Há mais mundo quando as histórias são contadas em voz alta

Março 16, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Educare de 1 de março de 2019.

As crianças entram no texto e viajam pelo mundo. Aprendem e questionam. E a imaginação, a curiosidade, o vocabulário, e a aprendizagem saem reforçados. Ler em voz alta aos mais pequenos estará em vias de extinção?

Sara R. Oliveira

Há novidades do outro lado do Atlântico que revelam que a leitura em voz alta para os mais novos está a aumentar desde 2014. Nos Estados Unidos da América, há cada vez mais crianças, entre os seis e os oito anos, que escutam histórias em voz alta pelo menos cinco dias por semana. É um momento especial em família e as boas notícias estão no estudo da Scholastic “Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud”. Mais de 80% dos pais e filhos inquiridos confessaram apreciar bastante essa experiência e esta partilha em família.

Susana Almeida é mãe de dois filhos e blogger (sersupermaeeumatreta). Os seus filhos têm cinco e três anos e todas as noites há histórias para contar lá em casa. Muito cedo, habituaram-se a olhar para um livro como um brinquedo. Ler em voz alta tem várias virtudes e benefícios para as crianças. “Além de fomentar o contacto com os livros, estimula a imaginação, aumenta e diversifica o vocabulário e desperta a curiosidade para mais leituras”, refere a blogger ao EDUCARE.PT.

“A leitura deve ser incentivada”, defende. Susana Almeida não tem dúvidas. Ler em voz alta para os seus filhos “é um momento único de partilha, de conversa e de descoberta de mundos novos”. “A imaginação de uma criança é um terreno fértil, mas precisa de ser regado. Em famílias em que não existem hábitos de leitura enraizados, a escola tem um papel muito importante de levar os livros até às crianças e de fazer esse intercâmbio entre a escola e a casa. Nem todas as crianças vão ser futuros leitores, mas o papel dos pais e da escola é tentar que o sejam”, sublinha.

Em seu entender, não será apenas a leitura em voz alta que está em vias de extinção, a leitura no geral também não respira saúde. “Lemos cada vez menos, seja jornais, revistas ou livros em papel, que têm vindo a ser substituídos pelo que vamos lendo superficialmente na Internet. E acredito que os pais que não têm hábitos de leitura dificilmente vão criar esse hábito nos filhos”.

Mikaela Öven, especialista em parentalidade positiva, vê imensos benefícios na leitura em voz alta aos mais pequenos, seja na aprendizagem, seja no desenvolvimento da linguagem, no raciocínio, entre outras capacidades e competências. “É um excelente momento de conexão e de possibilidade de aprendizagens”, afirma ao EDUCARE.PT. Mas tudo depende dos livros que se escolhem. Uma coisa é ler “A Bela Adormecida”, outra coisa é ler “O Monstro das Cores”. “Depende também se nos limitarmos apenas ao ler, ou se também conversamos sobre o que estamos a ler”, diz.

“Dependendo dos livros que escolhemos é um excelente momento para elaborar e refletir sobre questões emocionais, sobre medos, sobre relações, sobre consentimento, sobre igualdade de género, sobre imensas coisas”. Os benefícios, na sua opinião, dependem muito do género de livro que se escolhe para ler e acredita que uma escolha consciente de livros é muito importante.

Para a especialista em parentalidade positiva, contar as histórias dos livros em voz alta para os mais pequenos não é uma prática em extinção. “Não tenho essa ideia. Acho que as pessoas são muito mais conscientes em relação às suas escolhas de livros infantis. Pelo menos quem se interessa pela parentalidade consciente”. Pais e escolas não devem esquecer que essa prática estimula a aprendizagem. “Certamente! Nas escolas acho que se deveria principalmente estimular a reflexão e a crítica em relação àquilo que estamos a ler. Sejam livros ou coisas online”, refere.

Imaginar, comentar, duvidar
Os benefícios de ler em voz alta para quem está a crescer e a aprender são variados. A criança entra no texto e viaja pelo mundo. Aprende e questiona. “O momento da leitura de uma história, em família ou na escola, é um momento muito especial, uma oportunidade de conexão e de comunicação entre o adulto e a criança”, afirma Tânia Reis, terapeuta da fala. “A literatura infantil desenvolve a imaginação, promove a criatividade, facilita o entendimento do mundo e constitui uma excelente forma de potenciar o desenvolvimento linguístico, e não só, da criança”, realça.

Explorar uma história é conhecer mais mundo. Conhecer animais, plantas, flores, números, letras. “A exploração de histórias permite ampliar o conhecimento do mundo! A leitura de histórias permite à criança imaginar, iniciar um pensamento crítico e reflexivo, fazer relações com os diferentes conhecimentos, comentar, indagar, duvidar, criar uma opinião”.

Na linguagem oral, a leitura em voz alta e a exploração de histórias facilitam o contacto, a aquisição e a exploração de um maior número de palavras e, frequentemente, de palavras que são menos usuais no dia-a-dia da criança. Ouvir livros em voz alta também aumenta o vocabulário. Para Tânia Reis, “a leitura de histórias por um adulto possibilita o contacto com estruturas sintáticas mais complexas e menos frequentes (construção de frases), contribuindo para o aumento compreensão e expressão oral”.

A melodia da leitura produz efeitos. “Ouvir um adulto a ler permite à criança observar os padrões prosódicos (entoação) que terão uma importância extrema, futuramente, na compreensão leitora e na pontuação. Explorar em conjunto a leitura permite à criança fazer inferências, previsões, gerar conhecimento, atribuir significado, fulcrais para a literacia. Porque ler é muito mais do que transformar as letras em sons”, repara.

Ver como um adulto explora um livro permite à criança aceder a pré-competências de leitura. A terapeuta da fala exemplifica. Não é apenas o folhear de um livro, é igualmente “perceber que existem símbolos visuais que são transformados em palavras (descodificação), entender a ordem da leitura e da escrita (esquerda para a direita)”. “Com os livros contribuímos para a pré-história leitora da criança”, realça, lembrando o psicólogo russo Leo Vigotsky que, no século passado, escreveu: “A aprendizagem escolar nunca parte do zero. Toda a aprendizagem da criança na escola tem uma pré-história”.

O estudo mencionado no texto é o seguinte:

Kids & Family Reading Report – The Rise of Read-Aloud

Sharenting: adolescentes não querem que pais partilhem fotos e vídeos sobre eles

Março 14, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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iStock

Notícia do DN Life de 23 de fevereiro de 2019.

Os resultados do mais recente estudo nacional da rede EU Kids Online sobre a relação das crianças e adolescentes (9-17 anos) com a internet acabam de ser divulgados. Mais de oitenta por cento usa redes sociais diariamente e está online três a quatro horas por dia, sobretudo a ouvir música, ver vídeos e falar com amigos, reais ou apenas virtuais. Mas também pode estar a ver imagens nojentas ou violentas, conteúdos que apelam à automutilação ou ao suicídio e mensagens de ódio contra grupos de pessoas. Os riscos aumentaram, mas também as oportunidades e a sensação de segurança e domínio da tecnologia. Pode parecer estranho, mas não é. O smartphone é hoje quase uma extensão do corpo, mas não, os miúdos não são nativos digitais. Têm muito que aprender. E, ao que parece, os pais também.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de iStock

Têm entre 9 e 17 anos, embora a maioria (62%) seja maior de 13. Raparigas e rapazes em igual número. Não classificados do ponto de vista socioeconómico, a grande maioria percebe a família como bem na vida. Ao contrário do que dizem as más línguas – os adultos que acham sempre que no tempo deles é que era – esta amostra de miúdos, mais precisamente 1974, dizem preferir estar cara a cara com os amigos do que online e, pasme-se, até afirmam divertir-se mais.

Também passam mais tempo a fazer trabalhos de casa e tarefas domésticas (elas) e desporto ou atividades ao ar livre (eles) do que online. (Não é de igualdade de género que trata o estudo, mas é bastante interessante ler muitos dos resultados sob esse prisma).

Apesar disso, reconhecem um uso excessivo da internet, 70% admitindo que fica aborrecido quando não pode estar online e 60 dizendo que muitas vezes dá por si a usar a internet sem um propósito definido.

