ASAE deteta 22 menores a consumir álcool e utilização de APP para falsificar identidade

Junho 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Observador de 16 de junho de 2018.

LUSA

A ASAE detetou 22 menores a consumir álcool e a utilização de uma aplicação de telemóvel para falsificar dados do cartão de cidadão. Uma ação onde foram instaurados 12 processos de contraordenação.

A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) detetou 22 menores a consumir álcool na noite de Lisboa e a utilização de uma aplicação de telemóvel para falsificar dados de identificação do cartão de cidadão, foi anunciado este sábado.

Os jovens, com idades entre os 14 e os 17 anos, foram detetados durante uma ação de fiscalização que ocorreu esta semana em Lisboa e que visou a deteção da venda e disponibilização de álcool a menores, adianta a ASAE em comunicado.

Os inspetores viram um homem inconsciente caído no chão à porta de um estabelecimento de diversão noturna que fiscalizaram, devido “a alegada intoxicação alcoólica”. O homem acabou por ser transportado pelos bombeiros para acompanhamento hospitalar e irá ser instaurado um processo de contraordenação ao estabelecimento pela “venda de bebidas alcoólicas a quem se apresente notoriamente embriagado”, adianta a ASAE.

Ainda durante a ação de fiscalização realizada a este estabelecimento foi identificada e conduzida ao exterior uma jovem de 14 anos que, através da utilização de uma aplicação de telemóvel (APP), alterou os dados de identificação do cartão de cidadão, utilizando assim uma identificação “falsa” para aceder ao espaço.

Na sequência desta ação de fiscalização, foram instaurados 12 processos de contraordenação por venda e disponibilização de álcool a menores.

 

Adolescentes: chegou a altura de os deixar sair à noite (mas com regras…)

Dezembro 13, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ de 2 de novembro de 2017.

Agressões, álcool, drogas, acidentes, sexo, sexo desprotegido… Os medos dos pais com as saídas dos filhos à noite é tão natural como o desejo de autonomia dos mais novos. A solução para os deixar crescer sem estar sempre de coração nas mãos passa por três pilares: diálogo, negociação e regras.

Leia também: Os seus filhos querem sair à noite? 5 conselhos práticos

Guilherme tem 17 anos e começou a sair à noite neste ano, depois de muito desafiado pelos amigos. A irmã, Margarida, com 14, já sai e adorava sair mais. «Ele não gosta de confusão, prefere ir a um bar, conversar com os amigos e jogar snooker», diz a mãe. «Ela é afoita e aventureira. Adora dançar.»

Com o Guilherme, as horas de chegada são negociadas caso a caso – chegou uma vez às seis da manhã, no aniversário da prima. Com a irmã as coisas ainda são diferentes. «Não sai à noite sem o irmão e vamos buscá-la sempre à meia-noite. Ainda não é negociável.

Mas às vezes vai dormir a casa das amigas ou elas vêm dormir cá a casa. Assim eu também as vou conhecendo e às famílias.» A diferença nas regras não se deve ao género. Deve-se, sustenta Joana Miranda, 36 anos, à diferença de idades e respetiva maturidade. Não há pediatra ou psicólogo que não diga o mesmo: sair ou não sair não tem que ver só com a idade, mas com a responsabilidade e a preparação de cada adolescente.

Os filhos reivindicam autonomia, os pais percebem até que ponto eles estão preparados para a ter. Sempre foi assim, sempre será. Uma avaliação que o psicólogo Vítor Rodrigues defende que só é possível «cultivando um relacionamento próximo e de respeito mútuo», no qual é essencial os pais enfrentarem os seus próprios receios e irem dando autonomia aos filhos. O especialista garante que muitos dos medos dos pais nascem do facto de eles se projetarem nos filhos. «Receiam, no fundo, que os filhos façam igual ou pior do eles mesmos fizeram. Isso é normal, mas não deve ser um entrave à autonomia.»

Em casa de Joana Miranda, as experiências dos pais, em vez de serem parte do problema, são parte da solução. Fala-se de tudo abertamente e o tema «saídas» foi sendo preparado ao longo dos anos. Ela e o marido, David Soalhães, contam com frequência as próprias peripécias nas saídas noturnas quando eram mais novos e perguntam aos filhos como reagiriam se fosse com eles.

Muitos dos exemplos que contam e perguntas que fazem estão relacionados com uma regra de ouro: evitar confrontos com pessoas alcoolizadas ou que procuram problemas. «Nunca sabemos quem está do outro lado e não vale a pena armarmo-nos em heróis», diz Joana. «Uma vez, numa noite, quando era adolescente, fui abordada na casa de banho por um grupo de raparigas que queriam arranjar confusão. Fiz por fugir dali o mais rapidamente possível. Perguntei aos meus filhos o que fariam no meu lugar. O Guilherme disse que tentaria fugir ou avisar alguém cá fora. A Margarida disse que não saberia o que fazer.»

A questão das drogas nas bebidas, que também preocupa hoje muitos pais, foi outra das que foram abordadas: o mais velho disse que se devia andar com a bebida sempre atrás, a mais nova não sabia que tal coisa existia. Razões, entre outras, para a mãe perceber que com Joana ainda tem de haver muita prudência, com Guilherme pode estar mais descansada.

Esta aproximação de experiências e pais que definem regras mas não proíbem é uma tendência. «As gerações que têm filhos adolescentes são mais flexíveis do que as anteriores. Intuem mais facilmente que regras e prisão são coisas diferentes», diz o psicoterapeuta Nuno C. Sousa. «É frequente que sejam os próprios pais a começar a levar os filhos a saídas noturnas. É uma aproximação de gerações muito construtiva, desde que não se percam os papéis na relação.» Até porque, como lembra, um objetivo pode ser alcançado por vários caminhos. «Se os pais pretendem incutir responsabilidade, será mais fácil através de uma relação de cumplicidade, porque os filhos sentirão uma verdadeira preocupação e não uma imposição de regras para chatear.»

Joana tem uma relação próxima, aberta e de diálogo, mas não deixa que os filhos se esqueçam quem é a mãe lá em casa. Há várias regras e são para ser cumpridas: o álcool não está permitido, as horas de chegada são bem estabelecidas e eles sabem que os pais devem sempre saber onde estão e com quem. Tem tudo corrido bem, mas talvez Joana Miranda tenha uma coisa a seu favor: a formação em coaching, com especialização em educação parental. Claro que isso não a deixa imune a preocupações, mas mais bem preparada para lidar com elas. E a principal preocupação são os excessos.

«O álcool, as drogas e o facto de saber que os adolescentes, quando em grupo, por vezes gostam de se mostrar. Fico preocupada, mas confio neles.» Aquilo que diz para dentro de si mesma é o mesmo que diz aos pais com quem trabalha: «Não se pode pura e simplesmente proibir só porque se sente medo. Faz parte do desenvolvimento deles e proibir é sempre o caminho mais penoso e o que vai gerar maiores confrontos.» Além da confiança nos filhos, a atenuar as preocupações está também está o facto de conhecer os amigos e os pais dos amigos, uma medida que também recomenda a todos os pais.

As preocupações dos pais não estão só nas cabeças deles. Vários estudos – e o senso comum – estabelecem uma associação entre saídas para sítios de diversão noturna e o consumo de tabaco, álcool e drogas. E é por isso que a maturidade dos adolescentes deve ser avaliada. É a única arma que têm para se defender dos riscos que as saídas à noite podem comportar.

