Confinamento fez disparar chamadas para o SOS-Criança e desconfinamento pode fazer o mesmo: “Muitas pessoas estão com fobia da normalidade”

Maio 18, 2020 às 5:57 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia com declarações do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Notícia do Expresso de 14 de maio de 2020.

A “angústia principal” das crianças é ver os seus avós morrerem e depois os pais, numa “coisa assim um bocadinho sem fim”, e a dos jovens tem que ver com o confinamento, que os “privou dos namoros e dos amigos e das saídas”, explica em entrevista ao Expresso Manuel Coutinho, coordenador do serviço SOS-Criança e secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança

Helena Bento

As chamadas para a linha SOS-Criança mais do que duplicaram em março a comparar com o ano passado e em abril esse aumento também foi significativo. Foram partilhadas “angústias”, como a “angústia da morte”, o medo de que os avós, “por já serem velhinhos”, morram infetados com o vírus, e depois os pais e depois os amigos. Já no caso dos jovens, os problemas estavam relacionados com o confinamento, que os privou dos “namoros e dos amigos e das saídas”. Foi o confinamento, aliás, que fez disparar o número de chamadas para a linha criada em 1988, mas não seria ajuizado pensar que vão diminuir entretanto, assim sugere ao Expresso Manuel Coutinho, coordenador do serviço.

“Esta linha é considerada pela maioria das pessoas um serviço de primeira necessidade” diz, desde logo, em entrevista ao Expresso, manifestando depois a sua “preocupação” em relação ao desconfinamento. “Há muitas pessoas que durante as últimas semanas desenvolveram algum tipo de fobia, como a nosofobia [medo patológico de contrair uma doença] e têm dificuldades em integrar-se por causa deste receio e deste pânico de contrair o vírus.” Ter os filhos na creche ou na escola “também vai criar ansiedade aos pais” e o mesmo acontecerá “com os netos quando virem os seus avós, de 60, 70 anos, a saírem à rua sem as cautelas que julguem necessárias”. “Acredito que se irá gerar uma situação de ansiedade generalizada que fará com que as pessoas telefonem para a linha a pedir apoio e alguma orientação”, antecipa o também secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança (IAC), a que pertence a linha.

Segundo os dados disponibilizados ao Expresso, a linha SOS-Criança recebeu 291 apelos em abril deste ano, mais 85 que no mesmo mês de 2019 (206). Destes, 217 foram realizados por telefone, 10 por e-mail, um por chat e 63 pelo Whatsapp, plataforma que passou a estar disponível desde março, quando foi reforçado o serviço em resposta à pandemia de covid-19 (aumentou o número de psicólogos, de oito para 11, e foi também alargado o horário de funcionamento).

Por que razão telefonam as pessoas? Nas estatísticas mensais da linha, as chamadas são agrupadas em “problemáticas” e a covid-19 aparece agora nessa lista. Representa 6,5% do número total de apelos (os restantes dizem respeito a “crianças em risco”, ou “saúde”, ou “crime de pornografia de menores” ou serviram para “desabafar” ou obter “informações sobre serviços e instituições”). Manuel Coutinho ajuda a contextualizar, referindo que, desde o início da pandemia, verifica-se de facto “mais tensão dentro das famílias, mais ansiedade e também mais intolerância”. “As pessoas sentem-se confinadas, estão-no aliás, e estão também um bocadinho mais rebeldes umas com as outras”.

“A ANSIEDADE DAS CRIANÇAS É A DOS PAIS, QUE NÃO A SABEM FILTRAR”

Foram sobretudo adultos que entraram em contacto com a linha em abril (203 apelos), mas também houve várias crianças e jovens a fazê-lo. “A angústia principal das crianças é a angústia da morte. Há uma generalização dos medos e é como se estivessem a ser afetadas pelo conhecido síndrome do mundo mau”. Isto é, “de repente acham que vão perder os amigos e que os avós, por já serem velhinhos, também vão morrer e a seguir são os pais”, explica o coordenador e psicólogo. “É assim uma coisa um bocadinho sem fim.”

