crianças a aprenderem, sem que comprometam o seu direito a serem crianças, e onde começa a escola como novo trabalho infantil. Deverão as crianças trabalhar mais do que cinco horas diárias, em função do seu desenvolvimento, sem que deixem de ter duas horas de tempo livre, todos os dias? Será razoável que haja crianças que comecem a trabalhar às 8 e terminem de trabalhar às 8, todos os dias? Será sensato que, em nome de um futuro melhor, não ponderemos as consequências que este novo trabalho infantil traz a tantas crianças que, do mesmo modo que muitas outras viram comprometido o seu futuro pelo trabalho que lhes roubou a infância, estarão, em nome do futuro, a fazer com que a escola possa comprometer o seu? Serão crianças mais informadas à custa do tempo que tiramos à infância — e sem espaço para “a escola da vida”, e para o brincarem, e para (pelo menos) terem direito aos aspetos felizes que os seus pais reconhecem nas suas próprias infâncias, sem que os procurem replicar nas dos seus filhos — as crianças que elas merecem ser?

Por via duma ideia de escola que não distingue os limites do direito a aprender dos limites do dever de as proteger do trabalho infantil, será mais trabalho e menos infância melhor futuro? E não se passa tudo isto num mundo que considera o trabalho infantil um atentado ao desenvolvimento das crianças e reprime e castiga quem com ele pretendia afastar crianças do seu direito à infância? Afinal, o que é que é legítimo desejar? É simples: menos escola, melhor escola e mais infância!

*Eduardo Sá é psicólogo clínico e psicanalista. Este texto foi publicado originalmente em eduardosa.com

 

Investigador defende mais tempo em família do que na escola

Março 12, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

notícia do http://lifestyle.sapo.pt/ de 19 de fevereiro de 2017.

jose-coelho

O investigador Carlos Neto defendeu esta sexta-feira que as crianças já passam muito tempo na escola e que o importante é discutir um novo modelo de trabalho dos pais.

“As crianças já passam muito tempo na escola, ao contrário do que acontece noutros países europeus”, disse à agência o especialista, para quem o importante é discutir um novo modelo de organização social do tempo de trabalho dos pais, que reforce o tempo passado em família.

Para o catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, os pais precisam de ter mais tempo para os filhos e as crianças precisam de mais espaço para brincar e estar em contacto com a natureza.

A posição surge a propósito da intenção do governo, inscrita na proposta de Orçamento do Estado, de alargar “a escola a tempo inteiro” a todo o ensino básico, ou seja, até ao 9.º ano.

“Os currículos hoje estão a ser demasiado rigorosos quanto ao número de horas exigidas pelo sistema de educação”, afirmou, defendendo que sobra “muito pouco tempo para criar um equilíbrio” entre o que é espontâneo e o que é organizado.

“Em muitos países onde estes estudos existem, os horários de trabalho têm mais alguma flexibilidade. Por exemplo, pode-se começar a trabalhar mais cedo e sair mais cedo, os pais às 16:00 saem e vão buscar os filhos à escola e têm mais tempo em família”, indicou.

O que está em causa, sublinhou, é “uma repartição do tempo entre a família e a escola”, é a criança ter mais espaço natural com os amigos, “poder correr mais riscos, ter mais autonomia, mais capacidade adaptativa”.

Segundo Carlos Neto, as crianças estão hoje sujeitas a um nível excessivo de “sedentarismo, analfabetismo físico e superproteção”.

As atividades extracurriculares, frisou, “não compensam o facto de não se subir a uma árvore ou a um muro, de andar de bicicleta ou de patins”.

Cair, escorregar, equilibrar-se, são atividades que “devem fazer parte da adaptação ao mundo”, sustentou: “As crianças têm hoje super agendas, é preciso suavizar isso”.

Neste sentido, o catedrático defende uma discussão em torno de uma nova organização social do tempo, que contemple o tempo escolar, laboral e familiar. “É preciso audácia política para fazer isto”.

A experiência de 40 anos de trabalho com crianças levou-o a concluir que o tempo de recreio é fundamental para a saúde mental e física da criança.

“As crianças e os jovens não têm margem para a descoberta livre, com experiências audazes, correndo riscos em função de situações imprevisíveis, por forma a ampliarem competências motoras, sociais e emocionais imprescindíveis à sobrevivência no futuro”, lamentou.

De acordo com Carlos Neto, existe um ambiente “excessivamente institucionalizado e um tempo disposto com atividades muito padronizadas”, que contraria a natureza ativa e as necessidades humanas de brincar e socializar livremente.

“As vivências de um corpo em ação permanente são fundamentais para uma infância feliz e empreendedora no futuro e, por isso, se não existirem têm repercussões colossais na construção do ser humano”, alertou o investigador.

artigo do parceiro: Nuno Noronha

 

 

 

Alunos do 1.º e 2.º anos têm mais 500 horas de aulas do que os do 12.º

Novembro 15, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia do http://www.dn.pt/ de 19 de outubro de 2016.

