“A escola não se pode dar ao luxo de ser permissiva, negligente, permitindo comportamentos desviantes e criminais”

Março 8, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto publicado no blog http://www.comregras.com/ no dia 15 de fevereiro de 2017.

Embora seja de extrema importância, urgente e bem-vinda a reestruturação curricular, de pouco irá valer se não se apostar em soluções efetivas para pôr cobro à indisciplina e violência escolar, se não for restabelecida a autoridade e a valorização da escola pública e dos seus profissionais. A escola evoluiu, a escolaridade foi alargada, multiplicaram-se os apoios, os benefícios, os pais ganharam, e muito bem, uma posição dentro do sistema educativo, mas ao mesmo tempo, a escola perdeu a sua identidade, diluíram-se e multiplicaram-se as suas funções e responsabilidades, ficou refém de interesses, de “politiquices”, proliferaram as exigências, as opiniões e filosofias individuais, transformando-se num espaço onde quase todos em geral, têm direitos, mas aparentemente desconhecem os seus deveres.

O respeito passou a ser algo do século passado, as regras básicas de educação e de convivialidade ficaram fora de moda, os professores viraram tarefeiros e animadores pagos para “aturar”, a sua autoridade está minada. Os números apresentados da indisciplina nas escolas, pelos últimos estudos, são assustadores, a insegurança faz parte do quotidiano, e o caos que se vive em algumas escolas ou em algumas salas de aula, está a levar, um número significativo de professores ao limite. Algumas soluções já foram apresentadas, outras aplicadas, mas não deixam de ser insuficientes. A redução do currículo às aprendizagens essências, a sua flexibilização e a elaboração de um novo perfil do aluno, é um excelente passo, desde que na prática se traduzam em tempos e espaços de aprendizagem onde o aluno possa construir o seu conhecimento, tenha tempo para brincar, para se envolver em projetos e atividades significativas e se identificar com a própria escola. As tutorias, embora compreenda a intenção, dado o perfil de alunos a quem se destinam, são um desperdício de dinheiro e a sua eficácia reduzida. São necessárias medidas adicionais e um olhar diferente para a escola, por parte de todos os intervenientes:

  • O Ministério da Educação precisa de valorizar os seus profissionais, apostando num modelo de colocação justo e equitativo, dando estabilidade às escolas;
  • Tem de encontrar um meio ou de descongelar carreiras ou de encontrar um modelo remuneratório proporcional às funções desempenhadas por todos os docentes;
  • É necessário repensar a burocracia, definir e clarificar as funções dos docentes, incluir outros profissionais, como psicólogos e assistentes sociais nas escolas, dotá-las de meios materiais e de mecanismos que assegurem uma educação de qualidade e salvaguarde a integridade física e moral de todos;
  • Os pais que são os primeiros responsáveis pela educação e pelo futuro dos seus filhos, devem parar e repensar o modo como o estão a fazer. Tendo consciência que o mundo fora dos muros da escola e do conforto das paredes de casa, é duro e difícil, até para os mais bem preparados e capazes, qual o preço e o lugar que os vossos filhos vão ocupar no mesmo, quando educados no facilitismo, na desvalorização e desrespeito pelo outro e pela autoridade, no protecionismo exacerbado e no princípio que o trabalho só deve ser feito se proporcionar alegria e de acordo com os humores e disposições diárias? A escola não precisa de braços de ferro, mas sim de pais exigentes, presentes e conscientes do papel que devem desempenhar dentro dela, não só exigindo professores de qualidade, como também, perante os problemas, ajudarem a construir soluções.

