O Zé não lê, não escreve e não fala. “Pode parecer frio, mas ele não precisa do que se dá nas aulas tradicionais”

Novembro 1, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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CHARLY TRIBALLEAU/ Getty Images

Texto do Expresso de 9 de outubro de 2018.

Marta Gonçalves

Zé, José Pedro Miguel, na verdade. 16 anos. Aluno do 9º ano em Cascais. Autismo médio-grave diagnosticado. Nunca antes esteve a tempo inteiro com os 20 e pouco colegas da sua turma. Até ao ano letivo passado estava a maioria do tempo na sala de ensino especial. As coisas mudaram. A lei está diferente.

Não é fácil que Zé fique sossegado por mais de 40 minutos, a mãe diz-nos que é quase impossível. Querem que fique uma hora e meia sentado na sala de aula.

Não é fácil que Zé compreenda mais que uma ordem direta. Querem que ele compreenda as aulas de físico-química.

Não é fácil que Zé esteja num ambiente novo. Querem que ele esteja numa sala onde poucas vezes esteve.

Não é fácil que Zé fique em sítios com muito barulho porque ouve a triplicar. Querem que ele fique numa sala com mais 20 crianças.

Zé, José Pedro Miguel, na verdade, não lê nem fala. 16 anos. Aluno do 9º ano em Cascais. Autismo médio-grave diagnosticado (ao qual está muitas vezes associado a hiperatividade). Nunca antes esteve a tempo inteiro com os 20 e pouco colegas da sua turma. Até ao ano letivo passado estava a maioria do tempo na sala de ensino especial. As coisas mudaram. A lei está diferente. Os políticos querem educação inclusiva, que na verdade é também o que querem pais, professores, diretores e escolas. Querem-no de outra forma, com outros prazos.

“Se o Zé não ouve, não compreende, qual a lógica de estar a ter aulas de língua portuguesa?” Alexandra Miguel tem muitas dúvidas por estes dias. Com as novidades na lei, ainda não sabe ao certo o que vai acontecer ao filho. Sabe que nos primeiros dias de aulas Zé esteve a retomar rotinas e que de agora em diante, aos poucos, vai estar nas aulas práticas de físico-química e nas educação-física.

“Para ele é um suplício estar num pavilhão, como ouve a triplicar é todo aquele barulho normal de um jogo mas três vezes mais alto”, explica a mãe. E continua: “Não sabe escrever, não sabe ler, não sabe falar. Tudo o que faz e trabalha é ao nível da memória, do desenvolvimento da autonomia. Isso é que interessa ao Zé. O problema dele é esse. Pode parecer frio, mas ele não precisa [daquilo que se dá nas aulas tradicionais]. Não tem hipótese alguma de aprender. O meu filho vai ouvir a professora e não vai captar nada. Entende ordens diretas, frases curtas e objetivas. Nada mais.”

Hoje Zé já não tem terapia na escola (“perdeu direito a todas”), quando entrou na pré-primária era acompanhado três vezes por semana pela terapeuta da fala (“como não fala, acham que não precisa”), duas por psicomotricistas e outras três por terapeutas ocupacionais.

“Este ano está tudo muito esquisito. A natação é o melhor desporto que lhe podem dar – aliás, é assim com tudo o que inclua água. É como se tivesse tomado uma dose de calmantes. É extremamente importante para ele nadar. Nos outros anos, por esta altura, já costuma estar tudo organizado e ainda não sei nada”, conta Alexandra. Possivelmente, Zé vai ter equitação e vela, ambas as atividades são disponibilizadas pela Câmara de Cascais.

Zé tem um horário tal qual os colegas. Com diferentes horas de entrada e saída a cada dia. A mãe sabe a sorte de poder estar em casa sem trabalhar e que ainda consegue pagar algumas coisas que a escola não não dá ao filho. “Chegámos a gastar mais de mil euros por mês em acompanhamento para o Zezito, mas agora não conseguimos. Felizmente, vamos arranjando outras coisas.”

Há duas semanas que a escola começou. Há duas semanas que Zé está entre o ano passado e o novo, entre o método antigo e a escola inclusiva que lhe prometem. Ainda não foi avaliado pela equipa multidisciplinar – criada agora para determinar como cada um deles vai aprender. Há uma espécie de lista de espera: primeiro, os urgentes; depois, os sérios; seguem-se os graves; os não tão preocupantes e vai por aí (o secretário da Educação disse ao Expresso que esta fase deve estar terminada no final de novembro). Identificam-lhes as dificuldades, as estratégias e aplicam-nas: pode estar numa sala de ensino especial – que segundo a nova lei são centros de apoio à aprendizagem – ou acompanhado por alguém durante as aulas ou ficar sozinho e ter algumas metodologias específicas do professor da disciplina.

A grande diferença em 2018/2019 é que o sistema de ensino passa a considerar-se uma forma de educação inclusiva. Quer isto dizer que estas medidas de apoio são universais e podem ser introduzidas no vida escolar de qualquer menino ou menina. O critério deixa de ser simplesmente médico, há muito mais a ser considerado (dificuldades económicas ou até o historial familiar).

Enquanto isto se vai fazendo, Zé está à espera.

“Entregados ou integrados”

“Há mais do que uma explicação científica que prova que meninos com menos competências ficam melhores se aprenderem com as outras crianças; já para os alunos sem estas dificuldades, o contacto com a diversidade é fundamental. Percebem a diferença, desenvolvem valores de solidariedade, não ficam prejudicados nas aprendizagens. A diversidade em si é um bem e não um problema”, diz José Morgado, professor com especialização em Educação Inclusiva no ISPA – Instituto Universitário. “É no contexto escolar que a grande maioria das crianças aprende uma diversidade de competências que dificilmente vão aprender noutros contextos. Vivenciam e crescem com valores de respeito ao outro e às diferenças”, explica a equipa técnica do PIN – Centro de Desenvolvimento.

José Morgado define cinco critérios fundamentais: ter o direito à educação, estar no espaço educativo de crianças da mesma idade, participar nas atividades o mais possível, pertencer à escola e à comunidade escolar e aprender ao máximo. Ter, estar, participar, pertencer, aprender. “Isto são apenas os princípios. Todas crianças conseguem estar numa sala de aula? Não. Mas quanto possível devem estar nas salas de aula”, sublinha. “O que está a acontecer é que em nome da inclusão estamos a promover exclusão. Não basta pegar numa criança e colocá-la na sala e dizer que está incluído apenas porque está junto aos outros. Costumo dizer: isso é entregados, não integrados.”

Estarem no mesmo espaço? Sim. Mas estando bem. E estar bem significa ser útil, fazer o que se é capaz, aprender consoante as suas competências.“Não estarem depositadas” na sala. “Embora a normativa tenha aspetos positivos e, no ponto de vista da sua conceção, ser um avanço em relação à legislação anterior, conheço dezenas de relatos de coisas a correr mal. Não vale a pena achar que está a correr tudo bem. Como se por decreto-lei as crianças ficassem normalizadas… Provavelmente estou a caricaturar, mas tem sido quase isto que me chega: dão os mesmo trabalhos que dão aos outros miúdos, como se por um passo de mágica fossem capazes de entender num âmbito pedagógico em que nunca participaram.”

