Porque “nunca passamos tempo suficiente com os nossos avós”

Julho 26, 2019 às 10:30 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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©Sujata Setia

Texto do Público de 26 de julho de 2019.

“É uma pena”: a fotógrafa indiana Sujata Setia não guarda nenhuma fotografia dos seus avós. “Quando era pequena, não tinha noção da importância do laço que partilhava com os meus avós”, disse ao P3, em entrevista por e-mail a partir de Londres, onde reside há dez anos. “Tinha-os como garantidos. Hoje tenho uma filha e vejo-a a cometer o mesmo erro. Não é bem um erro, é uma característica da idade. Uma criança não tem preocupações relativamente ao futuro e não pensa nas relações da mesma forma que um adulto, nem mesmo aquelas que são mesmo importantes, e quando elas terminam sobra apenas uma coisa: arrependimento. Devia ter passado mais tempo com eles. Nunca passamos tempo suficiente com os nossos avós.” Sujata sente a falta deles, mas não guarda nenhum objecto que materialize a sua memória, que seja “tangível”, explica.

Esta série de retratos surge como forma de Sujata recriar os momentos que viveu com os avós. E a forma como o faz é, no mínimo, inusitada. Por vezes, a fotógrafa aborda pessoas externas ao seu ciclo de amigos e conhecidos e oferece-se para retratar, simplesmente, momentos felizes entre avós e netos. É um presente que decide dar a pessoas desconhecidas e que, tem a certeza, será apreciado no futuro. Porque nunca passamos tempo suficiente com os nossos avós.

Dia dos Avós – histórias para netos e avós, cumplicidade entre gerações -26 julho em Faro

Julho 25, 2019 às 5:43 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.cm-faro.pt/pt/noticias/52614/municipio-de-faro-comemora-dia-dos-avos-com-piquenique-e-animacao-musical.aspx

As crianças têm direito a não dar beijinhos

Novembro 1, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Shutterstock

Texto do Notícias Magazine de 18 de outubro de 2018.

Texto de Sofia Teixeira | Ilustração Shutterstock

Quem tem filhos pequenos conhece o filme: frequentemente familiares, amigos e conhecidos querem beijinhos dos miúdos quando os encontram e, também frequentemente, os miúdos recusam. Faz sentido insistir com os pequenos para darem beijos ou deve ser a criança a escolher como cumprimentar?

Carolina Pimentel, 33 anos e três filhos, tem em casa um autêntico “expositor” do que são as diferenças de personalidade, socialização e atitude perante manifestações de afeto. Rodrigo, de 7 anos, escondia a cabeça no meio das pernas dos pais quando era mais novo, continua tímido e envergonhado e não dá beijos nem abraços a ninguém.

Sebastião tem 5, ainda ninguém lhe pediu nada e já ele se está a esticar para dar beijos e abraços (cumprimenta e despede-se de toda a gente, mesmo que seja ao entrar e sair de um elevador, cheio de desconhecidos, no centro comercial). Mafalda, de 2 anos, faz jus à fama de esta idade ser temperamental e tem dias: ora está expansiva e beijoqueira, ora relutante em aproximar-se de alguém.

Carolina tem feito sempre questão de lhes explicar que dar beijos é opcional, ser bem educado é obrigatório. “Respeitamos os momentos e a personalidade de cada um. Sabem que “olá”, “boa tarde”, “adeus” têm sempre de dizer, que devem responder quando falam com eles, mas os beijinhos e abraços dão quando querem e a quem querem, sem obrigações.”

As crianças, como os adultos, têm diferentes níveis de tolerância ao contacto físico por parte de pessoas que não lhes são próximas. “O que para algumas crianças é prática comum, para outras pode ser muito incomodativo ou mesmo causar-lhes repulsa”, explica a psicóloga Carla Pacheco, defendendo que os limites de cada um devem ser respeitados.

Parece óbvio e do mais elementar bom senso, mas há pais que continuam a sentir-se incomodados perante a recusa dos filhos no que toca a cumprimentos físicos e há adultos que interpretam essa recusa das crianças como falta de educação.

Já a psicóloga clínica Cláudia Leal admite que, para os padrões da nossa sociedade, o cumprimento de beijinho faz parte da socialização, mas é importante que os pais consigam perceber que educação, regras e limites não devem chocar de frente com o respeito pelos afetos dos filhos, ainda que, por vezes, eles façam escolhas que vão contra o que é socialmente esperado.

Por essa razão, não tem dúvidas: “Os pais devem incutir-lhes a liberdade de poderem escolher a maneira como saúdam as pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Com um passou-bem, um “boa-tarde” ou simplesmente com um sorriso e um aceno continuam a ser educados e simpáticos para com os outros, sem necessidade do beijo ou do abraço.”

Para Carolina, as recusas – quase sistemáticas de Rodrigo e esporádicas de Mafalda – são geridas com naturalidade e sem drama. Perante o pedido de alguém e a recusa deles, estando por perto, dirige-se aos miúdos dizendo: “Não precisas de dar beijinho, mas tens de dizer olá.”

“Nunca tive reações negativas entre o círculo de amigos ou conhecidos.” Mas admite que é mais difícil com pessoas mais velhas, como os avós e as tias, que não veem com tanta frequência. “Às vezes para os avós paternos é difícil aceitar. Mas explico-lhes que obrigar os meus filhos a dar beijinhos era o mesmo que obrigarem-me a mim a beijar alguém: não faz sentido.”

Cláudia Leal defende que a sensibilização para os afetos é muito importante para o desenvolvimento saudável de uma criança, mas não pode valer tudo. “Seja com os avós, tios, amigos ou até conhecidos, devemos sempre incentivar a retribuição de um gesto carinhoso, de uma palavra doce. Podemos e devemos promover o carinho, mas não podemos esquecer que o sentir não se impõe. Ao forçar, cria-se um falso conceito de afeto”, defende.

De acordo com a psicóloga, muitas vezes, as crianças aceitam cumprimentar alguém dessa forma, mesmo quando não gostam, com medo de serem castigadas. “Que liberdade de sentir lhes damos assim?”, questiona.

Carla Pacheco concorda: é importante sensibilizá-las para os estados emocionais dos outros e para o efeito das suas ações nelas, mas isto deve ser feito “sem culpabilização, chantagem ou com vista a convencer a criança, mas apenas com o intuito de fomentar a empatia e lhe permitir ser ela própria a desenvolver estratégias de retribuir o carinho e a atenção, nos seus próprios termos.”

