Pai-herói, que percorre 24 quilómetros diários para que as filhas estudem, homenageado pelo Governo afegão

Janeiro 15, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 8 de janeiro de 2020.

Governo do Afeganistão prometeu não só uma escola para a aldeia de Mia Khan como baptizá-la com o seu nome.

Carla B. Ribeiro

Nas pequenas aldeias em redor de Zareh Sharan, capital da província afegã de Paktika, no Sudeste do país, há ainda quem acredite que as raparigas não deviam ir à escola. Mas para um pai de três meninas esses pensamentos são irrelevantes porque, diz, citado pelo site afegão de notícias Reporterly, “estudar é um direito das minhas filhas”. E Mia Khan empenha-se, todos os dias, para que esse direito não lhes seja vedado.

que, numa região onde a segurança ainda é um luxo reservado aos mais endinheirados, explica Khan ao mesmo órgão, ir à escola depende de ter quem acompanhe as crianças. “A [falta de] segurança é uma das dificuldades de quem vive no Afeganistão. Ser incapaz de passear em segurança, dos nossos familiares não poderem viajar pela cidade com facilidade ou dos nossos filhos não poderem ir muito longe para estudar.”

Porém, para este pai, de 63 anos, patriarca de uma família de 12, dos quais sete raparigas, a solução tornou-se óbvia. “Mia Khan viaja 12 quilómetros todos os dias na sua moto para levar as suas filhas à escola e, depois, espera por elas algumas horas, até que as aulas terminem, para as levar de volta a casa”, descreveu o Comité Sueco para o Afeganistão (SCA, na sigla original, uma organização não-governamental que opera no país, nomeadamente ao nível da educação e da inclusão de meninas na escola), no início de Dezembro, num post nas redes sociais.

Na verdade, a maioria das vezes, acabaria por o próprio relatar, os quatro — ele e as três filhas, de 8, 10 e 12 anos — percorrem a pé aqueles 12 quilómetros de casa à escola e, ao fim do dia, outros tantos para regressar ao lar.

Uma rotina diária inspiradora, como foi descrita por várias pessoas pelas redes, que acabaria por chamar a atenção do Governo afegão, num país onde há, segundo dados de 2015, cerca de 60% de analfabetos, sendo que este valor escala para 75% se se tiver em conta apenas o género feminino.

Na semana passada, Mia Khan foi homenageado pelo próprio ministro da Educação do país, Mirwais Balkhi, que o apelidou de “herói da educação”. Entretanto, Balkhi divulgou em comunicado, citado pelo South China Morning Post, a intenção de construir uma escola na aldeia onde Khan vive e baptizá-la com o seu nome.

“A educação das crianças é responsabilidade das famílias, mas o caso de Mia Khan é excepcional porque durante anos ele teve que andar com as suas filhas quilómetros”, considerou o porta-voz do mesmo ministério, Noorya Nazhat, ao jornal Arab News.

Lutar pela literacia

O afegão Mia Khan é analfabeto como tantos outros concidadãos. No entanto, o homem sempre quis algo diferente para os seus descendentes: “Eu trago as minhas filhas para a escola todos os dias para que possam estudar e experimentar uma vida diferente da que eu e a mãe temos”, disse ao Reporterly.

A sua atitude, além de promover a alfabetização das raparigas, num país onde prevalecem os casamentos forçados, a violência doméstica e elevadas taxas de mortalidade materna, vai ao sabor da corrente dos progressos feitos pelos direitos das mulheres afegãs, desde que foram proibidas, durante o regime talibã, de 1996 a 2001, de frequentar as escolas, de terem trabalho, de participarem na política e até de saírem sem a companhia de um parente masculino. Actualmente, sobretudo nas cidades, muitas mulheres trabalham fora de casa e mais de um quarto dos membros do Parlamento são mulheres.

No entanto, explica o jornal Arab News, a luta por maior igualdade está ainda por conquistar, com as mulheres a terem de enfrentar uma hostilidade quase cultural, tanto no seio das famílias como por parte de militantes fanáticos.

