A brincar se seduz, manipula e convence. É a base da educação

Junho 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://www.dn.pt/ de 28 de maio de 2017.

Tony Dias/Global Imagens

Desde o primeiro momento que a ligação entre pais e filhos se faz pelo brincar, é a receita para a felicidade e já tem um dia mundial

Leonor é a médica e a sala de brincar o consultório. Este é o espaço que dá acesso ao mundo da fantasia, aquele onde tudo é possível. Leonor abre a mala de médico – oferecida pelo avô -, veste a bata branca e coloca o estetoscópio ao pescoço. “Foi a melhor prenda da vida dela”, diz a mãe, Margarida Cerveira. No consultório está tudo a postos para a doutora de cinco anos começar a cuidar da borbulha da irmã Sofia, de 1 ano e meio. Usa um pouco de creme, que, como explica ao DN, “é para tirar as dores”. Enquanto isso, Frederico, de 7 anos, o mais velho dos três irmãos, diverte-se a montar legos com o amigo David. Não há tempo a perder, a hora de almoço está quase a acabar.

Duas vezes por semana, Margarida, psicóloga, e o marido, Artur Figueiredo, agente cultural, unem esforços para passar a hora de almoço com os filhos. Uma forma de tentar contrariar a correria do dia-a-dia. E sempre que possível brincam. “A base da educação parental é o brincar. É a linguagem que as crianças melhor entendem”, diz–nos a mãe. Mudaram de casa há pouco tempo e ainda não há televisão. “Não temos uma cultura televisiva”, explica. Ao fim de semana, Frederico dedica meia hora por dia aos jogos de computador. Não há tablets, nem o vício de mexer nos smartphones dos pais, que não se consideram extremistas, mas ressalvam que os preocupa que “os miúdos fiquem muito dependentes das máquinas”.

É no quarto de brincar que os três irmãos se divertem, soltam a imaginação. Da estante de livros tiram as histórias que querem ouvir à noite. Sofia sabe onde estão os seus, na prateleira de baixo. As bonecas, os puzzles, os jogos, as peças da Playmobil convivem com alguns brinquedos do tempo dos pais. A ideia é deixá-los brincar. E, sempre que possível, ao ar livre, no quintal, num parque ou na quinta dos avós. “A profissão deles é brincar”, frisa Margarida. “E gostam que brinquemos com eles”, acrescenta Artur. Para o casal, “devia ser obrigatório ter meia hora por dia para brincar com as crianças”.

A ideia de que as brincadeiras estão na base da educação é partilhada por Beatriz Pereira, investigadora do Centro de Investigação em Estudos da Criança, da Universidade do Minho, que falou com o DN a propósito do Dia Mundial do Brincar, que hoje se comemora: “É absolutamente indispensável que os pais brinquem com os filhos. Todas as famílias com crianças pequenas deviam ter acesso a condições que lhes permitissem fazê-lo, porque é preciso tempo.” Os primeiros contactos com o bebé e as formas de comunicação são lúdicas. “É através do jogo que são feitas as aprendizagens de cooperação, partilha, das regras”, prossegue a investigadora. Mesmo antes de nascer, o bebé já brinca. “Brinca na barriga da mãe e sabe-se, por registos ecográficos e outros estudos, que se entretém. Brinca e utiliza o seu próprio corpo para isso”, explica o pediatra Mário Cordeiro. Além de ouvirem, “os bebés veem desde muito cedo e apercebem-se de alguma luminosidade que chega através da parede abdominal da mãe”. Se calhar, “veem sombras chinesas e devem divertir-se a vê-las”, argumenta.

O pediatra diz: “O brincar com o seu corpo, com o dos pais e com os brinquedos ou com qualquer coisa que passe ou que esteja ao seu alcance é importante e uma brincadeira.” Só que os adultos estão tão ocupados que, por vezes, nem reparam em “como magníficas são as crianças a brincar… e a manipular, seduzir e convencer”.

Brincar pode parecer simples, mas é uma das atividades mais elaboradas. Mário Cordeiro diz que “desenvolve a criatividade, o imaginário, a imaginação, a alternância, o sentido figurativo e representativo, e a organização dos gestos, das falas e dos cenários”. E não exige brinquedos. “Os bebés servem-se do próprio corpo e brincam com as mãos e com os pés. Os mais velhos agarram em dois ou três objetos e fazem deles o que querem, inventam histórias e ações.”