Assim podem nascer as resistências, o receio de ir para a escola, um local onde não se sentem bem pois têm perceção daquilo que as rodeia, alerta. “Sou o primeiro a reconhecer que não é algo fácil de fazer e exige recursos. Mas não podemos ter os números da inclusão e não ter inclusão”, defende José Morgado. A nova lei é a oportunidade para enraizar o conceito da inclusão. Os problemas têm estado na operacionalização. Os casos que envolvem problemas de comunicação são os mais complicados. A aprendizagem faz-se maioritariamente pela comunicação verbal e são poucas as vezes em que há alternativas. E Zé sente isso, usa sobretudo cartões para dizer o que quer

Até cerca dos dois anos, os pais nunca souberam que o seu Zézito não era como as outras crianças. Era o segundo filho. Um dia, a correr pelos corredores de casa, caiu. Levaram-no ao médico. Desde desse dia, Alexandra ficou ainda mais atenta. O filho chorava, parava. Estava tudo bem. O choro recomeçava. Parava. Estava tudo bem. Era isto uma e outra vez. “Estávamos todos na festa de anos da prima dele e não me largava as pernas, sempre a choramingar, nervoso, a tremer. Nada daquilo me parecia normal.” Alexandra voltou ao pediatra. “Deu-lhe uns cubos para as mãos e o miúdo atirou-os ao chão. Teve meia dúzia de reações e o médico desconfiou logo.”

Nel usa o computador em vez do papel e caneta

Manuel está como Zé: à espera. Também tem uma perturbação do espectro do autismo e também ele ainda não foi avaliado, não estava no topo da tal lista de espera. Anda no 5º ano e, por opção dos pais, no ano passado completou apenas metade das disciplinas, agora vai fazer as que faltam – incluindo matemática e história e geografia de Portugal.

“Foi erro nosso. Agora percebemos que teria feito o 5º ano todo no ano passado, tinha conseguido”, diz o pai João Veiga. O currículo de Nel – assim lhe chama o pai – é adaptado: aprende o que todos os colegas aprendem com métodos diferentes.

Ainda há dias, acabara João de regressar de uma reunião na escola – “onde me disseram que nada estava planeado em concreto para o meu filho” – e recebe uma chamada. Pediram-lhe para regressar, Nel estava agitado, com um episódio de comportamentos disruptivos. Tem acontecido algumas vezes. O regresso à escola após as férias não é simples (“a expectativa dos professores era que o meu filho regressasse às aulas como os demais”) e no caso de uma criança com perturbação do espectro do autismo, que vive organizada em rotinas, é mais caótico. E isso desencadeia alguns comportamentos: bater na cabeça, alguma violência, sons altos.

“O diagnóstico de perturbação do espectro do autismo caracteriza-se por dificuldades na interação social e na comunicação, associadas a ações repetitivas e interesses restritos”, esclarece o PIN. No entanto, são características variáveis. “Podem necessitar de um maior nível de organização e maiores cuidados no que respeita aos estímulos sensoriais, como os ruídos das salas ou dos refeitórios, bem como apoio ao nível da interação e comunicação com os seus pares, não só na sala como frequentemente no recreio”, acrescenta. As alterações à rotina, como uma visita de estudo, devem ser antecipadas e preparadas.

João Veiga demorou pouco a regressar à escola, não mora longe. “Encontrei umas quantas pessoas a agarrarem o meu filho e a impedirem-lhe os movimentos, mais outras tantas ali paradas a olhar. Aproximei-me e bastaram segundos para o acalmar.” O regresso à rotina da escola após as férias não é simples. Os professores mudaram e também a turma. Falta uma continuidade de trabalho. “É como estivéssemos sempre a começar do zero”, diz o pai. E a questão não está na nova lei, “é a luta de sempre”.

Manuel não entende metáforas, precisa de textos diferentes dos colegas de turma, usa o computador em vez dos cadernos e canetas. Tem feito o percurso académico de qualquer outra criança. Na escola, em tempos insistiram que ele deveria seguir outro caminho.

“No fundo, o currículo específico é fazer atividades de vida diária com muito pouca preocupação com a vertente académica. Colaborarem no refeitório da escola, aprenderem a ir às compras…” Mas Nel sempre fez isso em casa, aliás, ir ao supermercado com o pai é das coisas que mais gosta de fazer. “Não era significativo para ele. Tem competências cognitivas significativas. Não são superiores nem inferiores à média. São as que lhes permitiram fazer o percurso escolar com dificuldades mas que lhe têm permitido fazê-lo.”

Manuel gosta de legos e construções. Zé prefere passear – não há um fim de semana que fique em casa, precisa de ver o mar.

Nota: O título e o início do texto foram alterados às 16h de 10 de outubro de 2018. O Zé terá apenas aulas de físico-química e educação física, não vai participar em todas as disciplinas como tínhamos inicialmente noticiado. A mãe, Alexandra Miguel, havia dito ao Expresso que o filho iria frequentar as disciplinas todas, pois “por estar tudo tão confuso fui induzida em erro”. Entretanto, contactou o Expresso para corrigir a informação que tinha inicialmente prestado

 

“A história do surdo-mudo é um mito”

Maio 10, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Os professores descrevem Rodrigo como um aluno muito interessado José Caria

Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 23 de abril de 2018.

Texto MARTA GONÇALVES

Fotos JOSÉ CARIA

“Eu sei falar!”, garante Rodrigo. Tem 12 anos, é surdo e, ao contrário do que se possa pensar, usa a voz diariamente. “A história do surdo-mudo é um mito”, dizem terapeutas e professores. No dia em que se assinala o Dia Nacional da Educação de Surdos, o Expresso recupera um texto originalmente publicado a 15 de novembro de 2016

Aos três anos ainda ninguém sabia o que Rodrigo tinha. A mãe, Isabel, estranhava que a criança nunca acordasse com o barulho do aspirador ou não reagisse ao som dos tachos. Começou a desconfiar que algo não estava bem. Os primeiros médicos garantiram que o menino tinha uma audição a 100% e os exames não deixavam margem para dúvida. A mãe continuava a não acreditar. Durante meses, insistiu e persistiu até que o diagnóstico que mais temia (e ao mesmo tempo mais esperava) chegou: o seu filho era surdo profundo de ambos os ouvidos.

O olhar vivo por trás dos óculos vermelhos, cor do “seu Benfica”, refletem a energia e alegria de Rodrigo Lamas, hoje com 12 anos. O menino é um dos 85 alunos não ouvintes a frequentar a Escola Básica Quinta de Marrocos, em Benfica, uma das instituições de referência para o ensino bilingue de crianças surdas. Está no 7º ano, adora as TIC (Tecnologias da Informação) e a Língua Portuguesa dá-lhe dores de cabeça, algo que é comum entre as crianças com problemas de audição. Com orgulho, diz a mãe: “Ele por acaso é muito inteligente, agora só tem quatros e cincos”.

Em Portugal existem 17 escolas referenciadas para este tipo de educação especial. “Distinguem-se por serem espaços de ensino bilingue, nos quais os alunos surdos têm aulas em Língua Gestual Portuguesa (LGP)”, diz ao Expresso o Ministério da Educação. Além dos alunos surdos estarem em contacto com a língua que lhes é natural, também as crianças ouvintes podem “beneficiar de aulas de LGP”.

