Nova comunidade “Os Nossos Dias” para pais, filhos e candidatos à adopção

Setembro 10, 2019 às 10:41 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Os Nossos Dias é uma comunidade de pais, filhos e candidatos à adopção, apadrinhamento e acolhimento de crianças, profissionais ligados à área e comunidade em geral.
Os seus objectivos são a partilha e a participação colectiva quanto aos assuntos da adopção.

O que é Os Nossos Dias e o que pode encontrar neste espaço:

  • É uma comunidade que pretende edificar um lugar de encontro entre pais e filhos através da adoção, candidatos à adoção, profissionais e investigadores da área e a população em geral
  • Temos como objetivo desenvolver ajudas para os diferentes agentes na adoção de crianças, desde pormenores simples a questões mais complexas, por exemplo:
  • A compreensão dos procedimentos para se tornar candidato à adoção
  • O acompanhamento da reflexão sobre este processo
  • A partilha de dicas e questões práticas para os dias do período de transição e pré-adoção
  • Promover a existência de redes de apoio pós-adoção
  •  A reunião entre os diferentes agentes na adoção em Grupos de Foco, havendo momentos dedicados à reunião conjunta e espaços reservados apenas à reunião de pais e/ ou de filhos
  • A promoção de lugares de escuta e círculos de entreajuda para pais e para filhos
  • A divulgação de projetos e materiais relacionados com a adoção – textos de opinião, artigos científicos, notícias de imprensa, livros, filmes, ligações da internet, entre outros
  • Ajudar na ponte entre profissionais da adoção e candidatos e famílias, assim como a integração dos profissionais que fazem investigação na área
  • Sinalização de entidades e profissionais sensibilizados para as temáticas da adoção, nomeadamente da saúde e da educação
  • O esclarecimento e apoio de familiares e amigos de pessoas que adotaram (ou se propõem adotar)
  • O esclarecimento da comunidade em geral para estes assuntos

Os Nossos Dias não é uma entidade organizada formalmente e não tem quaisquer meios financeiros envolvidos. Os apoios propostos resultarão apenas de trabalho voluntário dos seus membros – não-profissionais, o que quer dizer que, em determinados momentos, poderemos ver a nossa ação limitada pelo número de voluntários disponíveis.
Assim, embora com um plano firme nas intenções, é um lugar em construção.

Saiba mais na sua página de Facebook.

Brevemente terão o Blog comunidadeosnossosdias.blogspot.com.

“É muito duro adotar. Nos primeiros meses não há amor, só predisposição para o amor”

Agosto 30, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem da Rádio Renascença de 7 de agosto de 2019.

Miguel Coelho , Cristina Nascimento

Nos últimos três anos, 53 crianças em processo de adoção foram devolvidas às instituições. Ana Kotowicz, mãe de duas filhas adotivas, relata à Renascença as dificuldades do processo e confessa que, no primeiro mês de adoção, percebeu porque é que há pessoas que desistem.

Nos últimos três anos, 53 crianças que estavam em processo de adoção foram devolvidas às instituições que as acolhiam. Os números foram avançados pelo jornal “Diário de Notícias” esta semana.

Segundo os relatórios do Conselho Nacional de Adoção e CASA, em 2016 foram interrompidas 19 adoções. Em 2017, foram 20 as crianças que regressaram às instituições que cuidavam delas. Em relação a 2018, os dados ainda não foram revelados, mas o jornal avança que terão sido 14.

Perante este cenário, a Renascença falou com Ana Kotowicz, jornalista e mãe de duas crianças que adotou há três anos. Na altura, tinham quatro e cinco anos. Ana Kotowicz relata as dificuldades do processo. “É muito, muito, muito duro.” Também confessa que, no primeiro mês em que tinha as crianças em casa, ficou a perceber porque é que há pessoas que desistem.

Autora do livro “Adotar em Portugal — Um guia para futuros pais”, Kotowicz considera que o processo “não é o bicho de sete cabeças que as pessoas às vezes querem fazer parecer” e defende o escrutínio rigorosa das famílias.

“São crianças que estão à guarda do Estado, são crianças que já passaram por muito e o Estado tem de ter garantias absolutas de que está a entregá-las às famílias certas”, ressalta.

O processo é tão difícil e complicado como acreditamos ser?

É complicado, mas se calhar não é tão complicado quanto devia ser. E não o é porque se fosse mais complicado ainda não tinha as chamadas ‘devoluções’. Pessoalmente, o que eu acho sobre o próprio processo em si é que não é o bicho de sete cabeças que as pessoas às vezes querem fazer. Nós temos de ser avaliados, são crianças que estão à guarda do Estado, são crianças que já passaram por muito e o Estado tem de ter garantias absolutas de que está a entregá-las às famílias certas. Acho bem que os candidatos sejam bastante avaliados. Por outro lado, há muito mais famílias a querer adotar do que crianças à espera de serem adotadas, portanto também é preciso fazer alguma triagem.

Se há mais famílias a querer adotar do que crianças a ser adotadas, porque é que há tantas crianças que não encontram uma família?

Tradicionalmente sempre houve mais famílias à procura de crianças para adotar do que crianças adotáveis. Este último relatório do Conselho Nacional de Adoção mostra-nos que há sete vezes mais candidatos do que crianças, é um número que disparou. O que acontece é que a maior parte dos candidatos quer as crianças que não existem nas instituições. A maior parte dos casais vem de processos de infertilidade, portanto idealizou um filho e ainda está a fazer o luto da infertilidade e procura aquilo que não teve — um bebé.

Os candidatos a pais podem escolher o tipo de criança?

Claro que podem. Pense o que seria o contrário. Candidatas-te a adotar e, de repente, dizem-te que vais levar para casa um adolescente de 13 anos com deficiência e problemas comportamentais. Não podem. Portanto, por muito isso que isso custe, tem de se fazer o desenho da criança que se está disponível para adotar. Isso é muito importante e é muito importante que os candidatos sejam 100% honestos, porque se se diz que se está à vontade para adotar uma criança de nove anos mas, na verdade, é mentira, quando ela chegar a casa não vai correr bem.

E a criança também tem uma palavra a dizer, uma vez que, de certa forma, a criança também adota a família?

Claro, e esse se calhar é o lado mais importante da integração daquela criança, que já passou por tanta coisa, que traz tantas marcas, na família. A criança pode ser ouvida e estes processos que são interrompidos podem ser interrompidos a pedido da criança.

Nestes casos em que as crianças são devolvidas, que principais fatores podem concorrer para o fracasso de uma adoção?

Na minoria dos casos, em 2017, dizem-nos que, dos 20, em dois foi porque as crianças não se adaptaram à família. O que é que leva uma adoção a ser interrompida? Pode ser a criança que não se adapta, podem ser os futuros pais que não se adaptam, podem ser os serviços sociais a perceber que a coisa não está a correr bem naquele momento e que não vai nunca correr e, portanto, os próprios serviços sociais decidirem interromper aquela adoção.

Acha que se houvesse um maior acompanhamento depois de a criança ser adotada, um maior acompanhamento daquela família e da criança pelas instituições, as coisas podiam correr melhor?

