Como ajudar as crianças a desenvolverem ao máximo as suas capacidades?

Janeiro 16, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Álvaro Bilbao à http://activa.sapo.pt/ no dia 3 de janeiro de 2017.

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É mais simples do que parece. O neuropsicólogo Álvaro Bilbao falou-nos de avós, telemóveis, e da importância da generosidade.

Catarina Fonseca

O cérebro infantil tem um potencial enorme de desenvolvimento, mas basicamente… estamos a dar cabo dele. O neuropsicólogo Álvaro Bilbao é formado em Neuropsicologia pelo Hospital Johns Hopkins e pelo Kennedy Krieger Institute, nos Estados Unidos, e pelo Royal Hospital no Reino Unido, e tem passado os últimos anos a explicar aos pais como funciona a mente infantil (e o mundo em que estamos

De que precisa o cérebro de uma criança para se desenvolver?

Precisa de carinho, de limites e de muita conversa entre pais e filhos. Hoje somos demasiado protetores e somos demasiado perfeccionistas. Queremos crianças perfeitas, queremos ser pais perfeitos, e estamos a passar-lhes muito stresse.

Porquê essa exigência da perfeição?

Por um lado queremos filhos-troféu, que mostrem ao mundo como somos bons pais. Por outro lado, estamos numa sociedade muitíssimo competitiva e superficial, em que a imagem se torna mais importante que o interior. A imagem substituiu o currículo. O Instagram apresenta-nos pessoas de plasticina, e é isso que queremos. O curioso é que não é nada disto que torna uma criança feliz. Uma criança feliz sabe partilhar, aprendeu a ser optimista, tem pouco stresse e é alegre nas suas imperfeições.

Mas depois na prática não é isso que os pais valorizam mais…

Tem toda a razão. Por exemplo, o que os pais me dizem é que querem imenso que a criança seja generosa, altruísta e criativa, mas aquilo em que verdadeiramente se empenham na prática, no dia a dia, é em que tenha boas notas. Funcionamos na nossa família como numa empresa: o que interessa são os resultados. Por exemplo, em todas as salas de aula de todas as escolas há uma criança calada e infeliz, sentada no fundo da sala. Algum pai ou mãe diz ao filho: ‘Sabes aquele menino lá no fundo da sala, falaste com ele hoje? Vamos convidá-lo cá para casa?’ É importante que todas as pessoas estejam bem integradas nesta sociedade, e que se envolvam as crianças neste esforço.

Acha que isso está a mudar?

No outro dia recebi uma mãe que vivia com os pais e os filhos. Este ano mudou-se e faz 40km de carro para que os filhos frequentem um colégio Waldorf e tenham uma educação mais em contacto com a natureza. E eu perguntei-lhe, ‘Mas há alguma coisa mais natural que um avô? Prefere portanto que os seus filhos estejam mais em contacto com uma árvore do que com um avô?’ (risos) Não vemos vantagem competitiva num avô. Com uma família, uma criança aprende infinitamente mais do que com um computador. Quando uma criança sai com uma tia, com os primos, ativa a zona direita do cérebro, responsável pelas emoções. E aprende não apenas a compreender melhor as outras pessoas como a ser menos neurótica e a perceber-se melhor a si própria.

O que é uma criança neurótica?

São crianças hiperexigentes, que têm medo do fracasso porque os pais estão constantemente a elogiá-lo ou a criticá-lo. Queremos crianças que tenham bons resultados, sim, mas que sejam alegres. Queremos uma criança que goste de jogar futebol porque é divertido, não porque os pais acham que lhe vai fazer bem. A sociedade não ajuda. Dantes tínhamos bons alunos e alunos não tão bons. Hoje temos bons alunos, e hiper-ativos que tomam medicação.

Há crianças que não gostam de estudar?

Claro que há. Não é um drama nem um defeito, mas isso torna-se um problema para os pais e para os professores. Pode ter a ver com pequenos problemas de aprendizagem, pode ser que a criança tenha um carácter mais extrovertido e não goste de ficar sentada a estudar. Se ela é feliz, nada disto tem de ser um problema, nem vai comprometer o seu futuro, mas nós não aceitamos que haja crianças diferentes.

Matamos a criatividade às crianças?

Sim, e fazêmo-lo desde muito cedo. Para muitos neuropsicólogos, a criatividade é a atividade mais importante do cérebro. É ela que permite encontrar soluções para problemas. ‘A lógica permite-nos chegar do ponto A ao ponto B, a imaginação permite-lhes chegar a todo o lado’, dizia Einstein. Claro que se calhar para uma empresa não é importante que os trabalhadores sejam criativos. Mas depois na nossa vida pessoal caímos num estado de apatia que nos leva à depressão. Pensamos, tenho tudo o que sempre quis, faço o que tenho de fazer, mas não sou feliz… Também nós, adultos, precisamos de brincar, de criar, de nos divertirmos.