No total, são 504 (389 em escolas de referência e 115 em unidades orgânicas) os alunos inseridos em escolas com educação bilingue, ou seja, com Língua Gestual Portuguesa como primeira língua.

No recreio, a campainha faz-se ouvir e a luz alaranjada acende e apaga. É sinal que está na hora de regressar aos livros. Na turma de Rodrigo são apenas seis alunos, todos eles surdos.

A aula de Físico-Química vai começar. Ao contrário do habitual, estas crianças pouco olham para a professora. O seu foco de atenção deve ser a intérprete de língua gestual, que acompanha a turma em todas as disciplinas. A professora fala a um ritmo ligeiramente mais lento que o normal, enquanto a tradutora transforma o som da voz em gestos.

A simplicidade de vocabulário e o recurso a imagens são essenciais para explicar a matéria a crianças surdas, pois muitas vezes não sabem associar a palavra ao objeto. Por exemplo, sabem o que é um arame, mas podem não saber que aquilo se designa como arame.

“Tentamos estar sempre viradas para os alunos. Perceber que quando estamos a mostrar uma imagem ou a explicar algo temos de dar tempo. As aulas e avaliações dos alunos surdos têm adequações. O programa é igual, o professor é que tem de arranjar estratégias para os alunos aprenderem da mesma forma que os outros meninos aprendem”, explica Andreia Graça, professora de matemática. “Na matemática, os exercícios que propomos são muito semelhantes aos dos alunos ouvintes, mas temos de simplificar sempre o português. E o mesmo acontece com os testes”, acrescenta.

Rodrigo é curioso. Faz perguntas e quer respostas. E surpreende quando abre a boca e fala (ainda que com alguma timidez quando há desconhecidos por perto).

“ELES NÃO SÃO MUDOS, TÊM VOZ”

Um surdo não tem de ser mudo. É um mito e o conceito surdo-mudo acabou por se generalizar. O surdo só não fala porque não ouve e, consequentemente, não reproduz as palavras.

“Eles não são mudos, têm voz. Muitos surdos falam e os que não falam é porque não querem ou porque têm dificuldade. Têm voz, gritam e as cordas vocais não têm qualquer problema”, conta Deolinda Grilo, intérprete de língua gestual. “Não falam porque não têm oralidade, porque não têm feedback auditivo. Há muito esse conceito do surdo-mudo mas esse está completamente ultrapassado”, acrescenta Marta Proença, terapeuta da fala.

Atualmente, existem no mercado soluções para minimizar as limitações da surdez e que facilitam o desenvolvimento da fala. Os aparelhos auditivos estão indicados sobretudo para pessoas com surdez ligeira, moderada e severa. Já o implante coclear é apropriado a casos diagnosticados como surdez sensorioneural severa ou profunda, “em que as crianças ou os adultos não têm bons ganhos apenas com próteses auditivas”, explica o otorrinolaringologista Herédio de Sousa.

Depois de um ano a usar aparelho, Rodrigo foi sujeito a uma cirurgia. A caminho dos cinco anos, uma idade já considera tardia para as intervenções, no hospital de Santa Maria, foi colocado um implante só no lado esquerdo. O dispositivo eletrónico, que substitui a função das células no ouvido interno, estimula o nervo auditivo e recria as sensações sonoras.

“Quando o implante coclear é colocado precocemente, até aos dois ou três anos, os resultados são bons. Por exemplo, se for implantado com um ano, quando chega aos seis, sabe falar e tem uma audição e uma convivência a nível social como se fosse uma criança não implantada”, explica o médico. “O implante é o melhor que temos para reabilitar uma criança com surdez profunda e habilitá-la a ter uma linguagem como os ouvintes”, acrescenta.

Isabel Lamas lamenta a espera no diagnóstico do filho e acredita que isso tenha limitado um pouco o desenvolvimento de Rodrigo. “Após o implante, ainda demorou alguns meses até dizer as primeiras palavras. Era igual a uma criança de dois anos que tentava começar a falar, mas já tinha quatro anos e meio”, recorda.

Ingressou logo no Centro de Educação e Desenvolvimento Jacob Rodrigues Pereira, da Casa Pia, onde começou a aprender LGP. Depois dos dois anos de pré-primária e o primeiro ano concluídos, Isabel achou que o melhor era transferir Rodrigo para a Quinta de Marrocos, mesmo que isso implique viagens diárias de 25 quilómetros (é a escola de referência mais próxima do local de residência da família, em Mem Martins).

Já se expressava pelos gestos. Estava na altura de começar a usar a voz corretamente.

“É um objetivo dar-lhes a oralidade possível. Vamos dar-lhes a comunicação que eles têm capacidade de ter. Uns são oralistas e conseguem compreender a oralidade, outros são gestualistas”, explica Marta Proença, terapeuta da fala na Quinta de Marrocos. “É importante serem inseridos na sociedade e queremos que ganhem autonomia e sejam ativos na vida fora da escola”.

Este é um processo que pode demorar, até porque há surdos que recusam oralizar. Ao começo, foi o que aconteceu com Rodrigo. A terapeuta lembra-se bem dos primeiros tempos difíceis. Certo dia, Rodrigo chegou ao gabinete de Marta. Vinha enervado e aborrecido. Falava, falava e falava.

“Estás a ver Rodrigo? Estás a conseguir transmitir tudo o queres sem usares os gestos! Estão tão nervoso que os gestos já não te chegam”, disse a terapeuta.
“Eu sei falar!”, surpreendeu-se Rodrigo.

Foi ali que o menino percebeu que era capaz e que não precisava de ter medo. “Parece que tudo se tornou diferente na cabeça dele, que se consciencializou de que conseguia falar e que era importante eu ter compreendido tudo o que ele queria transmitir. Para mim, isso foi tudo”, recorda Marta, que acompanha Rodrigo há quatro anos. É um caso excecional, normalmente no arranque do ano letivo é atribuído um novo terapeuta a cada aluno surdo.

Em casa e com a família, Rodrigo tem de falar. Insistem e evitam usar a LGP, para o obrigar a comunicar como comunicaria no exterior. A LGP é utilizada sobretudo entre os colegas de escola. “Apesar de quase todos saberem falar, preferem a língua gestual. Às vezes no computador por videochamada são cinco ou seis todos a falar ao mesmo tempo, mas não se ouve nada”, refere Isabel divertida.

Ainda hoje, apesar de falar com fluidez e de se explicar com relativa facilidade, o menino retrai-se e receia falhar. Nesses momentos, conta Marta, Rodrigo “lá vai para o seu mundo surdo” e defende-se gesticulado.

TURMAS SÓ COM ALUNOS SURDOS E OUTAS MISTAS

Carolina, 12 anos, e Raquel Estevam, 10 anos, são irmãs. Apenas 19 meses separam a data de nascimento das meninas. Filhas de pais ouvintes, ambas são surdas.

Ao contrário de Rodrigo, cuja origem da surdez é incerta mas se pensa que esteja relacionada com alguma infeção não detetada durante a gravidez, em Carolina e Raquel a resposta está na genética.

“Eu e o meu marido somos portadores a 50% do gene da surdez. Ou seja, até à sexta geração de ambas as famílias tinha de haver casos de surdez. No nosso caso, a criança nasce ouvindo, mas vai perdendo a audição gradualmente até aos 18 meses. E isso aconteceu com a Carolina”, justifica a mãe das meninas, Paula Estevam.

