“Há algumas famílias que se sentem muito aliviadas com a situação presente”

Maio 14, 2020 às 8:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Texto do Público de 3 de maio de 2020.

Ao fim de quase dois meses de confinamento, há famílias que olham para este período com cansaço. Porém, há também quem descreva estes tempos como uma oportunidade — e não esteja ansioso pelo desconfinamento.

Carla B. Ribeiro

O isolamento deixou alguns sozinhos, mas também fez que outros ficassem mais acompanhados do que nunca: sempre pelas mesmas pessoas, num mesmo espaço, onde todos se desdobram em múltiplas personagens.

“O mais parecido que tivemos com isto foram as férias quando os miúdos eram mais pequenos — e é sempre uma situação diferente”, recorda Luís Castelo. “Antes, passávamos o dia todo sem nos vermos; cruzávamo-nos ou não ao pequeno-almoço, mas cada qual tinha a sua própria rotina. À noite, sim, jantávamos juntos.” A maior dificuldade deste intenso convívio, com os miúdos com as aulas à distância e a mulher em teletrabalho de forma contínua, é “lidar com o facto de que qualquer questão pode ser amplificada e a tensão precisa de mais tempo para se dissipar”.

A tensão alimentada por “um medo difícil de identificar” tornou-se, como descreve a psicóloga e terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva, “um elemento novo e invisível no seio de muitas famílias”, considerando que para o combater “a receita, às vezes, não é falar mais, mas optar por actividades prazenteiras que não obriguem ao diálogo”, evitando, assim, a escalada de um conflito que noutra altura não o seria. Quando se atinge um clímax, Sofia Nunes da Silva diz que se pode recorrer aos serviços da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar que, desde 6 de Abril, tem uma linha de apoio (+351 213 555 193), onde diariamente têm chegado alguns pedidos de ajuda.

Porém, explica, o que é essencial para não se chegar a esse ponto é “definir fronteiras; respeitar espaços e tempos individuais, deixando o encontro para, por exemplo, o tempo da refeição”.

regra dos encontros à refeição, explica Luís Castelo, é o que tem ajudado a que o quotidiano corra de feição: “Definir uma hora de almoço e uma de jantar deu-nos uma disciplina importante”, diz, acrescentando que assumiu as tarefas do dia-a-dia por ter mais disponibilidade (o espaço onde trabalha está encerrado; estando a leccionar algumas aulas à distância). “Excepto lavar a loiça; tenho sempre a boa desculpa de já ter feito a refeição!”

“Não estamos mal em casa juntos, mas também sabemos que saudável não é.” No entanto, refere, sente que têm sorte por ter acontecido agora: “Os nossos filhos já são adultos [de 20 e 22 anos]; quem tem crianças ou jovens deverá ter mais dificuldades.”

Gerir os tempos em família

Maria (nome fictício), casada e com uma menina de 7 e um menino de 2 anos, reforça a teoria de Luís Castelo. “É positivo estar mais tempo com os filhos, mas há dias em que não os posso ver nem pintados de ouro”, gargalha, ao mesmo tempo que relata já ter tido reuniões com os dois “literalmente em cima” de si.

“Quem está em teletrabalho de uma forma mais intensa terá mais dificuldade em gerir os tempos em família”, sintetiza a terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva. E é esse o caso de Maria.

Estando, desde o início do primeiro estado de emergência, em teletrabalho na área da saúde e segurança ocupacional — o que significa que tem tido mais que fazer do que noutras alturas —, tenta conciliar as responsabilidades laborais com os dois filhos. Tem-lhe valido, refere, o facto de o marido ter sido dispensado de se apresentar ao serviço e de este apoiar ambas as crianças.

No entanto, mesmo que confesse as saudades “do silêncio dos tempos de condução, de ir ao café, dos almoços em casa dos pais”, encara estes dias como “uma oportunidade para a família crescer em conjunto”, com pontos negativos e outros que compensam. É que, se, por um lado, sente falta da ajuda preciosa que era ter uma empregada doméstica uma vez por semana, por outro, envolve hoje a filha mais velha em tarefas domésticas que nunca tinha tentado antes.