Há quem vá mais longe e entenda que as imposições são perniciosas: ensina-lhes que devem submeter-se a contacto físico não desejado, só porque esse é o desejo dos outros. A coach parental norte-americana Jennifer Lehr criou celeuma no seu blogue quando, há dois anos, defendeu que este comportamento dos pais leva a criança a percecionar como sendo normal o uso do corpo para satisfazer os desejos alheios.

E – apesar de ter sido acusada por muitos de ser extremista – defendeu que isso era meio caminho andado para a criança tolerar uma relação abusiva, tanto na infância como na adolescência.

Carla Pacheco confirma que é essencial respeitar o espaço pessoal da criança, promovendo a noção de respeito por si própria e pelos seus afetos. “Ao forçarmos uma troca de afeto que não é sentida, estamos a transmitir-lhe a ideia de que a sua vontade, no que respeita ao seu espaço pessoal e aos seus afetos, poderá não ser tão válida como a de terceiros.”

A psicóloga defende que é importante não cairmos em extremismos – “Não vamos traumatizar a criança por a forçar a dar um beijinho à tia que veio de longe” –, mas que é importante refletirmos sobre qual é a mensagem implícita neste comportamento e quais são, afinal, as nossas verdadeiras motivações para isso.

“Enquanto pais, podemos sentir-nos melindrados, por receio de ver a nossa competência parental posta em causa pelos outros. Mas importa ter em mente que a criança é um indivíduo de direito próprio e que não existe para ir ao encontro das necessidades ou expetativas de terceiros.”

BEIJINHOS DAS VISITAS TODAS AO RECÉM-NASCIDO? É MELHOR NÃO.

Apesar de poder haver um batalhão de gente a querer ver, pegar e dar beijos ao bebé nos primeiros dias – seja na maternidade, seja já em casa, é prudente que, sem extremismos, haja alguma salvaguarda. O bebé esteve nove meses num ambiente perfeitamente estéril, protegido do exterior. Quando nasce tem alguma imunidade devido aos anticorpos da mãe, mas o sistema imunitário ainda é muito frágil e impreparado para lidar com os milhões de microrganismos do ambiente.

Herpes, mononucleose ou um simples vírus da gripe, que em crianças mais velhas ou em adultos não costumam ter um impacto muito grande na saúde, podem, num recém-nascido, provocar complicações. Por isso, sobretudo no primeiro mês de vida, as visitas devem ter o cuidado de não pegar no bebé se estiverem doentes e de lavar as mãos antes de lhe dar colo. Os beijos devem ser limitados às pessoas mais próximas da família e devem ser dados preferencialmente na testa ou cabeça, não na cara ou nas mãos.

 

Avós ou creche. O que é mais benéfico para as crianças?

Setembro 7, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto do MAGG de 28 de agosto de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero
Há prós e contras nos dois ambientes. A MAGG foi saber a opinião de 3 especialistas e as histórias de 4 mães.
Além de serem associados a muito mimo, paciência e cozinhados fantásticos, há há algum tempo que os avós se tornaram num apoio imprescindível para os pais portugueses — de acordo com um estudo publicado em 2014 pela Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal, a par com outros países do sul da Europa, apresenta uma maior percentagem de avós a cuidar dos netos a tempo inteiro.

No nosso País, em que as licenças de maternidade duram, geralmente, quatro a seis meses (quatro meses mantendo o pagamento de ordenado na totalidade, seis a receber 80% do salário), muitos pais têm de arranjar uma alternativa e decidir onde deixar os filhos durante o horário de trabalho quando estes são ainda muito pequenos. Há quem tenha a possibilidade de os deixar com os pais ou sogros, estando o problema facilmente resolvido; outros não têm tanta sorte, e não há outra solução que não recorrer a amas ou creches.

No entanto, mesmo quando a ajuda dos avós está disponível, existem pais que optam pela creche. Foi o que aconteceu a Patrícia Oliveira, 30 anos, diretora criativa na Strazzera (uma empresa na área de produção de moda) e mãe de Lucas, de 2 anos e meio. “Inicialmente, o nosso plano era colocar o Lucas na creche por volta desta altura, mas tivemos de o fazer antes. Foi a minha mãe que ficou com ele quando regressei ao trabalho mas, pouco depois de ele fazer um ano, percebi que tínhamos de mudar”.
Depois de o filho celebrar o primeiro aniversário, a diretora criativa percebeu que este adorava brincar com outras crianças no parque, que estava a desenvolver-se rapidamente e que já era muito puxado para a avó aguentar o ritmo do pequeno Lucas. “Ele tem uma energia louca e começou a ser difícil para a minha mãe cuidar dele todos os dias”, conta à MAGG Patrícia Oliveira, que recorda que não foi fácil arranjar vaga numa creche pública, dado que que a decisão “foi tomada muito em cima da hora”.

A mãe de Lucas confessa que os primeiros 15 dias não foram fáceis — “ele chorava um bocadinho quando o deixávamos” —, mas o menino, na altura com cerca de ano e meio, adaptou-se rapidamente. Patrícia Oliveira lembra que “em uma semana e meia já fazia uma rotina normal”, e hoje em dia a diretora criativa não tem dúvidas de que esta foi a melhor decisão.

“Os pais que preferem colocar os filhos na creche mais cedo estão bastante preocupados com a promoção do desenvolvimento das crianças.”

“Acho que é ótimo para a criança poder ficar em casa no primeiro ano, caso exista essa hipótese, mas, a partir daí, acho mais benéfica a creche. No caso do Lucas, acalmou-lhe o lado ‘furacão’, aprendeu muitas regras e desenvolveu-se bastante — noto, por exemplo, nos desenhos que faz e no cumprimento de ordens”.

A creche é sinónimo de desenvolvimento?

Andreia Pinto, 35 anos, é mãe de Madalena, hoje com 2 anos, e não tem qualquer dúvida sobre os benefícios da creche. Mesmo com a opção de colocar a filha ao cuidado do avô, a supervisora inscreveu a pequena Madalena no berçário com seis meses. “A escola foi a primeira opção, nem equacionei os avós ou amas. Acho que os miúdos se desenvolvem muito mais, têm atividades adequadas à idade, outras crianças, aprendem outras coisas e supostamente ganham mais anticorpos, mesmo que fiquem mais vezes doentes”, afirma Andreia Pinto.

Tal como explica à MAGG a psicóloga clínica Inês Chiote Rodrigues, “os pais que preferem colocar os filhos na creche mais cedo estão bastante preocupados com a promoção do desenvolvimento das crianças” e acreditam que essa será a melhor alternativa para que estes evoluam mais depressa. Mas será a creche sinónimo de um maior desenvolvimento?