Se com Carolina, hoje com uma surdez profunda bilateral, os pais foram apanhados de surpresa, com Raquel isso já não aconteceu. Foi durante os exames à mais velha que nasceu a segunda filha e, devido aos antecedentes, a situação foi travada mais cedo. Logo aos nove meses começou a usar uma prótese.

Após centenas de consultas, exames e testes Carolina e Raquel receberam implantes cocleares. A mais nova usa ainda uma prótese, que lhe permite ter um nível de audição “como se fosse de uma menina ouvinte”.

Raquel fala e exprime-se sem dificuldade. Com Carolina é um pouco mais complicado. Apesar de ambas frequentarem a escola de referência em Benfica, foram encontradas soluções diferentes para cada uma: a mais velha está numa turma de surdos, a mais nova está integrada com ouvintes, sem ter uma intérprete na sala de aula.

A decisão relativa ao percurso escolar dos alunos surdos que chegam à Quinta de Marrocos passa por uma equipa multidisciplinar, que inclui professores do ensino especial, terapeutas, psicólogos, professores curriculares e interpretes. São pesados os prós e os contras de cada solução e tenta adequar-se cada menino à melhor solução.

Carolina está no 6º ano e Raquel no 5º. Apesar de não terem problemas com os colegas ouvintes, as dificuldades em comunicar ainda se fazem sentir. É normal no recreio os surdos conviverem com os surdos e ouvintes com os ouvintes.

“Enquanto pais, temos a perceção que elas não podem ser doutoras ao fim de seis ou sete anos. Talvez só o possam ser ao fim de dez ou 12. Mas chegam ao mesmo sítio que os outros, embora o ensino tenha que ser mais lento devido às capacidades”, refere Paula Estevam.

As capacidades intelectuais de um surdo são a mesma de uma pessoa ouvinte. A diferença está apenas em não conseguir ouvir. Até ao final do terceiro ciclo, existe as escolas de referência e os apoios. Ao chegarem ao secundário e à faculdade, deparam-se com a mesma realidade dos outros jovens.

“A única diferença é dificuldade na comunicação. Mas acho que essa parte já não tem só a ver com os surdos, porque eles fazem por conseguir ouvir alguma coisa e oralizar. Agora, falta da parte dos ouvintes saber comunicar com os surdos. A comunicação faz-se dos dois lados”, defende a intérprete Deolinda Grilo.

Há cada vez mais os surdos a seguir o ensino superior e a trabalharem nas suas áreas de estudo. Os pais das crianças surdas defendem a necessidade de melhorar os recursos na aérea da educação. Embora admitam que alguns avanços tenham sido feitos, continuam a ser “poucas as escolas” com intérpretes de língua gestual a tempo inteiro.

“As que existem são longe. Não consigo levar e ir buscar o Rodrigo à escola. Há meninos na Quinta de Marrocos que vêm todos os dias de Torres Vedras”, comenta Isabel Lamas. Até ao ano passado, uma carrinha fazia o transporte das crianças que moravam longe da escola. Este ano letivo, o serviço foi modificado e, além de ter demorado algum tempo a arrancar, foram definidos pontos de encontro para os alunos, uma espécie de paragens onde o autocarro faz a recolha das crianças.
Também os serviços públicos não estão totalmente adaptados. Há barreiras a derrubar e problemas que precisa de ser resolvidos.

Esta terça-feira, no dia em que se assinalou o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou a data para lançar uma nova funcionalidade na página da presidência. Embora não seja a necessidade que precisa de ser satisfeita com mais urgência, agora passam a estar disponíveis em língua gestual alguns dos mais importantes discursos presidenciais.

LÍNGUA OU LINGUAGEM?

Não se usa a designação ‘linguagem gestual’. A expressão correta é língua gestual, tal como se diz língua portuguesa – e nunca linguagem portuguesa. “As várias línguas gestuais do mundo inteiro possuem gramáticas complexas e expressões literárias diversas. Cada comunidade de surdos tem, portanto, a sua própria língua gestual, que surge no momento em que os surdos se juntam”, explica a Associação Portuguesa de Surdos na sua página.

TIPOS DE SURDEZ

– Surdez de transmissão/ condução: está relacionada com qualquer alteração na transmissão do som até ao órgão recetor, a cóclea. Diz respeito a problemas no ouvido externo ou no médio.
– Surdez sensorioneural: associada a um evento que acontece ao nível do órgão recetor, a cóclea, ou do nervo que transmite o som até ao tronco cerebral.
– Surdez mista: uma combinação dos dois tipos anteriores.

UMA ESCOLA COM 85 ALUNOS SURDOS

Na Escola básica Quinta de Marrocos existem duas tipologias de ensino para crianças surdas: em turmas exclusivas de alunos surdos (64 crianças) ou integrados em grupos de alunos ouvintes (21). Além das nove turmas (2 grupos de pré-escolar, 3 turmas de 1º ciclo e 5 grupos de 2º e 3º ciclo), há ainda um grupo de 12 bebés em intervenção precoce. Dos 85 alunos surdos, apenas três são filhos de pais não ouvintes.

Fotos e vídeo no link:

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2018-04-23-A-historia-do-surdo-mudo-e-um-mito#gs.ZVv8h2g

A Musicoterapia aplicada a crianças e jovens com necessidades educativas especiais

Março 28, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/

A Musicoterapia aplicada a crianças e jovens com necessidades educativas especiais.

O Som da Essência

A musicoterapia é a utilização da música e/ou dos seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia), exercida por um técnico habilitado, em ambientes hospitalares, educativos, clínicos ou institucionais, com um ou mais pacientes, num processo relacional que facilita e promove a comunicação, a relação, a aprendizagem, a mobilização, a expressão, a organização do pensamento e outros objetivos terapêuticos relevantes no sentido de ir ao encontro das necessidades físicas, cognitivas, emocionais e sociais dos pacientes (Federação Mundial de Musicoterapia, 1996, 2011).

Em Musicoterapia, o poder da música é utilizado para atingir objetivos terapêuticos mantendo, melhorando e restaurando o funcionamento físico, cognitivo, emocional e social do indivíduo. É a partir desta relação que a Musicoterapia estabelece a sua base de trabalho. Trata-se de uma abordagem que utiliza toda e qualquer manifestação sonora para produzir efeitos terapêuticos. Através do uso da música, de sons e de movimento, estabelece-se uma relação de ajuda, onde a Musicoterapia tem como objetivo auxiliar o paciente a vários níveis, como a prevenção, a reabilitação, o desenvolvimento, bem como na melhoria da sua interação com a sociedade. A música e o som são o canal de comunicação.

A musica com fins terapêuticos

A música vem sendo utilizada com fins terapêuticos desde os primórdios da humanidade, mas estabeleceu-se como ciência somente após a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, o investimento da ciência tem sido galopante no que diz respeito à investigação sobre a relação e o impacto direto da música a vários níveis, mas, essencialmente, a nível neurológico. A Associação Portuguesa de Musicoterapia, existente desde 1996, é a entidade de referência, reconhecida pela Federação Europeia de Musicoterapia, que regula e orienta o processo da acreditação dos musicoterapeutas em Portugal.

