Entrevista. “As crianças precisam de ficar de cabeça para baixo e andar à roda para terem equilíbrio”

Março 30, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Angela J. Hanscom ao Observador de 16 de março de 2019.

Ana Kotowicz

Terapeuta ocupacional, autora do livro “Descalços e Felizes”, Angela J. Hanscom explica que nenhuma criança terá um desenvolvimento saudável se não puder andar à roda ou rebolar na relva livremente.

Acontece todos os dias em qualquer parque infantil: as crianças correm para os pequenos carrosséis de ferro e giram, giram, giram, sem parar. Cá fora, os adultos contorcem-se com o estômago às voltas e começam os avisos. “Pára de girar, vais ficar maldisposta, vais acabar a vomitar.” Só que não: as crianças nunca vomitam, nem nunca ficam agoniadas.

O que a maioria dos pais não sabe é que girar é fundamental para os miúdos crescerem saudáveis. Palavra da terapeuta ocupacional Angela J. Hanscom, em entrevista ao Observador. Isso e rebolar na relva, ficar de cabeça para baixo e mexer-se em todos os sentidos sem restrições, por muito que isso deixe os adultos maldispostos. Quando o fazem, o líquido do ouvido interno está a andar de um lado para o outro, como é suposto, e só assim a criança vai ganhar sentido de equilíbrio — desenvolvendo o chamado sistema vestibular, explica a norte-americana.

Se este não estiver saudável, os miúdos vão cair mais, tropeçar com frequência, ter muito mais acidentes, e terão grandes dificuldades em concentrar-se na sala de aulas. “Uma criança irrequieta é sinal de que tem falta de movimento livre”, argumenta a fundadora do TimberNook, uma espécie de campo de férias onde “não são as crianças que aprendem o que podem fazer pelo ambiente, é antes o ambiente que ajuda as crianças a desenvolverem-se”.

No TimberNook, que começou nos EUA e que já tem campos em diversos países, a brincadeira na natureza é vista como uma forma de “medicina preventiva”, ficando as crianças mais capazes de serem bem sucedidas (na escola e na vida) se passarem tempo suficiente ao ar livre, brincando sem restrições e correndo riscos aceitáveis.

Riscos que nem todos os pais estão disponíveis para correr. E é por isso mesmo que Angela J. Hanscom diz que “o medo dos adultos é o maior entrave para que as crianças passem todo o tempo que precisam a brincar ao ar livre”. Nos Estados Unidos, por exemplo, os pequenos carrosséis começaram a desaparecer dos parques infantis por serem considerados pouco seguros. “É importante encararmos cada um desses medos e encontrar uma forma de lhes dar a volta. Se as crianças tiverem mais oportunidade de brincar ao ar livre, acredito que muitos dos problemas a que estamos a assistir irão dissipar-se.”

Os problemas de que fala Angela J. Hanscom estão descritos no seu livro “Descalços e Felizes” (ed. Livros Horizonte), uma espécie de guia que nos explica porquê e para que é que devemos levar os miúdos para a rua. Nos Estados Unidos, as crianças passam, em média, 9 horas sentadas por dia, estão mais fracas do que nas gerações anteriores, têm maior dificuldade em controlar as emoções e passam a vida a ter pequenos acidentes porque não têm sentido de equilíbrio e não reconhecem a própria força. Tudo, acredita a terapeuta ocupacional, porque têm falta de movimento. “Eles precisam de horas a escavar a terra, a rebolar por ribanceiras abaixo, a construir fortes com os amigos e a brincar na lama, de forma a integrar todos os sentidos e a desenvolver mentes e corpos mais fortes.”

A falta de movimento livre e sem restrições tem mais um senão: porque o sistema vestibular alimenta o límbico, responsável pelas nossas emoções, uma criança que tenha falta de movimento vai chorar por tudo e por nada e vai frustar-se com muita facilidade. “Os pais têm de deixar os filhos estar de cabeça para baixo, girar, rebolar e rodopiar com frequência”, defende a terapeuta. Até porque, “para andarem seguras na rua, é preciso que as crianças tenham liberdade total, com frequência, para se mexerem sem restrições.”

