Adolescentes compram Xanax no Facebook e Instagram – Reino Unido

Março 2, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 14 de fevereiro de 2018.

Segundo testemunhos, basta fazer uma pesquisa com o tipo de drogas que se quer comprar e a venda realiza-se depois fora da rede

Os adolescentes ingleses estão a comprar drogas como Xanax nas redes sociais, denuncia uma investigação da BBC, corroborada por dados de uma associação que ajuda jovens com adições, a Addaction, e que refere existirem compradores de apenas 13 anos.

Após a investigação se ter tornado pública, o Ministério do Interior do Reino Unido disse que já estava a tomar medidas e o Instagram e Facebook – as redes sociais onde a venda ilegal de drogas mais acontece – frisaram que esse tipo de venda é ilegal nas suas plataformas. No entanto, este existe.

Um adolescente de Kent, ouvido pela BBC, disse que é fácil encontrar nas redes sociais quem venda drogas como Xanax – um medicamento amplamente prescrito nos EUA para tratar a ansiedade, mas que no Reino Unido só pode ser obtido com prescrição médica.

O jovem admitiu consumir MDMA, cocaína e Xanax, e que consegue encontrar quem venda estas drogas online. O adolescente confessou que passou noites sob o efeito de drogas para conseguir estudar para os exames e que mesmo durante as provas estava sob o efeito de drogas.

“Consegue-se encontrar uma página [nas redes sociais] com o tipo de drogas vendidas, com base em fotos ou naquilo que queremos comprar”, explicou o jovem. Depois, a conversa transfere-se da Internet para o mundo real, onde se efetua a venda.

Vários jovens do Reino Unido têm recebido tratamento hospitalar devido ao consumo de Xanax. O deputado britânico Bambos Charalambous revelou que o país desconhece o quão generalizado é o uso desta droga pelos mais jovens e pediu uma campanha de consciencialização, mais pesquisas e serviços de apoio aos adolescentes com problemas de adição.

Nick Hickmott, da Addaction, confirma a tendência. “Faz parte da cultura dos jovens atualmente. Quantos o fazem é discutível e, obviamente, o que é realmente importante é obter algumas estatísticas, mas já é bom que mostremos alguma preocupação”, disse, citado pela BBC.

Um porta-voz do Home Office – agência estatal britânica responsável pelas questões de segurança – afirmou que esperam “que as empresas que detêm as redes sociais atuem rapidamente para remover conteúdos e contas de utilizadores que não cumpram as suas próprias políticas”.

Em resposta, um porta-voz do Instagram disse: “Comprar ou vender drogas é proibido no Instagram e essas contas foram removidas”.

Um porta-voz do Facebook também alegou que as contas foram removidas, acrescentando: “Comprar ou vender drogas de qualquer tipo não é permitido no Facebook”.

Ambos os sites pediram aos seus utilizadores que denunciassem essa atividade.

 

 

Pedro Cabral: “As crianças tomam demasiados calmantes”

Novembro 12, 2017 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Foto: Pedro Zenkl

Entrevista da http://www.sabado.pt/ a Pedro Cabral no dia 24 de outubro de 2017.

por Sara Capelo

O neurologista pediátrico, de 63 anos, atende crianças medicadas por outros clínicos com calmantes que ele retira. São medicamentos necessários para que estejam mais atentas, diz, mas não corrigem os problemas em casa.

As notas de João, chamemos-lhe assim, começaram a piorar. Há uns meses, a mãe falou com a pediatra. Decidiram voltar a um calmante (só aos dias de semana), que tomara no 5º ano, e tirá-lo de uma das actividades físicas regulares. Num mês, perdeu três quilos e a dose foi reduzida, somando-lhe um outro medicamento. João tem 11 anos – e em Portugal há muitos mais como ele. O relatório da Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre Saúde Mental refere que, em 2014, crianças até aos 14 anos tomaram mais de cinco milhões de doses de calmantes (o metilfenidato). João continua a ter negativas e os recados para casa têm aumentado. Talvez o seu problema não seja o comportamento, como sugere o neuropediatra Pedro Cabral.

