Unicef: “Iêmen é um inferno para as crianças”

Março 9, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da ONU News de 25 de fevereiro de 2019.

Antecedendo conferência de doadores sobre o país que acontecerá esta terça-feira em Genebra, Unicef pede que crianças sejam priorizadas e que seus direitos fundamentais sejam respeitados; 1,2 milhão de crianças enfrentam o conflito diariamente no país.

O acordo de paz de Estocolmo foi assinado em dezembro de 2018. Mas, desde então, todos os dias oito crianças são mortas ou feridas no Iêmen.

De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, no país quase 1,2 milhão de crianças continuam a viver em 31 áreas de conflito, testemunhando a violência brutal relacionada à guerra. A maior parte delas perdem a vida enquanto brincam pelas ruas com os amigos ou no caminho de ida ou de volta da escola.

Inferno

Em entrevista à ONU News, a chefe de comunicação do Unicef no Iêmen, a brasileira Thaiza Castilho, descreveu o cenário da vida das crianças no país.

“Hoje a gente pode dizer que o Iêmen é um inferno para as crianças. A gente está falando de mais de 11 milhões de crianças que precisam de ajuda humanitária. Isso representa 80% da população de crianças no país e o conflito, que está entrando no seu quarto ano, só piora a situação que já era complicada no país e se tornou ainda pior.”

Segundo a agência da ONU, desde o início do conflito no Iêmen cerca de 1 milhão de crianças foram deslocadas, mais de 2,6 mil foram mortas e quase 2,7 mil recrutadas para lutarem no conflito. A agência frisa que estes são os números confirmados, mas que o total real pode ser ainda maior.

Impacto

O diretor-regional para o Oriente Médio e Norte da África do Unicef, Geert Cappelaere, destaca que “o impacto do conflito no Iêmen é profundo e não poupou nenhuma criança”. Para ele, “a violência incompreensível dos últimos quatro anos, os altos níveis de pobreza e décadas de conflitos, a negligência e privação estão sobrecarregando a sociedade iemenita, destruindo o seu tecido social, fundamental para qualquer sociedade e especialmente para as crianças.”

No Iêmen, uma em cada cinco escolas não pode mais ser usada por que foi danificada, está sendo utilizada no conflito ou servindo como abrigo para famílias deslocadas. Mais de 2 milhões de crianças, que representam um terço dos menores em idade escolar, não estão estudando.

Assistência

Com o apoio do Banco Mundial, o Unicef tem fornecido assistência de emergência em dinheiro para 1,5 milhão das famílias mais pobres, ajudando a evitar práticas de sobrevivência extrema como trabalho e casamento infantil.

Apenas em 2018, a agência forneceu tratamento para mais de 345 mil crianças gravemente desnutridas e 800 mil outras receberam apoio psicossocial para ajudar a superarem os traumas que sofreram.

Para este ano, o Unicef faz um apelo por US$542 milhões para poder continuar respondendo às grandes necessidades das crianças no Iêmen.

Conferência

Nesta terça-feira, acontece em Genebra uma conferência de alto nível de doadores sobre o país, que está sendo organizada pela ONU e os governos da Suécia e da Suíça. Segundo as Nações Unidas, são necessários mais 4 bilhões de dólares para a resposta humanitária no Iémen este ano, um aumento de 33% em relação ao ano passado.

Segundo o subsecretário-geral da ONU para os Assuntos Humanitários, Mark Lowcock, “a estimativa é de que 85 mil crianças no Iémen tenham perdido a luta contra a fome desde 2015.” Ele acrescenta ainda que “milhões de iemenitas estão mais famintos, mais doentes e mais vulneráveis do que há um ano.”

Lowcock aponta que as Nações Unidas e os parceiros humanitários estão fazendo o possível para ajudar as pessoas no país e que em 2018, apesar de ser “um dos ambientes operacionais mais perigosos e complexos em todo o mundo, cerca de 254 parceiros internacionais e nacionais foram ativamente coordenados para chegar a ainda mais pessoas no Iémen.”

Operação Humanitária

Cerca de 8 milhões de pessoas receberam ajuda todos os meses, em todo o país, naquela que é já a maior operação humanitária do mundo. Somente em dezembro, foi prestada assistência alimentar a mais de 10 milhões de pessoas, um número recorde.

Porém, Lowcock diz que isso não é o suficiente. Ele diz que se pode salvar milhões de vidas este ano, mas a ONU e parceiros estão “ficando sem tempo” e “sem dinheiro.”

