O regresso às aulas… dos pais

Outubro 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado na http://www.paisefilhos.pt/ no dia 5 de setembro de 2017.

“É o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil”.

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As férias das crianças nunca são demais. Em primeiro lugar, porque as férias dos pais, quando eram pequeninos, seriam maiores. E, depois, porque olhando para as horas de trabalho dos pais e dos filhos, tendo uns e outros a mesma idade, as crianças trabalham na escola e para a escola em demasia. Fosse o mundo mais justo e, para que “as contas” fossem como deviam ser, as férias grandes deviam ser maiores para quem trabalha mais…

”Mas a vida é, hoje, mais dura e mais competitiva”, argumentam os pais, enquanto reclamam por mais escola e vão resolvendo problemas pelos filhos. Não é verdade! A vida sempre foi dura e competitiva. Por outras palavras, a vida nunca foi fácil! Não tanto no sentido trágico de quem vê nas dificuldades o pretexto para se desculpar por tudo aquilo que não ousou fazer, mas, pelo contrário, no sentido de quem as vê como a forma de descortinar nelas problemas que se transformam em oportunidades para novas dúvidas com que, depois de resolvidas, se cresce mais um bocadinho. A vida traz o difícil; a inteligência, a humildade e a perseverança transformam o difícil em simples. E é o simples, depois de descoberto, que (por ser óbvio) parece fácil. Mas, sendo assim, poupar às crianças os problemas que tenham para resolver e fazer da escola um “fast food” em que quase tudo lhes é dado, sem que haja quem as ensine a pensar, é o mesmo que as pôr a crescer sem que seja preciso que elas percebam, minimamente, como isso se faz. É “embrulhar” o difícil no fácil. E iludi-las com a grandiosidade com que “atrofiam” competências que tinham. Por outras palavras: é o medo dos pais diante de um mundo diferente e o seu excesso de proteção que tornam o regresso às aulas mais difícil para as crianças.

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Ainda assim, comparado o mundo em que os pais cresceram com o mundo ao acesso das crianças, tudo parece, hoje, “à primeira vista”, mais difícil. Porque é mais complexo e exige mais escolhas. Mas, com melhor trabalho, será mais amigo de melhor crescimento. Seja como for, o mundo em que as crianças vivem é parecido, em muitos aspetos, com aquele em que os pais cresceram. É igualmente assimétrico, igualmente demagógico e igualmente ganancioso. É verdade! Talvez porque seja igualmente “costurado” por pessoas. Ainda assim, é mais aberto, e mais acolhedor para quem for honesto, imaginativo e inimitável. Logo, é um mundo de mais oportunidades para aqueles que não forem “produtos normalizados”.
Já em relação à escola, ao contrário da das crianças, a escola dos pais foi, garantidamente, mais injusta. Porque dividia os alunos em inteligentes e em “burros”. Porque ensinava ao abrigo de humilhações e de castigos físicos. E porque muitos professores exerciam um poder discricionário que destroçava crianças.

Hoje, a escola é melhor! E se o regresso às aulas parece muito difícil e quase tumultuoso é porque, para além dos conflitos de agenda, os pais veem a escola à imagem da forma como a viveram. E imaginam o mundo como se o deles tivesse sido “cor de rosa” e o das crianças fosse, invariavelmente, cinzentão. E colocam sobre as aulas a responsabilidade que elas não podem ter. E não exercem, tanto como deviam, o seu direito de comparticipar na escolha da escola, da turma, do professor e de tudo o mais que está para além das próprias aulas. E desvalorizam o brincar, o preguiçar, o conviver ou, simplesmente, o imaginar.

