O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Março 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado no site  https://www.eduardosa.com

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.
É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 

Até quando dura a adolescência? Aos 24, dizem cientistas

Fevereiro 18, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.dn.pt/ de 19 de janeiro de 2018.

Apesar de a puberdade acontecer cada vez mais cedo, o início da vida adulta está a ser cada vez mais adiado

“Um miúdo de 25 anos”. “Um jovem de 35”. Expressões como estas ouvem-se frequentemente e dão conta da ideia generalizada de que o início da vida adulta acontece cada vez mais tarde. Mas agora um grupo de cientistas defende que a idade que define o início e o fim da adolescência deve ser alterada de forma a abranger as pessoas entre os 10 e os 24 anos.

Num texto publicado na revista The Lancet, estes investigadores consideram que definir um adolescente como uma pessoa que tem uma idade situada entre os 10 e os 24 (e não entre os 10 e os 18, como se considera atualmente) corresponde mais ao crescimento dos indivíduos e ao entendimento generalizado acerca desta fase da vida e iria permitir uma aplicação da lei de forma mais adequada.

A puberdade começa cada vez mais cedo, graças às melhorias registadas ao nível da alimentação, saúde e condições de vida, mas os indivíduos iniciam uma vida adulta cada vez mais tarde. Analistas alertam para o perigo de infantilizar os jovens, mas o assumir de responsabilidades profissionais ou familiares (casamento e paternidade) acontece numa fase mais adiantada da vida.

Segundo dados da Pordata, as mulheres em Portugal casam-se agora (2016), em média, aos 31 anos, e os homens aos 32,8. Em 1961, eles casavam-se aos 26,9 e elas aos 24,8. Também a idade para ter o primeiro filho foi adiada: passou dos 27,1 em 1990, para os 31,9 em 2016.

Além destes factores socias, os cientistas apontam razões biológicas para o adiamento oficail do início da vida adulta: o corpo, mais precisamente o cérebro, continua a desenvolver-se para lá dos 20 anos, a trabalhjar de forma mais rápida e eficiente.

 

 

A geração Y

Fevereiro 16, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://p3.publico.pt/ de 30 de janeiro de 2018.

Iludem-nos dizendo que os “millennials” não têm os sonhos que os seus pais tiveram quando, na realidade, não têm como comportar esses mesmos sonhos

Texto de Mafalda G. Moutinho

Chamam-lhes millennials, geração Y, também já os apelidaram de geração à rasca, ainda que pudessem ser a geração dos desenrascados: são a geração dos runners, nascidos entre 1980 e 2000, esses impulsionadores da Economia da Partilha, por obrigação, diga-se.

Eles são esta geração, cujas borbulhas, segundo recentes estudos, permanecem até aos 24 anos de idade, arrastando a adolescência para desculpar a edificação de uma vida adulta que é cada vez mais tardia. São esta geração, muitas vezes sem carro nem casa própria, que dizem que preferem ver o seu dinheiro gasto em experiências e viagens, numa altura em que o dia de amanhã é tão incerto como o hoje.

Iludem-nos dizendo que os millennials não têm os sonhos que os seus pais tiveram quando, na realidade, não têm como comportar esses mesmos sonhos. São adultos depois dos 30, numa época em que ainda são jovens, mas deixam de ser tão jovens como foram os seus pais, e são biologicamente maduros, pensando na idade ideal reprodutiva. No fundo deixam de ser tão jovens assim quando tentam iniciar as suas vidas adultas.

O custo de vida tornou-se insuportável para os mais jovens, bem como a oferta de emprego. No entanto, outros estudos recentes referem que não teremos mão-de-obra suficiente, apropriadamente qualificada para todas as necessidades do país. Bom aqui o problema não vem de hoje. Os mais antigos e experientes provavelmente recordam as escolas industriais, repletas de cursos profissionais com créditos seguramente ao nível universitário dos nossos dias, que formavam profissionais e pessoas para aquela que é a verdadeira realidade laboral. Hoje educamos estes nossos adolescentes até aos 24 anos para frequentarem uma universidade, mesmo que o seu curso tenha uma empregabilidade reduzida.

O contexto universitário também merece reflexão. Por estes dias perguntavam-me como estava a educação em Portugal — por momentos veio-me à cabeça pensar nos próximos anos e se, efectivamente, estamos a ensinar para aquilo que serão os empregos ou se preferimos o trabalho do futuro. Claramente que a resposta é não, até porque o nosso mundo parece querer substituir-nos a todos por tecnologia quando esta deve servir para nos servirmos dela, ou seja, facilitar e melhorar as capacidades, bem como a nossa qualidade de vida. Não queremos trabalhar menos ou ver os empregos desaparecer, queremos trabalhar melhor. Não queremos algoritmos para tudo e mais alguma coisa como se as nossas vidas se medissem por padrões e amostras eliminando a unicidade e a imprevisibilidade que faz da vida uma passagem desafiante, bonita e mentalmente duradoura.

