Qual a importância de uma atempada avaliação e intervenção psicopedagógica nas dificuldades de aprendizagem?

Março 20, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Sapolifestyle

Um estudo publicado no Jornal de Pediatrics, em 2015, refere que os alunos com dificuldades de aprendizagem tendem a manifestar os mesmos problemas durante a fase da adolescência, prejudicando o desempenho académico e o desenvolvimento emocional e comportamental, ano após ano.

Joana acaba de entrar na escola. Pela primeira vez, abrem-se-lhe as portas de uma sala de aula. Quase a completar os 6 anos, finalmente, já podia dizer que era aluna do primeiro ano. Estava feliz e motivada para aprender.

Alguns dias mais tarde, a mãe repara que a Joana revela dificuldades na aquisição de competências que parecem relativamente fáceis para as outras crianças. Para além disso, não é capaz de terminar as tarefas dentro do tempo estipulado. Aos poucos e ao longo do tempo, Joana foi perdendo a confiança e até a autoestima. Não tinha vontade de ir à escola. O que fazer para a ajudar – perguntam, preocupados, os pais? ​

Em primeiro lugar, falar com a professora e tentar identificar o problema. Mas a docente acreditava que o nível de competências da Joana era normal face ao tempo de aprendizagem. Ainda assim, os pais pediram outras opiniões e o feedback foi quase sempre o mesmo: “talvez a Joana precise de mais tempo”.

Os pais da Joana questionavam, “como é que uma menina inteligente como a Joana, que acompanha em casa com grande facilidade as longas conversas em família sobre temas diversos, mais ou menos complicados, manifesta tantas dificuldades em adquirir competências básicas de aprendizagem?” E quanto mais aprofundavam a reflexão, mais dúvidas iam surgindo. “A internet, será que oferece alguma resposta credível?” – questionam os pais, cada vez mais confusos. Será dislexia? Hiperatividade? Défice de atenção? A família equacionava todos os cenários, contudo não queriam rotular a filha com um diagnóstico e decidem esperar…

E assim a Joana continuava …. O tempo ia passando e as dificuldades eram cada vez maiores. A resistência em ir à escola crescia, falava em dores de barriga e de cabeça para ficar em casa. Chegou a dizer à mãe que, ao contrário dos colegas, era “burra”.

Se ao menos os pais conseguissem perceber, de facto, o que se passava com a Joana e obter a ajuda e o apoio de que precisa…

Esta história é fictícia, mas para muitos pais e crianças não o é, e histórias como esta são muito comuns. Alguns pais, tentam uma abordagem de “esperar para ver” na esperança que os seus filhos, de alguma forma, ultrapassem as dificuldades que estão a ter. A verdade é que cada criança tem o seu ritmo, nem todos aprendem da mesma forma e no mesmo tempo. Contudo há sinais de alerta importantes que não devem ser ignorados.

A verdade é que…

​Quanto mais cedo melhor. Um estudo publicado no Jornal de Pediatrics, em 2015, refere que os alunos com dificuldades de aprendizagem tendem a manifestar os mesmos problemas durante a fase da adolescência, prejudicando o desempenho académico e o desenvolvimento emocional e comportamental, ano após ano. O mesmo estudo revela ainda que as dificuldades de aprendizagem se refletem mais tarde, não raras vezes, em níveis de desemprego mais elevados e remunerações mais baixas, podendo originar sérios casos de depressão. ​​

Mas não tem que ser assim

Há formas de evitar, que fique claro. Um diagnóstico correto é o primeiro passo para melhorar a qualidade de vida da criança. Uma intervenção atempada, logo durante a escola primária, é fundamental na medida em que permitirá melhorar consideravelmente a capacidade de resposta da criança, sobretudo a médio e a longo prazo. Antes que as dificuldades, como as da Joana, se agravem, procure um especialista (e.g. psicólogo, psicopedagogo, neuropsicólogo). Identifique o diagnóstico. A estratégia a desenvolver, quando corretamente aplicada com antecedência em função das respetivas necessidades de cada criança, permitirá obter melhores resultados, tanto a nível escolar como a nível comportamental, ajudando a criança a tirar máximo partido do seu potencial. ​​

Uma intervenção precoce promove a saúde, o desenvolvimento e a educação através de serviços educativos, terapêuticos e sociais cujo objetivo é combater os efeitos no desenvolvimento da criança. Quanto mais cedo for implementada, maior se torna o potencial de desenvolvimento de cada criança. ​

Como pode uma intervenção atempada ajudar crianças como a Joana?

