Devem as crianças ir a um funeral?

Fevereiro 21, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 12 de fevereiro de 2020.

Entre a ideia de um “ritual de despedida” e o uso de “palavras claras com muito amor” para explicar a morte, há um consenso que une as opiniões dos especialistas: “Temos de ouvir as crianças.”

Daniel Dias

O choro dos familiares e amigos. As últimas despedidas. A descida do caixão. O funeral é um momento de grande perturbação e dor para qualquer pessoa que, naquele momento, consegue assimilar e entender que perdeu um ente querido para sempre. Será que as crianças o compreendem da mesma forma? Por isso, a pergunta impõe-se: devem assistir ao funeral de alguém que amam?

Num programa de rádio, o psicólogo Eduardo Sá partilhou a história de uma mãe que o procurou porque não estava a saber lidar com “uma situação irrespirável”. O pai da filha de 4 anos havia morrido e a criança, curiosa e desassossegada, não parava de fazer questões. Queria saber qual era esse “lugar melhor” para onde diziam que o pai tinha ido – e por que razão não disse nada quando lá chegou. A mãe, desesperada, levou-a ao cemitério e explicou-lhe “tudo com realismo”. O que só agravou as inquietações da criança, que não conseguia entender “como é que uma pessoa podia ser deixada naquela caixinha”.

“A mãe e o pai espantam os papões”, clarificou no podcast o autor de livros como Livro de Reclamações das Crianças (2007) ou Queremos Melhores Pais! (2013). São figuras “omnipotentes” – pelo que as crianças não conseguem aceitar como é que “a omnipotência vai ‘por água abaixo’” no momento da morte. Para o professor universitário, não faz sentido as mesmas irem a um funeral onde serão expostas a “imagens duras e violentas com pessoas destroçadas”, imagens que podem “ficar [gravadas] para toda a vida”.

Para Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica e autora de Respostas Simples às Perguntas Difíceis dos Nossos Filhos (2019), o funeral pode ser substituído por um “ritual de despedida” em casa. “Podemos, por exemplo, fazer aquele bolo de que a avó gostava muito ou escrever uma carta ao avô”, exemplifica ao PÚBLICO. Algo que permita “trabalhar bem o processo de luto”.

Escolher as palavras certas para falar com uma criança sobre a morte de um irmão, avô ou qualquer outra figura com a qual possam ter criado “vínculos muito fortes” é um desafio que preocupa a maioria dos pais. Para a psicóloga, mãe de três filhos, é importante “explicar o processo como se fosse natural”. “As plantas ficam murchas para dar lugar a outras, a noite acaba para dar lugar ao dia”, sugere. O segredo, além de “usar imagens que os miúdos podem perceber”, é “dizer a verdade com palavras claras e muito amor”.

Suavizar a verdade

Para a terapeuta do luto Maria do Céu Martins, os pais devem falar sobre a morte e a perda à medida que os filhos “fazem perguntas”. “Dar informação de bandeja” está fora de questão, uma vez que a criança precisa de espaço para “construir as suas próprias imagens”. Conselheira na associação Apelo – Apoio à Pessoa em Luto, a especialista esclarece que os filhos “começam a perceber o conceito de finitude” entre os 5 e os 7 anos, idade em que, ao mesmo tempo, são capazes de “perguntar à mãe ou ao pai se eles vão morrer”. Como se responde a uma questão destas? Com “uma verdade que pode suavizar”, responde.

Maria do Céu Martins, com uma pós-graduação em Perda e Luto pela Universidade Católica Portuguesa, lembra que o filho mais novo, que ainda não era nascido quando o irmão morreu, ficou “muito perturbado” com a ideia da morte quando chegou aos 6 anos. “Disse-me que não queria morrer, assim como não queria que eu morresse. Respondi-lhe que não controlamos essas questões, mas também que, mesmo quando o deixo na escola, nunca nos separamos”, recorda. A terapeuta acredita que as crianças precisam de sentir que “não vão perder a segurança porque perderam uma pessoa próxima” e que “têm sempre um adulto que lhes vai providenciar a protecção de que precisam”.

Os problemas maiores surgem quando “a própria figura de conforto perde o controlo”. Nesse caso, aumenta a possibilidade de as crianças desenvolverem uma relação pouco saudável com o luto, continua Maria do Céu Martins. “Se o pai morre e a mãe não consegue manter o equilíbrio, ou vice-versa, a criança tende a fazer o papel de adulto, cuidando de si e, eventualmente, dos irmãos mais novos”, acrescenta.

José Eduardo Rebelo, fundador da Apelo e do Espaço do Luto, acrescenta que o luto pode ser traumatizante “se a perda de um ente querido implicar uma mudança de residência, rede de amigos ou até mesmo condição socioeconómica”. O professor da Universidade de Aveiro não acha, de resto, que o funeral deva ser visto como um momento proibitivo para as crianças. “Temos de as ouvir e de entender as suas vontades”, argumenta o autor de Desatar o Nó do Luto (2004) ou Defilhar: Como Viver a Perda de um Filho (2013).

Estar atento

José Eduardo Rebelo, que perdeu a mulher e as filhas num acidente rodoviário há cerca de 25 anos, sublinha que “as crianças têm um conhecimento muito categorizado e simples do mundo”, pelo que, por extensão, “fazem questões simples”. Igualmente simples, então, devem ser as respostas dos adultos. “A criança faz, muitas vezes, a mesma pergunta até assimilar a resposta, como um actor a decorar um papel”, refere ao PÚBLICO. “O pior que pode acontecer é ela vir a descobrir que uma figura de confiança mentiu. Se lhe disserem que o pai fez uma viagem até ao céu, ela vai querer ir até lá para poder estar com ele.” No entanto, “se não lhes faltar afecto”, o fundador da Apelo acredita que os mais novos conseguem fazer “uma transição saudável” e “um luto sadio”.

Mário Cordeiro observa que a tarefa dos pais e educadores é “estarem atentos, embora sem exageros”, à forma como, com o passar do tempo, a criança encara o processo de luto. O pediatra salienta que “deve falar-se, naturalmente, com saudades” à criança sobre a pessoa que morreu, embora, salvaguarde, esta não possa ser “endeusada”.

“Um dos grandes medos da criança é o do abandono. Se sente que depois da morte dos avós ou de outra pessoa irão os pais, em efeito dominó, e depois porventura ela própria, fica muito desolada. Assim, não se podendo jurar que não vamos morrer, poderemos dizer que vamos aproveitar a vida da melhor forma”, conclui Mário Cordeiro. “Falar da vida mais do que da morte é essencial.”

Texto editado por Bárbara Wong

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