João Manuel Ribeiro/ Global Imagens

João Manuel Ribeiro/ Global Imagens

Pedro Sousa Tavares e Joana Capucho

Em média, os alunos de seis anos têm uma carga letiva anual de 1500 horas. E no 3.º e 4.º ano o volume de trabalho sobe para as 1620

“A carga letiva atribuída aos alunos portugueses não tem a mínima consideração pela sua idade, não tem uma lógica progressiva, sendo vítima de múltiplos interesses exceto os dos próprios alunos.” É desta forma que Alexandre Henriques, autor do blogue “Comregras”, resume um estudo em que se chega à conclusão de que, em Portugal, quem começa a escolaridade obrigatória passa mais tempo em atividades letivas do que quem está a preparar-se para entrar no ensino superior.

O estudo é baseado em dados oficiais, da Direção-Geral da Educação, apresentando-os de uma forma que torna mais evidente o que o autor classifica como “uma incongruência difícil de explicar” no desenho que os currículos impõem aos horários dos alunos.

Assim, um horário típico do 1.º ano, incluindo as disciplinas nucleares – Português, Matemática, Estudo do meio – e ainda as Expressões, o Inglês e uma hora diária de Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) acaba por resultar numa carga letiva anual de 1500 horas para os alunos do 1.º e 2.º anos de escolaridade, que comparam com as 1035 dos alunos do 12.º ano, para os quais o período da manhã, até às 13.30, é geralmente suficiente para abarcar todo o currículo.

Pior, em toda a escolaridade obrigatória, só mesmo os alunos do 3.º e 4.º anos de escolaridade, que se deparam com uma carga letiva de 1620 horas. Mais 90 horas de aulas por ano do que os anos letivos que, com 1520, mais se aproximam: o 7.º, o 10.º e o 11.º anos.

Embora não entre na contabilidade do autor, o horário dos alunos do 1.º ciclo acaba por ser reforçado pelo trabalho fora da escola, já que os trabalhos de casa têm vindo a aumentar – marcá-los é já uma prática diária em grande parte das escolas, na sequência da revisão das metas curriculares das diferentes disciplinas. Metas essas que, em particular no que toca ao 1.º ciclo, têm sido criticadas pelas associações de professores, que as consideram demasiado extensas e em muitos casos desadequadas à idade mental dos alunos.

Já excluindo as AEC, que não são obrigatórias mas acabam por ser frequentadas por perto de 100% dos alunos portugueses do 1.º ao 4.º ano, o autor compara a peculiaridade da situação dos estudantes portugueses com dois outros sistemas educativos: o finlandês e o búlgaro.

A Finlândia, desde que reformulou o seus sistema educativo, há mais de década e meia, tem ocupado os primeiros lugares dos testes PISA, da OCDE – que comparam o conhecimento de alunos de 15 anos na língua materna, matemática e ciências . E uma das caraterísticas do seus sistema é precisamente a redução dos tempos letivos, em particular no início da escolaridade obrigatória (que acontece aos sete anos de idade), de forma a libertar os alunos para atividades que permitam desenvolver o sentido crítico, a criatividade e o raciocínio ou, simplesmente, dar-lhes tempo livre de lazer. Em média, os seus estudantes do 1.º ano (mais velhos do que os equivalentes portugueses) passam 569 horas anuais em aulas curriculares. Os alunos nacionais passam 936. Na Bulgária, este número desce para as 397.

Recorde-se que o Ministério da Educação já anunciou a intenção de lançar, a partir do próximo ano letivo, “currículos essenciais” nos 1.º, 5.º e 7.º anos de escolaridade, de forma a aliviar a matéria que os professores têm de transmitir aos alunos todos os alunos, libertando docentes e educandos para outras atividades em sala de aula, como a consolidação dessas aprendizagens e o desenvolvimento de formas de aplicar em situações concretas a informação adquirida. Capacidade de atenção reduzida

Para Fernanda Leopoldina Viana, doutorada em psicologia da educação, a carga que existe atualmente no 1º ciclo “é muito excessiva para crianças tão pequenas e com uma capacidade de atenção muito limitada”. Embora as Expressões e AEC não sejam consideradas atividade letiva, “têm a desvantagem de ser feitas no mesmo contexto, em salas”. Está provado, prossegue, “que mais tempo de permanência nas escolas não significa melhores resultados”. Para muitas famílias, diz a professora do Instituto de Educação da Universidade do Minho, “é mais cómodo e económico” o atual modelo. Contudo, ressalva, “se as crianças quiserem frequentar ballet, natação ou futebol fora da escola, ficam sem tempo para dormir.”

O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascensão, frisa que “as Expressões e as AEC não são atividade letiva”. O representante dos pais diz que, no 1º ciclo, a carga de atividade letiva diária é de cinco horas, “o que permite aprender e consolidar aprendizagens”. Se esse tempo for bem aproveitado, destaca, “pode evitar mandar trabalhos para casa”. Já o tempo que os alunos passam nas Expressões e AEC, é “importantíssimo” e é algo de que “as famílias precisam”. No entanto, reconhece que “nem sempre é bem aproveitado”. No segundo e terceiro ciclos, Jorge Ascensão considera que a carga letiva é excessiva. “O currículo – aquilo que é exigido saber – é demasiado extenso. O que leva a que os professores continuem a enviar trabalhos de casa”. Por isso, reforça a necessidade de “reformular currículos”.