A outra parte da história, da qual os pais falam menos, é o sexo. «É natural que na adolescência a ênfase na sexualidade e o despertar do instinto sexual façam recear que os nossos filhos se precipitem em relacionamentos de risco físico e afetivo», diz o psicólogo Vítor Rodrigues. «Os pais sabem que muito disso lhes escapa ao controlo e temem o que é mais difícil de controlar.»

Apesar de tudo, há uma forma de controlo e um tranquilizador que pais de hoje têm ao dispor: o telemóvel. Agora podem telefonar se estiverem preocupados, em vez de ficarem a agonizar no sofá ou a dar voltas na cama. «Apesar de ser um facilitador, não deve ser uma desculpa para estarem constantemente a pedir relatórios do que andam os filhos a fazer», alerta o psicoterapeuta Nuno C. Sousa.

«O segredo está numa negociação prévia equilibrada, que deve ser cumprida por ambas as partes. Determinadas as regras, é extremamente importante que os filhos sintam que há confiança por parte dos pais.» Que é como quem diz: não é para abusar. Se combinou com o adolescente que ele envia um sms às três da manhã, não vale enviar-lhe dois ou três a pedir novidades antes dessa hora, como também não vale ligar-lhe meia hora antes da hora marcada para estar em casa. As regras são para todos.

Para um adolescente, sair à noite ao fim de semana não se resume ao período entre o momento em que sai de casa e o momento em que entra. São as combinações que começam a meio da semana, em que se discutem os sítios onde ir, os amigos que se vão encontrar, as dezenas de mensagem trocadas para saber se o João ou a Catarina também vão lá estar, escolher a roupa para levar, etc. É um ritual – que não tem só problemas, riscos e perigos, também tem benefícios.

«Durante a adolescência a formação da personalidade está intimamente ligada às relações dos jovens com os pares», diz o psicoterapeuta Nuno C. Sousa. «Através do contacto com pessoas diferentes, em contextos diversos, o adolescente vai ganhando consciência do que gosta de fazer, como e com quem. Nas saídas à noite alarga-se a rede de conhecimentos além dos amigos da escola, num contexto em que o tempo de convívio não está limitado pela campainha dos intervalos.»

E depois, mais do que olhar para a questão pela ótica dos riscos e dos benefícios, há que vê-lo como uma inevitabilidade. «Na adolescência estamos a transitar de crianças para adultos e precisamos de desenvolver a nossa identidade. Para isso, temos de sentir e experimentar, não creio que exista outra via», diz o psicólogo Vítor Rodrigues.

Claro que nem sempre isso acontece sem sobressaltos e a tarefa dos pais não é fácil. Ainda assim, a «ditadura benévola» que resulta nas crianças pode ser uma péssima medida, geradora de muita revolta, na adolescência. «A transição para a democracia no lar costuma ser mais útil. Os adolescentes precisam de sentir que têm direito de voto.»

O psicólogo sabe do que fala: tem uma filha adolescente em casa e aquilo que aconselha na teoria é aquilo que também tem feito na prática, um equilíbrio entre respeito e vigilância: «Estar atento, acompanhá-la, combinar horas e lugares de encontro, ir percebendo quais os problemas que pode estar a atravessar e como posso contribuir para que encontre os materiais de que precisa para se autoesculpir.»

COMO AVALIAR O SENTIDO DE RESPONSABILIDADE DOS FILHOS?

  • Estar atento à maturidade que evidenciam a nível afetivo, social, sexual e intelectual.
  • Verificar se manifestam preferência por dizer a verdade, em vez de optarem pela mentira fácil.
  • Perceber se compreendem os riscos envolvidos nas saídas noturnas e avaliar a capacidade que têm para lidar com eles.
  • Não esquecer que todas estas capacidades dos filhos dependem muito do papel dos pais enquanto educadores.
  • Perceber até que ponto assumem responsabilidade pelos seus atos.
  • Avaliar se se mostram capazes de relativizar afetos e acontecimentos.

FONTE: VÍTOR RODRIGUES, PSICOTERAPEUTA

 

 

 

Sexo, drogas e noitadas: sabe o que anda a fazer o seu filho adolescente?

Dezembro 8, 2017 às 3:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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O filme O Fim da Inocência mostra explicitamente como raparigas e rapazes de colégio entram numa espiral de sexo, álcool e drogas sem os pais saberem. Tudo isto logo a partir dos 15 ou 16 anos.

Texto do https://www.noticiasmagazine.pt/ de 22 de novembro de 2017.

Texto Rui Pedro Tendinha | Fotografias Gustavo Bom/Global Imagens

O Fim da Inocência conta a história, baseada em factos reais, de um grupo de adolescentes que experimenta na noite tudo o que os pais mais temem. A adaptação ao cinema do livro de Francisco Salgueiro – o último projeto de Nicolau Breyner mas que acabou por ser realizado por Joaquim Leitão – chega esta semana às salas e consegue mostrar o que muitos nem querem imaginar: uma vida paralela de sexo casual e consumo de drogas nas noitadas.

O que é que os adolescentes de boas famílias fazem na noite a partir das três, quatro da manhã? Muitos pais preferem nem imaginar. Mas, em O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, a adaptação do romance homónimo de Francisco Salgueiro, vemos um caso que pode fazer incidir a luz sobre o flagelo que atinge cada vez mais jovens.

O filme e o livro (talvez mais o livro) mostram explicitamente como raparigas e rapazes de colégio entram numa espiral de sexo, álcool e drogas sem os pais saberem. Tudo isto logo a partir dos 15 ou 16 anos.

E, segundo o autor, tudo é verdade: as festas, as orgias, as pastilhas, os riscos de cocaína e uma dissimulação que engana os pais mais distraídos. O livro [ed. Oficina do Livro, 2010] e, por consequência, o filme, relatam factos verdadeiros de uma adolescente que, depois de ser levada a perder a virgindade aos 15 anos, adota um estilo de vida noctívago repleto de drogas e álcool.

Espelho de uma certa geração com pressa de experimentar tudo mais cedo e com ganas de viver a vida sem pensar no amanhã. Os jovens que não pensam nas consequências e encontramos nos bares de Santos, em Lisboa, ou nas Galerias da Baixa do Porto e que, depois, acabam por ser os mais populares no liceu.

Se esta história que Salgueiro descobriu pode ser um testemunho de uma tendência cada vez mais globalizante, é também uma oportunidade para um exame de como muitos pais podiam – deviam? – ter outra perceção acerca da vida social dos filhos.

O Fim da Inocência chega aos cinemas numa altura em que o cinema de grande público em Portugal tem tido tempos duros, com fracassos atrás de fracassos. Mas o novo filme de Joaquim Leitão (que este ano já viu no final de agosto o seu Índice Médio de Felicidade ser ignorado nas bilheteiras) terá um dos maiores lançamentos do ano e uma campanha forte para chamar adolescentes e pais aos cinemas, sobretudo a pensar no fenómeno que o livro conseguiu – mais de quarenta mil exemplares.

Trata-se de um relato de um grupo de adolescentes abastados de Cascais que reflete uma vida paralela de comportamentos sexuais irresponsáveis, dependência de álcool e droga sem controlo – muito para além dos charros, neste filme circula MDMA, cocaína e ectasy.
Francisco Salgueiro, sem filhos, especialista em livros destinados a jovens, supervisionou a produção do filme.