No livro, fala várias vezes sobre sistema vestibular e nem todos os pais saberão o que é. Como é que se explica aos adultos que é importante deixar as crianças estar de cabeça para baixo, para pôr este sistema a funcionar?
O problema é que estamos a restringir as crianças mais do que nunca. Aqui na América, os estudos mostram-nos que, por dia, os miúdos passam, em média, 9 horas sentados. Para organizar os sentidos, as crianças precisam de mexer o corpo de formas tão variadas que farão engasgar qualquer adulto — ficar de cabeça para baixo, andar à roda, dar cambalhotas, etc. E têm de fazê-lo com frequência para desenvolver a consciência corporal, para melhorar o foco e a atenção e para serem capazes de regular as suas emoções de forma conveniente. Também precisam de um certo tipo de “trabalho pesado” que só se consegue na natureza — cavar, subir às árvores e carregar pedras pesadas. Isto ajuda as crianças a desenvolverem os sentidos nas articulações e nos músculos, o que vai fazer com que sejam capazes de regular a força que têm em diversas situações, seja ao usar um lápis para escrever ou, por exemplo, quando estão a brincar com outras crianças.

Quais são os riscos de não desenvolver um bom sentido de equilíbrio? No livro levanta muito esta questão e de como as crianças de agora estão mais fracas e menos coordenadas do que as das gerações anteriores.
Quando uma criança não tem sentido de equilíbrio, tem dificuldade em saber onde é que o seu corpo se encontra no espaço. Isto faz com que haja maior probabilidade de se magoar e de ter acidentes. Para um miúdo poder navegar em segurança em diferentes ambientes, para as crianças andarem seguras na rua, é preciso que tenham liberdade total, com frequência, para se mexerem sem restrições. Para além disso, muito movimento ajuda-os a ter mais atenção na sala de aula. Esta é uma das razões por que os miúdos ficam irrequietos: estão a balançar-se para a frente e para trás para ligarem o cérebro. O que estão a fazer é a tentar ligar o sistema ativador reticular [a formação reticular é uma parte do tronco cerebral que distingue os estímulos relevantes dos irrelevantes e a sua principal função é ativar o córtex cerebral].

Ou seja, os miúdos de hoje estão a passar demasiado tempo sentados?
Sem dúvida. Passam demasiado tempo numa posição vertical. E eles precisam de se mexer em diferentes direções para que o fluido do ouvido interno ande para a frente e para trás, só assim conseguem desenvolver um forte sentido de equilíbrio (o sistema vestibular). Este sentido é a chave de todos os outros sentidos. Se estiver enfraquecido, pode afetar a integração de todos os outros sentidos.

Para além dos problemas físicos, a falta de movimento leva-nos a ver com maior frequência crianças que choram facilmente e que ficam frustradas por tudo e por nada?
Claro. O sistema vestibular também alimenta o sistema límbico [responsável pelas emoções e comportamentos sociais]. Os professores deparam-se cada vez mais com crianças que têm problemas de autoregulação, os miúdos choram sem se saber bem porquê e ficam frustrados muito, muito facilmente. Repito: eles precisam de muito movimento, que é a base de uma regulação emocional saudável.

A verdade é que, enquanto mães e pais, se tivermos um filho a balançar-se à mesa do jantar, o mais provável é pedirmos que pare com isso. E, nas salas de aulas, os professores também não lidam bem com miúdos irrequietos. O que devíamos, então, fazer?
Se as crianças estão irrequietas é um ótimo indicador de que precisam de se mexer mais. O que devíamos fazer, e isto é muito importante, é dar-lhes mais oportunidades para brincarem em grande escala ao ar livre. É nesses momentos que eles conseguem, de facto, mexer-se livremente e com frequência.