 

À escola cabe-lhe o papel fundamental de definir regras claras de conduta e de funcionamento. A sua aplicabilidade e o seu cumprimento não podem depender de diferenças individuais, de circunstâncias especiais, de interesses particulares, nem de pequenos poderes instalados. Embora a escola reflita o meio, com tudo o que traz de bom e de mau, seja um espaço de diversidade, tenha que conhecer e compreender os diversos contextos e não possa ser indiferente à negligência parental, ao sofrimento e à dor que muitos dos seus alunos transportam em si diariamente, não se pode dar ao luxo de ser permissiva, negligente, permitindo que comportamentos desviantes e criminais vindos do exterior, tenham continuidade e encontrem terreno fértil dentro do seu perímetro. A escola não se pode pautar pela arbitrariedade, onde um conjunto de alunos, aterroriza e ameaça todos à sua volta, que usa a mesma, apenas como o restaurante onde come, o jardim onde passeia, e o local de ocupação dos seus tempos livres. São um departamento à parte, com todos os direitos assegurados mas sem a obrigatoriedade de cumprir os deveres correspondentes. Transformam-se na autoridade dentro da escola e dentro da sala de aula. A impunidade em que vivem, leva a que andem na escola até aos 18 anos, sem nunca adquirirem, no mínimo, as competências básicas de convivência, além de criar nos restantes alunos, o sentimento de injustiça e a ideia que as regras nem sempre precisam de ser cumpridas. A escola deve, dentro das suas possibilidades, assegurar um futuro a estes alunos, não tendo como o fazer, a solução terá de passar pelo Ministério da Educação, uma vez que esta não é um centro correcional.

A escola precisa ainda de espaço para que os seus profissionais possam debater os seus problemas, partilhem experiências, preocupações, soluções e aprenderem uns com os outros. Os professores devem tentar pautar-se por um conjunto de regras uniformes, para evitar a relativização das mesmas, por parte dos seus alunos. Nós não trabalhamos numa instituição militar, é importante sermos assertivos com os nossos alunos, não esquecer que também já o fomos e saber relevar algumas especificidades da idade. Quer queiramos ou não, nós passamos muito tempo com os nossos alunos e servimos-lhes também de modelo e de referência, daí a importância dos consensos, de estarmos em sintonia. Aqueles docentes que, por falta de experiência, vivência, por feitio ou incapacidade, têm problemas em fazer valer a sua autoridade dentro da sala de aula, têm de procurar ajuda e formação para a aquisição desta competência. Não podem depender diariamente da atuação do diretor de turma, nem esperar, que um presidente/diretor que não está dentro da sala de aula, resolva todos os seus problemas.

Por último, a reputação, a credibilidade, a confiança numa escola também se mede pela atuação do órgão de gestão. Os pais querem deixar os filhos num local seguro e entregues a profissionais competentes. Os professores querem sentir que a sua integridade física e emocional está assegurada, que têm apoio, que as suas preocupações são ouvidas, que não são desautorizados e que fazem parte de um projeto educativo de qualidade. Para isso, as escolas não podem ter professores de primeira nem de segunda, é importante uma distribuição equitativa do serviço, rotatividade em cargos e projetos, valorizar o trabalho feito e acima de tudo demonstrar que existe uma liderança democrática, que se pauta pela firmeza, por regras claras, justas e aplicáveis ao encarregado de educação, ao professor, ao aluno e ao auxiliar de educação. Vivemos numa era tecnológica, esconder e varrer os problemas para debaixo do tapete, apenas aumenta as suspeitas sobre a escola, dá azo ao boato e à especulação, os problemas pequenos adquirem proporções que em nada se coadunam com a realidade. A imagem da escola ressente-se e danifica-se a reputação de excelentes profissionais. A qualidade de uma escola passa pela capacidade que tem de enfrentar os seus problemas e pela eficácia das suas soluções.

Cassilda Coimbra

 

 

10 Habilidades que todo docente debería potenciar en el aula

Agosto 29, 2014 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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texto do site http://justificaturespuesta.com/ de 15 de julho de 2014.

