Escolaridade dos pais ainda é determinante no percurso dos filhos

Outubro 31, 2015 às 8:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 21 de outubro de 29015.

adriano miranda

 

Romana Borja-Santos

Estudo acompanhou jovens nascidos na década de 1990 e entrevistou-os em vários momentos. Percurso escolar ainda é muito influenciado pelos anos de escolaridade que os próprios pais conseguiram e pelo rendimento das famílias.

É jovem, tem 21 anos e 15 ou mais anos de escolaridade. Quem serão os seus pais? A pergunta, aparentemente, pode não fazer sentido. Mas a resposta mais comum, encontrada por um estudo que será apresentado nesta sexta-feira, ainda aponta para que este rapaz ou rapariga seja filho de um casal com um nível de escolaridade idêntico. Caso os pais tenham menos habilitações, então o mais provável é que este jovem tenha conseguido contrariar esse determinante social com mais leitura, estudo e desporto durante a adolescência. É também mais verosímil que seja uma rapariga.

“A classe social de origem e a educação dos pais ainda têm muito peso no percurso escolar dos filhos. A origem social ainda pesa muito, apesar de os filhos com ensino superior terem triplicado em relação aos pais que tinham chegado a esse nível”, resume ao PÚBLICO a socióloga Anália Torres, coordenadora do estudo Reproduzir ou Contrariar o Destino Social?. O trabalho será apresentado nesta sexta-feira na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e faz parte do projecto Epiteen24 (Epidemiological Health Investigation of Teenagers in Porto).

A investigação da também professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa contou com uma amostra de 2942 pessoas nascidas na década de 1900 e que em 2003/2004 frequentavam as escolas públicas e privadas do Porto. O grupo tem sido acompanhado e inquirido aos 13 anos, 17, 21 e agora 24 anos, com os investigadores a publicarem vários trabalhos ao longo deste período. Os dados recolhidos aos 21 anos já estão totalmente fechados e a equipa está a trabalhar os resultados obtidos aos 24 anos.

As conclusões do estudo antecipado ao PÚBLICO apontam, de forma clara, para que “uma parte substancial das diferenças no desempenho educacional está associada à escolaridade dos pais, o que sugere a continuidade de mecanismos de desigualdade de oportunidades num quadro geral de democratização da educação”. Anália Torres destaca que, independentemente da escolaridade, os rendimentos do agregado familiar também pesam, com as famílias com menos habilitações mas com mais orçamento a conseguirem levar os filhos mais longe na escola.

A propósito do peso dos pais nas diferenças encontradas, a investigadora exemplifica que a taxa de chumbos alcançou os 78% entre os jovens com menos anos de escolaridade e filhos de pessoas com menos habilitações. Entre os jovens com pelo menos 15 anos de escolaridade e filhos de pais com os mesmos anos de estudos a taxa de reprovação em algum momento do percurso escolar ficou-se pelos 1,6%. De destacar que nos inquiridos que conseguiram ultrapassar os pais com menos habilitações a taxa de chumbos cai para 12,9%.

Apesar disso, Anália Torres ressalva que há situações positivas e tendências que contrariam esta realidade maioritária. “Há casos que mostram que há também hipótese de as pessoas, através da educação, poderem melhorar a sua situação. É muito mais fácil para os que têm pais com escolaridade elevada chegarem eles próprios a uma escolaridade elevada, mas a escola também pode correr bem aos jovens com pais com escolaridade mais baixa, desde que se foquem”, diz.

A investigadora dá como exemplo que os jovens que aos 13 anos tinham hábitos de leitura, de estudo e de desporto chegaram mais longe nos estudos, independentemente do percurso dos pais. “É como se o esforço da leitura, do estudo e do desporto acabasse por poder compensar o nível de educação”, afirma. Paradoxalmente, estes adolescentes viam tanta televisão e jogavam tanto computador como os que obtiveram piores resultados.

A socióloga adianta que nas entrevistas que fizeram agora aos jovens com 24 anos que estão a tentar perceber em que medida é que foram os próprios alunos a fazer este esforço ou os pais a incentivar – tentando distinguir, por exemplo, os casos em que pais e filhos estudavam juntos. Porém, avança que os resultados preliminares apontam para que a crise tenha “acentuado algumas diferenças”, com mais jovens a deixarem os estudos não por insucesso mas por “necessidade de trabalharem devido a situações de desemprego dos pais”.