Seja como for, estes jovens têm-se em boa conta e metade deles acredita de forma veemente que a internet é um espaço de oportunidades. E mesmo os que não são tão benevolentes aproveitam-no: cerca de 80% usam-na todos os dias para ouvir música e ver vídeos e cerca de 75% para comunicar com familiares e amigos ou para ir a redes sociais (na faixa etária dos 13 aos 17 anos entre 81 e 89 por cento usam redes sociais diariamente).

O Facebook, em queda entre os mais novos, foi substituído por aplicações de mensagens instantâneas como o WhatsApp e o Snapchat ou plataformas como o Instagram e o You Tube. Os jogos online têm adeptos entre quase metade dos inquiridos (dois terços dos rapazes); 29% participam em grupos online que partilham os interesses e cerca de um quarto usa a internet com muita frequência para ler notícias ou fazer os trabalhos de casa.

As oportunidades são um lado da moeda. Do outro, estão os riscos, que podem ter graves consequências se não forem mediados pelos adultos – pais e professores – e pela própria sociedade, plataformas e fornecedores de conteúdos e entidades reguladoras.

Maior utilização, mais riscos

Quanto mais/tanto mais: um maior uso da internet para várias práticas continua a estar associado a uma maior exposição a riscos. Esta é uma das conclusões deste estudo financiado pela União Europeia e que teve duas edições anteriores, uma em 2014 e a primeira, em 2010 .

Os dados mais preocupantes prendem-se com o número elevado de jovens entre os 9 e os 17 anos que viu sites com imagens nojentas ou violentas contra pessoas e animais (46%), sites onde se falava de formas de automutilação (45%) e sites com mensagens de ódio contra certos grupos e indivíduos, por exemplo, pessoas de cor, religião, nacionalidade ou sexualidade diferentes (43%).

Números mais baixos, mas ainda assim relevantes acederam a conteúdos que relatavam experiências de consumo de drogas (35%), de como ficar magro (32%) e de formas de suicídio (29%). Estes números subiram exponencialmente em relação a 2014, quando praticamente nenhum destes conteúdos era visto por mais de 5 por cento das crianças e adolescentes.

Este fenómeno terá contribuído para que quase um quarto (23%) deles tenha vivido no último ano situações na internet que os incomodaram ou perturbaram, valor que mais do que duplicou em relação a 2014. O bullying, que teve evolução semelhante (passou de 10 para 24%), continua a ser a situação que mais incomoda, sobretudo os mais novos e as raparigas e o online já ultrapassou o do recreio da escola. Receber mensagens digitais que magoam é a principal queixa (64%).

Outra preocupação dos pais e um dos riscos analisados desde 2010 por este estudo é o acesso a pornografia. Em 2018, a exposição a conteúdos de cariz sexual foi assinalada por 37% dos miúdos, sendo entre os adolescentes que esta mais aconteceu: 41% entre os 13-14 anos; 59% nos 15-17 anos. As reações mais comuns são a indiferença (49%) e ficar contente (31%), com significativas variações por género: quem ficou contente foram 47% dos rapazes e 8% de raparigas. Quem não ficou contente nem indiferente foram os mais novos, entre os 9 e os 10 anos (24%), que disseram ter ficado muito aborrecidos.

Outro risco estudado – conhecer novas pessoas na internet – é visto pelos adolescentes como uma oportunidade para alargar laços sociais: 71% entre os 15-17 anos e 62% entre os 13-14 anos contactaram com pessoas que não conheciam cara a cara, sem diferenças de género. Uma subida acentuada em relação a 2010 e 2014, a maior entre as quatro situações de risco analisadas. Também sem diferenças de género, 44% dos inquiridos encontraram-se cara a cara com pessoas que conheceram na internet. A maioria ficou contente (79%).

De acordo com o relatório EU Kids Online, «a exposição a riscos não conduz necessariamente a danos: para muitos jovens, como acontece com os riscos offline, o contacto online com conteúdos e situações de comunicação arriscada pode levar a resiliência ao risco, ou seja, a ter mais capacidade para afrontar e gerir situações de perigo».

Parece ser o que acontece na maioria dos casos. Ainda que 22% das crianças e jovens de 9-17 anos não tenham falado com ninguém sobre situações na internet que os incomodaram ou perturbaram, os restantes recorreram ao apoio de amigos da mesma idade (42%) e pais (33%).

O estudo apurou ainda que «as respostas mais frequentes a situações de incómodo por via de contactos indesejados ou agressivos nas redes sociais cobrem estratégias ativas, como bloquear o contacto dessa pessoa (33%), e estratégias passivas, como ignorar o problema e esperar que ele se resolva por si (33%) ou fechar a janela e a aplicação (25%). Apenas 12% mudaram as suas definições de privacidade após uma situação negativa, e 11% reportaram o problema online.» As raparigas passam mais à ação do que os rapazes, bloqueando a pessoa ou reportando o problema. Eles ficam-se por fechar a janela e a aplicação.

Não, não são nativos digitais

A grande maioria dos miúdos entrevistados acha que domina a tecnologia (competências instrumentais): 79% diz saber gravar uma fotografia que encontraram online e 81% garantem saber modificar configurações de privacidade do seu perfil na rede social.

Confessam-se menos fortes nas competências relativas à «navegação e gestão crítica da informação online», ainda assim 52% dizem ser fácil verificar se a informação que encontram na internet é verdadeira (menos a raparigas que os rapazes) e 66% consideram que sabem escolher as melhores palavras-chave para fazer pesquisa na internet. Relativamente às notícias online, os mais novos desconfiam e acreditam que os meios tradicionais são os mais credíveis.

Confiantes mesmo são nas suas próprias competências sociais: 88% afirmam saber que informação devem ou não partilhar online e 89% garantem que sabem remover pessoas da lista de contactos (mais as raparigas do que os rapazes, e com proveito).
As competências criativas são as menos desenvolvidas, sendo mais raros os produtores de conteúdos e mais comuns os “curadores” dos ditos.

De acordo com os EU Kids Online «estes resultados contrariam o mito dos ‘nativos digitais’: crianças e adolescentes não dominam de modo automático e natural o uso das novas tecnologias, aproveitando todas as suas potencialidades. Competências criativas e críticas apresentam valores bastante mais baixos do que as instrumentais, móveis ou sociais».

Quando é que os pais vão tirar os olhos do seu próprio smartphone?

As crianças e adolescentes entrevistados sentem-se seguros e apoiados em casa, mas dois terços considera que não é ouvido com atenção pela família.

A mediação da internet por parte dos pais incide mais em dar conselhos sobre como a usar em segurança e em ajudar quando algo incomoda – expressa por quase metade dos miúdos – do que em conversar sobre atividades (cerca de um terço) ou incentivar à exploração e aprendizagens (um quinto). Há significativas variações por idade e género. As raparigas são mais vezes alvo de atenção familiar do que os rapazes e também são quem mais procura o apoio familiar quando encontram problemas na internet.

Formas de mediação restritiva e técnica, como o uso de filtros, registaram valores bastante baixos, estando mais presentes entre os mais novos (9-12 anos).

A verdade é que quase todos os inquiridos indicam que podem fazer uso de redes sociais (só 7% não tem autorização para usar), fazer download de músicas e filmes (5% não tem autorização) e usar a webcam ou a câmara vídeo do telemóvel (9% não tem autorização).

Estas restrições atingem os mais novos, mas ainda assim o que estes resultados demonstram é que a larga maioria de crianças, desde os nove anos, pode fazer uso de redes sociais sem restrições.

É nelas também que muitos pais estão emaranhados. E é provavelmente a isso que se deve um novo fenómeno analisado pela primeira vez pela EU Kids Online: o sharenting, que designa a partilha por parte dos pais de imagens e vídeos das crianças ou comentários sobre situações engraçadas das suas vidas, nas redes sociais, o termo inglês combina partilha (share) e parentalidade.

Parece então que os miúdos estão a tomar consciência de que a sua pegada digital pode ser muito anterior à sua entrada online e fugir ao seu «controlo». E não estão muito contentes: 28% dizem que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem se estavam de acordo, 13% ficaram incomodados com essas partilhas e 14% pediram aos pais que retirassem esse conteúdo.