  • Ajuda a abordar as dificuldades de aprendizagem antes que elas se agudizem e levem a outras questões, nomeadamente comportamentais e emocionais;
  • Ensina competências e estratégias específicas, de modo a focar nos pontos fortes e minimizando e melhorando os pontes fracos;
  • Melhora os desempenhos e os resultados académicos;

Por outras palavras, ajuda as crianças a alcançar o seu pleno potencial como alunos.

No entanto, é essencial que cada programa de intervenção seja feito para cada criança, tendo em conta o seu perfil de aprendizagem, isto é, os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Para tal, torna-se essencial recorrer a um especialista, de modo a realizar uma avaliação psicopedagógica. Esta avaliação irá responder a quatro questões chave:

  • Qual o seu perfil de aprendizagem;
  • Qual o seu potencial de aprendizagem, isto é, os seus pontos fortes
  • Quais as melhores estratégias em sala de aula e em casa e qual o melhor programa de intervenção que promova o seu sucesso escolar.

Porque o importante numa avaliação, não é tanto o diagnóstico, mas sim providenciar informação importante sobre a criança, de modo a que os pais possam tomar decisões informadas sobre a aprendizagem dos seus filhos, possam garantir que têm o apoio na escola a que têm direito, possam capacitar os filhos a ter uma melhor visão de como aprendem, para que finalmente os consigam ajudar a atingir o seu pleno potencial de aprendizagem.

Escolas fechadas. Pais a trabalhar em casa desesperam com exagero de TPC

Março 20, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Diário de Notícias de 18 de março de 2020.

Já não é saber como conciliar o teletrabalho com a presença dos filhos em casa: os pais agora questionam-se como trabalhar e ao mesmo tempo acompanhar as crianças com o volume “exagerado” de exercícios que os professores estão a mandar para substituir as aulas.

Gravar um vídeo diário a praticar piano, flauta ou guitarra; resmas de exercícios que ultrapassam largamente os 50 minutos de uma aula; trabalhos que os alunos estranham, como um poema sobre conteúdos de Fisico-Química; pais que recebem vários vídeos diários da professora do pré-escolar com atividades físicas e desafios, e depois devem devolver vídeos ou fotos para mostrar como as crianças praticaram… Passaram poucos dias do encerramento das escolas decretado pelo governo para combater o novo coronavírus, mas já há pais a dar em loucos. E os desabafos, em tom de desespero, nas redes sociais são prova disso – estão eles próprios a adaptar-se ao teletrabalho e sem a disponibilidade necessária para acompanhar os filhos 24 horas por dia e, ao mesmo tempo, fazerem o papel de professores.

“Para nós já é o quinto dia e começa a ficar difícil. Os trabalhos de casa, a falta de braços e de paciência. Acho que se entrou numa onda de loucura porque se está a pensar que os pais estão de férias e têm todo o tempo do mundo para acompanhar as crianças”, diz Vítor Jorge, jornalista de publicações especializadas, que está fechado em casa desde sexta-feira com os dois filhos, um rapaz de 9 anos e uma menina de 4.

“Os pais que estão em teletrabalho não estão no sofá a ver séries e filmes.”

Na segunda-feira à noite, conta, um grupo de pais entrou em contacto com a professora do filho – aluno do 3.º ano – a dizer que era importante as crianças terem algumas tarefas. “Passou-se do 8 não para 80, mas para 800. Hoje a professora deve ter feito scanner do livro e mandou fichas até ao final do ano, sem timings. Temos de ver que os tempos não são fáceis e que os pais que estão em teletrabalho não estão no sofá a ver séries e filmes.”

Crianças na idade das de Vítor exigem acompanhamento constante, ainda mais quando estão fechadas em casa, estão sempre a interromper, pedem ajuda para os exercícios. Depois há a questão logística: se antes da quarentena os pais deixavam as crianças na escola de manhã e iam buscá-las ao fim do dia, agora têm de lhes fazer o almoço, garantir que comem, dar lanches, sempre a interromper o trabalho – a adaptação é difícil.