Devíamos repensar o tipo de modelo de escola que temos, os tempos de recreio, as horas que as crianças passam sentadas?
Sim, devíamos repensar tudo isso. É fundamental, como já disse, dar-lhes mais oportunidades de brincadeiras ao ar livre porque é nesses momentos que os sentidos estão todos ligados, a trabalhar juntos, e é aí que as crianças aprendem através de experiências práticas, porque estão a pôr as mãos nas coisas, a desafiar a mente, o corpo e os sentidos. Os miúdos não foram feitos para estarem sentados horas a fio, ou para apenas fazerem tarefas com papel e lápis — essas desafiam-nos muito pouco e têm até pouco sentido para os miúdos. Eles precisam de experiências de aprendizagem maiores, melhores e mais ricas.

Já percebemos que ver crianças irrequietas, que tropeçam muito e que não param de se mexer são sinais de alerta. O que podemos fazer?
Volto a repetir: precisam de oportunidades para se mexer. E é isso que os pais têm de fazer: dar-lhes oportunidade de estarem de cabeça para baixo, de andar à roda, de girar, de rebolar, de rodopiar…

De que é que uma criança precisa para desenvolver uma mente sã em corpo são?
Precisa de muito tempo e espaço para brincar com outras crianças ao ar livre, em atividades que as desafiem e as inspirem. Também precisam de adultos bem-intencionados, capazes de dar um passo atrás e capacitar as crianças para desenvolverem os seus próprios planos, ideias e esquemas de brincadeira. Esta é a única maneira de as crianças conseguirem aprender a pensar e a brincar de forma mais avançada.

Então, o movimento é apenas uma peça do puzzle?
Claro, eles precisam de ar livre, boa nutrição, muitas horas de sono e adultos que os amem.

Mas porquê a brincadeira ao ar livre? Não podemos substituí-la pela prática de desporto, por exemplo?
A brincadeira ao ar livre é semelhante ao cross training [treino funcional que combina vários exercícios para trabalhar diferentes partes do corpo]. Desafia as crianças de uma forma que um exercício concebido por um adulto bem-intencionado nunca conseguirá desafiar. Por exemplo: de cada vez que uma criança se pendura numa árvore, usando diferentes membros do seu corpo, está a estimular diferentes músculos e a desenvolver uma musculatura mais arredondada. Por outro lado, brincar ao ar livre inspira a criatividade e a imaginação, algo que não acontece quando se está simplesmente a repetir exercícios físicos.

Uma das coisas que os miúdos adoram nos parques infantis é andar nos pequenos carrosséis de metal. Quando vemos isto, normalmente há sempre um pai a dizer: pára com isso, vais ficar enjoado. Mas andar à roda é extremamente importante, correto?
Sim, andar à roda ajuda as crianças a saber onde é que está o corpo delas no espaço. O movimento do carrossel é um pouco diferente. Cria uma força centrífuga no ouvido interno que ajuda a desenvolver a atenção sustentada e o “grounding”. É muito terapêutico para as crianças. [Atenção sustentada é, segundo a psicologia, um dos quatro tipos de atenção e caracteriza-se por sermos capazes de nos focar numa atividade contínua e repetitiva. O grounding não tem um termo equivalente em português, mas significa estar com os pés assentes na terra, em contacto com a realidade e com a própria existência.]

Também defende que as brincadeiras ao ar livre não podem passar só por idas a parques infantis. Têm de ser na natureza, de pés descalços na terra?
Brincar na natureza é o que enriquece a experiência sensorial das crianças. Por exemplo, o simples facto de estarem a ouvir o chilrear de um pássaro ajuda-as a saberem orientar o seu corpo de acordo com o sítio de onde vem aquele som — e isto é o básico dos básicos para se ter uma boa consciência corporal.

