Como o cinema chegou a crianças de aldeias africanas pelas mãos de um português

Agosto 10, 2015 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 27 de julho de 2015.

João Meirinhos

João Meirinhos

Sónia Calheiros (artigo publicado na VISÃO nº1168 de 23 de julho)

Ainda faltam três mil quilómetros para chegarem a Ulan Bator, a capital da Mongólia, e o termómetro do camião já se aproximou dos 40 graus. João Meirinhos atende a chamada da VISÃO enquanto percorre os arredores de Omsk, na Sibéria, numa estrada longa e sem história, deserta de humanidade. A bordo do camião 4×4 Magirus Dentz, de 1975, que já foi carro de bombeiros na Alemanha e transportou aviões de salvamento para ralis no deserto do Saara, além do antropologista visual nascido em Lisboa, há 30 anos, viajam os italianos Davide, músico e motorista, e Francesca, fotógrafa e clown, que tem tatuado no ombro “o essencial é invisível aos olhos”, uma citação de O Principezinho, de Saint-Exupéry.

“Nas últimas três semanas temos guiado cerca de dez horas por dia, entre 400 e 500, no máximo, porque as estradas têm muitos buracos. Ontem por exemplo, demorámos duas horas para fazer 60 km”, conta João para quem foi “interessante” falar em português outra vez. Desde 2009 está habituado a pensar em italiano, falar espanhol e francês e pesquisar em inglês na internet. Os outros cinco voluntários seguem noutros dois camiões. Trata-se de Francisca, animadora social e relações públicas de Espanha, e dos franceses Erwan, performer de circo, Lola, editora de vídeo que trata dos contactos com os orfanatos e escolas, Eva, coordenadora do projeto e habituada a trabalhar na área da educação, e Thomas, realizador e coordenador.

Andam na estrada desde abril e já fizeram 30 sessões de cinema em aldeias no meio de nenhures: 15 na Roménia, 5 na Bulgária e na Turquia, 4 na Geórgia e uma na Rússia. “A globalização é o tema principal dos documentários não verbais que mostramos [Home, Baraka ou Microcosmos], cujos direitos de exibição nos foram doados pelos realizadores. Foi a pôr gasolina no gerador durante uma projeção que nos apercebemos que era uma contradição passar filmes sobre ecologia e depois utilizar gasolina para os mostrar. Comprámos mais painéis solares e baterias e agora somos independentes nesse sentido”, esclarece João.

Foi precisamente o desperdício de dinheiro de uma sociedade consumista que fez com que João Meirinhos, ao terminar o curso de Ciências da Comunicação na variante de Cinema e Audiovisual, se interessasse por voluntariado. Ainda estagiou numa produtora de cinema publicitário, mas em 2009 fez-se à estrada quando um dos seus companheiros de Erasmus, em Itália, o desafiou: “Vamos fazer cinema com as crianças em África.” Mais tarde, criaram uma joint-venture entre os franceses da Lèzards Migrateurs e os italianos da ONG Bambini Nel Deserto. Em 2011, passou por 22 países em dois continentes. Em 2012 voltou a Manchester para um mestrado em Antropologia Visual. “Sou um filho dos ideais de Abril.

Fui educado rodeado de cultura e arte como princípios básicos para o desenvolvimento. E isso nunca mudará. Esta iniciativa claramente não é um emprego, mas sem dúvida que dá muito trabalho.”

Aventuras ‘on the road’

Para os oito voluntários, todas estas viagens são uma troca inesperada. “É preciso não recear o acaso mas aproveitá-lo. Até agora os melhores momentos foram sempre quando a nossa aparição é uma surpresa, para ambas as partes”, partilha João Meirinhos. Tanto em África como na Ásia Central, o facto de serem europeus é imediatamente associado a riqueza. “No Saara usávamos calendários pornográficos e bolas de futebol como moeda de troca para que nos deixassem em paz. Pormenores como bandeiras de cada país, uma foto de Meca ou do presidente Putine a cumprimentar Berlusconi podem evitar problemas. É útil conhecer o vocabulário básico e manter a calma”, explica o português.

