Porque há mais autismo entre os meninos? Investigação com novas tecnologias estuda doença

Fevereiro 10, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 5 de fevereiro de 2020.

Os méritos da investigação liderada por Miguel Castelo-Branco, da Universidade de Coimbra, levaram ao prolongamento do apoio da FLAD, com mais cem mil euros. Realidade virtual e ressonância magnética funcional fazem parte da pesquisa sobre uma doença que afeta milhares de famílias.

“Para nós significa muito, uma vez que é a possibilidade de reforçar uma área que é pouco desenvolvida em Portugal, que é a investigação clínica numa fase muito precoce do conhecimento, que é tentar encontrar novas opções para o tratamento do autismo”. As palavras são cuidadas, o tom cauteloso, discurso próprio do cientista que evita verdades definitivas, até que tudo esteja devidamente testado, verificado e consolidado. Numa sala da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento (FLAD), em Lisboa, o investigador da Universidade de Coimbra explica à TSF a procura por opções de tratamento “não apenas farmacológicas, mas também usando novas tecnologias como a realidade virtual, para tentar melhor problemas de comunicação e socialização” entre os doentes com autismo.

O projeto que terminou agora o seu terceiro ano de execução, “focou-se em estratégias em que a investigação emerge da bancada do laboratório, passa pelos modelos animais e chega ao doente“. Trata-se de um projeto interdisciplinar e transdisciplinar (da engenharia informática à psicologia, passando pela biologia e bioquímica) em que a neurociência é utilizada, tal como “a imagem médica, a neurofisiologia, para tentar perceber os mecanismos de funcionamento do cérebro, ligados à comunicação, como o reconhecimento de expressões faciais”, tentando que essa panóplia de conhecimento possa ser mais usada no quotidiano dos portadores de autismo.

A ressonância magnética funcional, “em que vemos como o cérebro funciona enquanto a pessoa executa tarefas, olhando também para a química do cérebro“, já que este é feito de substâncias, umas que contribuem para a excitação dos neurónios, outras para a sua inibição. A equipa liderada por Castelo-Branco tenta relacionar o bom ou mau funcionamento desses sistemas de excitação ou inibição com circuitos do cérebro que têm que ver com “a componente das emoções e da parte social”. Com isso, os investigadores conseguem “medidas da capacidade de comunicação, capacidade cognitiva no domínio das emoções e da interação social”, relacionando esses valores com as intervenções a efetuar junto do doente, sejam elas farmacológicas ou baseadas na realidade virtual. Em suma, “a investigação de origem académica a gerar novas oportunidades na área clínica”.

Miguel Castelo-Branco admite a importância da ajuda financeira da FLAD para “um projeto ambicioso”, sendo que o apoio da fundação permitiu catapultar e “multiplicar o financiamento que temos para este tipo de investigação em projetos europeus”. O projeto consegue assim estar integrado no maior consórcio internacional, o AIMS-2-TRIALS que envolve associações de doentes, universidades, clínicas, stakeholders da indústria, para desenvolver novos tratamentos na área do autismo”. Com essa aposta nas parcerias, “o projeto não se limitou a investigar mecanismos básicos de alteração da inibição neuronal em modelos animais e humanos em colaboração com o grupo do Prof Alcino Silva da Universidade da Califórnia, mas procurou relacionar esses achados com propostas de intervenção terapêutica, em funções cognitivas que são alteradas por esse tipo de disfunção”.

O projeto europeu de que faz parte é da ordem dos 55 milhões de euros, com Castelo-Branco a ter acesso na Universidade de Coimbra a um apoio de cerca de 800 mil euros: “a FLAD quase que nos permitiu duplicar o financiamento para esta área”.

Muita da investigação e projetos académicos, clínicos e associativos na área do autismo, surgem pela proximidade dos investigadores com a doença. Castelo-Branco não é exceção: “sem dúvida, falo um bocadinho em causa própria, tenho um filho com autismo, sou vice-presidente de uma associação”. A multiplicidade de papeis não o incomoda: “as associações e os pais procuram respostas e a nossa investigação está muito focada nas respostas”. Do diagnóstico à reabilitação vai o caminho que parte do sistema de saúde até às IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) e o investigador coimbrão admite que, nesta área, há muito a fazer: “por exemplo, os fármacos que existem ainda são muito agressivos e têm muitos efeitos secundários; e portanto, eu ao ser pai e fazer parte de uma IPSS, ajuda-me enquanto cientista na aplicação da investigação que fazemos”.