Acho que isso era fundamental. Eu acho que há dois momentos que são muito importantes: o momento antes de a criança chegar à família e o momento em que ela chega à família. Antes de a criança chegar à família, a maior parte das pessoas ainda tem uma ideia muito romântica e por muito que oiça histórias acha sempre “Comigo vai ser diferente, comigo vai correr tudo bem”. As coisas nunca correm bem. O primeiro mês, o segundo mês, são sempre meses muito difíceis, muito terríveis.

Que principais conselhos é que deixaria a uma família que pretende adotar uma criança?

Para já que percebam que vai ser mesmo muito difícil. Quem está à espera de uma criança que chega a casa e diga “Muito obrigada por me ter trazido para aqui”, esqueçam, isso não acontece. As crianças vêm com uma série de problemas, vêm com uma série de marcas. já por qualquer motivo foram arrancadas às suas famílias biológicas e mesmo que haja motivo para isso nem sempre as crianças o percebem e se calhar preferiam estar com os pais biológicos, com todos os erros e com todos os problemas que eles têm.

Depois, por outro lado, não nos podemos esquecer de que não há ligação afetiva entre as crianças e os pais durante os primeiros meses. São meses muito complicados, porque tu estás a tentar criar uma ligação afetiva à criança e a criança a ti, está tudo a correr mal e elas estão a ser crianças, estão a ser impossíveis, estão a fazer birras e a testar os limites para perceberem até onde é que podem ir com aquela família.

Isso desencoraja qualquer um. Não há uma visão um pouco mais positiva?

Não, não há.

No teu caso tens dois filhos adotados. Que idades têm agora?

São duas filhas, têm sete e oito anos.

O que é que te lembras desse processo, qual foi o teu maior desafio?

Foi um inferno, esse primeiro mês foi um inferno. Lembro-me de, à noite, depois de elas irem para a cama, eu dizer ao meu marido “Então é por isto que algumas pessoas desistem”. É mesmo muito, muito, muito duro. É desde que saem da cama até que se deitam a testar todos os limites, tudo o que tu dizes e pelo caminho vais ouvindo coisas do género “Quem me dera que fosses melhor mãe; Porque é que me escolheram esta família e não me escolheram uma família melhor; Vou telefonar para a instituição a pedir para me virem buscar para ver se me arranjam outra família”. Portanto, naquele momento, naquele primeiro mês, segundo mês, não existe amor, existe predisposição para o amor, do teu lado e do lado da criança. Se para nós, adultos, é difícil, imagina para as crianças… Porque nós somos estranhos, nós ainda não somos pais.

Elas estão contigo há quanto tempo?

Estão connosco há quase três anos.

E passado este tempo?

Passado este tempo somos uma família como as outras. Elas são duas pestes, mas também são dois anjinhos [risos].

Como é que ultrapassaste os momentos mais difíceis?

Não sei exatamente como é que acontece. Sei que há um dia em que tudo entra em velocidade de cruzeiro e passas a ser uma família como as outras. Mas eu acho que há uma coisa fundamental: sempre que elas nos testam, é manter a tua postura, manter os limites, não os deixar ultrapassar e, principalmente, desde o primeiro momento, deixar claro que somos uma família que vai estar com elas para sempre. Essa era uma questão que vinha muitas vezes à baila: “Quando é que o juiz vai decidir que afinal vocês também não são bons para nós?” Esse sentimento estava lá sempre.

Tu não tens filhos biológico. Sentes que amas as tuas filhas como poderias amar um filho biológico?

Não sei se poderia amar um filho biológico mais do que eu já amo as minhas filhas. É o que eu posso dizer.

Em três anos, 53 crianças adotadas foram devolvidas às instituições

Agosto 1, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do DN Life de 30 de julho de 2019.

“Fui devolvido. Ninguém me quer…”

Em 2016, foram devolvidas 19 crianças que estavam em processo de adoção. Em 2017 foram 20 e no ano passado, 14. Ao todo, são 53. Em termos percentuais, o número é reduzido relativamente ao total das que foram adotadas ano a ano. Cerca de 7% ou menos, mas as marcas, essas, ninguém as apaga da memória de quem se sentiu rejeitado.

Texto de Ana Mafalda Inácio

Sandro e o irmão foram devolvidos duas vezes pelas famílias que os adotaram. Sandro era o mais velho, o mais malcomportado e feioso, segundo as famílias. Pedro e João foram devolvidos uma vez. A família que os adotou considerava que já tinha outros filhos – os seus animais de estimação – e que eles foram perturbar a rotina. Samuel foi vítima de abusos na infância e foi parar a uma instituição. Teve como projeto de vida a adoção. Tornou-se parte de uma família que não tinha filhos, cujo pai também teve uma história de abuso na infância e não conseguiu lidar com a situação. Tempos depois, Samuel voltou à instituição e ainda hoje, quando se refere àquela família, os considera como os seus pais. Nunca mais voltou a ser adotado.

Simão tinha 9 anos quando ele e a irmã mais nova foram devolvidos à guarda do Estado, mas seguiram caminhos diferentes. Ele foi para uma instituição e ela para outra. O tribunal acabou por decidir que um e outro seriam adotados individualmente. Ela já foi adotada, ele está na pré-adolescência e com perfeita consciência de que não será fácil uma segunda oportunidade, uma segunda família, mas continua a perguntar a quem o ouve se já lhe arranjaram uma família. Desabafando tantas vezes: “Fui devolvido, ninguém me quer…”

Estas são histórias que deixam marcas, até nos técnicos que lidam com os processos de adoção ou nos psicólogos que acompanham as crianças ou que avaliam posteriormente os processos que falharam. São histórias que dão que pensar. Por isso, “quando uma adoção é interrompida, é obrigação de todos os técnicos se questionarem. É obrigação porem em causa todo o processo para se perceber o que falhou, porque pode ter havido algum fator de risco, um sinal, que não tenha sido bem avaliado”, a afirmação é de Isabel Pastor, diretora da Unidade de Adoção, Apadrinhamento Civil e Acolhimento Familiar da Santa Casa de Lisboa, numa entrevista ao DN. E reforça: “Por vezes, é mais fácil perceber os sinais depois de a situação ter corrido mal, mas não podemos deixar de o fazer.” Até porque as falhas podem estar na avaliação que se fez da família que, afinal, não correspondia ao perfil que se traçou, pode estar na falha da formação dada aos candidatos, no apoio que lhes é dado, pode estar até na falta de preparação da própria criança para a adoção. “Estamos a lidar com crianças que já se sentem rejeitadas, abandonadas, que trazem, por vezes, uma história muito marcante e que irão sempre testar até ao limite qualquer família. E estas têm de ter as motivações certas e estarem bem preparadas”, argumenta Isabel Pastor.

O futuro é imprevisível, mas as histórias servem de alerta para que outros não tenham de as viver. “As marcas que deixam não são apagadas”, dizem-nos. Por muito que se diga que o número de crianças devolvidas é reduzido comparativamente ao total das que ano a ano integram famílias, nada atenua o sentimento de rejeição, porque é assim que as crianças se sentem. “O número até pode ser reduzido em termos percentuais, mas para as 20 ou 15 crianças que criaram expectativas de ter uma família, que chegaram ao ponto de conhecer os candidatos, de ir viver com eles e depois regressam à instituição, é muito complicado e em alguns casos dramático”, diz a psicóloga Rute Agulhas, que acompanha menores em acolhimento e que fez parte da comissão da Ordem dos Psicólogos que reviu o processo de avaliação dos candidatos à adoção.