 

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As férias estão a chegar ao fim. Mas se não quer que as crianças se estraguem na relação com a escola não se esqueça, por favor, que:
a) Os pais erram sempre. E isso é bom. Sobretudo se aproveitarem os seus erros para serem pais mais humildes. Sem nunca perder de vista que os piores amigos dos pais são “os bons pais”. Aqueles que querem tanto ser bons que olham mais para os seus desempenhos e para os pais que tiveram, competindo com eles, do que para os próprios filhos.

b) As crianças devem ser escutadas mas não podem decidir pelos pais. Seja a propósito da escola que vão frequentar ou das suas atividades extracurriculares. Aliás, como também não podem ser os técnicos a fazê-lo. Simplesmente porque os pais sabem sempre mais que os filhos. Mas não perca de vista que pais exageradamente cuidadosos são filhos de pais ou excessivamente exigentes ou demasiadamente descuidados.

c) Os pais serão mais atentos se tiverem memória. Ou, melhor, se não fugirem de “conversar” com ela. Dizer aos filhos que os tempos, hoje, são outros, faz com que os pais se sintam com legitimidade para exigirem que a relação dos filhos com a escola seja muito diferente daquela que eles, quando alunos e com a idade que as crianças têm, terão tido com ela. Mas será que os pais faziam todos os trabalhos de casa com agrado? E será que, alguma vez, terão achado as férias grandes ou exageradas? E será que tinham os resultados escolares exemplares que, agora, exigem aos filhos?

d) Todas as crianças são sobredotadas e todas têm necessidades educativas especiais. Ao contrário do que devia ser, a escola acarinha mais as áreas onde as crianças são, aparentemente, “sobredotadas”. E ignora, não identifica ou faz por não reparar nas suas “necessidades educativas especiais”. O que não será razoável é que as boas notas das crianças sejam, unicamente, a todas as disciplinas da escola. Ou a algumas, em particular. Porque as boas notas unicamente às disciplinas da escola — alavancadas com trabalho de pais exagerado, com excesso de explicações e com ateliês de tempos livres que existem para que os trabalhos de casa apareçam feitos, não interessa com que proveito, antes de lá se chegar – são úteis para disfarçar necessidades educativas especiais. Quando as necessidades educativas especiais são as melhores amigas da humildade, da tolerância à frustração e da “capacidade de sofrimento” com as quais se aprende a crescer. Cresce-se melhor quando se aprende a viver com algumas dores, com as experiências de tristeza que “tenham de ser” e, sobretudo, com mais tempo para “digerir” a experiência, para experimentar e para pensar, descobrir e inventar. Começa-se a conhecer quando se reconhece a primeira dificuldade

e) As crianças precisam de duas horas de tempo livre todos os dias! Porque quem brinca aprende melhor.

f) Não compita, através do seu filho, com as notas dos amigos deles. Nem confunda os seus sonhos escolares que não concretizou com projetos para ele. Alunos que não erram são crianças em perigo. Ou seja, só quem foge dos erros é que se desencoraja de aprender. Ainda assim, aprender não é fácil nem rápido. Nem se conquista com pouco trabalho. E, claro, não se aprende sempre com boas notas, sem erros e sem derrotas.

g) Não queira saber tudo acerca da escola, todos os dias. Os pais só precisam de ser atentamente distraídos. Tudo o que for para além disto é exagero.

h) Não transforme o regresso às aulas numa oportunidade para entrar num quadro de excelência só para pais. Também em relação à escola, insista em errar! Porque isso significa que não desiste nunca de aprender.

 

 

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Regresso às aulas: como lidar com a ansiedade das crianças?

Setembro 24, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://www.noticiasmagazine.pt/ de 11 de setembro de 2016.

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Por: Isaltina Padrão

Para algumas crianças, regressar à escola pode ser um pesadelo.

O seu filho já anda impaciente? E a dormir mal? Com a aproximação do início do ano letivo vem a ansiedade de quem passou três meses com a família, longe de colegas e professores. Se na maioria dos casos as crianças apresentam uma inquietação normal por regressarem à escola e mostrarem a roupa nova e os materiais acabados de comprar, outras chegam a ficar «doentes» só de pensarem em voltar à rotina.