Ainda assim, e apesar das vantagens que aponta, alguns pais terão sempre algum receio e estarão preocupados com questões de segurança, evitando deixar os filhos andar livremente na natureza. Que conselho daria aos adultos?
O medo dos adultos é, de longe, a maior barreira para deixarmos as nossas crianças brincar todo o tempo que precisam ao ar livre e na natureza. Não devemos deixar os nossos medos interferirem numa coisa que é um direito humano básico e que é também uma necessidade dos miúdos. É importante encararmos cada um desses medos e encontrarmos uma forma de lhes dar a volta. Se as crianças tiverem mais oportunidade de brincar ao ar livre, acredito que muitos dos problemas a que estamos a assistir irão dissipar-se. Eles precisam de horas a escavar a terra, a rebolar por ribanceiras abaixo, a construir fortes com os amigos e a brincar na lama de forma a integrar todos os sentidos e a desenvolver mentes e corpos mais fortes.

Alguma hipótese de a TimberNook chegar a Portugal?
Adorava levar a TimberNook a todos os cantos do mundo.

 

 

Comunicar com os adolescentes

Janeiro 20, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Maria do Carmo Cordeiro Cruz publicado no Público de 6 de janeiro de 2019.

O desafio da adolescência não é só o da procura de uma identidade própria que não seja a imposta pelo mundo dos adultos. É, também, o da auto-regulação emocional. E este é, igualmente, o desafio dos pais.

Nunca, como hoje, foi a adolescência tão estudada e, no entanto, continua, possivelmente, a ser a fase mais desconhecida do desenvolvimento humano. A comunicação entre pais e filhos adolescentes permanece uma das principais questões levantadas no consultório do psicoterapeuta. Por uns e por outros:

Os miúdos estão sempre ligados à rede… já não falam connosco, não nos contam nada.

Os meus pais não me ouvem, não entendem, só criticam.

O conceito de adolescência existe apenas há cerca de cem anos e é próprio da sociedade moderna, que reconhece e define uma transição entre a infância e a idade adulta. Durante este tempo, o conhecimento científico produzido tem permitido perceber as alterações físicas, emocionais e comportamentais próprias desta fase, mas a realidade social dos jovens tem sofrido uma mudança drástica.

A concepção de família tem-se transformado imensamente nestes últimos cem anos. Quer por fora, quer por dentro. A família tradicional alargada deu lugar, sobretudo, à família nuclear anónima, sempre em movimento sujeita a um isolamento que se traduz em solidão. A convivência comunitária, familiar e, sobretudo, entre gerações, tem decrescido ao ponto de existir a queixa comum a pais e filhos adolescentes de que já é difícil comunicar. Já não se conversa. E quando não se conversa como é que se (re)conhece o outro? Sim, estamos em rede. Hoje, os jovens estão “sempre ligados” mas com que “rede” se não houver relação? E se não houver boa comunicação entre pais e adolescentes, como é que estes enfrentam os desafios naturais desta fase com segurança e auto-estima?

Não é fácil lidar com os adolescentes. A sua energia é, muitas vezes, paradoxal, ora letárgica, ora explosiva, e os sentimentos de grande vulnerabilidade e dependência coexistem com outros, bem diferentes, de arrogância e rebelião. Mal contida e desacompanhada, esta energia pode ser descarregada em comportamentos desadequados como o consumo de drogas, álcool, automutilação, bullying, isolamento, tudo isto frequentemente acompanhado por estados depressivos e ansiosos.

O desafio da adolescência não é só o da procura de uma identidade própria que não seja a imposta pelo mundo dos adultos. É, também, o da auto-regulação emocional. E este é, igualmente, o desafio dos pais.

Enquanto sociedade, exigimos muito porque lidamos mal com a mudança e com a transformação. Temos muitas expectativas em relação aos adolescentes, quer pessoais quer colectivas. Desejamos, mesmo que secretamente, que se “encaixem” sem grandes dramas. A sua angústia existencial desafia-nos, os seus comportamentos testam-nos, as suas queixas põem-nos em causa e sentimo-nos, muitas vezes, tão inexperientes e vulneráveis como eles. E sem soluções!

O melhor que podemos fazer pelos adolescentes é agir como adultos centrados, com limites e boa auto-estima e estarmos presentes para os escutar com os ouvidos e o coração. Só assim poderemos conter as suas angústias.