Os runners são jovens que tiveram e têm que aprender a correr contra o tempo, porque estarão sempre a viver num tempo que já não é o seu, já passou com alguns anos de distância. Os runners são jovens desenrascados e é nessa medida que muitos exploram o empreendedorismo porque as oportunidades do mundo real já não são as do passado. Já no mundo dos sonhos e das ideias as hipóteses são infindáveis e em muitos casos dão certo. Os runners gostam de percorrer maratonas, porque o tempo em que correm não é o seu. Qualquer Iron Man é um desafio fácil para os desafios que cada um dos filhos dos dias de hoje tem de enfrentar. Voltemos a ser adolescentes na altura certa antes que substituam as nossas corridas por corridas de robots.

 

 

 

Consumo de álcool na adolescência pode causar problemas no fígado em adulto

Fevereiro 16, 2018 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Correio dos Açores de 28 de janeiro de 2018.

O consumo de bebidas alcoólicas na adolescência pode provocar doenças hepáticas, como cirrose, numa idade mais avançada, sugere um estudo recente.

Para o estudo que foi conduzido por uma equipa de investigadores do Hospital Universitário Karolinska, Estocolmo, Suécia, foram analisados dados recolhidos de um estudo populacional sueco, conduzido em 1969 e 1970, que abrangia mais de 49.000 homens, com 18 a 20 anos de idade na altura, e recrutados para o serviço militar obrigatório.

A equipa associou os números pessoais de identidade dos participantes recrutados aos dados do registo nacional de pacientes e ao registo de causas de morte na Suécia até ao fim de 2009, ou seja, durante 39 anos.

Os resultados foram ajustados relativamente ao índice de massa corporal (IMC), capacidade cardiovascular, capacidade cognitiva, hábito de fumar e uso de narcóticos.

Como resultado, foi verificado que 383 homens tinham desenvolvido doenças graves no fígado, durante o período de acompanhamento, como cirrose hepática, encefalopatia hepática, insuficiência renal, ascite e morte por doença renal, sendo que o consumo de álcool na fase do fim da adolescência foi associado a um maior risco de doenças hepáticas graves numa altura posterior.

O risco era dependente da dose de álcool consumido, sem sinais de efeito de limiar, revelando-se mais pronunciado em homens que consumiam duas bebidas por dia (que equivaliam a 20 gramas de álcool) ou mais. Foi observado ainda que o risco era já significativo com o consumo diário de 6 gramas de bebidas alcoólicas.

Estes resultados foram apenas validados para homens e requerem validação para as mulheres.

Alexandre Louvet, especialista em doenças hepáticas observou, num editorial que acompanhou o estudo, que “o presente estudo aumenta o nosso conhecimento sobre o risco do consumo crónico de bebidas alcoólicas numa idade precoce”.

“Deve-se rever os níveis seguros de consumo de álcool na população geral e deve-se adaptar adequadamente as diretrizes de saúde pública”.

o estudo citado na notícia é o seguinte:

Alcohol consumption in late adolescence is associated with an increased risk of severe liver disease later in life

Mário Cordeiro: “O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar”

Setembro 28, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://visao.sapo.pt/ a Mário cordeiro no dia 19 de dezembro de 2016.

Teresa Campos

Entrevista publicada na VISÃO 1240 de 8 de dezembro

“Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo ‘lado negro da força’, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior”, diz o pediatra, em entrevista à VISÃO

Sentado num cadeirão do seu consultório, em Lisboa, o conhecido médico segura, orgulhoso, o seu mais recente livro: “Os nossos adolescentes e a droga”. É o 35º, contabilizando os que partilhou a autoria, em mais de 30 anos de dedicação às crianças e à promoção da saúde uma produção num ritmo alucinante, associada aos cinco filhos e à atividade médica. Aos 61 anos, não é a primeira vez que Mário Cordeiro escreve a pensar na segunda década de vida dos mais novos, a fase em que se desenvolvem as melhores ferramentas para enfrentar o futuro com mais segurança e resiliência. Desta vez, quis fazer uma espécie de manual para pais, com contexto, glossário e experiências contadas na primeira pessoa para esclarecer dúvidas que possam surgir sobre as diversas drogas, álcool incluído.