As crianças também precisam de limites?

Claro. Os pais dizem-me coisas como ‘consegui que o meu filho não brincasse mais com o meu telemóvel’. ‘E como conseguiu?’ ‘Disse-lhe que estava estragado’. (risos) Ora isto não é resolver nada… Se lhe disser ‘Não quero que o uses’, claro que a criança faz uma birra. E depois? Temos muito medo de ser assertivos, que as crianças se zanguem e façam uma cena.

Como acalmar uma birra?

Usando a empatia. Se lhe dissermos ‘As outras pessoas estão a olhar para ti’, ele vai ficar envergonhado, se o tentarmos controlar não vai funcionar, mas se lhe dissermos ‘Olha: eu sei que gostavas de brincar com o telemóvel, mas não é para a tua idade, queres brincar comigo a outra coisa?’ a criança vai tranquilizar-se. Mas aos pais assusta-os imenso as emoções, porque saem fora do seu controlo. Temos de ensinar às crianças que não é preciso ter medo das emoções, que não faz mal ficar zangado.Não faz mal não sermos perfeitos, não faz mal pedir desculpa quando erramos, dizer que não sabemos quando não sabemos. As crianças respeitam mais os pais que assumem os seus erros e que põem limites sem medo da sua ira.

Diz que os castigos não funcionam…

Não é que não funcionem: mas são a técnica menos eficaz para ensinar uma criança. Se uma criança bate noutra criança, é melhor castigá-la do que não fazer nada. Mas um castigo faz com que a criança se sinta mal e desgasta muito a relação entre pais e filhos. A criança faz as coisas mal não porque quer, mas porque não sabe. Portanto, ensine-lhe a fazer as coisas bem. Há coisas que funcionam muito melhor: os limites, as regras, ensinar a pedir desculpa, e principalmente o reforço: premiar quando a criança faz alguma coisa bem, em vez de castigá-la quando erra. Imagine que há um irmão que se pega sempre com outro. E se um dia não se pegam, pode dizer-se – ‘Fiquei muito contente porque hoje não brigaram. Que recompensa querem?’ Se os podemos castigar de vez em quando? Sim, quando não nos ocorre nada melhor. Mas por norma funciona melhor o reforço.

Afinal, que papel devem ter as novas tecnologias na vida das crianças?

As emoções trabalham com a parte direita do cérebro, e quando estamos com um ecrã, trabalhamos com a parte esquerda. Nos primeiros 2 anos de vida, recomendo zero ecrãs. Sabemos que as crianças que passam mais tempo agarradas aos iPads têm mais problemas, quer de comportamento quer de défice de atenção. Perdem-se muitas etapas imprescindíveis: a brincadeira livre, o brincar com as mãos, o contacto com a natureza. Uma criança tem um tipo de atenção mais lenta, que é o que lhe permite aprender as coisas, fixar-se nos detalhes, e um ecrã não lhe dá este tipo de aprendizagem. Depois chegam aos 6 anos e queixamo-nos de que não se concentram.

Quais as desvantagens dos ecrãs?

Hoje, as crianças não gostam tanto de fruta como há 200 anos ou em certos países de África, porque têm sabores mais ‘imediatos’. Da mesma maneira, uma criança habi- tuada a videojogos, que dão estímulos imediatos, quando chega à escola tudo aquilo lhe parece pouco estimulante, porque nada apita e nada vem em 78 cores. Portanto, as crianças estão cada vez mais viciadas em estímulos cada vez mais intensos. Têm satisfação imediata, têm tudo imediatamente e perdem assim capacidade para desejar, que implica espera, elaboração e imaginação. Estamos a roubar-lhes a capacidade de sonhar. Sabe aquele dia em que vamos de viagem? Toda a semana antes desse dia é de sonho e de antecipação. É isso que estamos a tirar-lhes.

Porque é importante saber esperar?

A capacidade que uma criança tem para esperar é o que melhor prediz a sua entrada na universidade anos depois. Porquê? Porque para ter boas notas a criança tem de esperar: tem de esperar que a professora fale, quando lê um livro tem de ser paciente para terminá-lo, quando faz um exame tem de ler tudo para ver se não cometeu erros. Claro que há outras coisas importantes, como a relação com os pais, por exemplo. Quer treinar o cérebro do seu filho? Habitue-o a esperar: esperar até que todos estejam sentados à mesa, que todos tenham acabado de comer para sair da mesa, para ter um brinquedo que quer. Ou então não fazer nada disto: dar-lhe um telemóvel para as mãos no pediatra para que esteja entretido e não chateie, passar–lhe o iPad enquanto está no carro. Assim lhe ensinamos que tem de estar sempre entretido.