Há concelhos no País, diz Filinto Lima, onde as crianças do 1º ciclo chegam à escola às 07.30 e saem de lá às 19.30. Chegam antes de as aulas começarem, refere o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, e ficam no ATL até que os pais as possam ir buscar. “É um exagero de carga curricular e não curricular, de permanência no mesmo espaço físico”, afirma. Filinto Lima considera que “a sociedade devia criar mecanismos para que o aluno cumprisse o horário letivo na escola – que já é puxado – e pudesse ter atividade fora da escola”. Sugere, por exemplo, “parcerias com Instituições Particulares de Solidariedade Social e associações recreativas, para que abrissem as suas portas”.

 

 

 

Governo quer reduzir carga horária dos alunos

Novembro 9, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto do site http://www.educare.pt/ de 19 de outubro de 2016.

Sara R. Oliveira

Educação pré-escolar é uma das prioridades do Orçamento do Estado para 2017. O objetivo é garantir a oferta a todas as crianças dos três aos 6 anos até ao final da legislatura. Há mais verbas para alunos carenciados e um reforço financeiro no Básico e Secundário.

No Orçamento do Estado para 2017, o cumprimento efetivo dos 12 anos de escolaridade obrigatória, de forma a promover o sucesso escolar, surge como um aspeto crucial na educação. O Governo lembra que Portugal tem uma taxa de abandono escolar precoce superior a 10% e três vezes mais retenções do que a média dos países da OCDE. O executivo assume então que, em 2017, é necessário promover uma maior articulação entre os níveis do Ensino Básico para atenuar os efeitos negativos das transições e reduzir a carga disciplinar dos alunos. O reforço das ciências experimentais e da tecnologia na educação está igualmente no centro das atenções, bem como trabalhar a flexibilidade curricular desde o 1.º ciclo. O documento estratégico, apresentado ao país em 14 de outubro, será discutido e votado na Assembleia da República no início de novembro.

A educação pré-escolar aparece como uma das prioridades da tutela. O Governo quer garantir, até ao final da legislatura, a universalidade da oferta a todas as crianças dos 3 aos 6 anos. Até porque, sublinha, “investir numa educação de qualidade, desde os primeiros anos, contribui para o sucesso educativo dos alunos”. “Assim, uma intervenção precoce de qualidade traz benefícios para a sociedade a longo prazo, designadamente na discriminação positiva das famílias com menos recursos sociais e económicos e/ou ‘em risco’ de exclusão social no acesso à educação de qualidade nos primeiros anos”, lê-se no orçamento para 2017.

O próximo orçamento tem mais 180 milhões de euros para os ensinos Básico, Secundário e administração escolar, em comparação com 2016, e mais verbas para a Ação Social Escolar. As escolas sob gestão municipal passam definitivamente para as mãos das autarquias. O Plano Nacional de Leitura vai continuar pelo menos até 2026. Os manuais escolares passam a ser gratuitos para os alunos de todos os anos do 1.º ciclo da rede pública, não abrangendo o ensino privado como agora acontece. As dotações orçamentais iniciais para o Ensino Superior aumentam e há mais dinheiro para bolsas dos estudantes universitários carenciados.

O orçamento para o ensino Básico, Secundário e administração escolar é reforçado e, no total, atinge os 6022,7 milhões de euros. Há um acréscimo nas despesas de 3,1%, ou seja, mais 179,4 milhões. Além disso, reduzem-se transferências para o ensino particular e cooperativo, que descem 12,3%, e aposta-se na educação pré-escolar com um reforço de 14,5%. No total, o executivo pretende transferir para o ensino particular e cooperativo 223 milhões de euros e para o ensino pré-escolar 529,4 milhões de euros. As despesas com pessoal são a rubrica com maior peso nas contas do Ministério da Educação (ME), absorvendo 4274,3 milhões de euros e que representam 71% do seu orçamento.

Quanto aos manuais escolares, o Governo diz claramente que vai prosseguir “o regime de gratuitidade” e que vai dar os livros no início do próximo ano letivo a “todos os alunos do 1.º ciclo do Ensino Básico da rede pública”. E na rede pública leia-se “todos os estabelecimentos de ensino (público ou privados) em que a educação é financiada pelo Estado em condições de gratuitidade”, ou seja, “em que o Estado contratualiza a frequência dos alunos com as instituições do ensino particular e cooperativo”, segundo um esclarecimento do ME dado à Lusa.

Esta decisão constante no Orçamento do Estado é tomada sem as conclusões do Grupo de Trabalho para a Gratuidade e Reutilização de Manuais Escolares, constituído em maio deste ano, e deixa de fora os alunos do 1.º ciclo do privado. A distribuição gratuita de manuais foi lançada neste ano letivo para os alunos do 1.º ano do 1.º ciclo de todas as escolas, públicas e privadas. A medida continua a se discutida em vários fóruns.

A Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) está satisfeita com a gratuitidade dos manuais no 1.º ciclo, mas lamenta a redução das deduções em sede de IRS. “De alguma forma vem aliviar muito a carteira das famílias nestes primeiros anos do ensino, portanto vemos isto com bons olhos”, refere, à Lusa, Rui Martins, responsável pela CNIPE. A questão fiscal é, porém, uma preocupação. A dedução de despesas com educação de forma mais abrangente – em que, por exemplo, o vestuário pode ser incluído – chegou a fazer parte dos planos do Governo. O desconto que podia chegar aos 35%, até um máximo de 450 euros, acabou por não constar no Orçamento para o próximo ano. O CNIPE reage. “O ideal seria manter os mesmos limites e que todas as despesas ligadas à educação fossem dedutíveis. Isso é que faria sentido”, defende Rui Martins.

A Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) também concorda com a gratuidade dos livros escolares e, na sua opinião, outras despesas mais significativas deveriam ser apoiadas, como alimentação, transportes e material de artes. “A gratuitidade parece-nos bem, mas há necessidade de alargar o apoio a outras despesas escolares, que são superiores”, refere, à Lusa, Jorge Ascenção, presidente da CONFAP. “Deveria haver uma maior equidade quando temos outro tipo de necessidades na educação. Há famílias para as quais não é relevante e outras que precisam mais”, sublinha.

Reinvestir na leitura

O Plano Nacional de Leitura (PNL), criado em 2006 para melhorar os níveis de literacia e leitura, terá continuidade até 2026. A ideia deste investimento passa por relançar uma política pública na área do livro e da leitura. O plano funcionará em articulação com a Educação, a Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e um conjunto alargado de parceiros. Entre 2013 e 2015, os diferentes programas do PNL tiveram cerca de 540 mil euros de apoio financeiro, envolveram 4 mil escolas da rede escolar pública e beneficiaram cerca de 1,2 milhões de crianças e jovens de todo o país.

Em termos patrimoniais, os edifícios escolares sob gestão municipal passam a ser propriedade das autarquias, no âmbito da transferência de competências do Estado para os municípios. Além das escolas do 1.º ciclo, já sob alçada municipal, há ainda um projeto-piloto que contratualizou a transferência de competências para os municípios na área da educação, ficando a cargo das autarquias aspetos como a manutenção e conservação de escolas e contratação de pessoal não docente.

Há mais verbas disponíveis para a educação. As dotações orçamentais iniciais para o Ensino Superior aumentam 10,5%, para 2093 milhões de euros, comparativamente a 2016. Totalizam assim 2093 milhões de euros, mais 198,429 milhões face ao previsto para 2016. Para o financiamento direto das universidades estão cabimentados, ao todo, 1449 milhões de euros. Em contrapartida, para as instituições politécnicas (institutos e escolas superiores não integradas) são atribuídos 489,997 milhões de euros. A dotação orçamental inicial para o Ensino Superior, Tecnologia e Ciência, proveniente diretamente de receitas do Orçamento, aumenta 4,6% em comparação com 2016. Segundo o Governo, este reforço no Ensino Superior e na Ciência pretende apoiar a frequência de alunos mais carenciados nas universidades e nos institutos politécnicos, repor salários de professores, investigadores e pessoal não docente, bem como consolidar o emprego científico.

O orçamento para bolsas de apoio a estudantes universitários mais carenciados aumenta 5,7%, para 146 milhões de euros, face a 2016. De acordo com a proposta de Orçamento do Estado para 2017, a dotação inicial para o Fundo de Ação Social é de 146 milhões de euros, mais oito milhões do que em 2016. A subida no orçamento para bolsas de ação social prevista para 2017 faz-se, essencialmente, à custa de fundos comunitários que totalizam 107 milhões de euros, enquanto as verbas provenientes de receitas do Orçamento do Estado somam 39 milhões de euros. Com este reforço financeiro, embora mais contido do que o verificado entre 2015 e 2016, o Governo pretende apoiar a frequência no Ensino Superior e “alargar a base de recrutamento” de alunos. Em 2016, as dotações orçamentais iniciais para o Fundo de Ação Social atingiram 138 milhões de euros (92 milhões de euros de fundos comunitários e 46 milhões de euros de receitas do OE). Comparativamente a 2015, o orçamento inicial em 2016 para bolsas de ação social nas universidades e nos institutos politécnicos aumentou cerca de 20 milhões de euros.

 

 

Aos seis anos os alunos têm mais tempo de aulas do que aos 18

Novembro 3, 2016 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Notícia do https://www.publico.pt/ de 12 de outubro de 2016.

rui-gaudencio

 

LUSA

Autor de estudo diz que a distribuição da carga horária é um exemplo de como os interesses dos alunos não são tidos em conta.

Um estudo comparado entre a carga horária de um aluno no 1.º ano de escolaridade com um estudante a frequentar o 12.º revela que o mais novo, de seis anos, tem mais 465 minutos por semana de aulas do que o estudante mais velho, com 18 anos de idade.

O estudo foi desenvolvido por Alexandre Henriques, autor do blogue de educação ComRegras, um dos mais respeitados nesta área. Depois de comparar as matrizes curriculares do Ministério da Educação, Alexandre Henriques divulgou o estudo comparado no seu blogue, revelando que um aluno no 1.º ano de escolaridade tem 1500 horas de carga lectiva, enquanto um estudante do 12.º ano tem 1035 horas de carga horária.

O estudo revela também que os anos com maior carga lectiva em Portugal são o 3.º e 4.ºanos de escolaridade, com 1620 horas.