Este artículo está inspirado en un interesantísimo libro de Daniel Goleman titulado Liderazgo. El poder de la inteligencia emocional. En uno de los apartados de este libro Goleman se centra en la dicotomía entre un jefe bueno y un jefe malo. Aunque este libro se centra en el liderazgo empresarial, creo que las cualidades o habilidades que Goleman defiende para ser un buen jefe son perfectamente extrapolables a la labor docente. Mi intención en esta entrada es la de relacionar las habilidades que defiende Goleman para ser un buen jefe con las habilidades o cualidades que todo docente debería potenciar en el aula. Quiero hacer constar que he realizado algunas pequeñas modificaciones respecto a las cualidades que cita Goleman, pero no afectan al sentido último que Goleman pretende transmitir.

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  1. Escucha empática. Goleman no se refiere explícitamente al término escucha empática, sino a la expresión saber escuchar. En mi caso he preferido centrarme en el concepto de escucha empática porque la escucha empática consiste en escuchar a tus alumnos con y desde el corazón. Si quieres saber más sobre qué se entiende por la escucha empática te remito al siguiente enlace. Aún así, creo que Goleman insiste en saber diferenciar entre oír -pasividad- y escuchar -actuación e interés-. Como docente debes esforzarte por escuchar a tus alumnos, por acompañar a tus alumnos y, sobre todo, hacerles ver que lo que te están diciendo te importa, te importa de verdad, te importa de corazón.
  2. Estímulo. Siempre he defendido la idea de que un docente debe ser capaz de generar las mejores preguntas para obtener las mejores respuestas. Muchas veces se cree que el docente está en un aula para dar respuestas, para ofrecer únicamente soluciones. No siempre debe ser así. Un profesor que inspira es aquel que es capaz de hacer que sus propios alumnos aprendan por sí mismos. Ese es el verdadero estímulo que debes potenciar en el aula con tus alumnos.
  3. Comunicación. Para mí la comunicación debe ser un sinónimo de enseñanza. He insistido mucho en este blog en establecer una clara diferencia entre explicar y enseñar. La diferencia es significativa, porque mediante la explicación sólo transmites conocimientos de forma unidireccional, mientras que con la enseñanza lo que provocas es la utilidad de los aprendizajes, el autoaprendizaje, la interacción mediante el diálogo con tus alumnos.
  4. Valentía. Enseñar es de por sí un acto de valentía. Enseñar es de por sí un acto de determinación. En muchas ocasiones como docente confundes la intimidación en el aula con la valentía y no debería ser así. La valentía es una cualidad que debes potenciar en el aula porque es una clara apuesta por la coherencia y la honestidad en tu trabajo. Se es valiente cuando se sabe exactamente qué y cómo enseñar. Y la valentía lo que propicia es una mayor seguridad en ti mismo que luego se traslada a los conocimientos que transmites a tus alumnos. La falta de valentía, además de generar intimidación, también provoca miedo. Acerca del miedo te recomiendo la lectura del artículo titulado Docente, ¿a qué le tienes miedo?
  5. Humor. Soy un gran defensor del humor en el aula. Creo que el humor es una herramienta extraordinariamente eficaz para el aprendizaje porque cohesiona un grupo, genera pausas en la transmisión de contenidos, rebaja la tensión en un grupo y ayuda a crear un clima más favorable para el trabajo que se desarrolla en una sesión lectiva. El humor, la risa, la carcajada son cualidades que generan magníficos resultados a la hora de gestionar una crisis en el aula, ya que puedes recurrir a ellas y recuperarlas para gestionar un conflicto. Y no lo olvides que el humor enamora. Sobre cómo enamorar a tus alumnos te remito al siguiente enlace.
  6. Generosidad. Goleman habla de empatía. Yo me centraré más en la generosidad de tu labor como docente. La profesión de docente es la profesión capaz de generar otras profesiones. La docencia es una de las profesiones más generosas que existen porque das sin esperar nada a cambio. Si algo evitar debes evitar en esta profesión es el egocentrismo, porque el egocentrismo sólo te aleja de tus compañeros y de tus alumnos.
  7. Determinación. Goleman habla de decisión. Muchos docentes hablan de motivación en las aulas. Yo prefiero hablar de determinación. Es un término que creo que transmite mucho más, que transmite acción, que transmite decisión. En el artículo titulado True grit o sobre la determinación como clave para el éxito escolarexplico claramente lo que se entiende por el concepto determinación.
  8. Responsabilidad. Enseñar es por encima de todo un acto de responsabilidad. Y aunque la responsabilidad no está exenta de crítica, esta crítica a veces puede convertirse en algo tóxico, es decir, la autocrítica desaparece y sólo haces crítica de lo que te rodea, de tus compañeros, de tus alumnos, de tu centro, del sistema. Sin darte cuenta te convierte en un docente tóxico.
  9. Modestia. Si algo detesto en un docente es la arrogancia. Una arrogancia que a veces se da en algunos compañeros de profesión. Cuando llevas muchos años en la docencia es fácil perder la perspectiva de lo que sabes y de lo que eres capaz de aprender o, mejor dicho, de lo que tus alumnos son capaces de enseñarte. Hay que entrar todos los días en el aula con la mente abierta, hay que entrar con la suficiente modestia como para tener la predisposición a aprender de tus alumnos. La modestia no hace más que conectar emocionalmente con tus alumnos, porque te permite escucharles de forma activa, y cuando un docente es capaz de escuchar de forma activa a sus alumnos es cuando tiene toda la predisposición para aprender de ellos.
  10. Reparto de la autoridad. La autoridad está reñida con la desconfianza. Como docente debes hacer un esfuerzo por delegar o, mejor dicho, por enseñar a delegar tanto en tus compañeros como en tus alumnos. Una excelente manera de repartir la autoridad es mediante el aprendizaje cooperativo. Mediante el aprendizaje cooperativo enseñas a tus alumnos a aprender de ellos mismos y de sus compañeros. Cuando repartes autoridad estás realizando un ejercicio de confianza, estás tendiendo la mano para que tus alumnos tomen la iniciativa en algo. Esto no hará más que favorecer su propia autonomía y mejorará su autoconcepto y sin que tu autoridad en el aula se vea afectada.