Muito ativo e desorganizado, com uma forte imaginação, não foi nada fácil para Carlos, de 6 anos, ingressar no 1º ano. Todas as manhãs pedia aos pais para não o levarem à escola. Ia, tinha de ir. Mas, uma vez lá, desestabilizava a turma com constantes brincadeiras. Após várias repreensões, foi colocado na última fila para não perturbar tanto. Foi ficando sozinho e era dado como um mau exemplo de aluno. No recreio tornou-se agressivo e era permanentemente gozado. «Nunca vou ser bom em nada» passou a ser uma frase constante. E ia entristecendo.

Este é um de vários casos – felizmente, são a minoria – em que a escola não é apelativa para a criança. Professores, psicólogos e outros especialistas são de opinião de que um trabalho conjunto entre a escola e a família ajuda a superar esta aversão que, geralmente, se dissipa por si mesma com a habituação à nova realidade. «Todas as mudanças implicam ansiedade, devido ao medo do desconhecido subjacente a cada transição», diz Teresa Andrade, psicóloga e professora no Instituto Superior de Saúde Egas Moniz.

«Na transição para o 1º ciclo, são várias as mudanças e ainda mais as expetativas. Transitar de um lugar maioritariamente de brincadeira – a creche ou o convívio com os avós – para um de maior trabalho estruturado pode criar dificuldades e desafios, dependendo da personalidade, da maturidade e de caraterísticas específicas de cada criança.»

Assim, crianças mais calmas, com níveis mais elevados de atenção e concentração, obedientes e organizadas, com um desenvolvimento cognitivo e emocional saudáveis, são, na opinião dos especialistas, as que acabam por se adaptar mais facilmente a esta e a qualquer outra etapa da vida.

No entanto, Susana Algarvio, psicoterapeuta e professora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, sublinha o facto de a ansiedade do início do ano letivo ser normal, «independentemente dos resultados escolares». «Há bons alunos que se sentem ansiosos perante um novo desafio, assim como há alunos com histórias de insucesso escolar que sentem o mesmo tipo de ansiedade.» Mas a ansiedade excessiva pode gerar «comportamentos de evitamento, que podem, em casos extremos, conduzir a fobias». E é isso que deve ser evitado a todo o custo, para o bem-estar da criança.

Conheça os sintomas da ansiedade pré-escolar.

«No meu tempo é que era.» Não diga isso ao seu filho

Irritabilidade, pesadelos, perturbações do sono e alimentares, como perda de apetite ou comer em excesso, ou ainda o medo de não se lembrar das aprendizagens escolares, são alguns dos sintomas inerentes à mudança e reações frequentes perante marcos importantes como a entrada para o 1º ciclo do ensino básico – um alicerce que poderá ser determinante no adulto em que a criança se tornará. Caso os sintomas persistam, os pais devem procurar ajuda especializada. Em primeiro lugar, o problema deve ser exposto aos professores, que deverão conduzir a família para uma consulta de psicologia de forma a identificar o problema e tentar resolvê-lo.

Em alguns casos, a adaptação torna-se um processo mais difícil, que se prende fundamentalmente com o tipo de relação estabelecida entre cuidador e criança e que acaba por fragilizar esse mesmo processo. É aqui que, segundo Susana Algarvio, «os pais são uma peça-chave na adaptação da criança». Para esta psicoterapeuta, os sintomas são, regra geral, passageiros se os pais apresentarem a escola como uma etapa positiva na vida dos filhos. O que nem sempre acontece.

«Os pais podem reforçar negativamente a ansiedade das crianças ao apresentarem a escola como algo repressivo e castigador, dizendo coisas como “quando fores para a escola já não vais poder fazer isto ou aquilo”, esperando que a instituição e o professor os substituam na educação dos seus filhos, mostrando-se demasiado ansiosos relativamente à relação com as outras crianças, ou fazendo comparações com outros filhos ou outras crianças membros da família.»