No 2.º ciclo, que corresponde ao 5.º e 6.º ano, a carga horária lectiva é de 1350 horas e, no 7.º ano de escolaridade volta a aumentar para as 1530 horas, para voltar a baixar nos 8.º e 9.º anos, em que a carga horária está nas 1485 horas.

No 10.º e 11.º ano dá-se um novo aumento da carga horária para 1.530 horas, para voltar a baixar no 12.º, com as 1.035 horas.

“A carga lectiva atribuída aos alunos portugueses não tem a mínima consideração pela sua idade, não tem uma lógica progressiva, sendo vítima de múltiplos interesses excepto os dos próprios alunos”, observa o autor do estudo, referindo que há situações de uma “incongruência difícil de explicar”, como é o caso da actividade física praticada na escola que tem o seu “pico no ensino secundário”.

mais informações no link:

http://www.comregras.com/um-aluno-6-anos-passa-465-minutos-semana-na-escola-um-aluno-18-anos/

OCDE aponta riscos à separação de alunos em função das suas dificuldades

Julho 19, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Notícia do Público de 23 de junho de 2016.

Nelson Garrido

Andreia Sanches

Portugal tem uma carga horária a Matemática acima da OCDE. Mas o que mais importa na hora de avaliar o à-vontade com que os alunos lidam com conceitos como “média aritmética”, que só 30% conhecem bem, são os conteúdos que lhes são transmitidos, sustenta estudo.

Separar os alunos por grupos, dentro de cada escola, ou até dentro de cada turma, em função do nível em que estão na Matemática, pode até ter como objectivo apoiar os que menos sabem, e estimular os que estão mais avançados. Mas métodos deste tipo, disseminados nos países da OCDE, e também utilizados em muitas escolas portuguesas, podem “reduzir as oportunidades de aprendizagem dos alunos mais desfavorecidos” em termos sócio-económicos, admite um relatório publicado esta semana pela OCDE.

Intitulado Equations and Inequalities: Making Mathematics Accessible to All, o relatório diz que cerca de 70% dos alunos de mais de 60 países e economias que participaram na última edição do PISA (sigla para Programme for International Student Assessment), em 2012, frequentam escolas onde existe a política de, nas aulas de Matemática, separar os alunos pelo nível em que estão. O PISA, recorde-se, é um estudo feito pela OCDE de três em três anos sobre a forma como os alunos de 15 anos aplicam conhecimentos e competências de Matemática, Leitura e Ciências perante situações da “vida real”.

Em Portugal, dos quase 6000 jovens que participaram em 2012 nessa avaliação, 60% frequentavam escolas onde existiam experiências deste género — sendo estas muitíssimo mais comuns em estabelecimentos de ensino situados em contextos sociais mais problemáticos. Já em países como a Nova Zelândia, Irlanda ou o Reino Unido a prática de agrupar alunos em função das competências dos mesmos está presente em quase 100% das escolas, tanto em contextos mais favorecidos como noutros mais difíceis, mostra o relatório.

Certo é que a OCDE recomenda que se faça uma avaliação às “políticas e práticas de selecção dos alunos em função das suas aptidões”.

Diz  que a “verdadeira alternativa” são as turmas onde coexistem alunos com diferentes ritmos, admitindo, contudo, que isso é muito mais exigente em termos de ensino. Por isso, defende “que seja dado um apoio reforçado aos professores que trabalhem com turmas onde existe heterogeneidade”.

Mas mesmo os eventuais efeitos negativos de uma separação de alunos por nível podem ser mitigados, por exemplo, se essas soluções forem temporárias, sustenta. E se for oferecido aos alunos em dificuldades um apoio mais personalizado.

Alerta-se ainda para este facto: para além dos esquemas do tipo “turmas de nível”, práticas como a “transferência de alunos de uma instituição para outra por causa de problemas de desempenho ou de comportamento”, ou a definição de percursos escolares com base nos conhecimentos dos alunos — encaminhando-os para cursos vocacionais ou mais académicos, conforme as competências que revelam — estão igualmente associadas a “um acesso mais desigual aos conteúdos matemáticos”.

Quase 5 horas de aulas

O relatório começa por mostrar como o número de horas que as escolas dedicam às lições de Matemática tem aumentado. A média da OCDE é cerca de 3 horas e 38 minutos por semana, sendo em Portugal de 4 horas e 48 minutos. É uma das cargas horárias mais pesadas (aumentou cerca de uma hora e meia desde 2003), semelhante à que existe em Singapura, cujos alunos são dos que melhor se saem nos testes do PISA de Matemática (2.º lugar na edição de 2012). Portugal está em 23.º lugar no ranking dos 34 da OCDE.

Depois, os autores do estudo mostram como os alunos de meios familiares mais desfavorecidos beneficiam, em geral, do mesmo tempo de aulas de Matemática do que os seus colegas mais favorecidos. Aí não há diferença. E, no entanto, os primeiros mostram menos familiaridade com conceitos de matemática, como “média aritmética” — apenas 20% dos mais pobres dizem conhecer este conceito bem, contra 40% dos mais privilegiados. Em Portugal o hiato é maior ainda, 9% contra 37%. Em média, sem olhar à classe social, apenas 30% compreendem bem tal conceito.