Estes são apenas alguns dos resultados deste estudo, que será apresentado dia 28 de fevereiro, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, na Conferência «Crianças e Jovens Portugueses no Contexto Digital». Há muito sobre o que refletir a partir do que disseram os miúdos entrevistados e Cristina Ponte, professora universitária e responsável pelo estudo, gostaria que o mesmo servisse precisamente para isso.

«As crianças dão-nos este retrato. Por exemplo, as questões do tempo: as crianças passam demasiado tempo nos ecrãs, e os pais? As crianças sentem-se aborrecidas quando não estão ligadas. E os pais? É fundamental desconstruir essa ideia de que as crianças vivem num mundo que não tem nada que ver com o dos adultos. Hoje, nos países desenvolvidos não há ninguém que não tenha um telemóvel e não esteja sempre a olhar para ele. Se calhar, é tempo de refletir sobre como estamos a educar os nossos filhos», diz.

 

 

Cristina Ponte: «O ciberbullying é a situação que mais incomoda os miúdos na internet»

Março 13, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Reinaldo Rodrigues

Entrevista do DN Life de 26 de fevereiro de 2019 a Cristina Ponte.

A esmagadora maioria das crianças e adolescentes portugueses está online três a quatro horas por dia e, quando não está, muitas vezes sente-se aborrecido por isso. Relacionam-se online com pessoas que não conhecem na vida real e mais de metade encontrou-se com esses «estranhos» cara a cara. E gostou. Para falar destes e de outros resultados do mais recente estudo da rede EU Kids Online, entrevistámos a responsável portuguesa pelo mesmo, Cristina Ponte, investigadora e professora universitária do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.

Entrevista Catarina Pires | Fotografia Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Como é a relação das crianças e adolescentes com a internet, nas palavras dos próprios? Responder a esta pergunta (e a muitas outras que cabem nesta) é o objetivo da Rede EU Kids Online que, para isso, e para perceber a evolução, faz estudos periodicamente, desde 2010, em diversos países da União Europeia. Portugal participou em 2010, 2014 e 2018. Os resultados nacionais do último já estão disponíveis, os europeus (o estudo está a ser realizado em 19 países) serão divulgados no final do ano.

No próximo dia 28 de fevereiro, na Conferência “Crianças e Jovens Portugueses no Contexto Digital”, será apresentado o mais recente estudo nacional da rede EU Kids Online, que teve a sua primeira edição em 2010. Quais são as grandes diferenças?
Em 2010, o panorama era marcado pelos computadores, os smartphones eram raros. O objetivo do estudo europeu – em 25 países, entre eles Portugal – era perceber riscos do uso da internet pelas crianças – pornografia, sexting, bullying e encontros com estranhos que conheceram online –, qual era a sua dimensão e como é que elas os reportavam.

Esse estudo levou a conclusões importantes, por exemplo, que os riscos nem sempre levam a situações que as crianças consideram danosas. Conhecer pessoas novas na internet era visto como uma oportunidade e não como um risco. O ciberbullying era o que mais incomodava e a pornografia era reportada pelos mais novos como perturbadora.

O estudo teve um grande impacto e inclusive influenciou políticas europeias no sentido de não olhar só para os riscos, mas também para as oportunidades, porque as duas coisas são indissociáveis – quanto mais se usa, mais riscos se corre, mas também mais oportunidades são criadas.

E em 2018, que mudanças verificaram?
A primeira grande mudança é a maneira como se acede à internet, que passou a fazer-se de forma esmagadora através do smartphone, o que permite um uso frequente, todos os dias, a toda a hora. 87% das crianças e jovens deste estudo usam-no todos os dias ou quase para aceder à internet, ou seja o acesso passou a ser muito mais instantâneo.

É como se o smartphone fosse uma extensão do próprio corpo.
Sim. E estão constantemente a receber informação, o que torna mais difícil a vigilância ou o acompanhamento dos pais. O tablet, que também é um meio novo, tem importância entre os mais novos, mas rapidamente a perde na pré-adolescência e na adolescência.

Portanto, o smartphone tornou-se hegemónico e isto reflete-se nas atividades online, verificando-se uma intensificação de tudo relativamente a 2010.

Dizem passar cerca de três (os mais novos) a quatro horas (os mais velhos) online por dia e, nesse tempo, ouvem música, veem vídeos (cerca de 80%) e comunicam com amigos e familiares e estão nas redes sociais (cerca de 75 %).

Procurar notícias, que ficou em oitavo lugar entre as atividades realizadas online, subiu muito relativamente aos estudos anteriores e isso deve-se claramente ao acesso mais simples (através de smartphone e das aplicações, é muito mais fácil e intuitivo).

Também as próprias crianças e adolescentes vivem hoje em lares com muito mais tecnologia. E os pais também estão sempre agarrados ao telemóvel, nas redes sociais, etc… Em 2010 e em 2014, não havia esta dimensão tão intensa do digital.

O uso mais intenso leva a que crianças e adolescentes estejam mais preparados para gerir a utilização que fazem da internet e das redes sociais, vão ganhando literacia digital, ou pelo contrário estão mais expostos aos riscos?
Eles acham que sabem (os resultados deste estudo baseiam-se num inquérito a crianças e adolescentes, dos 9 aos 17 anos, portanto trata-se da opinião deles).

O interessante será que todos – os próprios jovens, os pais, os professores… – olhem para estes números e tentem perceber até que ponto espelham a realidade.

Por exemplo, eles dizem que é muito fácil escolher as palavras chave para fazer pesquisas na internet mas não estarão a ser muito otimistas? Assim como quando dizem – pouco mais de metade – que é fácil verificar se a informação que encontram online é verdadeira.

São, portanto, dados para ler com cautela?
São sobretudo um ponto de partida para refletir e eventualmente mudar as práticas familiares neste campo. Uma das coisas de que as crianças e os jovens se queixam – e a grande maioria afirma que os ambientes familiares são bons – é de que são pouco ouvidos pela família.

Se calhar, este pode ser um ponto de partida para uma conversa sobre a internet em que a família discuta estas questões. As competências informacionais (saber distinguir credibilidade da informação, dentro e fora da internet) são as que colocam mais abaixo e são tão importantes para lidarem com a avalanche de informação. Os pais (e a escola também) podem ajudá-los nisto.

Em relação a 2014, a exposição a conteúdos desadequados cresceu exponencialmente: sites com mensagens sobre formas de automutilação (de 6% para 45%); com conteúdos discriminatórios (de 8% para 43%); com informação sobre formas de cometer suicídio (de 3% para 29%), entre outros. Isto é sintoma de quê? Comparando com os outros resultados do estudo, diria que são dados preocupantes em que sentido?
Esses valores elevados ilustram a diversidade de conteúdos negativos que circulam na internet, muitos deles estão ligados ao extremismo e discurso de ódio que têm vindo a crescer tirando partido das redes e das conexões digitais, onde tudo está ligado.

Não quer dizer que todos os jovens os procuram deliberadamente, por exemplo muitos referem que imagens reais de grande violência contra os mais fracos (crianças, pessoas com deficiência, animais) ou conteúdos que discriminam pessoas pela cor da pele ou orientação sexual os incomodam muito.

Os valores elevados destes conteúdos negativos são um alerta para que estes temas sejam também mais conversados e que os jovens sejam mais ouvidos sobre a sua experiência digital, e como conseguem construir a sua resiliência a esses conteúdos negativos e mesmo gerar outros discursos.

A campanha recente do Conselho da Europa contra o Discurso de Ódio, que também decorreu em Portugal, assentava precisamente no protagonismo dos jovens como agentes de intervenção.

São as tais competências sociais, informacionais e criativas assentes em direitos humanos que temos também de trabalhar cada vez mais, em casa, na escola, nos espaços informais, com eles e escutando-os também mais.

Vários estudos nos últimos tempos têm alertado para o risco de este uso intensivo da internet e da comunicação virtual ou mediada levar a uma diminuição da capacidade de desenvolver empatia.
Essa é outra questão importante e tem que ver com as competências sociais que devem ser trabalhadas em relação ao digital. Neste estudo, notámos que eles gostam mais do contacto face a face e dizem que as suas relações com os amigos são mais face a face do que virtuais – o que contraria a ideia de uma maioria de contactos mediados.