«Este é o primeiro filme português que atinge um target que não vê filmes portugueses», diz o autor. «O Fim da Inocência é para quem não gosta mesmo de cinema português, o mesmo que aconteceu com o livro, que era para um target dos que nunca liam. Os autores e os realizadores portugueses têm a mania de ser muito mais velhos do que aquilo que são.»

O escritor de 45 anos não foi o responsável pelo argumento (Roberto Pereira, de A Mãe é que Sabe foi o escolhido), mas teve um papel ativo no casting, cuja primeira fase contou ainda com Nicolau Breyner, que esteve para realizar o filme. O Fim da Inocência foi a obra que a morte não deixou que fosse de Nico.

Oksana Tkash, Rodrigo Paganelli, Joana Barradas, Francisco Fernandez, Raquel Franco e Joana Aguiar são estrelas para um público juvenil depois de participações televisivas em séries e telenovelas. Ficaram famosos sobretudo nesta altura em que as redes sociais e as suas gestões criam casos de culto que passam ao lado da imprensa. Para já, têm uma habilidade tremenda: na câmara de Leitão parecem mesmo adolescentes (Raquel tem 26 anos, Joana e Francisco 19).

Juntos, estes atores mostram um entrosamento grande. A maior parte já se conhecia de trabalhos na televisão e conseguiram uma boa química durante as filmagens, em agosto. Garantem que nunca se portaram como as personagens em perdição deste caso verídico, mas são os primeiros a dizer que nada do que se passa aqui é fantasia. «Há aquele lema agora de que o pessoal quer fazer tudo num só dia, não deixar nada para amanhã», diz Francisco Fernandez, com 19 anos, o mais novo dos rapazes, mas a opinião é partilhada por todos.

Raquel Aguiar, 26 anos, comunga dessa ideia de que a geração que veio a seguir à sua quer tudo mais rápido. «As situações que vemos no filme existem e há que falar e expô-las, mesmo que não possamos generalizar. Existe e não é só no Porto e em Lisboa. Trata-se de um fenómeno generalizado.» Um fenómeno que os pais desses adolescentes nem imaginam. Ou não querem, lembra Francisco Salgueiro.

Rodrigo Paganelli, que interpreta um dos «maus rapazes» disposto a experimentar tudo, fala da pressão de uma sexualidade imposta. «O filme trata muito bem da pressão de ter de fazer muito mais do que a vontade deles. Todos falam de sexo e se não tiveres assunto aí sentes-te fora das conversas. Há uma obrigação cada vez mais cedo e não acho normal miúdos e miúdas de doze anos perderem a virgindade. Não me cabe na cabeça!»

O grande risco deste elenco estará, eventualmente, na protagonista, Oksan Tksah, uma jovem de 20 anos de origem ucraniana descoberta no mundo da moda. De todos, é quem tem menos experiência e consegue dar vida à Inês, a rapariga inocente arrastada para uma vertigem de sexo e drogas ainda antes dos 16 anos.

«Cresci no Alentejo e a dada altura tive de cuidar sozinha do meu irmão. Nunca estive perto desse mundo que o filme mostra. Não tenho mesmo nada a ver com a Inês nem nunca saí muito à noite. Quando me vi no trailer pela primeira vez apanhei um choque! Tenho receio de como as pessoas me vão julgar como atriz.»

Oksana nem sequer sabe se quer voltar a representar, agora que está a tirar Ciências Políticas na Universidade Católica. E tem também uma inquietação: «vejo o meu irmão, que agora tem dez anos, e fico espantada como as crianças têm acesso a tudo com uma velocidade enorme. Aliás, ao longo do filme percebi que sou super conservadora!»

O que Francisco Salgueiro descreve não se trata apenas de um pesadelo de uma certa camada social. Estes jovens podem ser betinhos de Cascais, mas quem sai à noite num after-hours percebe que «essa juventude perdida» inclui todas as classes.

É como se houvesse um desígnio comum de hedonismo automático, de querer pisar os limites ou querer seguir uma moda de mau comportamento. E não deixa de ser curioso o filme chegar na altura em que se discute também o problema da segurança na noite com o caso da discoteca Urban Beach.

mais fotos no link:

https://www.noticiasmagazine.pt/2017/sexo-drogas-e-noitadas-filho-adolescente/

 

 

“Há jovens que já bebem uma garrafa de destilados por dia”

Novembro 13, 2017 às 2:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://expresso.sapo.pt/ a Francisco Henriques de 11 de novembro de 2017.

Joana Pereira Bastos

Texto

Marcos Borga

Fotos

A Unidade de Alcoologia de Lisboa, o primeiro centro de tratamento do alcoolismo a abrir em Portugal, completa 50 anos na próxima semana. E, ao contrário do que acontece com a toxicodependência, o problema não está a diminuir. O consumo está a aumentar entre as mulheres e há uma perigosa mudança de padrão entre os jovens, alerta Francisco Henriques, diretor da consulta.

O que mudou na relação dos portugueses com o álcool nestes 50 anos?
Nessa época, muitos começavam a beber ainda em criança. Isso melhorou. Há uma maior consciencialização, e a idade média de início do consumo está agora nos 16 anos.

Ainda assim, o consumo está a aumentar.
É verdade, sobretudo entre as mulheres, o que é preocupante, já que o risco de ficarem dependentes é maior. O seu metabolismo é mais vulnerável.

A toxicodependência está a baixar. Por que razão não acontece o mesmo com o álcool?
Há uma mudança de padrão. As pessoas estão a deixar de usar tanto as drogas ilícitas e voltam-se mais para o álcool. É mais barato e mais bem aceite.

O número de portugueses em tratamento por dependência do álcool é o mais elevado de sempre. Como se explica?
Estamos a detetar o problema mais cedo. Mas, embora haja muita gente em tratamento, há um número muito elevado que nunca chega a tratar-se, porque não tem consciência do problema. A dependência começa muito devagarinho.

Como?
Com a experimentação na adolescência, as pessoas descobrem que ficam mais bem-dispostas ou sentem-se mais tranquilas com álcool, e a tendência é repetir. Há pessoas que têm uma espécie de marcador que as faz parar, sem esforço, ao fim de um ou dois copos, porque não lhes apetece mais ou não ficam tão bem-dispostas. Essas não vão ter um problema de dependência. Quem o pode ter são as pessoas que não têm esse travão biológico e vão aumentando a tolerância. Ao fim de um tempo, um copo já não faz efeito, são precisos dois, e a tolerância vai subindo até haver consequências.

Estima-se que 300 mil portugueses têm consumos de risco. Em que é que isso se traduz?
A Organização Mundial da Saúde estabelece como limite uma unidade de álcool por dia no caso das mulheres e duas no caso dos homens. Nesse sentido, se uma mulher bebe, em média, três ou quatro copos, já está numa situação de abuso, o mesmo acontecendo no caso dos homens com cinco ou seis.

Tanto faz ser cerveja ou uísque, por exemplo?
Sim. A cerveja tem 4,5 graus de álcool, mas são 33 centilitros, enquanto o uísque tem 40 ou 45 graus, mas são quatro centilitros. Ou seja, o uísque é dez vezes mais forte, mas uma garrafa de cerveja tem dez vezes mais volume, portanto equivalem-se. Mas as pessoas acham que só bebem vinho bom ou só bebem cerveja, e por isso está tudo bem. Não está.