“Os alunos mais desfavorecidos são expostos a problemas de Matemática aplicada básicos, enquanto os seus pares mais favorecidos têm acesso a um ensino que os ajuda a reflectir como verdadeiros matemáticos e a adquirir uma compreensão dos conceitos aprofundada”, diz o relatório.

O tempo dedicado às aulas formais é importante. Mas “mais do que o tempo de instrução, são os conteúdos ensinados” que fazem a diferença na performance dos alunos quando confrontados com questões como as que lhes são colocadas no PISA, prossegue. Bem como “um bom clima disciplinar” na sala de aula.

Desinteresse e confusão

Em Portugal, os conteúdos que estão a ser ensinados têm suscitado preocupações. Esta semana, a Associação de Professores de Matemática (APM) divulgou uma carta aberta onde reforça “mais uma vez que está em total desacordo com os actuais programas e defende a sua suspensão e substituição o mais rapidamente possível”.

Ao PÚBLICO, João Pedro da Ponte, professor catedrático e presidente do Instituto de Educação, da Universidade de Lisboa, diz que há uma “grande onda de desinteresse e confusão entre os alunos portugueses”. Aponta o dedo às “mudanças curriculares intempestivas introduzidas em 2013, no sentido de uma formalização radical” da disciplina, que têm levado, na sua opinião, “à desmotivação crescente de alunos”. E ainda às “metas curriculares definidas em 2011, metas que os professores não percebem, que foram escritas de cientistas para cientistas”.

Pedro da Ponte antecipa mesmo “um choque” no próximo PISA. Acha que os alunos testados vão revelar resultados bem piores do que em 2012.

Sobre as “turmas de nível”, lembra que “a discussão é antiga” e defende “soluções intermédias”. “Para alunos com mais capacidade pode ser vantajoso estar em turmas de alunos com mais capacidade. Mas acredito em soluções que não estigmatizem”, que sejam temporárias, e onde os mais fracos tenham acesso a apoios reforçados, como existem nas chamadas Turmas Fénix em várias escolas.

Matemática complexa

O que o relatório da OCDE vem sublinhar é que mesmo os mais fracos devem ter oportunidade de aceder à Matemática mais complexa.

“A exposição a tarefas e conceitos de matemática pura (como equações lineares ou de segundo grau) está fortemente ligada à obtenção de melhores resultados nos testes do PISA”, lê-se. Já “a correlação entre a exposição dos alunos a problemas de matemática aplicada simples (como utilizar um horário de comboio para calcular quanto tempo dura o trajecto de uma estação a outra) e a sua performance no PISA é mais fraca”.

Pelo que, conclui-se, “a simples inclusão de referências ao mundo real no ensino da Matemática não transforma um exercício de rotina  num bom problema”. Ou seja, “usar problemas bem concebidos e desafiantes nas aulas de Matemática”, isso sim, “pode ter um enorme impacto na performance dos estudantes”.

A OCDE reconhece a dificuldade de ensinar alunos, sobretudo em meios mais desfavorecidos, “a desenvolver estratégias de resolução de problemas, estabelecer ligações, fazer previsões, conceptualizar”. Talvez seja preciso reformular manuais escolares, materiais de ensino e apostar “na formação específica dos professores”.

 

 

Programas, metas e provas sobrecarregam alunos com trabalhos para casa

Outubro 22, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Notícia do Diário de Notícias de 4 de outubro de 2015.

clicar na imagem

dn2

 

Professores portugueses são dos que perdem mais tempo a manter a disciplina nas aulas

Junho 30, 2014 às 12:30 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , , ,

Notícia do Expresso de 25 de junho de 2014.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

TALIS 2013 Results : An International Perspective on Teaching and Learning

talis

A indisciplina dos alunos nas salas de aula preocupa, o horário é dos mais sobrecarregados e apenas 10% dos docentes acham que a sua profissão é valorizada pela sociedade. Mas em geral a esmagadora maioria está satisfeita com o seu trabalho.

Isabel Leiria

Numa aula normal, os professores portugueses perdem em média um quarto do tempo a manter a ordem na sala e a realizar tarefas administrativas. É um dos valores mais altos da OCDE (e da Europa em particular, só superado por dois países), sobretudo por causa do tempo que os docentes dizem gastar em sossegar os alunos: 15,7%, contra uma média de 12,7%. No final, o tempo realmente dedicado a ensinar fica nos 75%.

Este é apenas um dos dados analisados no maior inquérito internacional sobre professores, conduzido pela OCDE e que envolveu mais de 100 mil docentes do 3.º ciclo do ensino básico e diretores de 34 países. O estudo, divulgado esta manhã, chama-se TALIS (Teacher and Learning Internationla Survey) e pretende ajudar a definir políticas e medidas que ajudem a construir uma classe docente de alta qualidade.

Ainda no que respeita à disciplina, outros números confirmam que este é um dos aspetos que afeta muitos professores portugueses. Quatro em cada dez dizem que quando as aulas começam têm de “esperar bastante tempo até que os alunos acalmem”, tantos quantos os que afirmam “perder um tempo considerável por causa das interrupções dos estudantes durante as aulas”. Tudo somado, um terço considera que “há demasiado barulho e perturbação na sala”. Todas estas respostas superam em muito a média registada na OCDE.