Deixam de poder ver familiares e amigos e percebem que algo não está bem, “veem toda a gente à sua volta de máscara e ficam preocupadas”. “A partir dos oito, nove anos, já têm consciência de que aqueles que lhes são mais próximos podem ser afetados pelos vírus e morrer.” Em todo o caso, o importante é “dar segurança, transmitir segurança”, até porque muitas vezes a sua ansiedade é a ansiedade dos pais, que não a conseguiram filtrar e acabam por passá-la aos filhos”, diz Manuel Coutinho. “Tentamos explicar que já houve outras pandemias antes desta, apesar de esta situação ser obviamente nova, e que há de passar se cada um fizer o que está ao seu alcance, como lavar as mãos e outra regras. O importante é não mentir.”

No caso dos jovens, as preocupações são outras, diz o coordenador da linha, e estão mais ligadas ao confinamento. “Ficaram privados dos seus namoros, dos seus amigos, das suas práticas desportivas e sentem-se mais isolados, tristes, angustiados”. Há também casos de “relações conflituosas com os pais” porque “na verdade as pessoas não estão habituadas a viver em família” ou “quando estão muito próximas tendem a entrar em conflitos”. “A família não é um mundo perfeito.”

Situações de violência ou de crianças ou jovens retirados aos pais (a SOS-Criança está atenta a esses casos, que encaminha para as autoridades se for necessário) não entraram nas estatísticas da linha em abril mas não é porque não tenham acontecido. “Temos conseguido intervir antes de a situação se extremar, evitando assim muitas situações de perigo”, diz o coordenador, que aproveita para deixar um apelo: “Infelizmente, é dentro das famílias que as crianças correm mais perigo, são mais abatidas, mais humilhadas, mais abusadas sexualmente. E é melhor denunciar e depois não ser nada do que ficar em silêncio e perceber mais tarde que aconteceu uma tragédia”.

Quanto mais pobres os pais, menor a capacidade de estudar em casa, diz estudo

Maio 18, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 8 de maio de 2020.

Catarina Reis

Mais de 40% dos alunos portugueses de meios mais desfavorecidos dizem ter menos do que dois computadores em casa, conclui o Estudo Internacional de Alfabetização em Informática e Informação (ICILS). Um problema em tempos de pandemia, com famílias inteiras em teletrabalho.

assados quase dois meses desde o encerramento das escolas, o Estudo Internacional de Alfabetização em Informática e Informação (ICILS), da Associação Internacional para a Avaliação do Desempenho Educacional (IEA), lança conclusões claras sobre a desigualdade de acesso ao ensino à distância. Enquanto apenas 21% dos alunos portugueses filhos de pais com um estatuto socioeconómico mais alto disseram ter menos de dois computadores em casa, quase metade (42%) daqueles filhos de pais com menor estatuto garantem estar nesta condição.

O estudo quis perguntar a mais de 46 mil estudantes de 14 sistemas de ensino no mundo a quantos dispositivos digitais tinham acesso em casa, “incluindo laptops e computadores de mesa, tablets e e-readers“, explicou o diretor executivo da associação IEA, Dirk Hastedt. A principal conclusão mostra que a disponibilidade de dispositivos tecnológicos em casa depende do estatuto socioeconómico dos pais, que quanto menor mais compromete a eficácia da aprendizagem.

É assim em Portugal, mas também em muitos outros países. A nível internacional, 24% (acima de Portugal) dos estudantes de maios mais favorecidos responderem ter menos de dois computadores em casa, contra os 41% (abaixo dos números portugueses) daqueles vindos de um contexto mais desfavorecido.

“Os alunos filhos de pais com menos estatuto socioeconómico “correm o risco de ficar para trás, comparativamente aos seus colegas”

Os dados levantam dúvidas sobre a capacidade que os alunos têm de estudar em casa, “principalmente se os seus pais e irmãos também precisarem de acesso a um computador para trabalhar em casa”, alerta Dirk Hastedt. Certo é que os alunos filhos de pais com menos estatuto socioeconómico “correm o risco de ficar para trás, comparativamente aos seus colegas”.