No meio de tantas aventuras, já teve miúdos a mastigar os restos dos seus ossos de frango; percebeu que um preservativo custa mais que uma prostituta; teve nove furos numa semana devido aos 50 graus do asfalto; já lhe ofereceram uma criança, para trazê-la para a Europa, mas fizeram uma coleta entre todos e por 50 euros ela pôde ir, pela primeira vez, à escola, durante um ano; e, por fim, o grupo decidiu “viver como um burkinabé”, com menos de um euro por dia. “Acho que nem duas semanas aguentei a comer sempre a mesma coisa, arroz com molho de amendoim e um pouco de gordura de carne… O Davide foi para o hospital com paludismo. Onde a pobreza é mais extrema é onde ninguém já profere uma queixa”, descreve.

Durante as sessões de cinema, são inúmeras as reações dos mais pequenos. No Burkina Faso, por exemplo, gritam quando veem um dragão numa das animações. Projetar a imagem de um camião que passa por cima de uma câmara no chão é meio caminho andado para todos fugirem, pois o efeito 3D fá-los pensar que vão ser atropelados. Na caravana há tempo para tudo, desde criar uma estação de painéis solares para dar energia a uma bomba de água num oásis no sul de Marrocos até organizar uma oficina de mecânica para “rapazes de rua” aprenderem um ofício. Mas nem tudo é um mar de rosas.

João e os sete companheiros já apanharam alguns sustos. O momento de maior stresse deu-se ao atravessarem a fronteira entre Marrocos e a Mauritânia. Foram atraídos a uma armadilha de areia e o camião ficou atolado.

“Surgiram mais de vinte homens aos gritos, em árabe, no meio do nada. Queriam 300 euros para nos ajudarem a desenterrar o camião. Conseguimos fechar negócio por 150 e passámos umas boas três horas até sair dali”, relembra João. Em Bamako, capital do Mali, foram raptados por uma espécie de “Unidade de Bons Costumes Islâmica”, depois de um dos amigos de João Meirinhos urinar na rua. “Saem uns homens encapuçados com metralhadoras de dentro de um jipe e levam-nos. Quando começaram a ‘pescar’ mais gente pela rua comecei a perceber o que se passava. Procuravam pessoas ‘fora de conduta’. Queriam 7 000 SEFA (8 euros). Acabaram por aceitar os 5 000 que tinha no bolso e ainda nos deram uma boleiazinha para mais perto do acampamento.” Se a campanha de crowdfunding chegar a bom porto (indiegogo.com/projects/solar-powered-cinema-mission-mongolia#/ story), conseguirão angariar 3 600 euros até 2 de agosto, e levar a sua sala de cinema itinerante para a China e para a Índia. Ainda há muitas crianças espalhadas pelo mundo à espera de ver cinema pela primeira vez.

mais informações, vídeos e fotografias:

https://www.indiegogo.com/projects/solar-powered-cinema-mission-mongolia#/story

É necessário apoiar as famílias vulneráveis para diminuir a dependência de cuidados institucionais, diz a UNICEF

Setembro 18, 2014 às 10:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Comunicado de imprensa da Unicef de 10 de setembro de 2014.

unicef

NOVA IORQUE/LISBOA, 10 de Setembro de 2014

Pelo menos 1.4 milhões de crianças em 26 países na Europa Central e de Leste e na Ásia Central estão a crescer separadas dos seus pais biológicos, muitas vezes em ambientes institucionais que podem afectar o seu desenvolvimento. Apoiar as famílias em risco de separação pode diminuir a necessidade de cuidados institucionais e promover o direito que todas as crianças têm de ser criadas num ambiente familiar acolhedor.