O representante destaca que é preciso evitar que a tragédia humanitária piore ainda mais e diz que tem esperança de que a “ação coletiva, em Genebra, possa salvar mais vidas e reforçar o processo político em direção a uma solução pacífica.” Para ele, o mundo deve “isso às crianças do Iémen e às suas famílias”.

https://www.youtube.com/watch?v=SS15RZ3odx0

 

 

Iémen é “um inferno na terra” para as crianças, diz UNICEF

Dezembro 4, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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YAHYA ARHAB/EPA

 

Artigo do Observador, publicado em 4 de Novembro de 2018.

 

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) disse que o Iémen se tornou “um inferno na terra” para as crianças e exortou as partes em conflito a cessarem as hostilidades.

“O Iémen é hoje um inferno na terra, não para 50% ou 60% das crianças, mas para cada menino e menina do Iémen”, declarou o diretor da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere, numa conferência de imprensa em Amã este domingo. “Os números, na verdade, não dizem muito, mas são importantes porque nos mostram até que ponto a situação se tornou desastrosa”, acrescentou.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância considerou assim que o Iémen se tornou “um inferno na terra” para as crianças, atingidas pela fome, e desafiou as partes envolvidas no conflito a cessarem as hostilidades.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, também apelou na sexta-feira ao fim da “violência” para evitar que o país caia num “precipício”.

A guerra no Iémen opõe as forças pró-governamentais e uma coligação liderada pela Arábia Saudita aos rebeldes Huti, apoiados pelo Irão, que em 2014 e 2015 tomaram vastas áreas do país, incluindo a capital, Sanaa.

O conflito já provocou a morte de quase 10 mil pessoas, a maioria civis, causando a pior crise humanitária do mundo. Além dos casos de fome, a população sofre de doenças como a cólera.

“A cada 10 minutos, uma criança morre por causa de doenças que podem ser prevenidas”, adiantou Cappelaere.

O mesmo responsável disse à agência noticiosa AFP na quinta-feira que 1,8 milhões de crianças com menos de cinco anos sofrem de “desnutrição aguda”.

O conflito exacerbou “uma situação que já era má devido a anos de subdesenvolvimento” neste país pobre da região, referiu Cappelaere.

“Apelamos a todas as partes para que se encontrem no final deste mês sob os auspícios do enviado especial da ONU para um acordo de cessar-fogo”, declarou hoje o responsável da UNICEF.

Cappelaere sublinhou que a situação é particularmente preocupante em Hodeida, uma cidade portuária controlada pelos rebeldes no oeste do país, que as forças pró-governamentais estão a tentar recuperar.

“O porto de Hodeida é um ponto vital para 70 a 80% da população iemenita (…), porque é apenas através de Hodeida que são feitas as entregas comerciais e humanitárias que nos permitem fornecer ajuda ao norte do país”, explicou.

“Com o assalto de Hodeida, não nos preocupa apenas a vida de centenas de milhares de crianças (na região), mas também o impacto que isso terá sobre as crianças no norte do país”, acrescentou.

 

Mais informações AQUI.

85 mil crianças morrem à fome no Iémen

Dezembro 3, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da Euronews de 21 de novembro de 2018.

Os números são dramáticos.

Segundo a organização humanitária Save the Children, só nos últimos três anos, mais de 85 mil crianças morreram no Iémen, devido à fome ou doenças.

A guerra deixou o país com falta de alimentos e os mais novos, são os que mais sofrem.

Zita Weise Prinzo, da Organização Mundial de Saúde, explica as razões desta tragédia.

“O conflito no Iémen levou à insegurança alimentar no país. Muitas pessoas não têm acesso a comida ou ao tipo de comida certa. Ao mesmo tempo, há surtos de doenças e infeções, como a cólera, sarampo, malária ou pneumonia. E a combinação destes dois fatores levou à desnutrição generalizada no país.”

As Nações Unidas avisam que há 14 milhões de pessoas em risco de fome no Iémen. Por cada criança morta por uma bala ou bomba, dezenas morrem à fome.

E o cenário não deve melhorar nos próximos tempos, como suspeita Peter Salisbury, analista do think-tank britânico Chatham House.

“Sinceramente, não acho que as diferentes partes envolvidas na guerra estejam dispostas a fazer o tipo de compromissos necessários para a terminar. Por isso, infelizmente, acho que a guerra vai arrastar-se por vários meses, se não mesmo anos.”