A especialista salienta que “pode potenciar a socialização e o estímulo, sendo um local seguro onde a criança aprende a brincar e a conviver com outras crianças”, para além ser uma mais-valia na adaptação a rotinas saudáveis. Porém, em relação ao desenvolvimento dos mais pequenos, assume que tudo depende do ambiente de interação e estímulo oferecido à criança.

“A grande diferença entre a creche e o ficar com os avós é a interação e a aprendizagem sobre partilha, capacidades que são adquiridas nas várias atividades que as educadoras podem fazer nos espaços escolares. Há a noção de que uma criança que entra mais cedo para a creche está mais preparada para a escola, no que diz respeito à capacidade de socialização, de partilha e de cumprimento de regras, mas tudo depende da forma como a criança é estimulada em casa dos avós”, afirma Inês Chiote Rodrigues.

“A criança não se desenvolve mais obrigatoriamente por estar na creche. Basta ainda não estar no seu timming certo para isso acontecer.”

A educadora de infância Gabriela Silva também salienta a importância de analisar cada criança, bem como a sua situação, individualmente. “Como em tudo, cada caso é um caso, seja no que se refere à criança e às suas necessidades, ao tipo de avós e aos profissionais do espaço escola, seja em que idade for. Cada criança tem um tempo próprio para as suas aprendizagens e desenvolvimento individual. Em contexto de grupo recebe mais estímulo, obviamente, mas tal não quer dizer que a criança se desenvolva mais obrigatoriamente por estar na creche. Basta ainda não estar no seu timming certo para isso acontecer”, explica a também formadora na área de Educação de Infância.
Para além dos cuidados básicos, a psicóloga clínica Inês Chiote Rodrigues acredita que, caso exista uma “interação frequente, saídas até parques infantis, interação com outras crianças (netos de amigos, irmãos, primos ou no parque), assim como o estabelecimento e firmeza nas regras e rotinas, a criança poderá ter igualmente um ótimo desenvolvimento em casa dos avós”.

Esta é uma ideia partilhada por José Aparício, médico pediatra e coordenador do atendimento pediátrico do Hospital Lusíadas Porto, que acredita que os avós são uma ótima solução, principalmente para crianças nos primeiros dois anos de vida. “Fala-se do desenvolvimento e da interação com outras miúdos, mas uma criança de um ano não interage com o grupo, mas sim com a educadora. Caso os avós sejam pessoas ativas, que passeiem com a criança, que a estimulem, sou da opinião que é mais benéfico para os miúdos ficarem com eles nos primeiros tempos de vida. Admito que em termos de estimulação pode não ser exatamente a mesma coisa que a creche, mas tem outros benefícios.”

Quando os avós são a escolha óbvia

Raquel Luís, 30 anos, é mãe de Tomás, prestes a fazer dois anos, e, para a professora de Inglês no âmbito das Atividades Extra-Curriculares do Ensino Básico e educadora de tempos livres, a escolha foi óbvia: “Para mim, faz todo o sentido que o meu filho fique em casa dos meus sogros”.

“É inegável que, em casa dos avós, tem a atenção e o carinho que não teria na escola. Em casa dos meus sogros é só ele, na creche, se for preciso, está com mais 20 crianças, que não são nada às pessoas que lá estão.”

À MAGG, a professora conta que já colocou o filho em várias listas de espera de creches, mas Tomás só deverá frequentar as mesmas no início do próximo ano letivo, a cerca de dois meses de completar três anos de idade — esta é uma altura em que Raquel Luís acredita que o filho já se consegue explicar melhor, algo que é de vital importância para si.

“Com tanta coisa que se ouve de maus tratos, de negligenciarem as crianças, prefiro colocá-lo na escola numa altura em que ele se consiga exprimir melhor. Claro que com três anos não o consegue fazer de uma forma totalmente clara, mas sabe dizer-me como foi o dia, como é que correu, o que gostou, o que não gostou e se lhe bateram”, afirma Raquel Luís, que também assume que o fator financeiro entra nas contas e, ao colocar o filho na creche mais tarde, poupa dinheiro.

O alegado desenvolvimento mais rápido das crianças nestes espaços não é fator para a monitora de tempos livres, que admite que a evolução célere do filho é algo que não a preocupa. “É comum dizer-se que, na creche, os miúdos desenvolvem-se mais depressa, andam, falam, mas isso ele vai, eventualmente, fazer. Não sinto que ficar com os avós atrase o desenvolvimento dele”, salienta Raquel Luís que, apesar de ter noção de que a creche pode dar outro tipo de entretenimento ao filho que os sogros não dão, acredita que não é o facto de Tomás estar com avós que vai fazer com que o menino se desenvolva mais devagar. “Conheço muitas crianças que estiveram nos avós e começaram a falar mais rápido que outras, que estão nas creches”, afirma a professora.

Para Raquel Luís, mais importante do que Tomás ser rápido a aprender a falar, é o amor que recebe em casa dos avós, algo que não acredita ser possível numa creche: “É inegável que, em casa dos avós, tem a atenção e o carinho que não teria na escola. Em casa dos meus sogros é só ele, na creche, se for preciso, está com mais 20 crianças, que não são nada às pessoas que lá estão. E acho que, para uma criança, sentir-se acolhida no mundo, ter amor e carinho, é essencial — o amor que lhe é transmitido nos primeiros meses e anos fica para a vida.”
A psicóloga Inês Chiote Rodrigues concorda que a permanência das crianças em casa dos avós nos primeiros anos de vida tem os seus benefícios. De acordo com a especialista, neste cenário, “há, naturalmente, um cuidado diferente. Não só existe um laço emocional forte, mas também uma disponibilidade maior por parte dos avós, dado que a atenção recai apenas sobre aquela criança”. Assim, e tal como explica a especialista, “pode existir uma maior oportunidade de escutar e observar, ganhando um maior conhecimento sobre as caraterísticas e necessidades da criança”, mas tudo depende da qualidade dos cuidados, que vão muito além de trocar fraldas.

“A interação e os estímulos dados ao bebé são muito importantes, pois o seu desenvolvimento cognitivo e emocional está dependente daquilo que recebe nos primeiros dois anos de vida por parte dos cuidadores”, afirma Inês Chiote Rodrigues. No entanto, e apesar dos benefícios já referidos em ficar na companhia dos avós, esta situação também pode trazer contrariedades.