É entre os 10 e os 14 anos que mais crianças tomam esta medicação. Só nesta fase se percebeu o problema que no início os pais relevaram (“é muito mexida”)?
Tem que ver com mecanismos biológicos. A maturação dos circuitos cerebrais que nos preparam para prevenir as consequências é mais tardia do que a maturação dos circuitos destinados a saciar um desejo, um impulso. O drama da adolescência é esse. É quando os miúdos não conseguem estar atentos a uma coisa menos interessante. Estou farto de ver educadoras e mães nas consultas a dizer que a criança com 2 anos é hiperactiva. Não tem sentido. E é tramado porque está-se a medicalizar em função de queixas comportamentais em vez de se perceber que por trás de uma criança irrequieta pode estar um mundo de coisas: preocupações sobre dinâmicas familiares, falecimento de alguém querido ou uma irmã ou irmão que vai nascer. Se o médico, solicitado por pais ou educadores, medica, está a passar uma esponja sobre o que está por trás.

Está a fazer uma má avaliação.
Se uma criança é um robô, estamos a fazer mal de certeza.

Dá-se esse caso?
Fartei-me de ver crianças paradíssimas por causa da medicação. É um efeito tóxico.

A falta de apetite é outro.
Esse é irrelevante, porque desaparece o efeito do medicamento e o apetite reaparece ao jantar, ao fim-de-semana – quando a maior parte das crianças não tomam, ou não deviam tomar. Ouvi pediatras do desenvolvimento dizer que a criança também aprende aos sábados, domingos, feriados e férias. É dizer: “Queremos as crianças numa situação artificial de aprendizagem porque aprendem mesmo quando estão a brincar.” Devo ter sido das primeiras pessoas a utilizar este tipo de medicamentos, a partir dos anos 90, na Estefânia. E lembro-me de dizer que é só o mínimo necessário e enquanto for necessário para permitir a crianças que têm capacidades e que não conseguem, porque se dispersam muito. Quero-as mal comportadas em casa.

Esta medicação pode bloquear a criatividade?
É um estudo que estamos a fazer. Parte da hipótese de que, quando aumentamos as capacidades de concentração numa determinada tarefa, inibimos outras funções, como a criatividade.

Um pediatra que vê a criança uma vez por ano pode medicá-la e avaliar se está a melhorar?
Seguramente que não. É uma asneira a que assisto todos os dias: há médicos a receitar sem saber o que está a acontecer e convencidos de que isto é como os antibióticos, ao quilo. Como cresceu, tem de tomar mais. Deve reduzir-se em vez de aumentar. Quando se pretende que as crianças estejam bem comportadas, estamos a fazer mal. O DSM [Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais] sugere que se deve portar mal em dois ambientes. Uma criança que só se porte mal em casa dele e dos avós, mas não na escola já obedece aos critérios. Mas podem estar por trás disto erros crassos em casa. Pais que acharam que não há regras para obedecer, horas para dormir. O medicamento está a ser utilizado para manter acordada a criança em vez de ser para aumentar a atenção. O que precisamos a todo o momento – de semana a semana, ou de três em três meses – é saber pelo próprio, por professores e cuidadores, o que está a acontecer. Há professores que acham que a desatenção é um problema emocional e enviam para um psicólogo. Pode ser verdade, mas não em todos os casos. Outros pensam que é um problema genético (já o pai ou o tio eram assim) e é para medicar.

É como uma doença crónica em que há medicação para a vida?
Não. Quando chegam à adolescência, pelo menos metade deixa de reunir os tais critérios enumerados pelo DSM. Querem não tomar medicamentos. Sentem que ficam diferentes, mais sérios e querem achar graça às coisas.

É uma diferença entre querer e necessitar. Já não precisam?
É preciso que eles percebam que há coisas que podem não passar pela medicação, mas pelo café ou uma actividade desportiva regular. Há universidades inglesas em que fazem desporto três vezes por dia. Tem de ser pensado caso a caso. Eu quero que esteja atento na aula, mas também que esteja contente no intervalo. Não tenho nenhum medicamento que o faça.

