Há alunos que nos chegam à alma…

Janeiro 25, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Carla Machado publicado na http://visao.sapo.pt/ de 7 de janeiro de 2018.

O T. tem um caderno pequenino tipo Moleskine de capa dura que usa para todas as disciplinas do 11º ano num curso de Ciências. A J. descreve-se como preta e alta e no dia do seu aniversário teve um bolo de aniversário. E afirmou, num português hesitante: a professora fez mim feliz

O T. tem dezasseis anos e quer mudar o mundo. Já mo disse várias vezes e insiste que tem um plano meticulosamente delineado para esse efeito. Quando lhe propus que se candidatasse ao prémio do concurso lançado pelo Centro Nacional de Cultura “Vamos mudar o Mundo” (com o apoio da Revista EGOíSTA e da Organização das Nações Unidas e o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República de Portugal), respondeu-me, hesitante, que ia pensar. E pensou e pensou e pensou (o T. pensa muito). Este concurso pretende isso mesmo: levar os portugueses – sem restrições de idade – a refletir, na tentativa de ser encontrada uma ideia original para tornar este mundo melhor. Quando, dias mais tarde, lhe perguntei se já tinha começado a escrever a sua proposta para mudar o mundo (as regras impõem um texto até 5.000 carateres cujo prazo de entrega termina dia 21 de Janeiro de 2018), o T. fitou-me com ar sério e penetrante. Não, stora. Não sei se vou conseguir fazer isso. Claro que vais! – respondi-lhe. E podes mesmo ganhar uma viagem a Nova Iorque para entregares a tua ideia de como mudar o mundo no Gabinete do Secretário Geral das Nações Unidas. O meu plano para mudar o mundo é individual – disse-me convicto. Como? Individual? Mas se não o partilhares, como vais conseguir que as tuas ideias se espalhem? – insisti. Não, a stora não me compreende. Só eu é que sei como posso mudar o mundo. Tenho já várias ideias escritas (nisto mostra-me um caderno repleto de apontamentos nesse sentido). Mas a mudança do mundo parte de dentro de mim e só depois se poderá espalhar aos outros…

O T. não gosta de cadernos diários e não tira apontamentos nas aulas. De facto, não precisa assim tanto deles pois consegue melhores resultados sem caderno do que outros alunos com vários, um para cada disciplina. O T. tem um caderno pequenino tipo Moleskine de capa dura que usa para todas as disciplinas do 11º ano num curso de Ciências. Pedi-lhe, numa das últimas aulas do primeiro período, se mo deixava ver. Deixou. Fiquei alguns minutos parada e perdida num mundo de gatafunhos e desenhos e setas e poucas, muito poucas palavras. Diria mesmo que apenas as que ele considera essenciais para mudar o mundo. Ao longo das aulas, olha-me atenta e fixamente, presenteando-me sempre nas suas intervenções com uma ideia, pergunta ou resposta que me fazem parar. E pensar. Na última aula do primeiro período, pedi ao T. para fazer a sua autoavaliação. Respondeu-me apenas, imperturbável: – Mereço um vinte. E se calhar merece. Mas a escola pública não está preparada para lho dar.

A J. veio da Serra Leoa e com apenas dezassete anos já viu o seu mundo mudar várias vezes. Fugiu. Do ébola. Da circuncisão. Da dor. Da morte. Passou pela Guiné e pelo Senegal, primeiro. Chegou a Portugal e a Lisboa, depois. Tem saudades de Freetown mas diz que Lisboa é uma boa cidade e que em Portugal se come muitas vezes e há muita comida. E frequenta uma escola pública T.E.I.P. (território educativo de intervenção prioritária) que a recebeu mesmo sem ela falar português. A J. perdeu os pais e toda a família. Chegou até nós através de um Centro de Refugiados e mesmo sem falarmos a mesma língua, comunicamos como se nos conhecêssemos desde sempre. Contou-me da sua vida de antes. A vida difícil que os pais levavam. O esforço que fizeram para que ela frequentasse a escola diariamente. O almoço que era sempre o mesmo e que consistia em pão com manteiga. O desaparecimento dos pais que saíram para trabalhar e nunca mais voltaram. A fuga à circuncisão que lhe era imposta. E contou-me da sua vida de agora: as pequenas compras que faz no supermercado, o seu prato favorito de arroz com feijão e folha de mandioca que cozinha para si própria, as longas extensões com caracóis que ambiciona poder comprar. A J. descreve-se como preta e alta e no dia do seu aniversário teve um bolo de aniversário. E afirmou, num português hesitante: a professora fez mim feliz. Na última aula que tivemos, a J. confessou-me, com os seus olhos negros penetrantes: Portugal mudou minha vida.