Brincar, a receita da felicidade

Beatriz Pereira avisa que “uma criança que não brinca é infeliz”. “A vida das crianças estará em risco se não tiverem espaço e tempo para brincar.” A investigadora defende que “é absolutamente necessário que, até aos 6 anos, as crianças tenham grandes períodos para brincar livremente, sem orientação dos professores, e se possível ao ar livre”. Além de estar associado a estilos de vida ativos e saudáveis, brincar é “essencial para o desenvolvimento integral, onde se destaca o desenvolvimento motor, social, emocional e cognitivo”.

Quanto mais pequenas são as crianças, maior a necessidade de brincar. “É preciso que não tenham a agenda muito preenchida com atividades.” Outro entrave são, muitas vezes, as tecnologias. “Aparecem muitas vezes para dar lugar à falta de tempo dos pais para levar as crianças para espaços ao ar livre”, lamenta a investigadora da Universidade do Minho. Não se pode impedir que tenham contacto com a tecnologia, “mas é essencial brincar ao ar livre, o brincar espontâneo, sujar-se, esmurrar-se”. Para aprender os limites, a criança tem de saber até onde pode ir.

Cultura do “quero tudo, já”

Brincar é também aprender a lidar com sentimentos menos bons. “As brincadeiras reais, fantasistas, permitem à criança, desde muito cedo, sublimar algumas frustrações e aprender a gerir o stress e a contrariedade, o que é fundamental nos nossos dias, já que, na nossa sociedade, gravitamos muito à volta do “quero tudo, já!”, e qualquer obstáculo ou dificuldade é sentida como uma agressão do outro, levando a sentimentos de raiva, violência ou vitimização”, afirma Mário Cordeiro. Muitas vezes, a própria brincadeira serve para “ar- quitetar situações em que a criança pretende, afinal, exprimir as suas angústias, revelar o que vai na alma e dar sinal dos problemas que a atormentam”.

Através da brincadeira, defende o pediatra, “devemos fazer que se promova, nos nossos pequenos ecossistemas, culturas de segurança, de afetos, de gestão pacífica de conflitos e, antes de mais, uma cultura lúdica, de prazer e de brincadeira”. Dentro do Homo sapiens é preciso recuperar “o Homo ludens, ou seja, durante toda a vida, é preciso manter a parte da brincadeira e da criatividade (e de expressão de sentimentos) para que a vida seja mais longa, mais tranquila e com mais momentos de felicidade”.

 

 

A escola mudou pouco, os adolescentes mudaram muito

Março 18, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de março de 2016.

Marco Duarte

ANDREIA SANCHES

Reacções ao estudo da OMS sobre a adolescência, divulgado nesta terça-feira. Joaquim Azevedo, investigador da Universidade Católica, avisa que “a indisciplina cresce, cresce, cresce” cada vez mais.

No seu trabalho, Joaquim Azevedo, investigador da Universidade Católica, doutorado em Ciências da Educação, acompanha escolas diariamente. Visita-as, fala com alunos e professores. E regista o seguinte: “A indisciplina cresce, cresce, cresce” cada vez mais. E, com este clima na escola, “se os adolescentes se sentissem lá muito bem, isso é que era estranho”.

Este é o primeiro comentário que faz a uma das conclusões do grande estudo internacional sobre a adolescência, divulgado nesta terça-feira pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Um estudo que mostra que os adolescentes portugueses são dos que se sentem mais apoiados pela família, têm consumos de álcool ligeiramente abaixo da média observada noutros pontos do globo e, mais dos que os outros, quando têm relações sexuais usam preservativo. Boas notícias, portanto. Mas — e esta é a primeira má notícia — a escola em Portugal é pouco amada.

Dados: cerca de um quarto dos adolescentes de 15 anos dos 42 países e regiões participantes no estudo da OMS gostam “bastante” da escola. A Arménia tem o melhor resultado, a Bélgica francófona o pior. Portugal surge na 33.ª posição: só 11% dos rapazes e 14% das raparigas de 15 anos dizem que gostam muito da escola.

O problema não são os colegas — que são, na verdade, o que os portugueses mais gostam na escola. O problema são mesmo as aulas, consideradas aborrecidas, e “a matéria”, que é descrita como excessiva, explicou Margarida Gaspar de Matos, a investigadora que em Portugal coordena este estudo da OMS desde que, em 1998, o país começou a participar.

A indisciplina, prossegue Joaquim Azevedo, é, então, uma das culpadas. E tem crescido por muitas razões, diz. Uma delas é que “a escola não cativa”. Os professores queixam-se de que “os alunos chegam desmotivados”, o que “também é esquisito”, porque a motivação também se ganha na escola. Mas o facto é que “a escola mudou pouco e os adolescentes mudaram muito”.  E se se tenta ensinar “nativos digitais” de uma forma semelhante àquela que “existia há 50 anos”, como acontece, dificilmente os “nativos digitais” gostarão muito das aulas.