Eles gostam de estar face a face, muitas vezes não têm é oportunidade para o fazer, a escola é onde estão mais. Temos feito outros estudos de natureza mais qualitativa e, em relação às questões do comportamento, nas tais competências sociais para o digital que devem ser trabalhadas, a empatia é fundamental, o ser capaz de se colocar no lugar do outro.

Para lidar com a agressão, como o ciberbullying há programas que recorrem a atividades de role play, um faz de vítima, outro faz de agressor, outro faz de testemunha, para perceber com se sente quando está nessa posição, mesmo que na vida real nunca tenha passado por isso. Uma das conclusões que identificámos logo em 2010 foi que muitos dos que são vítimas de ciberbullying também são (ou tornam-se) agressores. É preciso trabalhar muitas competências – informacionais, sociais, criativas e para isso temos que desconstruir o mito dos nativos digitais.

Desconstruir o mito dos nativos digitais? Não o são?
Não, não são nem nativos digitais nem são ignorantes digitais, nem nascem ensinados e sabem tudo da internet e das novas tecnologias nem são uns coitadinhos desprotegidos num ambiente que só tem riscos.

Eles têm o direito a viver com os recursos do seu tempo e nós, pais, educadores, sociedade, temos o dever de trabalhar com eles competências que desenvolvam literacias digitais: não só a tecnológica, que essa até dominam com facilidade, mas as competências sociais, emocionais, a capacidade de perceber o ponto de vista do outro e como reagirá, a capacidade de criar, mas também conseguir lidar com as críticas, positivas ou negativas, e com a frustração que vem daí, porque isso faz parte da vida, o ter a noção de até onde se quer expor, porque não somos obrigados a expor toda a nossa vida online.

Ou seja, há um conjunto de competências sociais muito importantes para tirar partido dos recursos do digital, que são imensos. Muitas crianças gostariam que os pais acompanhassem mais o que elas fazem.

O sharenting [partilha, pelos pais, de fotos ou informações sobre os filhos nas redes sociais] é um risco sobre o qual questionaram pela primeira vez crianças e adolescentes e eles revelaram-se incomodados, não foi?
Quisemos perceber como é que uma prática cada vez mais corrente – a de os pais exporem nas redes sociais a vida familiar sem autorização das crianças e dos adolescentes – vai contra o direito que estes têm à sua privacidade e a serem ouvidos nessa opção.

Metade daqueles cujos pais publicaram coisas sobre eles (comentários, fotografias, vídeos) sem o seu consentimento ficaram aborrecidos com isso e pediram aos pais para eles tirarem esses conteúdos. Alguns chegaram a receber comentários negativos ou ofensivos de colegas por causa de coisas publicadas pelos pais sobre eles.

Mais uma questão para pôr os pais a pensar?
Sim. Os pais devem pensar que isto fica para sempre e que não é só o ciclo de amigos que vai ver. Pensar antes de publicar. E depois envolver a criança ou adolescente para saber se se importa ou não. É uma questão de direitos.

Essa é uma questão que queremos relevar: o direito a viver este espaço digital com a garantia da proteção, do acesso e da participação. Eles têm direito a participar e a definir como é que os outros lhes fazem referência.

É uma questão de direitos das crianças?
Sim, esta questão dos direitos digitais das crianças tem vindo a ser destacada pela UNICEF. Na continuação do nosso trabalho na rede EU Kids Online, a UNICEF criou e apoia a rede Global Kids Online e que assenta nesta perspetiva dos direitos digitais das crianças: o direito a ter proteção – existirem ambientes adequados, que tenham botões onde possam reportar abuso, por exemplo –, o direito a conteúdos adequados à sua idade e o direito a participar, a ter voz. Estes são os Direitos da Convenção: proteção, provisão, participação. Como se garantem estes direitos? Com o empenho da indústria, dos responsáveis por políticas de inclusão, para que as crianças também possam ter mais literacia digital.

Mas para isso seria preciso que os adultos, pais e professores, também tivessem literacia (muitas vezes não têm)?
Sim. Por isso é que estamos a fazer o lançamento deste estudo. Gostaríamos que servisse para pôr as pessoas a pensar. As crianças dão-nos este retrato. Por exemplo, as questões do tempo: as crianças passam demasiado tempo nos ecrãs, e os pais? As crianças sentem-se aborrecidas quando não estão ligadas. E os pais? Ou seja, desconstruir essa ideia de que as crianças vivem num mundo que não tem nada que ver com o mundo dos adultos. Hoje, nos países desenvolvidos não há ninguém que não tenha um telemóvel e não esteja sempre a olhar para ele. Se calhar, é tempo de refletir sobre como estamos a educar os nossos filhos.

As raparigas passam mais à ação do que os rapazes quando se sentem incomodadas. Isto deve-se a uma maior maturidade ou a uma vigilância por parte dos pais que é maior em relação a elas do que a eles?
Há diferenças de géneros curiosas. Elas dão sempre respostas mais baixas do que eles no reconhecimento das suas competências. Eles são mais confiantes. Mas depois, quando vamos ver o que fazem em situação de risco, elas agem mais do que eles, reportando o problema ou bloqueando a pessoa.

Pode ser porque estão mais expostas a situações de incómodo, mas também é verdade que, de acordo com o estudo, elas falam mais com os pais e os pais preocupam-se mais com a mediação das filhas do que dos filhos. Será que a maneira como acompanho a atividade do meu filho rapaz é diferente, deixo-o mais à vontade? É uma pergunta que os pais podem fazer-se.

Uma das maiores preocupações dos pais é a exposição a conteúdos sexuais. Aumentou a exposição e aumentaram, sobretudo rapazes, os que dizem não se importar ou até gostar. Quais são os maiores riscos?
Neste estudo introduzimos uma nova pergunta: o que sentiram nas situações consideradas de risco? O bullying é a situação que mais incomoda.

Mas quando vamos para as imagens sexuais, que é uma coisa que os adultos em Portugal têm muita dificuldade em aceitar que os filhos vejam, o que encontramos é um número muito alto dos que ficaram contentes, sobretudo entre os rapazes adolescentes.

Faz parte da exploração da sexualidade e muitas vezes não têm outro espaço para a ter. Isto desconstrói a ideia de que os jovens ficam muito incomodados ao ver imagens de sexo. Contudo, os pequeninos dizem ficar incomodados e é preciso os tais mecanismos de proteção.

E os encontros com pessoas que só conheciam online – também cresceram. Isto apesar das campanhas feitas, dos avisos dos pais, das aulas de cidadania…
As campanhas têm também de ouvir os jovens para terem como base a sua experiência. O que vemos é que esses encontros cara a cara com pessoas que conheceram na internet são na esmagadora maioria com «amigos de amigos», com pessoas com quem partilham interesses e daí quase oitenta por cento nos dizer que ficaram contentes com esses encontros. Como os pais também faziam na sua adolescência, com a criação de novos amigos.

Não quer dizer que não se deva falar dos perigos de falsas identidades, mas em vez do «não vás» certificar que o jovem está capacitado para lidar com a situação e que sabe que tem a confiança dos pais, não precisando de lhes mentir. Um ambiente de mais comunicação familiar é também o que este estudo aponta como desejo dos mais novos.

 

 

Pais podem sofrer de privação do sono até seis anos após nascimento do primeiro filho

Março 12, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 26 de fevereiro de 2019.

Efeitos são piores nas mulheres. Mesmo quando os filhos crescem, há novos fatores de stress e preocupação

Primeiro, há as preocupações básicas. O bebé acaba de nascer, acorda muitas vezes de noite, precisa de ser alimentado e de atenção redobrada. Depois vai crescendo, mas surgem novos motivos de stress: os pesadelos, o medo do escuro, as noites mal dormidas. Um conjunto de fatores que se prolonga ao longo dos anos pode perturbar o sono dos pais até seis anos depois do nascimento do primeiro filho, aponta um novo estudo.