Nem tudo são rosas: nota que a criança manifesta muitas saudades da escola e dos amigos, e até alguma irritação — “odeia a telescola”, conta. Um estado de espírito presente em muitos dos mais pequenos com que Sofia Nunes da Silva tem falado. “De uma forma geral, têm saudades do convívio”, ainda que ressalve que a maioria não manifesta vontade de sair de casa, não tanto pelo medo, mas pelo sentimento de conforto. A psicóloga reforça, no entanto, a ideia de que também os pais têm de dar espaço aos filhos, que também não estavam habituados de estarem permanentemente sob o controlo parental: “Não podem achar, por exemplo, que passaram a ser também os professores.”

Ao sabor dos filhos

A forma como se tem lidado com o tempo de confinamento não depende apenas de se estar em teletrabalho ou da idade das crianças da casa. O temperamento dos filhos também acaba por marcar o passo. “Pais com filhos mais rebeldes vêem-se em situações difíceis”, explica a psicóloga. E o mesmo se passa quando os pais passam o tempo a adaptar a sua abordagem a cada criança.

Em teletrabalho tal como a mulher, Paulo Dinis tem o seu dia dividido entre estar atento ao trabalho e em simultâneo lidar com a preocupação da mais velha, de 8 anos, com a reguilice da do meio (“com 5, não leva nada a sério”) e com a “capacidade de inventar” do mais novo, com 2 anos. Tem ajudado a manutenção de regras: “Mantêm os mesmos horários de irem para a cama, de almoçar, jantar.”

“Não está a ser fácil, mas também tem sido uma oportunidade para fazermos coisas que não faríamos noutra situação, como voltar aos jogos de tabuleiro.” Por outro lado, sente que este tempo o ajudou a ser capaz de se lembrar de si próprio quando tinha as idades das suas crianças — e a ser mais tolerante.

Isabel também tem a casa cheia — até mais do que antes. A si, ao marido, aos três filhos (de 13, 16 e 18 anos), aos três cães e aos dois gatos juntaram-se a cunhada e a cadela desta. “Vivemos numa casa dividida por andares, o que ajuda” e, com os três miúdos com aulas e todos os adultos em teletrabalho, “às vezes só nos encontramos ao fim do dia ou às refeições”.

A primeira fase foi mais complicada, mas os próprios miúdos acabaram por ajudar à organização e, numa operação digna de qualquer programa televisivo, criaram um quarto a partir de um escritório, conseguindo cada qual o seu próprio espaço.

Também a gestão das tarefas da casa mudou. Antes, havia uma pessoa que assegurava as limpezas maiores, ficando para si a manutenção. Agora, sem essa colaboradora (“ficou como nós: a trabalhar em casa”, brinca) todos cooperam: “Ao sábado, cada um ocupa-se de diferentes áreas e tarefas.”

Mesmo assim, e apesar de considerar que está tudo a correr bem, há dias mais complicados: “Não sou à prova de bala”, desabafa. E já aconteceu meter “um dia de folga” — e a família respeitou.

O quebrar da rede

Do que Isabel sente mais falta é do jantar semanal com a família completa. “Tínhamos uma rotina que implicava que, todas as quartas-feiras, os avós iam buscar os três à escola e traziam-nos para casa para jantarmos todos.”

A rede de apoio com que contava, dos pais e dos sogros, também é uma das coisas que Catarina Coutinho mais sente falta, não vendo a hora de regressar ao ritmo que tinha antes. “Uma coisa é estar em casa por opção, outra é estar por obrigação.”

Professora e a dar aulas numa escola a cinco minutos da residência, o que implicava não sofrer com o trânsito e até às vezes poder ir almoçar a casa, explica que o facto de a sua vida entre a casa e o trabalho ser relativamente fácil faz com que sinta tanta falta do antes.