Segundo a OMS, os adolescentes portugueses são também dos que maior pressão relatam ter com a vida escolar: o país está na lista dos 10 onde, aos 15 anos, a “pressão com os trabalhos escolares” é maior, acompanhado da Finlândia e da Espanha, entre outros.

Os portugueses são, igualmente, dos que menos se têm em conta como alunos. É assim desde cedo: aos 11 anos, aparecem quase no fim da tabela, com a 38.ª pior auto-avaliação do seu desempenho escolar. Aos 15 é pior. Só 35% das raparigas e 50% dos rapazes consideram que têm bom desempenho escolar, quando a média dos 42 países é 60%.

A secretaria de Estado da Juventude e do Desporto, tutelada pelo Ministério da Educação, reconhece o problema e faz saber: “Torna-se prioritário encontrar novas formas de motivar os alunos para o infinito mundo de aprendizagens que a escola lhes pode dar: o desporto escolar e a promoção de hábitos de vida saudáveis são temas a que daremos total prioridade e que, esperamos, contribuirão para combater a insatisfação dos nossos jovens face à escola. Queremos ainda dar um novo fôlego à educação para a cidadania e à valorização da educação não formal, também enquanto ferramentas de educação para a diferença, fazendo frente aos níveis elevados de bullying a que tantos adolescentes estão sujeitos, conforme releva mais uma vez este estudo.”

“Currículo pouco amigável”

José Morgado, professor do departamento de Psicologia e Educação do ISPA-Instituto Universitário, também analisou os dados. E diz que esta conjugação — não temos uma relação forte com a escola, sentimo-nos pressionados por ela e achamos que não somos grande coisa como alunos — não existe por acaso. “É a tempestade perfeita.” E, em parte, tem a ver com o facto de “o sistema se ter orientado, de uma forma absolutamente excessiva para os resultados” — ou seja, para os exames e para as notas que neles se conseguem.

O professor de Psicologia aponta ainda o dedo ao “currículo pouco amigável” que se adoptou em Portugal. “Um currículo muito extenso, muito colado ao manual escolar.” Lembra que só entre o 1.º e o 9.º ano, o Governo definiu “mais de 900 metas” curriculares, enquantro “outros países andam a trabalhar para diminuir a extensão” dos currículos e torná-los “mais integrados”.

Mas para se sentirem bem na escola, continua Joaquim Azevedo, que integra o Serviço de Apoio à Melhoria das Escolas (uma estrutura da Católica) os adolescentes não precisam que ela seja fácil. “Uma escolha acolhedora é uma escola disponível para orientar” os jovens, “muito exigente em termos de ensino” e com bons professores, sublinha.

Outros países investiram muito “na melhoria das competências dos professores”, lembra, defendendo que, desde logo, 16 valores (numa escala que vai até 20) devia ser a média mínima exigida em Portugal a quem quer tirar um curso para ser professor.

Bullying é problema

Beatriz Pereira, investigadora do Centro de Investigação em Estudos da Criança, do Instituto de Educação, na Universidade do Minho, diz que coisas tão simples como dar oportunidade aos adolescentes de escolherem mais actividades escolares — teatro, desporto, canto, por exemplo, — e de as desenvolverem “ajudaria a reforçar os laços com a escola, a vestirem a camisola”. Dentro da sala, contudo, o que faz mesmo a diferença, concede, é o professor e, por isso, também acha que se deve apostar mais e mais na formação dos docentes.

Health Behaviour in School-aged Children, divulgado nesta terça-feira, é um estudo feito de quatro em quatro anos pela OMS. Baseia-se nas respostas de mais de 220 mil adolescentes europeus e do Norte da América (6000 portugueses). A recolha foi feita em escolas com 6.º, 8.º e 10.º anos, em 2014. O objectivo é avaliar hábitos, consumos, comportamentos, com impacto na saúde física e mental dos jovens. E a escola, diz-se, tem um enorme impacto.

O estudo não inclui perguntas que permitam aferir se a indisciplina, de que fala Joaquim Azevedo, aumentou ou não. Mas há dados sobre bullying por exemplo. Aos 11 anos,  entre 11% (raparigas) e 17% (rapazes) disseram que foram alvo de bullying na escola, “duas ou três vezes por mês nos últimos dois meses”. O país tem a 16.ª taxa mais alta de alunos de 11 anos que se dizem vítimas de bullying.

Aos 15 anos (entre 9 e 12% dizem-se vítimas) estamos comparativamente pior — em 12.º lugar em 42 países.

