Um cão como ligação entre o mundo e uma criança autista

Abril 24, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 9 de abril de 2018.

Poderá um cão ajudar crianças com perturbação do espectro do autismo? O presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência (APCA) não tem dúvidas: “Sim, pode.” Um cão, treinado, diz Rui Elvas, será um ponto de focalização para a criança, ajudando-a em momentos de maior ansiedade. “Uma ida ao centro comercial, com todos os estímulos visuais e sonoros, pode ser muito difícil para uma criança com autismo. Um cão de assistência será uma espécie de porto seguro”, exemplifica ao PÚBLICO o responsável pela APCA.

A associação, que nasceu há quatro anos, já treinou 11 cães para acompanhar crianças com perturbações do espectro do autismo, e dos 240 pedidos que tem em lista de espera, 70% são para este tipo de patologia. O primeiro a ser treinado, há dois anos, foi o Sinatra, um labrador. O último foi a cadela Lia, que aterrou no final da semana passada na Madeira, mesmo no meio da família de Francisco, de quatro anos, a quem, em Março de 2016, os médicos diagnosticaram autismo.

É ele que corre todo o comprimento do pequeno cais da praia de Machico, a segunda cidade da ilha, a 30 quilómetros a leste do Funchal. Uma após outra, vai retirando da praia de calhau rolado pequenas pedras que depois atira com cuidados mil para o mar. Lia, um cão-d’água português, está deitada a observar.

A interacção entre os dois é nula, neste momento. Rui Elvas nota que é cedo. Lia — o nome foi escolhido para rimar com “ia”, um dos poucos sons que Francisco já articula — tem quatro meses, e chegou à Madeira naquele mesmo dia. É o início de um processo longo de familiarização e treino, que, segundo Rui Elvas, vai ajudar a criança a lidar com as ansiedades e frustrações que acompanham o autismo.

“Enquanto os adultos pressionam a criança, o cão de assistência não pede nada em troca. Não exige, não força. Está simplesmente lá para ela”, sintetiza o presidente da APCA.

Carla Pereira, 47 anos, mãe de Francisco, quer acreditar que sim. Que vai ajudar a ligar o filho ao mundo. Conheceu a APCA no final do ano passado, no dia de Natal. Uma reportagem na televisão contava a história da entrega de um cão a uma família com três crianças com perturbações do espectro do autismo, nos Açores. “Estava a ver e pensei: porque não? Mal não irá fazer”, recorda ao PÚBLICO, enquanto acompanha o vaivém do filho, entre o início da praia e o meio do cais.

As dificuldades de linguagem e de socialização de Francisco confundiram no início a família e os médicos. “Pensámos que era surdez, e fizemos uma imensidão de exames, mas o Francisco não tinha problemas de audição”, conta Carla Pereira, que ensina Matemática na escola secundária da cidade.

Quando o diagnóstico de autismo foi feito, já a família desconfiava. O atraso na linguagem foi o primeiro sinal de alerta. As dificuldades de socialização, a confirmação.

Desde então, Francisco é acompanhado pelo Centro de Desenvolvimento da Criança, no Serviço de Pediatria do Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal. Terapia da fala. Terapia ocupacional. Psicologia. Quando falou com o neuropediatra sobre o que tinha vista na televisão, o clínico não se opôs. “Mal não fará”, ouviu Carla Pereira.

Em Fevereiro, dois meses depois de ter conhecido o trabalho da APCA, já Rui Elvas estava na Madeira a visitar a família. O objectivo é perceber quais são as necessidades da criança. O contexto familiar e que tipo de cão se adequa melhor.

“Não saltar, não ladrar”

Neste caso, foi escolhido um cão-d’água português, que, aponta Rui Elvas, é uma raça com características muito próprias que vão ao encontro das necessidades das crianças com perturbações do espectro do autismo. À cabeça, está a maior esperança média de vida (14/15 anos) quando comparada com outras raças, o que garante à partida mais tempo com a criança/jovem. “Em segundo lugar, amadurecem mais rápido, o que permite que comecem a ser treinados mais cedo”, enumera Rui Elvas, apontando para Lia, que se mantém imóvel e em silêncio. “Se fosse um labrador, com esta idade, não estava quieto”, compara o treinador.

Lia, continua, teve de esperar quatro meses para ser entregue, por ser essa a idade mínima para poder ser vacinada contra a raiva e viajar de avião. Não fosse isso, podia ter sido introduzida na família mais cedo. “O normal é acontecer entre as oito e as 12 semanas, para o cão se habituar aos movimentos muitas vezes bruscos e aos barulhos que as crianças fazem.”