Na terapia com adolescentes é a relação que os ajuda criando um espaço seguro e protector onde podem expressar-se sem julgamentos. É importante falar a mesma linguagem, compreender os seus gostos, conhecer as novas apps que usam, os conteúdos que lhes interessam e os ideais que têm. O humor também ajuda.

Nem só a falar se comunica, por isso a técnica da Caixa de Areia ou Sandplay é uma excelente ferramenta clínica não-verbal e não invasiva à qual os adolescentes aderem com facilidade e que costumo utilizar no consultório.

Ao construir um cenário tridimensional numa caixa de areia e com recurso a um variado leque de miniaturas, os jovens representam simbolicamente a sua visão do mundo e de si próprios. A construção feita na areia constitui uma comunicação mais profunda do que qualquer tentativa forçada de verbalização. Estes cenários dão origem a associações e relatos espontâneos permitindo ao adolescente uma observação mais objectiva dos seus problemas, defesas, desejos e potencialidades. O psicoterapeuta ajuda a integrar a informação assim obtida. O processo promove uma maior tomada de consciência, auto-regulação emocional e a descoberta de novas soluções.

Psicóloga Clínica/Psicoterapeuta do CADIn

 

“É importante treinar a criança a ficar na tarefa, a colocar nela mais esforço e investimento”

Janeiro 1, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.educare.pt/ de 22 de dezembro de 2017.

Ana Salgado, psicóloga e especialista em Psicologia da Educação, em entrevista ao EDUCARE.PT, lembra aos pais que a educação se faz também pelo exemplo. E explica como as birras das crianças não as devem fazer perder “oportunidades de aprendizagem”.

Andreia Lobo

O medo da criança fazer uma birra não deve impedir os pais de a levar a um concerto. “O facto de a criança não conseguir autorregular o seu comportamento completamente não deve ser um motivo impeditivo de a tirar de casa. Porque assim se perdem oportunidades de estímulo e de autorregulação.” Diz Ana Salgado, psicóloga e especialista em Psicologia da Educação, numa diversificada entrevista ao EDUCARE.PT, dias depois de ter sido oradora numa palestra sobre autorregulação do comportamento e dificuldades de aprendizagem dirigida a uma vasta audiência de pais e mães.

Os primeiros anos de vida da criança são os mais difíceis e exigentes. Comportamento e desenvolvimento infantil são questões que preocupam quem tem a árdua tarefa de educar a criança. “Cabe aos adultos – pais, avós, educadores e professores – dar pistas sobre o que a criança pode ou não fazer. Ou seja, fazer uma regulação externa.” Com o passar dos anos, “espera-se que esta regulamentação externa passe a interna”. Mas trata-se de um processo, lembra Ana Salgado, “os marcos nem sempre estão bem definidos e muitas vezes temos adolescentes e adultos ainda a precisarem desta regulação externa”.

“A educação também se faz pelo exemplo”, insiste Ana Salgado. No pré-escolar, surgem as preocupações iniciais com a aquisição de competências. O que podem fazer os pais para criarem “bons alunos”? É assim tão importante pôr as crianças aos três anos a aprender Inglês? “Nos primeiros anos de vida, a criança não precisa mais do que relações positivas, adultos de referência e estímulos diversificados”, tranquiliza a psicóloga.

Mas atenção à superestimulação: “É muito fácil ver crianças com 3 anos que saltam do desenho para a plasticina para os “Legos”, para as bonecas, para o tablet, tudo em 30 minutos. É importante treinar a criança a ficar na tarefa, a colocar nela mais esforço e investimento.”

EDUCARE.PT (E): Como podemos ensinar a criança a controlar o seu comportamento? É pelo exemplo?
Ana Salgado (AS): As crianças quando nascem têm os seus níveis de consciência menos desenvolvidos. A consciência social do que é uma norma, uma regra ou uma expectativa varia com a cultura e o contexto onde crescem, mas vai sendo desenvolvida ao longo dos primeiros anos de vida. Significa que no início a criança terá mais dificuldade em controlar o seu comportamento. Cabe aos adultos – pais, avós, educadores e professores – dar pistas sobre o que a criança pode ou não fazer. Ou seja, fazer uma regulação externa.