“Quando as crianças ficam em casa até aos três anos, criam rotinas e regras que podem variar um pouco das da escola, e é possível que tenha de existir um período de adaptação”, conta a psicóloga clínica. Porém, este não é o único contra.

A educadora de infância Gabriela Silva relata que, “com certos avós, a criança corre o risco de se tornar mais ‘abebezada’ e permanecer assim durante mais tempo. Refiro-me ao nível e qualidade da linguagem e da expressão verbal, à dieta alimentar, dado que os avós, por vezes, só oferecem o que a criança gosta e não possibilitam a experimentação de novos alimentos, sabores e texturas, como o caso da sopa ser sempre passada, por exemplo. E não nos podemos esquecer da autonomia na higiene pessoal — há miúdos que chegam à pré primária sem se saberem limpar sozinhos”.

Quanto à sociabilidade das crianças, ou ao perigo de falta dela, Inês Chiote Rodrigues volta a afirmar que não é possível ter certezas absolutas. “Tudo depende da própria disposição genética da criança no que diz respeito à introversão/extroversão, assim como do ambiente à sua volta, para que desenvolva ou não essa capacidade de interação”, explica a psicóloga, que acrescenta que, “caso a criança esteja com os avós, mas saia para brincar e esteja com outras crianças, sendo estimulada nesse sentido, existe uma menor probabilidade de ser pouco sociável com outros miúdos”.

Creche ou antro de doenças?

Se já colocou os seus filhos na creche em tenra idade, com certeza passou pelo drama das doenças. Afinal, assim que as crianças entram nestes espaços, é habitual ficarem doentes semana sim, semana não. Este é um cenário bastante familiar para Elizabete Monteiro, 34 anos, mãe de dois rapazes, com 3 e 6 anos, e grávida atualmente de uma menina. “Na época, não tinha qualquer apoio familiar perto de mim e fui obrigada a colocar o meu filho mais velho no berçário apenas com dois meses e meio. O T. estava muitas vezes doente, não dormia de noite e era um bebé muito agitado”, recorda a gestora de marca.

“Os pais precisam de pensar no preço a pagar, no que envolve manter os filhos numa creche, suscetíveis a estes contágios.”

“Quando as crianças estão no berçário ou na creche, estão muito sujeitas a infeções pulmonares e bronquiolites, dado que os pulmões só maturam aos três anos de idade. Este tipo de doenças obrigam à toma de antibióticos, por vezes até a internamentos hospitalares e grandes períodos de recolha em casa”, afirma Gabriela Silva.

No entanto, a educadora de infância explica que é muito complicado controlar as doenças em contexto do espaço escolar, chegando a afirmar que é quase impossível. “Nos primeiros anos, tudo passa pela boca das crianças, aumentando exponencialmente o contágio”, afirma Gabriela Silva, que acredita que tanto os berçários como as creches deveriam impedir o acesso a crianças doentes, com febre, otites ou amigdalites, para citar alguns exemplos.

Este é outro dos motivos pelos quais o pediatra José Aparício acredita que, nos primeiros anos de vida, as crianças ficam melhor ao cuidado dos avós, caso essa alternativa esteja em cima da mesa. “Principalmente nos primeiros dois anos, os mais pequenos não têm muitas defesas e ficam doentes com muita facilidade. Os pais precisam de pensar no preço a pagar, no que envolve manter os filhos numa creche, suscetíveis a estes contágios. É preciso equacionar o dinheiro gasto em medicamentos e as faltas ao trabalho dos adultos”, alerta o coordenador do atendimento pediátrico do Hospital Lusíadas Porto.

3 anos: a idade mágica

Apesar de não existirem regras universais, a entrada das crianças na creche ou pré-primária (vulgo, jardim-escola) com 3 anos é algo consensual entres os especialistas, tanto no campo da educação como no meio médico.

Para a educadora de infância Gabriela Silva, “a entrada após os 3 anos é sempre ideal e tenho esta opinião como mãe e educadora. No entanto, imaginando que a criança tem um atraso no desenvolvimento, irá ganhar e muito com a entrada no espaço escolar o mais cedo possível, dado que irá receber um estímulo constante, melhor do que qualquer terapia”.

Em termos de saúde e sociabilidade, o pediatra José Aparício também refere a marca dos 3 anos como uma ótima idade para ingressar em espaços escolares. “Aos três anos, as crianças já têm mais defesas e outra imunidade, não estando tão suscetíveis a doenças. E com essa idade também já conseguem interagir mais com o grupo e absorver regras de conduta com outras competências”, salienta o especialista.

A psicóloga Inês Chiote Rodrigues reforça esta ideia e explica que é a partir do terceiro ano de idade que, geralmente, as crianças desenvolvem mais autonomia. “Aprendem a expressar-se, a partilhar e a necessidade de interação e socialização é ainda maior. Antes desta idade, apesar do brincar ser fundamental, o maior foco ainda é proporcionar os cuidados básicos ao bebé como a troca de fraldas, alimentação, higiene e afeto”, conclui a especialista.

Os avós são… sete crianças dizem-nos o que pensam sobre estes seres especiais

Julho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do MAGG de 26 de julho de 2018.

Por Dulce Neto

No Dia dos Avós perguntámos aos netos o que é que eles são. As respostas são honestas mas também ternurentas como se vê neste vídeo.

Com mais ou menos vergonha e um discurso mais ou menos articulado, uma coisa é certa. Os avós destas sete crianças que aceitaram o desafio da MAGG são figuras presentes nos dias dos netos.

E hoje, que o mundo assinala o Dia dos Avós, os miúdos contam-nos como eles fazem parte das suas vidas.

Oferecem prendas, sim, mimos e abraços, muitos, e (alguns) doces, claro, mas também educação. Há quem conte histórias, jogue às escondidas, leve ao parque, ensine a cozinhar ou faça o prato preferido. E também há quem castigue.

Todos concordam com Rosa Cabral, de oito anos: os avós são pessoas especiais. Mateus Martins, de cinco anos, recorda como vai comer gelados com a avó Nela, os presentes que a avó Ana lhe oferece, os passeios com o avô João ou como o avô Jaime é adepto do Benfica e ouvia futebol na rádio.

Já Edgar Santo da Mata, cujos quatro anos traquinas o impedem de ficar muito quieto à frente da câmara da MAGG, confessa que gosta de dormir com a avó Odete enquanto Seline Varela de nove anos revela que a encara como uma segunda mãe.

E se Afonso Beato e Pilar Coelho, ambos com seis anos, garantem que os avós nunca os puseram de castigo e os levam a passear, Mariana Ferreira, de oito anos, manifesta uma opinião muito clara sobre a importância dos avós: têm muito a ensinar, pois nasceram mais cedo.