Estas son las 10 cualidades o habilidades que como docente deberías tener presente cuando te dispones a entrar en un aula. Sin duda se trata de todo un reto para ti, pero tengo el convencimiento de que siendo consciente de dichas habilidades es como serás capaz de afrontarlas con la determinación que una profesión como la de docente exige. ¿Aceptas el reto? Yo ya he empezado…

 

 

Conferência “De casa à escola, percursos de desvio”

Fevereiro 21, 2012 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A conferência será ministrada pelo Professor Doutor Adelino de Jesus AntunesMestre em Sociologia do Crime e da Violência, Doutor em Sociologia e investigador da CESNOVA – no dia 15 de março (5ª feira) no Anfiteatro da Escola Superior de Educação de Torres Novas às 21 horas.

A entrada é livre, porém com inscrição obrigatória (espaço limitado a 140 lugares). Caso tenha interesse em estar presente nesta conferência, agradecíamos o envio de um e-mail para alexandra@esetn.pt com o assunto: “presença na conferência “De casa à escola, percursos de desvio”.

Esperamos poder contar com a sua presença.

Departamento de Comunicação/Formação

Escola Superior de Educação de Torres Novas

Telf. 249 824 892

 

A primeira função de um pai é ser mãe – Eduardo Sá

Março 28, 2011 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Eduardo Sá ao Destak no dia 16 de Março de 2011.

Nas histórias tradicionais o papel do pai é praticamente inexistente, porquê?

Porque o mundo sempre foi matriarcal. E os homens, repartidos pela necessidade de garantirem meios de subsistência e pelas suas omissões de pais, sempre se resignaram a um papel muito secundário na vida das crianças. Eram úteis para levar as bilhas do gás até ao terceiro andar. Eram recomendáveis para matar insectos repelentes. E para expulsar vendedores de enciclopédias intrometidos. Por isso, nas histórias, a ideia de um pai, atento ou brincalhão, não existia. Ou acha que, se existisse, a Carochinha ia para a janela fazer figuras tristes?

As mães também parecem ser sempre mulheres doentes ou que já morreram… deixando as madrastas em seu lugar.