Além disso, com um rapaz de 7 anos, tinha toda a semana programada num esquema em que contava com o apoio dos avós: “O meu filho está tão bem comigo como com os meus pais ou sogros.” Isso permitia-lhe “não andar a correr” e, algumas vezes, ter momentos sociais de ir jantar fora, ir a um concerto, enquanto, relata, o rapaz contava com todo o mimo dos avós e as brincadeiras com os primos.

O mais complicado, nas duas primeiras semanas, foi gerir a casa, sem a empregada de limpeza que ia uma vez por semana e com todas as refeições — “e com um miúdo de 7 anos não dá para ser qualquer coisa ao almoço”. Depois, ao longo do dia, multiplica-se entre ser professora do filho, professora dos seus alunos, mãe, etc. Por tudo isto, e apesar de sublinhar estar grata por estarem bem e por gerirem o dia-a-dia em casal sem nenhuma dificuldade, está desejosa de voltar ao normal.

Esse antes é, pelo contrário, o lugar onde Ana Conceição não quer voltar. “Quase me sinto culpada por dizer isto e sei que há muita gente a sofrer, mas nunca vi isto [de ficar em casa fechada em família] como uma coisa má.”

A terapeuta Sofia Nunes Silva explica que, enquanto as pessoas que estavam mais apoiadas terão maior vontade de regressar ao estado anterior, “há algumas famílias que se sentem muito aliviadas com a situação presente”.

É o caso de Ana Conceição, mãe de duas meninas em idade pré-escolar, cujo dia-a-dia implicava muito tempo no trânsito e demasiadas horas fora de casa. E, apesar de se ter mantido em teletrabalho, tal como o marido, e de afirmar que tem sido “muito cansativo”, não lhe passa pela cabeça queixar-se: “Eu pedi isto muitas vezes: ter tempo para ver as minhas filhas a crescer.” Já o tempo que passava no trânsito, passou a dedicá-lo ao seu hobby: o desenho.

Para conseguir aproveitar, porém, teve de prescindir da ideia de ter sempre a casa imaculada, ainda que a divisão das tarefas em casa seja natural e feita de forma equilibrada e, por isso, não tenha sido um factor de stress.

Sente falta de algumas coisas, como das pausas no trabalho: “Em casa, as pausas do teletrabalho representam outro trabalho.” Mas aquilo de que tem mesmo saudades é do silêncio. “De vez em quando, compro-o, dando acesso às pequenas ao telemóvel, que não costumam ter”, confessa, num tom de voz em que se percebe o sorriso de quem encontrou ferramentas para atingir o equilíbrio.

Valentina: “Já se devia ter ouvido a criança com muita atenção. E a mãe” Entrevista de Dulce Rocha na TVI

Maio 14, 2020 às 9:58 am | Publicado em O IAC na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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A Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC, foi entrevistada na TVI – Jornal das 8, no dia 13 de maio de 2020.

Dulce Rocha, presidente do Instituto de Apoio à Criança explicou esta quarta-feira que os maus tratos acontecem sobretudo dentro do seio familiar e que, muitas vezes, a família não é o porto seguro que se esperava e, pelo contrário, pode ser um dos locais mais perigosos para a criança.

Visualizar a entrevista no link:

https://tvi24.iol.pt/videos/sociedade/valentina-ja-se-devia-ter-ouvido-a-crianca-com-muita-atencao-e-a-mae/5ebc71330cf2cd6069ebef10

Crianças e jovens. Uma “vacina real” contra o isolamento

Maio 14, 2020 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da RTP de 19 de abril de 2020.

Quando se é criança e jovem acredita-se que tudo é possível. Mas será esta energia suficiente para ultrapassar a barreira invisível do confinamento motivado pela pandemia? E serão eles, mais do que os adultos amadurecidos pelas vivências, a ensinar-nos como ultrapassar as dificuldades atuais?

por Nuno Patrício

Viver em comunhão e partilha é para crianças e jovens um estado natural. Num mundo cada vez mais sem fronteiras, criar laços de amizade onde a movimentação não se restringe já às fronteiras internas e onde as tecnologias aproximaram ideias e credos, as gerações mais novas adaptaram-se a viver em rotinas dinâmicas de movimentação e de fácil comunicação.