“Há expressões que se ouvem de algumas famílias e que chocam: “Se isto continua assim vou entregá-lo”; ou que “venderam-me gato por lebre”.

De acordo com os dados oficiais, nos últimos três anos, foram devolvidas 53 crianças às instituições de onde saíram no período de transição ou de pré-adoção. Os relatórios do Conselho Nacional de Adoção e CASA, Caracterização Anual da Situação de Acolhimento, dão conta de que em 2016 regressaram ao sistema por interrupção de adoção 19 crianças; em 2017 regressaram 20 – 13 tinham mais de 7 anos, 11 eram do sexo feminino, nove do masculino e dez eram grupos de irmãos. Em 2018, embora não tenha sido ainda divulgado o relatório do CNA relativo a este ano, o DN apurou que foram devolvidas 14 crianças. Ou melhor, que 14 crianças viram o seu processo de adoção interrompido, é assim que os técnicos e os relatórios oficiais designam a situação.

“Dizer que uma criança foi devolvida choca, mas para elas é isso mesmo. E dizem: ‘Fui devolvido, fui rejeitado, ninguém me quer…’”, explica ao DN a psicóloga. No ano passado, foram seis as situações interrompidas no período de transição, que dura 15 dias a um mês após a criança e a família se conhecerem, e oito já na fase de pré-adoção, nos seis meses que se seguem ao tribunal decretar a adoção.

Mas há algumas que são entregues já depois deste período, pois, segundo os técnicos, esta é a fase do enamoramento entre a criança e a família. Outras regressam mais tarde, chegam a viver anos com as famílias, mas “são devolvidas quando começam a crescer e a dar problemas comportamentais, próprios da idade de quem está na adolescência”, refere ao DN Rute Agulhas. Só que estes dados já não aparecem nas estatísticas oficiais, portanto “os casos são chegam aos técnicos e têm de ser avaliados. Se calhar, o que falta, e quando se trata de uma situação mais avançada, é apenas falta de acompanhamento das famílias, e isso tem de ser repensado”, sublinha a psicóloga.

Chocam algumas expressões que se ouvem da boca de algumas famílias, chocam relatos e desabafos dos jovens que passam por estas experiências. “Já tive de avaliar processos em que as famílias me disseram que os filhos cresceram e não lhes estão gratos – ‘não agradece o que fiz por ele’. Ou que não correspondem às expectativas e, sendo assim, ‘vou entregá-lo’; Ou até ‘venderam-me gato por lebre’, como se os técnicos que estiveram no processo de adoção os tivessem tentado enganar”, conta Rute Agulhas. Acrescentando: “Expressões de quem queria um filho feito à medida, como se houvesse uma receita, e que não o teve. Os filhos biológicos não são feitos à medida e vamos devolvê-los?”

Por isso diz que “a avaliação dos candidatos à adoção é muito importante, mas não só. O acompanhamento durante o período de transição e até pós-adoção também. Muitas famílias alegam que se sentem sozinhas sem saber como reagir perante algumas situações. Se tivessem mais apoio talvez o conseguissem fazer e da forma adequada”.

Sandro carrega o peso de ter sido devolvido duas vezes

O que é para ti uma família? Sandro não teve dúvidas na resposta e desenhou um balão negro a flutuar no ar. A imagem é recordada pela psicóloga que com ele falou depois de ter sido devolvido pela segunda vez por famílias que se candidataram à adoção. Sandro, (nome fictício), tinha 9 anos e um irmão mais novo, de 5. Para ele, a família é igual a nada – ou a rejeição, ou a instabilidade. Sandro foi, supostamente, o culpado pelas situações: “É rebelde e feioso”, alegaram as famílias.

Nas duas vezes, Sandro e o irmão foram viver com as famílias, mas pouco depois estavam a ser entregues à instituição de onde tinham saído. “As famílias alegaram que ele se portava mal. A primeira chegou a verbalizar que não correspondia às expectativas e que era feioso, fiquei chocada quando li isto no processo”, explica Rute Agulhas.

A primeira família propôs-se adotar apenas o mais novo, era mais pequeno, menos rebelde e mais bonito, louro, de olhos azuis. Sandro trazia marcas, memórias, tinha passado por muito, já tinha sentido na pele a rejeição da própria família e não estabelecia vínculos, desconfiava e testava. “Mas quem não o faz? Estas crianças são assim. Trazem bagagem, por vezes muito marcante, as famílias candidatas têm de estar preparadas para isso”, sublinha a psicóloga.

“Por vezes chegamos a situações de devoluções porque as famílias se sentem sozinhas, ficam sozinhas, e não conseguem lidar com as situações.”

Da segunda vez, foram adotados por um jovem casal e nada fazia prever que corresse mal. “Li o processo e não havia indicadores”, confirma Rute Agulhas. A família parecia estar bem preparada, mas Sandro e o irmão foram de novo entregues à instituição no período de pré-adoção. “Não queriam ficar com os dois, só com o mais novo”, explica-nos. Era a segunda situação de interrupção de integração na família.

E a vida de Sandro chegou ao ponto de o próprio irmão “o acusar de não terem uma família”. “Foi horrível quando os ouvi. O mais novo dizia que ‘já tivemos duas famílias e os pais devolveram-nos porque o mano se porta mal, não quero ir para mais nenhuma família com ele’.”

As duas situações marcaram a relação entre Sandro e o irmão. Ele assumia: “Sou o culpado de tudo.” Mas, apesar de ter consciência disso, não conseguia evitá-lo. “Sei que estou a atrapalhar a vida do meu irmão”, chegou a referir. O irmão apenas queria uma família e não a tinha por causa dele.

“O desenho que fez sobre a família revela tudo: a ausência de vínculos. Por isso, testava as famílias que os acolhiam até à exaustão, mas no fundo o que queria era que lhe dissessem e mostrassem: não vais ser rejeitado mais uma vez”, argumenta a psicóloga, que sublinha: “Há famílias que têm as motivações certas, outras não. Mas mesmo as que têm devem ser acompanhadas. Por vezes chegamos a situações de devoluções porque as famílias se sentem sozinhas, ficam sozinhas e não conseguem lidar com as situações.”

Dificuldade em lidar com os desafios

Das 20 crianças devolvidas em 2017, só em duas situações a interrupção “foi motivada por uma resistência recíproca entre crianças e candidatos. Na maior parte das vezes, o fundamento das interrupções é atribuído à dificuldade ou à incapacidade de vinculação por parte dos candidatos”, refere o relatório CASA relativo a esse ano.

“Algumas vezes os candidatos mostraram dificuldade em lidar com os desafios e as exigências do processo, denotando falta de conhecimento ou um desfasamento entre as suas expectativas e o real perfil das crianças. Muito excecionalmente, este facto chegou a gerar castigos desproporcionados ou reações violentas”, lê-se ainda.