As madrastas, depois das sogras, foram tendo um papel de extrema utilidade pública. E se fossem maldispostas melhor seria. Porque é à custa delas que a cotação das nossas mães é, invariavelmente, revista em alta. Mas as histórias falam, sobretudo, do lado abandónico dos pais, que foi aquilo que melhor os terá caracterizado, contra a vontade de todos, ao longo da História. Daí que entre falar de pais abandonantes, porque morriam precocemente ou porque iam abandonando, em vida, engolidos por todos os compromissos que não sabiam gerir, ou falar de ‘maus da fita’, as histórias sempre apostaram na coluna do segundo. Protegia, por um lado, a consciência da dor. E sempre funcionava como uma espécie de desculpa quando se tratava de arranjar um ‘mata-borrão’ para todos os males.

O pai, por exemplo na Branca de Neve ou na Cinderela, adora a filha, mas é enganado pela nova mulher, que consegue sempre dar-lhe a volta. Os homens são assim tão manipuláveis?

Os homens são, regra geral, excelentes pessoas. Mas levam a vida toda a fazer de filhos mais velhos das mulheres e, como os slogans na política, depois de se repetir, muitas vezes, que mal se ajeitam a estrelar um ovo, quando se trata de mudar uma fralda é o que se sabe. O mundo sempre jogou à italiana: as mulheres foram dando o meio campo ao pai e, regra geral, iam ganhando os campeonatos em contra-ataque. Para cúmulo, os homens foram ensinados a não chorar e a supor que aguentar os sentimentos seria um sinal de virilidade. Por isso mesmo hoje, quando se trata de dizerem ‘Amo-te Teresa!’, a Teresa nunca entende. Sofrem de iliteracia emocional. Sentem mas fintam as palavras. E o resultado é que, embora tenham coração e lágrimas, são… uns meninos.

E porque é que a história de amor é sempre entre o pai e a filha?

Porque, muitas vezes, há uma filha, na vida do pai, que parece ser a única mulher com quem ele se consegue entender. Ao contrário do filho, a quem o pai exige que seja um up grade de si próprio, sem grande margem para errar. E porque, feitas as contas, nas histórias – à excepção de O Rei Leão – o pai faz de compére. Nunca de primeira figura.

A vida real parece, até agora, aproximar-se muito das histórias tradicionais. Será que já estamos a mudar?

A diminuição da mortalidade perinatal, os contraceptivos (e a consequente diminuição da taxa de natalidade), a escolarização e o trabalho da mulher, trouxeram, no século XX, diferenças profundas à família. E, sobretudo, ao papel do pai. Que hoje é mais paritário do que alguma vez foi, em toda a História. Mudámos mais nos últimos 40 anos do que em todos os tempos até aqui. E, acredite, mais pai é melhor família.

Costuma dizer que todos os pais devem ser mães, o que é que quer dizer com isso?

É verdade que costumo dizer que a primeira função de uma pessoa é ser mãe. No sentido de ouvir com o coração e de traduzir em gestos de ternura aquilo que se sente. Um homem que não sabe ser mãe não é um homem: é um medricas. E isso jamais é aquilo que se deve esperar de um pai.

É importante para a futura relação da criança com o pai que ele esteja nas consultas durante a gravidez, veja as ecografias, assista ao parto?

Não, não é importante. É absolutamente indispensável. Porque também precisa de estar grávido e de se comover com a gravidez. E não é só por causa do bebé. Mas por tudo aquilo que compartilhar uma gravidez traz de amor ao pai e à mãe.

Há pouco tempo em Portugal, o obstetra Michel Odent disse que o pai não deve estar na sala de partos, porque perturba a imagem que tem da mulher, porque a sala de partos é um espaço de mulheres. Concorda?

Não. De todo. Michel Odent será um belíssimo tecnocrata da obstetrícia. Mas não é, seguramente, um bom clínico e um homem sensato.

Acha que os bebés muito pequeninos são sobretudo território das mães?