Ora aqui está uma afirmação com a qual as psicólogas Patrícia Poppe e Margarida Alegria não podiam estar mais de acordo: os avós têm um lugar fundamental na família contemporânea.

A primeira, que já tem uma neta de dois anos, defende que o contacto dos avós com os netos é muito importante para os mais velhos,“porque as crianças são seres em desenvolvimento, são fantásticas, têm muita alegria e significam a possibilidade de se estabelecer relações muito fortes, o que é enriquecedor”.

Reconhecendo, tal como Margarida Alegria, que hoje é mais difícil ter avós disponíveis, porque trabalham até mais tarde, Patrícia Poppe salienta, no entanto, que o “tempo que reservam para os netos é de mais qualidade”.

Recordando a ligação estreita que teve com a avó, a psicóloga aborda o papel que os avós podem desempenhar na educação dos pais. “Quando eram pequeninos, os nossos filhos não nos observavam na nossa função de educadores, de cuidadores e de referências afectivas. Agora veem-nos a lidar com os filhos deles e aprendem também com isso”.

Margarida Alegria reconhece na prática a definição avançada por Mariana Ferreira: “Os avós são pessoas que ajudam”. Com uma bebé com pouco mais do que um mês, é a mãe quem lhe fica com a outra filha de três anos para já poder estar de regresso ao trabalho, onde segue adultos e crianças. A psicóloga não precisa de ir buscar os dados de um estudo desenvolvido em 2008 (mas que continua a ser uma referência) pela Universidade de Oxford para sublinhar que a ligação entre avós e netos é benéfica para as crianças. A investigação da reputada universidade britânica concluiu que as crianças que tiveram uma ligação estreita com os avós têm menos problemas emocionais e comportamentais e menos dificuldades em lidar com os seus pares.

No seu consultório, Margarida Alegria nota a diferença entre “as crianças que agora nas férias não têm onde ficar senão em ATL’s (Atividades de Tempos Livres) e aquelas que têm a sorte de poder ficar com os avós.” Estes, em geral, não são apenas uma fonte inesgotável de experiências, conhecimentos e afecto, como “têm mais tempo livre do que os pais e por isso proporcionam programas aos miúdos a que eles de outra forma não teriam acesso”.

E se não há dúvidas sobre os benefícios da presença dos avós para as crianças, “o mesmo se pode dizer para eles: os avós renascem”.

O ditado diz que os “netos são a sobremesa da vida” para os avós, mas podem eles prejudicar a educação dos miúdos com a ideia de que “os pais educam, os avós mimam”? “O mito de que os avós estragam as crianças é, em parte, verdade”, diz Margarida Alegria. Ou seja, não é bem mito. “São menos rígidos, são mais flexíveis, têm mais tempo para brincarem e fazerem outras coisas com os netos, mas tudo depende da relação que tiverem com os pais e do que for estabelecido entre eles”. Os avós podem, e devem, ser um apoio e um conforto na tarefa difícil de criar os filhos, não um problema ou entrave, continua Margarida Alegria lembrando que é necessário um equilíbrio. “Não considero que a minha sogra ou a minha mãe ‘estraguem’ a minha filha”.

Evocando as férias que passava com a avó, como isso lhe deu um capital de memórias inesquecíveis, a psicóloga salienta ainda a importância de se manterem “certas rotinas e tradições (como o almoço semanal em casa dos avós, a semana de férias em conjunto, por exemplo) para estreitar a união familiar, elemento importante no crescimento de uma criança”.

Tudo somado, conclui Margarida Alegria, as três partes — pais, filhos e avós — “só têm a ganhar com o envolvimento equilibrado dos avós”.

 Texto de Dulce Neto, vídeo de Samuel Costa.

 

 

Seminário “Filhos, Pais e Avós: Viver (s)em conflito” 20 abril em Coimbra

Abril 4, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrições até 17 de abril de 2018 no link:

https://docs.google.com/forms/d/1Y_yQTvNJkXGssoqiZwzVSJX-0bItakvYAHt3MVWnMQM/viewform?edit_requested=true#responses

8ª CAMPANHA DE PREVENÇÃO DE MAUS TRATOS A CRIANÇAS E JOVENS ABRIL DE 2018

A exemplo de anos anteriores, a Comissão Regional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente da ARS Centro, no âmbito da Ação de Saúde para Crianças e Jovens em Risco e Violência Interpessoal ao longo do Ciclo de Vida, em conjunto com uma vasta Rede de Parceiros do Concelho de Coimbra, está a organizar a 8ª Campanha de Prevenção de Maus Tratos a Crianças e Jovens que irá decorrer durante o mês de Abril.
No âmbito das atividades que irão decorrer ao longo deste mês, pretende-se sensibilizar a população em geral e as estruturas que intervêm nesta problemática, para a promoção dos direitos das crianças e dos jovens e para a prevenção da violência interpessoal, nas suas múltiplas formas de expressão, ao longo do ciclo de vida.

 

“Todas as crianças do mundo merecem avós portugueses”. Esta é a conclusão do homem que estuda felicidade

Março 22, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Responsável por colocar o Hygge nas bocas do mundo, Meik Wiking está de volta à escrita com ‘O Livro do Lykke’. Mais do que uma reflexão sobre a vida e a felicidade, esta obra debruça-se sobre os seis elementos da felicidade humana e de que forma é que a podemos alcançar através de dicas práticas. O escritor dinamarquês esteve em Lisboa para a apresentação do livro e esteve à conversa com o SAPO Lifestyle.

‘O Livro do Hygge’ focou-se no Hygge que, para além de ser uma parte importante da identidade cultural da Dinamarca, é descrito como o segredo dinamarquês da felicidade. O novo livro explora o conceito Lykke – que em português quer dizer felicidade – e revela os segredos das pessoas mais felizes do mundo. O que o motivou a escrever ‘O Livro do Lykke’?

O segundo livro fala sobre aquilo que eu faço enquanto Presidente do Happiness Institute Research e qual o meu objetivo de vida: tentar perceber o que leva à felicidade. Há cinco anos fundei este think tank porque tinha curiosidade sobre determinadas questões. “Por que é que algumas pessoas são mais felizes do que outras?”, “Como podemos melhorar a nossa qualidade de vida?”, “Por que é que a Escandinávia tem uma boa posição no ranking da felicidade?” Toda a pesquisa que fiz nessa área está neste livro. Tentei torná-lo acessível e apresentar os dados que analisámos às pessoas.