E se calhar mudou. A escola pública, afinal, vai ainda conseguindo mudar vidas…

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).

 

 

“As crianças refugiadas têm uma vontade imensa de aprender”

Maio 2, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site Educare de 20 de abril de 2016.

Escolas terão pela frente o desafio de acolher alunos refugiados. O projeto “Mais do que números” dá uma ajuda aos professores.

Andreia Lobo

Um dos desafios que hoje se colocam ao sistema educativo português é o de conseguir ensinar as crianças e jovens refugiados. As organizações humanitárias ligadas às migrações pedem à comunidade educativa compreensão para as dificuldades que possam surgir no processo. E lembram que a escola terá um papel fundamental na integração.

“Uma educação de qualidade, que ajude a desenvolver competências e conhecimentos relevantes, permitirá aos refugiados viver vidas mais saudáveis e produtivas.” A certeza é de Teresa Tito de Morais Mendes, presidente do Conselho Português para os Refugiados, que acredita que um dos principais desafios dos professores será compreender as especificidades de ser refugiado: “Perda de tudo o que lhes é familiar e a chegada a um país desconhecido, com códigos culturais e sociais muitas vezes totalmente distintos.”

Mais de metade da população refugiada são crianças e jovens com menos de 18 anos, segundo os dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Pelo facto de terem estado muito tempo privadas da escola, Teresa Tito de Morais Mendes diz que “as crianças refugiadas têm uma vontade imensa de aprender, de ganhar novas competências e socializar”. Algo que prevê ser “bastante gratificante para os professores”.

Ainda assim preveem-se dificuldades. A motivação poderá ter como adversários contextos linguísticos e culturais muito diferentes do português. “Será necessário disponibilizar algum tempo para as crianças se adaptarem à nova cultura, com o desafio que a sua cultura não seja menosprezada, mas respeitada e acolhida”, alerta Teresa Tito de Morais Mendes lembrando que “numa altura em que milhares de pessoas procuram a Europa para uma nova vida, é necessário compreender as muitas razões pelas quais as pessoas escolhem ou são obrigados a deixar seus países”.

Para explicar a crise dos refugiados aos alunos, a Direção-Geral da Educação [http://dge.mec.pt/agenda-europeia-para-migracoes ] pôs à disposição dos professores e dos educadores uma série de recursos, documentos e materiais de acolhimento para orientar as escolas e os agrupamentos na forma como receber os refugiados. Trata-se do projeto “Mais do que números” que visa consciencializar os alunos para as questões ligadas à interculturalidade. A iniciativa da Organização Internacional para as Migrações (OMI) é dirigida a 24 países e chega a Portugal numa parceria com o Alto Comissariado para as Migrações e o Ministério da Educação.

Os recursos incluem um “Guia de Acolhimento” para o pré-escolar, ensino básico e secundário, e um “Manual do Professor” com um glossário de termos ligados ao universo da migração e asilo, histórias de refugiados, contadas na primeira pessoa e acompanhadas por fotografias e várias sugestões para atividades dirigidas a alunos com idades entre os 12 e os 18 anos.

Hugo Augusto, que até 15 de abril ocupava o cargo de coordenador do projeto da OIM, explicou ao EDUCARE.PT que os materiais proporcionam dois tipos de intervenções, uma “voltada diretamente para o contexto da escola, a outra pensando nos efeitos multiplicadores da ação”.

A primeira é a intervenção em contexto de sala de aula. As propostas de atividades contidas nestes materiais foram pensadas para a dois públicos-alvo diferentes: dos 12 aos 15 anos e dos 15 aos 18 anos. E podem originar o trabalho em contexto de sala de aula em inúmeras disciplinas. “Com particular relevância para as áreas mais transversais relacionadas com a educação e formação cívica, mas podendo ser perfeitamente promovidas no contexto de aulas de Português ou de línguas estrangeiras, História e Geografia e outras disciplinas do currículo educativo”.