Um mundo que de um dia para outro mudou e pode mudar também a forma de como estas gerações se adaptam e relacionam com ele.

Carlos Céu e Silva, psicólogo clínico formado pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada e Mestre em Aconselhamento Dinâmico, afirma que é natural que crianças e jovens sintam o atual momento como adverso. Contudo este momento em particular pode também ser interpretado como uma excelente oportunidade para uma reaproximação de laços familiares, que a sociedade tanto tem tirado.

“Esta ansiedade que nós criamos”, diz Carlos Céu e silva, “é por vezes mais vinda dos adultos e da nossa perceção de limitação. As crianças obviamente também se sentem limitadas, mas se olharmos para a janela e para a rua, hoje em dia vemos os pais a fazerem aquilo que faziam há 30 anos, que é andar de bicicleta e a fazer uma série de coisas de um modo descontraído e quase que pedagógico ou lúdico”.

A idade como forma de maleabilidade

Os amigos e as brincadeiras parecem agora presos neste passado recente, ainda muito presente. Crianças e jovens vão ter de construir um novo molde.

Sendo as camadas novas “mais plásticas”, existe a tendência para uma maior facilidade na adaptação, muito embora quando esta situação passar se envolvam rapidamente na dinâmica social e destes tempos permaneça apenas uma vaga recordação de dificuldade.

Já os adolescentes, com uma mentalidade mais amadurecida, vão olhar o mundo de uma forma diferente, explica o psicólogo Carlos Céu e Silva.

“Este lado de confinamento tem um lado negativo muito grande que afeta a saúde mental, quer dos adultos, adolescentes ou crianças. (…) Há uma saturação independentemente de toda a criatividade que possam criar”, com a realização de novas tarefas e inovadoras, “ mas também na descoberta de novas facetas que não imaginavam ter”.

Toda uma redescoberta em que a música, a leitura e a informação pode voltar a ser parte de um quotidiano perdido, muitas vezes para as redes sociais, que continuam muito presentes nesta nova sociedade enclausurada.

Mens sana in corpore sano

Estar e ser ativo é questão fundamental para manter uma “mente sã em corpo são”, principalmente neste período.

Precisamente neste campo e preocupados com a falta de oportunidade e espaços para o movimento das crianças, um grupo de investigadores da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC) levou a cabo um primeiro estudo, no qual analisou rotinas das famílias portuguesas durante as primeiras três semanas de confinamento devido ao surto da Covid-19, criando o projeto C-Ativo em casa.

O encerramento de escolas, bem como muitos dos espaços laborais as rotinas diárias da família e dos filhos, deram origem a taxas de sedentarismo na ordem dos 80 por cento.

De acordo com os dados recolhidos através de um inquérito online, respondido até agora por 1973 famílias e 2167 crianças, os investigadores conseguiram apurar que durante as semanas de entre 10 de março e 1 de abril, a situação de confinamento das famílias originou um decréscimo no tempo de atividade física dos seus filhos em 69,4 por cento dos casos.

Tempo este deslocado para outras atividades que resultam num aumento do tempo dedicado aos ecrãs (68,4 por cento) e um aumento nas atividades em família (82,8 por cento).

Neste estudo foi também avaliado o comportamento das crianças até aos 12 anos.

Fonte: Projeto C-Ativo em casa/DR

Considerando a percentagem de tempo acordado reportado para cada criança (excluindo as horas de sono), o tempo de ecrã lúdico (não contando aulas e trabalhos online), aumenta ao longo das faixas etárias, atingindo valores de 24 por cento na faixa etária dos 0-2 anos, 27 por cento, dos 3 aos 9 anos e 33 por cento, na faixa dos dez aos 12 anos.