Acho que os filhos são um território fantástico para o contraditório dos pais. Para tudo aquilo que lhes traz sensatez, pluralidade e clarividência aos gestos. Os filhos serão mais filhos com melhores pais. E todos aprendemos a ser pais uns com os outros.

Porque é que há homens que sentem a chegada de um filho como um intruso e têm ciúmes – ou é história?

Porque muitos homens sentem na mulher a mãe que nunca tiveram. E rivalizam, pelo amuo, com um filho como se ele fosse uma espécie de irmão mais novo. Porque muitos homens se sentem traídos por uma gravidez para a qual se consideram empurrados com alguma má-fé. Porque muitos homens acham que um filho consegue ser muito do que o pai desistiu de ser, sem dar por isso. E isso acirra a raiva. Em relação a todos eles era importante que nunca nos esquecêssemos de que os mal-entendidos se resolvem guardando para ontem tudo aquilo que se pode dizer hoje.

Tradicionalmente o pai era aquele de quem se dizia «quando o teu pai chegar». O que é que acontece às famílias em que este é o modelo vigente?

A autoridade conquista-se pela bondade, pela sabedoria e pelo sentido de justiça. Por isso mesmo, as famílias em que o pai era a autoridade não seriam famílias. Mas um conluio de mal-entendidos em que o autoritarismo do pai ligava as pessoas pelo medo mas jamais pelos laços, pelos gestos, pelas convicções ou pelo sonho. Porque não há autoridade sem alteridade. A autoridade numa família não é do pai. É da mãe e do pai. E só assim é dos filhos e da família.

Hoje, muitos pais recusam o modelo de autoritarismo dos seus pais – correm o risco de não exercer autoridade e acabarem escravos de uns tiranos, que eles próprios criaram?

A autoridade é um exercício de bondade. Legitima-se com bons exemplos. O autoritarismo é um exercício discricionário. Consolida-se com maus exemplos, com intimidação e com boas intenções. Se hoje há pais que confundem autoridade e autoritarismo é porque ainda estarão presos às suas experiências infantis dolorosas onde os seus pais e os seus professores (por falta de legitimidade para exercerem, com sensatez e com firmeza, a autoridade) confundiram disciplina com lei, autoridade com autoritarismo.

Os pais ausentes – por vontade própria ou por imposição da mãe – dão origem a ‘filhos da mãe’? Com que consequências para a criança?

Trágicas. Porque alteridade e coerência de cuidados permitem partilhar gestos e responsabilidades, parentalidade e vida própria, cuidados personalizados e contraditório educativo.

No meu tempo as crianças, quando os outros as ameaçavam no recreio da escola, diziam: «Olha que chamo o meu pai que é polícia!» É bom sentir que se tem um pai que pode vir a correr defender-nos?

Um pai-herói é um pai forte. E presente. Independentemente da sua profissão. É uma força tranquila.

QUANDO O PAI É TRANSFORMADO EM ‘VISITA’

As estatísticas de divórcio indicam que o poder paternal é em 90% dos casos entregue à mãe. Como é que um pai que era próximo do seu filho, se sente quando o transformam em “visita”?

O direito de visitas como regra judicial, quando se trata de configurar as responsabilidades parentais do pai, sem que tenha cometido qualquer ilícito compaginável com o que a Lei configura como negligencia ou como maltrato dum filho, representa um limitação por identidade de género que um Tribunal e um Estado de Direito jamais deviam permitir. E se permitem, então é porque as mulheres e os homens que o toleram (e os tribunais que o promovem) são, realmente, rascas. Porque se demitem até do direito à indignação. Quando assim é um pai, que era próximo dum filho, sente-se como intruso na sua vida. E uma mãe, que tolera e se aproveita duma injustiça como essa, passa a ser, todos os dias em que o permite, menos mãe.

Que efeito tem este distanciamento forçado na vida mental dos filhos?