E há a questão de pura e simplesmente não se ter conhecimento das matérias para poder ajudar os filhos – quem é da área de letras desespera com a matemática, há quem fique com os cabelos em pé com as artes plásticas. “O meu filho está no 3.º ano e alguns exercícios que ele tem de fazer são de matérias que eu só dei no 6.º ou no 7.º ano. Vejo-me obrigado a ter o computador ao lado para fazer pesquisa no Google.”

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional dos Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, reconhece que “nos primeiros dias possa ter existido algum exagero” no pedido de trabalhos aos alunos em quarentena, mas refere que os exercícios não são para hoje, não são para amanhã nem para depois de amanhã.

“Deixem a correção a cargo dos professores”

E deixa uma mensagem de tranquilidade aos encarregados de educação: “Os pais devem estar calmos, são exercícios para serem realizados durante alguns dias. Não devem ficar angustiados, trata-se de aulas, de exercícios para algumas horas. Os pais não devem esquecer-se de que quem está a ter aulas são os filhos. O pai é um coordenador, um supervisor, por isso apelo a que façam uma supervisão das tarefas diárias que as crianças têm para fazer e deixem a correção a cargo dos professores.”

Filinto Lima considera ainda que é importante que os pais estejam ao lado dos professores “para que isto corra bem”. Também acredita que esta crise é uma oportunidade para muitos reconhecerem “quão nobre é a arte de ser professor”.

Os pedidos de trabalhos chegam por via eletrónica, por WhatsApp, pelas várias plataformas, como o Inovar ou o Moodle. E isso levanta outra questão: a existência de tecnologias em casa. Se é certo que praticamente toda a gente as tem, também é verdade que quem está em teletrabalho não pode dispensar o computador aos filhos a qualquer hora.

Essa é a vertente da nova realidade escolar trazida pelo coronavírus que Leonor Santos enfatiza. “Não podem partir do princípio de que toda a gente tem computador, nem todos têm, nem têm de ter.”

Na sua casa, por exemplo, há apenas um – para Leonor trabalhar em casa e para os dois filhos, António (16 anos) e Pedro (11). Nesta terça-feira, o mais velho teve de fazer o TPC de Português antes de a mãe se sentar e iniciar o seu dia de teletrabalho. Da escola do Pedro pediram-lhe que se inscrevesse na Escola Virtual e no Google Classroom – Leonor ainda não tinha tido tempo para isso, mas o rapaz já sabia que teria de entregar trabalhos nesta quarta-feira. A questão é: como vai ser quando todos precisarem de usar o computador ao mesmo tempo?

“É uma medida que estimula a desigualdade”

Leonor faz questão de frisar que não está contra as aulas à distância depois do encerramento das escolas – o que defende é que o processo seja feito faseadamente. “Tem de se garantir que todos têm acesso, têm tecnologia, para serem autónomos.”

E isso leva-a a apontar o que considera ser o segundo problema desta questão: “É uma medida que estimula a desigualdade e a discriminação, é elitista. O elo mais fraco são sempre os mesmos.” Lembra ainda que “é preciso que os professores percebam que os pais não estão a viver a sua vida normal”. “Fui de manhã ao supermercado e passei uma hora em filas, depois tive de fazer o almoço”, o que não acontece quando está no seu local de trabalho e os filhos na escola.

O presidente da Associação de Diretores de Agrupamentos entende que esta é igualmente uma oportunidade para se perceber que crianças e adultos têm de ter instrumentos e rede wi-fi nas suas casas. “É uma questão social a que o governo tem de estar atento, e as juntas de freguesia também”, diz, não deixando de referir que a maioria dos alunos do escalão A têm excelentes telemóveis.

Na casa de Vítor Jorge existem dois portáteis, mas quando o filho precisar, ou ele ou a mulher terão de parar o trabalho. Os TPC que a professora enviou por e-mail – e ainda não começaram as videoconferências – vai ainda obrigá-lo a sair de casa para imprimir as folhas de exercício porque não tem impressora. “Isto quando toda a gente está a sugerir que não se vá à rua.”

