Ler notícias? Só se aparecerem no feed. Para os jovens, são “desinteressantes e repetitivas”

Fevereiro 18, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 20 de novembro de 2019.

Mariana Durães

Lêem o que aparece nas redes sociais, não gostam dos temas nem da linguagem: assim é a relação dos jovens com as notícias. E ainda que confiram credibilidade aos jornalistas, nem sempre sabem distinguir a verdade da mentira. O projecto PSuperior quer contrariar isso, com a oferta de assinaturas digitais a estudantes universitários.

Ana Sofia Mendes e os amigos fizeram uma experiência: ver quantos deles tinham a aplicação de um órgão de comunicação social instalada no telemóvel. Resultado? “Quase ninguém tinha.” O cenário não surpreendeu a jovem de 21 anos, estudante da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, que diz ter uma perspectiva “crua” no que toca ao consumo de notícias por jovens: “Não lêem, não vêem jornais e nem sequer vêem televisão. Ficam só pelas letras garrafais que lhes vão aparecendo.”

Precisamente por saber que, por vezes, são só “as letras gordas” que contam, o PÚBLICO associou-se a nove empresas para oferecer assinaturas digitais a alunos finalistas ou de mestrado integrado de determinados cursos de universidades públicas e privadas de todo o país, ao abrigo do projecto PSuperior, que é lançado esta quarta-feira, 20 de Novembro. A ideia é alertar os jovens para a desinformação e para as fake news, num momento em que o que “lhes vai aparecendo” são as notícias que caem no feed das redes sociais que utilizam — e que nem sempre são de fonte fidedigna. E incentivar hábitos de leitura de jornais junto dos jovens universitários.

Para Inês Amaral, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a principal alteração no que toca ao consumo de notícias feito por jovens é na questão do acesso: “Até diria que os jovens consomem mais informação do que consumiam antes, mas o acesso passou a ser feito através do digital, das redes sociais. Agora não vem da procura por informação, mas de um acesso espontâneo”, explica a investigadora, que se tem dedicado a estudar a literacia mediática em Portugal, em entrevista telefónica ao P3.

Sara Pereira, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, corrobora: “Há uma tendência grande para, hoje em dia, o contacto que os jovens têm com as notícias ser feito através das redes sociais. É aí que encontram a informação.” E se, por um lado, as redes sociais podem fazer notícias saltar à vista de quem não as procura, por outro são também terreno fértil para a disseminação de fake news. Ou para a criação de “bolhas” intelectuais: o algoritmo calcula os interesses de cada um de nós, oferecendo constantemente informações coincidentes com os nossos tópicos de eleição, excluindo todos os conteúdos que sabe que, à partida, não nos vão agradar. O que é, para Inês Amaral, “redutor”.

Depois do primeiro contacto com as notícias, feito através das redes sociais, “há aqueles que querem ler na íntegra e os que se ficam apenas pelo título”: as tais “letras garrafais que vão aparecendo” que Ana Sofia acredita ser o único contacto que os jovens têm com as notícias. A estudante de Direito, também presidente da Associação de Estudantes do mesmo curso, diz que “já nem fala” em comprar um jornal: “As pessoas nem têm interesse em ver notícias online.”

As notícias são “repetitivas e desinteressantes”

Mas, afinal, porque é que os jovens não lêem notícias? “Estão altamente desinteressados pelas hard news e pelas questões da actualidade”, atira Inês Amaral. Salvo excepções, como o tema das alterações climáticas, os assuntos que são tratados pelos media tradicionais “são considerados repetitivos e desinteressantes” para o público mais jovem.

Ana Sofia acredita que também contam questões como o hábito e o incentivo à leitura e a procura de informação: “Eu sempre fui instruída a ler notícias. E se formos habituados a isso desde os 14 ou 15 anos, aos 19 e 20 vamos continuar a fazê-lo.” Uma realidade que também é defendida por Sara Pereira, que relembra que a leitura de notícias depende dos “hábitos de consumo” de cada um.

Ao desinteresse acresce a incapacidade de compreender certos tópicos: “Há assuntos que até interessam aos jovens e que lhes podem ser mais próximos — como as questões de economia ou política —, mas que eles dizem não entender. É preciso uma adaptação da linguagem.” Mais ainda, o “consumo imediato”, típico do que é feito nas redes sociais, leva a que os jovens descartem rapidamente as notícias: “Ou está no título e no lead, ou não está.”