No livro afirma que é muito mais fácil para as pessoas focarem-se nas coisas negativas do que na beleza e no bem do mundo em que vivemos. Não considera que isso é uma consequência da forma como os meios de comunicação retratam o mundo que nos rodeia?

Sim, é exatamente isso. Nós vemos morte, terrorismo e desemprego nas notícias porque é assim que os meios de comunicação social funcionam. Somos expostos a conflitos diários mas se olharmos para os dados de como o mundo está a evoluir constatamos o seguinte: existem retrocessos mas, de uma forma geral, o mundo é muito melhor hoje em dia do que há 50 anos. Há mais igualdade entre géneros, menos mortalidade infantil, mais esperança média de vida e menos pessoas a viver em pobreza. Há muitas coisas boas a acontecerem mas temos tendência a focar-nos nas coisas negativas.

O Meik Wiking afirma que Portugal tem os pais mais felizes do mundo. Como é que chegou a essa conclusão?

Ter filhos é ótimo para a dimensão da felicidade que está relacionada com o nosso propósito de vida. Quando as pessoas têm filhos sentem que estes dão propósito, direção e significado à vida. Mas quando se analisam os níveis de satisfação de forma imparcial, vemos diferentes resultados dependendo dos pais. Nos Estados Unidos 12% dos pais são menos felizes do que aqueles que não têm filhos. No Reino Unido são 8% menos felizes. Do outro lado do espectro temos Portugal. Aqui, os pais são mais felizes do que as pessoas que não têm filhos. Uma das explicações centra-se no facto de os progenitores serem melhores a incorporar a geração dos avós no crescimento dos filhos. Todas as crianças merecem avós portugueses e políticas escandinavas favoráveis à família. [Risos]

Comparativamente com a Dinamarca, Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer quando o assunto é felicidade. Que aspetos é que podemos melhorar de forma a subirmos no ranking dos países mais felizes do mundo?

Portugal é um país curioso porque ocupa a 89ª posição no Relatório Mundial da Felicidade. Há lugar para melhorias e acho que a questão da empregabilidade é um importante fator em Portugal. Mas acho que todos os países, incluindo a Dinamarca, podem ter um melhor desempenho nos seis fatores analisados no livro: convívio, dinheiro, saúde, liberdade, confiança e bondade.

O ser humano move-se em torno de um objetivo comum: ser feliz. Por que razão é que muitas pessoas acham que a fama e a fortuna são imprescindíveis para atingir a felicidade?

Nós procuramos a felicidade porque é bom [Risos]. Uma das razões pelas quais buscamos fortuna é porque entendemos que o dinheiro é importante para a felicidade. É verdade que para fugir à pobreza e à miséria é necessário dinheiro e muitos de nós pensamos que essa dependência se mantém ao longo da nossa vida. Nós não entendemos algo a que os economistas chamam de Lei da Utilidade Marginal Decrescente: quanto mais temos de uma coisa menos prazer retiramos dela. Quando comemos uma fatia de bolo sabe-nos bem, mas à quinta fatia isso já não acontece. E o mesmo se passa com o dinheiro. O facto de ganhamos mais ao final do mês não vai impactar a nossa satisfação com a vida, o nosso propósito ou as emoções que sentimos diariamente. Outra razão prende-se com o facto de o dinheiro ser fácil de comparar, deixando que isso pese demasiado na nossa vida. O terceiro fator pelo qual buscamos dinheiro mais do que devemos tem que ver com o facto de sermos seres sociais: estamos sempre a fazer comparações e queremos sempre o que os outros têm e mais.

Outro dos temas abordados no livro prende-se com o uso excessivo das redes sociais e na forma como os dispositivos eletrónicos afetam a felicidade, a satisfação com a vida e as relações sociais. De que forma é que podemos contornar este problema?

Diariamente somos confrontados com imagens editadas de vidas perfeitas. Mas a verdade é que as imagens que postamos no Instagram são highlights da nossa vida e não a nossa vida real. Talvez seja necessária mais transparência e abertura quando se fala em redes sociais pois ninguém tem uma vida perfeita e isenta de problemas. Temos de aprender a usar esta nova tecnologia de forma mais benéfica. É difícil porque estamos a falar de gratificação instantânea e a vida, de certa forma, é uma luta constante entre objetivos a longo prazo e gratificação instantânea. Gostava muito que as escolas, as famílias e as comunidades tentassem encontrar soluções para afastar as pessoas dos telefones. Há um colégio interno dinamarquês que tira os aparelhos aos estudantes que só os podem utilizar durante uma hora por dia. Ao fim de seis meses, os alunos votaram se o colégio deveria implementar este método ou se os telefones deveriam ser devolvidos. A conclusão foi que 80% optou pela permanência deste sistema porque criaram uma comunidade com as pessoas que estavam à sua volta. E acho que este caso é uma ótima inspiração para as famílias e as comunidades se juntarem durante algumas horas. Acho que este é o caminho a seguir.

Um dos estudos apresentados refere que as pessoas que trabalham por conta própria são mais felizes do que aquelas que trabalham por conta de outrem. Que conselho daria a quem não se sente realizado profissionalmente mas tem medo de arriscar?

Acho que é uma decisão difícil de tomar. Não sei se tenho um conselho para dar mas posso usar a minha história como exemplo. Durante sete anos trabalhei como diretor de um think tank direcionado para a economia sustentável. Ganhava bem mas não era apaixonado por aquilo que fazia. E para além disso senti que a minha aprendizagem tinha estagnado. Em 2012 comecei a ver o que estava a acontecer com os estudos globais sobre a felicidade, diferentes governos começaram a medir a qualidade de vida e percebi que queria trabalhar nessa área. Queria perceber como podíamos medi-la, porque é que havia pessoas mais felizes que outras e por que razão a Dinamarca se destacava no Relatório Mundial da Felicidade. Achei que alguém deveria criar um think tank sobre a felicidade e foi aí que pensei: “Eu deveria fazer isso.” Foi um risco muito grande porque não sabia se podia viver disso. Isto foi depois da recessão económica e na altura em que um amigo meu morreu com cancro, aos 49 anos. No momento eu tinha 34 e apercebi-me de que faltavam 15 anos até completar 49. Foi aí que pensei “O que é que eu vou fazer durante este tempo que me resta? Vou ficar neste emprego que não me preenche ou vou criar o think tank que, apesar de ser uma ideia louca, pode ser muito divertido”? No meu caso, a coragem para mudar a minha vida partiu da ideia de que o tempo é limitado e que temos de saber aproveitá-lo da melhor forma. Se as pessoas souberem de outro caminho, que as fará mais felizes, é uma boa direção.