Certo é que nada disto parece incomodar Khan que considera “importante o papel das mulheres na sociedade”, dando tanto valor às mulheres e às raparigas quanto aos homens. Além do mais, com uma doença cardíaca e sem cuidados médicos onde vive, Khan sonha que a sua filha Rozie, de 12 anos, venha a ser a primeira médica da aldeia. “É o meu maior desejo ver a minha filha como a primeira médica. Eu quero que ela sirva a humanidade.” Já a menina afirma-se “feliz por estudar”.

As três filhas de Khan, explica o SCA no seu blogue, estudam na Escola para Raparigas de Nooraniya, escolhida pelo progenitor pela qualidade do ensino, estando duas delas no sexto ano e uma no quinto.

Nove crianças mortas ou mutiladas por dia no Afeganistão entre janeiro e setembro

Dezembro 23, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 17 de dezembro de 2019.

Nove crianças morreram ou foram mutiladas por dia no Afeganistão nos nove primeiros meses deste ano, segundo dados da Unicef divulgados esta terça-feira e que apontam para um aumento de 11% do número de vítimas em relação a 2018.

Entre janeiro e final de setembro morreram 631 menores no Afeganistão e ficaram feridos outros 1.830, avança a organização das Nações Unidas para defesa dos direitos das crianças, chamando a atenção para “a tragédia” de um país envolvido em conflitos há mais de quatro décadas.

O número de vítimas representa um crescimento de 11% face ao mesmo período do ano passado, de acordo com o segundo relatório especial dedicado ao tema, publicado em Cabul 12 anos depois do primeiro. “O ano 2018 foi declarado como o pior para as crianças no Afeganistão, mas o número de crianças mortas e feridas entre junho e setembro deste ano já representa 94% do total de 2018. É inaceitável”, denunciou o representante da Unicef no Afeganistão, Aboubacar Kampo, em conferência de imprensa realizada esta terça-feira.

A responsabilidade pelo aumento de vítimas deve-se, por um lado, a um pico dos ataques suicidas, e, por outro, aos confrontos frequentes entre militares pró-governamentais e os talibãs e outros grupos insurgentes que operam naquele país asiático.

Numa década, entre 2009 e 2018, o conflito armado no Afeganistão causou a morte de 6.500 crianças e deixou 15.000 feridos. “Milhares [de crianças] perderam os seus direitos básicos a ter um lar, uma família, educação de qualidade, cuidados médicos, segurança e proteção, e milhares pagaram o preço mais alto, as suas vidas”, afirmou o porta-voz da Unicef em Cabul, Alison Parker. “É uma tragédia, mas podemos acabar com ela se trabalharmos juntos para isso”, acrescentou.

“Queremos fazer soar o alarme, pedir às partes em conflito que cumpram as suas obrigações relativamente à lei internacional dos direitos humanos (…) e deixem de atacar escolas e centros de saúde”, explicou Alison Parker.

No ano passado, as Nações Unidas registaram 162 ataques contra escolas, hospitais e seus trabalhadores.

No mesmo ano, a ONU também contabilizou 44 incidentes nos quais a guerra impediu que ajuda humanitária fosse entregue às comunidades necessitadas.

A violência afeta diretamente os afegãos mais jovens, muitos dos quais só conheceram a guerra durante as suas curtas vidas, mas o país tem outros problemas subjacentes, como pobreza, pessoas deslocadas internamente e uma falta geral de serviços públicos.

Para a porta-voz da Unicef, “altos níveis de pobreza tornam as crianças mais vulneráveis à violência, a abusos, a negligência, ao recrutamento por grupos armados e a várias formas de exploração, desde o casamento infantil ao trabalho forçado”.

No relatório divulgado esta terça-feira, a organização alerta para a necessidade de investir urgentemente em educação como forma de reduzir a taxa de analfabetismo no Afeganistão, que está entre as mais altas do mundo, e proporcionar escolas para as 3,7 milhões de crianças em idade escolar que se estima não irem às aulas.

Além disso, a Unicef quer arrecadar 323 milhões de dólares (cerca de 290 milhões de euros) para continuar as suas atividades no Afeganistão no próximo ano, sendo que, até agora, apenas conta com 25% desse valor.

A organização destaca que, apesar das dificuldades, se registou um “progresso significativo” da taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos, que foi reduzida em quase um terço desde 2008, e sublinha que 96% do país foi declarado livre da poliomielite.

mais informações na notícia da Unicef:

Preserving hope in Afghanistan

Seca no Afeganistão leva pais a venderem os filhos

Dezembro 13, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do Euronews de 28 de novembro de 2018.