Outro erro frequente é a comparação com outros tempos. Afinal, estes problemas de adaptação ao meio escolar são exclusivos da vida moderna? São, pelo menos, mais acentuados. E a razão é simples, defende Ana (nome fictício), professora da Escola EB1 Padre Andrade (agrupamento de escolas Frei Gonçalo de Azevedo), em São Domingos de Rana, Cascais. «Hoje os pais não têm tempo de qualidade para os filhos e estes acabam por ficar demasiado tempo na escola e pouco em casa. Sente-se que não existem relações/ligações familiares profundas e consistentes. Não há tempo de “rua” para brincar, as novas tecnologias também acabam por isolar e afastar não só as crianças entre si, mas também da própria família. Todos estes e outros fatores conjugados acabam por transformar as crianças em seres mais carentes emocional e afetivamente, o que irá ter impacto na sua forma de estar na escola.»

Pedir ajuda quando for necessário

Cada indivíduo tem caraterísticas únicas. A experiência de 21 anos com alunos do ensino básico diz a Ana que «cada educador da escola age e reage perante determinada situação em função da personalidade, da maturidade e da experiência ou criança. Mas há um esforço conjunto para entender e ajudar essas crianças, independentemente de ser ou não o professor titular do aluno.» Para facilitar a integração (dos alunos mas também dos pais) neste novo mundo que se abre, é imprescindível a interação da comunidade educativa – professores, pais, psicólogos e alunos. Todos têm uma palavra a dizer ou dão sinais daquilo que sentem. No caso das crianças, muitas vezes é necessário descodificar as suas atitudes em relação à escola. Susana Algarvio defende que «as crianças devem ser informadas sobre aquilo que as espera: um professor com quem irão aprender, a quem deverão respeitar, que esclarecerá as suas dúvidas e que as ajudará a ultrapassar as suas dificuldades ». No fundo, falar previamente sobre aquela pessoa e que é alguém em quem podem confiar.

Tão ou mais importante do que dizer «vais aprender a ler e a escrever» é explicar aos filhos que a escola é um lugar seguro, onde irá fazer desenhos e encontrar novos amigos com quem brincar. E como esta é uma fase em que os pais também estão a aprender, as suas preocupações devem ser sempre tomadas em consideração por aqueles que são mais experientes em arranques de anos letivos. As preocupações, dúvidas ou reservas dos encarregados de educação, segundo Susana Algarvio, «nunca devem ser desvalorizadas pelos professores ou por outros técnicos. Os pais devem ser sempre esclarecidos sobre as questões que põem porque a sua adaptação a esta nova etapa dos filhos condicionará a adaptação destes, sobretudo nos primeiros níveis de ensino».

Também os professores, por mais experientes que sejam, têm dúvidas e dificuldades em lidar com algumas situações. Os psicólogos em ambiente escolar (e não só) podem ajudar nessa tarefa de procurar entender os porquês de crianças e pais, no sentido de lhes fornecer ferramentas para entrar com o pé direito no novo ano letivo.

A ESCOLA TAMBÉM TEM DE SE ADAPTAR

As crianças não são todas iguais, defende Teresa Andrade. Para esta psicóloga, algumas, como Carlos (ver texto), não se encaixam no padrão de ensino vigente e há que ajudá-las na integração escolar de uma forma apelativa. Estamos perante alunos que «só a muito custo suportam as horas que lhes pedem que estejam sentados, calados e sossegados».

Infelizmente, muitos pais tendem a pensar que os seus filhos têm algo de errado «porque não conseguem ser iguais às outras crianças». Nada disso. Os meninos são todos diferentes e cada um requer uma maneira de ensinar diferente. Aqui entram os encarregados de educação, no papel de educadores. «Os pais podem complementar o ensino com outras atividades de aprendizagem que agradem mais à sua criança», diz a psicóloga, dando exemplos de como cativar a atenção dos filhos para as matérias escolares. Tal pode ser feito através «de jogos, passeios, aprender com os mais velhos a fazer coisas estimulantes, aprender matemática com a natureza ou a ler e escrever fazendo a criança inventar uma história que ela própria vai escrevendo».