A que sinais devem os pais estar atentos?
Há coisas imediatas, como a perda de apetite. Se a criança fica muito parada, está a receber dose a mais. Terceiro, uma sensação inicial: dor de cabeça ou barriga nos primeiros dois dias, algum tremor. As que tomam desde muito cedo e de forma continuada todos os dias, sábados, domingos, feriados e férias, podem ficar menos altas. E há a sensação de que só estudam se estiverem a tomar a medicação. Não é verdade. Os ansiolíticos e neurolépticos são hiperusados nas consultas de pediatras e pedopsiquiatras para manter as crianças bem-comportadas, esquecendo o trabalho que é preciso fazer em casa e na escola. Até aos 4 anos, muitos dos medicamentos são esses neurolépticos.

Miúdos que até aos 4 anos os pais entendem que são hiperactivos?
Que fazem muitas birras. E há um excesso de medicação de neurolépticos que, a prazo, têm efeitos sobre o corpo: ganho de peso, subida das gorduras no sangue e da glicémia; é factor de risco a tudo o que é doença vascular precoce. E sobre o cérebro porque modifica a dinâmica dos circuitos cerebrais. As crianças ficam paradas, com diminuição das capacidades cognitivas.

Deveria responsabilizar-se os clínicos que prescrevem em excesso e, às vezes, com pouca noção da realidade das crianças?
Acho que sim. Médicos de clínica geral e pediatras estão a usar estes medicamentos (há imensos que são cuidadosos) de forma quase selvagem.

Tem de se fazer uma avaliação a cada pessoa.
Claro. E reavaliar. Agora que tem 2 anos, o problema é outro. Deixou de ser hiperactivo, como deixam de ser a maior parte das crianças que ainda estão em excesso de actividade antes da puberdade. A desatenção é que lá está e continua a minar o insucesso escolar e a relação com os pares.

A criança não fica atenta só porque tomou um calmante?
O objectivo é aumentar a atenção. O metilfenidato aumenta as catecolaminas no cérebro e, portanto, a adrenalina e a dopamina. Estas ajudam a focalizar a atenção – e a criança fica mais sossegada. É o que acontece ao guarda-redes à espera do penálti. Uma criança que está a olhar para a professora, está a ouvir o que ela diz e filtra como não importante a informação que continua a chegar ao cérebro: o barulho, alguém que riu, o telemóvel que tocou, a sensação de barriga cheia, uma comichão ou preocupação sobre se no recreio alguém a vai chatear. Estas coisas, que não são pertinentes para a apreensão do que se passa na escola, rompem na paisagem cerebral daquela que não está bem acordada.

Há crianças que passam o dia em estado de adormecimento?
São inteligentes, mas a todo o momento entram imagens. É a perturbação de défice de atenção.

Que outras estratégias, antes da medicação, se devem tentar?
Queremos ter as crianças mais acordadas. Pô-las na primeira fila. Solicitá-las com frequência. Dar uma aula interessante, motivá-las. E se vê que estão com muita dificuldade para sossegarem, pedir-lhes para se levantarem, para apagar o quadro…

Numa turma heterogénea é difícil um professor dominar a sala. Estas crianças deveriam estar com outras com as mesmas dificuldades?
Não concordo nada com isso. Entre 1990 e 1997, em 7 anos, o consumo de metilfenidato nos EUA subiu 700%. Há gente a mais a tomar medicamentos a mais em Portugal. Aliás, passo mais tempo a tirar medicação do que a pô-la. O primeiro grande erro, que não é só nosso: pensar num desatento como um hiperactivo. A perturbação do défice de atenção sim, [é relevante], porque há miúdos menos atentos que são hiperactivos e outros que não, que são hipoactivos – estão a cismar, a olhar para a professora e a pensar que ela tem macacos no nariz em vez de no que ela diz.