A questão do sedentarismo também não foi esquecida, apontando este estudo para um aumento com a idade, atingindo os 62 por cento na faixa etária até aos dois anos; 72 por cento dos três aos cinco anos; 78 por cento dos seis aos nove anos e 84 por cento na faixa etária dos dez aos 12 anos.

Um confinamento que preocupa, mas que aproxima

Ainda no quadro deste estudo, apurou-se que 95,2 por cento das famílias afirmam estar preocupadas ou muito preocupadas com a situação de pandemia actual, sendo que 33,4 por cento consideram que está a ser difícil o isolamento com as crianças, embora 47,9 consideram precisamente o contrário.

Já no que diz respeito à actividade física das crianças, 69,4 por cento das famílias considera que estas têm feito menos ou muito menos exercícios que o habitual. Mas 82,8 por cento do universo estudado indica que tem feito mais ou muito mais atividades em família que o habitual.

E se a preocupação com o tempo de descanso das crianças é fundamental, 48,5 por cento não notam diferença no tempo de sono em relação ao habitual, manifestando 45,2 por cento que as crianças até têm dormido mais.

Apesar da diferença de género, não foram verificadas diferenças acentuadas entre sexos, tendo rapazes e raparigas valores muito semelhantes em praticamente todas as atividades à exceção das categorias de ecrã lúdico (rapazes vs raparigas) e jogo sem movimento (raparigas vs raparigas).

Dados observados em Portugal e ainda com um universo muito restrito, mas claramente exemplificativo das implicações deste isolamento social obrigatório.

No contexto geral este inquérito vem confirmar a tendência decrescente do tempo de atividade física ao longo da infância, mas as crianças que vivem em condições de confinamento obrigatório apresentam um grande tempo de sedentarismo, especialmente derivado da grande percentagem de tempo de jogo sem movimento (até aos cinco anos de idade) e do aumento do tempo de ecrã lúdico após essa idade.

Este estudo da Faculdade de Motricidade Humana (UL), da Escola Superior de Educação de Lisboa (IPL), e da Escola Superior de Desporto e Lazer (IPVC), está também a decorrer e a ser replicado em vários países (Grécia, Espanha, Reino Unido, Bélgica, EUA, Austrália, Nova Zelândia).

Mais perto de uns, mais longe de outros

Se pensarmos mais abertamente nas relações sociais criadas já neste período de confinamento, tendemos a crer que vai haver uma maior aproximação de nós para com os mais próximos. Mas se isso é verdade o contrário também pode acontecer e ser perigoso.

Os jovens podem, na sua ingenuidade ou malícia, aproveitarem-se destas fragilidades.

Para o psicólogo Carlos Céu e Silva, este isolamento, bem como distanciamento, pode ser desestruturante, “por mais consciência que tenhamos que isto é provisório, ou transitório, evidentemente afeta sempre o estado mental.”

Uma sociedade só existe se, no conjunto, todos nos comportarmos como seres saudáveis, sempre com uma boa rede social e rodeados de figuras sólidas que possam ser reproduzidas internamente.

De outra forma a anarquia tomará conta de nós, originando conflitos e desorganização no eu em que vivemos. E será o medo que vai travar a impulsividade dos jovens ou torná-los mais resistentes? Certo é que neste campo os mais velhos têm um papel fundamental na gestão da ansiedade.

É preciso compreender os medos da forma mais eficaz para ajudar as crianças a lidar com eles. E uma das formas mais simples a fazer nestas situações é tranquilizá-las, explicando o que se passa em seu redor e desmistificando cenários não entendíveis para a mente infantil.

Mas se os medos causam emoções desagradáveis e desconforto, também podem demonstrar um outro lado de aprendizagem, que se forma através da “nocão, dentro da sua dimensão etária, dos perigos que a vida tem”.