No livro ressalva a importância do convívio e das relações pessoais, afirmando que “quantas mais pessoas tivermos com quem possamos falar de assuntos particulares, mais felizes seremos.” A felicidade humana é determinada pela existência de um parceiro ou pelo casamento?

Se formos dividir as pessoas que estão casadas/numa relação e as pessoas que são solteiras concluímos que as pessoas que são casadas são, em média, mais felizes. Mas isso nem sempre quer dizer que o casamento nos proporcione mais felicidade. Claro que há sempre uma causa e efeito mas quando observamos as pessoas vemos o seguinte: as pessoas mais felizes, otimistas e positivas têm mais facilidade em atrair um parceiro mas também é possível aumentar a felicidade através do casamento. Em muitos países, isto afeta mais os homens do que as mulheres porque os homens buscam o companheirismo e a partilha no casamento enquanto as mulheres conseguem isso sem um homem ao seu lado. E no caso do casamento vemos que as pessoas que sentem que o seu parceiro é o seu melhor amigo são ainda mais felizes. Mas será que podemos ser felizes sem o casamento? Claro que sim, mas acho que todos precisamos de ter alguém que nos apoie, que nos compreenda e que nos oiça. E por vezes isso vem na forma de um marido ou de outra coisa.

Aceitar que todos temos bons e maus dias é fundamental para sermos pessoas mais felizes?

Sim e isso é uma coisa que eu e os meus colegas salientamos nas nossas apresentações porque as pessoas acham que nós, pesquisadores da felicidade, estamos sempre felizes. E isso nem sempre é assim. Nós também temos preocupações, ficamos frustrados, stressados, cansados, furiosos, tristes e isso faz parte da vida. Acho que é importante que as pessoas reconheçam isso e que percebam que não existe um nível constante elevado de felicidade.

O que mais o surpreendeu durante o processo de pesquisa para escrever “O Livro do Lykke”?

Ao longo destes cinco anos uma das maiores surpresas foi o elemento genético. Nos Estados Unidos gémeos idênticos foram adotados por dois casais e a partir desses estudos conseguimos ver que os gémeos idênticos, com materiais genéticos idênticos, tem níveis de felicidade muito parecidos. Existe uma dimensão genética semelhante quando olhamos para o campo da saúde mental, como é o caso da depressão, esquizofrenia e ansiedade. Outra coisa que me surpreendeu foi ter consciência de que acima de tudo somos humanos e conseguimos ver nos dados que a mesma coisa que leva à felicidade em Lisboa é igual em Calcutá e em Tóquio. E chegar a essa conclusão é algo maravilhoso especialmente nesta altura.

A felicidade total existe ou é um mito?

Talvez exista num momento específico mas é algo bastante difícil de manter por um longo período de tempo. Na Dinamarca temos uma expressão que diz o seguinte: “Não devemos deixar que a perfeição seja inimiga das coisas boas”. E acho que isso é uma boa filosofia de vida. Vão existir sempre coisas melhores mas não devemos deixar que nada roube o nosso prazer momentâneo. É uma estratégia que devemos adotar em vez de almejar algo impossível.

O que pretende que as pessoas retirem deste livro?

Gostava que as pessoas percebessem o que leva à felicidade. Este livro explica que a Dinamarca não tem o monopólio da felicidade e que podemos encontrá-la em outras partes do mundo. É um menu com dicas e ideias que as pessoas podem implementar na sua vida. Se o leitor implementar uma dessas dicas na sua vida já ficava feliz.

 

Avô “cuidador” de bebés no Children’s Healthcare of Atlanta

Novembro 1, 2017 às 6:00 am | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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26 de julho Dia dos Avós no Museu Nacional dos Coches

Julho 24, 2017 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do Facebook do Museu Nacional dos Coches

No próximo dia 26 de julho celebra-se o Dia dos Avós, um dia dedicado a estas figuras tão importantes na vida dos filhos e dos netos. É no encontro de gerações que as crianças desenvolvem memórias, capacidades e partilha de saberes que ficarão consigo para toda a vida.

Neste sentido, e agradecendo a sugestão à
#Associação Portuguesa de #Famílias Numerosas (APFN), gostávamos de vos convidar a celebrar este dia em família com um programa específico para avós e netos na visita ao Museu dos Coches, um programa de visitas guiadas à nossa coleção.
Assim, no dia 26 de julho de 2017 (quarta-feira) “Dia dos Avós”, faremos duas visitas guiadas, uma da parte da manhã (10h30) e outra da parte da tarde (14h30).
O número máximo de visitantes por visita guiada será 20 por inscrição através do mail            servicoeducativo@mncoches.
dgpc.pt   até ao dia 25/07/2017.

As visitas guiadas serão gratuitas e as crianças até aos 12 anos têm acesso gratuito ao Museu , porém, um visitante adulto terá que pagar o preço do bilhete no valor de 8,00 euros, sendo que um visitante sénior tem 50 % de desconto no bilhete e o preço ficará nos 4,00 €.
“Porque são estas memórias que nos moldam: o tempo que passámos com aqueles que nos amam.”

 

Simona Ciraolo: “Qualquer tema pode ser bom para um livro infantil”

Março 9, 2017 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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texto publicado no http://observador.pt/ no dia 20 de fevereiro de 2017.

simona-ciraolo

Ana Dias Ferreira

Ao terceiro livro, Simona Ciraolo escolhe olhar para “O Rosto da Avó” e escrever sobre envelhecimento, mesmo para crianças. Conversa com a autora que pinta magistralmente as relações familiares.

Cada ruga tem uma memória e é uma linha na história desta mulher. Uma ruga remete para a noite em que conheceu o marido, na montanha-russa, outra para o melhor piquenique que fez à beira-mar, com as amigas, outra ainda para uma manhã de primavera em que fez uma grande descoberta e viu uma gata a dar à luz. O mais recente livro da italiana Simona Ciraolo faz zoom no rosto de uma avó para contar uma história ternurenta sobre o envelhecimento. Depois de Quero um Abraço (2015) e O Que Aconteceu à Minha Irmã? (2016), O Rosto da Avó é o terceiro livro da também ilustradora publicado em Portugal. Pretexto para uma entrevista por e-mail entre Londres, Lisboa e Nova Iorque onde se tenta perceber como nasce a motivação para escrever livros para crianças.