A iniciativa internacional “Mais do que números” vê os jovens como os futuros decisores e interventores de pleno direito na sociedade.  Por isso, esclarece Hugo Augusto, “pretende eliminar o máximo de preconceitos possível e de estereótipos negativos associados à diversidade, ao outro e ao estranho e promover uma sensibilização de larga escala a partir desta intervenção educativa”.

“A ideia é promover a discussão”, diz Hugo Augusto. “Pretende-se que os professores possam ser veículos de promoção da interculturalidade e do respeito pela diversidade. E que os alunos, ao serem enriquecidos com estas mais-valias do ponto de vista educativo, possam ser veículos indiretos de sensibilização das suas famílias, mas também um pouco da sociedade em geral.”

Filinto Lima, diretor do agrupamento de escolas Dr. Costa Matos de Vila Nova de Gaia e presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, acredita que “estão reunidas as condições suficientes para que as escolas possam acolher alunos refugiados e proporcionar-lhes bem-estar propício à realização de aprendizagens”.

Desde que a crise dos refugiados começou a chegar às televisões e a outros órgãos de comunicação, o tema entrou nas salas de aula, assegura. “Existe um tempo letivo de Educação para a Cidadania para abordar com toda a legitimidade temáticas como esta, desmistificando muitos preconceitos que os mais novos possam ter.”

Alguns desses preconceitos nascem mesmo no seio familiar, como testemunhou Hugo Augusto, em 2009, numa fase em que os materiais do projeto “Mais do que números” foram testados em algumas escolas do país. Durante um debate surgia um jovem com comentários pouco abonatórios sobre os migrantes e refugiados. A professora percebia que o aluno estava a repetir o discurso e o vocabulário dos pais, recorda Hugo Augusto. Depois de alguns esclarecimentos, foi possível tranquilizar o aluno e fazê-lo pensar que não devia temer pela sua segurança, nem a dos seus pais.

“Não sabemos se este aluno chegou a dizer aos pais que se calhar não tinham razão no que diziam”, reflete Hugo Augusto, esclarecendo que a ideia do projeto não é intervir apenas numa tarde ou numa manhã de debate: “O que se pretende é que estes assuntos, estando eles na ordem do dia, possam ser trabalhados com maior recorrência e perpetuar essa abordagem no tempo e ao longo do ano letivo.”

Nesse trabalho, os recursos disponibilizados pelo ME “são, indiscutivelmente, ferramentas úteis para os professores, que devem ser complementadas com outras ferramentas, adaptadas ao contexto nacional e local”, assegura Teresa Tito de Morais Mendes para quem “uma abordagem intercultural na educação, a formação e sensibilidade dos professores e o envolvimento tanto da comunidade de acolhimento como a de refugiados na educação são elementos facilitadores da integração escolar das crianças refugiadas”.

Será “muito positivo”, acrescenta ainda Hugo Augusto, que da parte dos docentes “possa existir uma abertura a olhar para meios educativos não tradicionais como forma de promover o respeito pela diversidade, a boa convivência com os alunos migrantes e refugiados.”

Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), acredita que os pais não devem estar receosos pelo facto de os filhos conviverem com crianças e jovens refugiados. “Desde que todos sejam integrados na sociedade, o que importa é o respeito mútuo e isso tem que ser conseguido. Problemas existirão sempre, independentemente de serem refugiados.”

No entanto, Jorge Ascenção espera que as famílias, em particular as associações parentais, não fiquem arredadas de qualquer ação de sensibilização ou esclarecimento que vise a integração das crianças e jovens refugiados nas escolas. “Quanto mais esclarecidas estiverem as pessoas e melhor informação houver sobre esta crise e como podemos ajudar, maior será a probabilidade de se conseguir estabelecer medidas eficazes na sua resolução.”

O modo como os alunos refugiados estão a ser acolhidos noutros sistemas educativos varia muito “tendo presente o contexto escolar, a realidade de cada país e as suas comunidades de refugiados”, diz Teresa Tito de Morais Mendes. “Mas em qualquer parte, a educação é um elemento-chave da integração. Não poderá, todavia, ser um processo unidirecional de ensino. O conhecimento trazido pelos refugiados deve ser usado para melhorar a diversidade da sociedade de acolhimento e da escola”, conclui.

 

 


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