Como pai, o que achou mais difícil com os seus próprios filhos?

Não os proteger demais e dar-lhes tempo para eles. Não os sufocar com a minha presença. Também tive dificuldade enquanto casal, em equilibrar a atenção que dávamos um ao outro com a atenção de que os filhos precisavam. Eu e a minha mulher só nos conhecíamos há um ano e meio quando fomos pais. Crescemos todos ao mesmo tempo. Outra aprendizagem foi perceber que a minha mulher, como mãe, protegia as crianças, enquanto eu as empurrava para desafios e perigos, e que ambos estávamos certos, porque tínhamos papéis diferentes.

 

 

 

“As crianças têm de ter liberdade para não fazer nada”

Janeiro 12, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://expresso.sapo.pt/ a Álvaro Bilbao no dia 8 de outubro de 2016.

expresso

Álvaro Bilbao é neuropsicólogo e pai de três filhos. Em Portugal para falar do seu livro, explica como conhecer melhor o cérebro pode ajudar-nos a educar melhor

Katya Delimbeuf

Álvaro Bilbao, 40 anos, é doutorado em Psicologia da Saúde pela Universidade de Deusto, em Bilbau. Já colaborou com a Organização Mundial de Saúde e trabalha no Centro Estatal de Referência de Atenção ao Dano Cerebral – mas costuma dizer que o seu maior currículo são os três filhos, de 6, 4 e 3 anos. O seu livro, “O Cérebro das crianças explicado aos Pais” (editora Planeta), já chegou às livrarias do nosso país.

Porque é importante conhecer o cérebro para educar melhor?

Porque este oferece-nos muitas estratégias e ferramentas que nos ajudam. Explica-nos como aprende o cérebro da criança, as suas necessidades de desenvolvimento e que ferramentas devem usar os pais na ordem que os filhos precisam. O cérebro do adulto aprende através da linguagem e da razão. O das crianças aprende essencialmente através do jogo e do carinho.

E através do exemplo, não?

Também. As crianças aprendem muito através da observação dos adultos. Se queres ter um filho feliz mas passas o dia aborrecido e frustrado, ele vai imitar essa forma de lidar com os problemas. O nosso exemplo é muito importante. Acontece o mesmo com os smartphones e iPads. Podemos pôr-lhes regras, mas se nós próprios andarmos com o telemóvel atrás o dia todo, eles vão fazer o mesmo.

O que lhe ensinaram os seus filhos?

Ensinaram-me que uma coisa é a teoria e outra é a prática. A teoria ajuda-nos muito a melhorar a prática, mas a prática não sai sempre como queremos. Ensinaram-me também uma coisa muito importante, que não vem nos manuais: a importância do carinho, de lhes dar beijos. A minha mulher ajudou-me muito, porque vem de uma família muito afetuosa, com poucos limites, muito hippie, e eu venho de uma família muito conservadora e tradicional. Juntos, encontrámos uma forma equilibrada de educar. Mas uma das coisas fundamentais para educar é errar – para os teus filhos verem que também te enganas e que é normal não fazer tudo bem. Também é muito importante estarmos em contacto com a nossa criança interior. Estar com crianças põe-nos em contacto com aquela parte de nós que esquecemos em adultos – a capacidade de brincar, de sonhar, de sentir afeto.

Brincar é fundamental?

Sim. O jogo livre é fulcral. O momento em que se apaga a televisão é mágico. É incrível o que os miúdos inventam quando os pais não lhes dizem o que fazer. Isso ajuda imenso a desenvolver a imaginação.

Defende que, até aos 6 anos, as crianças não devem ter contacto com a tecnologia. Isso é possível nos dias que correm?

Até aos 3 anos não devem contactar com tecnologia, absolutamente. Em minha casa não há tablets e os miúdos não usam os telemóveis. Este verão, perguntei ao mais velho o que achava de lhe comprarmos um tablet. Respondeu: ‘Talvez seja melhor esperar mais um pouco. Gosto muito de brincar com legos, de desenhar e não quero deixar de gostar’. Não comprámos.

Mas os limites são igualmente essenciais, não?

Absolutamente. Os limites ajudam as crianças a saber o que não devem fazer. A não bater nos irmãos, a respeitar os mais velhos, a não desobedecer, a não gritar… Há pais que, sabendo da importância dos afetos, não dão limites. Não está certo.