Outra tendência interessante identificada está nas diferenças entre rapazes e raparigas. “No grupo de jovens com pais pouco escolarizados são as raparigas que atingem maior nível de escolaridade”, representando dois terços do total. Também “no grupo de jovens cujos pais têm licenciatura ou mais, são os rapazes que encontram maior dificuldade em atingir o mesmo nível de escolaridade”, acrescenta-se. Mas Anália Torres ressalva que na chegada ao mercado de trabalho a realidade inverte-se. “No mercado de trabalho parece que as vantagens das raparigas desaparecem. Estão mais desempregadas e com trabalho a tempo parcial. É como se pudessem vir a ser mães e isso as prejudicasse, o que é uma contradição em relação ao mérito”, lamenta a socióloga.

A este propósito, sublinha que encontraram algumas explicações numa parte em que avaliaram o chamado capital social dos jovens e em que se percebe que as redes de apoio dos rapazes são mais públicas e as das raparigas mais familiares. “Uma das interrogações que fizemos foi ‘onde é que os rapazes compensam se elas estudam mais e se apresentam mais cedo no mercado de trabalho e com mais habilitações?’”, explica, concluindo que “uma das coisas que é muito interessante verificar é que eles fazem o que se chama de mais bridging, ou seja, através do desporto e de redes de conhecimento mais públicas mobilizam contactos de emprego e compensam as falhas em termos de estudo”.

 

 

Rapazes. Quanto mais dinheiro, mais comportamentos de risco

Outubro 25, 2015 às 10:24 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Expresso de 22 de outubro de 2015.

Rui Duarte Silva

Elas estudam mais e tentam fugir ao destino. Eles colocam-se em risco e envolvem-se na política. Um estudo sobre 3000 jovens de ambos os sexos nascidos nos anos 90, no Porto, mostra que o fado tem muitos tons mas continua pintado a negro.

Christiana Martins

Em português, destino é fado e ambos são descritos no dicionário como “uma força superior que se crê controlar todos os acontecimentos”. A pergunta que fica, então, é a capacidade humana de alterar o fatalismo. E parece que sim, que é possível mudar, no presente, o rumo do futuro. Pelo menos para os jovens do Porto.

Esta sexta-feira é apresentado na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, um estudo sobre a geração nascida na década de 90 do século XX e que em 2003 e 2004 frequentava as escolas públicas e privadas do Porto. Foram analisados os comportamentos de 2942 jovens, com 13, 17, 21 e 24 anos.

Com o título “Reproduzir ou contrariar o destino social?”, a investigação, coordenada pela socióloga Anália Torres e por Henrique de Barros, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, teve como ponto de partida a análise de que forma a origem social e o nível de escolaridade dos pais afetam a escolaridade e a mobilidade social e educacional dos jovens. O percurso académico dos próprios jovens é tido em conta como fator de mobilidade social, sem esquecer a influência do género e da prática de desporto ou do tempo passado a ler ou a estudar.

Uma das dimensões mais relevantes do estudo passou pela definição de “percursos biográficos”, que consideram, para além da escolaridade, variáveis de caracterização social como os rendimentos do agregado, a condição perante o trabalho e a profissão dos pais.

Perfis educacionais

Para organizar o estudo, foram desenhados cinco “perfis de mobilidade educacional”, que compara a escolaridade dos jovens aos 21 anos com a dos respetivos pais. Os jovens de nível educacional mais baixo têm 12 anos ou menos de escolaridade e pais com nove ou menos anos de escolaridade; já aqueles jovens e pais que têm 15 ou mais anos de escolaridade são classificados como nível mais alto.

No grupo de jovens e pais pouco escolarizados, as raparigas são as que conseguem ir mais longe no ensino (66,7%) e, entre os filhos de pais licenciados, os rapazes são os que encontram maior dificuldade em atingir o mesmo patamar educativo.

“Os rendimentos do agregado familiar condicionam de forma expressiva a escolaridade dos jovens. Quanto maior é o rendimento familiar, maior é a escolaridade atingida”, refere a investigação. O estudo diz mesmo que “o papel da origem social e educacional dos jovens é visível na reprovação escolar”.

Aos 17 anos, e ainda sem grandes avanços educativos, os filhos de pais pouco escolarizados apresentam as mais elevadas taxas (78%) de reprovação. Mas é também sublinhado que “as práticas de leitura, estudo e desporto podem compensar a influência da origem social”.

Problemas por resolver

Marcantes foram, para a equipa de coordenação, os resultados alcançados pelas raparigas. Elas são “tendencialmente mais escolarizadas do que os rapazes (44,1% têm ensino superior contra 31,7% deles), mas apesar de uma maior escolarização, “persistem desigualdades de género à entrada no mercado de trabalho”, com elas a estarem mais empregadas a tempo parcial do que eles, enquanto estudam em simultâneo. Eles preferem trabalhar a tempo inteiro, mas, entretanto, deixam os estudos.