A solução para reverter o panorama pode passar “pela ideia de dar voz a assuntos cívicos, que parecem ser os que despertam mais atenção”, defende Inês. A professora refere que “tópicos sensacionalistas, como crime, violência, catástrofes e conflitos, são normalmente referidos como de interesse”. Mas salvaguarda a ideia de que “a informação não pode existir numa lógica de on demand” e que “o jornalismo precisa de cobrir aquilo que é a actualidade.”

Sara Pereira vai mais além: “Acredito que tem de haver mais visibilidade e representação dos jovens, mas se não é na fase de jovens adultos que se interessam pela actualidade, quando é que estamos a formar adultos?” A investigadora acredita também que não é necessário “transformar uma linguagem que já aceitável desde o ensino secundário.”

Mas o que diz uma jovem sobre o assunto? “Pode, de facto, haver um desinteresse pelas temáticas abordadas pelos media, mas o que acho que acontece é que a própria sociedade não dá a devida importância à comunicação social”, atira Ana Sofia.

O que está na Internet é “certamente verdade”

“A questão da literacia mediática é uma urgência há muito tempo, mas, com os consumos em grande velocidade, assumiu uma relevância maior”, refere Inês. “Sobretudo quando temos sites como os Bombeiros 24 a venderem coisas em que as pessoas acreditam e não questionam”, diz a investigadora de Coimbra, referindo-se a uma das páginas portuguesas mais vezes associadas a fake news.

Mas se seria de esperar que, como nativos digitais, os jovens estivessem mais sensíveis às notícias falsas, a verdade é que “são altamente vulneráveis nesse campo”. Até porque o facto de terem “nascido com o digital” faz com que haja uma enorme “credibilidade pelos pares, mesmo que não os conheçam pessoalmente”: “Se alguém partilha algum conteúdo através de uma conta no Twitter que eles já seguem há muito tempo e a quem atribuem credibilidade, não questionam”, explica Inês.

Ana Sofia resume numa frase: “Nós sempre procuramos tudo na Internet.” Por isso, tudo o que lá está é “certamente verdade”. Ainda assim, defende Sara Pereira, “os jovens têm noção de que quando querem informação credível e fidedigna, vão procurar a sítios feitos por profissionais”. “Há um reconhecimento grande do trabalho do jornalismo e de jornalistas.”

O que não quer dizer que seja suficiente para pagar uma assinatura de um jornal: “Ler uma notícia não desperta os mesmos sentimentos que ver uma série”, explica Ana Sofia. Por isso, diz, na hora de escolher, quem ganha a maior parte das vezes é a Netflix.

Um terço dos pais interpreta mal o peso dos filhos

Fevereiro 18, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 17 de fevereiro de 2020.

Estudo da Universidade de Coimbra avalia se a perceção que os pais têm sobre o peso dos filhos é influenciada por características socioeconómicas.

Cerca de um terço dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos, de acordo com um estudo desenvolvido na Universidade de Coimbra (UC) e já publicado no American Journal of Human Biology.

De acordo com a investigação, conduzida por Daniela Rodrigues, Aristides Machado-Rodrigues e Cristina Padez, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), “32,9% dos pais interpretam mal o peso dos seus filhos (30,6% subestimam e 2,3% sobrestimam)”, afirma a UC, numa nota enviada hoje à agência Lusa.

O estudo visou essencialmente “analisar a concordância entre o estatuto nutricional das crianças e a perceção que os pais têm do peso delas”, e “observar se a subestimação do peso estava de algum modo associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade”.

Envolvendo 793 pais e respetivos filhos (com idades compreendidas entre seis e os dez anos), a pesquisa pretendeu ainda “avaliar se a perceção que os pais têm sobre o peso dos seus filhos era influenciada por características das crianças e socioeconómicas”, refere a UC.

“Verificámos que mais de 30% dos pais não identificou corretamente o estatuto nutricional dos filhos, sendo que a maior parte subestimou”, sublinha, citada pela UC, Daniela Rodrigues, primeira autora do artigo científico e investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da FCTUC.

“A subestimação foi substancialmente maior consoante o peso dos filhos, ou seja, vários pais com filhos com excesso de peso classificaram o peso dos filhos como normal e, principalmente, pais com crianças obesas reportaram que as crianças tinham apenas um pouco de peso acima do recomendado”, explicita Daniela Rodrigues.

É nas classes sociais mais baixas que os pais mais subestimam o peso das suas crianças, especialmente das meninas: “Ter pais com menor estatuto socioeconómico e mães com excesso de peso aumenta a probabilidade de subestimar o peso dos filhos, principalmente entre as raparigas”, nota a investigadora.