Em outros casos, o insucesso ocorreu por “indisponibilidade dos candidatos para o projeto de adoção por estarem demasiado centrados nas suas próprias necessidades, mais do que nas das crianças, ou por estarem noutros projetos incompatíveis, profissionais ou pessoais, com a fase do processo que estavam a vivenciar”.

A psicóloga Rute Agulhas alerta: “As famílias que são avaliadas hoje não são as mesmas que vão receber uma criança daí a três, quatro ou mais anos. Neste período, muita coisa pode mudar na vida das famílias e a avaliação e a seleção dos candidatos deveria ter isso em conta. Nem que fosse necessária uma reavaliação. Por vezes, em determinado momento, não se dá a devida importância aos sinais transmitidos pelos candidatos, mas mais tarde estes podem ser reavaliados e isso poderá evitar algumas das situações de insucesso.”

Pedro e João: devolvidos porque perturbaram a rotina familiar com os animais de estimação

Pedro e João nasceram na mesma família biológica, que os maltratou. Foram retirados e entregues à guarda do Estado. Aguardaram na instituição por uma família que os adotasse. Quando esta apareceu ficaram felizes. Pedro tinha 9 anos, João 6. Meses depois estavam a regressar à instituição. O casal alegou que a presença das crianças perturbou a rotina familiar que já existia anteriormente.

Este é dos casos em que Rute Agulhas diz ter visto sinais de que a situação poderia não correr bem assim que consultou o processo. “Quando me deram o processo para avaliar, depois de as crianças terem sido entregues à instituição, percebi que havia sinais, que deveriam ter sido trabalhados e não foram, que indiciavam que as coisas poderiam não correr muito bem.” E dá um exemplo: “Os candidatos foram convidados a fazer um livro de acolhimento para as crianças. Quando vi o livro, fiquei perplexa. Tinha fotografias do casal, da casa e dos animais de estimação acompanhadas por uma legenda: ‘Este foi o nosso primeiro filho, este o segundo, o terceiro…’ Havia umas seis ou sete fotos de animais de estimação, só depois aparecia um espaço para se colocar as fotos das crianças. Acho que isto era paradigmático de que algo se passava com estes candidatos.”

Ou seja, “um casal que olha para as crianças que vai adotar como o sétimo ou oitavo filho, após seis ou sete animais, não tem as motivações certas. As crianças foram lá para casa e algum tempo depois o processo foi interrompido. Um dos argumentos da senhora era o de que as crianças foram perturbar a vida familiar e a rotina com os outros filhos, que eram os animais. Alguma coisa não correu bem neste processo de avaliação”, critica.

No entanto, reconhece que tem sido feito um esforço para se aperfeiçoar os processos de avaliação dos casais. Porque se existe alguma certeza nos processos de adoção é a de que a avaliação dos candidatos deve ser “exigente, rigorosa e criteriosa. Temos de pensar que estas crianças necessitam de famílias com características muito específicas. São crianças que trazem uma bagagem completamente diferente daquela que traz um filho biológico”.

Rute Agulhas integrou a comissão que em 2015 fez a revisão dos protocolos de avaliação dos candidatos à adoção. O pedido foi feito à Ordem pela própria Segurança Social e ao longo do trabalho foram detetadas “discrepâncias e incoerências na forma como os vários centros da Segurança Social faziam esta avaliação. No final, fizemos uma série de recomendações exatamente para uniformizar o processo, porque os candidatos têm de ser avaliados da mesma maneira independentemente de morarem no Porto, em Lisboa ou no Algarve, e isso não estava a acontecer”.

Foi a partir daqui que surgiu um manual de regras de avaliação para os candidatos. Os técnicos não têm dúvidas de que o processo tem de ser exigente e, por isso, muitas vezes é moroso, mas há alguns que admitem que se tal não acontece é também porque “há receio de rejeitar candidatos. Não só porque há muitas crianças à espera de uma família, mas também porque se são rejeitados os casais podem recorrer ao tribunal. Os técnicos têm de ir responder e fundamentar e nem sempre se sentem resguardados pelo próprio sistema”, afirmou ao DN uma técnica que pede anonimato.

A mesma assegura mesmo que a percentagem de casais rejeitados deveria ser maior do que é. “Muitas vezes, não se rejeita por receio ou prurido, mas há casais que não têm as motivações certas”, argumenta. “Nenhum de nós é perfeito, nenhuma criança o é também, sobretudo as que estão em acolhimento, que têm um passado muito marcante. Por isso, quando uma família se disponibiliza para adotar tem de ser especial e estar muito bem preparada para conseguir lidar com todos os desafios que se lhe vão deparar pela frente. E nem sempre há certezas relativamente a isto quando se avalia”, refere. Sublinhando que há que apostar na avaliação e formação dos candidatos e das próprias crianças para a adoção, mas não só. “Devemos estar atentos aos sinais. É preciso questionar porque é que há famílias que são excelentes candidatos e que depois maltratam as crianças e as devolvem. Isto deve fazer que todos nós nos interroguemos”, argumenta.

Samuel ainda hoje pergunta se não há uma família para ele

Samuel tem uma história diferente. Foi adotado e devolvido, mas ainda hoje continua a falar daquela família como “os meus pais”. Apesar de ter sido castigado no período em que viveu com eles. Samuel, chamemos-lhe assim, tinha comportamentos sexuais desadequados, que vinham da sua história de abusos na infância. Foi adotado por uma família em que o pai também revelou depois ter tido uma história idêntica.

“Receber esta criança foi um reativar de tudo, de toda a sua história, e não conseguiu lidar com isso”, explicou ao DN a psicóloga que acompanhou este caso. A criança, na altura, porque agora é já adolescente, “não correspondeu às expectativas daqueles pais, que queriam ter em casa um menino bem-comportado e isso não aconteceu”.

Samuel voltou à instituição. Faz terapia. Não voltou a ter outros pais, mas não deixa de ter o sonho de um dia poder estar em família. Rute Agulhas salienta: “Não se pode generalizar as atitudes do candidatos porque muitos têm as motivações certas, mas há outros que estão focados em si, nas suas necessidades e não nas das crianças.” E destes é frequente ouvir: “Não consigo resolver este assunto, se isto não correr bem, vou entregá-lo.” E questiona: “Estamos a falar de um filho. Entregamos os filhos biológicos quando se portam mal ou quando as coisas não correm bem? É por isso que defendo que temos de olhar para trás, para a avaliação dos candidatos, prepará-los, formá-los e apoiá-los.”

Um casal que se candidata à adoção não pode pensar que tem sempre uma forma de resolver o assunto: a devolução, porque as histórias repetem-se.

Simão também ansiava por uma família. Foi levado para uma instituição com uma irmã mais nova, acabaram por ser devolvidos. Simão testava as famílias, quando regressaram à guarda do Estado ficaram em instituições diferentes e o tribunal acabou por decidir que os dois voltariam à lista de adoção individualmente. A irmã já foi adotada. Ele tem 15 anos e perfeita noção de que não será, mas continua a perguntar: “Há alguma família para mim?”