A Musicoterapia tem inúmeras aplicações, a várias populações e tipologias, entre elas síndromes genéticas como Down, Turner e Rett, distúrbios neurológicos, distúrbios emocionais, deficiências sensoriais, visuais e auditivas, autismo, dificuldades de aprendizagem, entre outras.

Este tipo de abordagem possibilita um enquadramento não-verbal através do qual as pequenas diferenças de comportamento se tornam evidentes nos processos intra ou inter pessoais em crianças com perturbações da relação e da comunicação. Essas diferenças podem ser encontradas no comportamento musical. O musicoterapeuta pode a este nível contribuir para a avaliação e diagnóstico global dos pacientes em musicoterapia ao nível da avaliação específica das capacidades sensoriomotoras, cognitivas (atenção, memória, jogos de antecipação e sequência lógica) perceção visual e auditiva e comunicação interpessoal.

Objetivos e plano terapeutico

Em Musicoterapia, existe um plano terapêutico, elaborado pelo musicoterapeuta, em consonância, ou não, com os técnicos da equipa multidisciplinar. Os objetivos gerais variam de acordo com as características do grupo ou indivíduo, das suas necessidades e peculiaridades. Contudo, alguns objetivos da musicoterapia com crianças ou jovens com necessidades educativas especiais são: Estimular a comunicação (verbal e não verbal); Estimular a expressão corporal, vocal e sonora; Melhorar a autoestima; Explorar as potencialidades e a conscientização dos próprios limites; Estimular a coordenação motora grossa e fina através de atividades musicais, utilizando instrumentos musicais de percussão simples; Desenvolver a orientação espacial e corporal através de vivências musicais; Desenvolver a capacidade de atenção e concentração; Estimular a imaginação e criatividade; Promover um melhor relacionamento intra e interpessoal.

A importancia e influencia da música nos seres humanos

A importância e influência da música e dos seus elementos sonoros no desenvolvimento do ser humano, tem-se tornado cada vez mais evidente. A investigação sobre esta temática vem comprovando a sua importância na relação simbiótica entre o indivíduo, desde a sua forma mais precoce, e o meio envolvente.

Independentemente das necessidades provenientes de cada patologia, a Musicoterapia valoriza a expressão de cada indivíduo, respeitando as suas particularidades e auxiliando-o nas suas dificuldades, como um ser global.

Por Rita Maia, Mestre em Musicoterapia, Doutoranda em Ciências da Educação, Especialização em Necessidades Educativas Especiais, Licenciatura em Educação de Infância | maia_rita20@hotmail.com

 

 

 

Conferência “Bullying & Pessoas com Deficiência” 9 março no ISCTE

Março 2, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.iscte-iul.pt/eventos/1530/bullying-pessoas-com-deficiencia

Crianças com necessidades específicas de educação (NEE) – Formação gratuita em Coimbra

Janeiro 8, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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OF01.a.3 – Ficha de Inscrição

mais informações:

https://www.inovinter.pt/oferta-formativa-coimbra/

 

Um olhar para a inclusão nas escolas: a outra face da moeda

Agosto 29, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Luís de Miranda Correia publicado no https://www.publico.pt/ de 18 de agosto de 2017.

O novo diploma do Governo não serve os interesses dos alunos com necessidades educativas especiais.

A discussão pública do projeto de Decreto-Lei designado de “Regime Legal para a Inclusão Escolar”, que pretende substituir-se ao Decreto-Lei 3/2008, de 7 de janeiro, tem sido alvo de várias análises, quase todas elas a tecerem considerações que me levantam muitas dúvidas.

A primeira prende-se com afirmações de que a “linguagem deste documento é mais avançada e atualizada” do que a usada no DL 3/2008 e de que, no que respeita à inclusão, “está em sintonia com os documentos mais avançados e considerados ao nível internacional”. Cita-se, até, um documento publicado pela Unesco (2017), intitulado A guide for ensuring inclusion and equity in education. Não posso discordar mais.

A linguagem deste documento e a da publicação da Unesco nada têm de avançado em relação ao que há mais de duas dezenas de anos tem vindo a ser dito sobre o assunto. Já há 20 anos, num dos meus livros publicados pela Porto Editora, Alunos com necessidades educativas especiais nas classes regulares (1997), dizia o seguinte sobre o assunto: “O movimento inclusivo tende a prescrever a classe regular de uma escola regular como o local ideal para as aprendizagens do aluno com NEE. Será aí, na companhia dos seus pares sem NEE, que ele encontrará o melhor ambiente de aprendizagem e de socialização, capaz de, se todas as variáveis se conjugarem, vir a maximizar o seu potencial. Uma escola inclusiva é, assim, uma escola onde toda a criança é respeitada e encorajada a aprender até ao limite das suas capacidades.”

Também o DL 3/2008, no seu preâmbulo, diz o seguinte: um aspeto determinante da melhoria da qualidade do ensino é “a promoção de uma escola democrática e inclusiva, orientada para o sucesso educativo de todas as crianças e jovens. […] A educação inclusiva visa a equidade educativa, sendo que por esta se entende a garantia de igualdade, quer no acesso quer nos resultados”.

Ainda, há mais de 30 anos, investigadores internacionais de grande envergadura nestas matérias têm usado linguagem semelhante. Ou seja, as “palavras bonitas” já têm barbas. Todos estamos de acordo, de tal forma que muitos de nós, eu incluído, pensamos que é tempo de deixarmos de tratar a inclusão em termos de classes inclusivas, escolas inclusivas, ou mesmo de alunos incluídos e das demais agora já consideradas verbosidades (pós-modernas?) que mais parecem pretender vender um produto a todo o custo à sociedade em geral.

O que é preciso é retirar essas “palavras bonitas” do papel onde já estão a criar bolor e pô-las a saltitar nas escolas para que estas possam efetivamente acomodar uma filosofia inclusiva que permita providenciar serviços para os alunos em risco, com necessidades educativas especiais, sobredotados e talentosos, fazendo-o de uma forma que possa proporcionar sucesso a todos os alunos. Só que esta mudança requer uma restruturação profunda que o documento ora em discussão pública parece querer tratar, embora, a meu ver, não o tenha conseguido fazer dado o seu cariz abrangente, relegando para segundo plano a educação de crianças e adolescentes com necessidades especiais.

Repare-se que o diploma nem sequer define conceitos tais como inclusão, educação especial e necessidades educativas especiais, para mencionar apenas alguns termos que deveriam merecer a nossa atenção. Mesmo o documento da Unesco, citado acima, inclui no seu glossário estes e outros termos necessários à oferta de uma educação de qualidade para todos os alunos centrada no princípio da igualdade de oportunidades.

A segunda consideração aborda “a não centração na categorização” também ela produto do “enfoque que (hoje) é dado à inclusão”. Aqui, também o meu desacordo. Todos sabemos, ou devíamos saber, que, em educação, continua a ser muito atual a discussão sobre as vantagens (ex.: A categorização promove a consciencialização e consequente compreensão da singularidade das dificuldades de um aluno; A categorização leva à intervenção, abrindo portas aos recursos; A categorização reduz ambiguidades, promovendo uma profícua troca de informações entre profissionais de educação e pais) e desvantagens (ex.: A categorização pode alterar as expectativas dos professores; A categorização pode estimular comportamentos de bullying; A categorização pode fazer baixar a auto estima do aluno) da classificação e consequente categorização no que respeita aos alunos com necessidades especiais. É interessante notar-se que nem o próprio documento alvo de discussão pública consegue fugir à categorização (algures no seu preceituado usa termos como “domínio da visão”; “surdez”; “dislexia”), embora no seu preâmbulo se diga que se afasta “a concessão de que é necessário categorizar para intervir.”