O “não” é a palavra mais importante na educação de uma criança?

Enquanto palavra, talvez seja. Mas o mais importante não está nas palavras – são os abraços, os beijos, o carinho. Afetos e limites são igualmente importantes. Ao dizermos ‘não’, estamos a ensinar-lhes o autocontrolo, a disciplina, a capacidade de controlar a frustração.

O que podemos fazer para lidar com as terríveis birras?

Entre os 2 e os 3 anos, não há nada que se possa fazer. Têm que fazê-las e pronto. Mas há três coisas que podem ajudar e três outras que podem piorar a situação – e a maioria dos pais costuma fazer estas últimas. A primeira que não devemos fazer é zangarmo-nos com as crianças ou ficarmos nervosos. A segunda é envergonhá-las, comparando-as; e a terceira é tentar agarrá-las pela força. Pelo contrário, aquilo que pode ajudar é empatizar com elas, mostrar-lhes que percebemos o que sentem; dar afeto, abraçá-las; e ajudá-las a serem flexíveis, oferecendo-lhes uma alternativa (por exemplo: adiar aquele ato para outro dia).

Alguma vez bateu num filho?

Nunca. Castiguei-os duas vezes, mas nunca através do castigo físico. Está demonstradíssimo que o castigo físico não é bom. Ensina à criança a perda de controlo, a agressividade. Humilha-a, põe-na triste. O castigo físico não pode ser uma forma de educar. Educamos melhor quando não batemos. Já me aconteceu pedir ajuda aos meus filhos, para não gritar com eles.

Há rotinas imprescindíveis em vossa casa?

Somos mais flexíveis em termos de horários e mais ritualistas em relação a certas coisas. Jantamos sempre em família – e se eu não tiver fome, sento-me com eles. Lê-se sempre uma história antes de dormir. Dormem pelas 21h30. Somos bastante flexíveis. Para nós, os afetos são mais importantes do que a ordem.

Não estaremos a passar demasiado stress às crianças, com horários para tudo?

O cérebro não percebe as horas, percebe as sequências. É importante que as crianças e os pais aprendam a ter flexibilidade. As regras são importantes, mas não é preciso ter síndromas de perfecionismo. Para a criança, também é duro ter de fazer tudo perfeito. Atualmente, sabemos que o maiores problemas das crianças se devem ao stress. O déficit de atenção, a obesidade infantil, problemas de comportamento, derivam daí. Isso deriva de querermos que as crianças tenham muitas atividades, façam muitas coisas, que cheguem a horas a todo o lado… E nós também queremos fazer tudo de forma perfeita. A exigência e o perfecionismo da nossa sociedade são tremendos. Em minha casa, tentamos ter manhãs sem stress. Tentamos fazer tudo com antecedência, levo os meus filhos à escola mais perto de casa.

A avaliação, a preocupação excessiva com as notas, não são também um sintoma de obsessão da nossa sociedade?

Sim. O mais importante é que as crianças se apaixonem pela aprendizagem, mais do que por terem boas notas. A maior prenda que podemos dar aos nossos filhos é incutir-lhes o gosto por aprender. Os melhores alunos são miúdos que gostam de aprender.

Fazer depressa não é fazer bem

Como se pode tentar passar o gosto por saborear em vez de consumir?

A primeira coisa que podemos tentar é não consumirmos nós próprios, no dia-a-dia. Não consumir tecnologia, ócio. Não temos que fazer 25 coisas ao fim de semana, podemos simplesmente passar o fim de semana sem fazer NADA. Estar em casa, brincar, dar um passeio. Quando consumimos muito, damos impressão à criança de que tudo acontece muito depressa, de que tem de estar sempre ocupada, sempre feliz. Das primeiras coisas a fazer é dar à criança a liberdade e a confiança para não ter de fazer nada. Depois, é importante não dar demasiada importância ao resultado. Podemos jogar a passar a bola, sem ser a marcar golos.

A nossa sociedade vive cheia de pressa?

Sim. Vivemos num modelo que diz que fazer depressa é fazer melhor. Não é verdade. Um tomate biológico é melhor que um tomate de estufa. Se se for maduro aos 7 anos, em que idade se vai ser imaturo? É muito importante respeitar os ritmos das crianças.

O que mais o fascina no cruzamento da neurologia com a pedagogia?

facto de tudo encaixar. Tudo faz sentido quando juntas a neurologia (que explica como aprende o cérebro), a pedagogia (que explica como aprendemos) e a psicologia (que nos explica o que fazemos e sentimos). As memórias afetivas, por exemplo, são as mais antigas. Situam-se na parte do “cérebro emocional”. Podemos esquecer quem é uma pessoa, mas não esquecemos que nos sentimos bem ao pé dela. Um filho nunca vai esquecer uma bofetada. Mesmo que isso não seja consciente.