Outra vantagem do cão-d’água é o pêlo. Esta raça, originária do Algarve, que ganhou nova vida em 2009 quando foi adoptada pelos Obama na Casa Branca, tem cabelo em vez de pêlo. “A questão das alergias não se coloca, o que é uma enorme vantagem.”

A primeira fase do treino do animal é a obediência, como se fosse um normal cão doméstico. “É importante estabelecer três regras simples: não saltar, não ladrar e não morder”, enumera Rui Elvas, que nesta fase, como na seguinte, se limita a orientar a família. “A ideia é supervisionar e facilitar, promovendo sempre a relação entre o cão e a nova família.”

O segundo momento do treino é mais técnico. Específico para a criança a quem o cão irá prestar assistência. No caso das perturbações de autismo, os cães são treinados para acompanhar a criança de forma a estarem presentes quando for necessário acalmá-las. “Existe muitas vezes a tendência para as crianças fugirem, e o cão é treinado para evitar isso.”

Tudo isto custa dinheiro. A aquisição, o treino e a certificação de um cão de assistência para crianças com autismo atingem os cinco mil euros. No Orçamento do Estado para este ano, por força de uma proposta do PAN, foi incluindo uma alínea que prevê o apoio financeiro às escolas que certificam os cães de assistência. Mas até agora nada foi concretizado. Por isso, a APCA tem de ser criativa. “Vamos retirando parcelas das famílias que podem pagar, para que outras, que não têm possibilidades económicas, possam também ser apoiadas” explica Rui Elvas. Muitas vezes não é suficiente. A associação tem recorrido ao crowdfunding ou a eventos para angariação de fundos, como o que aconteceu em Dezembro, nos Açores.

A APCA, que tem também treinado animais para a Dinamarca, Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Angola e vai estar dentro de semanas em Inglaterra, nasceu em 2014 e integra, entre treinadores, terapeutas, veterinários e psicólogos, um total de 13 pessoas.

A ideia de constituir uma associação sem fins lucrativos surgiu quando uma família bateu à porta da K9 Training Center, a escola de treino canino que Rui Elvas mantém no Estoril, a perguntar se podiam treinar um cão de assistência para uma criança diabética. “Percebemos que essa área não estava a ser trabalhada e decidimos criar a associação para dar resposta a estas situações.”

Para além dos 11 cães treinados para dar assistência a crianças com autismo, a APCA já entregou outros oito, para patologias tão distintas como a diabetes (cães são treinados para supostamente detectarem crises de hipoglicemia) ou a mobilidade reduzida. O objectivo, diz Rui Elvas, é continuar a ajudar as pessoas.

 

A cadela Mel vai à escola ajudar crianças com autismo

Junho 7, 2017 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do https://www.publico.pt/de 19 de maio de 2017.

A Mel é uma cadela golden retriever de 18 meses treinada para ajudar crianças com dificuldades Nelson Garrido

Projecto de terapia com cães em contexto escolar está em fase-piloto em Coimbra. Sessões ajudam a desenvolver a comunicação, a concentração e as competências sociais das crianças.

Camilo Soldado Paulo tem um autocolante vermelho na mão direita e outro azul na esquerda. Ana Barbosa Ribeiro, a técnica de terapia assistida, aponta para Mel – que tem também autocolantes coloridos iguais nas patas – e vai perguntando a Paulo, com seis e a frequentar o 1.º ano, (a pedido da escola não o identificamos pelo seu verdadeiro nome) qual corresponde a qual. A Mel é uma cadela golden retriever de 18 meses especialmente treinada para ajudar crianças com dificuldades.

Estas sessões de cinoterapia fazem parte de um projecto implementado na Escola Básica do Tovim, em Coimbra, pelo Centro de Apoio Social de Pais e Amigos da Escola (CASPAE), uma Instituição Particulares de Solidariedade Social, e envolve actualmente quatro crianças com autismo. O projecto funciona em contexto escolar. Além da cadela Mel e da técnica de terapia assistida Ana Ribeiro, fazem parte do projecto uma psicóloga e especialistas do estabelecimento do Agrupamento de Escolas Eugénio de Castro, que tem uma unidade de ensino estruturado para autistas.