“Já vi situações em que as crianças foram devolvidas e depois foram adotadas e o processo correu bem, mas é claro que os pais que vêm num segundo momento têm um nível de exigência muito maior. O que espera uma criança que já foi devolvida? Que a devolvam a seguir, então pensa: ‘Não me vou ligar, já sei que vou ser rejeitada’, e testa a família até mais não, porque a mensagem que pretende receber é que, afinal, eles aguentam e a amem de forma incondicional.”

Samuel e Simão não são os únicos que após terem sido devolvidos continuam a acreditar e a ter esperança de que um dia terão uma família. Porque, no fundo, foi sempre isso que lhes faltou. Para eles, a realidade é uma só: “Ninguém os quer.” E é-lhes difícil aceitar. É-lhes difícil aceitar que afinal para eles não há uma resposta.

Governo prevê que famílias de acolhimento possam adotar, mas em casos excecionais

Julho 12, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 9 de julho de 2019.

Por Lusa

O ministro da Vieira da Silva sublinhou que a medida tem um caráter excecional.

O projeto de decreto-lei do Governo sobre acolhimento familiar prevê que, em casos excecionais, e que envolvam crianças muito pequenas, as famílias de acolhimento possam pedir a tutela parental e adotar a criança.

A ser ouvido hoje na Comissão de Trabalho e Segurança Social, o ministro Vieira da Silva revelou que, “em situações excecionais, as famílias de acolhimento vão poder pedir a tutela parental da criança que esteve em situação de acolhimento”.

No anteprojeto do Governo, apresentado em 26 de abril e que foi posteriormente colocado em discussão pública, estava definido que poderia ser candidato a família de acolhimento qualquer pessoa com mais de 25 anos e menos de 65, que não fosse candidato a adoção.

Hoje, o ministro revelou que o documento final, que junta alguns dos contributos recebidos, prevê que possa haver exceções nos casos das “crianças mais jovens”, dando como exemplo o caso de uma criança com dois anos, colocada numa família de acolhimento, mas cujo projeto de vida alternativo, definido por um tribunal, só surge um ano depois e propõe a adoção.

“Ora nesse ano, entre os dois e os três anos, a criança esteve numa família de acolhimento. É extremamente difícil compreender como é que a criança depois de ter estado um ano nessa família de acolhimento é colocada numa outra família, família de adoção”, apontou.

Vieira da Silva sublinhou que a regra é a de que a família de acolhimento não pode ser candidata a adoção, mas adiantou que estão previstas situações excecionais, “sobretudo para crianças muito jovens”, em que a família de acolhimento poderá pedir as responsabilidades parentais.

O ministro admitiu, por isso, que se trata de “um passo a caminho da adoção”, sublinhando, no entanto, que nesse caso a família deixa de ser considerada família de acolhimento.

A par desta mudança, o ministro sublinhou que o projeto-lei do Governo prevê que o acolhimento familiar deixe de ser considerado uma prestação de serviços para passar a ser entendido como uma resposta social, o que traz também o reforço do apoio social devido.

Vieira da Silva lembrou que o Governo passará a pagar entre 522 e 691 euros por criança, quando o valor mínimo atual ronda os 330 euros.

De acordo com o governante, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social recebeu uma dezena de contributos durante o período de discussão pública, esses contributos foram trabalhados, e o documento final foi já enviado aos parceiros sociais, no caso a Confederação Nacional de Instituições de Solidariedade Social (CNIS), União das Misericórdias Portuguesas, Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens.

Foi também dado conhecimento ao Instituto de Segurança Social, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e Casa Pia de Lisboa, estas três como membros do grupo de trabalho criado em 2017 que apresentou propostas de revisão desta medida de proteção.

Depois disto, disse Vieira da Silva, o decreto-lei entra em circuito legislativo, que é dizer que irá a Conselho de Ministros para depois ser promulgado pelo Presidente da República, não havendo ainda uma data para que isso aconteça.

O requerimento para a audição do ministro sobre o acolhimento familiar foi apresentada pelo grupo parlamentar do CDS-PP e na sua intervenção inicial o deputado Filipe Anacoreta Correia defendeu que o acolhimento familiar em Portugal funciona como uma exceção quando deveria ser a regra.

Perante isso, Vieira da Silva defendeu que é preciso discutir toda a estratégia e não apenas só uma parte e lembrou que a maioria das crianças acompanhadas e com medidas de proteção definidas estão em meio natural de vida e que apenas uma pequena percentagem está numa instituição.

Patrícia Reis: “A ideia de que a criança é um objeto que se adquire e que se devolve é uma ideia com a qual não queremos ser confrontados”

Julho 4, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Patrícia Reis ao Sapo24 de 17 de junho de 2019.

Rita Sousa Vieira Entrevista e Fotografia

Uma família que não é a sua. Outra e outra. “Tenho de ter uma família?” Uma casa que não se parece com aquilo a que se habituou a chamar por esse nome. Uma família que fez sua. Uma criança cujo tempo fez dela mercadoria e o sistema um número. “M.” não existe, o que não quer dizer que a sua história não seja a de tantas outras consoantes. Patrícia Reis conta-a no seu novo livro e conta-nos porque é que a invisibilidade não é um superpoder.

“As Crianças Invisíveis” é o mais recente romance de Patrícia Reis. Sublinhe-se romance quantas vezes necessárias. O pedido é nosso e da própria autora. “Não gostaria nunca que as pessoas entendessem que este romance é uma reportagem”, refere ao SAPO24 em entrevista.

“Lemos muitas notícias, ao longo do ano, sobre crianças que são tiradas aos pais, crianças que estão em instituições, crianças que sofrem de abusos e de violências. E são números. Não têm rosto, não têm nome. Muitas vezes não têm sexo, que é o que acontece nas crianças neste romance. São invisíveis. E nós temos a obrigação de um olhar, da preocupação”.

Foi este o exercício, fruto de um longo período de investigação, nem sempre fácil, nem sempre livre de lágrimas, que Patrícia Reis, editora, escritora, cronista e jornalista, se propôs. “As Crianças Invisíveis” é um retrato ficcionado sobre a adoção, o abandono, a violência dos atos, o sistema, os sentimentos sem género, a proteção, o amor e as dinâmicas familiares.

Na véspera do Dia da Criança, por coincidência de agenda, e numa tarde de calor de um verão que ainda não chegou, Patrícia Reis falou-nos de sobre “As Crianças Invisíveis”, o que a levou ao tema, a dificuldade da escrita e o desapego das personagens — “M.” e “Conceição” — que ainda não aconteceu. Pediu que a tratássemos por tu, emocionou-se a certa altura e tornou nossos pequenos pormenores de quem fez do livro o seu território durante muito tempo.

“As Crianças Invisíveis” é um livro para crianças, para adultos ou ambos? 

É um livro para adultos, claramente. É um romance, e está inserido numa coleção de livros, claramente para adultos, que tenho na D. Quixote. Não estou a dizer que um adolescente com 16 ou 17 anos não o possa ler; não há nenhuma dificuldade ao nível da escrita que o impeça de ler. Diria que toda a boa literatura pode ser lida em qualquer idade. Um jovem com 15 anos pode ler a “Anna Karenina” [de Liev Tolstói], que tem a sua complexidade. Tenho grandes dúvidas quanto a essa coisa dos rótulos e de classificarmos a literatura por idades. Quando escrevi não pensei nos mais novos, pensei numa história.