 

 

 

 

Neuropsicólogo Álvaro Bilbao: “Todas as crianças têm direito a ter pais imperfeitos”

Novembro 13, 2016 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do http://observador.pt/ a Álvaro Bilbao no dia 22 de outubro de 2016.

observador

Se quer controlar a birra dos seus filhos não perca a calma e lembre-se que a birra é um problema dele, não seu. Esta e mais umas quantas dicas do pai e neuropsicólogo Álvaro Bilbao.

Muitos pais, ainda antes dos filhos nascerem, já se preocuparam com a escola que os pequenos vão frequentar, com a alimentação que vão escolher para eles, com os limites e as cedências, com as birras e os castigos, mas Álvaro Bilbao tem um conselho muito simples para aliviar todas estas preocupações: desfrutem. Tirar partido do prazer de ser mãe ou pai, aceitar que não vai conseguir fazer tudo na perfeição (e ainda bem), manter o equilíbrio e evitar a tensão, são alguns dos conselhos para iniciar a jornada.

“Na minha perspetiva, educar é apenas apoiar a criança no seu desenvolvimento cerebral, para que algum dia esse cérebro lhe permita ser autónoma, atingir as suas metas e sentir-se bem consigo própria”, escreveu o neuropsicólogo num livro que pretende servir de guia aos pais para que ajudem os filhos a desenvolver o potencial intelectual e emocional.

Álvaro Bilbao tem feito trabalhos de investigação na área da psicologia e neurociência, tendo-se especializado em plasticidade cerebral, mas admite que, embora estude o cérebro há muitos anos, foram os três filhos que deram sentido a esse conhecimento e que o ajudaram a perceber melhor o cérebro das crianças. É este conhecimento acumulado que procura partilhar no livro “O cérebro da criança explicado aos pais”, editado em Portugal pela Planeta.

piramde

Os pais procuram fórmulas mágicas, querem soluções prontas a usar. Se um pai o abordasse com a pergunta: “O que é que eu tenho de fazer?”, que resposta lhe poderia dar?

Para ser um bom pai?

Sim.

Gostar muito dos seus filhos, demonstrar-lhes muito amor, jogar muito com eles, impor-lhes limites, dizer-lhes quando fizeram as coisas bem e, por último, ajudá-los a serem pacientes e a saberem esperar. Estas são as cinco coisas mais importantes. Se fizerem isto, já estão muito bem.

A pergunta agora é: como se faz isso?

Para isso temos cinco ferramentas muito importantes. A ferramenta da comunicação: ter uma comunicação positiva com os nossos filhos, uma comunicação que os ajude a colaborar – porque há comunicações que os ajudam a colaborar e outras que ajudam a que a criança não obedeça. A empatia, isto é, entender como se sente a criança, colocarmo-nos no seu lugar e dar palavras aos seus sentimentos. Muito importante é dar reforços [positivos] quando a criança está a fazer as coisas bem – não muito, mas com bastante frequência -, quando a criança faz as coisas melhor, quando supera uma dificuldade. Em quarto lugar: impor limites para que a criança não faça coisas que não queiramos que faça. E em quinto lugar: fazer com que a criança corrija as dificuldades e isto consegue-se sobretudo com normas, normas que a criança entenda que quando faz algo errado terá de retificar ou terá uma consequência. E se conseguirmos fazer tudo isto como um jogo, a criança vai entendê-lo muito melhor.

Com jogos?

Sim. Por exemplo, quando os meus filhos não querem tomar banho imponho-lhes um limite: eles sabem que vão acabar na banheira porque esse é o limite que eu coloco, mas posso levá-los para a banheira zangados ou posso levá-los com um jogo. Com um jogo muitas vezes aprendem melhor, têm menos tensão.

Os limites são uma das maiores dificuldades dos pais, porque as crianças estão sempre a testá-los. Qual a melhor forma para os pais fazerem valer esses limites? Com os jogos como estava a dizer? Primeiro é não ter medo das emoções das crianças. Não ter medo que a criança fique triste, não ter medo que fique zangado, não ter medo que faça uma birra. Em segundo lugar é preciso fazê-lo de uma forma tranquila, com confiança e explicando à criança que tem de fazer as coisas. E saber dizer que não.