O investigador assume que este é um projeto de um grupo de investigação com vasta “experiência em atividades em parceria, essenciais neste projeto, incluindo intervenções no terreno, e até projetos de “assisted living”, em residência autónoma para portadores de autismo”. O investigador dá conta do trabalho efetuado: “Desenvolvemos técnicas de inteligência artificial que usam marcadores de electroencefalograma associados à inibição neuronal e com utilidade diagnóstica no autismo.

Conseguimos também relacionar a alteração da inibição neuronal com os mecanismos na base da epilepsia, frequente nestas condições. Dar relevância às doenças associadas a estas síndromes é muito importante para a qualidade de vida destes doentes, e levou-nos ao contacto muito próximo com várias associações de doentes, ligadas ao autismo, tuberose esclerosa e neurofibromatose tipo 1. Estes estudos podem originar a possibilidade de encontrar novas formas de melhorar a abordagem terapêutica à epilepsia e outras condições, frequentemente encontrada nestas síndromes”.

Autismo mais frequente neles do que nelas

Porque é que o autismo é tão mais frequente entre o sexo masculino? À pergunta da TSF, o investigador licenciado em 1991 pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), admite que “esse é um dos grandes enigmas” e “um dos nossos grandes objetivos de investigação”, desconhecendo-se, de momento, se se trata de uma vulnerabilidade do sexo masculino ou de alguma proteção do sexo feminino face à doença. Castelo-Branco está a estudar “quais os determinantes biológicos que originam esta diferença”. Refutando que seja uma lei universal, não deixa de lembrar que, “normalmente, quando é diagnosticado numa menina, o autismo tende a ser mais grave”.

Sendo o cérebro muito diferente entre os dois sexos e sendo o autismo uma doença do neuro-desenvolvimento, “provavelmente a resposta vai estar nessas fases iniciais de desenvolvimento, em que começa a haver uma bifurcação do cérebro masculino e feminino”. Sobre os doentes, o investigador afirma que “há pessoas altamente bem sucedidas, apesar de terem um estilo cognitivo e de socialização peculiares, altamente funcionantes e, por outro lado, temos pessoas com deficiência intelectual”.

A heterogeneidade é a regra, há capacidade de “ajudar as pessoas a adaptarem-se ao meio em que vivem, mas há sobretudo que perceber que nem tudo pode ser explicado pela genética: “isto é uma doença complexa, porque não há só os genes, há também a forma como o nosso cérebro e o nosso corpo se desenvolvem, na vida intrauterina mas também na vida pós-natal”. Castelo-Branco afirma que o dogma “um gene, uma doença”, é coisa do passado e “talvez só aconteça em um ou dois por cento dos casos e pessoas com o mesmo conjunto de genes, porque se desenvolveram de forma diferente, têm diagnósticos diferentes”. Há uma interação genes-ambiente. Devido às “dificuldades na comunicação e na socialização”, o autismo “raramente é diagnosticado antes dos três anos de idade e, infelizmente, ainda não temos ferramentas sólidas para diagnosticar o autismo” antes dessa idade.

O autismo na idade adulta

O investigador revela a importância dos trabalhos feitos com a unidade de psiquiatria dos HUC, uma vez que com os adultos “os problemas são completamente diferentes. Como é que a pessoa se integra na vida adulta? Muitas vezes estas pessoas ficam isoladas, deprimem, não têm emprego, não são bem compreendidas pela sociedade e têm apenas IPSS com poucos meios e capacidade de resposta, infelizmente”. No autismo, “cada caso é um caso e a forma de intervir tem de ser personalizada; os custos da intervenção são bastante elevados e nós estamos a tentar, através das novas tecnologias, minimizar até as horas de contacto com profissionais de saúde”. E dá um exemplo com base na realidade virtual: criámos um jogo virtual para ensinar as pessoas a seguir percursos de autocarro para pessoas que tinham medo ou sentiam não ter a autonomia para usar transportes públicos; publicámos, tivemos contacto de escolas de fora do país, como uma escola em Nova Iorque por exemplo, porque isso são ferramentas que os ajudam a serem autónomos; o grande desafio é ensiná-los a serem autónomos e a integrarem-se na sociedade”, o que pode ser feito ensinando-os a “usar os transportes públicos no mundo virtual, que depois eles sentem vontade de aplicar no mundo real”.