As surpresas surgem quando se começa a abordar os comportamentos de risco. Os jovens de nível educacional alto revelaram “uma relativa incidência de comportamentos de risco associados a estilos de vida que podem ser apelidados de ‘recreativos’, como o consumo de haxixe ou marijuana aos 21 anos, ou mais precocemente, aos 13 anos, na experimentação e consumo de álcool”.

Os comportamentos de risco estão ligados a um pior desempenho educacional aos 21 anos, com práticas como o envolvimento numa luta física ou um percurso de mau comportamento disciplinar, associado à não conclusão da escolaridade obrigatória (12.º ano).

Quando a investigação se debruçou sobre os jovens aos quais já foram diagnosticadas situações depressivas, as raparigas mostraram ser as mais afetadas, e foi visível uma tendência para um maior peso deste problema entre os jovens de nível educacional baixo ou ascendente.

O envolvimento em organizações cívicas e políticas aumentou significativamente na passagem dos 17 aos 21 anos, enquanto diminuiu a dedicação a organizações de desporto, culturais ou religiosas. Aos 21 anos, os rapazes mais escolarizados mostraram-se mais disponíveis para pertencer a alguma organização política ou pública. Mas, se estiverem desempregados, o empenho diminui.

 

 

Consumo de haxixe é mais frequente nos jovens com mais escolaridade

Outubro 24, 2015 às 6:48 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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texto do http://p3.publico.pt de 22 de outubro de 2015.

Mario Anzuoni Reuters

Estudo comparou comportamentos de risco com nível de escolaridade de um grupo de jovens. Os maiores problemas ainda se encontram em quem tem menos estudos

Texto de Romana Borja-Santos

Os chamados comportamentos de risco, como suspensões na escola, pertença a um gangue, envolvimento em lutas físicas ou condenações, são em geral mais frequentes entre os jovens com menor escolaridade e que são filhos de pais que concluíram também poucos anos de estudo. No entanto, há um caso em que os jovens com mais anos de estudo e filhos de pais com mais habilitações se destacam: no consumo de haxixe ou marijuana. Aos 21 anos, quase 49% destes jovens inquiridos para um trabalho assumiram que tinham já consumido este tipo de substâncias, quando só 29% dos com menos escolaridade o tinham feito.

As conclusões fazem parte do estudo “Reproduzir ou Contrariar o Destino Social?”, que será apresentado nesta sexta-feira, 23 de Outubro, na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e que faz parte do projecto Epiteen24 (“Epidemiological Health Investigation of Teenagers in Porto”). A investigação conta com uma amostra de 2942 pessoas nascidas na década de 1990 e que em 2003/2004 frequentavam as escolas públicas e privadas do Porto. O grupo tem sido acompanhado e inquirido aos 13 anos, 17, 21 e 24 anos, com os investigadores a publicarem vários trabalhos ao longo dos anos.

“Estamos habituados a associar os níveis educacionais baixos a comportamentos de risco nos nossos estereótipos, mas isso nem sempre acontece assim”, adiantou ao PÚBLICO a socióloga Anália Torres, coordenadora do projecto e professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. De acordo com a investigadora, os dados recolhidos permitem perceber que também “a experimentação do álcool aos 13 anos acontece mais nas classes médias e altas, por causa das redes de interconhecimento”, como estes jovens, em geral, “frequentaram mais festas e terem mais dinheiro”. “Nota-se que são os grupos mais escolarizados que tendem a ter mais prática de consumos”, reitera.

No caso do haxixe, 49% dos jovens com mais escolaridade já experimentaram esta substância. O valor mais baixo, de 29%, é encontrado nos participantes com menos estudos. Ainda assim, a maior percentagem (56%) encontra-se nos filhos de pessoas com mais escolaridade mas que acabaram por conseguir completar menos anos do que os pais. No entanto, Anália Torres ressalva que a esmagadora maioria dos comportamentos de risco ainda estão, de facto, associados a níveis de escolaridade mais baixos, tanto nos jovens que os praticam como nos seus pais.

Já nos casos de níveis educacionais mais altos, o estudo sublinha que a “a incidência de comportamentos de risco” está associada a “estilos de vida que podem ser apelidados de ‘recreativos’, como o consumo de haxixe ou marijuana aos 21 anos (ou, mais precocemente, aos 13 anos, na experimentação do consumo de álcool)”. O trabalho destaca, ainda, que os jovens que atingem uma menor escolaridade que os pais também “apresentam ao longo da adolescência uma incidência comparativamente maior de comportamentos de risco, pelo que parece relevante uma análise mais focalizada no enquadramento familiar ou em variáveis individuais de saúde – como a saúde mental”.

 

 

 

 


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