Partilhar ou não partilhar: o que fazer com as fotos dos nossos filhos?

Fevereiro 27, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Notícias Magazine de 20 de fevereiro de 2020.

Alguns pais não se importam de partilhar fotos dos filhos. Outros não mostram a identidade dos descendentes nas redes sociais. Três famílias, três experiências.

Sofia Filipe

Há quatro meses, Filipa Salvaterra vivia os últimos dias da segunda gravidez. A 23 de outubro, véspera do nascimento de Duarte, assinalou o quinto aniversário de Maria partilhando com 295 amigos do Facebook uma fotografia do bolo e uma dedicatória à filha. A mensagem sobre a nova fase, “com o mano”, estava nas entrelinhas e só era entendida por familiares e amigos que privam com a engenheira química, de 37 anos, no Centro Nacional de Embalagem. “É uma questão de privacidade.” Moradora no Montijo, Filipa justifica assim o facto de não publicar nenhuma fotografia dos filhos nas redes sociais nem de avançar pormenores da vida privada.

O marido, Pedro Cruz, um ano mais novo, pensa da mesma forma. “É mais seguro. Também não indicamos locais nem moradas. É a nossa vida pessoal e ninguém tem de saber o que fazemos ou onde estamos”, declara o engenheiro de manutenção na Hovione, Loures. “Dos 571 amigos que tenho no Facebook, só devo falar com cerca de dez. Muitos andaram comigo na escola, outros são da mesma terra ou foram colegas. Não há grandes ligações com a maioria.”

Mostrar ou não mostrar os filhos nas redes sociais? Eis uma questão pouco dada a unanimidade. O poder de decisão, esse, nem sempre pertence aos pais. Em 2015, durante um processo de regulação de responsabilidades parentais, o Tribunal de Setúbal proibiu os pais de uma criança de 12 anos de partilharem fotografias da filha nas redes sociais. A mãe recorreu para a Relação e o Tribunal da Relação de Évora manteve a decisão. Vem referido no acórdão que, “na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos”.

Se existe o direito à imagem das crianças, por que motivo é atropelado com a constante divulgação nas redes sociais? “Orgulho e vontade de mostrar ao mundo a felicidade. Também algum exibicionismo, necessidade de reconhecimento e afirmação social”, responde Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, um projeto que ajuda famílias, escolas e comunidades a promover a segurança online. Ao ato de partilhar excessivamente fotografias e informações acerca dos filhos, sem consentimento, dá-se o nome de sharenting. O especialista compreende que os pais o façam, mas aconselha a evitar. “A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos.”

Para a psicóloga especialista em adolescentes Bárbara Ramos Dias, “todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”. Sensibiliza para os riscos associados à partilha de fotografias a mostrar a cara, de dados pessoais ou de localização geográfica nas redes sociais e dá como exemplo situações de rapto.

“A necessidade de afirmação social dos pais não se pode sobrepor à segurança e proteção da privacidade dos filhos”
Tito de Morais
Fundador de MiúdosSegurosNa.Net

Filipa e Pedro têm consciência dos perigos associados à exposição de crianças na Internet, destacando o uso de fotos manipuladas em sites de pedofilia. O fundador de MiúdosSegurosNa.Net explica que “a manipulação digital das fotos através de montagens e a criação de deep fakes elevam a fasquia ao nível da sofisticação”. Por seu turno, defende que “basta mudar o contexto em que as imagens aparecem para adquirirem logo outro significado”.

A última fotografia partilhada pelos pais de Ódin, seis anos, e Aron, quatro, retrata uma brincadeira com água num campo. Estão de costas e afastados da objetiva. Para Carla Santos e Duarte Cera, ambos de 35 anos, partilhar momentos em que os filhos estão de costas, tapar-lhes o rosto, editar as fotografias ou usar imagens de baixa resolução são algumas estratégias para não exporem os descendentes nas redes sociais. Além disso, fazem a publicação depois da atividade em família e não referem local nem horário. Este casal de Cascais acredita que “existe o risco de serem identificadas rotinas da família e assim dar azo a situações perigosas”.

Carla é doula e usa o Facebook (conta pessoal com 791 amigos e página profissional com 465 seguidores) e o Instagram (conta pessoal com 200 seguidores e a profissional com 707). Duarte concilia a atividade de leitor de contador das águas com a de baterista dos Invoke e utiliza as redes sociais Facebook (790 amigos) e Instagram (185 seguidores). “O acesso às fotos é reservado a listas definidas por nós, por questões de segurança”, afirma Carla.

Em tempos, colocou uma fotografia sua, grávida, como foto de perfil, e recebeu “uma mensagem de um desconhecido a questionar se o bebé já tinha nascido, porque gostava muito de ver uma imagem. Foi assustador”. Duarte faz referência ao impacto negativo mencionando que “a imagem fica para sempre online, pode ser usada no futuro como ferramenta de bullying, por colegas ou pessoas das relações profissionais”. Carla sublinha: “É a privacidade dos nossos filhos, que não têm noção do que é a exposição. Quando tiverem, será algo unicamente gerido por eles. Não vamos interferir”.