A psicóloga Cátia Rodrigues, coordenadora do projecto de cinoterapia, explica que, depois de feito o diagnóstico das crianças, o plano de intervenção é desenhado de acordo com a necessidade de cada uma. Mel ajuda as crianças a treinar a capacidade de concentração, as competências sociais e de comunicação. Um dos objectivos é que “aprendam a ter comportamentos nos momentos adequados, como um bom dia, uma boa tarde, [a fazer] contacto visual com o outro ou a ter uma postura corporal adequada ao que está a sentir na altura”. Outro dos aspectos trabalhados é a psicomotricidade, como a diferença entre esquerda e direita, em exercícios como os que Paulo faz com os autocolantes.

O cão também tem horário

“As crianças com autismo têm hipersensibilidade a estímulos”, afirma Cátia Rodrigues, pelo que o simples toque no pêlo do cão já “é extraordinário para eles”. Olhar para a Mel é também terapia. “Por norma, uma criança com autismo não olha nos olhos de um adulto.” Mas se lhe pedem para descrever o focinho da cadela, a criança “vai indicar-nos os olhos e mantém-se ali a olhar”.

As sessões acontecem duas vezes por semana, podem ser em grupo ou individuais, e os exercícios dependem do plano de intervenção de cada criança. Para além das horas com a cadela, as crianças estão integradas em turmas com os restantes alunos. A terapia “influencia a interacção com os próprios colegas”, garante Carmen Cruz, coordenadora da Escola Básica do Tovim.

No sentido contrário, o facto de estes alunos frequentarem este espaço também tem efeito nas outras crianças da escola do Tovim. A responsável explica que ter contacto desde tão cedo com condições diferentes faz com que as restantes crianças lidem com a diferença e apreendam valores como “o altruísmo e a empatia”. Que “se coloquem no lugar do outro”, sintetiza.

O projecto está na fase-piloto e arrancou no final do ano lectivo passado. A presidente do CASPAE, Emília Bigotte, explica que há a possibilidade de alargá-lo a mais crianças, mas teria que envolver mais equipas e mais animais, o que está dependente de financiamento. “O cão também tem o seu horário de trabalho”, lembra a responsável, acrescentando que Mel e Ana Barbosa Ribeiro trabalham em regime de voluntariado.

Ultrapassar a fobia

Gaspar (nome fictício), também com seis anos e perito em puzzles, está ver um vídeo de desenhos animados com cães projectado numa tela da sala da escola onde anda no 1.º ano, enquanto Mel espera pacientemente sentada numa cadeira ao lado. Ver os episódios da Patrulha Pata, refere Cátia Rodrigues, é um dos métodos para combater a fobia a cães, caso de Gaspar que tem medo deles.

Márcia Sarapicos é a mãe da Matilde, uma das crianças que participa nas sessões de terapia com a Mel. Conta que aceitou que a filha, de 10 anos, participasse no programa porque ela “entrava em pânico quando via um cão na rua”. Matilde, a frequentar o 4.º ano, gosta de animais, mas tem medo. Agora, depois de um ano de terapia, já se notam progressos. “Já vai fazer festas”, diz Márcia Sarapicos. E “mesmo na parte da comunicação, também teve alguma evolução”.

É esta vertente que Cátia Rodrigues também está a estudar. Ao longo da fase-piloto, a psicóloga tem vindo a avaliar a eficácia do tratamento, com atenção à parte cognitiva, a comportamentos sociais e à parte comunicacional, tendo igualmente em conta o contexto sociodemográfico destas crianças. No próximo mês já deve ter resultados.

Apesar de o projecto ainda estar numa fase inicial e de ainda não haver resultados científicos, o impacto que as sessões têm nas crianças é observável, diz. A satisfação de Paulo está patente no rasgado sorriso que ostenta enquanto leva Mel pela trela a percorrer uma linha recta. O sorriso de Paulo é também descritível através de uma reacção química. Cátia Rodrigues refere que o contacto com o animal activa uma parte superfrontal do cérebro, num processo em que este vai produzir um neurotransmissor chamado oxitocina, que está associado à sensação de bem-estar. No sentido contrário, a produção da oxitocina vai diminuir outros neurotransmissores como o cortisol, “que aumenta o stress e a ansiedade”. “Daí as crianças terem uma melhor interacção com o cão do que connosco.”

Esse contacto com o animal leva a outros pequenos passos. Cátia Rodrigues conta que uma das crianças que frequentaram o programa tinha mutismo selectivo, perturbação na infância ligada à ansiedade ou fobia sociais. Não falava com os elementos do projecto nem com professores que não conhecia. “Ela saiu do projecto a dizer bom dia. São pequenas vitórias, mas que são grandes vitórias.”