O objetivo, sempre, é informar. Porque mais vale prevenir do que tratar.

Já tinha escrito sobre adolescentes. O que o fez voltar ao tema?

Achei que valia a pena revisitar este tema porque deixou de se falar nele. Mas [o problema] existe. Há uns anos, verifiquei que o consumo comparado entre alunos da escola privada e da pública eram similares, o que contraria a ideia de que uns estão mais protegidos de determinadas experiências. O que faz sentido, se pensarmos bem nisso: um dealer vai investir mais junto de um público que tem mais dinheiro, certo?

A dada altura, lê-se: “Educar não é difícil, é ter momentos terríveis.” É isso que os pais de adolescentes devem esperar?

Os adolescentes trazem muitas alegrias e muitas dores de cabeça, no sentido de termos muitas dúvidas. Mas isso acontece a nós e a eles, porque o processo tem dois lados. O mais comum é, a partir de um sentimento de frustração, haver birras e não saber geri-las. E isso, claro, também acontece na adolescência. Um filho dá–nos recompensas extraordinárias, mas também imensas dores de cabeça. Além disso, idealizamos sempre os nossos filhos, e às vezes esquecemos que eles têm de fazer o percurso de vida deles.

Eles não são nossos. Podemos ser uma espécie de polícias-sinaleiros a indicar o melhor caminho, mas o automobilista é que decide se vai por ali ou não. E às vezes os filhos desiludem-nos, fazem escolhas que não faríamos e nem sempre é fácil lidar com isso. Tantas vezes oiço de alguns pais: “Mas nós demos a melhor educação, o máximo de carinho…”, quando descobrem que o filho anda a mentir ou a consumir tabaco e álcool e tem só 13 anos. Ao que respondo sempre que isso não é um passaporte para tudo. Há diferenças tremendas até entre irmãos. O melhor é dar o exemplo do que é o respeito, a ética e a disciplina, em vez de andarmos a dar sermões.

Uma criança que cresça com valores e princípios, limites e amor, mesmo que a determinada altura seja chamada pelo “lado negro da força”, tem uma capacidade de se levantar muitíssimo maior do que se não tiver azimutes nenhuns.

Isso leva-nos à ideia da criança-rei que se torna o adolescente tirano. As questões que se levantam na adolescência têm sempre a génese na infância?

O narcisismo é a grande doença social de hoje, e há muita gente que não o consegue ultrapassar. É uma fase que a criança começa aos 15 meses, quando já tem uma imensa autonomia e percebe que os outros podem ser manipulados, e passa a agir de acordo com a ideia do “quero tudo já”. Só com limites é que vai perceber que terá de trabalhar para conseguir o que quer. Há depois uma terceira fase, quando percebem que não são deuses e passam à condição humana, em que agradecem não ter tudo, para assim apreciarem melhor a conquista. A liberdade, a verdadeira liberdade, reside na escolha, em ter de escolher.

É por isso que a superproteção leva a excessos?

Claro, porque não se permitem as escolhas. Cada um precisa de saber os seus limites. Muito importante também é estar informado, porque isso pode ajudar a escolha. Reparamos hoje que há overdose de informação mas, ao mesmo tempo, falta de conhecimento. Outro problema deste viver muito fugaz é a falta de sabedoria. Porque a sabedoria exige tempo, reflexão, e esse processo é muito lento, não pode ser tudo no calor do momento. Se queremos tudo já, saber tudo já, isso muitas vezes armadilha-nos.

É isso que acontece com a superproteção: os pais tem a informação mas não têm sabedoria?

Sim. Querem respostas rápidas. Sou o maior fã da tecnologia, mas a forma como a usamos tem de ser adequada. É preciso ainda ouvir outros, porque nem sempre o que nos chega é o todo.

Ouvir relatos e experiências muitas vezes ultrapassa a pura informação. Quantas vezes em manuais se escreve “faça-se assim”, mas depois a experiência diz-nos algo mais. Veja-se os livros de dietas e afins a prometerem “seja feliz em três dias”. Dá-me vontade de rir, porque os próprios títulos matam logo o prazo.

E isso cria ansiedade, claro.

É aquilo a que chamo a “urgentificação de tudo”, e vê-se nas idas às urgências, para resolver qualquer problema. Recebo imensas mensagens e percebo que os pais estejam preocupados, mas em muitos casos é preciso saber esperar.

Hoje, sentimos que, seja o que for que queiramos saber, basta fazer clique.

Temos de aprender a abrandar. Este “quero tudo já” pode estragar tudo e não nos deixa apreciar momentos bons.