A investigação, da universidade britânica de Warwick e publicada pela revista científica “Sleep”, foi elaborada na Alemanha, com base em entrevistas a 2541 mulheres e 2118 homens. Os participantes no estudo foram questionados anualmente, entre 2015 e 2018, sobre a qualidade e quantidade do seu sono após o nascimento do primeiro, segundo ou terceiro filho. Mas, se era de esperar que os inquiridos indicassem problemas relativos ao sono sobretudo depois de serem pais pela primeira vez, a verdade é que os resultados que indicam uma degradação da qualidade e quantidade de sono a maior prazo surpreenderam os próprios investigadores.

“Não esperávamos este resultado, mas acreditamos que há muitas mudanças nas responsabilidades que se tem [quando se é pai ou mãe]”, diz ao jornal “The Guardian” Sakari Lemola, um dos cinco co-autores do estudo. Ou seja, quando se tem um filho as preocupações não deixam de surgir, mesmo que este seja menos dependente, e é preciso contar com noites mal dormidas bem além dos primeiros meses de vida – seja graças a doenças, pesadelos, noites interrompidas ou simplesmente o stress de se ser pai.

A investigação conclui que, no caso do primeiro filho, estes efeitos negativos poderão durar, sobretudo no caso das mulheres, até depois de quatro a seis anos após o nascimento. Mas a privação de sono também se prolonga depois dos segundos e terceiros filhos, embora por menos tempo.

No caso das mulheres, as mais afetadas por esta privação, a perda de sono é de mais de uma hora por noite nos meses depois do nascimento do primeiro filho, reduzindo-se esse tempo para quarenta minutos quando passa o primeiro ano. Mas podem passar-se anos até que se restabeleça o padrão normal de sono e se recuperem as horas (bem) dormidas.

 

 

Prefere ler em papel ou no ecrã? A ciência responde: há uma “superioridade do papel”

Março 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Adriano Miranda

Notícia do Público de 26 de fevereiro de 2019.

Ler em papel é mais eficaz do que ler em formato digital, sobretudo quando se tem o tempo contado. Estudo em que foram analisadas as respostas de mais de 170 mil pessoas alerta que é preciso pensar este problema no contexto de sala de aulas. Nos livros de ficção, a diferença é quase nula.

Claudia Carvalho Silva

Há quem prefira ler em papel, mesmo não sabendo bem porquê. Agora, um estudo da Universidade de Valência, em Espanha, pode ajudar a justificar: os investigadores chegaram à conclusão de que existe uma “superioridade do papel” – quando se lê em papel, a compreensão do que é lido é maior, ao contrário do que acontece quando o mesmo conteúdo informativo é lido em ecrãs. E, para surpresa dos cientistas, isto é sobretudo flagrante em crianças, o que exige uma reflexão política sobre os métodos de ensino que devem ser utilizados nas salas de aulas.

O resultado nestas camadas jovens surpreendeu os cientistas: “Não é por as crianças e jovens estarem mais habituadas aos ecrãs que a compreensão é maior — é precisamente o contrário”, alerta o investigador Ladislao Salmerón, um dos autores do estudo. Ao PÚBLICO, ​Salmerón explica que uma das hipóteses para justificar que a compreensão digital seja menor em crianças é a “associação destes dispositivos a interacções curtas e recompensas imediatas”. Isto, por sua vez, torna difícil que os jovens se consigam concentrar na leitura, por não se “desligarem” daquilo que esperam quando estão diante de um ecrã. “Precisamos de estar calmos, concentrados. É altamente incompatível com o uso actual que fazemos da tecnologia”, diz.

Para chegar a estes resultados, foram analisadas as respostas de mais de 171 mil participantes, “uma amostra generalizada e com uma grande variedade de idades, das crianças aos idosos”. Cada participante leu individualmente, em silêncio, na língua que usa no dia-a-dia. Na análise foram só usados estudos que tinham por base textos simples e lineares, tanto no papel como na parte digital (evitando links ou animações que privilegiariam este formato).

Como a amostra não incluiu estudos em Portugal – “pode haver, mas restringimos a nossa pesquisa a estudos publicados em inglês” –, o investigador ressalva que os resultados podem variar no caso português. Para Espanha, foi somente analisado um estudo feito com alunos em que se analisava a compreensão textual em artigos lidos em papel ou em tablets – os investigadores aperceberam-se de que havia um “ligeiro efeito negativo associado ao uso de tablets”.

O grande número de participantes foi conseguido porque este estudo, intitulado “Não se livrem dos livros impressos”, é uma meta-análise (ou seja, combina os dados e conclusões de outros 54 estudos, feitos entre 2000 e 2017). “É mais poderoso do que um só estudo”, esclarece o investigador espanhol, reconhecendo que só não é vantajoso por estarem restringidos por aquilo que os outros investigadores fizeram. Além de Salmerón, o estudo foi levado a cabo por três outros cientistas da Universidade de Valência e uma investigadora do Technion — Instituto de Tecnologia de Israel.

Como se lê no estudo, as pessoas adoptam um “estilo de processamento mais superficial” quando estão a ler num formato digital, podendo também estar envolvida uma falha na qualidade e na capacidade de atenção. Seguindo esta hipótese, “quanto mais as pessoas utilizarem os meios digitais para estas interacções superficiais, mais difícil será usá-los para tarefas desafiantes”, daí que os cientistas recomendem cautela com a utilização de dispositivos electrónicos para leitura na sala de aulas.

Outro dos factores a ter em conta para uma compreensão eficaz é o tempo disponível para a leitura – o que é um “condicionamento clássico”, em salas de aulas. Quanto menos tempo for dado, mais eficaz é a leitura em papel. O investigador espanhol esclarece que isto está relacionado com “a forma como o nosso cérebro gere recursos no processo de leitura”: “Podemos pensar nisto como se fosse uma corrida. Se tivermos de correr 100 metros sem que o tempo conte, podemos ir ao ritmo que quisermos e consegue-se fazê-lo; se só tivermos um minuto, é diferente.” E acautela: “É por isso verdadeiramente importante que os estudantes estejam a gerir recursos de forma eficaz. É por isso que nestas situações se torna crítico que o dispositivo não nos perturbe, ou que nos faça pensar que estamos a ler e a interpretar quando na verdade não estamos.”

O investigador admite que também ele prefere ler em papel, mas por questões profissionais acaba por ler muitos textos no ecrã. “De outra forma, não conseguiria conciliar todos os pequenos relatórios e textos que tenho para ler”, diz.

Quando se trata de textos narrativos (romances, poesia), pouco importa se se lê em papel ou em suporte digital, porque a linguagem é menos técnica e mais próxima daquela que é utilizada no dia-a-dia, com mais diálogos, explica Ladisla​ ​Salmerón. “Trata-se mais de quão desafiante é o texto, e as narrativas tendem a ser menos. Os textos informativos são mais desafiantes para a nossa estrutura mental, precisamos de analisar vocabulário mais complexo, mais técnico”, adianta. No estudo, os cientistas alertam que há terrenos incertos e que ainda é precisa mais investigação para aprimorar técnicas.

A equipa também considerou importante investigar a diferença que existe entre a leitura digital feita em computadores e aquela que é feita em telemóveis, em e-readers (leitores de texto, como o Kindle) ou em tablets. “Na maior parte dos estudos, o digital refere-se a ecrãs de computador. Os tablets e ebooks são muito mais recentes, talvez daqui a cinco anos tenhamos algo diferente”, diz. Os investigadores reiteram que há poucos estudos e meta-análises sobre a influência da natureza do meio nos resultados de leitura.

E soluções?

Voltando à forma como a leitura em formatos digitais afecta a interpretação, sobretudo nos mais novos, Ladisla​ ​Salmerón diz que não é preciso vilipendiar a tecnologia, mas encontrar soluções. “Não quero acreditar nem defender que é a tecnologia em si a causadora disto – mas é o uso que fazemos dela. As redes sociais, as conversas superficiais, as recompensas imediatas… não está a fazer nada de bom”, lamenta.

O estudo, publicado em Novembro de 2018 e feito no âmbito de um projecto europeu, mostra “de forma inequívoca que há uma inferioridade dos ecrãs, com resultados de menor eficácia de compreensão de leitura nos textos digitais quando comparados com os textos em papel”. Essa desvantagem é ainda maior em textos em que é preciso fazer scroll.