Quem é Miguel Castelo-Branco?

Miguel Castelo-Branco nasceu em Coimbra. Em 1991, licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). Mais tarde, optou por fazer o doutoramento, tendo integrado o Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras. A última fase dessa formação passava pelo trabalho em laboratório num dos muitos institutos acreditados no programa. Dado o seu interesse pelas neurociências, Miguel Castelo-Branco optou por um laboratório na Alemanha que estudava os mecanismos neuronais associados à visão. Ali concluiu o doutoramento e fez depois um pós-doutoramento.

Mais tarde partiu para a Holanda, onde trabalhou na área da neuroimagiologia cerebral e deu aulas como professor auxiliar na Universidade de Maastricht. O regresso a Portugal veio na sequência de um convite para lecionar na FMUC (Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra), bem como para fazer investigação na área da visão e do cérebro, no então, recém-criado Instituto Biomédico de Investigação da Luz e Imagem (IBILI), onde foi o coordenador até final de 2016. Miguel Castelo-Branco é também diretor do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), uma infraestrutura de referência na área da imagem médica.

Dá a Mão à Floresta

Fevereiro 10, 2020 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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“Dá a Mão à Floresta” é um projeto de responsabilidade social desenvolvido pela Mustard (parceiro do IAC) com a Navigator.

Dá a Mão à Floresta é um projeto de Responsabilidade Social e Ambiental da The Navigator Company. Lançado pela primeira vez no Ano Internacional da Floresta, que se celebrou em 2011, este projeto tem vindo a crescer de ano para ano, colocando cada vez mais crianças em contacto com o maravilhoso mundo da floresta.

O grande objetivo é aproximar a empresa do público infantojuvenil das regiões onde está inserida e de toda a comunidade urbana através de ações lúdico-pedagógicas. Promover a necessidade de proteger a floresta, valorizar os produtos de origem florestal, onde está inserido o papel, bem como preservar o ambiente são os principais valores que o projeto procura transmitir desde a sua criação.

Mais informações no link:

https://www.daamaoafloresta.pt/pt

Não são pesadelos, são terrores noturnos

Fevereiro 10, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Joana Martins publicado no Sapolifestyle

Os terrores noturnos afetam entre 30 a 40% das crianças, podendo iniciar-se em torno de um ano de idade. As explicações são da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.

Os distúrbios do sono afetam, no seu conjunto, até 50% das crianças. É uma percentagem elevada e tem custos diretos para a saúde dos mais pequenos: sobretudo a sonolência diurna, que como bem sabemos, vai manifestar-se como irritabilidade, problemas comportamentais, dificuldades de aprendizagem e, consequentemente, mau desempenho escolar.

No entanto, os distúrbios do sono dos mais pequenos também têm custos indiretos, sobretudo na extrema privação de sono que desencadeiam nos pais e como tal, maior irritabilidade e pior desempenho. Como sabem, a privação de sono é um motivo reconhecido como causa de acidentes rodoviários. O impacto real da saúde do sono das crianças é como tal, desconhecido. Mas não pode ser ignorado.

Os distúrbios do sono nas crianças são portanto frequentes:

– Desde o ressonar ou a apneia obstrutiva do sono – durante o sono, porque a criança está deitada e relaxada, verifica-se uma alteração da arquitetura dos tecidos da garganta que leva ao seu colapso parcial, fazendo com que a criança ronque ou total, gerando períodos de pausa respiratória, que levam a múltiplos despertares durante o sono

– Passando pelo clássico chichi na cama, que pode afetar uma parcela significadtiva das crianças até aos 5 anos sem contudo constituir um problema de saúde.

– Sem esquecer as parasónias (assim designadas em conjunto), que incluem sonambulismo, o falar durante a noite, o ranger os dentes e terrores noturnos.

– E por fim, não posso deixar de referir o grande grupo dos problemas comportamentais, como a insónia comportamental clássica, o atraso de fase do sono e a insónia motivada pela dependência de dispositivos eletrónicos.

Há, como podem verificar apenas pelos magros exemplos citados, todo um mundo de patologia de sono para desvendar: alguns problemas são mais frequentes, como os terrores noturnos, outros bastante mais raros, como o síndrome de pernas inquietas.

Por hoje, escolhi abordar um tema simples da primeira infância – os terrores noturnos. Para mais informações sobre outros distúrbios comuns do sono, pode consultar este link.