O que mudou no padrão de consumo dos jovens?
Durante muitos anos, o álcool era a forma de afirmação dos rapazes quando começavam a conviver com os homens, no café ou na taberna. Beber intensivamente nas discotecas é agora a nova forma de iniciação. É o chamado binge drinking, que passa por uma intoxicação alcoólica aguda e muito rápida.

É um padrão mais perigoso?
Penso que sim. Beber ao longo do dia, ao almoço e ao jantar, é um padrão do Sul da Europa. Mas estamos a desenvolver cada vez mais um padrão de consumo intensivo, concentrado à noite ou ao fim de semana. Durante a semana, portam-se bem, mas embriagam-se à sexta e ao sábado. Como só bebem ao fim de semana, acham que não têm nenhum problema.

E têm?
Podem ter. A questão não tem que ver com o calendário dos consumos. Tem que ver com o facto de, quando começa a beber, a pessoa não conseguir parar. E de beber apesar das consequências. Apesar de a mulher pedir para não beber, de os filhos se queixarem, de no trabalho se começar a notar, etc.

O alcoolismo pode aumentar?
É possível que haja um agravamento dos consumos. Há uma parte da população que pode desenvolver um grave problema de dependência numa idade precoce, jovens que aos 20 e poucos anos têm um consumo médio de uma garrafa de destilados por dia. Já temos casos na unidade.

 

 

 

Adolescentes alcoólicos

Novembro 6, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Reportagem do http://expresso.sapo.pt/ de 15 de outubro de 2017.

Catarina Guerreiro

À noite, na zona de Santos, em Lisboa, as ruas enchem-se de adolescentes e copos. Cerveja, vinho, sangria e misturas. Alguns acabam alcoolizados no hospital. É assim de norte a sul do país: todos os meses há miúdos a chegarem às urgências com intoxicações ou comas alcoólicos. Os mais novos não têm ainda 13 anos

No passeio, puseram-se os dez numa roda. Cada um pegou no pequeno copo com líquido escuro, ergueram-nos ao centro, brindaram à mais nova de entre eles e beberam a mistura num gole. Era o ritual de um grupo de primos e aquele estava a ser o batismo de J., de 14 anos. Dentro do copo havia C 24, uma mistura de vodca preto e limoncello. Sempre que um deles completa 14 anos é assim: reúnem-se num bar e iniciam-no no mundo dos shots — dose de bebida alcoólica que se consome num só gole. Eram 00h28 da madrugada do último sábado quando J. engoliu em menos de um segundo o seu primeiro shot. Gritaram o nome dela e incentivaram-na. “Bebe, bebe…”

Estavam no Largo de Santos, em Lisboa, onde à noite se juntam muitos adolescentes. A uns metros de distância, a praceta na Avenida D. Carlos I estava cada vez mais cheia e animada com miúdos, de idades entre os 13 e os 17 anos. Desde as 22h30 que começaram a chegar. Na mão tinham copos de cerveja (uns mais pequenos, outros de meio litro) que compravam nos bares do lado oposto da rua. Alguns seguravam garrafas de vinho e outros ainda garrafas de vidro de um litro de cerveja — “litrosas”, como lhes chamam. Apareceram três miúdas com uma garrafa de plástico, de rótulo cor de laranja e imagens de fruta. “É sangria de vodca branco”, desvendaram. E continuaram: “Comprámos no indiano a caminho daqui.” A maioria tinha 15 e 16 anos e, por isso, estão totalmente proibidos de comprar álcool pela lei. Mas conseguem sempre: ou não lhes pedem identificação ou tratam de contornar o problema. “Arranjamos forma. Nem que seja pedir a um maior de idade que o faça.”

Um grupo de seis rapazes divertia-se a meter-se com as raparigas. Um deles exibia, orgulhoso, o charuto que trouxera de casa. Outro corria sorridente enquanto ia buscar mais uma cerveja a um dos bares, onde a afluência era tanta que parecia difícil chegar ao balcão. Mas conseguiu. E saiu de lá com a sua quinta cerveja. “Já estou a ficar acelerado”, avisava. Uns estavam mais calmos, outros não escondiam que gostam de beber sem limites. “Outro dia, bebi sozinho quase uma garrafa de whisky. Apanhei uma bebedeira e quando cheguei a casa vomitei imenso”, contava um dos miúdos, com ar de ‘menino bem’. Os adolescentes estavam em grupos, espalhados pela praceta. Ouviam-se gargalhadas, gritos. “Vou buscar um vodca”, anunciava alto uma miúda que não parecia ter mais de 15 anos. O amigo, ao lado, com um jarro de vidro de sangria na mão, começava a dar sinais do que já bebera. Cambaleava e, ao tentar pegar no telemóvel de uma amiga, deixou-o cair ao chão. Já passava da meia-noite e meia. O espaço, com bancos de madeira corridos e umas mesas de madeira com cadeiras, estava cada vez mais concorrido. Parecia o recreio de uma escola secundária. Mas em vez de ser de dia, era de noite; e em vez de livros, traziam nas mãos copos com bebidas alcoólicas. Alguns fumavam. Ali não havia restrições. “Às vezes, há uns que abusam muito e acabam a noite no chão”, descrevia A, de 16 anos, que, apontando para a berma da estrada, onde alguns se encontravam sentados, explicava: “Já vi aqui alguns em coma alcoólico.”

O número de adolescentes com excesso de consumo de álcool que dão entrada no Hospital Dona Estefânia, para onde são enviadas as crianças apanhadas naquela zona, confirmam o cenário: todos os meses entram pela porta da urgência pediátrica, pelo menos, cinco adolescentes com intoxicações alcoólicas agudas e alguns em coma alcoólico. Em 2016, o hospital registou 65 casos, e nos dois anos anteriores mais 132 (60 em 2015 e 72 em 2014). A maioria tinha 15 anos, mas dois deles eram crianças de 11 anos. E 39% tinham mais de 2 gramas de álcool por litro de sangue (g/l). O caso mais grave foi o de um adolescente que registou 3,84 g/l e que esteve em coma alcoólico. Há situações ocasionais, mas outras são mais preocupantes e têm de ser seguidas de perto, explica a pedopsiquiatra Neide Urbano, do Hospital Dona Estefânia, a médica que fez o levantamento sobre as ocorrências com esta substância, tema a que se tem dedicado. “O álcool atinge o sistema nervoso central e, em miúdos vulneráveis do ponto de vista da saúde mental, potencia comportamentos como a agressividade, a automutilação, a depressão e às vezes é o gatilho para quem tem tendências suicidas”, garante a médica.

Doze anos, 1,56 gramas de álcool

O fenómeno repete-se por todo o país. Na urgência pediátrica do Hospital de São João, no Porto, entre 2011 e 2015 deram entrada 346 adolescentes com álcool a mais. “E 8% tinham antecedentes de consumo”, nota o diretor da urgência, Luís Almeida Santos, para quem a situação “é muito preocupante”. “Estamos a falar de crianças bêbadas”, alerta, explicando que nesta análise verificou-se que os adolescentes de 12 anos que deram entrada na urgência tinham em média 1,56 g/l de álcool no sangue. Já a média dos de 13 anos foi de 1,46 g/l; a dos miúdos com 14 anos situou-se em 1,79 g/l; a dos de 15 ficou pelos 1,64 g/l; a dos 16 anos atingiu os 1,65 g/l; e a dos de 17 anos posicionou-se nos 1,68 g/l. Valores muito elevados, avisam os médicos. Basta ver que os condutores com menos de três anos de carta são multados quando têm mais de 0,2 g/l e todos os outros a partir de 0,50 g/l. E quem revelar 1,2 g/l é acusado de um crime.