Além de Portugal, participaram neste estudo os sistemas de ensino do Chile, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Cazaquistão, República da Coreia, Luxemburgo, Moscovo, do estado alemão Renânia do Norte-Vestfália, Uruguai e EUA.

Não basta fornecer meios

Não tardou até que o governo português procurasse soluções para colmatar a falta de meios de vários alunos. A tutela prometeu estarem a ser trabalhadas alternativas com as câmaras municipais, as forças de segurança, as televisões e os CTT para continuar a desenvolver mecanismos de apoios aos estudantes em casa.

Entretanto, assistiu-se a casos em que membros da GNR ficaram encarregues de fazer chegar fichas de trabalho a estudantes de zonas mais remotas e à criação da nova telescola, o #EstudoEmCasa. Para o próximo ano letivo, o governo promete a universalidade do acesso às plataformas digitais, quer em rede quer em equipamento, para todos os alunos do básico e do secundário.

No entanto, não basta providenciar meios, alerta o diretor executivo da IEA, detentora do estudo. “Enquanto muitos países estão a fazer esforços significativos para garantir a continuidade das oportunidades de educação, aumentando o acesso aos dispositivos, também é vital que garantam que os alunos sabem realmente como usá-los efetivamente”, frisa Dirk Hastedt.

Metade dos alunos portugueses não tem autonomia suficiente para trabalhar com um computador

Em Portugal, de acordo com o ICILS, apenas 20% dos estudantes inquiridos “demonstraram que podem ser utilizadores independentes de um computador”, enquanto a vasta maioria “necessita de instruções diretas para concluir tarefas básicas”.

Mais informações na notícia:

WHAT CAN IEA DATA REVEAL ABOUT SOCIO-ECONOMIC STATUS AND THE ABILITY TO STUDY AT HOME?

Regulador holandês quer investigar de que forma TikTok usa dados de menores

Maio 18, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Dinheiro Vivo de 8 de maio de 2020.

Cátia Rocha

O regulador da privacidade holandês anunciou que pretende investigar como é que os dados de menores de idade são usados pela rede social TikTok.

Com a rede social chinesa TikTok a atingir recordes devido ao confinamento causado pela pandemia de covid-19, começam a surgir as dúvidas sobre a forma como são usados os dados de milhões de utilizadores menores de idade.

Após as autoridades dos Estados Unidos aumentarem o escrutínio à rede social, é a vez de o regulador de privacidade holandês anunciar que pretende saber como são usados os dados dos jovens utilizadores, numa rede social conhecida pela popularidade entre adolescentes.

“Para muitos utilizadores esta é uma forma importante de estar em contacto com os amigos e passar tempo juntos, especialmente com a crise do coronavírus”, escreve, em comunicado, a autoridade de proteção de dados holandesa, reforçando que “o crescimento do TikTok tem levado a preocupações crescentes com a privacidade”. Na mesma nota, é indicado que o regulador pretende “examinar se o TikTok está a proteger de forma adequada a privacidade das crianças holandesas” e quais são os consentimentos parentais para os dados que são recolhidos, armazenados e usados. O regulador de privacidade refere que as crianças e os adolescentes podem não estar conscientes das consequências do comportamento online numa plataforma com cariz global. O TikTok já reagiu a este anúncio do regulador, com a Reuters a indicar que um porta-voz garantiu que a rede social está disposta a colaborar na investigação. “O principal prioridade do TikTok é a proteção a privacidade dos utilizadores e a sua segurança, especialmente em relação aos utilizadores jovens”. No mês passado, o TikTok introduziu ferramentas de controlo parental na plataforma, nomeadamente para restringir os conteúdos inapropriados e gestão de tempo de uso da rede social, conhecida pelos elevados tempos de permanência na app. Além disso, também foram feitas alterações para os utilizadores com menos de 16 anos, como o bloqueio das funções de chat ou de streaming de vídeo. Em Portugal, segundo dados facultados pela Azerion ao Dinheiro Vivo, o TikTok tem 1,7 milhões de utilizadores, sendo mais popular entre as jovens. Em fevereiro, 34% dos utilizadores portugueses tinham entre os 14 e os 18 anos e 39% dos 19 aos 24 anos.


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