Há muitos pais que têm medo de enfrentar os filhos, mas há que pensar que o pai ou a mãe têm trinta e tal anos, têm uma inteligência, têm uma altura e um peso, e a criança pesa 10 quilos, portanto temos de ter confiança. Se não tivermos confiança vai ser mais difícil. Às vezes podemos jogar, outras vezes podemos ficar sérios, outras vezes podemos simplesmente dizer que não, outras vezes podemos obrigar – obrigar com carinho, sem puxar a orelha. No final, isto implica que a criança não faça aquilo que não queremos e que faça aquilo que pedimos, que nos obedeça.

Todas essas soluções vão depender sempre dos pais e das crianças. Ou existe uma solução certa para cada situação?

Não. Não existe uma fórmula mágica como dizia, depende sim da habilidades dos pais, da intuição, da empatia – a capacidade de entender os filhos – e da habilidade que tenham para usar a empatia, a comunicação, o reforço, os limites e as alternativas aos castigos ou as normas.

Muitos pais dizem: “O meu filho não me ouve”. Mas quando falam com eles estão a olhar para o telemóvel e do alto. O importante é que os pais saibam que para falarem com os seus filhos se têm de baixar, têm de os olhar nos olhos e, preferencialmente, tocar-lhes – para terem a sua atenção. A criança tem de saber que estamos a falar a sério. Se peço à criança que se vista, mas estou na cozinha e ele está no quarto, e o digo de forma tranquila, ela pode não entender. Mas se vou ao quarto e digo: “Olha, vais vestir isto”, a criança vai entender melhor.

Não há uma fórmula mágica, mas muitas pequenas fórmulas mágicas que ajudam a que tudo seja mais fácil.

E podemos dizer “Não”?

É preciso dizer “Não” muitas vezes, desde que são bebés. Os pais têm muito medo da frustração das crianças. Os pais dos bebés acham que estes nunca podem ficar frustrados, mas é o contrário. A criança precisa de abraços e beijos, mas também é importante que em alguns momentos a criança saiba esperar, entenda que a mãe tem de ir tomar banho, entenda que não pode gatinhar em alguns sítios porque tem vidros ou porque está sujo, saiba que tem de ficar quieto quando a mãe lhe troca a fralda. E isto é importante, são os primeiros limites, e a partir daí vão aparecendo muitos outros limites na vida de criança e na vida de adulto.

O que pensa Álvaro Bilbao sobre…

 

Quando as crianças não respeitam os limites os pais ou lhes batem ou os colocam de castigo, mas sei que tem algumas propostas de alternativas aos castigos. Que alternativas são essas?

Em primeiro lugar, é reforçar [positivamente] a criança quando se porta bem. Uma criança que desobedece quando vai tomar banho, possivelmente é uma criança cujos pais nunca lhe disseram que estavam muito contentes quando foi para o banho. Em segundo lugar, é preciso reforçar também quando a criança faz as coisas um pouco melhor. Se todos os dias a criança se irrita muito para ir para o banho e um dia fica menos irritada, os pais podem dizer-lhe: “Hoje chateaste-te menos, assim está bem”.

Isso custa-nos muito entender, mas nunca devemos deixar de reforçar a uma criança que está a melhorar o seu comportamento. Sobretudo com as crianças mais difíceis o que funciona é reforçar os progressos. Uma criança que berra, que não está atenta nas aulas, nunca vai ter um comportamento perfeito de um dia para o outro, mas se o reforçarmos vai mudando.

Temos de arranjar uma forma de impor limites e de motivar a conduta da criança. E se mesmo assim a criança não obedece, temos de ver se o reforçamos pelo que fez de melhor ou se lhe aplicamos alguma consequência – mas que seja feita em forma de norma. A consequência mais natural é a reparação do que fez mal: se partiu um copo tem de apanhar os cacos, se uma criança bate noutra tem de pedir desculpas, e isto é mínimo. Quando fazemos isto, as crianças aprendem que os copos não se atiram para o chão e aprendem que não se bate às outras crianças. Mas se nos zangamos muito, se o castigamos e a criança não pede desculpa ou se pede desculpas só porque foi castigado, então a criança não aprende bem.

Uma das alturas difíceis e em que as crianças testam os limites é na hora de ir dormir. Existe uma hora certa para ir dormir? Como é que os pais podem pôr uma criança a dormir quando ela não quer?

Não creio que seja tão importante uma hora concreta no relógio como uma rotina: jantar, lavar os dentes, ler um conto, estar na cama, dar um beijo e dizer adeus. E então apagar a luz e acabou-se.