Primeiro, transforma uma decisão judicial, num maltrato, em que todos são coniventes. E, depois, há medida que o direito de visitas se perpetua, converte um maltrato num dano, em que todos são cúmplices. Escuso, portanto, de reafirmar que um distanciamento desses não é nem acto de parentalidade nem de justiça. É uma vergonha com a qual jamais devemos pactuar.

O número de incumprimentos dos acordos feitos em tribunal é enorme. Como acha que os tribunais deviam lidar com pais que não pagam a pensão, ou não visitam os filhos?

Privando-os, liminarmente, dos seus direitos. Quem não reconhece responsabilidades limita-se para os seus direitos.

Como deviam lidar com as mães que complicam e impedem a presença do pai na vida dos filhos?

Devia tomá-las como maltrantes, retirando todas as ilações que deve retirar para o respectivo exercício da responsabilidade parental. Não esquecendo que somos pais violentos sempre que promovemos, com intencionalidade e sem reparação, o sofrimento dum filho.

Um dos direitos que os pais separados dos filhos pedem é que as escolas os informem das notas e das actividades e dias de festas da escola. As escolas não deviam tomar partido do pai ou da mãe? Em que é que podem mudar os seus procedimentos?

As escolas estão obrigadas a reconhecer que a figura de encarregado de educação é um resquício de Estado Novo na parentalidade. É como se legitimasse o poder paternal dum dos pais à margem de tudo o que diz a Lei. Ora, com as novas tecnologias, informar por mail ambos os pais, seja acerca do que for, não me parece nada de mais.

O LUGAR DOS PAIS-PADRASTOS

Os pais que são padrastos, com um pai biológico ainda vivo e presente, podem, apesar disso, ambicionar ser pais ou serão sempre ‘tios’?

Devem ambicionar ser pais. Também. É claro que começam por ser padrastos, não há outra forma. Sempre que merecem, passam a ser ‘tios’. E se traba-lharem muito para isso, tornam-se um bocadinho pais.

Há padrastos que foram pais de facto da criança que veio no ‘pacote’, mas que após um divórcio não têm sobre aquela criança nenhum direito. Tentar esquecê-la ou manter o contacto?

Têm de manter o contacto. Inequivocamente. E devem ver esse direito salvaguardado. Que não é só um direito seu. É um direito da criança.

Ainda acreditamos que se não há pai biológico então é melhor uma instituição?

Há centenas de crianças que só não são adoptadas porque, às vezes, quem decide é cobarde e não pensa nessas crianças como pensa nos seus filhos.

ESCOLA DE PAIS

Novembro 1, 2010 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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“Todos nós, pais, sentimos a urgência, o desafio e a responsabilidade de acompanhar o crescimento dos nossos filhos. Esta situação torna-se ainda mais relevante hoje, quando o ambiente e a cultura se tornaram fragmentados e um enorme conjunto de solicitações e propostas torna difícil um juízo sereno e claro sobre a realidade.

É neste enquadramento, por vezes extremamente difícil, que somos chamados à tarefa da educação. Com a mesma exigência com que abordamos os aspectos profissionais e sociais da nossa vida, não podemos deixar de nos questionar em que medida nos temos preparado para o desafio educativo.

A partir do dia 30 de Novembro, a Fundação Maria Ulrich, realiza uma Escola de Pais, que consiste num conjunto de três encontros, a realizar até ao dia 13 de Novembro, sobre temas específicos relacionados com a educação e a formação dos filhos.”

1ª sessão – 6 de Novembro (10h30)

A importância de educar: a resposta aos porquês

Isabel Almeida Brito

2ª sessão – 13 de Novembro (10h30)

O perigo de não propor: a televisão e a internet

Henrique Leitão

3ª sessão – 20 de Novembro (10h30)

A autoridade: uma questão de prémios e castigos?

A verificação: as amizades e os tempos livres

Joana Castelo Branco

INSCRIÇÕES (no local)

Individual 8€ /Casal 15€

 

Rua Silva Carvalho, 240 (junto às Amoreiras)

1250-259 LISBOA

21.3882110; 966969620

fundacaomariaulrich.blogspot.com


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