 

Pais e professores devem levar as crianças para a rua

Setembro 17, 2016 às 5:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do http://observador.pt/de 9 de setembro de 2016.

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Conhecem-se os benefícios de as crianças passarem menos tempo em espaços fechados. Mas, o que podem os pais e as escolas fazer? A solução passa por estimular a brincadeira e até a aprendizagem na rua.

O consenso existe e poucas dúvidas subsistem sobre este tema: é importante que as crianças brinquem mais e, de preferência, ao ar livre. Os benefícios são muitos, não só em termos físicos mas também cognitivos e emocionais. Ainda assim, são escassas as medidas institucionais para incentivar esta prática entre nós.

Luís Ribeiro, presidente da Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI), reconhece isso mesmo: “Podemos dizer que faz parte da retórica do discurso, quer dos professores quer da administração educativa, mas não das suas práticas. Embora os currículos incluam o ensino experimental e a atividade física e desportiva nos respetivos programas, particularmente no primeiro ciclo, a verdade é que raramente foram implementadas políticas educativas que o favorecessem.”

Concretamente, o responsável lamenta o “cada vez maior enfoque social em áreas como a matemática e a língua materna, e a sua consequente hipervalorização no currículo, empobrecendo e estreitando as práticas educativas ao ler, escrever e contar, remetendo-se as atividades ao ar livre quase exclusivamente para os intervalos da componente letiva e sem a importante mediação do educador ou professor”. Segundo Luís Ribeiro, esta tendência revela-se até na educação de infância, em que “a prática educativa de rua, centrada em atividades de experimentação e de envolvimento com a natureza, tem vindo a perder lugar”.

A consequência disto tudo ficou bem patente nos resultados de um estudo levado a cabo pela marca SKIP no nosso país, segundo os quais cerca de 70% das crianças portuguesas passa menos tempo ao ar livre por dia do que os 60 minutos recomendados para os detidos em prisões. Foi precisamente para ir ao encontro desta necessidade que SKIP criou o movimento Dia de Aulas ao Ar Livre, a realizar no dia 6 de outubro, aberto a todas as escolas, professores e pais que queiram subscrever e aderir.

O objetivo é simples: proporcionar que todas as crianças possam ter um dia de aulas no exterior. Por considerar que brincar ao ar livre é fundamental para a aprendizagem de valores como a resiliência, o trabalho em equipa, a liderança, a criatividade e o desenvolvimento motor, a marca pretende não só proporcionar um dia diferente às crianças como sensibilizar a sociedade a questão.

1  Ensinar na rua

Também para Diogo Castro Pereira, presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica/Jardim de Infância do Alto de Algés, “os professores deveriam poder sair para a rua com as crianças e mostrar, exemplificando, algumas das matérias que pretendem lecionar”. Isto porque “o português, o estudo do meio e a matemática estão por todo o lado à nossa volta, dentro e fora de casa, é só uma questão de saber adequar um bom exemplo a uma matéria que ficará na memória das nossas crianças”, justifica.

O responsável acredita que “cabe aos pais em casa e aos responsáveis pelos planos pedagógicos inovar e procurar novas maneiras de ensinar, brincando”. Desta forma, será possível que as crianças estejam mais aptas a “aprender sem pressão, descontraídas e com uma abertura para assimilar diferente daquela que têm em sala”.

E, mesmo sabendo que esta lógica não pode ser aplicada a tudo, salienta que “temos de perceber e melhorar os nossos programas curriculares, que por vezes parecem feitos por quem nunca saiu da cidade, abriu uma janela ou saiu pela porta para viver e sentir o que se passa lá fora em todas as estações do ano”.