Qual foi o ponto de partida, alguma história com a qual tenhas tido contacto? Sei que o livro te obrigou a algum trabalho de investigação.

Foi uma história que me contaram e que me perturbou, digamos assim. A história de uma criança que é devolvida no período ainda de pré-adoção. Mexeu um pouco comigo. Depois, conheço alguns casais que adotaram crianças; uma criança ou mais do que uma, muitas vezes irmãos. E às vezes [este] é um assunto que vem nas conversas entre amigos. Durante muito tempo considerei adotar, apesar de ter dois filhos biológicos. [Este] sempre foi um tema que me interessou, mas o que me interessou acima de tudo, além do choque da história da devolução, para a construção do livro, foi esta ideia de que as crianças são, de facto, invisíveis. Lemos muitas notícias, ao longo do ano, sobre crianças que são tiradas aos pais, crianças que estão em instituições, crianças que sofrem de abusos e de violências. E são números. Não têm rosto, não têm nome. Muitas vezes não têm sexo, que é o que acontece nas crianças neste romance. São invisíveis. E nós temos a obrigação de um olhar, da preocupação. Elas estão em instituições do Estado — e o Estado, ao contrário do que se imagina, somos todos nós. Não é verdade?

Há algum número que não esteja na boca das notícias que te tenha surpreendido?

Há muitos números; saiu recentemente o Relatório da Comissão de Proteção de Menores [disponível para leitura aqui]. [E há] outros que enchem os títulos dos jornais e da comunicação social e que são muito impressionantes. Estamos a falar de milhares de crianças.

“A ideia de que a criança é um objeto que se adquire e que se devolve, como se tivesse defeito ou como se estivesse estragada, é uma ideia com a qual não queremos ser confrontados de maneira nenhuma”

Falava de crianças que são devolvidas no decorrer do processo de adoção.

Há alguns números referentes a isso que não são bonitos — nunca são bonitos —, mas também não se fala muito deles. Porque a ideia de que a criança é um objeto que se adquire e que se devolve, como se tivesse defeito ou como se estivesse estragada, é uma ideia com a qual não queremos ser confrontados de maneira nenhuma.

Eu fiz uma investigação longa. Porque há uma coisa em mim que existirá sempre, que é este bicho jornalista que se instala e não desaparece. É muito bom para observar o mundo, e tem-me sido muito útil noutros livros. Mas, enquanto escritora, o que importa realmente é mastigar o que vi, ouvi e li para criar uma narrativa. Não gostaria nunca que as pessoas entendessem que este romance é uma reportagem. Não é uma reportagem, de todo. Estas crianças não existem, são ficcionadas e não há nenhuma história no livro que seja decalque de qualquer situação real com a qual me tenha deparado. Nenhuma. Devia isso às pessoas que tiveram a imensa generosidade de falar comigo. O David Lodge, que é um grande escritor e professor académico, tem um pequeno livro, um conjunto de ensaios, que se chama “A Consciência do Romance”. E a consciência do nosso tempo, diz ele, e com razão, é trabalhada pelo escritor muito antes do historiador. E se pensares, isto tem alguma veracidade. Se quiseres saber qualquer coisa sobre as crianças no século XIX vais ler Charles Dickens e está lá tudo. Portanto, o escritor é uma espécie do historiador do seu tempo através da imaginação. Mas se o escritor não for um observador, não estiver atento ao mundo, para mim, Patrícia, não me interessa tanto. Interessam-me muito os escritores que estão no mundo.

Essas pessoas com quem falaste, algumas delas foram crianças?

Sim, algumas.

Como é que se parte para o diálogo com uma criança que tenha passado por um processo destes? Qual é a abordagem?

Não sou psicóloga ou professora, portanto inseri-me dentro de uma instituição, onde passei alguns dias, elas habituaram-se a mim e fui ouvindo. Fiz poucas perguntas.

“O escritor é uma espécie do historiador do seu tempo através da imaginação. Mas se o escritor não for um observador, não estiver atento ao mundo, para mim, Patrícia, não me interessa tanto. Interessam-me muito os escritores que estão no mundo”

O melhor nestes casos é mesmo só ouvir?

E ouvir está em deficit. É quase um exercício em extinção porque as pessoas têm pouca capacidade para ouvir as outras. Gostam muito de pontificar e pouco de ouvir.

E essas crianças, imagino, foram mais vezes questionadas que ouvidas.

Sim, e claro que és confrontada também com mentiras, mitificações, manipulações, efabulações, construções de ideais. Porque há o pensamento mágico, em crianças em instituições como nas fora delas. E o pensamento mágico pode ser também uma ferramenta de salvação. Acredito que seja para muitas das crianças. Mas eu, sobretudo, falei com pessoas que trabalham ou trabalharam em instituições: psicólogos, assistentes sociais, juízes. E, como te digo, serviu-me para mergulhar no assunto. Não me serviu para construir a narrativa que eu queria escrever. Porque, acho, a literatura formula perguntas, acomoda, faz-nos pensar e ajuda-nos a refletir sobre um tema. Para mim um livro é sempre uma grande pergunta. E se tu quiseres, neste livro, a pergunta é: como é que uma criança sobrevive a este nível de dor, de abandono, de abuso, independentemente do seu género, e como é que cria e constrói uma identidade a partir disso? Como é que se sobrevive e como é que se passa de uma invisibilidade para uma visibilidade? Porque a criança “M.”, que é a personagem central do romance, vai num processo de invisibilidade para a visibilidade. Porventura, pessoas relacionadas a este universo dirão que isto não é exatamente assim. Pode ser, é um romance, não é uma reportagem jornalística. Eu tentei ser rigorosa na informação que é informação. Mas essa parte também é a que menos me interessa. Porque acho que a literatura se faz do tecido emocional; faz-se pouco dos factos e muito do tecido emocional. E esse verdadeiramente é o que me importava.

Ao longo do livro, a “Casa”, espaço central da ação, nunca é referida como “a” instituição. É pela carga pejorativa que usualmente é associada a esse nome?

Porque a “Casa” surge como cápsula protetora, não é um refúgio. E é a possibilidade de, não sendo uma família, teres dinâmicas familiares. Dirás que nada substitui uma família. Em teoria. Esse pensamento bonzinho vive na premissa de que todas as famílias são boazinhas e que as mães e pais são boas mães e bons pais. O que não é verdade, não é? Esse espaço da “Casa” é uma substituição com imensas coisas boas. Com fragilidades, mas com imensas coisas boas. E uma delas é o facto de eu ser igual ao menino ou à menina que está à minha frente; a minha história é diferente, mas partilhamos a “Casa”. A “Casa” é o território comum.

Logo nos primeiros capítulos de “As Crianças Invisíveis” , quando se percebe que a família de adoção não está a receber a personagem “M.” como devia, essa denuncia é feita a partir da escola. A “Casa” reage automaticamente, com o intuito de proteger a criança. Em contrapartida, há um momento em que a Justiça é colocada em causa quando a personagem da psicóloga diz que não acredita nela. A dualidade “Casa”, enquanto elemento protetor, e Justiça, quem falha, é aí exposta.