“Houve miúdos que chegaram com taxas entre os 0,5 e os 3,8 g/l de álcool”, recorda o diretor da urgência, acrescentando que 40% foram situações com alguma ou muita gravidade, “com alterações do estado de consciência e sujeitos a exame neurológico”. Almeida Santos está agora a analisar os processos clínicos do ano passado para concluir as estatísticas de 2016. Mas o fenómeno não parece estar a diminuir. Aliás, 2015 foi o ano em que o São João registou mais casos: 87 num ano. Ou seja, todos os meses, sete ou mais adolescentes deram entrada alcoolizados.

O mesmo se passa no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho, onde em 2016 apareceram “20 adolescentes com alteração do estado de consciência”, refere Hugo Tavares, de 40 anos, pediatra e responsável pela consulta do adolescente, para onde são encaminhados os miúdos que surgem nas urgências com excesso de álcool. Para medir a gravidade da situação e o estado de coma, os médicos usam uma escala chamada de Glasgow: através da observação das capacidades ocular, verbal e motora são atribuídos pontos. Quinze é considerado normal; a partir de 11 começa o estado de coma superficial, 8 significa que se perdeu reflexos vitais — como o de se impedir que o vómito vá para os pulmões; e com valor de 3 significa uma coma profundo.

Hugo Tavares concluiu um trabalho sobre os episódios que chegaram à urgência entre 2008 e 2016, para apresentar no Congresso Nacional de Pediatria, que se realiza no final deste mês. A maioria surgiu nas urgências à noite, ao fim de semana, ou em épocas de festivais e festas populares. A média de taxa de alcoolemia foi de 1,584 g/l. Mas um rapaz chegou com 2,74 g/l. Entre os embriagados havia uma criança de nove anos. As cenas vividas nas urgências revelam os perigos em que os adolescentes se colocam. Ao Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, chegou um miúdo, transportado pela polícia, que estava embriagado a dormir na estrada, “como se estivesse em casa”, e deu entrada uma rapariga que bebeu álcool a mais e foi tomar banho ao mar. “Podia ter morrido afogada”, nota Hugo Tavares, garantindo que muitos jovens estão a aderir ao binge drinking: “Ingerem grande quantidade de álcool de forma súbita. Três, cinco, até sete bebidas de uma só vez.” Uma tendência que, assegura, tem um enorme “impacto, porque leva a consumo de grande quantidade de álcool antes de terem tempo de começar a sentir os efeitos do álcool”.

Foi provavelmente o que aconteceu a T., um rapaz de 16 anos que entrou em coma alcoólico. Estava com amigos numa feira em Santarém quando, a meio da noite, caiu e acabou internado no hospital. Bebeu sete cervejas e depois “empurrou tudo com 12 shots de absinto” e bebeu-os em pouco mais de 10 minutos. Não tardou até estar dentro de uma ambulância. Lembra-se de começar a ver tudo à roda, de ter momentos em que via tudo preto, de vomitar e de se sentir estranho. Mas a partir daí não se lembra de mais nada. Caiu, fez um traumatismo craniano e desmaiou. Foi levado para o Hospital de Santarém, onde os pais o foram buscar mais tarde. Ficou de castigo, apanhou um susto, mas não o suficiente para deixar de beber. Mas, para muitos, garante Hugo Tavares, passar por uma intoxicação destas é uma lição. O problema, diz, é que se cria uma falta de confiança entre os pais e filhos que às vezes é difícil recuperar. “Por isso estas consultas de adolescentes são importantes, pois também ajudam os pais.”

Naquela madrugada de sábado em Santos, no centro de Lisboa, ninguém parece preocupado com os riscos do que está a fazer. “Nós controlamos bem a bebida”, diz M., de 15 anos, enquanto dá mais um golo na sua garrafa de plástico cheia de sangria. Nas escolas é raro ouvirem falar dos perigos do álcool, contam.

Nas mãos da polícia

“É um grave problema de saúde pública. Mas a forma como estamos a passar a informação não dá. Assim não vamos lá”, diz Rui Tato Marinho, hepatologista e autor de vários estudos sobre os perigos do álcool para a saúde. “O consumo excessivo está ligado a mais de 100 doenças”, garante, dando o exemplo de cirroses alcoólicas, cancros, infertilidade. “E há riscos de morte súbita — que já vi acontecer no Hospital de Santa Maria — e de asfixia pelo vómito”, avisa, aproveitando para recordar um estudo da Universidade de Boston, onde se conclui que quem começa a beber com menos de 14 anos tem cerca de 50% de probabilidade de ficar dependente mais tarde. “A única hipótese é restringir mais o consumo”, defende Tato Marinho, notando que a. lei não está a ser eficaz.

É também essa ineficácia que a subcomissária da 1ª Divisão da PSP, Aurora Dantier, de 52 anos, admite testemunhar nas operações que faz durante a noite no Bairro Alto e em Santos, exatamente nos bares ao pé da Praceta D. Carlos I. Por estas zonas encontra regularmente cenas degradantes: menores a caírem de bêbados e a vomitarem, alguns em coma alcoólico; taxistas que não sabem o que fazer a adolescentes embriagadas que não conseguem explicar onde vivem. E, por vezes, chegou a ficar estupefacta quando lhe apareceram pais, a quem ela telefonou para irem buscar os filhos, completamente embriagados. “Não se mudam mentalidades com decretos”, diz Aurora Dantier. A subcomissária costuma fazer operações de vigilância de menores que estão na noite sem supervisão de adultos e é acompanhada por técnicas da comissão de proteção de menores, que com ela integram o projeto Sem Rótulos, para ajudar a prevenir situações de maior perigo. É comum a subcomissária entrar num bar e fazer na rua um perímetro de segurança. “Só deixo os adolescentes irem embora quando um adulto o for buscar.” Além disso, notifica por escrito os pais de todos os menores que forem encontrados a beber, como manda o artigo 7º da Lei 50/2013, que define a venda e o consumo de bebidas alcoólicas. Na última operação que liderou, estavam 20 ou 30 miúdos nessa situação.

P. de 16 anos, já esteve algumas vezes no sítio errado à hora errada e apanhou as operações da subcomissária. “Fazem uma espécie de quadrado e ficamos ali retidos até os nossos pais nos irem buscar.” Na madrugada do último sábado não houve ações policiais em Santos. Por isso, à medida que as horas corriam, o som das garrafas de vidro partidas no chão aumentava. Já passava da uma da manhã e se alguns ainda se comportavam, outros já davam sinais claros do que tinham bebido. E atravessavam a estrada a correr, a rir e a gritar, sem olhar para carros que passavam e sem noção de que podiam ser atropelados. É essa falta de avaliação do risco, dizem os especialistas, um dos perigos do excesso de consumo. “Com o álcool, eles têm comportamentos de risco no sexo, na condução, na agressividade”, nota Helena Fonseca, pediatra, responsável pela consulta do adolescente no Hospital de Santa Maria e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. “O álcool é o inimigo número 1”, avisa.