Mas às vezes é preciso ser muito compreensivo. Há alturas em que as crianças precisam dos pais, por exemplo, por volta dos cinco ou seis anos aparecem os terrores e os medos noturnos, como o medo do escuro ou dos monstros, nesses momentos pode ser importante estar com a criança. Noutros momentos as crianças só querem brincar e brincar e temos de dizer-lhes que não. Portanto é importante saber quando é ‘Sim’ e quando é ‘Não’, mas sempre com empatia, para que se sinta querido, mas conseguindo respeitar certos limites.

Se uma criança diz: “Mamã, tenho medo porque acho que está um monstro no armário” e se respondemos: “Cala-te e dorme”, não estamos a ser empáticos. Agora, se ele quer brincar, aí podemos pará-lo e dizer-lhe: “Não. Agora é hora de ir dormir”. Eu utilizo três regras muito simples: apagar a luz, não se pode falar e não se pode sair. Temos de ficar no quarto e se eles acenderem a luz apagamo-la, e se eles falarem dizemos: “Ssshhh! Calados”, e se se levantam da cama, voltamos a deitá-los.

Já falou muitas vezes da empatia. Como é que os pais podem ter um comportamento mais empático quando a criança está a fazer uma birra por causa de um chupa-chupa, por exemplo?

Quando uma criança faz uma birra é porque está a expressar uma frustração de um desejo e a criança não se consegue acalmar sozinha, o seu cérebro não tem a capacidade para se acalmar sozinha. Então podemos fazer coisas que não ajudam, como ficarmos zangados com a criança ou fazê-los sentir vergonha – dizendo que as pessoas estão a olhar ou que o irmão não faz as mesmas birras que ele -, mas isto só faz com que a birra seja cada vez maior.

As coisas que podemos fazer para ajudar: em primeiro lugar, usar a empatia, porque isso ajuda a acalmar o cérebro, a parte emocional; em segundo lugar, podemos ajudá-lo a ser flexível, pensar noutras coisas de que também gosta e coisas que pode fazer quando chegar a casa, e noutro dia pode escolher um prémio distinto se se portar bem; e em último lugar, se a criança quiser e estiver um pouco mais calma, podemos abraçá-lo.

Mas uma coisa que pode ajudar a muitos pais é que eles não têm de acalmar as birras dos seus filhos – é uma coisa tão natural como fazer xixi na fralda quando têm seis meses ou não conseguir falar quando têm um ano. Portanto, é normal. Podemos ajudar um pouco. Não ralharia com o meu filho se fizesse xixi na fralda com seis meses de vida – porque não tem sentido -, portanto também não vou ralhar com a criança que fica irritada. Mais, uma criança que faz uma birra está a passar por uma fase de falta de controlo e se também perdermos o controlo, não lhes vamos ensinar nada que lhes seja útil.

Falou em abraçar depois de uma birra. É bom para as crianças que os pais lhes deem abraços e colo depois de uma birra? Às vezes os pais também estão muito zangados.

Sim, porque quando a criança está com os pais e os abraça produz oxitocina, que faz com que a criança se sinta mais tranquila, que se sinta mais unida, mas também ajudamos a que a criança se acalme – quando está mais tranquilo tem a recompensa do abraço que o ajuda a sentir bem. Nesse sentido acho que é bom.

Não seria bom abraçá-lo quando está zangado, nem tão pouco comprar-lhe o que quer para que não fique assim, porque estaríamos a reforçar o estado zangado. Quando estiver calmo, estaremos a reforçar a calma.

Há uma situação que pode levar as crianças a terem comportamentos diferentes, como quando os pais estão separados ou quando passam muito tempo com os avós. As crianças lidam bem com isto, conseguem aprender facilmente os comportamentos que devem ter com cada um?

Sim. Aprendemos muito em função das pessoas e dos lugares. É mais fácil para uma criança aprender que em casa dos avós, com os avós, pode comer bolachas sempre que queira, e que na sua casa não é assim, do que entender que o pai um dia deixa comer e no outro dia não – isso é mais difícil de entender para as crianças. É muito bom que as crianças vivam diferentes realidades, conheçam pessoas diferentes, porque os faz adaptar melhor a situações distintas. As crianças que têm de se adaptar à casa dos avós, à casa do pai e à casa da mãe, adaptam-se melhor – é uma competência que se desenvolve por necessidade.

Além das birras, atualmente há outro problema que preocupa os pais, como o défice de atenção, mas no livro refere que existe um sobrediagnóstico dos problemas cognitivos das crianças.

Na nossa sociedade, 10% das crianças tomam medicação para o défice de atenção, mas somente 4%, no máximo, terão na realidade esse problema. Isto acontece porque os pais têm menos paciência com as crianças que não se portam bem, as escolas têm menos paciência com as crianças que não se portam bem, as crianças aprendem com os pais e com os professores a serem menos pacientes e, portanto, têm mais problemas de atenção. As escolas não querem crianças com tantos problemas e por isso pedem aos pais e professores que resolvam o problema e, com tudo isto, diagnostica-se mais e se dá-se mais medicação – o que não é bom.