O país mergulhou na guerra em 2014, quando os rebeldes Huthis tomaram de assalto a capital Sanaa e outras regiões do Iémen. Desde 2015 que as forças do governo, apoiadas por uma coligação internacional, procuram recuperar os territórios ocupados.

Um conflito que já fez mais de dez mil mortos

UNICEF declara janeiro “mês sangrento” ao registar 83 crianças mortas em conflitos

Fevereiro 23, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do http://observador.pt/ de 5 de fevereiro de 2018.

A ” violência no Iraque, Líbia, Síria, no Estado da Palestina e no Iémen” teve consequências “devastadoras” as crianças. Mas há mais locais onde a vida destas está em perigo constante.

Pelo menos 83 crianças, a grande maioria sírias, morreram durante o “mês sangrento” de janeiro em conflitos e ataques registados em países do Médio Oriente e do norte de África, divulgou esta segunda-feira a UNICEF.

“A intensificação da violência no Iraque, Líbia, Síria, no Estado da Palestina e no Iémen” teve consequências “devastadoras” para a vida das crianças, disse o diretor regional da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) para o Médio Oriente e do norte de África, Geert Cappelaere, citado num comunicado.

“Só no mês de janeiro, pelo menos 83 crianças foram mortas (…) em conflitos em curso, em ataques suicidas ou morreram de frio ao fugir de zonas de guerra”, sublinhou o representante. Geert Cappelaere realçou que as crianças estão a pagar “o preço mais alto” por guerras pelas quais não são responsáveis.

“São crianças, crianças!”, frisou o diretor regional da UNICEF, na mesma nota informativa. Na Síria, país que enfrenta desde março de 2011 um conflito civil, “59 crianças foram mortas nas últimas quatro semanas”, segundo a agência das Nações Unidas.

No conflito no Iémen, já classificado como uma das piores crises humanitárias dos últimos anos, 16 crianças perderam a vida “em ataques em todo o país”. Em Benghazi, no leste da Líbia, “três crianças foram mortas num ataque suicida e outras três quando brincavam perto de engenhos explosivos”, segundo a UNICEF.

Uma mina tirou também a vida a uma criança na cidade velha de Mossul, antigo bastião do grupo extremista Estado Islâmico (EI) no norte do Iraque, enquanto um menor foi baleado numa localidade perto de Ramallah, na Cisjordânia ocupada por Israel.

No Líbano, “16 refugiados sírios, incluindo quatro crianças, que fugiram da Síria morreram de frio durante uma tempestade severa”, referiu a UNICEF.

“Não são centenas, nem milhares, mas milhões de crianças no Médio Oriente e no norte de África a quem roubaram a infância, que foram mutiladas, traumatizadas, presas, impedidas de ir à escola (…) e privadas do direito mais básico, de brincar”, sublinhou o comunicado.

Para Geert Cappelaere, “podem ter silenciado as crianças, mas as suas vozes vão continuar a ser ouvidas!”, concuindo que “A sua mensagem é a nossa: a proteção das crianças é prioritária em todas as circunstâncias, faz parte das leis da guerra”. Em dezembro passado, a UNICEF qualificou 2017 como um “ano pesadelo”, denunciando na altura que os conflitos armados tinham afetado de maneira desmedida as crianças.

Em 2017, as crianças em zonas de conflito foram vítimas de ataques “a uma escala chocante”, fruto de um “desprezo generalizado e flagrante das normais internacionais que protegem os mais vulneráveis”, afirmou na altura a organização no seu relatório anual, que apontava as situações na República Centro Africana, Nigéria, Birmânia, Sudão do Sul, Ucrânia, Iémen ou Síria.

No ano passado, segundo os números da UNICEF, cinco mil crianças foram mortas ou feridas no Iémen, 700 foram mortas no Afeganistão, centenas usadas como escudos humanos na Síria e no Iraque, 135 usadas como bombistas suicidas na Nigéria, 19 mil recrutadas pelo exército e grupos armados no Sudão do Sul.

O mesmo relatório indicou que na Europa, no leste da Ucrânia, mais de 200 mil crianças vivem sob a ameaça constante das minas antipessoal e de artefactos que não explodiram que apanham para brincar ou pisam, morrendo ou sofrendo mutilações.

mais informações na notícia:

Conflicts in the Middle East and North Africa take a brutal toll on children – UNICEF

Perto de 1.4 milhões de crianças em risco de morte devido à ameaça de fome na Nigéria, na Somália, no Sudão do Sul e no Iémen

Março 10, 2017 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Comunicado de imprensa da Unicef de 21 de fevereiro de 2017.