Na dedicatória do seu primeiro livro Quero um Abraço escreveu: “Para a Pam e para o Martin, que me fizeram deitar mãos à obra”. Quem são eles e de que forma influenciaram o seu trabalho?

A Pam e o Martin são os maravilhosos professores que tiveram de testemunhar as minha lutas durante o mestrado [em ilustração de literatura infantil]. Sempre que tive crises de confiança eles souberam fazer-me sair da minha própria cabeça e ver as coisas sob outra perspetiva. Souberam sempre quando eu precisava de um bom pontapé no rabo, metaforicamente falando! Sem essa energia e sentido de humor tenho a certeza que teria perdido uma quantidade ridícula de tempo com pensamentos que não interessavam nada.

Li que se mudou para Londres depois da licenciatura em cinema de animação e que trabalhou em filmes e publicidade antes de estudar ilustração em Cambridge. Como é que começou a escrever livros para crianças?

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Adorei esses primeiros anos em animação, é uma indústria maravilhosa para se trabalhar por causa das pessoas que se conhecem. Por outro lado, os livros ilustrados são o amor da minha vida. Já os colecionava nessa altura e olhava para eles como a arte narrativa mais perfeita de todas. Nunca tinha sentido a necessidade absoluta de contar uma história usando a animação, ao passo que o formato de livro ilustrado fazia todo o sentido para as histórias que tinha na cabeça, e de forma muito natural. Daí ter decidido embarcar nessa aventura.

primeiro

Como é que se lembrou de ter um cato como protagonista do seu primeiro livro?

Quero um Abraço é a história de alguém muito sensível e com um grande coração que é profundamente mal interpretado e visto como defensivo. Enquanto estava a pensar nestas caraterísticas, a ideia de um cato surgiu-me e instantaneamente soube que ele ia ser perfeito para a história que eu queria contar.

Mesmo com uma planta, Quero um Abraço é uma história sobre família e amizade. Tendo em conta os seus dois outros livros publicados em Portugal, O Que Aconteceu à Minha Irmã? e O Rosto da Avó, podemos dizer que escreve sobretudo sobre relações humanas e familiares?

Sim, até agora os meus livros têm mostrado sobretudo os temas comuns às relações e às dinâmicas familiares. Gosto muito de observar a forma como as pessoas interagem umas com as outras, especialmente dentro das fronteiras de uma casa particular, onde todas as suas idiossincrasias são sublinhadas. Suponho que este interesse influencia inevitavelmente as minhas histórias.

uma

Primeiro um livro sobre uma irmã mais velha, depois outro sobre uma avó inspiradora. Estas histórias são autobiográficas? Qual foi a ideia por trás de cada uma delas?

Os meus livros não são autobiográficos, mas escrevo sempre sobre sentimentos e emoções com os quais me consigo relacionar, direta ou indiretamente. Gosto de imaginar uma personagem numa situação específica e como é que isso a faria sentir. O que quer que a motiva parece-me tão real, tão tangível, que acabo por gostar das personagens como se fossem entes queridos.

segundo

Normalmente como é que identifica um bom tema? É a história que surge primeiro ou o universo visual?

Uma ideia que vale a pena perseguir é uma que me envolva de forma profunda. Normalmente tenho um “pressentimento” em relação à história que quero contar e, apesar de todo o trabalho envolvido entre o primeiro rascunho e a obra acabada, consigo sempre reconhecer esse primeiro “pressentimento” no livro final. A narrativa vem sempre primeiro, enquanto a imagética nasce em resposta aos requisitos da história.

Como é que gostava que as pessoas lessem os seus livros?

Espero que os leitores os achem honestos e que as personagens pareçam humanas, credíveis. Para além disso, espero que cada leitor encontre a sua própria forma de se relacionar com estas histórias e as experiências que são narradas. Acho que os meus livros podem ser lidos de formas muito diferentes, consoante se seja criança ou adulto, mas há pessoas da mesma faixa etária que parecem dar ênfase a aspetos diferentes de uma história e já recebi interpretações bastante pessoais do mesmo livro. Adoro ver como as minhas histórias são filtradas através das experiências de outra pessoa.

muitos

Envelhecer, ou a passagem do tempo, não são assuntos fáceis. Teve sempre confiança que dariam um bom livro para crianças?

Lembro-me de ter noção da passagem do tempo quando ainda era bastante pequena. Muitas vezes pensava nisso com impaciência, mas por vezes invadia-me uma sensação de perda eminente. À partida (espero), a maioria das crianças não tem tanta noção disto como eu tinha e se calhar, para algumas delas, O Rosto da Avó vai ser a primeira oportunidade de pensar neste conceito e irão reconhecer uma abordagem positiva do assunto. Talvez alguns miúdos não estejam preparados e regressem ao livro mais tarde. Acredito que qualquer tema pode ser bom para um livro infantil, mas a criança tem de encontrá-lo no tempo certo para ela.

recente

Falando da ilustração, como é que descreve o seu universo e a sua técnica?

Acredito que as ilustrações de um livro têm de servir a narrativa: afinal de contas, uma boa parte da história é contada através dos desenhos. Quando estou à procura da melhor abordagem a adotar para um livro em particular, procuro indicações no tom do texto mas também nas coisas que o texto não diz mas que estão implícitas — essas coisas têm de passar através das ilustrações. Por outro lado, se o texto nos está a dizer como é que uma personagem se está a sentir, posso querer usar as cores no desenho para dizer aos leitores que vai ficar tudo bem, ou seja, para tranquilizá-lo. A cor é apenas um exemplo: todos os elementos num desenho transportam uma qualidade expressiva, por isso quando estou a desenhar uma página tento explorar a força das marcas do lápis, o espaço livre à volta de uma figura, até o branco no papel, para me ajudar a atingir não só um efeito estético agradável mas também transmitir a atmosfera emocional certa.

memorias

No novo livro, por exemplo, é muito bonita a maneira como faz zoom na cara da avó ou como transforma as suas memórias em desenhos tão coloridos e cheios que quase saem das páginas.

Para este livro funcionar eu tinha de criar duas dimensões temporais separadas e precisava que esta distinção fosse inequívoca. O espaço em que a menina está com a avó tinha de parecer íntimo, enquanto eu pretendia que o reino das memórias se destacasse pela sua riqueza, por estar cheio de vida e carregado com estas emoções todas. Encontrei esta solução muito cedo na história e apesar de não ter a certeza se seria capaz de desenhar o rosto da avó com a graciosidade que tinha em mente, sabia que era um desafio a ultrapassar para poder criar um livro que celebra verdadeiramente a idade e a experiência.

 

 

 

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