Tem de haver um trabalho mais próximo entre o professor, os médicos e os pais para perceberem o tipo de alunos que têm?
O problema não é só a escola. A família mudou: pais com menos crianças, que chegam cansados e já delegaram nos centros de estudo os TPC. Não querem fontes de conflito, como fazê-los. Uma criança só, em vez de duas ou três.

Sem exemplos…
Sem exemplos em casa de que é preciso esperar pela sua vez e sincronizar-se com os outros, em vez de serem os outros a sincronizar-se com ela. Com o iPad à mesa, só adormece com a televisão no quarto e só faz o que quer. Com estas modificações emergiu uma percentagem de crianças e adolescentes que, apesar de terem competências escolares, não estão enquadráveis sem apoio nos tempos das aulas. E os professores querem gente sossegada.

Esta entrevista foi originalmente publicada na edição 628 da SÁBADO, nas bancas a 12 de Maio de 2016.

 

 

 

 

Quatro em cada dez jovens começam a beber aos 13 anos

Setembro 23, 2016 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do http://ionline.sapo.pt/de 21 de setembro de 2016.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

ESPAD Report 2015 Results from the European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs

Dados Portugal

http://www.espad.org/report/country-summaries#portugal

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Marta F. Reis

Inquérito conclui que há menos jovens a fumar e a beber em Portugal, mas muitos ainda começam cedo demais. 16% admitem ter problemas.

As notícias são mais boas do que más: nos últimos 20 anos tem diminuído a percentagem de jovens que fumam e bebem álcool e há mesmo uma fatia sem precedentes de adolescentes que nunca tiveram consumos problemáticos: no ano passado, 23% dos adolescentes com 16 anos garantia nunca ter tocado em tabaco, álcool ou drogas ilícitas. Resultados do inquérito internacional ESPAD, que desde 1995 tira o pulso à juventude em 35 países europeus, revelam, porém, que ainda são muitos os jovens que começam a explorar os limites numa idade precoce e há comportamentos de risco significativos. Mais de quatro em cada dez adolescentes portugueses admitem que aos 13 anos, ou antes, já tinham experimentado álcool e 5% já tinham apanhado uma bebedeira. Em relação ao tabaco, um quarto (24%) também já tinham fumado os primeiros cigarros e 5% começaram nesta idade a fumar diariamente.

Geração de 1999 O inquérito ESPAD (sigla inglesa para European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) abrangeu, em 2015, 96 042 jovens, incluindo 3456 rapazes e raparigas portugueses. A metodologia do projeto consiste em avaliar regularmente os comportamentos de risco aos 16 anos, pelo que nesta ronda de dados está em causa a geração nascida em 1999.

Se tem filhos nesta idade, eis alguns resultados que importa ter em conta, até se quiser ter uma intervenção proativa. Aos 16 anos, mesmo sendo proibido legalmente, 42% dos jovens portugueses dizem beber regularmente e 20% declaram ter tido pelo menos um episódio em que beberam mais do que a conta nos 30 dias anteriores ao inquérito – conceito de “consumo intenso” definido como ter ingerido cinco bebidas ou mais numa única ocasião.

Se os comportamentos a nível nacional surgem quase sempre dentro da média ou mesmo um pouco menos problemáticos do que noutros países, há um dado singular. Portugal é o segundo país, depois de Malta, onde as preferências dos adolescentes em matéria de álcool recaem sobre as chamadas bebidas brancas, como o vodca ou o absinto que alimentam os shots. Não obstante a tradição vitivinícola do país, é na Ucrânia ou na Moldávia que os jovens preferem o vinho, enquanto na Albânia ou na Bélgica a cerveja lidera.

