Notícia do Expresso de 5 de agosto de 2020.
A reabertura de escolas em setembro e o relaxamento das medidas de confinamento podem levar, no fim do ano, a uma segunda vaga de infeções, duas vezes mais violenta do que a primeira, adverte um estudo publicado na revista médica britânica
O afrouxamento das medidas para conter a pandemia de covid-19, entre as quais a reabertura de escolas no próximo ano letivo, pode induzir uma segunda vaga de contágios no Reino Unido que terá um pico em dezembro e se prevê ser duas vezes mais violenta que o surto original, adverte um estudo publicado na revista médica britânica “The Lancet”.
Segundo frisam os autores do trabalho, “é importante conhecer o impacto de mudanças de política, incluindo a reabertura de escolas e o maior relaxamento nas medidas de distância física”, deixando também claro que é fundamental nesta fase recorrer a “medidas de distância física e testes em larga escala”.
Os investigadores utilizaram um modelo designado ‘Covasim’ para calcular a base de transmissão individual do vírus em conformidade com o cenário epidémico no Reino Unido. Para esse cálculo é tida em conta a rede de contactos individuais estratificada para ambientes domésticos, de trabalho ou comunitários, utilizando dados demográficos e epidemiológicos do país, simulando diversos cenários representando a estratégia a adotar na reabertura de escolas em setembro (em função de ser em ‘full time’, com a totalidade das crianças em simultâneo, ou com a presença, alternada, de 50% dos alunos).
“Estimámos o número de novas infeções, casos e mortes, além do número efetivo de reprodução em função das diferentes estratégias (na reabertura de escolas). Numa análise sensível tendo em conta as incertezas da simulação do modelo, também simulámos a taxa de contágio das crianças e jovens adultos com menos de 20 anos sobre 50% dos familiares com idades superiores”, descrevem os autores do estudo.
O que os investigadores concluíram é que, com um nível crescente de testes à covid-19 (entre 59% e 87% dos casos) e um rastreio efetivo acompanhado de medidas de isolamento, o regresso da epidemia pode ser prevenido.
“Assumindo que 68% dos contactos podem ser rastreados, estimamos que 75% dos indivíduos com sintomas da infeção precisem de ser testados e os casos positivos submetidos a isolamento, se as escolas reabrirem a tempo inteiro em setembro, ou 65% se for em part-time e com os alunos em sistema rotativo”, adiantam os investigadores. “Se apenas 40% dos contactos forem rastreados, estes números aumentam para 87% e 75%, respetivamente”.
“No entanto, sem este nível de testes e rastreamento de contactos, a reabertura de escolas, juntamente com o gradual relaxamento das medidas de confinamento, podem induzir a uma segunda vaga, com pico em dezembro de 2020, se as escolas abrirem a ‘full time’ em setembro, e em fevereiro de 2021, se for adotado um sistema rotativo dos alunos”, advertem.
“Em qualquer dos casos, a segunda vaga de infeções iria resultar numa segunda vaga de infeções 2 a 2,3 vezes superior à vaga original de covid-19”, alertam ainda os autores.
A conclusão geral do estudo é que, “para prevenir uma segunda vaga de covid-19, com o relaxar das regras de distância física, incluindo a reabertura de escolas, tem de haver no Reino Unido testes em larga escala à população de indivíduos sintomáticos e um rastreio efetivo dos seus contactos, seguidos de medidas de isolamento de indivíduos diagnosticados como casos positivos”.