É o que, depois, na adolescência leva a uma insatisfação imensa…

É. A geração de jovens de que falo no livro nasceu e cresceu com esta ânsia de comunicação e de estar presente, que muitas vezes funde os fusíveis às pessoas, porque faz com que deixemos de saber conviver com a solidão, e isso é indispensável. A realidade ser tão voraz leva a doenças físicas, ao ataque à nossa imunidade, ao aumento do cancro, tudo também muito relacionado com o nosso modo de vida. Tornámo-nos escravos do telefone e deste modo de estarmos sempre contactáveis. Se não tivermos cuidado, deixamo-nos massacrar, e isso vai levar à falta de espaços privados, nossos. Esta invasão constante do telefone, durante as refeições e em qualquer conversa, é o exemplo maior da má educação. É uma fuga ao momento presente. É também isso que leva ao consumo de droga, que começa por não se saber encarar a realidade, não saber apreciar o que há de bom, subvalorizar o que não corre tão bem. Perante uma realidade que se acha horrível, e sem armas para dar a volta, o nosso desejo é de nos eclipsarmos. Se tivermos ao alcance uma substância, seja droga ou álcool, que nos permite fazê-lo, isso é muito tentador.

Quando é suposto falarmos com os nossos filhos sobre droga?

Não pode ser como antigamente, em que os pais sentavam os filhos e lhes diziam que precisavam de ter uma conversa. Não pode ser assim porque não surte efeito é por isso que sou contra a disciplina de Educação Sexual, porque é ridículo que se trate do assunto à terça-feira, das 11 à uma. Pode aproveitar-se um texto de Língua Portuguesa, ou a estatística, na Matemática, para falar de demografia, ou em Ciências, para falar da nossa biologia, ou em História, que é em si um repositório imenso de casos para todos os gostos. O mesmo se aplica às drogas: pode-se falar em vários momentos. Os pais têm de saber comunicar os filhos e têm de estar informados e não podem ficar-se pelo “Ele, ou ela, não fala comigo”. Tem é de ser numa linguagem que não seja desconfortável para nenhum dos dois, e tem de ser crível.

Podíamos resumir tudo a duas ideias: “Não vale a pena dizer que a droga mata” e “se experimentares é natural que gostes, mas deixa-me falar do resto.” É isso?

Não vale a pena dizer que mata porque, em si, é uma mentira, ou só é verdade a longo prazo. É como os maços de tabaco trazerem inscrito que fumar mata. A frase que mais gosto, mesmo, é “Os fumadores morrem prematuramente”, quando o que devia dizer é “Os fumadores têm maior probabilidade de morrerem prematuramente”. Aí já não há quem possa argumentar com o tio-avô que fumou cinco maços por dia e viveu até aos cem anos. Já é mesmo preciso pensar se quero aumentar a probabilidade de morrer mais cedo. É o mesmo com a droga. Por isso elenquei no livro os efeitos de cada uma e incluí depoimentos que não procuram julgar pessoas quem sou eu para julgar as pessoas? Às vezes, quem caiu naquele buraco pode ser só alguém que não encontrou na sua rede o suporte para dar a volta aos problemas e encontrar a felicidade em outro lado.

É também a forma de lhes dizer que há um dia seguinte, porque, como vivemos na tal voracidade, falamos demasiadas vezes apenas do hoje. Temos de lhes dizer que o que construímos, no amanhã, depende do que acontecer hoje. É essa pedagogia que muitas vezes falta. Quando falo com os meus filhos para cultivarem a excelência, não é pelas notas em si, mas porque ficam mais bem posicionados para, no futuro, poderem escolher à vontade o que querem.

Fala no desporto, no voluntariado, na cultura. Isso também lhes dá ferramentas para lidar com as adversidades?

Dá-lhes uma experiência de vida muito mais variada. Estas atividades, feitas com gozo, libertam endorfinas, que são as nossas morfinas. Pensar que temos essa possibilidade de nos “drogarmos” sem droga, e que a esquecemos… Quem faz desporto, ou se dedica às artes, ou outras atividades, tem uma probabilidade muito menor de cair nas drogas. E isso faz uma diferença abissal.

Que sinais de risco é que a família deve saber reconhecer para pedir ajuda?

É preciso dizer que não é por se encontrar papel de prata no quarto de um filho que se vai concluir que ele anda a queimar heroína. Se calhar, andou apenas a comer uma tablete de chocolate. Temos de ter noção de que os nossos filhos adolescentes precisam do seu espaço e de refletirem sobre a sua vida. Às vezes há pais que falam com uma ansiedade… “Ele/ela vai entrar na adolescência, não é?!”. Costumo dizer que eles não caíram na chaminé, atirados pelo Pai Natal, na véspera. Foram educados por aqueles pais, eles conhecem-nos.