2  Arquitetura desadequada

Para potenciar o contacto dos mais novos com o ar livre, entende que as escolas com espaço disponível “podem criar recreios mais adequados à liberdade das brincadeiras, ainda que com supervisão”. Aliás, na sua perspetiva, uma das razões que mais impede as crianças de passarem tempo no exterior prende-se com questões de construção: “A arquitetura da nossa escola e de muitas escolas do nosso agrupamento não foi feita para essa vertente. Muito betão, muita arquitetura minimalista e pouco adequada às idades e ao local onde está implantada a escola.”

Nas suas palavras, esta é uma questão específica que tem vindo a ser debatida nos últimos anos, já que “o espaço de recreio é demasiado exposto aos elementos atmosféricos, não dando a proteção necessária quando chove ou quando está muito sol e calor”. Como consequência, refere que a associação a que preside “já apresentou várias propostas às entidades responsáveis pelo espaço, no caso a Câmara Municipal de Oeiras, e irá continuar a insistir até que se consigam melhorar as condições atuais do recreio da escola”.

3   Alterar a situação

Também Luís Ribeiro clama por maior integração da vida real nos programa escolares: “Na educação de infância e no primeiro ciclo do ensino básico é muito importante que os docentes compreendam que o currículo tem uma natureza holística, quer isto dizer que, na sua operacionalização, todas as áreas do saber devem ser abordadas de forma transdisciplinar, ou seja, devem fazer-se sistematicamente pontes entre elas, para dar sentido ao que os alunos aprendem.” Por outro lado, considera “fundamental compreender que as aprendizagens devem partir do que as crianças sabem e dos seus contextos de vida, pois essas aprendizagens tornam-se, assim, significativas para elas”.

Na sua opinião é igualmente relevante que as escolas entendam a importância que a brincadeira tem no desenvolvimento das crianças. Nesse sentido, defende que “na gestão dos horários dos alunos e das atividades de apoio à família/enriquecimento curricular, o brincar deve assumir uma centralidade inequívoca, evitando-se uma extensão do academicismo escolar até às 17h30 ou 18 horas”.

No mesmo sentido, sustenta que “sobrecarregar os alunos do primeiro ciclo com trabalhos para casa será sempre uma estratégia errada e deslocando para o espaço familiar a lógica escolar, quando seria muito mais importante, sobre qualquer ponto de vista, fortalecerem-se as dinâmicas familiares”.

A este propósito, Luís Ribeiro elogia a decisão do Agrupamento de Carcavelos, que aboliu as retenções e os TPC, considerando-a “um excelente exemplo de como uma escola e os seus professores podem construir lógicas organizacionais alternativas”. Mas lamenta a forma como a administração pública olha para as escolas e para a sua autonomia: “Uma retórica pura que não tem consequência entre o que se diz e o que se legisla, ou entre o que se legisla e na verdade se decide, impedindo que estes exemplos se possam disseminar e coartando a transformação da escola.”

4   O papel dos pais

Além das escolas e professores, cabe também aos pais fazer algo para que os filhos não fiquem horas fechados em casa. De acordo com Diogo Castro Pereira, “aqueles que deveriam brincar mais com as crianças, estimulando-as e ensinando algumas das brincadeiras que faziam ao ar livre em criança, não o fazem”. E questiona: “Quantas vezes nos deparamos com crianças a quem nunca ensinaram ou mostraram como se pode brincar ao ar livre?”

Ao mesmo, retira a culpa tantas vezes atribuída aos gadgets eletrónicos, lembrando que “a tecnologia não pode ser desculpa para tudo, pois esta existe para otimizar e melhorar as nossas tarefas, até as tarefas de pai. Só temos de saber separar as águas e não deixar que sejam impeditivas. Por exemplo, hoje temos a facilidade de poder ler uma mensagem de e-mail no telefone, sem ter de ir a casa ou ao escritório, mas se calhar não o devemos fazer quando esse tempo poderá ser dedicado aos nossos filhos.”