O que são os terrores noturnos?

Os terrores noturnos afetam entre 30 a 40% das crianças, podendo iniciar-se em torno de um ano de idade, embora classicamente ocorram entre os dois e cinco anos. Cada episódio tem uma série de características em comum: ocorre tipicamente na primeira metade da noite, precisamente quando as crianças se encontram em sono profundo (apesar de tudo, os terrores noturnos também poderão acontecer durante as sestas).

Trata-se de um despertar súbito: a criança acorda a gritar, os pais encontram-na sentada na cama, agitada, transpirada, com o coração a bater muito rápido, com um comportamento agitado, que parece combater que lhe toquem ou que a tentem consolar. Por vezes é difícil controlar o episódio em si, mas costuma ser benéfico que fiquem perto da criança, lhe falem com uma voz tranquila mas assertiva e se for necessário acendam as luzes! O que vai acontecer é simples: a criança, serenada, vai voltar a adormecer e na manhã seguinte – pasme-se (!) – não se lembra rigorosamente de nada. Para os pais é que é mais complicado, porque depois de uma sessão terrorífica de berros, quem é que volta a adormecer?

A príncipio, parece quase um pesadelo, mas há características diferentes: os pesadelos afetam crianças mais velhas, frequentemente acima dos 5 anos (idade escolar, ao invés da idade pré-escolar) e ocorrem na segunda metade da noite.

Os pesadelos ocorrem na fase de sono REM – Rapid Eye Movement – uma fase de sono ativo, em que a criança tem o corpo habitualmente todo relaxado, pálpebras fechadas, mas os globos oculares não páram; esta fase de sono tende a ocorrer a cada 60-90 minutos e é responsável pelos sonhos.

À medida que a noite avança, os períodos de sono REM são mais prolongados, daí que tendencialmente tenhamos mais sonhos durante a madrugada. Os pesadelos são sonhos angustiantes e as crianças despertam do pesadelo. No entanto, ao contrário dos terrores noturnos, as crianças conseguem recordar que despertaram assustadas, podendo, obviamente, não ter uma memória muito coerente da narrativa do sonho (até nós, os adultos, temos dificuldades em recordarmos-nos dos sonhos…). E na manhã seguinte, lembram-se que despertaram com um pesadelo.

E que problemas podem trazer os terrores nocturnos?

Na prática, aqueles que referi no início do texto: sonolência excessiva no período diurno, irritabilidade, problemas de comportamento… No entanto, há alguns sinais de alarme que devem ser tomados em conta: se episódios frequentes na mesma noite, se episódios de despertar associados a movimentos rítmicos da face ou dos membros, então será conveniente fazer uma avaliação mais detalhada. Precisamente na fase de sono profundo, em que as ondas elétricas cerebrais são mais lentas, podem ocorrer outros distúrbios que merecem uma avaliação cuidada.

Os terrores noturnos acabam por se extinguir naturalmente à medida que as crianças crescem, mas existe um estudo muito interessante que associa a prevalência de terrores noturnos na primeira infância com o desenvolvimento de sonambolismo em idade escolar, avaliando grupos familiares específicos.

Ambos os distúrbios ocorrem nos pequenos despertares durante o sono profundo, ou de ritmo lento, que é mais frequente no início da noite. Nas crianças mais velhas, o sonambolismo pode ser responsável por falar durante o sono (um fenómeno independente em si), o levantar-se da cama, o desempenho de atividades frequentemente estapafúrdias, mas por vezes arriscadas, como abrir portas e janelas, praticamente sem memória para o evento na manhã seguinte.

Globalmente, cerca de 30% das crianças com terrores noturnos podem vir a manifestar sonambolismo. Mas esta percentagem é maior quando um dos pais tem história pessoal de sonambolismo (47%) ou ambos os pais (60%).

Como é que se trata um problema que, no fundo, é fruto das características genéticas de uma família? Raramente os terrores noturnos carecem de medidas farmacológicas dirigidas. Como pediatra tento sobretudo tranquilizar os pais e contextualizar a situação de cada criança, face à história familiar. Por fim, não deixo nunca de recomendar as medidas comportamentais de higiene do sono, embora a sua eficácia possa ser limitada nestes casos. No entanto, para situações mais complicadas, que careçam de apoio mais especializado (múltiplos despertares na mesma noite, presença de movimentos anómalos), faz todo o sentido consultar um especialista do sono.

Um artigo da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.


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