Se fizeram um bom trabalho, podem aceitar esta fase com um mínimo de segurança. Há que acreditar nos filhos, permitir que tenham a sua identidade, e que não pensem exatamente como os pais pensam. Agora, quando o isolamento é exagerado, quando há uma vida seca, amarga, desistente das atividades que são boas, quando as notas caem sem razão aparente (às vezes podem só estar apaixonadíssimos!), aí os pais devem pedir ajuda. E aqui ressalvo: o álcool, e o seu consumo excessivo e prematuro, também é uma droga.

Os consumos dos adultos podem passar mensagens erradas?

Beber um copo por dia, à refeição, não é ter um comportamento de risco.

O problema é o consumo fora de horas, em excesso, e sobretudo para esconder alguma coisa. Uma coisa é beber um copo para acompanhar a refeição, outra é, sozinho, engolir uma garrafa inteira. Falar das coisas com verdade não é torná-las banal. Um pai uma vez disse-me que sentia que não tinha autoridade para falar com os filhos sobre os malefícios do tabaco porque ele também fumava.

Disse-lhe logo que não estava nada de acordo: se a verdade científica é que não faz bem à saúde, se acha que o seu filho não devia fumar, diga-lhe. Diga-lhe até porque começou, mostre-lhe até algumas das suas fraquezas. Queira ou não deixar de fumar, pode na mesma achar que aquilo é errado para o filho e que, se ele o fizer, pode dar cabo da sua saúde. Um pai tem tanta liberdade de escolher como um filho e aí está a dar-lhe armas para escolher. Isso é perfeitamente legítimo.

E isso também se aplica em relação à droga?

Um dos casos que relata no livro é de uma mulher de 50 anos que conta os seus consumos.

Sim, sem dúvida. A essa mulher, as anfetaminas não só lhe permitiam estudar horas a fio, sem dormir, como ainda a faziam emagrecer. Não é por acaso que tinham nomes como Libriu ou Valium, que fazem lembrar liberdade ou valor… Parece que sempre andámos à procura da felicidade sem esforço, não é? Mas digo também que este esforço e trabalho, que é necessário, não devem ser vistos como um calvário, como nos diz a nossa tradição galaico-cristã. Isto não é a via sacra. Trata-se de aprender a gerir a nossa liberdade de escolha. Falamos também muito de litigância (“porque tu não fizeste, não ligaste…”) mas dizemos pouco “gosto de ti”. Precisamos de fazê–lo com urgência, e sobretudo com os nossos filhos, que não são estranhos. Às vezes, o que se passa é que o filho gosta tanto dos pais que, para se diferenciar, arranja um pretexto qualquer para entrar em conflito. Os pais não podem ceder a essa pressão.

 

 

 

A adolescência pode ser um fardo impossível de suportar

Abril 11, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 30 de março de 2017.

Clay (Dylan Minnette) ouve a história dos últimos meses de vida de Hanna Beth Dubber /Netflix

Por Treze Razões estreia-se esta sexta-feira na Netflix. Parte do best-seller homónimo de Jay Asher para falar de temas como cyberbullying, abuso sexual e suicídio juvenil.

Maria João Monteiro

Quando Clay chega a casa depois de mais um dia de escola, tem uma misteriosa caixa à sua espera. Lá dentro encontram-se sete cassetes com 13 mensagens gravadas por Hannah, a sua colega de turma que se suicidou duas semanas antes e por quem sentia um carinho especial. A missão de Hannah é simples – dirigir-se a cada uma das 13 pessoas que tiveram um papel, maior ou menor, na sua decisão de pôr fim à vida e explicar o impacto das suas acções aparentemente inofensivas naquele desfecho trágico. Por Treze Razões é a nova série da Netflix e baseia-se no best-seller homónimo de Jay Asher lançado em 2008 (em Portugal foi editado pela Presença). “Este livro é incrivelmente trágico e sombrio em muitos aspectos, mas, em última instância, é uma história que fala de esperança”, disse Brian Yorkey, criador da série, citado pelo The Hollywood Reporter.