A leitura digital acaba por ser uma parte inevitável nas escolas. “O facto de não podermos impedir a tecnologia de chegar às escolas não significa que não possamos ser mais selectivos”, observa Ladislao Salmerón. “Isto é real. Não é um problema científico, é um verdadeiro problema que as crianças estão a enfrentar. Precisamos de mais intervenção do lado pedagógico, é preciso perguntar ‘o que podemos fazer para melhorar a interpretação textual através da tecnologia?’

 

 

Como usam a Internet as crianças e jovens portugueses?

Março 8, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Eles e elas, entre os 9 e os 17 anos, navegam mais na Internet do que há quatro ou oito anos. A mudança deve-se ao uso de smartphones. Que uso fazem e que riscos correm foram algumas das perguntas do inquérito EU Kids Online, levado a cabo junto de cerca de 2000 alunos por uma equipa da Universidade Nova de Lisboa.

Bárbara Wong, Célia Rodrigues e José Alves 

Visualizar a infografia de 23 de fevereiro do Público no link:

https://www.publico.pt/2019/02/23/infografia/usam-internet-criancas-jovens-portuguesas-303?fbclid=IwAR2FcnoxJ7GASs_vvhRyK37YBmo9YBkaBEt-LrEZq_VceEMbo_JbB0IaGuE#gs.cMLqW8AJ

 

 

Entre as mulheres que foram mães, 5% arrependeram-se

Março 1, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 13 de fevereiro de 2019.

Natália Faria

Estudo mostra ainda que 13% das mulheres não se sentem felizes no seu papel de mães. Crianças difíceis de educar, muitas vezes em contextos de monoparentalidade, podem ajudar a explicar este grau de insatisfação.

Já se sabia que nem todas as mulheres acalentam a vontade de ser mães. O que não se sabia é que, entre as que o foram, a percentagem de arrependidas chega aos 5%. E, no grupo das mulheres que se declaram “esgotadas” e “frustradas”, que representam cerca de 10% das 2428 mulheres inquiridas no estudo As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem, a percentagem das que se arrependeram de terem tido filhos é ainda superior: 9%.

Às “mães arrependidas”, que declararam que não teriam tido os seus filhos se soubessem o que as esperava, somam-se aquelas que os autores do estudo classificam como mães “não realizadas”. São 13% as que afirmam que a maternidade não foi o que esperavam, não obstante garantirem que, apesar de não se sentirem felizes como mães, teriam voltado a ter os filhos.

A insatisfação de “arrependidas” e “não realizadas”, que alastra a 18% das mulheres com filhos, tem hipóteses explicativas apontadas no estudo: além de se sentirem pouco orientadas para a maternidade, enfrentaram sozinhas ou sem grande apoio o processo de educação e os cuidados aos filhos, quer por estes terem nascido de uma relação que entretanto fracassou quer por terem sido forçadas a criá-los no seio de uma família monoparental.

“Uma coisa é a idealização que as mulheres fazem da maternidade e outra são as condições que as mães têm à sua disposição, em termos monetários, dos equipamentos socioeducativos na sua zona de residência, a disponibilidade afectiva. Há variáveis que importaria perceber melhor”, destrinça Sara Falcão Casaca, investigadora do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade de Lisboa, para quem “a percentagem expressiva de mulheres que considera que não foi fácil educar os filhos” pode dever-se “à percepção de que lhes faltaram condições objectivas para o investimento que gostariam de ter feito nos filhos e não propriamente a qualquer noção de arrependimento em relação às crianças”.

Efectivamente, 38% das mães assumiram que educar os filhos esteve longe de ser uma tarefa fácil, contra as 62% para quem a educação dos filhos decorreu tal como imaginavam ou que até foi mais fácil do que o previsto.

De resto, o facto de a maioria das mães se declarar feliz nesse papel, não retira validade à afirmação segundo a qual a maternidade não é garantia de felicidade. Isto porque, sublinham os autores do estudo, “a felicidade que essas mulheres experimentam com a maternidade está muito pouco relacionada com o grau de felicidade que sentem nos restantes aspectos da vida”.

Da amostra, resulta que 27% das mulheres entre os 18 e os 64 anos de idade não têm filhos mas têm intenção de ser mães (a percentagem sobe para os 34%, no subgrupo das mulheres em idade fértil). E até são optimistas em relação ao número de filhos que virão a ter: 83% querem ter mais do que um, acima das 52% das mulheres efectivamente somaram mais filhos ao primeiro.

Na categoria das mulheres que não são mães, somam-se às 27% que pretendem vir a sê-lo, 10% que gostariam de ter tido filhos mas já não os terão, por já não terem idade para isso, e as 9% de mulheres que nunca quiseram ter filhos. Resulta daqui que 46% das mulheres estudadas não são mães, contra as 53% que o são e as 1% que estavam grávidas na altura do inquérito.

Entre as que ainda pretendem vir a ser mães, 17% dizem-se dispostas a tê-los mesmo sem terem um parceiro estável, quando considerarem que “chegou a altura certa”.

Em casal, são mais 24 minutos de trabalho

A partilha das tarefas de cuidados aos filhos nos casais em que ambos trabalham revela desequilíbrios. São as mães que levam os filhos ao médico, vão às reuniões da escola, levantam-se de noite e que os transportam, alimentam e estudam com eles em 69% dos casos, enquanto os pais se ficam pelos 26%. Os restantes 6% destas tarefas são assegurados por familiares ou por ajuda remunerada.

Por outro lado, “com a chegada de filhos ou filhas, a colaboração do pai nas tarefas domésticas reduz-se, quer a mulher tenha trabalho pago quer não tenha. “A colaboração do companheiro no cuidado com as crianças costuma ficar a anos-luz do que a mulher tinha inicialmente imaginado”, notam os autores do estudo.

Tudo somado, com a chegada das crianças “as mulheres passam a necessitar de destinar às tarefas familiares (domésticas, compras para a casa e cuidados aos filhos) quase duas horas a mais por dia, em média. Já os homens aumentam o seu tempo de dedicação, sim, mas em apenas 42 minutos. “As mães tendem a absorver 78% das novas tarefas familiares que resultam do nascimento da criança enquanto os pais se limitam a assumir 22%”, precisa o estudo, para concluir: “Não é de espantar que a avaliação que muitas mulheres fazem do companheiro depois da chegada do primeiro filho ou da primeira filha seja inferior à que faziam antes de a criança nascer”.

De resto, o documento precisa que as mulheres que têm de conciliar vida de casal, filhos e trabalho pago trabalham 13 horas e 24 minutos por dia, enquanto as mulheres que, tendo também filhos e trabalho pago, não vivem em casal trabalham apenas 13 horas. “As mulheres que têm trabalho pago e filhos ou filhas ficam ainda mais sobrecarregadas se tiverem um parceiro do que se viverem sozinhas”, afirmam taxativamente. São 24 minutos de uma diferença que reforça aquilo que, segundo Sara Falcão Casaca, vinha sendo apontado em diversos estudos: “Os homens ganham tempo para si com o casamento e as mulheres perdem-no”.

Descarregar o estudo mencionado na notícia  As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem

Metade dos miúdos ignora a regra de não falar com estranhos

Fevereiro 27, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 23 de fevereiro de 2019.

Estudo EU Kids Online analisa hábitos de crianças e jovens, dos 9 aos 17 anos, na Internet e nas redes sociais. 44% dizem que acabam por se encontrar com as pessoas que conhecem na Internet. Mas o risco pode ser uma oportunidade, defende uma das autoras do estudo que integra um projecto europeu.

Bárbara Wong

A recomendação é conhecida e passada de geração em geração: não falar com estranhos. Contudo, mais de metade das crianças e jovens entre os nove e os 17 anos ignora-a e fala na Internet com pessoas que não conhece. Mais: 44% chegam mesmo a encontrar-se com essas pessoas que encontram online. São dados da nova edição do estudo EU Kids Online, que será apresentado na próxima quinta-feira, em Lisboa.

Outras conclusões? 37% das crianças e jovens portugueses entre os nove e os 17 anos contaram que viram, no último ano, imagens de cariz sexual em dispositivos com acesso à Internet (sobretudo) ou noutro local. Esta experiência é mais frequente entre rapazes (44%) do que entre raparigas (29%). Olhando para os diferentes grupos etários, encontram-se diferenças importantes: 59% dos jovens dos 15 aos 17 anos, por exemplo, disseram aceder a estes conteúdos. Entre os nove e os 11 anos foram 11%.