Na net como no parque ou nos transportes públicos

Como a partir de uma certa idade os filhos ganham o sentido de individualização, os pais devem perguntar-lhes se podem fazer determinada publicação, segundo Bárbara Ramos Dias. “Há miúdos que não gostam de se expor. Deve-se respeitar a opinião e a vontade.” Exemplo: na pré-adolescência e adolescência, sobretudo as raparigas, têm preocupação com a imagem. “Consideram que estão gordas, feias ou com borbulhas. Não gostam quando os pais põem online fotos que não lhes agradam.” É uma fase da vida com inseguranças e fragilidades que a exposição “pode aumentar”. Dados do EU Kids Online Portugal, de 2018, mostram que 28% dos participantes, entre os nove e os 17 anos, indicaram que os pais publicaram textos, vídeos ou imagens sobre eles sem lhes perguntarem. Dos inquiridos, 14% pediram aos pais para retirar conteúdos, dos quais um quinto são raparigas entre os 13 e os 17 anos; e 13% disseram ter ficado incomodados com a partilha sem consentimento.

“Todas as pessoas têm direito à privacidade. Os filhos ainda mais. São crianças inocentes”
Bárbara Ramos Dias
Psicóloga especialista em adolescentes

Experiências que não foram vividas pelos irmãos Matilde e Samuel, de 13 e 11 anos, de Caneças. Os pais têm sempre o cuidado de perguntar se concordam com determinada publicação em que são visados. “São pessoas independentes. Não é por sermos pais que temos o direito de usar a imagem deles sem a sua autorização”, diz Miguel Campos, de 46 anos, motorista. “Desde que têm idade para manifestar opinião que lhes pergunto se posso publicar as fotos em que aparecem”, corrobora Sílvia Campos, 42 anos. Pelas respostas que recebe dos filhos, a angariadora imobiliária nota que estão mais interessados em perceber se “estão mais ou menos bonitos”.

Miguel usa o WhatsApp e o Facebook (452 amigos). Sílvia é mais ativa: 3 446 amigos nesta rede social, 777 seguidores no Instagram e 256 contactos no WhatsApp. Esta mãe nunca se coibiu de mostrar a cara dos filhos, com publicações esporádicas. É o orgulho que sente nos filhos que a motiva a partilhar o bom aproveitamento escolar, uma atividade especial, vivências durante as férias, momentos engraçados com familiares e amigos ou uma comemoração festiva. Com reservas. Usa definições de privacidade, as fotos de férias só são publicadas posteriormente e, por norma, não dá referências geográficas. Sílvia tem consciência de perigos mas ressalva que estes não existem apenas na Internet. “Também lhes podem tirar fotos na escola, no parque, na praia, nos restaurantes, nos transportes públicos”, enumera, referindo que é apologista das conversas educativas. “Alerto para os perigos, tiro dúvidas e estou atenta. Como pais, temos de os proteger e assegurar que as publicações não sejam prejudiciais no futuro. Não considero nenhuma das opções [mostrar ou não mostrar a cara dos filhos] certa ou errada. Sentirmo-nos bem e fazer com que os nossos filhos também se sintam bem deve ser a regra.”

Maria e Duarte são menores e não têm a noção dessa dinâmica. Os pais Filipa e Pedro decidiram salvaguardar os filhos para precaver eventuais problemas no futuro não mostrando nada. “São menores e um dia podem não querer ou não gostar de ter fotos deles online”, comenta a mãe, lembrando que as fotografias digitais estão guardadas no computador e/ou na nuvem. “Qualquer pessoa pode aceder. Se forem colocadas no Facebook, é abrir ainda mais a vida privada ao mundo.”

A mãe de Ódin e Aron acredita que “explorar a vida e a imagem de uma criança tira autenticidade às relações e às vivências”. “A mensagem que transmite não me deixa muito segura. Somos valorizados por seguidores/gostos/reações? Somos o que acham de nós? A opinião dos outros pesa assim tanto? Tenho receio da superficialidade.”

Cuidados a ter nas redes sociais

Tito de Morais, fundador de MiúdosSegurosNa.Net, aconselha a evitar:
• Partilhas públicas. Mesmo não mostrando a cara da criança, inadvertidamente podem ser revelados outros aspetos.
• Fotos que mostrem o corpo despido da criança. Há quem olhe para esse tipo de fotos como objeto de desejo sexual.
• Fotos potencialmente embaraçosas, tais como mudança da fralda, na sanita ou no banho. Na adolescência, envergonham com facilidade.
• Localizar a criança em sítios que frequenta (escola, ATL, etc.).
• Fotos com amigos, sobretudo se não tiverem autorização por escrito dos respetivos pais (ambos, pois no caso de pais divorciados pode haver opiniões discordantes).

“Os maus tratos são transversais a todas as classes sociais”

Fevereiro 27, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Entrevista de Rosário Farmhouse ao Porto Canal no dia 20 de fevereiro de 2020.