“Os cuidados no ambiente familiar são a melhor opção para as crianças – e a sua institucionalização é a alternativa menos desejável,” disse Anthony Lake, Director Executivo da UNICEF, durante um debate numa sessão paralela organizada em conjunto com a Bulgária por ocasião da sessão de Setembro do Conselho de Administração da UNICEF. “Quando colocamos crianças em ambientes onde são acarinhadas e apoiadas, fazemos mais do que dar-lhes um lar seguro; estamos a colocá-las no caminho certo para que desenvolvam todo o seu potencial e se tornem membros activos das suas sociedades.”

Os cuidados institucionais podem afectar o desenvolvimento físico, intelectual e emocional das crianças, e há estudos que mostram que a relação custo/eficácia de serviços de cariz familiar e comunitário é melhor a longo prazo. Um estudo da UNICEF de 2010 realizado na Arménia, por exemplo, concluiu que colocar uma criança durante um ano numa instituição custa em média 3.800 dólares em apoios estatais, comparativamente com 2.800 dólares em famílias de acolhimento, e muito menos se a criança viver com a sua família.

Na CEE/CIS:

  •  O número de crianças em instituições está a diminuir, mas cerca de metade dos 1.4 milhões de crianças na região estão a crescer afastados dos seus pais biológicos em instituições de grandes dimensões.
  •  Nove em cada dez crianças institucionalizadas têm um ou ambos os progenitores vivos.
  •  Em alguns países, as crianças com deficiência representam 60% do total de crianças em instituições, devido à falta de cuidados de saúde especializados e de uma educação inclusiva nas suas comunidades.
  •  As crianças de grupos étnicos minoritários, filhas de pais solteiros e outros grupos vulneráveis representam também uma parcela muito elevada nas instituições.
  •  As crianças mais pequenas têm entre 3 a 6 vezes mais probabilidades de serem abandonadas ou enviadas para cuidados formais numa fase crucial do seu desenvolvimento físico, mental e emocional.

 

Muitos países na Europa Central e de Leste e na Ásia Central estão a fazer progressos significativos na reforma dos cuidados para crianças. Nos últimos anos, uma mudança estratégica das políticas que privilegiavam a institucionalização de crianças para um maior apoio a famílias vulneráveis ajudou a evitar separações familiares desnecessárias.

“Na Bulgária, as reformas em curso nos cuidados para crianças estão a ajudar a manter mais famílias juntas,” afirmou Sephan Tafrov, Representante Permanente da Bulgária junto das Nações Unidas e Vice-Presidente do Conselho de Administração da UNICEF, que presidiu ao debate. “Precisamos de tirar ilações e prosseguir na senda destes progressos, reforçando ao apoio aos pais e adoptando uma abordagem mais holística e flexível que reflicta as necessidades de cada família em concreto.”

Actualmente há menos crianças menores de três anos institucionalizadas, e a percentagem de crianças em internatos para bebés também diminuiu. Há hoje mais crianças desta faixa etária em cuidados alternativos de tipo familiar baseados na comunidade ou em famílias de acolhimento, concluiu Sephan Tafrov.

A UNICEF trabalha com parceiros governamentais para apoiar as reformas dos cuidados infantis com um enfoque especial nas crianças e famílias mais vulneráveis, nomeadamente em matéria de legislação e políticas, serviços de saúde, de educação e sociais de qualidade.

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Acerca da UNICEF:

A UNICEF promove os direitos e bem-estar de todas as crianças, em tudo o que fazemos. Juntamente com os nossos parceiros, trabalhamos em 190 países e territórios para traduzir este nosso compromisso em acções concretas, centrando especialmente os nossos esforços em chegar às crianças mais vulneráveis e marginalizadas, para o benefício de todas as crianças, em qualquer parte do mundo. Para saber mais, visite http://www.unicef.pt

Para mais informação, é favor contactar:

– Vera Lança, UNICEF Portugal, Tel: +351 21 317 75 00, vlanca@unicef.pt

– Carmen Serejo, UNICEF Portugal, Tel: +351 21 317 75 00, cserejo@unicef.pt

 

 


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