Não são as pessoas que falham, é o sistema. Basta olhares para as notícias de vítimas de abuso, que deixam as pessoas a perguntarem: “porquê?”. Porque é que uma criança volta a um espaço onde há violência?

“Como é que uma criança sobrevive a este nível de dor, de abandono, de abuso, independentemente do seu género, e como é que cria e constrói uma identidade a partir disso? Como é que se sobrevive e como é que se passa de uma invisibilidade para uma visibilidade?”

Mas a “Casa” não pode ser também o sistema?

Mas há as regras e as leias, e uma complexidade… Não estou, de todo, a dizer que é fácil legislar e atribuir normas de comportamento a situações destas. Longe de mim. Li muitas leis, mas não sou jurista. Não há sistemas perfeitos, e, se calhar, este é do mal o menos pior. Não sei, porque não conheço outros. Não me preocupei em saber como é em Espanha, em França ou em qualquer outro lugar da Europa. Digo Europa porque, para nos comparar-nos com qualquer país, acho que devemos fazê-lo com um país europeu. Porque as realidades no continente americano, asiático ou africano são certamente diferentes. Eu não gostava que o romance só tivesse desgosto, porque ninguém aguenta só o desgosto. Portanto, a “Casa” é um espaço de tréguas. Ficcionalmente é um espaço de tréguas.

A propósito da menção ao continente americano. Na ficção aí produzida, sobretudo no norte, estamos habituados a acompanhar histórias cuja construção da personagem parte de um passado em famílias de acolhimento ou instituições. Isso é uma coisa que não vemos ou lemos por cá.

Há muitas coisas que não vemos na ficção nacional. Porque o escritor é esta consciência do momento, da mesma forma que o terrorismo se tornou um tema depois do 11 de Setembro… E tens um livro excecional, “O Homem em Queda”, de Don DeLillo… Da mesma forma que [sobre o 11 de Setembro] tiveste vários romances, vais ter agora uma leva de livros sobre a questão dos refugiados.

E este teu livro tem também uma referência a isso.

Porque importa mesmo perceber como é que essas pessoas vão viver. Não sei se viste uma reportagem do Pedro Coelho, na SIC, sobre cinco miúdos que vieram do Afeganistão para um programa de acolhimento que previa receber noventa e cinco. A história é um disparate. Nós falhámos, é uma vergonha. Nos Estados Unidos começaste por ter literatura gay mais cedo, por exemplo. Nos Estados Unidos começaste por ter literatura que reflete os traumas e o stress pós traumático relacionados com temas bélicos muito antes de nós. E não estou a dizer que não tenhamos literatura que aborde isso, porque temos. O que acho é que há certos e determinados temas que são muitos difíceis. Este livro poderia ser sobre velhos invisíveis. Sim, existem casas de acolhimento e existem lares. Mas pouco gente lá foi, pouca gente se preocupou em saber como é que são. Vês nas notícias que um lar foi fechado por não ter condições. ‘Que horror a forma como tratam as pessoas!’. Mas não queres saber…

[No processo do livro] Tive momentos em que voltei para casa com lágrimas a escorrerem-me pelos olhos. Ainda hoje há coisas que… Foi difícil. E poderia ter facilmente desistido.

“As Crianças Invisíveis” foi escrito em quanto tempo?

Demorei muito tempo a escrevê-lo. Levei quatro anos a ler e a investigar; a escrever e a reescrever. A atinar de uma vez por todas com a forma como queria fazer as coisas. Porque todos os capítulos começam da mesma maneira, com uma lógica quase matemática ou como uma composição de Bach. Vai e volta; vai e volta. As emoções também são isto: vão e voltam. Levei muito tempo para conseguir perceber como é que queria fazer isto. Não sou lenta a escrever, mas mudo muitas coisas. Comecei por o escrever na primeira pessoa, como se o narrador fosse a criança “M.”. E estive muito tempo a escrever assim, até perceber que não era capaz de ir até ao fim. Eu, Patrícia, não era capaz de ir até ao fim.

“Comecei por o escrever na primeira pessoa, como se o narrador fosse a criança “M.”. E estive muito tempo a escrever assim, até perceber que não era capaz de ir até ao fim. Eu, Patrícia, não era capaz de ir até ao fim”

Ao longo dos capítulos, as personagens são introduzidas sob a designação de letras, consoantes, sem identidade. “M.”, “S.”, “B.”, “L.”, entre várias outras. Há apenas uma personagem, “A.”, a única vogal nessa lista, que é dada para adoção. Não é um mero detalhe, foi intencional?

Foi, e mais ninguém vai reparar nisso. Construir um livro é construir uma tapeçaria. Um livro tem segredos, tem pequenas coisas que acabam por ser quase nossas, ninguém vai reparar, ninguém leu o outro livro, ninguém percebe que há aqui uma ligação ou não.

É muito interessante perceber que, consoante os leitores, a criança “M.” é um rapaz ou uma rapariga. Quer dizer que o leitor se identificou com a personagem. O exercício de escrita [sem género] é muito difícil, mas obrigou-me a um trabalho de plasticidade na língua portuguesa que foi bom para mim. Difícil, tenho de dizer, mas gratificante.

O teu livro anterior tinha também uma personagem “S.”.

Tinha, tinha sim. Na minha cabeça [essa personagem] poderia ter sido entregue a uma instituição. E se tivesse sido, porventura, não tinha feito o percurso que fez. O livro chama-se “A Construção do Vazio” porque essa personagem, depois do abuso a que é sujeita enquanto criança, pelo pai fisicamente e pela mãe psicologicamente, não consegue construir nada. Se ela tivesse ido parar a uma instituição se calhar conseguiria.

Isto para te dizer que os livros têm pequenos pormenores que são os nossos segredos. Tu vives dentro do livro muito tempo. E, portanto, tu fazes daquele território o teu território. Por isso é que não entrego nenhum livro sem ter começado outro. Custa-me muito ficar sozinha, porque aquilo está sempre na tua cabeça. Infelizmente, o meu trabalho não é só escrever, o meu trabalho também é escrever, mas tenho de ganhar a vida. Já dei por mim, em reuniões, quando estou muito próxima de terminar [um livro], em que as pessoas estão a falar comigo [e eu a pensar]… ‘Agora, se calhar, a “Conceição…”’ [personagem de uma assistente social].

Há alguma personagem da qual ainda não te tenhas despedido?

A “Conceição” é uma delas e a criança “M.” também. Não te sei explicar muito bem, mas custou-me imenso a escrever. Eu chorei que nem uma criança. E custa deixar ir. Embora ache que o final é um final aberto. Não é horrível.

É um final que deixa a cada leitor imaginar o que quiser para a vida de “M.”.

Sim, sim. E eu desejo-lhe tudo de bom, como é evidente.

A escrita sem género evidencia que os sentimentos também não o têm. Ambos “M.” e “S.” sentem ciúme, por exemplo.