José Morgado diz que estudos nacionais até têm apontado para percentagens mais altas. Seja como for, uma coisa é certa: “O bullying continua a ser um problema, e é tão importante trabalhar com as vítimas como com os agressores, como com os assistentes — os alunos que assistem e que podem ter um papel mais activo”, nomeadamente na denúncia do problema nas escolas.

 

 

 

 

Alunos com excesso de peso não tomam pequeno-almoço

Setembro 10, 2013 às 6:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Notícia do Correio do Minho de 2 de Setembro de 2013.

Os alunos que não tomam o pequeno-almoço em casa são obesos. É o que revela uma investigação do Instituto de Educação da
Universidade do Minho. O estudo assentou em duas dezenas de jovens do 10.º e 11.º anos do concelho de Guimarães. Os resultados demonstram ainda que os alunos que só tomam o pequeno-almoço na escola, e muitas vezes tardiamente, após a primeira aula, sofrem de excesso de peso. “Trata-se da refeição mais importante do dia, por isso também é indicadora do peso a mais. Após várias horas de sono, é essencial para fornecer os nutrientes necessários à actividade quotidiana”, explica Beatriz Pereira, professora catedrática e directora do Departamento de Teoria da Educação e Educação Artística e Física. “É importante que os pais acordem os filhos mais cedo para que estes tenham tempo para tomar o pequeno-almoço com calma. A criança não deve sair de casa a comer o pão porque está atrasada”, realça. À medida que cresce, o adolescente toma cada vez menos o pequeno-almoço no domicílio. “Não é uma refeição valorizada”, insiste a investigadora, para acrescentar: “A maioria tende a adiá-la para mais tarde durante a manhã”.
Este adiamento deve-se ao facto de eles “acordarem demasiado tarde, ficando sem tempo para o fazer”. Por outro lado, ingerir o pequeno-almoço na escola é visto pelos mais novos como sendo “uma prática fixe e bem aceite pelos pares”. São necessárias “campanhas de sensibilização para a toma do pequeno-almoço e para uma maior atenção às características dos alimentos matinais sugeridos na escola. Se possível, deve ser indicado um menu próprio a preço especial, para incentivar os alunos a tomá-lo às 8.15 horas, mal chegam ao estabelecimento de ensino”, diz a coordenadora do projecto.

Crianças sedentárias têm pior coordenação motora

Setembro 11, 2012 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 16 de Agosto de 2012.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

Associations between sedentary behavior and motor coordination in children

por Texto da Agência Lusa, publicado por Joana Capucho

Crianças que passam mais de três quartos do seu tempo em atividades sedentárias, como ver televisão e jogar computador, chegam a ter nove vezes pior coordenação motora do que as ativas, revela um estudo português divulgado numa publicação norte-americana.

A investigação, publicada no site da American Journal of Human Biology esta semana, foi desenvolvida pela Universidade do Minho e envolveu crianças portuguesas entre os nove e os 13 anos.

“A infância é um período crítico para o desenvolvimento das competências da coordenação motora que é essencial para a saúde e bem-estar”, afirma Luís Lopes, um dos autores do estudo.

Este estudo demonstra ainda que a atividade física por si só não reverte os efeitos negativos que o elevado nível de sedentarismo provoca na coordenação motora.

“Os resultados mostram a importância de estabelecer um tempo máximo para comportamentos sedentários, enquanto se encorajam as crianças a aumentar os níveis de atividade física”, concluem os autores.

A equipa da Universidade do Minho analisou 110 raparigas e 103 rapazes de 9 e 10 anos de 13 escolas básicas em zonas urbanas, tendo medido objetivamente os comportamentos sedentários e a atividade física. A coordenação motora foi avaliada com vários testes físicos, que incluíram avaliação de equilíbrio, saltos de obstáculos ou deslocação de plataformas.

Os testes foram complementados com um inquérito aos pais para aferir variáveis de saúde.

Em média, as crianças passam 75,6% do seu tempo a serem sedentárias, com o impacto na coordenação motora a ser maior nos rapazes do que nas raparigas.

As meninas que passam mais de 77% do tempo dedicando-se a atividades sedentárias apresentam quatro ou cinco vezes pior coordenação motora do que as raparigas ativas.

Já em relação aos rapazes, aqueles que em 76% do seu tempo são sedentários chegam têm entre cinco a nove vezes pior coordenação motora do que os seus pares ativos.

“O elevado sedentarismo tem um impacto significativo na coordenação motora das crianças, influenciando de modo mais desfavorável os rapazes”, refere Luís Lopes

 

 

 


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