E isto acontece em todos os países ocidentais. Em todos os que há estudos aparece esta tendência de diagnosticar mais do que o necessário. Estamos a medicar crianças que não precisam e isso não é bom para o cérebro.

Para não encher as crianças de medicamentos é importante que estas tenham bons hábitos de sono, que tenham uma alimentação saudável – sem corantes, conservantes e aditivos -, também é importante que façam exercício, que vão para a rua brincar depois da escola, em vez de irem para as atividades extracurriculares e que os ajudemos a ter paciência e autocontrolo. E, por último, que passem menos tempo com os telemóveis na mão.

Um capítulo dedicado às melhores aplicações para crianças antes dos seis anos que se resume a uma citação de Bill Gates e a uma nota de rodapé do autor: "Não encontrei nenhuma que seja útil"

Um capítulo dedicado às melhores aplicações para crianças antes dos seis anos que se resume a uma citação de Bill Gates e a uma nota de rodapé do autor: “Não encontrei nenhuma que seja útil”

Há pais que não têm tempo e que optam pelas tecnologias para entreter os filhos, mas há pais que ficam muito obcecados com todos os pormenores da educação da criança. Que conselhos daria a estes pais?

Todas as crianças têm direito a ter pais imperfeitos e a viver uma vida sem stress. Porque se um pai é perfeito e se faz tudo bem, então a criança vai sofrer de hiperexigência. Não há pais perfeitos. O melhor pai é o pai normal, que ensina ao filho as coisas boas, mas que também demonstra os seus defeitos, e que tenta ajudar o seu filho. Não podemos controlar tudo, e muito menos no que diz respeito aos filhos. Cada um fará o melhor que pode.

Texto de Vera Novais, fotografia de Hugo Amaral.

 

Tablets e smartphones deviam estar vedados a crianças com menos de 3 anos

Outubro 24, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://zap.aeiou.pt/ de 9 outubro de 2016.

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O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao defende que os ecrãs deviam estar vedados às crianças até aos três anos. Os estímulos rápidos e as recompensas imediatas dos tablets e dos smartphones matam a curiosidade, avisa.

No seu livro “O cérebro da criança explicado aos pais”, lançado este mês em Portugal, Álvaro Bilbao deixou em branco o capítulo 25, destinado a elencar as melhores aplicações tecnológicas para crianças até aos seis anos.

“Lamento dizer que não encontrei nenhuma que seja útil para o desenvolvimento intelectual e emocional das crianças destas idades”, diz o autor, doutorado em Psicologia da Saúde e formado em Neuropsicologia pelo Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Em entrevista à agência Lusa na sua passagem em Portugal para apresentar o seu livro, o especialista em plasticidade cerebral lembra os vários estudos que já demonstraram que as crianças que se expõem muito cedo a novas tecnologias têm maior probabilidade de desenvolver défice de atenção, problemas de comportamento e fracasso escolar.

No entanto, os ecrãs não são todos iguais. Para Álvaro Bilbao, a televisão “causa menos danos” porque permite maior passividade.

Pode parecer um contrassenso para os pais que uma ferramenta “mais passiva” seja menos nociva, mas é a rapidez do ritmo de interação e a quantidade de estímulos das novas tecnologias que mais preocupam o especialista.

“As crianças recebem muitos estímulos visualmente atrativos e têm muitas recompensas rápidas. Passam o dedo no ecrã e têm um prémio. Na vida real não é assim; na vida real a professora não é tão visualmente colorida, não se move tão depressa e não está constantemente a reforçar a criança”.

Além disso, a rapidez e quantidade de estímulos recebidos pelas novas tecnologias não permitem treinar a atenção, nem a paciência.

As televisões sempre são mais passivas e ativam ondas cerebrais que ajudam a relaxar. Ainda assim, também a televisão deve ser doseada, diz Bilbao, permitindo períodos curtos e retardando o mais possível na idade.

“Muita estimulação mata a curiosidade, uma criança que recebe muita informação satura-se e deixa de gostar de explorar e de aprender. Já uma criança curiosa é a que gosta de aprender. Não matemos a curiosidade”, pede o neuropsicólogo.

Álvaro Bilbao incita os adultos a uma reflexão sobre o seu próprio uso das novas tecnologias; “Usamos smartphones há alguns anos. Quantos de nós se notam mais inteligentes por isso? E, agora, quantos de nós se sentem menos pacientes?”

/Lusa

 

 


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