Brincar faz assim tanta diferença? Os benefícios estudados pela ciência

Junho 1, 2019 às 7:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do i de 30 de abril de 2019.

Marta F. Reis

Um artigo publicado em 2018 na revista “Pediatrics” fez uma revisão dos efeitos demonstrados ao longo das últimas décadas, também em animais.

Uma função superior mas não só 

“Embora a brincadeira esteja presente numa grande faixa de espécies, de invertebrados (como o polvo, lagarto, tartaruga e abelha) a mamíferos (ratos, macacos e humanos), a brincadeira social é mais proeminente em animais com um grande neocórtex” [área mais desenvolvida no Homo sapiens], lê-se no artigo “The Power of Play”. Brincar dá competências vitais para a sobrevivência, mas há indícios de que os animais brincam mesmo em situações que os deixam em risco.

As primeiras brincadeiras no berço 

Cucu? “O bebé humano nasce imaturo em comparação com outras espécies, com o desenvolvimento do cérebro a acontecer após o nascimento. Os bebés são totalmente dependentes dos pais para regular os ritmos de sono-vigília, alimentação e muitas interações sociais. Brincar facilita a progressão da dependência para a independência e da regulação para a autorregulação. Esta evolução começa nos primeiros três meses de vida”, dizem os autores.

Mudanças vísiveis no cérebro 

O artigo assinala que muitos estudos têm sido feitos em animais, não sendo possível extrapolar as conclusões para o ser humano. Ainda assim, os trabalhos com animais como ratinhos dão pistas. Crias privadas de brincar revelam, mais tarde, menos eficiência e comportamentos mais imaturos. “Ratos criados em gaiolas cheias de brinquedos tinham cérebros maiores, córtex mais espesso e completavam labirintos mais rapidamente”, exemplificam os autores.

Os benefícios para a saúde… e académicos 

O exercício físico associado a muitas brincadeiras não só previne o excesso de peso como tem vantagens para o sistema imunitário, endócrino e cardiovascular, mas também na prevenção de doenças como a depressão. Os autores, da Academia Americana de Pediatria, citam ainda trabalhos que sugerem que as crianças prestam mais atenção às aulas depois de um recreio de brincadeiras livres do que por exemplo de atividades de educação física, mais estruturadas.

Um cérebro pró-social

O artigo faz referência ao livro Affective Neuroscience, de Jaak Panjsepp (1998), para sublinhar que vários estudos com animais sugerem que a função de brincar é construir um cérebro pró-social capaz de interagir com outros de forma efetiva. O autor estudou as bases neurológicas das emoções em animais e sugeriu também que a privação de brincadeira estará ligada a casos de síndrome de défice de atenção e hiperatividade.

Menos stress?

É mais uma pista de estudos com animais. “Doses elevadas de brincadeira estão associadas a níveis baixos de cortisol, o que sugere que brincar reduz o stresse ou que animais sem stresse brincam mais”, lê-se no artigo. Um estudo com crianças de três e quatro anos ansiosas com a ida para a escola estudou o efeito de 15 minutos de brincadeira em comparação com ouvir a professora a ler uma história. O grupo que brincou tinha níveis de ansiedade mais baixos.

Aprender a negociar

“Brincar com colegas geralmente envolve a resolução de problemas sobre as regras do jogo, o que requer negociação e cooperação. Através destes encontros, as crianças aprendem a usar uma linguagem mais sofisticada”, escrevem os autores.

O faz de conta

A análise cita estudos que sugerem que brincar com brinquedos tradicionais está ligado a um vocabulário maior e com mais qualidade do que brincar sobretudo com brinquedos eletrónicos. Também aponta vantagens às brincadeiras de faz de conta: “Encorajam a autorregulação uma vez que as crianças têm de colaborar no ambiente imaginário, concordar em fingir e conformar-se aos papéis, o que melhora a sua capacidade de raciocinar sobre acontecimentos hipotéticos”.

O estudo citado na notícia é o seguinte:

The Power of Play: A Pediatric Role in Enhancing Development in Young Children

Pediatras norte-americanos recebem recomendações para receitar mais brincadeiras

Setembro 6, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 31 de agosto de 2018.

Ana Cristina Marques

Um novo relatório da Academia Americana de Pediatria recomenda que os pediatras receitem mais tempo para brincar e avisa que pais e escolas estão demasiado preocupados com a vertente académica.
As crianças têm os horários tão preenchidos que os pediatras devem, em consulta, prescrever mais tempo para brincar. Esta é a recomendação que consta no mais recente relatório da Academia Americana de Pediatria. O relatório com recomendações para os pediatras norte-americanos esclarece que “brincar não é uma coisa frívola”, uma vez que investigações recentes continuam a mostrar que brincar ajuda os mais novos a desenvolver um conjunto vasto de capacidades — potencia a linguagem e as capacidades de negociar com os outros e de lidar com o stress. E estes são apenas alguns exemplos.

“Brincar não é uma coisa frívola: melhora a estrutura e a função do cérebro e promove funções executivas (ou seja, o processo de aprendizagem), o que nos permite perseguir objetivos e ignorar distrações”, lê-se no relatório.”

Escolas e pais demasiado preocupados com o currículo académico das crianças são os principais visados neste relatório, no qual consta a recomendação para que os pediatras tentem inverter a tendência. O problema descrito é atribuído às pressões da vida em sociedade e não às “más intenções” dos pais. Os autores do documento dão especial destaque à noção de que brincar é fundamental para promover crianças mais saudáveis. O ato de brincar com pais e colegas é encarado como uma oportunidade para “promover capacidades socioemocionais, cognitivas, linguísticas e de autoregulação.