Ao longo de 13 episódios contados por Clay e Hannah, numa narrativa dual que flutua entre o presente e o passado, somos convidados a percorrer as memórias da protagonista relacionadas com cada uma das pessoas envolvidas nas circunstâncias da sua morte – quer as que a afectaram directamente, quer as que poderiam ter tido uma maior intervenção a seu favor – e com os lugares onde esses acontecimentos decorreram. A ideia é que as cassetes sejam ouvidas por todos os nomes que constam da lista deixada por Hannah. “Estou prestes a contar-vos a história da minha vida – mais especificamente, por que é que a minha vida acabou. Se estás a ouvir esta gravação, és uma das razões”, diz Hannah no trailer de apresentação da série. Clay só tem memória de ter tratado bem a colega de turma, mas quando carrega no play percebe que essa impressão pode não corresponder à verdade.

Por Treze Razões retrata a pressão social da adolescência e contextualiza o cyberbullying, a depressão, o abuso físico e psicológico, o suicídio. Paralelamente, aponta a passividade individual e de grupo – de pais e funcionários da escola – que protege muitas vezes os agressores de sofrerem as consequências das suas acções e empurra as vítimas para um estado de desespero sem retorno. “Lembro-me de que depois de filmar vi uma notícia sobre uma rapariga que se matou”, disse Katherine Langford, que interpreta a protagonista, citada pelo New York Daily News. “Foi um lembrete horrível de que o que tínhamos filmado é real e acontece com adolescentes em todo o lado.”

À medida que a história avança pelos últimos meses da vida da protagonista, é possível perceber que a situação de Hannah, embora levada ao extremo, não é única. Problemas como o bullying e a baixa auto-estima estendem-se a grande parte da sua comunidade escolar e, nomeadamente, às 13 pessoas mencionadas nas gravações. A série aborda, ainda, a forma como os pais de Hannah lidam com a sua inesperada morte, já que não lhes é deixada qualquer nota, mas sim muitas perguntas que aparentemente não têm resposta.

Com argumento de Brian Yorkey e Jay Asher, a série tem produção executiva de Tom McCarthy (O Caso Spotlight), que também realizou dois dos episódios. O projecto foi inicialmente pensado por Mandy Teefey para ser desenvolvido e protagonizado pela filha, Selena Gomez, mas desde então a história sofreu grandes alterações e as duas acabaram por aparecer como produtoras executivas da série, tendo os papéis principais sido entregues aos novatos Katherine Langford e Dylan Minnette. “Gosto do facto de não aparecer. Este livro tem um público tão grande que eu queria que [a série] fosse credível. Se eu fizesse parte dela, iria gerar um outro tipo de conversa”, explicou Selena Gomez numa entrevista ao jornal norte-americano New York Times.

Por Treze Razões promete ser o ponto de partida para uma maior discussão entre os pais e os adolescentes sobre os temas abordados e tem recebido diversas críticas positivas. A Variety refere que a série “faz um excelente trabalho ao retratar as emoções intensas da adolescência sem ser condescendente para com os espectadores, tenham eles a idade que tiverem”. Já o Uproxx acrescenta que “os melhores episódios são pequenas histórias marcantes sobre a forma como os adolescentes (…) se magoam mutuamente sem terem a intenção de o fazer ou sem se aperceberem do que estão a fazer”. A série conta ainda com nomes como Kate Walsh (Clínica Privada, Anatomia de Grey), Brian D’Arcy James (Smash), Derek Luke (Empire) e Miles Heizer (Parenthood).

 

 

Intensa prática desportiva na adolescência altera coração dos atletas

Março 24, 2017 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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É a principal conclusão de um estudo da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra, divulgado esta terça-feira, que alerta para a necessidade de maior acompanhamento médico.

A prática desportiva intensa e a competição na adolescência provocam alterações no coração dos atletas, conclui o estudo. A investigação foi conduzida pelo docente Joaquim Castanheira, do Departamento de Fisiologia Clínica, no âmbito da sua tese de doutoramento, e intitula-se “Participação Desportiva, Crescimento, Maturação e Parâmetros Ecocardiográficos em Jovens Masculinos Peri-Pubertários”.

Segundo um comunicado da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTeSC), o estudo detetou “diferenças significativas no tamanho, espessura das paredes e massa ventricular esquerda entre jovens desportistas e não desportistas, por um lado, e entre atletas de uma modalidade de nível local e de nível internacional, por outro, relacionando as diferenças encontradas com a prática de treino intensivo e de competição”.

“Verificámos que, na mesma modalidade desportiva com metodologias de treino semelhantes, há diferenças significativas para a massa ventricular esquerda entre atletas de nível local e de nível internacional, parecendo que esta é influenciada pelo maior grau de exigência e de sucesso”, disse o investigador Joaquim Castanheira, citado no documento.