Uma terceira consideração que poderá pôr em risco o sucesso das crianças e adolescentes com necessidades especiais é a de se afirmar que a escola deve adequar-se, adaptar-se e acomodar-se em lugar de criar serviços “especiais”. Embora se perceba que haverá uma ponta de ironia nesta afirmação, o leitor menos preparado poderá não perceber que não existem serviços “especiais”, mas sim “especializados” (ex.: educacionais, psicológicos, terapêuticos, sociais, clínicos), tantas vezes absolutamente necessários para responder às necessidades dos alunos. Esta ironia pode até ser considerada uma ofensa para os profissionais que tão diligentemente prestam os seus serviços em prol do sucesso dos alunos, particularmente dos alunos com necessidades especiais (docentes de educação especial, psicólogos, terapeutas, técnicos de serviço social, clínicos).

Uma quarta consideração, bastante positiva, embora pouco ou nada evidenciada nas várias análises a que tive acesso, diz respeito ao facto de o documento agora em discussão pública ter abolido o uso da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Outro fator positivo é o estabelecimento de “uma tipologia de intervenção multinível no acesso ao currículo”, embora, a meu ver, seja necessário considerar-se uma fase experimental para que as escolas a possam vir a implementar. Contudo, tal facto não deve impedir, quando absolutamente necessário, que um aluno seja encaminhado para os serviços de educação especial (cerca de 4 a 6% dos alunos com NEE necessitam desses serviços).

Finalmente, embora esteja ciente de que haveria muitos mais aspetos do documento a analisar (ex.: funções dos docentes de educação especial; papel dos Centros de Apoio à Aprendizagem) que, por falta de espaço, me vejo impedido de fazer, gostaria de terminar afirmando que, pese embora os aspetos positivos, a proposta de decreto-lei não serve os interesses dos alunos com necessidades educativas especiais, desrespeitando, até, os direitos daqueles com problemáticas mais significativas e os de suas famílias. Poderei mesmo dizer, de uma forma construtiva, que ele parece pretender acabar de vez com a Educação Especial e, por arrastamento, com o pressuposto de uma educação de qualidade, em que impere o princípio da igualdade de oportunidades, para os alunos com NEE significativas.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico

Professor Catedrático Emérito, Universidade do Minho

 

Necessidades Educativas Especiais: “Sinto-me excluído de tudo”

Maio 13, 2017 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt de 5 de abril de 2017.

Rachid continua a ter dentro de si o sonho de entrar no ensino superior RUI GAUDÊNCIO

No Parlamento, pais e jovens com necessidades educativas especiais contaram do que é feito o seu mundo a propósito da escola que deveria ser inclusiva, mas que, dizem, continua a excluir os que são diferentes.

Clara Viana

“Bem-vinda ao inferno!” Foi assim que Maria Manuel se sentiu quando o seu filho de 16 anos ingressou no ensino secundário e todas as portas se começaram a fechar. “As escolas secundárias não têm capacidade para acolher deficientes profundos”, como é o caso do seu filho, disse num dos muitos testemunhos de pais e jovens com necessidades educativas especiais (NEE) que foram apresentados nesta quarta-feira na Assembleia da República, numa iniciativa promovida pelo grupo de trabalho da educação especial da comissão parlamentar de Educação.

Durante quase cinco horas sucederam-se relatos sobre a exclusão destes jovens, sobre as lutas permanentes que eles e os pais têm de travar, sobre a incompreensão dos professores e dos outros estudantes face à diferença. É o caso de Inês, que tem 13 anos e que desde há muito chega a casa a chorar: “Fico todos os recreios sem brincar”, conta. E na aula o que fazes? Pergunta-lhe a mãe: “Fico a olhar para o professor.”

São consideradas necessidades educativas especiais um “conjunto de limitações significativas, ao nível da actividade e da participação em um ou vários domínios de vida, que decorrem de alterações funcionais e estruturais de carácter permanente e resultam em dificuldades continuadas em comunicação, aprendizagem, mobilidade, autonomia, relacionamento interpessoal e participação social”. É esta a definição que consta dos documentos oficiais.

Neste ano lectivo estão sinalizados como tendo NEE cerca de 82 mil alunos, mais 5% do que no ano passado. O maior aumento registou-se no ensino secundário devido ao alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos. Antes, muitos destes jovens desapareciam do sistema de ensino no final do ensino básico.

Por via do decreto-lei n.º 3 de 2008, as crianças e jovens com NEE devem estar integradas em escolas do ensino regular, embora beneficiando de apoios específicos propiciados por professores de educação especial e outros técnicos. Este diploma “foi uma tábua de salvação para os pais, mas as escolas não têm meios para intervir”, contou no Parlamento Eduarda Melo, mãe de um filho com dislexia. Muitos outros dirão que existe um “fosso enorme” entre o que a lei determina e aquilo que na prática acontece nas escolas.

Eduarda Melo lamenta que o conceito e protecção das crianças e jovens com NEE só abranjam a escolaridade obrigatória. “Parte-se do princípio que os nossos filhos nunca chegarão à universidade”, afirmou, para revelar que o seu filho conseguiu ultrapassar esta barreira.

O mesmo não aconteceu a João: “Concluí o secundário com um currículo específico individual. Gostava de ter ido para a faculdade, mas não me foi permitido o acesso. Não consigo arranjar emprego. Não posso utilizar os conhecimentos que tenho em nada. Sinto-me excluído de tudo.”

O currículo específico individual é aplicado aos casos mais severos de NEE e consiste na adequação dos currículos às características do aluno. Estes alunos podem concluir a escolaridade obrigatória sem realizarem exames, porque as suas limitações os impedem de fazer estas provas, mas esta possibilidade faz com que fiquem excluídos logo à partida do ensino superior.

Rachid, 23 anos, outros dos participantes na audição pública, dirá ao PÚBLICO que dentro dele continua a ter o sonho de ingressar na faculdade, mas que esse sonho vai encolhendo porque a realidade em nada tem ajudado. À semelhança de João, concluiu o secundário, mas não pôde prosseguir estudos. Agora está a fazer uma formação profissional na Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

E depois da escola?

“As escolas não fazem acontecer as coisas. É como se estas crianças e jovens fossem transparentes”, lamenta Sílvia Paula, mãe da Inês. “Todos os anos tenho de reclamar porque as medidas previstas na lei não são aplicadas pela escola”, conta Helena Gonçalves, mãe de quatro filhos, dois com o espectro do autismo. O filho de Cristina Isabel sofre do mesmo e devido aos problemas de comportamento associados ao autismo foi alvo de quatro procedimentos disciplinares.

A certa altura, Gonçalo apresenta-se à audiência. “Tenho 15 anos, sou autista. A minha vida escolar tem sido fácil e difícil. Fácil porque gosto de estar na escola e de aprender. Difícil porque é difícil fazer amigos. Também gostava que os meus professores compreendessem que preciso de ajuda.”