As recentes mudanças culturais têm “prejudicado” as oportunidades de brincadeira das crianças, defendem os autores, que apresentam os seguintes números (sempre referentes à realidade norte-americana): de 1981 para 1997, o tempo de recreio das crianças diminuiu em 25%; crianças dos 3 aos 11 anos perderam 12 horas por semana de tempo livre e 30% dos jardins de infância não têm recreio.

Currículos equilibrados e tempo para brincadeiras de qualidade são o objetivo último das recomendações da Academia Americana de Pediatria, que encara ainda o ato de brincar como algo “fundamentalmente importante” para aprender as habilidades necessárias ao século XIX: desde aprender a resolver problemas a saber colaborar com os outros e a ser criativo.
A importância de brincar

Já em 2015, o Observador escrevia, citando o psicólogo Paulo Sargento, que as brincadeiras devem seguir três etapas evolutivas: as atividades que geram ação (quando um bebé atira um brinquedo ao chão está a ter uma primeira noção da lei da gravidade), as simbólicas (pegar numa vassoura e transformá-la num cavalo é um exercício de imaginação) e as que exigem regras (os jogos de computador e os de tabuleiro ajudam a perceber que a vida rege-se por um conjunto de normas).

Ao Observador, Núria Madureira, pediatra no Hospital Pediátrico de Coimbra, explica que brincar, embora um ato desvalorizado, é fundamental em todas as idades e contribui para o desenvolvimento de quatro grandes áreas: motricidade grossa; motricidade fina e visão; audição e linguagem; e autonomia e interação social. Se jogar à bola permite o desenvolvimento da motricidade grossa (como saltar e andar), ler ou ouvir uma história é essencial para a audição e para a linguagem. Já brincar ao faz de conta tem um peso significativo no que à interação social diz respeito.
Falta tempo e espaço para brincar

Para os pediatras Gonçalo Cordeiro Ferreira e Núria Madureira, recomendar mais tempo para brincar é uma coisa consensual, tanto que já o fazem em consultório.

“Quando uma criança brinca está a aprender a construir pontes, quer brincando sozinha, através da imaginação, ou acompanhada, com regras preestabelecidas.” O problema, salienta Gonçalo Cordeiro Ferreira, com mais de 30 anos de experiência, é não existir tempo nem espaço para brincar. Ao Observador, o pediatra aponta o dedo a uma “sociedade normativa” e fala de um “espírito competitivo” que já existe na pré-primária, onde é exigido que as crianças “cheguem aos mesmos pontos na mesma altura” — isto é, não se admite que existam diferentes níveis maturidade. “Existe um regime escolar rigoroso na primária.”

“Com estas preocupações pseudo-académicas, não há tempo para brincadeiras. Os pais têm uma estrutura muito normativa do que a criança deve fazer”, continua o pediatra. As atividades extra-curriculares, diz, dividem cada vez mais o tempo dos mais novos. Núria Madureira concorda, ao dizer que as crianças não brincam o suficiente, também por culpa daquilo que lhes é exigido, nas escolas e em casa, com uma geração de pais muito preocupada em assegurar ou preparar o futuro dos filhos.

“Acho que, atualmente, a nossa sociedade incute uma pressão nas crianças que é claramente exagerada. Os meninos têm todos de ser os melhores em tudo. Isso não é real. Não somos bons em tudo. Penso que é difícil para os pais aceitar as fragilidades dos filhos. Por vezes, os pais projetam nas crianças aquilo que gostariam de ter sido ou aquilo que não tiveram oportunidade de fazer”, acrescenta a pediatra Núria Madureira.”

Outro ponto, que também é referido no relatório de políticas em causa, é o facto de os pais recearem que os filhos brinquem demais. “A questão não é brincar demais, é deixar de fazer determinadas atividades. Acho que o problema aí é perceber porque é que as crianças não fazem [ou não querem fazer] os trabalhos de casa. É uma questão de motivação da escola”, continua Madureira.

A falta de espaço, por sua vez, é uma realidade que já se verifica em jardins de infância, que não estão dotados de espaços para o recreio, salienta Gonçalo Cordeiro Ferreira. “As crianças não têm espaço para brincar ao ar livre.” Mas nem tudo é negativo, com o pediatra a trazer bons exemplos para a conversa, referindo-se às escolas que, no verão, levam as crianças à praia. O problema, aponta, é a frequência com que isto acontece. “Devia ser obrigatório as crianças terem tempos livres fora da escola.”
Como brincar?

Cada vez se brinca menos e cada vez mais se brinca de forma diferente. Núria Madureira acredita que, tendo em conta a atual oferta de brinquedos, existe um maior cuidado do ponto de vista pedagógico, embora haja outras distrações. Os telemóveis e os vídeos de YouTube, por exemplo, podem constituir um “flagelo” caso as atividades a eles associadas não sejam transformadas em algo produtivo e não sejam vigiadas por adultos. Mas mais importante do que os brinquedos é a companhia dos pais: “Costumo falar sobre isto nas consultas de pediatria geral. O tempo pode ser pouco, mas a qualidade não. Refiro-me à regra dos 15 minutos. Os pais devem despender 15 minutos de atenção exclusiva a cada um dos filhos, uma vez por dia. Nesse período de tempo devem fazer o que as crianças quiserem fazer”.

Gonçalo Cordeiro Ferreira deixa ainda um aviso: para o pediatra, brincar não é sinónimo de jogar jogos eletrónicos ou ficar à frente de iPads, situações “passivas”, nas quais não existe o elemento surpresa ou o elemento de construção.

 


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