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Em relação às bebidas, há ainda outro aspeto a destacar. Um terço dos jovens inquiridos a nível europeu admitem ter tido algum incidente enquanto estavam sob o efeito de álcool. Em Portugal, apenas 16% dos jovens admitem problemas, mas os dados põem a nu os riscos: 9% dizem ter perdido algum pertence, 4% envolveram-se em discussões e 3% em confrontos físicos. Sendo percentagens menores, é ainda possível perceber que 2% dos adolescentes portugueses reconhecem ter tido relações sexuais desprotegidas associadas ao álcool. Na mesma percentagem, dizem terem-se magoado a si próprios e terem tido comportamentos perigosos como nadar em zonas sem pé.

Raparigas começam a fumar mais No que diz respeito ao tabaco, aos 16 anos 9% fumam diariamente e 19% regularmente (declaram ter fumado no mês anterior ao inquérito). Se durante muito tempo os rapazes fumavam mais do que as raparigas, a situação tem estado a inverter-se e Portugal não foge à regra: entre a geração de 1999, a percentagem de raparigas que fumam ocasionalmente (21%) já supera a dos rapazes (18%).

O consumo de drogas ilícitas surge igualmente dentro da média internacional. Aos 16 anos, 16% dos jovens já experimentaram, a maioria canábis. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), estrutura do Ministério da Saúde responsável pela área das dependências que promove o estudo em Portugal, destacou como um dos elementos positivos o facto de haver um consumo residual das chamadas das novas substâncias psicoativas. Recorde-se que, em Portugal, o fenómeno das smartshops, que vendiam drogas quimicamente parecidas com medicamentos controlados ou drogas ilegais mas sem estarem reguladas como substâncias ilícitas, foi travado em 2013, proibindo-se a venda de substâncias psicoativas à medida que estas eram do conhecimento das autoridades, o que levou ao encerramento de muitos estabelecimentos. Na altura começava a haver registo de jovens nas urgências com psicoses relacionadas com o consumo. O alerta mantém-se, porém, para a canábis, cujo consumo também pode desencadear crises e não tem diminuído.

Cuidado com os ansiolíticos

Porque os medicamentos são drogas e têm riscos, sobretudo quando tomados sem vigilância, o inquérito ESPAD apresenta também dados sobre o consumo de alguma medicação sem receita médica por parte dos jovens. Em Portugal não se verificam consumos de opioides, mas 5% dos jovens admitem tomar sedativos e tranquilizantes sem indicação de um médico – percentagem abaixo da média europeia, mas em que existe ainda assim uma chamada de atenção: este consumo sem supervisão parece ter uma incidência quatro vezes maior entre as raparigas. O SICAD destacou ainda que no país há um consumo deste tipo de medicamentos, mesmo com receita, acima do que acontece nos outros países, com 13% dos jovens portugueses medicados com ansiolíticos contra uma média de 8%. Estes dados não foram trabalhados no relatório internacional, mas o SICAD considera que é nesta vertente que os indicadores nacionais se afastam de forma mais negativa. Uma última matéria em que os comportamentos dos adolescentes portugueses não geram, por agora, particular preocupação é o vício dos jogos e da internet. Um quinto dos jovens dizem passar o tempo na net a jogar e 2% admitem apostas a dinheiro, percentagens ligeiramente abaixo da média europeia.

10% acham fácil arranjar coca

Não há consumo sem acesso e os resultados sugerem que ainda há muito a fazer. Quase 80% consideram ser fácil ou muito fácil ter acesso a álcool e 60% dizem o mesmo em relação ao tabaco, apesar de a legislação proibir a compra antes dos 18 anos. A perceção dos jovens sobre a facilidade com que conseguem arranjar droga é, contudo, mais surpreendente. Três em cada dez admitem ser fácil ter acesso a canábis e 10% têm a mesma ideia sobre arranjar ecstasy ou cocaína, drogas que, ainda assim, 2% dizem já ter consumido aos 16 anos.

Perguntas&Respostas

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Mário Cordeiro – Pediatra

“As escolas deviam estar mais empenhadas na promoção da saúde”

Passam-lhe pelo consultório casos de adolescentes a tomar sedativos e tranquilizantes? Quais são os motivos?