Atrasos e vandalismo

O facto de os alunos chegarem atrasados às aulas é outros dos fatores que os diretores dos estabelecimentos de ensino apontam com mais frequência: mais de metade (58%) respondem que isso acontece pelo menos uma vez por semana entre os estudantes da escola. Atos de vandalismo e roubo, embora minoritários, também ultrapassam a média da OCDE (7,4% contra 4,4% dos diretores dizem que tal acontece semanalmente). Com expressão ainda mais reduzida encontra-se o uso e posse de drogas e de álcool (3,6%), não deixando, no entanto, de ser o segundo valor mais alto da OCDE, só ultrapassado pelo Brasil.

Quanto aos horários de trabalho, o TALIS conclui que os professores portugueses são dos que dedicam mais horas à profissão. Em toda a OCDE só três países se destacam com valores superiores e são asiáticos. Ao todo, os docentes portugueses dizem que trabalham 44,7 horas por semana, contra uma média de 38,3 na OCDE. Curiosamente, na Finlândia, conhecida pelos seus bons resultados educativos, o número é dos mais baixos – 31,6.

Entre os fatores que sobrecarregam os horários não está tanto o tempo despendido em aulas, que está próximo da média, mas o tempo que se passa a corrigir os trabalhos dos alunos e que não tem paralelo com mais nenhum país: são 9,6 horas por semana quando a média da OCDE se fica por metade. Aparentemente, não são só os alunos portugueses que são chamados a fazer mais trabalho extra-escola, já que os próprios professores têm depois de avaliá-los.

Outro aspeto em que Portugal se destaca é no facto de os professores consagrarem mais tempo do seu trabalho a tarefas administrativas e a preencher papéis (3,8 horas por semana), um valor que só é ultrapassado por alguns países asiáticos e, na Europa, pela Suécia.

Apesar de considerarem que, de uma forma geral, não são reconhecidos pelo seu trabalho  – apenas 10% responderam concordar com a afirmação de que a sociedade valoriza a profissão docente e a média da OCDE é o triplo – e de quase metade pensar se seria melhor ter escolhido outra profissão, a esmagadora maioria (94,1%) está satisfeita com o trabalho. Mais até do que a média.

Ainda assim, há 16% de ‘arrependidos’, que preferiam ter escolhido outra profissão. A média na OCDE fica-se pelos 9,5% e só na Coreia e Suécia há um descontentamento maior.

 

 

Alunos têm muitas horas de aulas, programas longos e turmas grandes

Junho 2, 2014 às 12:05 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Notícia do Jornal de Notícias de 28 de maio de 2014.

A carga horária dos alunos do 10.º ano é muito elevada, alguns programas são muito extensos e o sucesso escolar poderia ser mais facilmente atingido com turmas mais pequenas, revela um estudo divulgado esta quarta-feira.

Estas são algumas das conclusões do estudo “Cursos Científico-Humanísticos e o alargamento da escolaridade obrigatória – medidas educativas de inclusão”, que teve por base respostas de 4676 estudantes portugueses, que no ano letivo passado frequentavam o 10.º ano.

A carga horária excessiva, a extensão dos programas e o elevado número de alunos por turma são alguns dos problemas apontados por alunos, diretores de escolas e pais, também entrevistados para o trabalho coordenado por Marília Cid, do Centro de Investigação em Educação e Psicologia, da Universidade de Évora.

Sobre a carga horária, “dizem que não lhes deixa muito tempo para estudarem ou fazerem outras atividades fora da sala de aula”, contou à agência Lusa Marília Cid.

Os alunos e psicólogos entendem ainda que “a articulação entre o básico e o secundário não está muito bem conseguida” e que as notas tendem a baixar quando chegam ao secundário.

Os estudantes querem exigência e rigor na preparação para o futuro, mas mais de metade admite estar descontente com as notas: “Sentem-se satisfeitos com as escolhas feitas, mas depois sentem uma grande diferença em relação ao ensino básico”, disse.

Os mais insatisfeitos com os resultados escolares são os rapazes da área de Ciências Socioeconómicas (CSE) que nunca reprovaram, não tiveram explicações e têm uma média entre 10 e 13 valores no 2º período do 10º ano. Já as raparigas de Ciências e Tecnologias (CT), que não frequentam explicações e têm classificações médias de “Muito Bom” são as mais concretizadas.

A estabilidade do corpo docente e o clima na escola foram outras das sugestões feitas, sendo que os alunos acrescentaram ainda a “importância de uma boa relação com os professores e a competência pedagógica dos docentes”.

Muitos alunos sentem-se perdidos no momento de decidir o seu futuro e por isso sugerem uma “melhoria na orientação da vocação profissional”.

Em relação ao futuro percurso escolar e profissional, os investigadores também conseguiram traçar o perfil dos que manifestam expectativas mais altas: as raparigas de Ciências e Tecnologias (CT) que nunca tiveram explicações e têm classificações médias de Muito Bom.

Já com menos espectativas quanto ao futuro surgem as raparigas de Línguas e Humanidades, Artes Visuais e Ciências Socioeconómicas (CSE) que já reprovaram e os rapazes de CSE que nunca reprovaram, não têm explicações e têm uma média entre 10 e 13 valores.

Através do estudo é possível perceber que os alunos de CT e CSE estão mais associados a percursos escolares sem reprovações, em relação aos de Artes Visuais e Línguas e Humanidades.