A pior seca das últimas décadas no Afeganistão está a levar algumas famílias a venderem os filhos para liquidarem as dívidas ou comprarem alimentos. A seca tem agravado o problema do casamento infantil. A Unicef estima que pelo menos 161 crianças, entre elas seis meninos, tenham sido vendidas num período de apenas quatro meses em duas das províncias afetadas.

“Os pais contraem dívidas para sustentarem a família, esperando que a chuva chegue em breve e lhes permita liquidar a dívida, mas infelizmente a seca continua a arrastar-se e eles não conseguem pagar as dívidas. Infelizmente, as crianças tornam-se uma garantia”, disse Alison Parker, porta-voz da UNICEF para o Afeganistão, numa conferência de imprensa, realizada na terça-feira, em Genebra.

Entre as crianças há bebés de apenas um mês, já prometidos para casamentos forçados. 35% da população afegã realiza casamentos infantis.

10, 6 milhões de pessoas têm dificuldades para alimentar-se no Afeganistão.

“Este é um dos momentos mais difíceis da história do Afeganistão. O povo afegão está a sofrer de uma forma inimaginável”, frisou Toby Lanzer, representante-especial da ONU no Afeganistão.

O Alto Comissariado da ONU anunciou que começou a entregar milhares de tendas aos deslocados, vítimas dos conflitos e da seca.

 

Afeganistão: rapariga finge ser rapaz para poder ir à escola

Agosto 30, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://sol.sapo.pt/ de 24 de agosto de 2016.

Shutterstock

Zahra passou seis anos a fazer de menino para poder estudar numa escola no tempo dos talibãs 

Quando os fundamentalistas islâmicos tomaram Cabul, derrotando o regime pró-soviético que dominou por alguns anos o Afeganistão, às mulheres foram retirados grande parte dos direitos que vigoravam desde os anos 70, durante a monarquia. A guerra entre fundamentalistas que se seguiu levou ao poder os talibã (literalmente, “os estudantes de teologia” em pastum), apoiados pelo Paquistão. Foi então totalmente interdito que as mulheres fossem à escola. Mas a família de Zahra não se conformou com a proibição. E o tio, também estudante, teve uma ideia: porque não vestir a menina de cinco anos como um rapaz, para ela poder ir à escola? Tratou de convencer a avó e a mãe. Inicialmente, a mãe não estava muito inclinada a aceitar – “Deus fez dela uma menina” –, mas depois aceitou. 

“Mudei a minha roupa e tive de aprender a ser menino. O meu tio ensinou-me a jogar futebol, a ir para as montanhas, a fazer as coisas que os rapazes fazem. E passei a chamar-me Mohammed”, contou Zahra ao programa de rádio “Outlook”, da BBC. Teve de cortar também o cabelo, mas ninguém suspeitou de que não era um rapaz, porque a escola ficava a cerca de uma hora e meia de caminho e, nessa zona, ninguém conhecia a família dela. Mas passou seis anos com medo de ser descoberta e das consequências que isso acarretaria para ela e a família. Quando tinha 11 anos, o regime dos talibãs caiu e pôde voltar a estudar como menina. As escolas, no entanto, passaram a ser separadas entre rapazes e raparigas. Mas ela não ligava. “Eu dizia que estava feliz porque podia ler, escrever, tive educação no tempo certo. Estava orgulhosa porque tinha voz”, conta. 

Mas tinha saudades dos dias em que era Mohammed. Como Zahra não tinha todos os direitos, não podia rir alto. “Sinto saudade dos direitos que tinha como Mohammed”, afirma.

Tirou o curso de Direito e hoje, aos 23 anos, é jornalista e sustenta toda a família.

 

 

 

Fotógrafo documenta as expressões de crianças refugiadas do Afeganistão

Fevereiro 6, 2015 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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texto do site http://www.hypeness.com.br

O belo da infância e a tragédia da guerra – é essa beleza trágica que encontramos espelhada no rosto das crianças retratadas pelo fotógrafo da Associated Press Muhammed Muheisen. Tendo passado os últimos anos no Paquistão, ele captou as expressões de uma das maiores comunidades de refugiados do mundo, saída da violência do Afeganistão, com um foco especial: o olhar de meninos e meninas entre os dois meses e os 15 anos.