O meu ponto era esse. Porque o espetro emocional não difere de homem para mulher. A dor é a dor. A alegria é a alegria. A tristeza é a tristeza. Isto é do ser humano. Mais, o riso que é a única coisa [própria] do ser humano, como diria Aristóteles. Somos nós que partilhamos o riso. E esse espetro emocional, esse tecido, era o que me interessava. Isso não tem sexo.

“Muitas vezes diz-se que estes miúdos têm direito à família; eu acho que eles têm direito é à proteção e ao amor. A família é uma coisa que se constrói”

Voltando à personagem da “Conceição”, ela tem duas vidas consoante as suas duas casas, a da instituição e a pessoal. Qual é que é a sua verdadeira casa?

É a “Casa”, onde estão os miúdos. Essa é a grande luta dela com o marido e a grande luta dela com ela própria. E é a enorme luta para perceber qual o seu papel, qual a sua identidade enquanto mãe.

Há uma afetividade maternal dela para com as crianças da “Casa”, mas, por outro lado, não lhe sabemos a relação com filha, cujo nome lhe conhecemos, “Joana”, mas não mais do que isso.

Isso significa que alguém pode ser muito boa mãe dentro de uma instituição e dentro da sua própria casa, se calhar, não o consegue ser.

No livro, [as mulheres] têm situações diferentes. A Conceição está casada e prepara-se para enfrentar um divórcio, a Luísa é divorciada, a Emília não se sabe e a Dulce perdeu um filho. Estas histórias existem e são reais. E há certas histórias, que fui ouvindo na pesquisa e que nunca poderia utilizar, porque são tão fora, tão fora, que não daria ao romance um sentido verosímil. Isso é importante, é importante que o leitor sinta que isto pode ser mesmo assim. E muitas vezes a realidade supera a ficção, de uma maneira brutal. As pessoas não são só a preto e branco, não são só boazinhas.

Uma das coisas que me preocupava, na construção de “As Crianças Invisíveis”, era esta ideia de que as pessoas, muitas vezes, partem para a adoção porque querem ser boazinhas, querem preencher buracos, querem aliviar as suas questões existenciais. Então partem para a adoção como uma certa ligeireza. Este amor não nasce espontaneamente. Se adotas um miúdo com cinco anos, esse miúdo tem cinco anos de tralha e desastre para trás. E o amor não nasce assim [estala os dedos]. Muitas vezes temos discursos politicamente corretos e não assumimos que temos as nossas fragilidades e os nossos defeitos. Que temos as nossas porras, como diria o meu tio-avô. Pensei durante muito tempo em adotar. Hoje, objetivamente, talvez tenha sido melhor não o ter feito. Claro que cada pessoa é a sua pessoa e há histórias de adoção maravilhosas e outras péssimas, há de tudo. Porque há de tudo na vida. Muitas vezes diz-se que estes miúdos têm direito à família; eu acho que eles têm direito é à proteção e ao amor. A família é uma coisa que se constrói.

Há outra coisa que queria deixar passar e não sei se o fiz de forma consciente. Os miúdos estão em constante mutação, constroem-se e destroem-se no próprio dia. Dez vezes. Estão sempre a mudar. Quando dizes assim: ‘conheço esta criança com a palma das minhas mãos’. É mentira. A criança é que te conhece, porque tu não estás a mudar. Espero que o livro mexa com dois, quatro leitores. Os que lerem. E quando pensarem em adotar, se calhar tenham em consideração uma série de coisas que este livro dá como pinceladas ou mais concretamente.

“As pessoas, muitas vezes, partem para a adoção porque querem ser boazinhas, querem preencher buracos, querem aliviar as suas questões existenciais”

Uma dessas pinceladas é a dificuldade em crianças mais velhas serem adotadas.

Há muitas crianças para adotar em idade mais tardia. É uma questão que pode ser muito difícil. Para elas, crianças, e para as famílias que querem adotar, por melhor que seja a sua intenção.

Ou ainda a opção por adotar apenas crianças brancas.

Bebés Nestlé ou bebés Chico. Olhinho azul, nada de etnias ciganas, nada de etnias outras, nada de crianças com doenças, nada de miúdos seropositivos. Nada disso.

Estás preparada para a partilha de quem leia o livro e tenha histórias semelhantes?

Estou, absolutamente, porque já as ouvi para a preparação do livro. O que quero é que essas pessoas, que viveram essas histórias e que estiveram em instituições, não achem um abuso da minha parte ter pegado neste tema. Porque não vivi esta situação será que me dá a legitimidade para escrever sobre isto? Acho que o escritor tem legitimidade para escrever sobre o que for. E é essa a diferença entre um escritor e um jornalista. O escritor serve-se da imaginação, da observação e da sua própria reinterpretação do mundo. Portanto acho que nesse sentido é legítimo escolher este tema ou outro; nunca fui à guerra e posso escrever sobre ela, nunca tive um cancro e um dos meus personagens já teve. É suposto um escritor ter este nível de empatia com o outro de forma a poder imaginar-se nos sapatos do outro.

Prevenir ou promover : uma solução para cada criança – livro digital do CEJ

Junho 13, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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A Drª Fernanda Salvaterra do Instituto de Apoio à Criança, escreveu o artigo “Consequências da não adotabilidade da criança” pág. 21.

Descarregar o livro no link:

http://www.cej.mj.pt/cej/recursos/ebooks/familia/eb_PrevenirPromover2019.pdf

Crianças para adoção desfilam em passerelle para eventuais interessados

Junho 1, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Diário de Notícias de 22 de maio de 2019.

João Almeida Moreira, São Paulo

Foi ontem, terça-feira, no Pantanal Shopping, centro comercial situado em Cuiabá, a capital do estado do Mato Grosso: crianças e adolescentes, dos quatro aos 17 anos, na fila da adoção desfilaram, devidamente produzidos, numa passerelle para os eventuais interessados em adotá-las.

O evento, organizado pela Comissão de Infância e Juventude da Ordem dos Advogados do Brasil e pela Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção vem sendo criticado duramente na imprensa e nas redes sociais.

O candidato às últimas eleições presidenciais Guilherme Boulos classificou a iniciativa de “perversidade inacreditável” com “efeitos devastadores”. Outras pessoas falam em mercantilizar as crianças, em tratar seres humanos como gatos, cachorros ou gado, em crueldade absurda e outras críticas.

Tatiane de Barros Ramalho, presidente da Comissão de Infância e Juventude que organiza o projeto, discorda. Para ela, “é uma noite para os pretendentes – as pessoas que estão aptas a adotar – poderem conhecer as crianças, a população em geral ter mais informações sobre adoção e as crianças terem um dia diferente, em que irão se produzir, o cabelo, a roupa e a maquilhagem, para o desfile”.

Esta é, lembra a responsável, já a terceira edição do evento e apenas a primeira em que a repercussão é negativa.

A gerente de marketing do Pantanal Shopping, Ticiana Pessoa, mencionou, por sua vez, que o empreendimento se sente honrado em receber o projeto que incentiva a sensibilização sobre a adoção.

E a maioria das lojas do centro especializada em produtos infantis apoia o evento com a cedência de roupas e outros adereços para o desfile.

 


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