Quase 2000 em unidades para o autismo

No presente ano lectivo, 903 crianças do 1.º ciclo estão a frequentar unidades de ensino viradas para a educação de alunos com perturbações do espectro do autismo, que se destinam aos casos mais severos. No conjunto do ensino básico, este número sobe para 1783. Já no ensino secundário desce para 161, o que mostra que muitos destes alunos não chegam a este nível de ensino, apesar de estar incluído na escolaridade obrigatória.

Os alunos com espectro do autismo podem requerer condições especiais para realizar as provas de aferição ou os exames. No ano passado, no conjunto do ensino básico, houve 530 alunos que, por essa razão, pediram a realização de provas adaptadas. Destes, 139 estavam no 2.º ano de escolaridade, em que a idade média de frequência ronda os sete anos. O maior grupo, com 218 alunos, frequentava o 9.º ano de escolaridade. C.V.

 

Um irmão ou um cão? estudo

Março 6, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da Sábado de 15 de fevereiro de 2017.

Mais informações sobre o estudo citado na notícia, no comunicado da University of Cambridge:

Pets are a child’s best friend, not their siblings

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“Pai, eu queria tanto ter um cão!” crónica de Mário Cordeiro

Outubro 6, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no http://ionline.sapo.pt/ de 20 de setembro de 2016.

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Acusar as pessoas que gostam de cães de estarem a menorizar os humanos é não entender nada do que é o mundo, a natureza e a capacidade de, exatamente, prover melhor aos direitos de uns e de outros. Como se uns e outros fossem mutuamente exclusivos, e não complementares…

“Pai, eu queria tanto ter um cão!” – e por mais que se tente explicar que é complicado, que o apartamento não dá, que alguém teria de tratar do animal e outras tantas razões, as crianças mais pequenas não entendem e colocam tudo no mesmo saco: o da cruel recusa dos pais em satisfazerem a sua vontade.

Depois de meia hora de listas de justificações para não adotar ou comprar um cão, mesmo que os pais até gostassem de ter um, a frase que dizem, quando voltam as costas e desistem, é: “Eu queria ter um cão, mas o pai não quer!… É só para me chatear…”

Há muitos animais em nossa casa, desde os ácaros às moscas e formigas, mas no que toca aos chamados animais de companhia, ter um é um hábito para muita gente e, felizmente, há cada vez mais casas onde o canídeo faz parte integrante da família. Ainda bem, repito. Salvaguardando a liberdade de não ter um cão, há que respeitar a mesmíssima liberdade de o ter e, tendo-o (e, no meu caso, passeando-o todos os dias, bem como aqui no i às terças-feiras…), vejo mais críticas das pessoas que acusam quem tem um cão de não saber distinguir os animais irracionais dos humanos do que juízos de valor das pessoas que têm “patudos” relativamente a quem não quer ou não pode ter.

Uma coisa é certa: ao adotar/comprar um cão tem de se pensar muito bem, porque quando se arranja “é para a vida”. Felizmente, hoje, o abandono de animais de companhia, designadamente dos cães, é criminalizado.

Muitos escritores têm-se debruçado e escrito sobre a relação com os seus cães, de Virginia Wolf a Thomas Mann, de Arturo Pérez-Reverte a José Jorge Letria, Manuel Alegre, Raul Brandão ou Ruy de Carvalho. Livros excecionais, de uma enorme sensibilidade e que mostram a transcendência da relação entre um cão e o seu dono.

Muitas vezes vem a acusação velada: porquê “perder” tempo com cães quando há humanos a necessitar de mais legislação protetora (e há! – afirmo-o com toda a convicção), como por exemplo as crianças e os idosos, os desempregados ou os migrantes. Há que fazer por eles, claro. Muito! Todavia, a mensagem muitas vezes veiculada de que “estamos a pôr os cães à frente das pessoas” ou que “quem gosta de animais não gosta assim tanto de pessoas” é errada, falsa, fundamentalista e manipuladora. Além de demagógica. Faz-me lembrar uma empregada dos meus pais, quando eu era pequeno, que dizia que se eu não comesse o arroz todo “morria um pretinho em África”… e eu lá comia o arroz, mesmo estando enfartado, para não me sentir culpado da morte de um outro menino.

Gostar de animais é um primeiro passo para a nossa própria humanização e para um relacionamento melhor – que se quer e se exige, com urgência – do homem com a natureza e com a sua própria condição. Pode gostar-se de animais e de pessoas e uma coisa, repito e insisto, não exclui a outra – sei-o por experiência própria.

