Começar exames mais tarde, ajustar horários

Agosto 1, 2016 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

texto do site Educare de 4 de julho de 2016.

Capturar

Sara R. Oliveira

Investigadora da Universidade de Aveiro conclui que os exames nacionais não devem começar antes das 10h30 e que os horários das aulas, a partir do 2.º Ciclo, estão desajustados. As crianças portuguesas dormem menos do que deveriam.

Os exames nacionais da parte da manhã deveriam começar uma hora mais tarde e os horários das aulas, a partir do 2.º ciclo do Ensino Básico, deviam ser ajustados. Mudanças para melhorar o rendimento escolar. Ana Allen Gomes, investigadora do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro (UA), psicóloga e especialista em distúrbios do sono, concluiu que os testes nacionais devem ser marcados a partir das 10h30 e que as aulas começam cedo tendo em conta a tendência natural da puberdade, de deitar e acordar mais tarde.

Não parece existir evidência científica suficiente que favoreça as provas ao início da manhã, tal como acontece. “O que se pode/deve fazer e que garante maior equidade entre estudantes adolescentes e jovens adultos é marcar aproximadamente 50% dos exames para as 10h00/10h30 e 50% para as 15h00. Será o mais acertado tendo em conta o estado atual da investigação científica. Sem mais dados de investigação, será arriscado assumir uma passagem sistemática dos exames para o período da tarde”, sustenta a investigadora no site da UA. Este modelo de novos horários para os exames nacionais permitiria que adolescentes e jovens adultos tivessem, realça, “mais oportunidades de obter uma duração de sono adequada na véspera do exame”.

O conhecimento científico sobre o sono permite avançar que os exames dos alunos que já entraram na puberdade não devem começar logo nas primeiras horas da manhã. “Poderiam e deveriam começar a partir das 10h30, e não antes, no caso de exames de uma hora e meia, acrescidos de tolerância para estudantes com necessidades educativas especiais”, refere.

A investigadora, e autora principal de um estudo sobre o horário e a duração do sono das crianças portuguesas, admite, no entanto, que não é possível assumir com toda a certeza que um determinado período é “o melhor” para todos os adolescentes ou para qualquer tipo de prova. “Nesta matéria, é impossível assumir que ‘one size fits all’”. “Não há o horário ideal para todos, devido à variabilidade dos perfis de sono de pessoa para pessoa. É muito mais acertado pensarmos em ‘janelas’ horárias mais adequadas do que outras como, por exemplo, haver exames com início às 10h30 ou às 15h00 serão boas escolhas no período da adolescência”, afirma no mesmo site.

Em relação aos horários escolares, Ana Allen Gomes garante que não estão ajustados pelo menos a partir do 2.º ciclo do Ensino Básico. “Não se compreende por que motivo, à medida que a criança se torna mais velha e se aproxima da puberdade, os horários escolares se iniciem mais cedo. Essa matutinidade crescente de horários está em contradição com aquilo que é a tendência oposta com a entrada na puberdade, que é a de atraso [deslocação para mais tarde] do sistema circadiano, como é exemplo o ritmo sono-vigília, com tendência para o adolescente se deitar e levantar mais tarde”, explica.

Do ponto de vista da fisiologia humana, não faz sentido que horários de atividades académicas comecem mais cedo a partir do 2.º ciclo. A investigadora lança uma pergunta: “Se os pais e as escolas durante os anos do pré-escolar e do 1.º ciclo do Ensino Básico se organizam de modo as crianças iniciarem as suas atividades letivas às 9h00 ou mesmo 9h30, por que motivo a partir do 2.º ciclo as atividades letivas começam mais cedo?”.

Horários dos pais, horários dos filhos
Ana Allen Gomes é responsável, em Portugal, por vários estudos pioneiros sobre a qualidade do sono. Estudou hábitos de sono de mais de 3000 crianças de agrupamentos de escolas em vários pontos de Portugal continental. E verificou que a duração de sono das crianças portuguesas entre os 4 e os 11 anos de idade situa-se, em média, perto do limite inferior ao que a National Sleep Foundation considera uma duração “normal e desejável”. A fundação norte-americana, um dos centros mais prestigiados no estudo do sono, recomenda entre 10 e 13 horas de sono em crianças de idade pré-escolar. O estudo da investigadora da UA aponta para médias nacionais a rondar as 10 horas e 35 minutos. “A fundação recomenda também durações entre 9 e 11 horas em idade escolar [dos 6 aos 13 anos], quando no nosso estudo encontrámos médias de sono à semana sistematicamente inferiores às 10 horas nestas idades.”

Há diferença da duração de sono à semana e ao fim de semana, o que indica um padrão de restrição ou extensão do sono: sono insuficiente durante a semana, maior compensação ao fim de semana. “Verifica-se que este padrão passa de uma média de 31 minutos nas crianças de 4 anos para uma média de uma hora e 15 minutos nas crianças de 11 anos. Verificámos também um aumento gradual deste padrão, o que significa que a insuficiência de sono à semana se acentua com a idade”, observa no site da UA. O estudo não encontrou diferenças assinaláveis entre sexos ou regiões.

“As durações médias de sono no nosso estudo são também inferiores às que encontramos noutros países europeus”, refere. Os dados, sublinha, “não nos devem deixar propriamente descansados”. A psicóloga defende que é necessário pensar por que razão, em Portugal, as crianças dormem menos do que seria suposto. E adianta as novas tecnologias, que entretanto surgiram, não são responsáveis pelo facto de os horários e durações de sono de hoje serem basicamente semelhantes aos de meados dos anos 90 do século passado. “A possível influência dos horários de trabalho dos pais será uma hipótese a considerar pela investigação futura”, sublinha, a propósito.

 


Entries e comentários feeds.