Não muitos. Creio que temos de olhar para estes dados com algum espírito crítico, não apenas para uma análise da amostra e sua significância e representatividade, mas para os possíveis vieses das respostas e a própria definição de caso. O que é “tomar um ansiolítico”? Todos os dias? Antes dos testes? De vez em quando? Receitados? Homeopáticos de venda livre? Se admitirmos que sim, que tomam mais do que antes, pode ter a ver com a informação, acesso, venda através da net, moda, e também necessidade face ao stresse. O mais importante é saber se os que tomam são os que necessitam e se os que necessitam são os que tomam.

Que tipo de intervenção seria necessária?

Informação, mas transformada em conhecimento, ou seja, dada por pais, professores, profissionais de saúde, e não nas redes sociais. É preciso falar verdade, explicar o que são drogas e medicamentos, e ser-se sério, rigoroso e científico na abordagem da questão quando se fala com um adolescente. No livro que publicarei em outubro, intitulado “Os Nossos Adolescentes e as Drogas – Realidades, Mitos e Verdades”, abordo este assunto, dirigido a um público juvenil, mas também aos educadores em geral. As escolas deviam estar mais empenhadas nesta promoção da saúde, mais do que em sobrecarregar os alunos de matéria exclusivamente académica. Aliás, é uma matéria que poderia ser dada transversalmente, em Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências, tal e qual a sexualidade deveria ser.

Os dados revelam que, não obstante tendências positivas, aos 13 anos, 24% dos jovens já fumaram e 41% já beberam. A esmagadora maioria acha fácil ter acesso a álcool e tabaco, e 10% a ecstasy ou cocaína. Os pais estão atentos ou são apanhados de surpresa por consumos, mesmo ocasionais?

As drogas já cá estão há muito tempo, vieram para ficar e ficarão. É por isso que, “deste lado”, há um grande trabalho a fazer de modo a que uma pessoa que sempre terá droga à sua disposição (incluindo tabaco, álcool e medicamentos legais, já sem falar nas ilegais) possa não a querer, recusá-la e dela não necessitar, porque tem uma boa autoestima, autoconceito, um percurso de vida de que gosta e objetivos de vida, para lá de amigos, família e uma rede social (que não as virtuais) de qualidade afetiva.

Que estratégias recomenda em termos de prevenção aos pais que fiquem preocupados?

A melhor prevenção é a informação, mas transformando-a em conhecimento e em sabedoria. Criar resiliência através de prática desportiva, cultural, artes, sentido ético, viver com frugalidade, e não estar sempre a vitimizar-se e a sentir-se com péssima vida, valorizar o que se tem em termos de círculo humano e também de bens materiais. Tudo isto leva a que a droga passe a ser dispensável e até um obstáculo à felicidade, mesmo que esteja ao virar da esquina. É nisto que temos de investir e, mais uma vez, creio que a escola deveria ter um programa transversal que tocasse em todas as disciplinas.

Perante que sinais devem procurar ajuda especializada? 

Se um adolescente começa a desinvestir na escola, nos amigos, nas relações pessoais, se se isola demasiadamente, perde a noção do mundo, está deprimido e tenta reagir enganando-se com curtos momentos de prazer e de esquecimento da realidade, se se torna violento, rouba, só pensa nisso, é urgente dar-lhe ajuda. Como me disse um inspetor da polícia em Oxford, “se encontrarem um papel de prata no quarto do vosso filho. não é certo que tenha sido para fumar heroína… pode ter estado apenas a comer uma tablete de chocolate…”. Mas há que estar atento e apoiar, mesmo que as coisas aconteçam e a situação seja dura. Os toxicodependentes são doentes e não estão nessa situação “por gozo” – chegaram lá por um percurso de vida de falta de objetivos, de luta, de fuga à realidade. Compete-nos, enquanto sociedade organizada, ser solidários com eles e tentar fazê-los sair desse estado de degradação humana, sejam drogas ilegais, seja o álcool ou o tabaco, que ainda são as drogas mais usadas em Portugal.