O estudo fala ainda de sexting, isto é, enviar “mensagens ou imagens” de cariz sexual, conversar “sobre ter relações ou sobre imagens de pessoas nuas a terem relações”. Em 2018, um em cada quatro entrevistados recebeu mensagens sexuais explícitas. É uma subida muito significativa face a estudos anteriores.

O EU Kids Online parte de um inquérito feito a 1974 crianças e jovens portuguesas — metade rapazes e metade raparigas, sendo que a faixa dos 13 aos 17 representa 62% dos inquiridos. O estudo integra um projecto europeu que abrange três dezenas de países que fazem análises semelhantes. Por cá, é levado a cabo pelas investigadoras Cristina Ponte e Susana Batista, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa.

Esta é a terceira vez que o inquérito é feito. Aconteceu em 2010 e em 2014, o que permite fazer comparações. Ao PÚBLICO, Cristina Ponte sublinha a rápida evolução que se verificou, graças ao desenvolvimento dos dispositivos. “Esta geração que respondeu ao inquérito apanhou, primeiro, com o boom da Internet nas escolas — com o programa Magalhães e o e-escolas, por exemplo. Depois, com o desinvestimento tecnológico. E por fim com a chegada dos smartphones. Hoje, toda a família tem. Possivelmente os avós têm tablets e falam com eles por Skype. Toda a sociedade está a mudar e verificam-se mudanças de comportamento”, sublinha a investigadora.

Segurança dos filhos

No que diz respeito ao uso da Internet e das redes sociais, uma das maiores preocupações dos pais é que, através destas, os filhos conheçam pessoas novas e tenham encontros com elas. Temem pela segurança dos filhos, uma questão que não parece preocupar os mais novos, já que mais de metade das crianças e dos jovens contacta pela Internet pessoas que não conhece pessoalmente. O número cresceu velozmente dos 4% em 2010 para os 55% em 2018, entre os rapazes; e de 5% para 50% no caso das raparigas.

Menos de metade (44%) chega a conhecer essas pessoas pessoalmente — mas, comparando com 2014, são muitos mais os que se aventuram. Por exemplo, entre os mais novos, da faixa dos 9/10 anos, há cinco anos apenas 1% arriscavam. No ano passado, três em cada dez fizeram-no.
Estes encontros não são necessariamente uma experiência negativa. Até porque, segundo as investigadoras, há vários estudos feitos com adolescentes que referem que na maioria dos casos os encontros são com jovens da mesma idade.

Oito em cada dez (79%) dizem ficar “contentes” com esses encontros, ao passo que apenas 2% relataram já ter ficado de “algum modo perturbados”. Contudo, há diferenças por idades: a perturbação é expressa por 22% das crianças de nove e dez anos que responderam à questão. Em geral, as raparigas (83%) ficam mais satisfeitas com esses encontros do que os rapazes (74%). Aliás, 24% dos rapazes não fica “nem contente” “nem aborrecido”.

Cristina Ponte defende que a Internet e os meios móveis são parte integrante da vida das crianças e jovens e que, ao contrário do que a maioria dos adultos pensa, os riscos são oportunidades. “Em todas as línguas há um provérbio semelhante ao nosso que diz ‘quem não arrisca, não petisca’. Existe uma cultura avessa ao risco e este pode levar-nos a oportunidades, pois proporciona experiências e faz-nos confrontar quando algo não corre bem, fazendo-nos ganhar resiliência. O desafio para os pais e educadores é de trabalhar as competências sociais e os direitos humanos porque nada disto [a Internet] existe num mundo à parte”, justifica.

Menos portáteis

A grande mudança verificada, desde o primeiro inquérito, foi nos dispositivos usados para aceder à Internet. Se antes a maioria dos jovens portugueses respondiam que tinham portáteis pessoais — aliás, lideravam entre os 25 países europeus inquiridos em 2010, em que apenas 26% acediam através de telemóvel —, em 2018 têm smartphones (87% usam-nos todos os dias para aceder à Internet) e o acesso por computador caiu para 41%.

Só esta mudança — do computador para o telefone — permite fazer mais actividades e durante mais tempo (três horas diárias, em média), como ouvir música (80%), ver vídeos (78%), estar nas redes sociais (73%), fazer trabalhos para a escola (27%) ou ler e procurar notícias online (27%). Estes números quase que duplicaram comparativamente a 2014: nessa altura, 52% ouviam música, 50% viam vídeos e andava nas redes sociais, 21% usavam estes dispositivos para trabalhos para a escola e apenas 10% liam notícias.

Elas começam mais cedo a usar a Internet do que eles. Elas utilizam as redes sociais e comunicam com os amigos e familiares; já eles usam-nas para entrar em grupos com interesses e hobbies comuns e para ler notícias. Cristina Ponte sublinha a importância da leitura de notícias, mas alerta para a possibilidade de os jovens fazerem leituras que “acentuem extremismos ou radicalização ideológica”. Por isso apela para as “responsabilidades que a indústria tem em criar condições de segurança”, assim como para a necessidade de “fortalecer a educação para os direitos humanos”, tanto nas escolas, como nas famílias (e na sociedade em geral).

Bullying e pedidos de ajuda

Quando se pergunta aos inquiridos se tiveram situações que os incomodaram na Internet no último ano, 23% reportam que sim — os mais novos e os mais velhos são os que mais se queixam, assim como mais as raparigas do que os rapazes. De resto, as queixas subiram significativamente em relação aos anos anteriores — por exemplo, entre os mais novos (nove/dez anos), cresceu de 3% em 2014 para 25% em 2018.

Quando algo acontece, prevê-se que peçam ajuda e assim é: 42% recorrem aos amigos e 33% aos pais, apenas 5% falam com os professores. Elas pedem mais ajuda do que eles. Também são elas que, embora não tenham tantas competências tecnológicas, tomam atitudes como bloquear a pessoa, impedindo-a de voltar a contactar. São também elas que apagam mais as mensagens que as incomodam ou mudam as suas definições de privacidade. “Os pais mostram-se mais preocupados com a segurança das raparigas [na Internet], mas até que ponto isso é preciso?”, questiona Cristina Ponte, perante estes dados.

O que também cresceu foi o número de crianças e jovens que diz que sofre de bullying (online e offline) — um em cada quatro queixa-se, quando nos inquéritos anteriores, a média era inferior a 10%. Ou seja, o valor mais do que duplicou. As raparigas (26%) reportam mais esta situação, mas ser alvo de bullying aumentou mais nos rapazes.

Para três em cada dez inquiridos, o bullying ocorre com “bastante ou muita frequência”. Aliás, o online prevalece, ou seja, o ciberbullying.

Além das vítimas, também há agressores entre os inquiridos, os bullies, cerca de 17%, mais eles do que elas. Cristina Ponte defende que, na escola, é preciso trabalhar as emoções em situações de role play, ou seja, em que os miúdos se ponham no lugar do outro. “Eles sabem o que mais magoa por experiência própria. Há uma humilhação pública quando há imagens ou mentiras a circular na Internet”, explica.

E onde ficam os pais? Dão conselhos sobre como usar a Internet em segurança (45%), mas apenas um terço fala com os filhos sobre o que fazem na Internet. Há miúdos que se queixam de ter pouca atenção em casa (32%) e quatro em cada dez declaram que já ignoraram “algumas ou muitas vezes as regras dos pais”. Os que mais respeitam os progenitores são os mais pequenos.

 

 

 

Tempo que as crianças passam em frente ao ecrã está relacionado com desenvolvimento mais fraco anos depois

Fevereiro 27, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Sol de 28 de janeiro de 2019.

O estudo, publicado na revista JAMA Pediatrics esta segunda-feira, encontrou uma associação direta entre o tempo que as crianças despendem em frente ao ecrã aos 2 e 3 anos e o desenvolvimento aos 4 e 5 anos.

De acordo com um novo estudo, o tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs está diretamente ligado com um desenvolvimento mais fraco. Isto é, quanto mais tempo as crianças passam a olhar para os ecrãs pior será o seu desempenho em testes de triagem de desenvolvimento durante a infância.