Ao Hospital de Viseu, por exemplo, já chegou um rapaz de 17 anos em estado grave por causa de um acidente de mota, resultado do seu estado de embriaguez. E outro entrou, numa madrugada, nas urgências a convulsionar. “Temos de estar muito atentos porque nestes casos há risco de hipoglicemia”, descreve Alzira Ferrão, de 58 anos, diretora do serviço de pediatria do Hospital de Viseu, onde aparecem também casos de adolescentes muito novos. Não há muito tempo, um casal foi ao hospital com o filho de 10 anos a cambalear. Estava de férias e teve acesso a bebidas alcoólicas através de amigos. O consumo que é feito pelos adolescentes preocupa-a e o hospital tem protocolos com as escolas da zona, onde a sua equipa costuma ir uma vez por semana falar com os alunos. Além disso, fazem sessões de formação nos estabelecimentos de ensino e no próprio hospital, para professores, pais e estudantes. “Tentamos mostrar-lhes que o álcool é tóxico e afeta as células.” Por isso, num dos filmes passam a imagem “de um neurónio a ser regado com gotas de álcool e a atrofiar”.

Da sua experiência, consegue perceber que grande parte dos casos são ocasionais e ficam internados menos de 24 horas, mas outros são mais complexos. “Já me disseram que bebem para esquecer.” Alzira Ferrão quer fazer um levantamento dos casos que entraram nos últimos anos nas urgências para comparar a situação com a que está descrita no último estudo feito no hospital de Viseu, que avaliou 74 casos entre 2006 e 2010. A taxa média de álcool foi de 1,78 g/l e 51% tinham consumido shots. Houve registo de escoriações, traumatismos e casos mais problemáticos, como uma fratura do osso frontal, que pode deixar sequelas. Não é assim tão raro, ocorrem acidentes graves.

No Centro Hospitalar de Setúbal, o pediatra José Freixo não esquece o que sucedeu a um rapaz de 16 anos que apareceu alcoolizado e com ataques epiléticos, e que teve de ser operado ao cérebro. O médico dá consultas de adolescentes no hospital, mas lamenta que metade não apareça. São reencaminhados pelos médicos que os atendem na urgência. Joana Cachão, de 29 anos, é interna na especialidade de pediatria neste hospital e já teve nas mãos algumas situações. “Em regra, são intoxicações leves e fazemos hidratação e aquecimento”, explica. Há uns tempos, ela e outras médicas fizeram um estudo sobre o tema: analisaram os processos clínicos dos 99 adolescentes que chegaram com excesso de álcool, entre julho de 2011 e julho de 2015. Desde então, já atendeu alguns.

O último foi um rapaz de 16 anos que apareceu embriagado e a vomitar sem parar. Ficou a descansar e a avó foi buscá-lo perto das seis da manhã. Sabia que o neto tinha ido sair e beber uns copos, mas nunca pensou que acabasse assim. Foi também com surpresa que os pais de uma estudante chegaram recentemente ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para irem buscar a filha, que ali estava deitada numa cama com intoxicação alcoólica, fruto das festejos das praxes. Tinha bebido sangria a mais. “Tu?”, perguntaram, incrédulos, os pais quando chegaram ao pé dela, na enfermaria da urgência pediátrica. Foram ajudados pelo psicólogo que todos os dias passa pelas salas da urgência e que, entre outros casos, auxilia pais e crianças a lidar com os problemas que resultam destas situações. “Os miúdos acham que desiludiram os pais”, explica Gabriela Araújo e Sá, diretora da urgência pediátrica do Hospital de Santa Maria, onde todos os meses chega um adolescente com intoxicação alcoólica aguda.

Para estes casos, o serviço tem um protocolo de atuação estabelecido, refere, por seu lado, Celeste Barreto, diretora do Serviço de Pediatria, que define os exames a pedir, os passos a seguir e os sinais a observar. Um adolescente que apresente 0,5 a 1 g/l tem alterações da coordenação e desinibição; entre 1 e 1,50 revela desequilíbrio, entre 1,5 e 2, mostra letargia e dificuldade em estar sentado, com 3 entra em coma e com 4 a 7 corre risco de depressão respiratória. Uma atuação que segue as regras impostas em julho passado por uma orientação que a Direção-Geral de Saúde enviou para os hospitais, onde explica que estas intoxicações são um grave problema de saúde e impõe normas de procedimento.

“Sabe a álcool etílico”

Alheios a todas estas regras, naquela noite os miúdos continuavam a divertir-se em Santos. Entravam e saíam dos bares. São 1h20 quando J, de 14 anos, e os primos que a batizaram continuam no ritual. Entraram noutro bar e beberam todos um shot, desta vez cor-de-rosa. Entretanto, em grupos, dezenas de adolescentes dirigiam-se para a zona das discotecas na Avenida 24 de Julho. “Eh pá, o meu pai disse-me para eu não beber”, comenta uma adolescente com os amigos, enquanto dá um gole no copo que tem na mão. Não seguiu o pedido do pai: está embriagada e deita-se no chão da avenida. A um canto, um pouco atrás, uma outra adolescente, de 16 anos, vomita para poder continuar a noite, enquanto uma amiga aguarda pacientemente ao seu lado. Sentados no chão e num círculo, vários miúdos jogam à roleta com a garrafa e vão dando beijos uns aos outros. Num bar ali perto nota-se uma correria de entra e sai. “Vai lá buscar sete shots para nós”, pede uma miúda ao rapaz do grupo. Bebem cada um o seu, num gole. “Eh pá, isto sabe mesmo a álcool etílico.”

É natural, explica Luís Patrício, psiquiatra. “O álcool das bebidas é igual ao da farmácia, etanol, que é um químico neurotóxico”, explica o médico que se tem dedicado ao projeto ‘Mala da Prevenção’, através do qual tenta alertar para a grave realidade do consumo de álcool por menores. Em vídeos que costuma divulgar, tenta passar uma simples mensagem: “Até 0,5 g/l vem a euforia; com 0,5 a um grama chegam as perdas de memória, de atenção e de juízo; entre 1 e os 3 g/l começa a diminuição da marcha, da visão, da fala; com 3 a 5 g/l vem a falta de reflexos; e com mais de 5 g/l vem a morte”.

Os miúdos não fazem ideia, garante. Alguns são até novos demais. R está com amigos numa fila para a discoteca, mas nenhum, admitem tem 16 anos, a idade permitida para entrar. “Temos bilhete de identidade falsos”, acabam por confessar. Na realidade têm 14 anos, desvenda R, enquanto aponta para um outro grupo: “Aqueles ali são de 2004.” Ou seja, têm 13 anos. Segundo um estudo de 2015, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), coordenado por Fernanda Feijão, o álcool continua a ser a substância mais consumida pelos adolescentes das escolas públicas. E 31% dos alunos com 13 anos já experimentaram álcool, especialmente cervejas e misturas. Num inquérito de 2015, feito em 35 países europeus por um grupo de trabalho de especialistas (Espad — The European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs), 47% admitiram que consumiram álcool aos 13 anos e um em cada 12 estudantes europeus contou que teve uma intoxicação alcoólica com essa idade.