No caso dos alunos de CT, ter explicações foi um “fator decisivo” para garantir o sucesso escolar, acrescentou Marília Cid.

O estudo, que não inquiriu os alunos dos cursos profissionais, mostra que a maioria dos estudantes estaria a estudar mesmo que o ensino não fosse obrigatório até aos 18 anos. No entanto, existe uma pequena franja de estudantes que admite que, se a situação económica fosse diferente, deixariam de estudar.

“Se as oportunidades de trabalho fossem diferentes, alguns alunos dizem que não estariam a estudar”, contou a coordenadora do estudo elaborado através de um protocolo com a Direção Geral da Educação do Ministério da Educação e Ciência (MEC).

 

Menos uma hora de escola por dia rejeitada liminarmente pelo CNE e pelos pais

Julho 12, 2013 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , ,

Notícia do Público de 5 de Julho de 2013.

Graça Barbosa Ribeiro

Conselho Nacional de Educação critica com severidade as alterações, que os pais prevêem que vão parar “ao caixote do lixo da História”.

O Conselho Nacional de Educação (CNE) critica duramente a proposta de alteração curricular que veio a público em cima da preparação do próximo ano lectivo e que abre a porta à diminuição em cinco horas do tempo de permanência na escola, por semana, das crianças do 1.º ciclo.

“Dir-se-ia que o legislador está mais centrado numa lógica de redução dos recursos do que na melhoria do sistema”, comentam os relatores do parecer daquele órgão consultivo do Ministério da Educação e Ciência (MEC), a que o PÚBLICO teve acesso.

No documento, o CNE sublinha, em relação ao 1.º ciclo, que “não são perceptíveis” “os fundamentos pedagógicos” de medidas como a eliminação das áreas não curriculares (Área de Projecto, Estudo Acompanhado e Educação para a Cidadania), a supressão de duas horas e meia de actividades de enriquecimento curricular e a possibilidade de redução do tempo das componentes curriculares noutro tanto.

O Ministério da Educação assegurou já, nesta sexta-feira, que “na regulamentação para a preparação do ano lectivo está previsto que os alunos possam permanecer nas escolas até às 17h30, tal como neste ano”, e que “o horário lectivo continua a ser complementado por Actividades de Enriquecimento Curricular [AEC]”.

Certo é que, na matriz que consta da proposta de decreto-lei a que o PÚBLICO também teve acesso, se prevêem medidas que, a serem adoptadas, se traduzirão no corte de cinco horas semanais – ou de uma hora por dia – no tempo que as crianças passam hoje na escola. Em concreto, o “tempo total a cumprir” (no qual passam a estar integrados o Apoio ao Estudo e a Oferta Complementar) passa de “25 horas semanais”, na lei em vigor, para um período “entre as 22,5 horas e as 25 horas”. Às actividades de enriquecimento curricular passam a estar destinadas apenas cinco horas.

“A diminuição do tempo de permanência das crianças na escola, devido ao corte de duas horas e meia no horário destinado às AEC e à possibilidade de redução de duas horas e meia da componente curricular, terá consequências no âmbito e qualidade da formação oferecida pela escola pública e agrava os problemas de acompanhamento das crianças por parte das famílias, designadamente das famílias económica e socialmente mais desfavorecidas”, critica o CNE.

Em relação ao 1.º ciclo, o CNE recomenda, entre outros aspectos, que a componente curricular seja igual para todos os alunos e não inferior a 25 horas semanais e ainda o aumento da carga horária atribuída à oferta complementar, “de forma a poder contemplar, efectivamente, áreas transversais ou específicas consideradas essenciais” à formação das crianças.

Defende, ainda, “a manutenção das sete horas e meia semanais anteriormente atribuídas às AEC, de modo a garantir o acesso a uma formação abrangente e complementar a todos os alunos e também um apoio às famílias”.

“Poupar meia dúzia de milhões”
Em declarações ao PÚBLICO, Albino Almeida, ex-presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap) e ainda seu representante no CNE, considerou que, a ser publicado, “este decreto-lei se destina ao caixote do lixo da História”.

“Pelo contacto que mantenho com associações de pais, com as escolas e com autarquias [que, para além das instituições particulares de solidariedade social, promovem as actividades de enriquecimento curricular], ninguém vai mexer num modelo que está testado e que funciona para o trocar por algo que apenas visa poupar meia dúzia de milhões de euros sem olhar ao que se está a destruir”, disse.

Neste momento, precisou Albino Almeida, “as câmaras municipais já começaram a contratar os monitores e professores para assegurar as AEC no próximo ano lectivo; também ainda não foi anunciada qualquer alteração ao financiamento de 262,5 euros por aluno durante o ano civil de 2013, pelo que a questão só se deverá colocar na discussão do próximo Orçamento do Estado”.

Rui Martins, da Confederação Nacional Independente de Associações de Pais (CNIPE), frisou que hoje mesmo pedirá uma audiência ao MEC para exigir que o decreto-lei – que, na sua opinião, “é mais uma prova do quanto este Governo desvaloriza a Educação” – não chegue a ser publicado. “É absolutamente inaceitável”, disse.
 

Página seguinte »


Entries e comentários feeds.