Apanhados no meio do caos, da violência, da pobreza e da incerteza, milhares de afegãos abandonaram o país rumo ao vizinho Paquistão nos últimos 30 anos. Entre essas pessoas, várias crianças foram obrigadas a crescer depressa e procurar refúgio em casas que não as suas. Apesar do medo em regressar ao país natal, muitas destas famílias não se sentem emocionalmente ligadas aos novos lares e algumas não chegam sequer a ter um.

As imagens abaixo, captadas nos arredores da capital, Islamabad, são apenas um pequeno olhar sobre as condições em que vivem estes afegãos. Todos preferíamos que estas fotos não existissem, mas não adianta fingir que não vemos:

Iaiba Hazrat, 6 anos

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Muhammed Muheisen

 

Gul Bibi Shamra, 3 anos

RefugeeChildren14

Muhammed Muheisen

 

mais imagens aqui

 

Como o Talebã recruta crianças como homens-bomba

Dezembro 19, 2014 às 3:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do site http://www.bbc.co.uk/portuguese  de 16 de dezembro de 2014.

AFP

Dawood Azami Do Serviço Mundial da BBC

Em um dia frio de inverno, uma série de parentes, vizinhos e curiosos se aproxima da casa do tio de Naqibullah, de 10 anos, na província de Baluquistão, no Paquistão. Eles estão felizes por encontrar o garoto vivo.

Naqibullah havia desaparecido misteriosamente de uma madrassa, uma escola onde os alunos se dedicam a estudar o islamismo.

Por cinco meses, não houve uma notícia sequer de seu paradeiro, até que um vizinho reconheceu o garoto na transmissão de uma emissora afegã.

Leia mais: O ataque à escola militar paquistanesa em fotos

Naqibullah estava entre os insurgentes capturados pela polícia do Afeganistão na cidade de Kandahar, no sul do país.

“Corri e contei ao tio dele que Naqibullah havia sido preso por tentar realizar um ataque suicida”, disse o vizinho.

A história de Naqibullah ilustra como o Talebã e outros grupos extremistas treinam crianças para se tornarem homens-bomba.

Vulneráveis

Os afegãos têm muito orgulho de ser um povo guerreiro, mas ataques suicidas não faziam parte desta tradição.

Estes ataques se tornaram comuns no país em 2005, uma tática copiada dos acontecimentos da guerra civil no Iraque.

No conflito instalado no país desde 2001, quando o atual governo e forças internacionais derrubaram o regime do Talebã, as crianças têm sido afetadas desproporcionalmente.

Leia mais: ‘Eles choravam, eu os confortava’; veja relato do psiquiatra que tratava talebãs

Elas têm sido usadas há tempos em ações dos militantes, como em ataques com explosivos, vigilância, busca de informações sobre as posições das tropas e autoridades do governo e da Otan.

Adolescentes já foram vistos carregando militantes feridos, coletando armas e até mesmo lutando. As autoridades afegãs dizem ter prendido cerca de 250 crianças nos últimos dez anos.

Mas o desdobramento mais perturbador deste seu envolvimento é o crescente número de crianças usadas como homens-bomba.

‘Mais recrutáveis’

AP

As crianças vêm sendo recrutadas justamente por serem crianças.

As forças de segurança do Afeganistão têm se tornado mais eficientes, e os homens-bomba adultos têm tido cada vez mais dificuldade em atingir seus alvos.

As crianças são consideradas mais “recrutáveis”: é mais fácil induzi-las a realizar um ataque e raramente despertam suspeitas.

Naqibullah foi recrutado em uma madrassa, o principal local usado pelo Talebã para recrutar crianças.

O garoto havia sido matriculado na escola por seu tio, que cuidava dele desde a morte de seu pai.

Famílias pobres no Afeganistão e no Paquistão enviam seus filhos para madrassas, onde eles ganham moradia e educação de graça.

Leia mais: Diálogo com Talebã divide opiniões em Washington

Entrevistas com crianças que foram presas revelaram que elas também são recrutadas nas ruas e em bairros pobres.

Em muitos dos casos, os pais ou responsáveis dizem desconhecer que as crianças tornaram-se militantes.

Há alguns casos raros de meninas recrutadas.