 

 

 

Saúde mental das crianças é mal tratada em Portugal

Junho 26, 2015 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://economico.sapo.pt  de 19 de junho de 2015.

economico

Irina Marcelino

O acesso a ansiolíticos e antidepressivos por crianças e adolescentes é preocupante, considera Maria do Céu Machado.

As crianças portuguesas têm mais alergias, mais asma e doenças como a de Chron, infecção crónica dos intestinos que se pensava que apenas atingiam os adultos.

A asma está à cabeça das doenças crónicas nas crianças. A doença terá aumentado na ordem dos 20% nos últimos dez anos, segundo Maria do Céu Machado, pediatra, professora da Faculdade de Medicina na Universidade de Lisboa e responsável pelo serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria.

O aumento deste tipo de doenças crónicas é, afirma, “o preço a pagar por termos um país desenvolvido”. Nos restantes lugares da “tabela” elaborada por Maria do Céu Machado, que foi Alta Comissária para a Saúde, surgem ainda doenças como a obesidade, que dá origem a problemas como a diabetes, a doença inflamatória intestinal, a doença pulmonar crónica, a epilepsia e, ainda, as doenças mentais. “Em Portugal dá-se muito pouca importância a esta área. Uma criança ou um adolescente com uma doença mental vai dar um adulto com problemas de saúde mental”, considerando que esta é uma área relativamente à qual tem uma grande preocupação.

A especialista lembrou a propósito o caso da Islândia, que em plena crise lançou um programa de acompanhamento da saúde mental das suas crianças e adolescentes. “Na altura achei um exagero, mas agora compreendo. Essas crianças e adolescentes eram os filhos da maioria dos casais que caíram no desemprego”. Um estudo recente concluiu que a aposta islandesa resultou. E que o país conseguiu evitar os efeitos negativos que a crise podia ter tido nos seus jovens.

Em Portugal, a forma como se trata a saúde mental das crianças e adolescentes não tem comparação. “Não temos uma organização de psiquiatria na infância e na adolescência, como devíamos ter em Portugal”, considera. Além da falta de profissionais especializados, há, também, falta de camas nos hospitais. “Para toda a zona Sul, de Lisboa e Vale do Tejo, ao Alentejo e ao Algarve temos dez camas no Hospital de D. Estefânia para crianças e adolescentes com problemas de saúde mental”. E apenas os casos mais graves acabam por ser atendidos. “Ou seja, os casos ligeiros são recusados. Mas os ligeiros eram os que a longo prazo podiam ser tratados de forma a não terem problemas. Se investíssemos neles teríamos adultos saudáveis”.

Um dos problemas que destaca diz respeito ao acesso a ansiolíticos e antidepressivos.

“Não há nenhum dia na urgência que não apareça um adolescente que tenha tomado 10 ou 15 comprimidos, não para se suicidar mas porque está medicado e não aguenta quando lhe passa o efeito dos medicamentos. O acesso aos medicamentos é mais grave do que a doença mental em si”.

Sobre a saúde infantil, Maria do Céu Machado defendeu que também a área de cuidados continuados devia ser acautelada nesta fase da vida. “Com o aumento das doenças crónicas nas crianças, as camas dos hospitais são ocupadas por estes doentes, quando deviam ser tratados em cuidados continuados”, refere, lembrando tam ém a possibilidade de haver cuidados continuados de curta duração “para dar aos pais destas crianças a oportunidade de descansar”.

Os cuidados de saúde para crianças deviam também ser melhorados. “Devia haver um gestor do doente. Há um problema com a multiplicação de consultas e de exames em dias diferentes, que resultam em faltas na escola e no trabalho que podiam ser evitadas”.

Maria do Céu Machado defendeu ainda a necessidade de construção de Centros de Referência. “Espero que em breve saiam as regras e que possamos construir Centros de Referência. Mas é preciso que estes centros tenham uma política de RH diferente da actual”.