On 5 February, a woman plays with her 2-year-old son, Kuot Kune, at the UNICEF-supported Al-Shabbah Children’s Hospital, where Kuot is being treated for severe acute malnutrition, in Juba, the capital. In late May 2015 in South Sudan, the lives of more than a quarter of a million children are at risk from a rapidly worsening nutrition situation. The environment for children has greatly deteriorated, based on the onset of an early lean season brought by ongoing conflict, diminished household food stocks and a declining economy. Children trapped by fighting, without access to basic medical services and food, will struggle to survive this lean season without an urgent resumption of humanitarian assistance in conflict-affected areas. Through the national Nutrition Scale Up programme and rapid response missions to remote, conflict-affected areas, UNICEF and partners have treated almost 50,000 children for severe acute malnutrition thus far in 2015. With a funding shortfall of 75 per cent this year, UNICEF is urgently appealing for US$25 million to continue its life-saving nutrition response in South Sudan.

On 5 February, a woman plays with her 2-year-old son, Kuot Kune, at the UNICEF-supported Al-Shabbah Children’s Hospital, where Kuot is being treated for severe acute malnutrition, in Juba, the capital.

Perto de 1.4 milhões de crianças em risco de morte devido

à ameaça de fome na Nigéria, na Somália, no Sudão do Sul e no Iémen

NOVA IORQUE/DAKAR/NAIROBI/AMÃ, 21 de Fevereiro de 2017 – Quase 1.4 milhões de crianças estão em risco iminente de morte devido à má nutrição aguda grave este ano, causada pela fome que paira sobre a Nigéria, a Somália, o Sudão do Sul e o Iémen, afirmou a UNICEF hoje.

“O tempo está a esgotar-se para mais de um milhão de crianças,” afirmou Anthony Lake, Director Executivo da UNICEF. “Ainda podemos salvar muitas vidas. A má nutrição aguda e a ameaça da fome são em grande medida causadas pelo homem. O nosso sentido de humanidade exige uma acção mais rápida. Não podemos deixar que se repita a tragédia da fome no Corno de África em 2011.”

Este ano no nordeste da Nigéria, o número de crianças que sofrem de má nutrição aguda grave deverá chegar aos 450.000 nos estados de Adamawa, Borno e Yobi afectados pelo conflito. Fews Net, o sistema de alerta precoce de fome que monitoriza a insegurança alimentar, disse no final do ano passado que é possível que a fome tenha ocorrido em algumas zonas do estado de Borno anteriormente inacessíveis, e que continuará a ocorrer noutras zonas que permanecem inacessíveis à assistência humanitária.

Na Somália, a seca está a ameaçar uma população já fragilizada por décadas de conflito. Quase metade da população, ou seja, 6.2 milhões de pessoas, enfrentam uma situação de insegurança alimentar grave e precisam de assistência humanitária. É expectável que cerca de 185.000 crianças venham a sofrer de subnutrição aguda grave este ano, mas este número poderá chegar aos 270.000 nos próximos meses.

No Sudão do Sul, um país debilitado pelo conflito e pela pobreza e insegurança, mais de 270.000 crianças estão gravemente malnutridas. A fome foi recentemente declarada em partes do estado de Unity na zona norte central do país, onde vivem 20.000 crianças. É previsível que o total de pessoas em situação de insegurança alimentar no país aumente de 4.9 milhões para 5.5 milhões no pico da época de escassez de alimentos em Julho se nada for feito conter a gravidade e o alastramento da crise alimentar.

No Iémen, nos últimos dois anos profundamente afectado por um conflito violento, 462.000 crianças sofrem actualmente de má nutrição aguda grave – um aumento de quase 200 por cento desde 2014.

Este ano, a UNICEF está a trabalhar com vários parceiros a fim de providenciar tratamento a 220.000 crianças gravemente subnutridas na Nigéria; mais de 200.000 no Sudão do Sul; mais de 200.000 na Somália; e 320.000 no Iémen.

 

 

Chamo-me Nojood: tenho 10 anos, sou divorciada

Novembro 16, 2016 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 21 de outubro de 2016.

Paula Cosme Pinto

Nujood Ali tinha 9 anos quando foi entregue a um homem adulto em troca de um dote. Não passava de uma criança quando se viu na condição de casada, entregue a um leito matrimonial onde deveria cumprir os seus deveres de esposa. Foi abusada sexualmente e espancada repetidamente. Numa primeira visita à sua família, contou à mãe o que se passava dentro das quatro paredes onde agora vivia, e a resposta que obteve foi um abraço, seguido de um singelo: “Filha, ele tem direito a fazer isso tudo.”