O estudo teve como objetivo explicar o efeito do treino continuado na remodelagem cardíaca em jovens atletas do sexo masculino, em fase de crescimento, com idades entre os 13 e os 17 anos, uma vez que a maior parte dos estudos conhecidos foram realizados em atletas adultos, dividindo-se em quatro áreas transversais – atletas internacionais e adolescentes saudáveis não atletas, atletas de várias modalidades federadas há mais de cinco anos, basquetebolistas locais e internacionais, e judocas convocados para estágios da seleção nacional.

A investigação constatou ainda a necessidade de acompanhamento médico, previamente e durante a prática desportiva: “Mesmo as crianças devem fazer testes médicos antes de praticar desporto de competição, para despistar eventuais problemas”, afirma o docente.

Durante os testes realizados aos 382 atletas que constituem a amostra, o docente Joaquim Castanheira constatou que uma grande percentagem nunca realizou um ecocardiograma e uma pequena percentagem apresentava mesmo alterações estruturais ao nível do coração.

Embora habitualmente os atletas de competição realizem um eletrocardiograma anualmente, “todos os atletas, mesmo os mais jovens, deviam realizar pelo menos um ecocardiograma antes de iniciar a prática de desporto de competição”, uma vez que há alterações da estrutura cardíaca que são detetadas por este exame, refere o comunicado da ESTeSC.

 

Artigo da TSF em 14 de março de 2017

I Jornadas da Associação Chão D Andar “Adolescência em tempos de mudança” 17 e 18 de março na Biblioteca Orlando Ribeiro

Março 1, 2017 às 10:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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jornadas

mais informações:

http://blx.cm-lisboa.pt/noticias/detalhes.php?id=1164

Quando um adolescente sai à noite

Setembro 7, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no http://ionline.sapo.pt/ de 30 de agosto de 2016.

mario

Tão terrível como a banalização do mal é a impunidade descarada e arrogante ou o hábito de resolver as coisas com atropelamentos e pontapés na cabeça.

De um momento para o outro, parece que o país foi varrido por uma onda de crimes cometidos por adolescentes, quase como se a “licença para matar” não fosse apenas o que distingue o famoso “Double-O-Seven” (007) dos outros agentes de sua majestade. Para lá do caso dos “gémeos iraquianos” (como ficou conhecido, porque pouco interessa quem eram, não fosse dar-se o caso do imbróglio da imunidade diplomática e toda a discussão à volta disso), há dias, mais um adolescente foi, ao que se sabe, esmurrado com uma soqueira por um outro adolescente e atirado para os cuidados intensivos do hospital, depois de até ter sido dado como morto pela PSP. Escrevi aqui, há semanas, sobre a banalização do mal. Tão terrível como ela é a impunidade descarada e arrogante ou o hábito de resolver as coisas, nem sequer a murro, mas com atropelamentos, pontapés na cabeça ou soqueiras.

A propósito destes casos, e mesmo sem saber os seus últimos contornos, pretendo escrever hoje sobre os jovens que são, como o Rúben ou o Hugo, apanhados sozinhos, de forma vil, por delinquentes sem escrúpulos mas cobardes – não é por acaso que atuam em parelha ou com armas. Aqui ficam algumas dicas para o debate sobre a segurança dos adolescentes e como se podem tomar algumas medidas preventivas, para lá de se “saber com quem se anda” e não secundarizando as opções de vida que se fazem.

Se não se podem culpar as vítimas e nada justifica ser-se selvaticamente agredido, mesmo que se tenha provocado alguém, diretamente ou nas redes sociais, será ingénuo pensar que vivemos num mundo de liberdade total de expressão quando se sabe existirem muitas pessoas que não gerem bem o sentirem-se alvo de críticas, remoques ou divulgação de imagens ou comentários eventualmente ofensivos. O que quero dizer com isto é que há que pensar nas possíveis consequências e ponderar bem se um ato vale o risco. Apenas isso. Avaliação e gestão de riscos, tal e qual colocar ou não o cinto de segurança, fazer uma vacina, usar capacete de bicicleta ou beber água de um poço cuja qualidade se desconhece.

Deve ter-se medo de sair de casa? É natural que muitos (e muitas) adolescentes tenham medo de sair à rua, sobretudo se tiverem visto alguns telejornais nos últimos tempos – os casos de Ponte de Sor e de Gondomar são apenas os exemplos mais recentes. Quando só se fala de desgraças e quando se “pinta” um mundo mesquinho e perverso (aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “mean world syndrome” – a síndroma do mundo mau), não vamos estar à espera que os jovens pensem de outra maneira.