Por outro lado, voltando à história com que comecei esta crónica, há pessoas que gostariam de ter animais e não têm condições de vida ou ritmos para tal. Poderão sempre, de qualquer modo, tentar que as crianças tenham um relacionamento estreito, por exemplo, com cães, em quintas pedagógicas, em espaços públicos, com os cuidados que implica a relação de um humano com um cão que não conhece, e por isso, antes de permitir que as crianças façam festinhas a um cão, é sempre conveniente perguntar aos donos se o cão não fica “zangado” ou reage de uma forma que possa assustar a criança ou mesmo ser perigosa para ela.

É bom ter cães em casa, mesmo que cada caso seja um caso, ou cada casa uma casa… – contudo, há vários aspetos a ter em conta na decisão de “ter ou não ter cão”, como sejam as condições de habitação (casas sem jardim, com poucos quartos e de reduzidas dimensões aumentam a dificuldade de definição de espaço entre o cão e os humanos) ou o tempo e as pessoas disponíveis para tratar dele. Os animais, especialmente os cães, sentem a solidão e têm requisitos que têm de ser respeitados, como sair, passear, poder fazer as suas necessidades fisiológicas livremente, correr, saltar… e, no caso dos cachorros, aprender comportamentos “sociais”. Por outro lado, sabe-se que os animais domésticos podem ser agentes e veículos de parasitoses ou proporcionar alergias, além do eventual cheiro a pelo molhado, de poderem sujar a casa antes de estarem treinados, largarem pelo ou outras situações similares – a escolha da raça de cão é essencial e, sinceramente, advogo a adoção de um cão e não a compra, dado que, para lá de se aliviar as associações e canis, são geralmente animais com um percurso de vida complicado e que serão extremamente gratos para com os seus novos donos, para lá de toda a lealdade e fidelidade que um cão demonstra no quotidiano.

Assim, será bom ponderar se o cão se vai dar bem com o ambiente de nossa casa, com as nossas exigências (por exemplo de limpeza) e a personalidade dos vários habitantes, entre os quais as crianças, se está bem de saúde e foi visto recentemente por um veterinário (o que é garantido quando se adota), se temos uma ideia clara e realista do que vai ser necessário em termos de cuidados, desde a higiene à alimentação, passando pelo apoio veterinário, passeios, mimo, brincadeira, etc., o que é muito variável conforme as raças e a personalidade do próprio cão, e também se já elencámos (com uma lista escrita) tudo o que será preciso, desde a higiene aos espaços para o cão, a compra de alimentos, cama, cuidados de saúde (e a despesa acrescida que representa) e outros dados semelhantes. Outro aspeto essencial é ter bem definido o que vai fazer no caso de doença, não apenas do cão, mas das pessoas – ou seja, quem vai tomar conta dele incluindo nos fins de semana e feriados, ou nas férias, para que não se assista ao abandono sistemático de animais nas estradas portuguesas.

Ter um cão é – digo-o como declaração de interesses – uma alegria, uma oportunidade de retomar ritmos humanos, de conhecer novos horizontes, de nos divertirmos com a “psicologia canina”, de ter uma companhia e de entender o que significa a palavra lealdade e as palavras reciprocidade e amizade.

Quando o vosso filho pedir um cão, tenham já pensados estes e outros aspetos, porque a pior coisa que pode haver é desiludir uma criança, por motivos que ela não compreenderá, arranjando um “patudo” com o entusiasmo do momento e, depois, descobrir que é uma maçada, que “só dá trabalho” e descartá-lo na primeira ocasião. A resposta à frase “Ó pai, compre-me um cão!”, seja ela sim ou não, tem, portanto, de ser muito ponderada. Como defensor intransigente dos direitos das pessoas e dos cães, espero sinceramente que, na maioria dos casos, possa ser o sim…

Pediatra, escreve à terça-feira

 

Animais ajudam crianças na leitura

Abril 9, 2014 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem da RTP de 30 de março de 2014.

Helena Figueiras/ Vedin Trhulj

Uma escola básica de Silves conta agora com a ajuda de dois cães num projeto terapêutico para ajudar os alunos na leitura. Os animais da iniciativa “ler Cãofiante” ajudam a desenvolver estímulos que fazem aumentar a concentração e a cooperação entre as crianças.

ver a reportagem aqui

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279 ataques de cães em cinco anos Cães vêem as crianças como bichos

Setembro 11, 2012 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Sol de 17 de Agosto de 2012.

279 ataques de cães em cinco anos Cães vêem as crianças como bichos


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