Spozhmai, de 10 anos, ganhou fama internacional no início deste ano quando foi presa em um posto de controle. Ela disse que seu irmão tentou fazê-la explodir a si mesma em um posto policial.

Em 2011, uma menina de 8 anos foi morta na província de Uruzgan, no centro do país, enquanto levava explosivos acionados por controle remoto para um posto policial.

Lavagem cerebral

No Paquistão, os “recrutas” passam por uma lavagem cerebral e são coagidos a realizar missões suicidas.

Mas também há evidências de que o treinamento ocorre também em partes do Afeganistão sob o controle do Talebã.

No ano passado, um pai da cidade de Kunduz, no norte afegão, entregou seu filho à polícia.

“Fiz isso porque temia que pudesse ter se tornado um radical depois de desaparecer por alguns meses”, disse o homem de 50 anos, que havia voltado do Paquistão com sua família um ano antes.

Alguns dos recrutas foram bem-sucedidos em seus ataques suicidas. Um garoto de 12 anos usando um uniforme escolar matou cerca de 30 pessoas na cidade de Mardan em fevereiro de 2011.

Promessas

AP2

Autoridades dizem que os militantes oferecem às crianças uma alternativa a uma vida tediosa, às drogas e à pobreza.

Naqibullah conta que os homens que cuidavam dele prometeram que ele iria para o céu e que seus problemas acabariam.

“Eles oferecem vislumbres do paraíso, onde correm rios de leite e mel. Em troca, a criança deve entregar sua vida e se tornar um homem-bomba”, disse um oficial.

Apesar de as confissões obtidas destas crianças e jovens não serem totalmente confiáveis, são relatos assustadores sobre como são recrutadas.

É dito a elas que meninas e mulheres afegãs são estupradas pelas “forças estrangeiras invasoras” e que o Alcorão está sendo queimado por americanos.

As crianças ouvem que é sua responsabilidade religiosa resistir às forças de coalizão “infiéis” e que seus pais irão para o paraíso – e que os afegãos que serão mortos por elas “merecem morrer” porque “não são muçulmanos de verdade” ou “colaboram com os americanos”.

‘Chaves do paraíso’

No entanto, raramente é dito às crianças quais são seus alvos específicos e por que estes merecem morrer.

Em alguns casos, simplesmente mentem para elas. Algumas recebem um amuleto contendo versos do Alcorão, que supostamente as ajudaria a sobreviver ao ataque.

Alguns militantes dão chaves para que as crianças as carreguem no pescoço. São as “chaves que abrirão as portas do paraíso” para elas.

Leis internacionais proíbem o uso de crianças em conflitos.

De acordo com o artigo 1º da Convenção de Direitos Infantis de 1989, qualquer pessoa com menos de 18 anos é uma criança.

A lei afegã também proíbe o recrutamento de menores por forças armadas ou pela polícia.

Porta-vozes do Talebã normalmente negam o uso de crianças, especialmente de meninas.

De fato, os três Laihas (códigos de conduta e regras) emitidos depois da queda do regime do Talebã, em 2001, dizem que jovens sem barba não podem ser arregimentados.

Mas um oficial do Talebã admitiu que comandantes do grupo violam este código por vontade própria.

Para muitos, a idade não é o mais importante. Qualquer pessoa que já tenha entrado na puberdade e não tenha problemas mentais é considerada pronta para o combate.

Reabilitação

Segundo autoridades afegãs, mais de 30 crianças acusadas de terem envolvimento com insurgentes ainda estão detidas.

A reabilitação é um processo complicado com tão poucos recursos. Segundo uma fonte, enquanto algumas crianças completam com sucesso este processos, outras se dizem arrependidas se terem falhado em suas missões suicidas.

Naqibullah descreve o que aconteceu com ele: “Eles me mantiveram em uma outra madrassa por alguns meses. Depois, outros homens vieram e me levaram para Kandahar”.

“Um dia, eles me levaram de carro, me deram um colete pesado e apontaram para alguns solados.”

Mas a polícia o deteve antes que ele pudesse explodir seu colete, e os militantes que o observavam fugiram de carro.

Para que conseguir sua libertação, seu tio contatou líderes tribais, teólogos e autoridades afegãs.

De volta em casa, o garoto diz para todos com quem conversa como está feliz de ter retornado.

 

 


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