Um estudo que fizemos há uns anos sobre a violência, recaindo em jovens do 9.o ano de todo o país, revelou um dado curioso: a maioria dos adolescentes referia que Portugal era um país violento e perigoso, mas classificavam a vila ou a cidade onde viviam de uma maneira muito mais soft. Ou seja, o sentimento de insegurança era maior do que a sua perceção real quotidiana.

Os dados mostram que o grande crime não tem sofrido um aumento e que a maioria dos crimes graves continuam a dever-se a casos pessoais (disputa de terras, casos “passionais”, ajustes de contas, etc.). Todavia, o “pequeno crime”, sem ou com violência física, tem aumentado, estando em muitos casos relacionado com o consumo de drogas, incluindo nestas o álcool.

Os meios de comunicação social, por seu lado, relatam estes acontecimentos como se só isso acontecesse… a determinada altura, com a repetição ad nauseam, já parecia que havia casos de Rúbens e gémeos iraquianos todos os dias, a todas as horas. É assim natural que se crie a ideia de que cada cidadão com que nos cruzamos na rua é um assaltante, um violador, um criminoso. Não é. A maior parte das pessoas – a “esmagadoríssima”, se a palavra existe – são pacíficas e “normais”.

O que resulta evidente é que, apesar da sua raridade, estes casos podem ser graves, de onde ser necessária uma atitude inteligente quando se sai à noite e circula nas ruas. Assim, mais do que dissertar sobre as agruras da vida, é bom gizar com os próprios adolescentes um plano e atitudes práticas para que as possibilidades de ser apanhado por algum meliante se reduzam, numa estratégia de redução de risco:

• Se possível, não se andar de noite por ruas mal iluminadas ou que não tenham vivalma;

• Quando se sair de casa à noite, procurar sempre fazê-lo com mais alguém;

• Nunca pedir boleia a estranhos; • Nunca demorar em elevadores ou casas de banho públicas;

• Só levar o dinheiro estritamente necessário e nunca anunciar que se está abonado;

• Dizer sempre onde se vai e a que horas se tenciona voltar. Se se resolver ficar até mais tarde, telefonar, que não custa nada…;

• Quando se for a uma festa ou sair, arranjar-se sempre quem leve de volta a casa, ou então ir de táxi (radiotáxi, de preferência) – é mais caro, mas vale a pena;

• Se alguém quiser tocar-lhe ou tentar “alguma coisa”, dizer “não!” e não demonstrar medo;

• Se alguém atacar, gritar com todas as forças, mas não tentar enfrentar os agressores;

• Se acontecer alguma coisa, contar sempre a alguém – pais, irmãos, professores, amigos, linhas telefónicas de ajuda, etc.

Tentemos também conversar com os adolescentes sobre outros assuntos que não sejam exclusivamente as desgraças que nos acontecem (muitas delas relativas), seja o facto de o tempo estar mau, seja o de terem assassinado mais uma pessoa num local longínquo que, provavelmente, nem sabemos onde é. O clima de medo inibe a prevenção das diversas situações e a distinção do seu grau de risco.

Queiramos ou não, temos de continuar a fazer a nossa vida do dia-a-dia. Se se cria um ambiente de stresse e de medo, vai gerar-se mal-estar noutros capítulos, com baixa do rendimento escolar, abandono de atividades ao ar livre, tristeza e uma baixa da qualidade de vida dos adolescentes. O mundo é, queira-se ou não, o único local onde se pode viver…

Pediatra Escreve à terça-feira 

 

 

Pós-Graduação “Psicoterapia Cognitivo-Comportamental na Infância e Adolescência – 8ª Edição”

Agosto 1, 2016 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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INSTITUTO PORTUGUÊS DE PSICOLOGIA [Escola de Formação Avançada]

PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOTERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Formação acreditada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) ‪‎Viseu – 17 Set. 2016 ‪Lisboa – 08 Out. 2016 ‪‎Faro – 29 Out. 2016  Mais informações em www.inspsic.pt

Inclui estágio + Curso de Introdução às Psicoterapias Congnitivo Comportamentais de 3ª Geração (Mindfulness)

INSCRIÇÕES PIONEIRAS: 18% de Desconto nas propinas: Viseu: até 04-08-2016 // Lisboa: até 25-08-2016 // Faro: até 15-09-2016

DESTINATÁRIOS: Psicologos*, médicos. Internos e alunos finalistas de licenciatura nas áreas mencionadas.

*A creditação da Ordem dos Psicólogos Portugueses (126 créditos) destina-se exclusivamente aos psicólogos.

DATA LIMITE DE INSCRIÇÃO: VISEU: 27-08-2016 | FARO: 09-10-2016| LISBOA:18-09-2016

 

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