Encurralada numa realidade de sofrimento, NuJood fugiu. E sem saber que no país que a vira nascer o casamento infantil não era penalizado, dirigiu-se a um juiz e pediu o divórcio. Foi a primeira vez que tal coisa aconteceu no Iémen e a sua história real, de luta pela dignidade e liberdade, tornou-se não só num símbolo contra o casamento infantil, mas também da revolução das mulheres daquele país quanto às tradições que continuam a subjugar a figura feminina e a reduzi-la à categoria de uma simples mercadoria que pode ser trocada e vendida, sem direito ao livre-arbítrio. Em troca de cerca de cem euros, o divórcio foi-lhe concedido e hoje a pequena é uma adolescente livre do marido. Mas ainda presa à figura paterna.

Em 2008, a incrível história de NuJood inspirou um livro, intitulado “Nojood: 10 anos, divorciada”. Nesse mesmo ano, a menina e a advogada que a defendeu ao longo do processo foram agraciadas com o prémio Glamour Women of the Year, em Nova Iorque. A história encantou o mundo e puxou a atenção para o drama do casamento infantil. O livro – que se tornou num best-seller – inspirou depois um filme com o mesmo nome, que acaba de ser indicado para candidato aos Óscares 2017, na categoria de Melhor Filme Língua Estrangeira.

A cada minuto que passa há 28 meninas forçadas a casar

Avança hoje a Al-Jazeera que este é um momento histórico, uma vez que é a primeira vez que o Iémen faz uma candidatura do género à Academia. Para mim, é também altamente simbólico no que diz respeito aos pequeníssimos passos que o país tentar dar no que toca à igualdade de género, seja pela exposição do tema em causa – que continua a ser um problema grave no Iémen – como pelo facto de a realização do filme ser feita precisamente por uma mulher (algo raro no país). Ambas formas pouco diretas, mas certamente representativas, da assunção deste país quanto à necessidade de mudança de mentalidades. Incluindo a do próprio pai de Nujood, que mesmo depois de ter assistido à odisseia da filha mais velha, voltou a cometer o mesmo erro com a mais nova.

Khadija al-Salami, a realizadora, é conhecida pelo seu trabalho documental e o filme “Nojood: 10 anos, divorciada” foi a sua primeira incursão neste género de cinema. Inspirou-se não só em Nujood, mas também na sua própria história de vida que passa por um casamento forçado aos onze anos, uma tentativa de suicídio e um divórcio. Filmado antes da guerra civil que assola o país, o filme passa uma mensagem clara: a crueldade inerente ao casamento forçado de uma criança, a contínua desvalorização da figura feminina no Iémen, a tradicional subjugação da mulher ao homem, a agressão consentida e inquestionável, a violação dos direitos humanos com base no género. E, é claro, a eterna lacuna da lei no que toca a tudo isto.

É verdade que tanto meninos como meninas estão sujeitos à realidade do casamento infantil, mas o sexo feminino é de longe o mais afetado. Uma boa parte destas miúdas são casadas à força, sujeitas a abusos sexuais, violência doméstica e acabam encurraladas numa vida de dependência total que, simplesmente, não escolheram ter. Não basta prenderem os pais destas crianças para que esta realidade mude, é preciso reeducar populações inteiras, incluindo as mulheres, que têm de ter consciência de que a vida não tem de ser assim, por mais que séculos de tradições assim o ditem como verdade absoluta.

Dados da UNICEF revelam que atualmente existem mais de 700 milhões de mulheres vivas em todo o mundo que foram forçadas a casar na infância. Uma em cada três destas mulheres fizeram-no com menos de 15 anos. No que diz respeito à realidade dos dias de hoje, o resultado da pesquisa conjunta das 400 organizações que trabalham para o Girls Not Brides revela números que me tiram o fôlego sempre que penso neles: 15 milhões de meninas são casadas anualmente, ou seja, a cada minuto que passa há 28 meninas a serem forçadas a casar. Até quando isto vai continuar a acontecer?

 

Perto de 400 crianças foram mortas e mais de 600 ficaram feridas desde que a violência no ‎Iémen‬ se intensificou

Setembro 9, 2015 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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unicef

Perto de 400 crianças foram mortas e mais de 600 ficaram feridas desde que a violência no #Iémen se intensificou.
Saiba mais em: https://goo.gl/gRPt91


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