Mais matéria do que nas aulas

Desde que as escolas fecharam na segunda-feira que Alice, aluna do 9.º ano, recebe na plataforma digital Inovar os trabalhos que devem ser realizados todos os dias, como se estivesse na escola. Está a cumprir-se o horário semanal. Ela concorda que os alunos tenham de continuar a aprender, mas discorda da “quantidade exagerada de exercícios, alguns completamente despropositados”, que lhe estão a ser pedidos pelos docentes.

“Seria bom se os professores nos mandassem ler umas páginas, uma pequena parte da matéria, e mandassem perguntas de consolidação. Mas o que estão a fazer é a pedir trabalhos como se tivéssemos todo o tempo disponível para a escola. Mandam mais trabalhos do que iríamos efetivamente realizar na aula. Quarentena não são férias, mas temos de ter tempo para fazer outras coisas, tal como tínhamos quando estávamos em aulas”, diz a jovem.

Por exemplo, para a aula de Francês desta terça-feira teria de fazer dois exercícios do livro e vários outros – ouvir duas músicas e responder a questões sobre as mesmas e ainda visualizar um vídeo na internet para responder a outras três perguntas. “É óbvio que em 50 minutos de aula – e não são 50 minutos porque entre sentar e começarmos a trabalhar perdemos 15 minutos – nunca conseguiríamos fazer isto. Mesmo em casa, sem a confusão da turma, levei mais de uma hora.”

O que custa alterar rotinas

Quando os trabalhos pedidos pelos professores começaram a chegar, Inês Malhão precisou de ajudar o filho, aluno do 8.º ano, a organizar-se. Chegaram apenas exercícios de cinco disciplinas, mas dado o volume – e até porque o filho é um pouco desorganizado – teve de ser ela a pôr ordem nas coisas. “Ele estava completamente assoberbado com tanta coisa.”

A solução foi estabelecerem um horário por disciplina para que o rapaz trabalhe como se estivesse na escola que frequenta, a Padre António Vieira, em Lisboa. Inês não tem do que se queixar, considera que aquilo que está a ser pedido pelos professores é equilibrado. Ao contrário do que pensa Vítor, Leonor e a aluna Alice e tantos pais que desesperam nas redes sociais. E até o representante dos diretores de turma, que admite alguns exageros nestes primeiros dias.

A cambalhota na rotina das famílias com filhos em idade escolar ilustra bem como as vidas se alteraram de um dia para o outro. “É uma aprendizagem para as famílias, que devem encontrar estratégias para diminuir a pressão de ter as crianças em casa e estarem em teletrabalho, mas não deixa de ser difícil”, diz Cláudia Vieira, psicóloga educacional.

Aconselha, contudo, a que as famílias se organizem no sentido de estabelecer horários, porque o teletrabalho exige muita disciplina e é interrompido pelos pequenos-almoços, almoços, lanches… Mas alerta os pais que os miúdos precisam de monitorização, mas têm de ter alguma autonomia na realização dos trabalhos, tal como na escola. Outra dica é estimular a interação entre os irmãos.

A psicóloga educacional entende que, quando as crianças são obrigadas a passar tanto tempo em casa, deve-se trabalhar para o seu desenvolvimento integral e não apenas os conteúdos escolares. “É a oportunidade para, por exemplo, realizar um trabalho-projeto com a família, em várias áreas – se for sobre uma borboleta, pode ter uma abordagem de Biologia ou um poema para Português. Não estamos preparados para a flexibilidade de conteúdos.”

Esta novidade na vida das famílias, que de um dia para o outro ficaram com os filhos em casa, levou a Direção-Geral da Educação a lançar um vídeo dirigido aos encarregados de educação com dez conselhos práticos sobre como ajudar as crianças durante a suspensão das aulas presenciais.

O vídeo, com Margarida Pinto Correia, sublinha que o primeiro passo é garantir que os horários são cumpridos e a verificação de que todos os trabalhos preparados foram realizados. E incentiva os pais a participar e a ajudar a identificar dúvidas.

A Direção-Geral da Educação diz ainda que os pais devem manter o contacto com os professores e os diretores de turma porque os alunos não estão de férias. Mas também faz questão de lembrar que as crianças precisam de tempos livres e que se deve incentivar a leitura.


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