À medida que o tempo passa, espera-se que esta regulamentação externa passe a interna. Pelo meio, surge a questão de regular pelo exemplo. Como faz o pai? Se no supermercado ajuda a senhora mais idosa a levar as compras, a criança terá esse exemplo de vida e provavelmente vai querer ajudar os outros. Se o pai não grita com a mãe, provavelmente a criança não vai gritar com a mãe, nem com os amigos. A educação também se faz pelo exemplo.

E: Que fatores comportamentais podem afetar as aprendizagens?
AS: Existem fatores de risco e fatores protetores. A investigação tem-nos mostrado que pais com habilitações superiores tendem a conseguir apoiar melhor os seus filhos na escola. Até dar outro tipo de oportunidades em termos de progressão académica. Mas há exceções. Alguns estudiosos também vão dizendo que, nos primeiros anos de vida, a criança não precisa mais do que relações positivas, adultos de referência e estímulos diversificados.

E: Não precisa de oportunidades de aprendizagem?
AS: Os estímulos diversificados já são as oportunidades de aprendizagem. Mas até aos três anos não importa tanto se a mãe da criança tem o 4.º ano de escolaridade ou o doutoramento. Importa sim que a mãe esteja disponível para cuidar, para ser a base segura de vinculação e para ser um adulto de referência que dê confiança, segurança à criança e a estimule.

E: Até aos três anos os pais não devem estar preocupados que as crianças aprendam os números, as letras ou até Inglês?
AS: Sabemos que, em termos de processamento cognitivo, as crianças são capazes de aprender idiomas. Muitas crianças até conseguem ser bilingues quando têm pais de diferentes nacionalidades. Mas ter crianças a falar um segundo idioma não deve ser, nestas idades, uma preocupação para os pais. Nos primeiros anos, a multiplicidade de experiências é o mais importante. Levar a criança a um concerto ou ouvir um CD em casa. Fazê-la contactar com as artes, a música, o teatro, a dança. Também levá-la ao parque da cidade, à quinta para perceber de onde vêm as maçãs ou colher um tomate.

Esta multiplicidade de experiências, às vezes até muito sensoriais, vai permitir às crianças explorar o que elas são, o mundo e por sua vez também a autorregular o seu comportamento. As crianças vão perceber que em determinados contextos podem sentar-se no chão ou pegar em montes de folhas secas e atirar ao irmão. E noutros contextos têm de fazer silêncio, porque estão num ritual.

E: Há experiências que são desaconselhadas. Não levar a criança a certos sítios para evitar as birras…
AS: Levar uma criança de 4 ou 5 anos um concerto de música clássica é muito exigente em termos de autorregulação. Mas os pais não devem impedir uma criança mais nova de ir ao concerto do irmão mais velho, porque há risco de ela fazer uma birra. O facto de a criança não conseguir autorregular o seu comportamento completamente não deve ser um motivo impeditivo de a tirar de casa. Porque assim se perdem oportunidades de estímulo e de autorregulação.

Não vamos exigir de uma criança de 3 anos o mesmo tipo de comportamento e regulação de um jovem de 15 anos. Os pais podem levar a criança ao concerto, mas vão os dois, para um deles poder sair com a criança em caso de necessidade. Os pais precisam de deixar as crianças testarem-se a si próprias e perceber quais são os limites. Uma queixa frequente dos pais é que as crianças não sabem lidar com a frustração e que perante qualquer obstáculo pensam que o mundo vai acabar. Se estivermos sempre a proteger as crianças, obviamente que estamos a cuidar delas, mas a fazê-lo dentro de uma gaiola.