Para a representante da Federação Nacional da Educação, todos estes testemunhos mostram que “a escola exclui mais do que incluiu”. Mas há outras preocupações. Luísa Beltrão, mãe de sete filhos, uma das quais com uma deficiência profunda, é a primeira a dar conta do que vários outros dirão também de seguida. E depois da escolaridade obrigatória o que acontece a estes jovens? Ficam em casa? “A escola não está a preparar estes jovens para a vida activa e face a isso a angústia dos pais é terrível.”

Mas também há desfechos positivos. O de Ana Rita é um deles. Conta que tem paralisia cerebral, mas que devido aos apoios que sempre teve nas escolas por onde passou conseguiu concluir o ensino secundário nas vias profissionalizantes. Foi para aí que a escola a encaminhou. Por já ter 18 anos também teve de fazer o 12.º ano à noite. Ultrapassou tudo e agora tem um emprego.

 

 

Formação Certificada | Intervenção e Atividades Pedagógicas com Crianças com NEE – 11 abril em Sacavém

Março 21, 2017 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/academia.bernardodacosta/

Bullying em alunos com NEE (necessidades educativas especiais)

Setembro 26, 2016 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://uptokids.pt/ de 13 de setembro de 2016.

bullying

O bullying é um fenómeno preocupante, cada vez mais frequente no meio escolar. O bullying define-se como todos os comportamentos agressivos (físicos e/ou verbais) de intimidação, aplicados de forma regular e frequente, traduzindo-se em práticas violentas exercidas por um indivíduo ou por pequenos grupos (Costa, 1995).

Sabe-se que, os alunos com deficiência e/ou NEE, são menos aceites que os seus colegas, e são mais suscetíveis de sofrer de bullying, devido às suas limitações tanto físicas como mentais.

Habitualmente, os alunos com NEE que sofrem de bullying não o partilham com os adultos, contudo existem alguns sintomas presentes nas vítimas de bullying aos quais se poderá estar atento: enurese noturna, alterações do sono, cefaleia, desmaios, vómitos, paralisias, hiperventilação, queixas visuais, síndrome do cólon irritável, anorexia, bulimia, isolamento, tentativas de suicídio, irritabilidade, agressividade, ansiedade, perda de memória, depressão, pânico, relatos de medo, resistência em ir à escola, insegurança por estar na escola, mau rendimento escolar e autoagressão.

O conceito de Escola Inclusiva, tem como objetivo perspetivar a criança/adolescente como um tudo, ou seja, tendo em conta o seu ritmo de aprendizagem escolar, desenvolvimento pessoal, social e emocional, de forma a que também tenha acesso ao ensino, de acordo com a suas competências e capacidades (Correia, 2008).

LER TAMBÉM Receber um aluno com deficiencia na sala de aula não significa inclusão

Apesar da redefinição do conceito de NEE com a Declaração de Salamanca e de se terem verificado benefícios para estes alunos, como a melhoria do seu comportamento pró-social, auto-estima, autoconceito e também o sucesso académico, têm-se verificado igualmente algumas barreiras na aplicação de uma Escola Inclusiva. Nomeadamente, a falta de competência dos professores em relação aos alunos com NEE, falta de tempo, valorização excessiva nos resultados académicos, falta de iniciativas de interações sociais e o bullying.

De acordo com a minha experiência profissional enquanto Psicóloga Clínica numa Equipa CRI, tenho vindo a constatar a frequência de fenómenos de bullying junto de alunos com NEE, e a sua influência nas relações interpessoais e aproveitamento/motivação escolares. São alunos com poucos recursos ao nível das competências sociais, pessoais e emocionais, tornando-se urgente o acompanhamento e/ou uma atuação preventiva, de forma a estimular o treino destas competências e torná-los mais autónomos e integrados socialmente. Tal poderá ser trabalhado através da aplicação de projetos de desenvolvimento de competências sociais, pessoais e emocional, ao nível individual e/ou grupal.

É importante que o meio escolar não tenha apenas como foco principal o aproveitamento escolar do aluno, mas também estar atento à sua conduta social e relacionamentos interpessoais, uma vez que o estabelecimento de amizades nos alunos com NEE, contribuem para o desenvolvimento interpessoal e emocional (auto-estima e auto-conceito).

O Bullying tem implicações não só em toda a comunidade escolar, como também nos alunos e seus familiares, neste sentido, torna-se essencial uma abordagem multidisciplinar, mobilizando todos os agentes educativos para uma resolução mais eficaz.

Os profissionais de saúde são agentes fundamentais, estes devem clarificar o impacto do bullying nas crianças/adolescentes e escolas, promovendo ambientes de amizade, respeito face à diversidade e de solidariedade.

Também os auxiliares de ação educativa e alunos, devem ser sensibilizados a supervisionar e intervir nas situações de bullying. Sendo conhecido os benefícios da amizade nos alunos NEE, é importante sensibilizar/estimular o aluno a estabelecer relações com um colega ou colegas com quem se sinta bem e aceite.

Para prevenção de futuros incidentes, podem ser trabalhadas junto dos alunos algumas estratégias como forma de proteção; Ignorar os apelidos; fazer amizades com colegas não agressivos; evitar locais de maior risco; informar professores ou funcionários sobre o bullying sofrido.

Por último, podem ser aplicadas técnicas de dramatização e ou grupos de apoio, para os alunos adquiram estratégias para lidar com as diferentes situações.

A Escola Inclusiva não deve apenas ser visto como um conceito ou utopia, é importante que seja trabalhada continuamente e concretizada. O bullying apresenta-se como uma das suas principais barreiras pelo que deverão ser tomadas medidas urgentes de forma a prevenir, eliminar ou diminuir a sua frequência. Tornemos a escola um espaço saudável e seguro, que aceite e se adapte a todas as diferenças contribuindo para o desenvolvimento de futuros cidadãos, responsáveis e autónomos.

Por Telma Santos, Psicóloga Clínica, para Up To Kids®

 

 

O que acontece aos alunos com deficiência depois dos 18 anos?

Agosto 16, 2016 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do https://www.publico.pt/ de 5 de agosto de 2016.

Rui farinha nfactos

Ana Cristina Pereira

As respostas sociais à população adulta com incapacidade têm vindo a aumentar, mas continuam insuficientes. Um número indeterminado de jovens acaba a escolaridade obrigatória e vai para casa.

Maria está impaciente. Pega na mão da irmã, Marta, e puxa-a para a porta do apartamento. “Ainda não”, diz-lhe a menina, de 11 anos. Ela está habituada a sair por volta das 9h para a escola. Acabou o prolongamento escolar. E não gosta de quebras na rotina. Qualquer alteração lhe faz impressão.

Durante 13 anos, a família nem tinha um nome para a doença dela. É raríssimo haver uma pessoa com uma mutação do gene CDKL5. Foi aprendendo a ampará-la nas convulsões. Foi percebendo a severidade do seu défice cognitivo. “Sabemos que quer sair porque nos pega na mão e nos leva para a porta”, diz o pai, Miguel Silva. “Percebemos que tem fome, porque chega à mesa, puxa a cadeira e senta-se.”

Completou 18 anos em Abril. No próximo ano lectivo, estará fora da escolaridade obrigatória. O Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos já não terá de a manter na Unidade de Apoio Especializado para a Educação a Alunos com Multideficiência. E a família não encontra, em Vila Nova de Gaia, vaga num centro de actividades ocupacionais com acordo de cooperação com o Estado.