 

 

Observatório alerta alunos para perigos do excesso de ansiolíticos e antidepressivos

Junho 7, 2013 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 3 de Junho de 2013.

garrido

Lusa

Observatório da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra adverte que os medicamentos nem sempre têm o efeito desejado quando tomados da forma errada ou misturados com outras substâncias.

No arranque na época de exames em muitas universidades e escolas, o Observatório de Interacções Planta-Medicamento (OIPM) deixa um alerta aos estudantes: o “uso excessivo” de ansiolíticos e antidepressivos apenas num período específico pode “funcionar em contracorrente”, porque a memória fica diminuída.

Os jovens são, por isso, o alvo desta semana da campanha “Aprender Saúde entre as Plantas e os Medicamentos”, do observatório da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC).

“O uso de medicamentos na época dos exames traz vários problemas aos alunos”, disse à Lusa a investigadora Ana Rute Nunes, adiantando que “muitas destas substâncias aumentam os níveis de neurotransmissores, mas o custo na actividade neuronal a curto e longo prazo pode ser muito elevado, dado que muitas [destas substâncias] são produzidas sem nenhum controlo e o impacto que causam no organismo muitas vezes é imprevisível”.

Riscos de mistura com álcool e drogas
Por outro lado, alertou, “o uso excessivo de ansiolíticos e de antidepressivos”, em época de exames, “pode funcionar em contracorrente, dado que a memória é diminuída com o seu consumo”. Aconselhou ainda as pessoas a quem forem prescritas benzodiazepinas (ansiolíticos), como clonazepam, diazepam, flunitrazepam, ou antidepressivos (amitriptilina, citalopram, clomipramina, fluoxetina, nefazodona) a evitarem o consumo de álcool, de plantas ou extractos, como a erva de São João (hipericão), sumos de laranja, de toranja e gingko.

Já a coordenadora do observatório, Maria da Graça Campos, alertou os jovens para os riscos de misturarem álcool, drogas e outras substâncias psicoactivas com medicamentos, afirmando que podem causar danos em saúde, “muitas vezes irreversíveis”. “O consumo de álcool, drogas, incluindo as smartdrugs e outras substâncias psicoactivas, como antidepressivos e ansiolíticos, continua a aumentar em Portugal”, disse.

“Os malefícios do álcool são sobejamente conhecidos e um excelente exemplo para explicar que uma dose elevada única pode conduzir ao coma alcoólico e consequente morte, enquanto o consumo crónico pode induzir toxicidade hepática (cirrose)”, adiantou. Misturá-lo com medicamentos “pode causar várias falhas terapêuticas, desde a ineficácia de antibióticos ao efeito cumulativo de depressão do sistema nervoso”, advertiu.

Do sistema imunitário à pílula
Relativamente às drogas ilegais, a docente lembrou que muitas destas substâncias são de origem natural, como a heroína (obtida da morfina que se retira da papoila dormideira), a cocaína (das folhas da coca), o LSD (de um fungo que se desenvolve no centeio), as anfetaminas (retiradas de várias plantas), cogumelos alucinogénicos e a cannabis.

Segundo o observatório, os canabinoides naturais (da planta cannabis sativa) e os sintéticos acentuam o efeito psicotrópico das benzodiazepinas, álcool e barbitúricos. Esta droga potencia a acção dos relaxantes musculares, broncodilatadores, antieméticos, fenotiazidas, medicamentos antiglaucoma, antiepiléticos, dissulfiram, varfarina, antidepressivos, como a fluoxetina, e de drogas como a cocaína ou os opiáceos. “Por favorecerem a imunossupressão estão contra-indicados em doentes HIV-positivos”, acrescentou.

Também a pílula contraceptiva pode sofrer interacções com medicamentos ou produtos de origem natural, como alguns antipiréticos (carbamazepina), o hipericão e laxantes. Outro tipo de interacções relaciona-se com o aumento do risco de trombo embolismo venoso, que pode ser potenciado pelo uso crónico de substâncias como a soja e o ginseng.

O OIMP/FFUC tem uma linha de apoio à população (239488484).

 

 


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