Por também ser pai sabe bem do que fala e sublinha que “ninguém é perfeito”, admitindo que “a correria do dia-a-dia contribui para isto”. A terminar deixa mesmo uma chamada de atenção: “Temos de olhar um pouco para nós e para o legado que estamos a deixar aos nossos filhos, pois será isso que eles irão transmitir à geração seguinte.”

5   O Dia de Aulas ao Ar Livre na voz da ANP

Em entrevista ao Observador, Paula Figueiras Carqueja, Presidente da Associação Nacional de Professores, revela a importância deste tipo de ações para as crianças.

O que trazem de fundamental iniciativas como esta do Dia de Aulas ao Ar Livre?

Todas as iniciativas que promovem ou promovam atividades lúdicas às crianças são sempre bem-vindas. A iniciativa da marca SKIP em que convida a comunidade educativa a levar a escola para “a rua”, sair da sala de aula, adaptar e conciliar as aprendizagens, o conhecimento à realidade, ou seja aliar a teoria à prática de uma forma lúdica, desenvolve o poder de investigação, de associação, o espírito crítico e o interesse pelo meio ambiente, pela realidade global que os rodeia e na qual estão inseridas.

O mais interessante desta iniciativa é o consciencializar para uma aprendizagem fora da sala de aula utilizando todos os recursos existentes no exterior, ao ar livre, seja um pau para desenhar, seja para a construção de uma espada, seja para ouvir o chilrear dos pássaros (…).

As nossas crianças, hoje, são os cidadãos/cidadãs com o horário laboral diário dos mais preenchidos na nossa sociedade, a escola a tempo inteiro.

Para além da atividade curricular obrigatória (5 horas) têm tarefas extracurriculares, natação, línguas, dança, artes marciais, ficando sem tempo para simplesmente brincar, pegar numa boneca e conversar com ela, pegar num carrinho e jogar. Estes são momentos emocionais importantes para o seu desenvolvimento integral, para aprender a lidar com a frustração, e as capacita a serem mais autónomas e perseverantes.

A nossa sociedade não está consciente da importância do brincar. Quando uma criança brinca desenvolve competências, nomeadamente físicas, mentais e emocionais, para além de se consciencializar do que a rodeia e ficar mais preparada para enfrentar situações adversas, tornando-a resiliente.

Benefícios do ensino ao ar livre

  1. Melhor apreensão do meio ambiente;
  2. Melhor qualidade na aprendizagem sensorial;
  3. Promoção de estratégias de ensino/conhecimento, aplicadas em contexto real, obtendo melhores resultados de aprendizagem;
  4. Com o movimento “Dia de Aulas ao Ar Livre”, as crianças desfrutam de uma experiência única de conhecimento de forma lúdica.

O que motivou a ANP a associar-se a esta iniciativa?

Um dos objetivos da Associação Nacional de Professores passa por apoiar e promover a realização de ações que contribuam para a dignificação da pessoa humana, objetivo essencial de todo o processo educativo.

Atenta a iniciativas que vão ao encontro do objetivo mencionado, a ANP aceitou participar e envolver-se neste movimento promovido pela marca SKIP. Consideramos uma oportunidade para um envolvimento a nível nacional das escolas e das famílias, de toda a comunidade educativa, neste Dia de Aulas ao Ar Livre, pela sensibilização da importância do brincar através de uma prática efetiva e, num só tempo, participar em práticas pedagógicas diferenciadas e de trocas interpessoais, usufruindo do património local.

Como é que escolas e professores podem pôr em prática este desafio no dia 6 de outubro (e depois replicar noutros dias)?

Observando o espaço onde está inserido o estabelecimento de ensino, o que rodeia, o que existe à sua volta (fotografar, filmar, desenhar ou simplesmente observar e relatar as observações), registando e identificando os ruídos locais, descobrindo os seres vivos, ente outras tantas coisas como correr, saltar, pintar, jogar…

Consulte aqui a lista das escolas que aderiram a este movimento.

 

 

 


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