Miguel trabalha como vendedor, numa multinacional. E a mulher, Cristina, gere o seu próprio negócio, um salão de cabeleireiro. Deixam as filhas na escola, ali perto, e seguem para o trabalho. Os avós paternos olham por elas desde que elas saem da escola até um deles voltar para casa. Em Agosto, expandem o tempo de apoio. Miguel e Cristina não se atrevem a pedir mais. Eles assustam-se tanto com as convulsões de Maria. “Têm medo que ela lhes morra nos braços”, diz o pai.

Maria tem um Plano Individual de Transição, como manda a lei. Três anos antes do fim da escolaridade obrigatória, a escola começou a procurar identificar oportunidades para a sua vida pós-escolar, envolvendo a família e a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM). “Não é por ter feito esse plano que tem resposta”, lamenta o pai.

O Ministério de Casa

Pelas contas da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, há cada vez mais crianças com necessidades especiais nas escolas. Entre o ano lectivo 2014/2015 e o ano lectivo 2015/2016, o país passou de 75.193 para 78.175. No ano que agora terminou, 2081 frequentavam as unidades de apoio especializado para alunos com multideficiência e surdo-cegueira congénita, como ela.

Filinto Lima, o director do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, que é também presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, está indignado: “Estas crianças e jovens, com graves problemas, progridem até aos 18 anos e a partir daí vai tudo pela água abaixo. Passam do Ministério da Educação para o Ministério de Casa. Podem ficar em casa o resto da vida! Não são estimulados. Não evoluem. Os encarregados de educação ficam desesperados.”

Este ano, a grande preocupação de Filinto Lima é Maria e um colega. Há dois anos, a sua grande preocupação era um par de gémeos que completou 18 anos sem que houvesse uma resposta de continuidade para lhes dar. Prolongou-lhes a matrícula um ano, a ver se aparecia uma vaga na APPACDM ou na CERCI (Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades). Não o fez no ano seguinte. Volvido um ano, continuam num apartamento sem elevador, à espera.

Fátima Jorge, a mãe dos gémeos, já não sabe o que há-de fazer. “Estar com eles o dia todo é complicado. Sentam-se aí a ver televisão. Quando se cansam de ver televisão, tenho de lhes pôr música. Eles gostam muito de música. Ó Miguel, que música é que gostas?”, pergunta, dirigindo-se ao filho, sentado no sofá. “Toy”, responde o rapaz, baixinho. “É o Toy. Ele adora o Toy.”

“Tanto os professores lutaram para estas crianças não ficarem em casa”, diz Fátima, sem perder os filhos de vista. “Muitas vezes, foram connosco, no carro deles, à APPACDM ou à CERCI.” Nota grande diferença no comportamento dos rapazes, agora com 20 anos. “Eles antes andavam mais calmos. Chegavam cansados, a gente dava-lhes banho, dava-lhes jantar. Eles estavam aí um bocado e iam dormir. Agora, às vezes, são duas da manhã e ainda andam aí, de um lado para o outro.”

Atingidos os 18 anos ou concluído o nível de ensino obrigatório, quem sai do ensino especial com um currículo específico individual não pode ingressar no ensino superior, mas pode ser encaminhado para emprego, formação profissional ou centro de actividades ocupacionais (CAO), uma resposta que funciona um pouco por todo o país com uma comparticipação da Segurança Social.

“Actualmente, com o aumento da esperança média de vida e do número de crianças e jovens com deficiência, todas as entidades com competência nesta área estão a trabalhar no sentido de se diversificarem as respostas e os serviços a prestar à população adulta com deficiência”, assegura a assessora de imprensa do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Têm vindo a subir o número de pessoas com incapacidade abrangidas por acordos de cooperação celebrados entre o Estado e instituições particulares de solidariedade, misericórdias e mutualidades. Em Dezembro de 2015, somavam 13.180. No final de 2011, 10.695. E o “Instituto da Segurança Social, ao nível do Orçamento Programa 2016, tem prevista a celebração/revisão de novos acordos de cooperação, o que garantirá a abrangência de mais 558 utentes”.

Lição de vida

Presume-se que a lista de espera seja grande, mas não se sabe dizer o quanto. “As instituições são responsáveis pela inscrição dos utentes em lista de espera, pelo que o Instituto de Segurança Social não dispõe de dados”, menciona a mesma fonte. “Futuramente está previsto, no âmbito da comissão de acompanhamento, um trabalho com as IPSS no sentido de se efectuar um cruzamento dos utentes em lista de espera para as respostas sociais da área da deficiência, uma vez que haverá um número significativo de utentes inscritos em mais do que uma instituição.”

Cada um tem de ter um plano ajustado. Há quem esteja num centro a fazer actividades socialmente úteis, que poderão vir a facilitar a transição para algum programa de integração socioprofissional, e quem esteja a fazer actividades estritamente ocupacionais, que “visam manter a pessoa activa e interessada, favorecer o seu equilíbrio e bem-estar físico, emocional e social”.

“A Maria não tem capacidade para fazer qualquer actividade”, reconhece o pai. “Ela não tem noção de perigo. É capaz de pegar numa faca e de a levar à boca. O tipo de resposta que procuramos é mais de estar, de cuidar. Ela precisa de terapias que a possam ajudar a desenvolver a autonomia — a controlar a urina, a ir à casa de banho, a comer sozinha. Ela pega num copo e leva-o à boca mas tanto o pousa direito como de lado. Ela precisa de trabalhar a psicomotricidade. Também podia trabalhar algumas áreas sensoriais, de relaxamento, de postura.”

Já procurou uma solução fora da chamada rede solidária. “É muito caro”, resume. Agrada-lhe uma que custa 25 euros por cada hora de terapia. Maria experimentou. “Fazia uma terapia de manhã e outra à tarde e durante o resto do tempo tomavam conta dela. Davam-lhe um lanche. Tinha uma hora de trabalho. Davam-lhe almoço. Mais uma hora de trabalho. Davam-lhe lanche. Ia buscá-la. Ficava 50 euros por dia. A trabalhar uma hora de manhã e outra à tarde, mil euros por mês.”

Já pediu à escola para prolongar a matrícula da filha mais um ano. “Tudo depende de uma série de factores. Tudo depende das características de cada criança. Se tem mais capacidades, se não tem, em que grupo vai encaixar…” É ver. De uma coisa tem a certeza: não a vai manter fechada dentro de casa.

Nota que “há pessoas que têm vergonha de ter um filho com défice cognitivo”. Diz-lhe a experiência que muitos homens desaparecem sem olhar para trás, como fez o pai dos gémeos, há 18 anos. “Eu não tenho vergonha. Se vou jantar fora, levo a Maria. Já sei que vou ser o centro das atenções. Ela é capaz de fazer barulho. A Maria, muitas vezes, quando vamos na rua, aborda as pessoas. Se der um bocadinho de espaço, agarra a chupeta do menino que vai ao lado, puxa a carteira da senhora que vai a passar.” E, apesar de tudo, parece-lhe que Maria vai conseguindo ter alguma qualidade de vida. “Ela vive numa situação de excepção. Tem os pais unidos. Tem a família próxima. Ela é o elo. Tem sido uma lição de vida.”

 

 

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