O estudo, publicado na revista JAMA Pediatrics esta segunda-feira, encontrou uma associação direta entre o tempo que as crianças despendem em frente ao ecrã aos 2 e 3 anos e o desenvolvimento aos 4 e 5 anos.

Em causa está o desenvolvimento na comunicação, habilidades motoras, resolução de problemas e socialização. Os investigadores basearam esta análise na ferramenta de triagem chamada ‘Ages and Stages Questionnaire’, onde os sinais de desenvolvimento são avaliados em comportamentos como, por exemplo, ser capaz de empilhar blocos ou colocar um brinquedo em cima de outro.

Desta forma, a Academia Americana de Pediatra recomenda que as crianças entre os 2 e os 5 anos passem em frente ao ecrã apenas uma hora por dia.

“Este estudo mostra que, quando usado em excesso, o tempo em frente aos ecrãs pode ter consequências para o desenvolvimento das crianças. Os pais podem pensar em ecrãs como dar comida aos seus filhos: em pequenas doses, tudo bem, mas em excesso, tem consequências”, disse Sheri Madigan, autora do estudo, professora e investigadora na área do desenvolvimento infantil na Univeridade de Calgary, citada pela CNN.

O estudo analisou dados de 1.441 mães e crianças no Canadá. O recrutamento das mães foi feito quando estas estavam grávidas, entre 2008 e 2010, e os dados foram recolhidos entre 2011 e 2016.

As mães completaram questionários relacionados com o desempenho dos filhos em testes de desenvolvimento aos 24, 36 e 60 meses de idade e relataram quanto tempo os filhos passaram em frente a dispositivos com ecrã durante o dia.

Embora a investigação não tenha analisado de forma numérica a relação entre o tempo despendido em frente ao ecrã e o desenvolvimento, os investigadores encontraram um “associação estável” entre o tempo e a pontuação nos testes de triagem do desenvolvimento infantil que não foram explicados por outros fatores.

“Pelo que sabemos, o presente estudo é o primeiro a fornecer evidências de uma associação direcional entre tempo de ecrã e mau desempenho em testes de triagem de desenvolvimento entre crianças muito jovens”, refere o estudo.

O estudo mencionado na notícia é o seguinte:

Association Between Screen Time and Children’s Performance on a Developmental Screening Test

 

Uma em cada cinco crianças acolhidas em lares foge pelo menos uma vez

Fevereiro 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 25 de fevereiro de 2019.

Investigação, desenvolvida na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, mostra que raparigas têm mais propensão para a fuga.

Ana Cristina Pereira

As crianças e jovens que vivem em casas de acolhimento têm três vezes mais propensão para a fuga do que as crianças e jovens que vivem nas suas casas com as suas famílias. Fogem mais raparigas do que rapazes, mais adolescentes do que crianças, mais consumidores de drogas do que não consumidores.

É de Joana Cerdeira este que é o primeiro estudo conhecido sobre fuga em acolhimento residencial em Portugal. Defendeu a dissertação de mestrado em 2017 na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCDUP) e continua a investigar o tema. No princípio deste ano, esteve no Centro de Estudos Judiciários e falar nisso e nas fragilidades do sistema de protecção.

A tese faz parte de um projecto mais abrangente coordenado por Maria Barbosa Ducharne – o Estudo da Qualidade em Acolhimento Residencial de crianças e jovens órfãos, abandonados ou retirados a famílias, que põem em perigo a sua segurança, a sua saúde ou a sua educação. Neste estudo participaram 354 crianças integradas em 33 casas de acolhimento espalhadas pelo país.

“O sistema foi criado para proteger as crianças e os jovens, mas o acolhimento aumenta três vezes a probabilidade de fuga”, começa por dizer Joana Cerdeira. Naquela amostra, 18,4% já tinham fugido pelo menos uma vez. Num outro estudo, que desenvolveu em todas as casas de acolhimento do distrito do Porto, obteve 18%. E “deve ser um número aproximado a nível nacional”.

Multiplicam-se por dois as possibilidades de fuga quando se é rapariga, uma tendência que já fora revelada em investigações feitas noutros países. “Nenhuma consegue explicar isso inteiramente”, afiança. “Alguns autores avançam com hipóteses culturais. As raparigas interiorizam mais os papéis de género, envolvem-se mais no cuidado com familiares, com irmãos. Rapazes e raparigas dizem muito que fogem para estar com a família. As duas coisas podem estar relacionadas.” Não por acaso, a presença de irmão na mesma casa diminui a hipótese de fuga quatro vezes.

Na adolescência, há mais necessidades de liberdade, de autonomia, de ser aceite pelos colegas. Pode ser maior a incompatibilidade com as regras das casas de acolhimento. Talvez por isso os mais velhos tenham duas vezes mais probabilidade de fugir. “Alguns actores falam nisto como comportamento adaptativo”, explica a psicóloga, que faz parte do Grupo de Investigação e Intervenção em Acolhimento e Adopção da FPCDUP. Alguns fogem para não terem reacções mais severas.

A investigação também mostra que os que consomem substâncias psicoactivas têm mais tendência a fugir. O mesmo acontece com os que cometem pequenos crimes ou sofrem de ansiedade, depressão, hiperactividade ou outros transtornos ou doenças de foro mental.

“Problema sério”

Parece-lhe que “os comportamentos de fuga são um problema muito sério”. Acarreta riscos. Pode, por exemplo, resultar em prostituição, violação, gravidez. Ou furto, roubo, consumo de drogas ilícitas. As casas também são afectadas. “Causam disrupção. Há que comunicar a fuga às autoridades, procurar a criança, tratar de sossegar as outras crianças e jovens, que podem ficar agitadas.

“Isto é um problema muito sério, mas não é um problema levado a sério em Portugal”, acusa a investigadora. “Não existem orientações para prevenir nem para lidar com estes comportamentos.” Há casas que se limitam a comunicar a fuga às autoridades. “A actuação não pode ficar por aí. É importante ajudarem a procurar os miúdos, envolverem a família, os amigos. Muitas vezes, os miúdos fogem porque querem ser procurados, querem ser encontrados.”

Ocorre-lhe o exemplo de uma casa de acolhimento cujo regulamento estipulava que se devia telefonar de imediato à GNR quando uma criança reaparecesse. Se a criança aparecesse acompanhada pela polícia, podia entrar. Se aparecesse sozinha, não podia. Nem lhe abriam a porta. Também conhece casas que obrigam os miúdos a ficar à porta.” Agora vais ter de ficar aí 15 minutos. Se não, vai à esquadra e vem com a polícia porque tenho medo que estejas com pessoas que não conheço.”

Joana Cerdeira evoca Inglaterra, onde há o hábito de chamar um profissional independente para conversar com a criança ou jovem que fugiu e perceber o que motivou tal comportamento e o que aconteceu naquele período. “Independente, porque muitas vezes a fuga tem a ver com o contexto.”

Há mais tendência para fugir quando as casas de acolhimento são segregadas, isto é, acolhem apenas rapazes ou raparigas. Os que fogem tendem a avaliar pior a ligação com os colegas. E a denotar menor sentimento de protecção, disponibilidade e afecto entre os cuidadores, isto é, os funcionários.

“Isto é um fenómeno muito complexo”, sublinha a investigadora. Na sua opinião, seria importante o país recolher, de forma sistemática, dados que lhe permitissem conhecer o fenómeno. A última Caracterização Anual da Situação de Acolhimento de Crianças e Jovens contava 7553 crianças, 116 das quais em fuga, mas esta centena “não ilustra a dimensão do problema”. Não permite perceber quantos já fugiram alguma vez, quantas vezes o fizerem, quanto tempo ou porquê.

Atendendo às consequências, Joana Cerdeira julga importante não só conhecer o fenómeno, mas também definir modos de prevenção e de actuação. “Muitas vezes, para atenuar os comportamentos de fuga, os tribunais transferem de uma casa para outra”, observa a psicóloga. “O que a investigação mostra é que os miúdos com fugas têm menos tempo de acolhimento. Há um período crítico de adaptação à casa de acolhimento. Se vamos estar a transferir, vamos estar a reiniciar esse período.” Em suma, essa estratégia não previne, pelo contrário, aumenta o risco de nova fuga.

 

 

 

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