Os medos comuns na infância e na adolescência

Após o nascimento só estamos predispostos a ter medo das quedas e de certos ruídos, mas a partir do primeiro ano de vida, surgem outros medos:

1.º ano de vida: Separação, ruídos, quedas;
2.º ano: Animais, treino do bacio, banho;
3.º ano: Hora de deitar, medo do escuro monstros, fantasmas;
5.º ano: Divórcio dos pais, de se perderem;
7.º ano: Perda/morte dos pais, rejeição social;
9.º ano: Guerra, situações novas, adoção;
12.º anos: Ladrões, injecções.

Sinais que devem preocupar os adultos, sendo estes agentes tranquilizadores e explicadores das situações que as envolvem. E devem respeitar o medo que a criança sente, sem lhe dar, porém, uma importância desmedida.

Crianças devem ser protegidas, avisa ONU

Em tempo de crise são as crianças as mais vulneráveis às adversidades, quer económicas, quer emocionais. E neste sentido, já prevendo em todo o mundo consequências graves, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou às famílias e aos dirigentes de todos os quadrantes para que as crianças sejam elementos de proteção que, apesar de não serem as principais vítimas da pandemia da Covid-19, sofrem também elas significativamente com as consequências.

Segundo um relatório divulgado na passada sexta-feira, a ONU estimativa que esta crise anule os progressos obtidos na baixa da mortalidade infantil, mas não só nesta área.

Com o encerramento das escolas em todo o mundo, as crianças poderão sofrer ainda com a fome, uma vez que cerca de 310 milhões de estudantes dependem dos estabelecimentos de ensino para se alimentarem no dia-a-dia, afirmou.

António Guterres lembra que 188 dos 193 Estados-membros da ONU impuseram o encerramento das escolas, o que afeta cerca de 1500 milhões de jovens

Para o secretário-geral das Nações Unidas, o confinamento e a recessão mundial “alimentam as tensões nas famílias” e as crianças “são, por sua vez, vítimas e testemunhas de violência doméstica e de abusos”.

Tecnologias: “o reverso da medalha”
Até agora, muitos são os estudos que apontam as novas tecnologias, entre os mais novos, como um potencial fator de distração face à rotina social. A facilidade de comunicação e utilização das redes sociais, bem como os jogos online com uma forte obrigatoriedade de permanência em linha, são fontes de afastamento de uma maior socialização presencial.

Se todos estes elementos eram já disruptivos, com a imposição de um ainda maior confinamento, tudo isto pode ser ampliado.

Todavia, também existem aspetos positivos nas novas tecnologias e são estas que nos capacitam para a continuidade de uma relativa “normalidade”, como por exemplo o ensino à distância.

Compreendendo muito do que se passa dentro da mente das crianças e dos jovens, Carlos Céu e Silva diz que este novo paradigma, entre o restringir e o facilitar o acesso aos jogos e tecnologias, tem de exigir, por parte dos adultos, um maior equilíbrio.

“A partir de agora vamos olhar para os jogos, para os vídeos e para estas coisas todas, de uma forma diferente. E vamos todos tentar compreender melhor este mundo (…) e se não tivéssemos acesso a esta tecnologia que temos hoje estaríamos a viver um período medieval”.

Se “estas ameaças apenas ajudam a evoluir mais na nossa condição humana”, refere o psicólogo, também podem despertar ações menos positivas como o caso de uma maior facilidade e risco de assédio sexual a menores, ou ao cyberbullying.

O psicólogo do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, habituado a lidar com os problemas dos mais novos, afirma que não é através do negativismo que se ultrapassa os problemas e que vão ser os mais novos que vão ensinar – e muito – os atuais adultos, na nova normalidade que virá depois desta crise.

“Eu acho que nos próximos anos não vai haver normalidade. Nós temos um registo interno de trauma que vai ficar com este vírus”, explica Carlos Céu e Silva. E vão ser os mais velhos a salvaguardar-se mais isolando-se.

Já o contrário será feito pelos mais novos, com uma mentalidade mais aberta, mais madura e mais responsável, sempre com a necessidade de voltar à escola, às rotinas e amizades suspensas no tempo por uma ameaça para a qual ninguém estava preparado.


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