Começam a beber para serem aceites pelos amigos, funcionando muitas vezes como uma espécie de ritual, acredita Teresa Goldschmidt, pedopsiquiatra do Santa Maria, notando que em muitas famílias é aceite com naturalidade que os adolescentes bebam álcool. Nem todos os casos acontecem de noite, alguns dão-se no horário da escola. No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, Sofia Costa Lima, diretora da urgência pediátrica, conta que já aparecerem miúdas embriagadas à tarde. E, em Gaia, o pediatra António Vinhas lembra-se do caso de uma adolescente que foi de visita escolar ao parque biológico e acabou a ser levada para o hospital por uma professora, com álcool a mais.

Com o andar da noite, na Avenida 24 de Julho sente-se por vezes o cheiro a haxixe, que vem dos charros que os miúdos acendem e partilham. Pelo meio, fazem diretos para o Instagram, tiram selfies. A noite corre. Eram 3h17 quando o funcionário de um dos bares mais concorridos junto à Praceta D. Carlos I varria o chão, cheio de copos de plástico consumidos daquela noite. S. tem 31 anos e passou por um grave problema de álcool. Teve de se submeter a um tratamento e hoje diz que se sente bem e consegue beber com moderação. Mas viveu momentos complicados quando foi ao médico com uma depressão e descobriu que tinha problemas com o álcool. Ao olhar para trás, recorda-se bem como tudo começou. “Tinha 15 anos e comecei a beber shots.”

 

 

Como gerir as saídas à noite dos seus filhos

Agosto 2, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://lifestyle.sapo.pt/

Entre a vontade dos adolescentes e a apreensão dos pais – a arte da negociação.

A partir de determinada idade, os adolescente querem, e começam, a sair à noite. Mas este aspeto, tão banal na nossa sociedade, é visto muitas vezes com apreensão por parte dos pais. O filho fica fora do controlo dos pais e na companhia de outros adolescentes, nem todos com os mesmos princípios e valores que os pais tanto se esforçaram para ensinar e incutir no seu filho. E as tentações são muitas, a começar pelo álcool e pelo contato com desconhecidos, por vezes com aspeto bem simpático mas dos quais não se conhece nada.

Estabelecer regras é fundamental

Um aspeto fundamental, antes de começarem as saídas, é, segundo o pediatra Paulo Oom, «o estabelecimento de regras precisas sobre a forma como os filhos se devem comportar. A hora de saída e de chegada, como vão e como (e com quem) vêm, com quem devem (e não devem) estar, e principalmente como se devem comportar, são aspetos que devem ser combinados com antecedência». A maioria dos jovens vai achar os conselhos dos pais «uma seca» e portanto cabe aos pais conseguir estabelecer algumas regras e limites de uma forma agradável.

Qualquer regra deve ser elaborada em conjunto com os filhos. «É importante que eles sintam as regras como necessárias, racionais e razoáveis, para assegurar que sejam cumpridas», afirma Paulo Oom. Da mesma forma, as regras devem ser simples e concretas, dizendo respeito a assuntos específicos (tipo «deves estar em casa às 2 horas») e não abstratos (do género «tens de estar em casa cedo»).

«É também importante que as regras sejam feitas pela positiva, pois a sua aceitação é melhor e os mal-entendidos menos frequentes», explica o especialista. É preferível dizer diretamente o que queremos como «tens de vir de táxi», do que «não podes vir de boleia com o Rodrigo», o que deixa campo aberto para que possa vir de boleia com outro amigo qualquer, a pé, de autocarro ou de metro.

As consequências do não cumprimento

Devem ser estabelecidas com antecedência, para que todos saibam, as consequências do não cumprimento de alguma regra. «Esta consequência deve ser justa e proporcional, por exemplo “não sais à noite na próxima semana” em vez de “não sais mais à noite estas férias” ou o impossível “nunca mais sais à noite”, que ninguém leva a sério e apenas desautoriza os pais», aconselha o pediatra.

Os filhos devem conhecer bem os limites que os pais estabelecem para que não haja ambiguidades. Se não estão em idade de consumir álcool não o devem fazer, se já têm idade para isso devem ser responsáveis, estabelecendo com os pais o que significa «ser responsável».

Com que idade podem começar a «sair à noite»?

A idade a que um adolescente começa a «sair à noite», o que significa chegar a casa depois da meia-noite, é muito variável de família para família. Paulo Oom defende que «parece sensato que não seja antes dos 14 anos pois antes desta idade não existe habitualmente maturidade para lidar com alguma situação inesperada». Mas isto não significa que tenha de ser obrigatoriamente nesta idade. «Se o jovem não mostrar grande interesse por este tema, os pais devem adiá-lo até surgir a primeira oportunidade», recomenda. Não há necessidade desta regra ser diferente para rapazes ou raparigas, devendo estar dependente, isso sim, do seu grau de maturidade e capacidade de lidar com os problemas.

Com que frequência deve o adolescente sair?

A frequência de saídas deve ser previamente combinada e ir aumentando com a idade. Se aos 14 anos deve ser muito esporádica, por ocasião do aniversário de um colega, por exemplo, a frequência pode ir aumentando gradualmente. É claro que «em tempo de aulas deve ser uma exceção e em altura de férias pode ser mais liberal», sugere Paulo Oom.

A guerra das horas de chegada a casa

A que horas a que deve estar em casa é outra batalha frequente: o adolescente quer sempre mais tarde, os pais querem sempre mais cedo. Aos 14 anos este não é um aspeto a negociar. «Os pais estabelecem a hora que consideram apropriada e o filho ou a filha tem de aceitar esse facto. Ou em alternativa fica em casa», explica o pediatra. A partir dos 16 anos é normal existir já alguma negociação.

Negociação e aspetos inegociáveis

Algumas coisas não são negociáveis: não saber com quem vai e com quem vem, ou não saber a que horas vem, são alguns exemplos. Mas outros aspetos podem ser discutidos, se não existir previamente uma regra para eles. «Saber com quem vai e com quem vem de uma festa é importante. Os pais não precisam de saber os nomes, idades e moradas de todos eles, mas devem conhecer pelo menos um ou dois e saber os números dos seus telemóveis para o caso de precisarem de contactar o filho e ele não atender o telefone», defende Paulo Oom. Também aqui pode existir alguma resistência, pois o adolescente pode achar que os pais estão a querer controlá-lo. O que os pais têm de explicar é que o fazem apenas por uma questão de segurança, para a eventualidade de ser preciso, e que em condições normais não fazem tenção de utilizar aquele contacto.

Nos mais novos, «os pais devem fazer um sacrifício e ir buscar o adolescente à saída da festa ou da discoteca, nem que seja às duas da manhã», diz o pediatra. É útil conhecer um ou dois pais de colegas do filho e combinar com eles quem vai buscar todos de uma vez e os distribui pelas respetivas casas.

Em caso de pais separados

No caso de pais separados, o ideal é os dois (pai e mãe) estarem de acordo sobre as regras a seguir. No caso de não ser possível existir este consenso, devem existir regras em casa da mãe e regras em casa do pai e a criança deve cumpri-las consoante o ambiente em que se encontra.

Saídas de irmãos

Um caso especial para os irmãos que pretendem sair juntos. Neste caso, o mais velho deve assumir a responsabilidade de olhar pelo mais novo e servir de exemplo. Se o mais velho já tem carta de condução, pode igualmente ser responsável por o trazer a casa à hora combinada.