“Os maus tratos são transversais a todas as classes sociais”, afirma Rosário Farmhouse, Presidente da Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens, que comenta os atuais números de negligência de crianças e jovens em Portugal.

Rosário Farmhouse indica ainda que de acordo com os estudos recentes “as crianças que foram vítimas de maus tratos e não conhecendo outro modelo e não tendo acompanhamento especializado que retire esse trauma tem uma maior probabilidade de reproduzir esse tipo de comportamento quando forem pais e mães”.

Visualizar a entrevista no link:

http://portocanal.sapo.pt/um_video/186TyjbEG21NtMIQB3Kr?fbclid=IwAR0_ZvFvK8QO-GvnLYlFYDmy44kRTb0oyWzhxiVEjCCoIEuOwhiTWKka0IY

Refeições em família. Têm sempre de ser um pesadelo?

Fevereiro 27, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do Sapolifestyle de 15 de janeiro de 2020.

Ana Rita Lopes (Nutricionista)

Ter filhos implica fazer refeições só para eles? Será que as crianças têm sempre de odiar a hora de jantar? Ana Rita Lopes, responsável pela Unidade de Nutrição do Hospital Lusíadas Lisboa, esclarece estas e outras dúvidas.

Como é que se pode aumentar o interesse das crianças pelos alimentos?

As crianças podem ser introduzidas no mundo da alimentação desde muito pequenas e é importante que estejam familiarizadas com os diferentes alimentos, para que não rejeitem a sua ingestão.

As crianças podem participar na preparação de tarefas simples e sempre sob vigilância de um adulto, como lavar os legumes, ajudar a temperar a refeição… A criança terá muito mais gosto em consumir uma refeição que foi feita por ela. É importante deixá-las participar neste processo.

De que forma é que se podem confecionar refeições em família sem cozinhar em exclusivo para as crianças?

Os pais são um grande exemplo para o filhos. Não adianta promovermos o consumo de determinados alimentos junto das crianças se elas nunca viram os progenitores a ingerir esses alimentos. Por este motivo, torna-se importante a confeção e a partilha de refeições em família. Tal é conseguido através de refeições simples, apelativas, nutricionalmente ricas e que envolvam a participação de todos os membros da família.

As refeições em família são mais benéficas?

Fazer refeições em família estimula o planeamento de refeições saudáveis, uma vez que permite a partilha de gostos e emoções. Estudos recentes demonstraram que as refeições em família, mesmo que aconteçam só uma ou duas vezes por semana, aumentam o consumo de frutas e vegetais pelas crianças. Deste modo, é importante o envolvimento e o contributo de todos, assim como o seu reconhecimento para que de forma harmoniosa se confecione refeições saudáveis. Para além de benefícios para a saúde, são uma boa oportunidade para conversar em família e proporcionar um ambiente ideal para fortalecimento dos valores familiares.

Porque é que o pequeno-almoço é tão importante?

O pequeno-almoço é a primeira refeição do dia e quebra o jejum depois do período de sono. Durante o sono os nossos níveis energéticos baixam e são apenas utilizados para a manutenção das funções vitais, pelo que é de extrema importância nunca omitir esta refeição de modo a repor estes níveis e consequentemente melhorar o rendimento cognitivo e reduzir o apetite para o almoço, contribuindo para uma distribuição alimentar e calórica mais saudável e equilibrada ao longo do dia.

Como deve ser esse pequeno-almoço?

O pequeno-almoço não tem que ser necessariamente muito elaborado para repor os níveis energéticos. Poderá ser preparado de forma simples, porém não devem faltar determinados grupos alimentares como a fruta fresca da época, o pão escuro ou flocos de cereais pouco açucarados, o leite ou iogurte, sem esquecer a água ao iniciar o dia. São exemplos de pequenos-almoços rápidos:

– 1 iogurte + 1 pão integral (tipo bola) + creme vegetal + 1 peça fruta

– 1 taça com aveia + 1 iogurte + fruta aos pedaços + 1 colher de sementes

Quais são os principais erros das famílias portuguesas na alimentação?

Sair de casa sem tomar o pequeno-almoço; haver uma presença constante de sumos e refrigerantes durante as refeições; o recurso frequente a refeições pré-confecionadas; o baixo consumo de legumes e leguminosas nas refeições principais, por exemplo.

10 mandamentos básicos para uma alimentação saudável em família

  1. Planear refeições saudáveis em família
  2. Fazer uma alimentação variada, equilibrada e completa
  3. Fazer 5 a 6 refeições por dia
  4. Tomar o pequeno-almoço
  5. Comer devagar e mastigar bem os alimentos
  6. Não estar mais de 3 horas sem comer
  7. Ingerir água ao longo do dia
  8. Preferir os grelhados, cozidos, assados, estufados em substituição dos fritos
  9. Excluir os doces e produtos açucarados da rotina diária (só em ocasiões festivas)
  10. Privilegiar o azeite em detrimento de outras gorduras

Os conselhos são da nutricionista Ana Rita Lopes, do Hospital Lusíadas Lisboa


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