E: É com experiências destas que a criança aprende?
AS: Se pensarmos no sentido lato de aprendizagem, estamos a aprender quase involuntariamente em qualquer segundo da nossa vida. Os pais vão no carro a ouvir música na rádio, a criança ouve e mesmo que a letra seja em inglês, muitas vezes aprende e consegue cantarolar. O que aconteceu? Uma aprendizagem involuntária. Houve um estímulo, captou a atenção da criança, o input foi processado pelo cérebro, a memória ativou-se e a letra ficou lá. O facto de a aprendizagem poder ser voluntária tem um potencial gigantesco e um risco muito grande, porque temos o reverso da medalha. Mas para a criança aprender não basta ter um ambiente enriquecedor, é preciso motivação.

E: A motivação é uma questão delicada…
AS: Há meninos e meninas em países muito desfavorecidos que não têm os estímulos, nem o ambiente enriquecedor que têm as nossas crianças, mas estão tão motivados para aprender que fazem quilómetros a pé para irem à escola. No oposto temos a nossa realidade, superestimulante, com todo o tipo de brinquedos de diferentes categorias e meninos e meninas sem motivação para aprender. Temos cada vez mais crianças com défices de atenção provavelmente ligados ao facto de serem superestimulados.

É muito fácil ver crianças com 3 anos que saltam do desenho para a plasticina para os “Legos”, para as bonecas, para o tablet tudo em 30 minutos. Depois, os pais pensam que a criança é muito ativa e curiosa. Até pode ser! Mas também é importante treinar a criança a ficar na tarefa, a colocar nela mais esforço e investimento.

E: Como é que os pais podem fazer isso?
AS: A criança começa um desenho e o pai ou a mãe podem observar e fazer perguntas como o que estás a desenhar? A criança responde uma flor. Os pais contrapõem: a quem vais dar essa flor? A criança responde a uma menina. Os pais dizem para a criança desenhar a menina. E continuam as perguntas: onde mora a menina? A criança diz que mora numa casa. Os pais pedem para a criança desenhar a casa. Assim por diante.

Ou seja, levar a criança a investir na tarefa. De modo que aquele desenho não demore apenas 5 minutos a ser feito, mas demore 30 minutos. Isto também é prepará-la para o contexto escolar. Porque na escola a professora vai pedir tarefas não de 5 minutos, mas de 30 minutos. E como a criança não está habituada a estar tanto tempo a fazer uma tarefa, não vai gostar. Até porque é mais estimulante saltar de tarefa em tarefa. Mas vai ter de fazer o que a professora pede. E depois, surge a desmotivação ou a hiperatividade.

E: Quer dizer que a criança reage mal à diminuição de estímulos a que está sujeita na escola?
AS: É um problema da nossa sociedade. Há um diferencial gigantesco entre o que as crianças têm em casa, em termos de estímulos e possibilidades, e o que existe na escola. Continuamos a ter uma escola com um quadro negro, uma professora que fala, uma turma que escreve e uma carteira onde a criança está sentada ao lado da colega. Temos uma escola que não é tão estimulante quanto estar em casa.

Em algumas situações, as crianças acabam por aprender mais em casa com o tablet e o computador do que na escola. Aprendem ao ritmo delas, aprendem o que querem e quando querem. Este é um grande desafio colocado às nossas escolas e aos professores. Como respeito o ritmo de aprendizagem da criança? Como a motivo? Como torno a minha aula mais dinâmica? Como diferencio os níveis de conhecimento dentro da sala de aula?

E: Mas há exemplos de boas práticas nas escolas em torno de todas essas questões.
AS: Temos escolas com projetos inovadores e professores que se implicam muito. Há uma escola que já percebeu que é preciso fazer um mobiliário diferente para possibilitar que os alunos estejam em pé enquanto fazem algumas tarefas. Algo que, em termos de motricidade motora, respeita mais as necessidades daquelas crianças. Há outra escola que está a apostar nos quadros interativos, porque se apercebeu do potencial enorme da tecnologia. Outra escola faz intervalos a horas diferentes, porque testou e percebeu que essa mudança era importante. Há escolas a trabalharem em <i>problem-based learning</i> ou com metodologias de projetos. Claro que existem bons exemplos! Só não estamos a ser capazes de congregar todas as boas práticas numa sala de aula.

 


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