REGRAS DE OURO

  • Devem existir regras concretas sobre o «sair à noite», combinadas com antecedência com o adolescente.
  • O adolescente pode começar a sair à noite a partir dos 14 anos, mas esta idade depende do seu grau de maturidade e capacidade de resolver problemas.

É altura de os deixar sair à noite (mas com regras…)

Julho 19, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 16 de julho de 2017.

É altura de os deixar sair à noite mas com regras

VII Congresso e XXIV Jornadas da Sociedade Portuguesa de Alcoologia | Lisboa | 20, 21 e 22 de Outubro

Outubro 7, 2016 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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spa

mais informações no link:

http://spalcoologia.pt/553/vii-congresso-e-xxiv-jornadas-da-sociedade-portuguesa-de-alcoologia/

Quando um adolescente sai à noite

Setembro 7, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no http://ionline.sapo.pt/ de 30 de agosto de 2016.

mario

Tão terrível como a banalização do mal é a impunidade descarada e arrogante ou o hábito de resolver as coisas com atropelamentos e pontapés na cabeça.

De um momento para o outro, parece que o país foi varrido por uma onda de crimes cometidos por adolescentes, quase como se a “licença para matar” não fosse apenas o que distingue o famoso “Double-O-Seven” (007) dos outros agentes de sua majestade. Para lá do caso dos “gémeos iraquianos” (como ficou conhecido, porque pouco interessa quem eram, não fosse dar-se o caso do imbróglio da imunidade diplomática e toda a discussão à volta disso), há dias, mais um adolescente foi, ao que se sabe, esmurrado com uma soqueira por um outro adolescente e atirado para os cuidados intensivos do hospital, depois de até ter sido dado como morto pela PSP. Escrevi aqui, há semanas, sobre a banalização do mal. Tão terrível como ela é a impunidade descarada e arrogante ou o hábito de resolver as coisas, nem sequer a murro, mas com atropelamentos, pontapés na cabeça ou soqueiras.

A propósito destes casos, e mesmo sem saber os seus últimos contornos, pretendo escrever hoje sobre os jovens que são, como o Rúben ou o Hugo, apanhados sozinhos, de forma vil, por delinquentes sem escrúpulos mas cobardes – não é por acaso que atuam em parelha ou com armas. Aqui ficam algumas dicas para o debate sobre a segurança dos adolescentes e como se podem tomar algumas medidas preventivas, para lá de se “saber com quem se anda” e não secundarizando as opções de vida que se fazem.

Se não se podem culpar as vítimas e nada justifica ser-se selvaticamente agredido, mesmo que se tenha provocado alguém, diretamente ou nas redes sociais, será ingénuo pensar que vivemos num mundo de liberdade total de expressão quando se sabe existirem muitas pessoas que não gerem bem o sentirem-se alvo de críticas, remoques ou divulgação de imagens ou comentários eventualmente ofensivos. O que quero dizer com isto é que há que pensar nas possíveis consequências e ponderar bem se um ato vale o risco. Apenas isso. Avaliação e gestão de riscos, tal e qual colocar ou não o cinto de segurança, fazer uma vacina, usar capacete de bicicleta ou beber água de um poço cuja qualidade se desconhece.

Deve ter-se medo de sair de casa? É natural que muitos (e muitas) adolescentes tenham medo de sair à rua, sobretudo se tiverem visto alguns telejornais nos últimos tempos – os casos de Ponte de Sor e de Gondomar são apenas os exemplos mais recentes. Quando só se fala de desgraças e quando se “pinta” um mundo mesquinho e perverso (aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “mean world syndrome” – a síndroma do mundo mau), não vamos estar à espera que os jovens pensem de outra maneira.

Um estudo que fizemos há uns anos sobre a violência, recaindo em jovens do 9.o ano de todo o país, revelou um dado curioso: a maioria dos adolescentes referia que Portugal era um país violento e perigoso, mas classificavam a vila ou a cidade onde viviam de uma maneira muito mais soft. Ou seja, o sentimento de insegurança era maior do que a sua perceção real quotidiana.

Os dados mostram que o grande crime não tem sofrido um aumento e que a maioria dos crimes graves continuam a dever-se a casos pessoais (disputa de terras, casos “passionais”, ajustes de contas, etc.). Todavia, o “pequeno crime”, sem ou com violência física, tem aumentado, estando em muitos casos relacionado com o consumo de drogas, incluindo nestas o álcool.

Os meios de comunicação social, por seu lado, relatam estes acontecimentos como se só isso acontecesse… a determinada altura, com a repetição ad nauseam, já parecia que havia casos de Rúbens e gémeos iraquianos todos os dias, a todas as horas. É assim natural que se crie a ideia de que cada cidadão com que nos cruzamos na rua é um assaltante, um violador, um criminoso. Não é. A maior parte das pessoas – a “esmagadoríssima”, se a palavra existe – são pacíficas e “normais”.

O que resulta evidente é que, apesar da sua raridade, estes casos podem ser graves, de onde ser necessária uma atitude inteligente quando se sai à noite e circula nas ruas. Assim, mais do que dissertar sobre as agruras da vida, é bom gizar com os próprios adolescentes um plano e atitudes práticas para que as possibilidades de ser apanhado por algum meliante se reduzam, numa estratégia de redução de risco:

• Se possível, não se andar de noite por ruas mal iluminadas ou que não tenham vivalma;

• Quando se sair de casa à noite, procurar sempre fazê-lo com mais alguém;

• Nunca pedir boleia a estranhos; • Nunca demorar em elevadores ou casas de banho públicas;

• Só levar o dinheiro estritamente necessário e nunca anunciar que se está abonado;

• Dizer sempre onde se vai e a que horas se tenciona voltar. Se se resolver ficar até mais tarde, telefonar, que não custa nada…;

• Quando se for a uma festa ou sair, arranjar-se sempre quem leve de volta a casa, ou então ir de táxi (radiotáxi, de preferência) – é mais caro, mas vale a pena;

• Se alguém quiser tocar-lhe ou tentar “alguma coisa”, dizer “não!” e não demonstrar medo;

• Se alguém atacar, gritar com todas as forças, mas não tentar enfrentar os agressores;

• Se acontecer alguma coisa, contar sempre a alguém – pais, irmãos, professores, amigos, linhas telefónicas de ajuda, etc.

Tentemos também conversar com os adolescentes sobre outros assuntos que não sejam exclusivamente as desgraças que nos acontecem (muitas delas relativas), seja o facto de o tempo estar mau, seja o de terem assassinado mais uma pessoa num local longínquo que, provavelmente, nem sabemos onde é. O clima de medo inibe a prevenção das diversas situações e a distinção do seu grau de risco.

Queiramos ou não, temos de continuar a fazer a nossa vida do dia-a-dia. Se se cria um ambiente de stresse e de medo, vai gerar-se mal-estar noutros capítulos, com baixa do rendimento escolar, abandono de atividades ao ar livre, tristeza e uma baixa da qualidade de vida dos adolescentes. O mundo é, queira-se ou não, o único local onde se pode viver…

Pediatra Escreve à terça-feira 

 

 

Comportamentos na noite “mais graves do que se supõe”

Junho 1, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Coimbra de 3 de maio de 2016.

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Comportamentos-na-noite-mai

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