Sobre a subestimação do peso, se esta estava, de algum modo, associada ao risco da criança ter excesso de peso/obesidade, os investigadores verificaram que “pais que subestimam o peso dos filhos têm 10 a 20 vezes mais probabilidade de terem filhos com excesso de peso ou obesidade, o que tem sido associado a um conjunto de problemas de saúde física e mental, não só na infância, mas que permanecem na idade adulta”.

Ponderando as conclusões do estudo, que foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Daniela Rodrigues defende que “é urgente ajudar os pais a identificar corretamente o excesso de peso e a obesidade” dos filhos para que possam “recorrer à ajuda dos profissionais de saúde” para melhorarem a qualidade de vida da criança.

“O primeiro passo para alterar comportamentos de risco associados à obesidade (dietas ricas em gorduras saturadas e açucares, inatividade física, comportamentos sedentários, etc.) é perceber a necessidade de alterar esses mesmos comportamentos, identificando corretamente o estatuto nutricional da criança”, acrescenta.

No artigo, os investigadores apresentam ainda algumas explicações para os resultados do estudo. “Os pais podem não saber identificar o que é excesso de peso ou obesidade, principalmente porque os media tendem a apresentar a obesidade no seu extremo”.

Por outro lado, “numa altura em que a prevalência de excesso de peso e obesidade afeta cerca de um terço das crianças, os pais podem ‘normalizar’ o excesso de peso, porque é o formato que mais encontram nas crianças que os rodeiam”, afirma ainda Daniela Rodrigues.

“Acreditamos ainda que a maior parte dos pais prefere não identificar a criança como tendo peso acima do recomendado por uma questão de enviesamento social, evitando os estereótipos associados ao excesso de peso e obesidade”, conclui.

Mais informações na notícia da Universidade de Coimbra:

Estudo conclui que um em cada três pais interpreta mal o peso dos seus filhos

Dia da Internet Mais Segura : Como proteger os mais jovens de um mundo que os adultos não conhecem?

Fevereiro 18, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 11 de fevereiro de 2020.

A Internet veio para revolucionar o mundo e, desde o fim do século passado, instalou-se nas vidas de todos, crianças e jovens incluídos — como proteger os mais novos dos perigos?

Carla B. Ribeiro

Não deixamos os nossos filhos de 12 anos sair à rua à noite, mas, a maioria das vezes, ficamos despreocupados quando os mesmos se fecham no quarto com um smartphone na mão. É essa “falsa sensação de segurança” que constitui um dos maiores entraves na luta por tornar o mundo virtual um espaço seguro para os mais novos, explica ao PÚBLICO o especialista em cibersegurança Bruno Castro.

Ou seja, segundo este profissional, o estar ligado à Internet pode revelar-se ainda mais perigoso do que atravessar a rua sozinho em tenra idade — isto porque, na rua, a criança, de forma natural, tem tendência a autoproteger-se e a prestar atenção aos perigos, enquanto no conforto do lar poderá baixar a guarda e tornar-se mais receptivo aos diferentes perigos. Isto, num mundo onde “tudo é mais viral, onde não há portas, nem fronteiras”.

Segundo Bruno Castro, cuja carreira passou por integrar comunidades, nacionais e internacionais, de Segurança Informática e também pela gestão de projectos de segurança na Internet junta da NATO, “o mundo mudou” e, mais importante, “continua a mudar todos os dias”. Por isso, por mais que se conheça o mundo virtual, “o que se diz hoje, amanhã pode não se aplicar”. Esta volatilidade torna mais difícil proteger os mais novos, sobretudo quando os adultos parecem desconhecer o mundo por onde aqueles navegam. “O fosso geracional é evidente.”

“A criança hoje tem acesso às tecnologias, é mais permeável à aprendizagem e tem acesso a sites, apps, pessoas que não conhece”, relata. Neste mundo, conta, os perigos para os mais novos vão desde o ciberbullying até à facilitação de um encontro com um agressor sexual. No entanto, a protecção não é fácil e passa por conhecer bem o mundo — os sites, as redes, as apps — por onde estes se movem.

“Não existem ferramentas ideais para proteger as crianças”, considera. Mas falar muito com os mais jovens sobre a forma mais correcta de viver o mundo virtual — “é importante explicar a toda a gente que no ciberespaço não há limites de espaço, mas também não há limites de tempo” — e conhecer esse mundo pode ajudar. No entanto, considera, não vem mal ao mundo controlar o computador e verificar o histórico de forma regular.

Uma solução fácil, deixa a dica, passa por colocar o computador numa zona comum da casa ou mesmo limitar o uso da Internet a uma área familiar.


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